O “Neo-Donatismo” um perigo sempre atual

Don Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

 

O Donatismo clás­si­co

O “DONATISMO CLÁSSICO” [1] é uma Here­sia (segui­da de um Cis­ma) nasci­da de DONATO O GRANDE (cer­ca de +330) do qual infe­liz­mente perder­am-se os escritos, mas dos quais nos falam S. JERÔNIMO (De viribus illus­tris, 93) e SANTO AGOSTINHO (De haer, 69; Epist.,185De cor­rept. Donatist., I, 1). Segun­do os dois Doutores da Igre­ja, Dona­to teria escrito um livro ari­an­izante inti­t­u­la­do “De Spir­i­tu Sanc­to”, em que sus­ten­ta­va que o Espíri­to San­to é infe­ri­or ao Fil­ho e Este ao Pai.

Doutri­nal­mente, o Donatismo se rela­ciona ao erro dos “Reba­ti­zantes” de TERTULIANO († 240 cer­ca), que sus­ten­ta­va ser inváli­do o Batismo con­feri­do por Bis­pos e Sac­er­dotes heréti­cos, que estando pri­va­dos da Graça san­tif­i­cante – não pode­ria trans­mi­ti-la aos fiéis.

TERTULIANO [2] (nasceu em 260) era um advo­ga­do de fama, que se tin­ha con­ver­tido ao Cris­tian­is­mo por vol­ta de 195. Todavia, em 213 se tor­na Mon­tanista e assim, preparou o Donatismo. Ele, “como acon­tece muitas vezes aos neo-con­ver­tidos, era dota­do de um caráter forte­mente rig­orista e esta tendên­cia o lev­ou a aderir ao Mon­tanis­mo. De caráter tenaz, intran­si­gente e orgul­hoso, incli­na­do sem­pre para a ver­dade abso­lu­ta e sem mati­za­ções, seja teóri­ca seja moral. […]. Grande polemista, mas no dese­jo de polemizar se fazia arras­tar pelo dese­jo de vencer e por um ardor polêmi­co em si mes­mo e isto o impul­sion­a­va para posições doutri­nais sin­gu­lares e perigosas. ” [3] De fato, se tor­na Mon­tanista, morre como tal e pre­cur­sor do Donatismo.

O MONTANISMO era uma Here­sia de índole éti­ca e ascéti­ca que surgiu por vol­ta de 170 na Frí­gia (Ásia Menor). Na ver­dade, mais que uma pura dout­ri­na dog­máti­ca, essa era uma Práti­ca moral­ista e espir­i­tual­mente rig­orista e com uma forte tendên­cia mile­nar­ista. MONTANO O GRANDE (cer­ca de † 190–200) afir­ma­va ser inspi­ra­do pelo Espíri­to San­to para abrir cam­in­ho a um ‘novo Cris­tian­is­mo’ moral­mente mais rígi­do e asceti­ca­mente mais espir­i­tu­al que o petri­no ou romano.

O Mon­tanis­mo foi chama­do, por isso, tam­bém de “Nova Pro­fe­cia” como o Joaquimis­mo (Séc. XIII) e depois foi definido como “Novís­si­ma Aliança”. Mon­tano – do pon­to de vista da Moral – era assaz rig­orista e proib­ia, sob pena de peca­do grave, aos viúvos de casarem-se nova­mente, insti­ga­va a jejuns pro­lon­ga­dos como se fos­sem de Pre­ceito e não de Con­sel­ho, obri­ga­va a duras pen­itên­cias e mor­ti­fi­cações. Da Ásia o Mon­tanis­mo chega até a Roma e, como vimos, gan­hou Ter­tu­liano, que morre Mon­tanista e então fora da Igre­ja Católi­ca Apos­tóli­ca Romana (muitas vezes “o óti­mo é inimi­go do bom” e “quem quer faz­er-se Anjo aca­ba se tor­nan­do uma besta”).

Papa ZEFERINO († 217) con­de­nou defin­i­ti­va­mente o Mon­tanis­mo, que não deu ulte­ri­ores prob­le­mas a Igre­ja [4]. O Mon­tanis­mo – dog­mati­ca­mente e asceti­ca­mente – pre­nun­cia a here­sia mile­nar­ista de JOAQUIM DE FIORE (cer­ca de † 1202), porque Mon­tano procla­ma­va ser o instru­men­to priv­i­le­gia­do do Par­a­cli­to, que teria se man­i­fes­ta­do ple­na­mente sobre ele, e de maneira mais copiosa que no dia do primeiro Pen­te­costes quan­do desceu sobre os Doze Após­to­los reunidos no Cenácu­lo jun­to a Nos­sa Sen­ho­ra. Somente a segun­da desci­da do Espíri­to San­to ou “o Novo Pen­te­costes” sobre Mon­tano teria intro­duzi­do a Igre­ja em toda a Ver­dade, que na Nova Aliança era defi­ciente e imper­fei­ta. Ela teria con­heci­do uma espé­cie de trans­for­mação para mel­hor, a respeito da Igre­ja da Nova Aliança fun­da­da sobre Pedro. Real­mente na nova Igre­ja não mais os Após­to­los e os seus suces­sores (Papa e Bis­pos), mas os “Novos Pro­fe­tas” e os “ver­dadeiros espir­i­tu­ais’ gov­ernar­i­am os fiéis, não hier­ar­quica­mente e juridica­mente, mas espir­i­tual­mente ou “pneu­mati­ca­mente” (v. TERTULIANODe pudici­tia, 21; PL 2, 1080). Um erro sim­i­lar é ver­i­ficáv­el no neo-mod­ernismo de Helder Câmara e Leo Sue­nens, os dois prela­dos que durante o Con­cílio Vat­i­cano II falavam fre­quente­mente de Caris­ma­tismo, Pen­te­costal­is­mo e Nova Pen­te­costes.

TERTULIANO lev­ou o Mon­tanis­mo da Frigia asiáti­ca a África mediter­rânea e se opôs as decisões de Roma, con­vic­to de pos­suir só ele a plen­i­tude do Pará­cli­to e então, de ser supe­ri­or a Hier­ar­quia insti­tuí­da por Cristo, mas pri­va­da da abundân­cia do Espíri­to San­to. Assim, em torno de 207–213 rompe for­mal­mente com a Igre­ja romana, des­ig­nan­do-a como “Igre­ja dos psiquês” (ou dos Bis­pos e fiéis provi­dos da sim­ples ‘alma racional’ ou ‘psiquê’); enquan­to a sua era “Igre­ja dos pneumáti­cos (ou das almas reple­tas total­mente do ‘Espíri­to San­to’ ou ‘Pneu­ma’). A Igre­ja mon­tanista teria mar­ca­do a ter­ceira e últi­ma fase (uma espé­cie de “Novís­si­ma Aliança”) da econo­mia da sal­vação, depois da Anti­ga e da Nova Aliança (cfr. De vir­ginibus velandis, I; PL 2, 938).

O seu moral­is­mo rígi­do e exager­a­do lev­ou Ter­tu­liano a bular como irre­me­di­avel­mente caí­dos os ‘traidores’ (Ndt.: Em ital­iano “tra­di­tori”), ou seja, os ‘entre­gadores’ (do latim “tràdere” = entre­gar) dos Livros Sacros aos perseguidores Romanos para evi­tar o Martírio. O Mon­tanis­mo pre­nun­cia não só o Joaquimis­mo (séc. XIII), mas o Protes­tantismo e até mes­mo o Caris­ma­tismo hodierno[5], enquan­to a sua dout­ri­na pul­u­la de sub­je­tivis­mo, indi­vid­u­al­is­mo recusa a Hier­ar­quia, pro­fetismo exas­per­a­do, exper­iên­cia sen­ti­men­tal­ista reli­giosa e pos­sessão exclu­si­va (da parte de poucos exal­ta­dos ou “eleitos”) dos Caris­mas do Paráclito[6].

MONTANO, que tin­ha se con­ver­tido ao Catoli­cis­mo, começou a ter estran­hos fenô­menos “mís­ti­cos” extra­ordinários, que na real­i­dade eram preter­nat­u­rais (êxtases, inspi­rações, rev­e­lações…). Duas fal­sas mís­ti­cas, Max­im­i­la e Priscila, o seguiram e começaram a ter man­i­fes­tações sim­i­lares. Bem rápi­do Mon­ta­do foi feito um Pro­fe­ta e se for­mou um movi­men­to de sequela do San­tar­rão e das duas fal­sas mís­ti­cas.

O Bis­po SÃO CIPRIANO DE CARTAGO († 258) foi opos­i­tor estrên­uo do DONATISMO e apelou ao Supre­mo Mag­istério do Papa ESTÉFANO I († 257), que apoian­do-se na Tradição apos­tóli­ca, responde com o céle­bre rescrito: “nihil innove­tur, nisi quod tra­di­tum est; nen­hu­ma ino­vação, só a Tradição”. São Cipri­ano, ter­mi­na­da a perseguição de Décio (250), teve que enfrentar a espin­hosa questão dos “lap­sos” ou “caí­dos” no peca­do de apos­ta­sia para evi­tar serem mar­t­i­riza­dos. Ele con­de­nou firme­mente a Apos­ta­sia, mas ao mes­mo tem­po ensi­nou que diante do após­ta­ta arrepen­di­do, se devia usar mis­er­icór­dia e per­doar o peca­do emb­o­ra infligin­do a dev­i­da pen­itên­cia; enquan­to os Mon­tanistas e os Donatis­tas que­ri­am excluir o após­ta­ta, mes­mo se arrepen­di­do e pen­i­tente, para sem­pre da Igre­ja medi­ante uma exco­munhão irre­mis­sív­el.

 

Todavia, tam­bém São Cipri­ano, em 255, ensi­nou pro tem­pore a dout­ri­na errônea, segun­do a qual os Sacra­men­tos admin­istra­dos pelos “lap­sos” eram para serem con­sid­er­a­dos inváli­dos, como então, se jul­ga­va naque­le tem­po na Igre­ja da África mediter­rânea. A questão é lev­a­da ao Supre­mo Mag­istério de Roma, de onde Papa Esté­fano I (em 256) repete a dout­ri­na fun­da­da sobre a Tradição apos­tóli­ca sobre a val­i­dade dos Sacra­men­tos, que trazem a sua eficá­cia obje­ti­va (“ex opere oper­a­to”) da Insti­tu­ição div­ina e não das dis­posições sub­je­ti­vas (“ex opere oper­an­tis”) dos Min­istros. Infe­liz­mente, Cipri­ano em um primeiro momen­to recu­sou o ensi­na­men­to da Pri­ma Sé fun­da­da sobre a Tradição apos­tóli­ca. Por­tan­to, o Papa Esté­fano I ameaçou exco­munga-lo e o Bis­po Dioní­sio de Alexan­dria con­seguiu com­por o dis­sí­dio. Em 258 Cipri­ano, que já havia aceita­do o Mag­istério papal sobre a val­i­dade dos Sacra­men­tos ex opere oper­a­to, é cap­tura­do durante a nova perseguição des­en­cadea­da sob o Imper­ador Vale­ri­ano e é con­de­na­do à morte por decap­i­tação. O seu cor­po foi enter­ra­do pelos Cristãos em Carta­go. Ele, ape­sar da deban­da­da de 256, depois se man­teve fiel a dout­ri­na sobre a Tradição e a S. Escrit­u­ra como fontes de Rev­e­lação div­ina, que vão, porém, inter­pre­tadas não sub­je­ti­va­mente, como quere­ri­am os Protes­tantes (quan­to a S. Escrit­u­ra), os cis­máti­cos “Orto­dox­os” e alguns “tradi­cional­is­tas” hodier­nos (quan­to a Tradição), mas pelo Mag­istério ecle­siás­ti­co (De lap­sis, cap. 2; capp. 15–16; cap. 29; Epist. LXIII, 10, 2; Ib., 71, 1, 3; De Catholi­cae Eccle­si­ae uni­tate, cap. 5). . Cipri­ano na Epís­to­la LXIII De tra­di­tione cali­cis inci­ta a “não se desviar daqui­lo que Cristo rev­el­ou e fez” (Ibi­dem LXIII, 2, 1), a “não se dis­tan­ciar do Mag­istério divi­no con­tin­u­a­do na Igre­ja” (Ib., 10, 2) e a “cus­to­di­ar a ver­dade da Tradição” (Ib., 19, 1). Nele são claras as noções de S. Escrit­u­ra e Tradição, como fontes da Rev­e­lação e das Decisões da Igre­ja ou Mag­istério (mes­mo se esta últi­ma palavra não aparece ain­da, mas sim o con­ceito) como órgão ou instru­men­to inter­pre­ta­ti­vo do ver­dadeiro sig­nifi­ca­do das duas fontes do Dado Rev­e­la­do. Tal dout­ri­na foi aper­feiçoa­da por S. Agostin­ho (C. ep. fun­da­men­ti 5) que assev­era:

Eu não cre­ria no Evan­gel­ho, se não me apre­sen­tasse a Autori­dade ou o Ensi­na­men­to [Mag­istério] da Igre­ja católica”[7].

Os DONATISTAS con­tin­uaram, porém, a seguir a errônea dout­ri­na do seu fun­dador Dona­to e ao con­trário a levaram as extremas con­se­quên­cias, como muitas vezes acon­tece nos movi­men­tos heréti­cos e cis­máti­cos, em que o heréti­co quer super­ar o here­siar­ca e o dis­cípu­lo supera o mestre: “parvus error in prin­ci­pio fit mag­nus in fine”.

Os Donatis­tas agravaram o erro de Dona­to asseveran­do que, “se os hereges bati­zam inval­i­da­mente, porque estão pri­va­dos da Graça habit­u­al, tam­bém os Min­istros sacros, que estão em peca­do mor­tal enquan­to preparam todos os out­ros Sacra­men­tos, o fazem inval­i­da­mente”. Em tal modo a eficá­cia dos Sacra­men­tos, que são sinais visíveis, que con­fer­em a Graça que sig­nifi­cam (por exem­p­lo, o Batismo sendo um lavacro de água, sim­boliza a limpeza do peca­do e con­fere real­mente a Graça san­tif­i­cante, que can­cela real­mente a cul­pa), se tor­na­va difi­cil­mente dis­cernív­el. De fato, as dis­posições inter­nas ou sub­je­ti­vas do Min­istro não se veem, enquan­to se con­sta­ta obje­ti­va­mente se ele faz o Rito sacra­men­tal como a Igre­ja o esta­b­ele­ceu, obser­van­do as “rubri­c­as ou dis­posições litúr­gi­cas”. Então, os fiéis a par­tir do modo obje­ti­vo de pôr o Sacra­men­to como Rito sacro, con­cluem a sua val­i­dade (matéria, for­ma e intenção de faz­er um Rito sacro). Ao invés, o esta­do sub­je­ti­vo de Graça ou peca­do mor­tal em que se encon­tra o Min­istro escapa aos fiéis, é notáv­el só a Deus, e não pode inval­i­dar os Sacra­men­tos, que foram insti­tuí­dos por Jesus como sinais obje­tivos e visíveis, pro­pri­a­mente para con­ferir, com certeza visív­el a todos, a vida da Graça a humanidade a fim de que os fiéis pos­sam ver-lhes (matéria), sen­tir-lhes (for­ma) e con­statar a sua obje­ti­va val­i­dade (o modo obje­ti­vo em que vem prepara­dos e admin­istra­dos pelo Min­istro), se con­forme ao Rito sacro. Ao con­trário, se o Rito sacro é obje­ti­va­mente dis­forme das dis­posições ou rubri­c­as litúr­gi­cas da Igre­ja, então, se pode duvi­dar da sua val­i­dade e pedir a reit­er­ação sub con­di­tione do Sacra­men­to pela Autori­dade ecle­siás­ti­ca, que esta­b­elece se a vari­ação que sofreu o Rito sacra­men­tal foi sub­stan­cial (e então, é invali­do) ou ape­nas aci­den­tal (e então, é ilíc­i­to por parte do Min­istro, mas váli­do) [8].

A ocasião históri­ca do desen­volvi­men­to do Mon­tanis­mo se apre­sen­tou no começo do sécu­lo IV, quan­do o Édi­to do Imper­ador DIOCLECIANO († 305) impôs aos Cristãos entre­gar os Livros sagra­dos para serem queima­dos. Aque­les que apoiaram o Édi­to impe­r­i­al eram chama­dos pelos Donatis­tas “tra­di­tores seu lap­si” (hoje se diria “ral­liées”) e eram con­sid­er­a­dos pecadores públi­cos. Até aqui nada de estran­ho. Porém, os Donatis­tas con­cluíam que, se um Bis­po ou um Sac­er­dote era um “lap­sus” ou “caí­do em peca­do” ten­do entregue (“tràdere”) os Livros sacros para evi­tar o Martírio, os Sacra­men­tos por ele con­feri­dos eram para se con­sid­er­ar inváli­dos e aqui surge o prob­le­ma, que não era total­mente novo.

O casus bel­li, que ateou fogo a pólvo­ra, ocor­reu quan­do o Bis­po FÉLIX DE APTONGA foi acu­sa­do de ter caí­do no peca­do de ced­i­men­to ao Édi­to de Dio­cle­ciano, e então, a con­sagração de CECILIANO, neo Bis­po de Carta­go, vem con­sid­er­a­da invál­i­da pelos Donatis­tas. CECILIANO apelou a Roma e a sua con­sagração epis­co­pal foi recon­heci­da vál­i­da. Todavia, os Donatis­tas (san­tos e reple­tos do Espíri­to Pará­cli­to) se opuser­am a decisão (pura­mente “psíquica” e não “pneumáti­ca”) de Roma e elegeram Bis­po de Carta­go primeiro MAJORINO, que morre em 315, e depois DONATO O GRANDE, como seu suces­sor sobre a Dio­cese de Carta­go.

DONATO, a par­tir da Here­sia[9] “Reba­ti­zante” chega ao Cis­ma [10] donatista, porque con­sti­tui o erro doutri­nal prim­i­ti­vo em uma forte orga­ni­za­ção ecle­sial prat­i­ca e hierárquica, fun­dan­do, assim, uma sei­ta ou uma Igre­jo­la sep­a­ra­da de Roma.

Além dis­so, o DONATISMO sus­ten­ta­va que todo poder públi­co é mal­va­do e não pode jamais colab­o­rar, nem sequer em sub­or­di­nação, com a Igre­ja que é fei­ta só de San­tos. Ess­es ante­ci­pavam, assim, o erro do catoli­cis­mo-lib­er­al, tão com­bat­i­do – entre os sécu­los XIX e XX – pelos Papas Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII, Pio XI e Pio XII. O próprio S. Agostin­ho já havia refu­ta­do bem 1400 anos antes escreven­do: “Os Reis cristãos têm o dev­er de servir Deus. Então, se proíbem o mal na Sociedade civ­il, o devem reprim­ir tam­bém para defend­er a ver­dadeira Religião” (Con­tra Cresco­ni­um, II, I, cap. 9; Ibi­demIII, LI, cap. 56).

O DONATISMO teve notáv­el suces­so na África, porque era fun­da­do sobre princí­pios aparente­mente ver­dadeiros e facil­mente com­preen­síveis pelo povo dos fiéis, que não con­heci­am a teolo­gia em pro­fun­di­dade. Estes princí­pios podem ser assim resum­i­dos:

1º) a Igre­ja é a Sociedade ape­nas dos San­tos, pelo que os pecadores estão fora do Cor­po da Igre­ja;

2º) os Sacra­men­tos prepara­dos e admin­istra­dos pelos Min­istros em esta­do de peca­do mor­tal, mes­mo se não habit­ual­mente, são inváli­dos.

Isso se difunde de tal modo na África Mediter­rânea a colo­car em grave peri­go a sub­sistên­cia do Catoli­cis­mo romano ou petri­no na zona seten­tri­on­al do Con­ti­nente africano. Ape­sar da bril­hante defe­sa da Fé católi­ca fei­ta por SANTO OPTATO DE MILETO[11] († 390), a Here­sia e o Cis­ma donatista con­tin­uaram a se propa­gar na África romana.

Todavia, no começo do sécu­lo V o gênio, a per­spicá­cia, a valên­cia pas­toral e a san­ti­dade do Bis­po e Doutor da Igre­ja SANTO AURÉLIO AGOSTINHO DE HIPONA († 430), con­segui debe­lar defin­i­ti­va­mente o Cis­ma ago­ra sec­u­lar, se si pen­sa que Ter­tu­liano mor­reu cer­ca de 200 e Dona­to 100 anos antes.  O Hiponate ensi­nou: “O Batismo não vale pelos méri­tos de quem o admin­is­tra, mas pela própria intrínse­ca eficá­cia e san­ti­dade, que lhe foi comu­ni­ca­da por Deus que o insti­tu­iu” (Con­tra Cresco­ni­um, I, IV, cap. 19).

San­to Agostin­ho colo­ca em clara luz dois princí­pios católi­cos, diame­tral­mente opos­tos àque­les donatis­tas: 1º) a Igre­ja mil­i­tante sobre esta ter­ra (dis­tin­ta da Igre­ja tri­un­fante do Céu, da qual fazem parte ape­nas os San­tos) é uma Sociedade div­ina quan­to ao Princí­pio (Cristo fun­dador), ao Fim (o Céu e a Visão beat­i­fi­ca de Deus) e os Meios (os Sacra­men­tos que são os canais da Graça san­tif­i­cante), mas Essa é tam­bém humana quan­do aos mem­bros que lhe com­põem, ou seja, os bati­za­dos (fiéis e Hier­ar­quia), os quais podem ser San­tos ou pecadores: 2º) os Sacra­men­tos admin­istra­dos pelos pecadores ou pelos heréti­cos são váli­dos porque tiram a sua eficá­cia de Cristo (“ex opere oper­a­to”)[12] que lhes insti­tu­iu e não dos Min­istros (“ex opere oper­an­tis”), que ape­nas lhes trans­mitem, onde os Sacra­men­tos são “san­tos por si próprios e não pela vir­tude dos home­ns”.

Os San­tos são mem­bros vivos da Igre­ja, ou seja, viv­i­fi­ca­dos pela Graça sobre­nat­ur­al; os pecadores são mem­bros mor­tos, isto é, sem a vida sobre­nat­ur­al ou a Graça habit­u­al. Todavia, ape­nas quem se sep­a­ra da Igre­ja por Here­sia ou Cis­ma não faz mais parte do Cor­po da Igre­ja, enquan­to os pecadores – se bati­za­dos – fazem parte do Cor­po, mas não de Sua Alma.

A Igre­ja, como escrevia mais tarde SÃO ROBERTO BELARMINO († 1621), é a Sociedade fun­da­da por Cristo sobre Pedro e é for­ma­da pelos bati­za­dos, que tem a mes­ma Fé, são sub­mis­sos aos legí­ti­mos Pas­tores (os Bis­pos como suces­sores dos Após­to­los) e espe­cial­mente ao Pon­tí­fice Romano (suces­sor de São Pedro e Vigário sobre esta ter­ra de Cristo assun­to ao Céu)

Como se vê, ape­nas o Cis­ma (sep­a­rar-se da Hier­ar­quia e de Pedro) e a Here­sia (erro con­tra a Fé), não o peca­do, sep­a­ram do Cor­po da Igre­ja, mas isto não sig­nifi­ca que os Sacra­men­tos prepara­dos e con­feri­dos pelos Heréti­cos ou pelos Cis­máti­cos sejam inváli­dos. De fato, o Batismo con­feri­do por um pagão, um maometano ou um hebreu, que querem faz­er um Rito Sacro, emb­o­ra não acred­i­tan­do, é val­i­da­mente admin­istra­do. Maior razão o Sacra­men­to con­feri­do por um Protes­tante. Cer­ta­mente aque­le que se encon­tra em esta­do de peca­do mor­tal se admin­is­tra um Sacra­men­to comete um out­ro peca­do mor­tal que se chama Sac­rilé­gio, ou seja, tra­ta com irreverên­cia uma coisa Sacra, mas o seu esta­do pecaminoso não inval­i­da o Sacra­men­to.

O Con­cílio de Tren­to (1545–1563), base­an­do-se sobre a Tradição (SANTO ÉFREM † 373,Adver­sus scru­ta­tores, ser­mão 40; SÃO CIRILO DE JERUSALÉM † 387, Cathech. Mys­tag., II, 4; SANTO AGOSTINHO † 430, Con­tra Cresco­ni­um, I, IV, cap. 19[13]) e sobre S. Escrit­u­ra (Rom., VI, 3–11; 1 Cor., X, 17; Tit., III, 5; II Tim., I, 6; Atti, VIII, 17), definiu infalivel­mente, con­tra a Here­sia protes­tante, a eficá­cia causal dos Sacra­men­tos ex opere oper­a­to (DB, 844–856), ou seja, os Sacra­men­tos são instru­men­tos nas mãos de Deus, que pro­duzem o seu efeito, que é a Graça, ime­di­ata­mente ou pela sim­ples posição do Rito, inde­pen­den­te­mente dos méri­tos ou deméri­tos do Min­istro. As duas fontes da Rev­e­lação (Tradição apos­tóli­ca e S. Escrit­uras) inter­pre­tadas pelo supre­mo e infalív­el Mag­istério (Conc. Trid.) ensi­nam inequiv­o­ca­mente que os Sacra­men­tos são dota­dos de uma eficá­cia ver­dadeira e real (não sim­bóli­ca ou sim­ples­mente rep­re­sen­ta­ti­va) e ime­di­a­ta (sem a medi­ação dos méri­tos sub­je­tivos do Min­istro). Para dar um exem­p­lo, os gen­i­tores que con­cebem o fil­ho, o pro­duzem real­mente (o neona­to é um ente real­mente e obje­ti­va­mente exis­tente e não um sím­bo­lo, uma aparên­cia, uma rep­re­sen­tação ou um sig­nifi­ca­do) e ime­di­ata­mente (inde­pen­den­te­mente do seu esta­do e dos seus méri­tos), isto é, sem a medi­ação do esta­do de Graça (o pecador tam­bém gera um fil­ho). Do mes­mo modo, a efi­ciên­cia obje­ti­va dos Sacra­men­tos (pro­dução da Graça) não depende dos méri­tos do Min­istro, mas ape­nas da sua Insti­tu­ição div­ina e do colo­car em ato o Rito sacro por parte do Min­istro como Deus man­da.

Mais especi­fi­ca­mente o Tri­denti­no (cânon 8, sessão VII) definiu a Fé div­ina e católi­ca: “se alguém diss­er que os Sacra­men­tos da Nova Aliança não con­fer­em Graça ex opere oper­a­to, seja exco­munga­do” (DB, 851).

A prat­i­ca con­stante da Igre­ja sem­pre recon­heceu como váli­dos os Sacra­men­tos admin­istra­dos pelos pecadores e pelos Heréti­cos. Todavia, a fim que o Sacra­men­to seja rece­bido com fru­to sobre­nat­ur­al, é pre­ciso que o Sujeito se aprox­ime dele na Graça de Deus (se é um Sacra­men­to dos vivos), de out­ro modo o recebe real­mente e val­i­da­mente, mas sac­ri­lega­mente ou pecaminosa­mente, como o Min­istro que o con­fere em esta­do de peca­do grave (Conc. Trid., BD 799, 849, 951)[14].

SÃO PIO X con­de­nou os erros do Mod­ernismo sobre os Sacra­men­tos que retomavam as teo­rias protes­tantes (Enci­cli­ca, Pas­cen­di Domini­ci greg­is, 1907, DB 2089)[15], as quais reit­er­avam o Mon­tanis­mo e o Donatismo (“nihil sub sole novi!”).

O neo-donatismo

Uma espé­cie de “Neo-Mon­tanis­mo/­Do­natismo” está nascen­do nos nos­sos dias, a respeito de uma questão dis­puta­da entre “Neo & Vet­ero Tradi­cional­is­tas” quan­to ao prob­le­ma da assistên­cia a Mis­sa Tradi­cional.

De fato, exis­tem aque­les que, como em Cor­in­to, nos tem­pos de São Paulo (I Cor. 1, 12), alguns cristãos diziam: “eu sou de Cefas, eu de Apo­lo e eu de Paulo”, assim ago­ra dizem: “eu vou a Mis­sa de Padre Cajo, eu de Padre Tizo e eu de Padre Petrônio”, ou: “eu vou a Mis­sa em tal Insti­tu­to, eu naque­la de tal out­ro e eu ain­da em out­ro”.

Mas São Paulo já cor­rigiu um erro sim­i­lar a este (em torno de 55) escreven­do: “por­tan­to os exor­to a pen­sarem todos do mes­mo modo, para que não exista em meio a vós cisões” (1, 10). Ao invés dis­so, o Após­to­lo diante dos par­tidos cri­a­dos em Cor­in­to (I Cor, 12) afir­mou indig­na­do: “eu, de Cristo. Então estaria Cristo divi­di­do? É Paulo quem foi cru­ci­fi­ca­do por vós? É em nome de Paulo que fos­tes bati­za­dos?  (I, 12–13).

SANTO TOMÁS DE AQUINO no Comen­tário a Primeira Car­ta aos Corín­tios  (cap. 1, liç. II, n. 24, 25, 28, 29 e 34) escreve: «(n. 24) O moti­vo da con­ten­da diz respeito ao fato de alguns fiéis se denom­inarem não de Cristo que insti­tu­iu o Batismo, mas do Min­istro do qual o rece­ber­am (Paulo, Apo­lo e Cefas) […]. (n.25) Ess­es dizem assim porque creem que do mel­hor Min­istro seja con­feri­do o mel­hor Batismo, como se os méri­tos do Min­istro operem efi­caz­mente sobre os bati­za­dos. […] (n.28) Quan­do São Paulo diz: “e eu sou de Cristo” ape­nas ele diz bem, porque ape­nas a vir­tude de Cristo opera no Batismo de Cristo (Jo 1, 33). Eis porque ape­nas os bati­za­dos no Sacra­men­to de Cristo são chama­dos Cristãos, ao invés, aque­les que são bati­za­dos por Paulo não são chama­dos “Pauli­nos”. […]. (n. 29) Não é o Min­istro que dá eficá­cia ao Batismo, mas se é bati­za­do em Cristo. Vós dividíeis Cristo porque acred­i­tais que seja mel­hor o Batismo que vem con­feri­do pelo mel­hor Min­istro. Ao invés, é Cristo que con­fere a eficá­cia ao Batismo e é o Min­istro prin­ci­pal do Sacra­men­to, enquan­to o Sac­er­dote é o Min­istro secundário. Assim fazen­do dividíeis a potên­cia ou eficá­cia de Cristo do efeito do Batismo segun­do a difer­ença dos Min­istros. Enquan­to a eficá­cia do Batismo não depende dos méri­tos do Min­istro secundário, mas ape­nas da eficá­cia obje­ti­va lhe con­feri­da pela div­ina insti­tu­ição. […] (n. 34) Por­tan­to, quem atribuí a Graça ao Min­istro secundário divide Cristo em tan­tas pes­soas quan­to são os Min­istros secundários».

O prob­le­ma, lev­an­ta­do atual­mente, da assistên­cia a Mis­sa tradi­cional cel­e­bra­da por tal ou tal out­ro Min­istro, deste ou daque­le Insti­tu­to é anál­o­go (“sim­i­lar e dis­sim­i­lar”), não idên­ti­co a questão montanista/donatista dos Sacra­men­tos con­feri­dos por Min­istros bons ou maus moral­mente (aqui existe uma dissemel­hança entre os dois prob­le­mas).

Enquan­to na questão dis­puta­da atual­mente entre “Neo & Vet­ero Tradi­cional­is­tas” se tra­ta de Min­istros cer­tos ou incer­tos doutri­nal­mente (e aqui existe uma semel­hança entre os dois prob­le­mas, sobre­tu­do quan­to ao jul­gar – como ten­do Autori­dade – quem tem a plen­i­tude da dout­ri­na católi­ca e quan­to a obri­gar qual Rito deve ser segui­do) [16].

De fato, não é o Min­istro ou o Insti­tu­to ao qual per­tence o Min­istro, que con­fere a eficá­cia ao Sac­ri­fí­cio da Mis­sa ou aos Sacra­men­tos em gênero, mas a div­ina Insti­tu­ição tor­na o Rito obje­ti­va­mente prepara­do sobre­nat­u­ral­mente efi­caz ou con­feri­dor da Graça san­tif­i­cante (aqui existe a semel­hança, não a iden­ti­dade, entre os dois prob­le­mas).

Quan­to a dout­ri­na dog­máti­ca, ape­nas o juí­zo canôni­co e jurídi­co da Hier­ar­quia sobre a het­ero­dox­ia grave do Min­istro ou do seu Insti­tu­to pode esta­b­ele­cer qual Min­istro ou Insti­tu­to deve ser “vitan­do”. Não é o sin­gu­lar sac­er­dote ou uma sin­gu­lar Ordem que pode por­tar uma decisão vin­cu­lante. Ao máx­i­mo se pode acon­sel­har ou desacon­sel­har, ten­do atenção em não come­ter um abu­so de autori­dade, cain­do no sub­je­tivis­mo democráti­co, segun­do o qual a Autori­dade vem ao sin­gu­lar indi­vid­uo de baixo.

Além dis­so, é pre­ciso ter atenção em não pri­var os fiéis da Mis­sa tradi­cional lá onde existe ape­nas um dos dois lados (só “vet­ero” ou só “neo Tradi­cional­is­tas”). Somos sac­er­dotes e não nego­ciantes: se Cajo vai faz­er com­pras no negó­cio de César causa dano ao negó­cio de Tizio; ao invés dis­so, se Sem­prônio vai à Mis­sa de Don Antônio, não causa dano a Don Petrônio. Por­tan­to, o nego­ciante Tizio pode dese­jar que se vá faz­er as com­pras com ele e não com César, mas Don Petrônio não tem nada a perder se um fiel sal­va a sua alma indo a Mis­sa de Don Antônio. Assim, os Domini­canos não se tur­bam tan­to, se um fiel vai à Mis­sa dos Jesuí­tas, emb­o­ra seguin­do uma esco­la teológ­i­ca diver­sa da deles.

Em tem­pos cat­a­stró­fi­cos como estes (do pon­to de vista dog­máti­co, moral, políti­co e econômi­co), é pre­ciso faz­er o pos­sív­el para aju­dar os fiéis a terem os Sacra­men­tos e o Rito tradi­cional, para se viv­er na graça de Deus e sal­var a alma, e não impedir a eles de fre­quen­tar lhes. É fácil para o Sac­er­dote tradi­cional­ista diz­er: “faça assim ou assa­do, vai aqui e não lá”, porque ele tem a Mis­sa tradi­cional quo­tid­i­ana­mente asse­gu­ra­da. Mas quan­to a um fiel que vive em uma metró­pole, em que existe uma só Mis­sa tradi­cional cel­e­bra­da por um só Insti­tu­to, seria grave­mente impru­dente proibir-lhe de fre­quen­ta-lo, porque se retém, sub­je­ti­va­mente e de baixo, que o úni­co Insti­tu­to total­mente bom seja o nos­so.

Atual­mente, a grosso modo, exis­tem três par­tidos: 1º) os “Neo-Tradi­cional­is­tas” que, reivin­di­can­do a ple­na reg­u­lar­i­dade do seu esta­do canôni­co, dizem: ”se pode assi­s­tir só a Mis­sa cel­e­bra­da em ple­na comunhão com o Bis­po do lugar”. Mas, neste caso, surge – prati­ca­mente e con­se­quente­mente – o prob­le­ma dog­máti­co da aceitação da con­tinuidade do Con­cílio Vat­i­cano II com a Tradição apos­tóli­ca e o Mag­istério tradi­cional e con­stante da Igre­ja e além, o prob­le­ma da ple­na orto­dox­ia do Novus Ordo Mis­sae. Porém, tais prob­le­mas dog­máti­cos (a qual solução pos­i­ti­va ou aceitação é requeri­da pelos Bis­pos e pelo atu­al Pon­tí­fice para con­ced­er e obter a incar­di­nação) são supe­ri­ores e mais impor­tante que aque­les canôni­cos (que emb­o­ra ten­ha seu peso e não vai despreza­do) da ple­na comunhão com o Bis­po do lugar (“sine Epis­copo nihil faci­atis”, dizia SANTO INÁCIO DE ANTIÓQUIAPhiladeph., VII, 1)[17].  De fato, se para estar de acor­do com Bis­po, devo favore­cer o erro na Fé, então, “é pre­ciso obe­de­cer antes a Deus que aos Home­ns” (Atos V, 29).

E depois: 2º) os “Vet­ero-Tradi­cional­is­tas” que, reivin­di­can­do a “pri­mo­gen­i­tu­ra” doutri­nal sobre a críti­ca a Nova Mis­sa e ao Con­cílio Vat­i­cano II, dizem: ”só o tal Insti­tu­to, que des­de o começo denun­ciou as novi­dades do Con­cílio Vat­i­cano II, pos­suí a plen­i­tude da dout­ri­na católi­ca. Então, deve se ir ape­nas nas Mis­sas cel­e­bradas pelos seus Min­istros”. Ora, como recita o provér­bio, «todo Sac­er­dote na homília pode diz­er ao menos três “here­sias” mate­ri­ais». Além dis­so, toda Ordem ou Insti­tu­to tem os seus lados de som­bra ou mati­za­ções doutri­nais. Por exem­p­lo os Domini­canos, os Fran­cis­canos e os Jesuí­tas seguem doutri­nas teológ­i­cas assaz diver­sas entre eles (Tomis­mo, Sco­tismo e Suarezis­mo). Mas seria um abu­so de poder, além de uma fal­ta de bom sen­so, se os Jesuí­tas (ou os Domini­canos ou os Fran­cis­canos) dissessem: “se pode ir ape­nas a Mis­sa cel­e­bra­da pela ‘Com­pan­hia de Jesus’ (ou da ‘Ordem dos Pre­gadores’ ou dos ‘Frades Menores’) ”.

Só a Igre­ja hier­ar­quia pode emi­tir uma sen­tença que veta a assistên­cia a Mis­sa cel­e­bra­da por um Min­istro ou por uma Ordem reli­giosa (porque obje­ti­va­mente e grave­mente het­ero­doxo) [18]. Não esqueçamos jamais que o últi­mo juí­zo vin­cu­lante cabe a “Pri­ma Sede”, a qual por von­tade de Cristo se encon­tra em Roma e especi­fi­ca­mente sobre a Col­i­na do Vat­i­cano onde vem mar­t­i­riza­do e sepul­ta­do São Pedro ape­nas sobre o qual se apoia a Igre­ja (queren­do ou não, agradan­do ou não), só a qual foi prometi­da a inde­fectibil­i­dade, a perenidade até o fim do mun­do e a infal­i­bil­i­dade em cer­tas deter­mi­nadas condições. Nen­hum Insti­tu­to pode arrog­ar-se tais pre­rrog­a­ti­vas, nem mes­mo na situ­ação de crise na Igre­ja a par­tir do Con­cílio Vat­i­cano II. Se o fizesse se trans­for­maria em uma sei­ta toman­do a parte (o Insti­tu­to) pelo todo (a Igre­ja).

A con­fusão doutri­nal na qual se nave­ga hoje não poupou ninguém e não se pode ver claro a meia-noite; humana­mente falan­do não vemos nen­hum “Fran­cis­co que repare a Igre­ja de Cristo”. O Pas­tor foi feri­do e o reban­ho foi dis­per­so. Nen­hum Insti­tu­to ou Ordem pode pre­sumir pos­suir a ple­na e inte­gra Ver­dade dog­máti­ca, moral e litúr­gi­ca em detri­men­to de todos os out­ros, que lhe seri­am total­mente ou abun­dan­te­mente pri­va­dos. Infe­liz­mente, mes­mo no Vér­tice da Igre­ja se “infil­trou a fumaça de Satanás”, como recon­heceu o próprio Paulo VI. Então, não deve­mos nos mar­avil­har deste ou daque­le Insti­tu­to “vet­ero” ou “neo-Tradi­cional”. Não façamos como o fariseu que vai rezar no Tem­p­lo jun­to ao pub­li­cano e começou a con­denar todos menos a si mes­mo, mas foi desaprova­do por Deus. (Lc., XVIII, 9–14).

Alguém, enfim, 3º) lev­an­ta o prob­le­ma da val­i­dade da con­sagração no Novus Ordo Mis­sae. Mas tal prob­le­ma não sub­siste, porque a sub­stân­cia da for­ma do Sacra­men­to per­maneceu, e então, se o Min­istro, que cel­e­bra a Mis­sa tradi­cional, pega as hós­tias con­sagradas no rito do Novus Ordo Mis­sae para dis­tribuir a Comunhão aos fiéis, pega partícu­las val­i­da­mente con­sagradas, que sofr­eram quan­to a for­ma da Con­sagração uma mutação inte­grante, mas não essen­cial.

Cer­ta­mente o novo Rito da Mis­sa – obje­ti­va­mente – favorece o erro e a here­sia, mas não é inval­i­da em si a pre­sença real de Jesus na Hós­tia con­sagra­da (cfr. SANTO TOMÁS DE AQUINO, S. Th., III, q. 78, a. 3)[19].

Sem­pre seguin­do esta “ter­ceira pista” se chega a con­sid­er­ar inval­i­das as novas Orde­nações sac­er­do­tais, as novas Con­sagrações epis­co­pais, os novos Sacra­men­tos, deixan­do os fiéis em baila do “mun­do, do demônio e da carne”. Se chega a diz­er que as con­fis­sões dos novos Sac­er­dotes são invál­i­das e se con­stringe os fiéis a per­manecer sem absolvição tam­bém por lon­go tem­po… e assim vai. Se arrisca, por isso, a faz­er como “os Fariseus, que impun­ham aos out­ros grandes jugos e difí­ceis de car­regar, mas os seus não lhes movi­am nem mes­mo com um dedo” (Mt., XXIII, 4;Lc., XI, 46).

Então, não é cor­re­to e nem mes­mo líc­i­to arrog­ar-se, de baixo e sub­je­ti­va­mente, a Autori­dade (que vem de Deus) de diz­er, obri­g­an­do, que não se pode assi­s­tir à Mis­sa tradi­cional de tal Min­istro ou de tal Insti­tu­to, porque só os Min­istros de um só Insti­tu­to estari­am aptos a cel­e­brar de maneira per­fei­ta, enquan­to ofer­e­cem além da Mis­sa tam­bém a inte­gra dout­ri­na tradi­cional. Lutero intro­duz­iu o sub­je­tivis­mo no Cris­tian­is­mo, elim­i­nou a Hier­ar­quia, pre­su­min­do que o seu fos­se o úni­co ver­dadeiro Cris­tian­is­mo, mas pro­duz­iu um cat­a­clis­ma. “De pequenos flo­cos de neve nasce uma avalanche”, diz o provér­bio. Seguin­do esta via se sabe onde se começa e não se sabe onde se chega.

Antes de emi­tir sen­tenças defin­i­ti­vas com con­se­quên­cias de tal modo dev­as­tantes para as almas dos fiéis, e sem ter autori­dade para tan­to, se refli­ta que a “supre­ma lex Eccle­si­ae” é a “salus ani­marum” e não o nos­so inter­esse de cam­panário. Parafrase­an­do o Evan­gel­ho se pode diz­er: “que servirá ao Sac­er­dote se con­quista todos os fiéis do mun­do e depois perde as suas almas? ” (cfr. Mt., XVI, 26).

Não sejamos tão desumanos em tirar aos home­ns a supre­ma pos­si­bil­i­dade de sal­var a alma; não emi­ta­mos leis con­trárias ao bem supre­mo, mas ajudemos as almas a sal­varem-se tam­bém através de out­ros Sac­er­dotes ou out­ros Insti­tu­tos.

Padre Curzio Nitoglia

21 de setem­bro de 2012

[1] Cfr. A. PINCHERLE, voce Donatismo, in “Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca”, Cit­tà del Vat­i­cano, 1950, vol. IV, coll.1851–1857; G. RICCIOTTIL’era dei Mar­tiri, Roma, 1955; A. PIOLANTI, voce Donatismo, in “Dizionario di Teolo­gia dom­mat­i­ca”, Roma, Studi­um, IV ed., 1957, pp. 129–130.

[2] Cfr. A. VELLICOLa Riv­e­lazione e le sue fonti nel “De prae­scrip­tione haereti­co­rum” di Ter­tul­liano, in “Lat­er­anum” n. 4, Roma, 1935; A. D’ALÈSLa théolo­gie de Ter­tul­lien,Pari­gi, 1905.

[3] B. MONDINSto­ria del­la Teolo­gia, Bologna, ESD, 1996, I vol., pp. 144–146.

[4] Cfr. A. MAYER, voce Mon­tanis­mo, in “Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca”, Cit­tà del Vat­i­cano, 1952, vol. VIII, coll. 1343–1347; P. PARENTE, voce Mon­tanis­mo, in “Dizionario di Teolo­gia dom­mat­i­ca”, Roma, Studi­um, IV ed., 1957, p. 281.

[5] Cfr. F. SPADAFORAPen­te­costali e Tes­ti­moni di Geo­va, Rovi­go, Isti­tu­to di Arti Gra­fiche, V ed., 1980.

[6] Cfr. A. FAGGIOTTOL’eresia dei Fri­gi, Roma, 1923.

[7] ROBERTO DE MATTEI no seu livro Apolo­gia da Tradição (Tori­no, Lin­dau, 2012) escreve:

«A ausên­cia do Mag­istério dos lugares teológi­cos. Entre os lugares teológi­cos enun­ci­a­dos por Melquior Cano fal­ta o “Mag­istério”, ter­mo que começou a difundir-se na lin­guagem teológ­i­ca ape­nas no Sécu­lo XIX» (p. 93). Além dis­so: «Não existe for­mu­la mais equiv­o­ca do que aque­la segun­do a qual o Mag­istério inter­pre­ta a Tradição» (Ibi­dem, p. 111).

É ver­dadeiro que a palavra Mag­istério, no sig­nifi­ca­do atu­al e em sen­ti­do estre­ito, foi intro­duzi­da por canon­istas alemães do sécu­lo XIX e que é necessário obser­var o Con­cílio Vat­i­cano I (1870) para ter uma dout­ri­na defini­da sobre o Mag­istério ecle­siás­ti­co (cfr. CONGAR, , Pour une his­toire séman­tique du terme Mag­is­teri­um, in “Revue des Sci­ences Philosophiques et Théologiques”, n. 60, pp. 85–98, 1976). Mas des­de os primeiros tem­pos do Cris­tian­is­mo se fala do “poder de sub­me­ter ao ensi­na­men­tos” con­feri­do por Jesus a Pedro e aos Após­to­los (Mt., XVI, 16–19; Lc., X, 16; Gv., XXI, 15 ss.). Então, a real­i­dade do Mag­is­teri­um é coetânea a Cristo. O mes­mo se pode diz­er quan­to ao ter­mo “Tran­sub­stan­ci­ação”, nasci­do ape­nas na con­tro­vér­sia con­tra Berengário de Tours († 1088) e can­on­iza­do pelo Conc. Trid. (DB 884), que sub­sti­tu­iu defin­i­ti­va­mente os ter­mos “Trans­mu­ta­tio” e “Trans­for­ma­tio”. A real­i­dade da Tran­sub­stan­ci­ação encon­tra-se nos Evan­gel­hos quan­do Jesus fala da Insti­tu­ição da Eucaris­tia (Lc., XXII, 19; Mt., XXVI, 28).Então, tam­bém essa é coetânea a Cristo.

Além dis­so, o próprio Mag­istério e os teól­o­gos mais reno­ma­dos ensi­nam comu­mente o con­trário daqui­lo que escreve Rober­to De Mat­tei. Vejamos-lhe:

Na Encícli­ca Humani Gener­is (12 de agos­to de 1950) papa Pacel­li ensi­na que «o Mag­istério deve ser para qual­quer teól­o­go, em matéria de Fé e de Cos­tumes, regra próx­i­ma da ver­dade (“próx­i­ma nor­ma esse debet”), enquan­to Cristo con­fiou ao Mag­istério o Depósi­to da fé – isto é a Tradição div­ina e a S. Escrit­u­ra – […] para ser inter­pre­ta­do (“inter­pre­tan­dum”). Para os ensi­na­men­tos do Mag­istério não só solenes, mas tam­bém ordinário valem as palavras: “Quem escu­ta a vós, escu­ta a Mim” (Lc. X, 16). […]. É ver­dadeiro que os teól­o­gos devem sem­pre voltar as fontes da Rev­e­lação div­ina […]. Mas Deus jun­to a estas duas Fontes da Rev­e­lação deu a sua Igre­ja o Mag­istério (“Deus suae Eccle­si­ae Mag­is­teri­um vivum ded­it”). […]. E o divi­no Reden­tor não con­fiou a inter­pre­tação autên­ti­ca desse depósi­to a cada um dos fiéis, nem mes­mo aos teól­o­gos, mas exclu­si­va­mente ao mag­istério da Igre­ja (“con­cre­did­it authen­tice inter­pre­tan­dum soli Eccle­si­ae Mag­is­te­rio”)» (DS 3384, 3386). De for­ma breve, Pio XII reit­era Cristo deu a Igre­ja a Tradição, a Escrit­u­ra e tam­bém o Mag­istério, que é regra próx­i­ma da ver­dade para a reta inter­pre­tação da div­ina Tradição e da S. Escrit­uras.

Os ‘lugares Teológi­cos’ são «a sé de todos os argu­men­tos da ‘Ciên­cia Sacra’ a par­tir dos quais os teól­o­gos tiram as suas argu­men­tações, seja para demon­strar uma ver­dade seja para refu­tar um erro» (M. CANODe Locis teho­logi­cis, Roma, ed. T. Cuc­chi, 1900, Lib. 1, cap. 3). Melquior CANO († 1560) esta­b­ele­ceu 10 “Lugares teológi­cos” (M. Cano, De Locis teho­logi­cis, Roma, ed. T. Cuc­chi, 1900):

  1. Lugares próprios e apodíti­cos”: Tradição e Escrit­u­ra (Fontes da Rev­e­lação), as Decisões da Igre­ja, dos Con­cílios e dos Papas, que equiv­alem ao Mag­istério ecle­siás­ti­co pontifício/universal, ordinário/extraordinário (Cfr. R. Gar­rigou-Lagrange,De Rev­e­la­tione,Roma, Fer­rari, II ed., 1921, I vol., p. 36);

  1. Lugares intrínsec­os e prováveis”: o ensi­na­men­to dos Padres, dos teól­o­gos escolás­ti­cos;

  1. c) ”Lugares extrínsec­os”: a razão humana, a reta filosofia e a história. Estes três últi­mos são “Lugares alheios” ou fontes aux­il­iares para o tra­bal­ho teológi­co. Os primeiros dois são “Lugares fun­da­men­tais” ou fonte da Rev­e­lação e, então, da Teolo­gia, que deri­va do Dado Rev­e­la­do. Os out­ros cin­co con­tribuem intrin­se­ca­mente com a reta inter­pre­tação da Rev­e­lação.

Mon­sen­hor Antônio Piolan­ti escreve: «A Teolo­gia é fun­da­da sobre a Ver­dade rev­e­la­da, as quais estão con­ti­das na Escrit­u­ra e na Tradição, a qual inter­pre­tação é con­fi­a­da ao Mag­istério da Igre­ja, o qual por sua vez se man­i­fes­ta através das definições dos Con­cílios, as decisões dos Papas, o ensi­na­men­to comum dos Padres e dos Teól­o­gos escolás­ti­cos» (Dizionario di Teolo­gia dom­mat­i­ca, Roma, Studi­um, IV ed., 1957, p. 246).

O Cardeal Pietro Par­ente escreve que o Mag­istério é por isso “o poder con­feri­do por Cristo a sua Igre­ja, em vir­tude da qual a Igre­ja docente é con­sti­tuí­da úni­ca depositária e autên­ti­ca intér­prete da Rev­e­lação div­ina. […]. Segun­do a dout­ri­na católi­ca a S. Escrit­u­ra e a Tradição são a fonte e a ‘regra remo­ta’ da Fé, enquan­to a ‘regra próx­i­ma’ é o Mag­istério vivo da Igre­ja” (Dizionario di Teolo­gia dom­mat­i­ca, cit., pp. 249–250).

O teól­o­go alemão e pro­fes­sor ALBERT LANG escreve: «O Mag­istério ecle­siás­ti­co é pro­pri­a­mente aque­le “Lugar teológi­co”, no qual por dis­posição div­ina os fiéis e os teól­o­gos encon­tram em primeiro lugar e de modo mais ime­di­a­to as Ver­dades de Fé, porque na Palavra ou Mag­istério da Igre­ja a Rev­e­lação con­tin­ua a viv­er, a agir e chega ime­di­ata­mente a cada um. A Dout­ri­na sacra ou a Fé vem anun­ci­a­da pela Igre­ja porque é div­ina­mente rev­e­la­da e não é rev­e­la­da porque é anun­ci­a­da pelo Mag­istério da Igre­ja. O Mag­istério não é causa do caráter da div­ina Rev­e­lação anun­ci­a­da pela Igre­ja, mas é só um instru­men­to ou um meio esta­b­ele­ci­do por Deus, pelo qual o Rev­e­la­do vem inter­pre­ta­do e então por nós con­heci­do com certeza» (A. Lang, Die Loci teo­logi­ci des Mel­chior Cano und die dog­ma­tis­chen  Beweis­es, Mona­co, 1925, p. 82).

O Pro­ced­i­men­to do Tra­bal­ho teológi­co segun­do P. REGINALDO Gar­rigou-Lagrange se faz «recol­hen­do as Ver­dades rev­e­ladas, con­ti­das no Deposi­tum Fidei, que são a Tradição e a Escrit­u­ra, a luz do Mag­istério da Igre­ja, que define e nos propõe crer nes­tas mes­mas Ver­dades […]». (La Sin­te­si tomisti­ca, Bres­cia, Querini­ana, 1953, p. 72). A Teolo­gia é a ciên­cia que medi­ante a razão ilu­mi­na­da pela Fé (“sine Fide non remanet The­olo­gia”), fun­dan­do-se sobre ‘duas fontes da Rev­e­lação’ (Tradição e S. Escri­ta), sob a direção inter­pre­ta­ti­va do Mag­istério ecle­siás­ti­co, tra­ta de Deus e das criat­uras em relação a Deus. A razão filosó­fi­ca lhe desen­volve toda a fecun­di­dade, chegan­do a “Con­clusões teológ­i­cas” (Cfr. S. Tom­ma­so, S. Th., I, q. 1; G. M. Ros­chi­ni, Intro­duc­tio in Sacram The­olo­giam, Roma, 1947; P. Par­ente,  Teolo­gia, Roma, 1953; A. Gardeil, Le donne revélé et la théolo­gie, Juvisy, 1932; A. Stolz, Intro­duc­tio in sacram The­olo­giam, Fribur­go, 1941).

Seja na Escrit­u­ra ou nos Padres o con­ceito de ver­dadeira Tradição sem­pre é conec­ta­do:

1º) a Assistên­cia de Deus, porque sem a aju­da do Espíri­to da Ver­dade, a pureza do ensi­na­men­to oral não pode­ria se con­ser­var sem mis­tu­ra de erros;

2º) ao Mag­istério que, emb­o­ra não sendo a própria Tradição, é o órgão através do qual essa vem trans­mi­ti­da; o sen­ti­do pleno de Tradição se pode ter somente com a condição de ter unidos os dois aspec­tos (pas­si­vo e ati­vo), do qual o segun­do é assaz impor­tante de modo que uma “tradição” do sécu­lo I, mas não ates­ta­da pelo Mag­istério da Igre­ja, não con­sti­tuiria ‘ver­dadeira’ Tradição divi­no-apos­tóli­ca, ao máx­i­mo teria um val­or de doc­u­men­tação históri­ca, mas não de Fé div­ina. Entre Mag­istério e Tradição existe uma cer­ta dis­tinção, mas não sep­a­ração, ou seja, a Igre­ja é como uma Mes­tra (Mag­istério) que con­tém e trans­mite a Escrit­u­ra (Bíblia) e a Tradição (Den­zinger), tem um Livro de tex­to ofi­cial (Bíblia mais Den­zinger) e lhe expli­ca o ver­dadeiro sig­nifi­ca­do aos dis­centes; se um aluno não entende bem o sig­nifi­ca­do do Livro, pode pedir expli­cações ao Mestre e ele o ilu­mi­nará. De tudo isto resul­ta a parte essen­cial e não mín­i­ma ou mes­mo con­tin­gente, que desen­volve o Mag­istério por sua natureza no dar, “todos os dias até o fim do mun­do”, a reta inter­pre­tação ati­va ou subjetiva/formal do con­teú­do dog­máti­co-moral da Tradição, ten­do-lhe garan­ti­do ontem a veraci­dade do con­teú­do pas­si­vo ou objetivo/material (Cfr. J. B. Franzelin, De div­ina tra­di­tione et Scrip­tura., Roma, 1870; L. Bil­lot, De immutabil­i­tate tra­di­tio­n­is, Roma, 1904; S. G. Van Noort, Trac­ta­tus de fon­tibus Rev­e­la­tio­n­is nec­non de fide div­ina, 3a ed., Bus­sum, 1920; S. Cipri­ani, Le fonti del­la Riv­e­lazione, Firen­ze, 1953; A. Michel, voce “Tra­di­tion”, in DThC, XV, coll., 1252–1350; G. Filo­gras­si, La Tradizione divi­no-apos­toli­ca e il mag­is­tero eccle­si­as­ti­co, in “La Civiltà Cat­toli­ca”, 1951, III, pp. 137–501; G. Proulx, Tra­di­tion et Protes­tantisme, Pari­gi, 1924; S. Tom­ma­so d’Aquino, S. Th., III, q. 64, a. 2, ad 2; B. Gher­ar­di­ni, Divini­tas 1, 2, 3/ 2010, Cit­tà del Vat­i­cano, S. Carte­chi­ni, Dall’opinione al dom­ma, Roma, Civiltà Cat­toli­ca, 1953, M. Schmaus, tr. it., La Chiesa, Casale Mon­fer­ra­to, Mari­et­ti, 1973).

A Tradição jun­to a Bíblia é uma das duas “fontes” da div­ina Rev­e­lação (Tradição pas­si­va e obje­ti­va). Essa é tam­bém a “trans­mis­são” (do latim tradere, trans­mi­tir) oral de toda as ver­dades rev­e­ladas por Cristo aos Após­to­los ou sug­eri­das a eles pelo Espíri­to San­to, e que chegaram a nós medi­ante o Mag­istério sem­pre vivo da Igre­ja, assis­ti­da por Deus até o fim do mun­do. A Tradição jun­to a S. Escrit­u­ra é o “canal recip­i­ente” (Tradição pas­si­va) e veícu­lo trans­mis­sor (Tradição ati­va) ” da Palavra div­ina­mente rev­e­la­da. O Mag­istério ecle­siás­ti­co é “o órgão” da Tradição, enquan­to os “doc­u­men­tos” em que é con­ser­va­da são os Sím­bo­los de fé, os escritos dos Padres, a litur­gia, a prat­i­ca da Igre­ja, os Atos dos már­tires e os mon­u­men­tos arque­ológi­cos. Quan­to as relações entre Mag­istério e Tradição, o Mag­istério cus­to­dia, expli­ca e inter­pre­ta a Palavra de Deus escri­ta ou oral (“Ver­bum Dei scrip­tum vel tra­di­tum”). Então, não são idên­ti­cos: o Mag­istério não é fonte da Rev­e­lação, a Escrit­u­ra e a Tradição sim. Por­tan­to, o Mag­istério pres­supõe as duas fontes da Rev­e­lação, as cus­to­dia e as expli­ca, onde em sen­ti­do estre­ito não coin­cide com a Tradição. Todavia, se si con­sid­era o Mag­istério nos seus doc­u­men­tos ou obje­ti­va­mente, então, se pode diz­er que neles se encon­tra a fonte ou lugar em que há a Rev­e­lação (Cfr. J. Salaver­ri, De Eccle­sia Christi, Madrid, BAC, 1958, n. 805 ss.).

Para o Protes­tantismo a úni­ca fonte da Rev­e­lação é a S. Escrit­u­ra, onde só a noção de Tradição oral e de Mag­istério como seu canal trans­mis­sor é incon­ce­bív­el. Ao invés dis­so, a Igre­ja definiu infalivel­mente no Con­cílio de Tren­to (sessão IV de 6 de abril de 1546; DB, 783) e no Con­cilio Vat­i­cano I (DB, 1787):

1º) que exis­tem ensi­na­men­tos ou Tradições divi­no-apos­tóli­cas ten­do relações com a Fé e a Moral;

2º) trans­mi­ti­das inin­ter­rup­ta­mente através do Mag­istério da Igre­ja;

3º) assis­ti­da por Deus. Se fal­ta uma só destas três condições a “tradição” é só humana e, então, falív­el.

Então, as duas fras­es citadas do livro de R. DE MATTEI: «A ausên­cia do Mag­istério dos lugares teológi­cos. Entre os lugares teológi­cos enun­ci­a­dos por Melquior Cano fal­ta o “Mag­istério”, ter­mo que começou a se difundir na lin­guagem teológ­i­ca ape­nas no sécu­lo XIX» (p. 93); «Não existe fór­mu­la mais equiv­o­ca do que aque­la segun­do a qual o Mag­istério inter­pre­ta a Tradição» (p. 111), são – obje­ti­va­mente – con­trárias ao ensi­na­men­to do Mag­istério, àquele comum dos teól­o­gos e por­tan­to, — ao menos mate­rial­mente – grave­mente errôneas.

Além dis­so, esta é – obje­ti­va­mente – a dout­ri­na neo­mod­ernista de P. YVES CONGAR, que foi um dos campeões da nou­velle théolo­gie, que bus­cou, no perío­do “con­cil­iar” e “pós-con­cil­iar”, destru­ir a noção e a função do Mag­istério do qual foi con­de­na­da em 12 de agos­to de 1950 com a Encícli­ca Humani Gener­is de Pio XII.

[8] A mutação é sub­stan­cial se si tra­ta de um Rito essen­cial­mente diver­so quan­to a matéria ou a for­ma (por exem­p­lo se o Sac­er­dote bati­za com o vin­ho, empre­ga uma matéria sub­stan­cial­mente diver­sa daque­la insti­tuí­da por Jesus, que é água; ou empre­ga uma for­ma diver­sa: ”eu te bati­zo no meu nome”). Ao con­trário a mutação é aci­den­tal se o Rito sofreu só uma alter­ação (por exem­p­lo o Sac­er­dote acres­cen­tou a for­ma do Batismo: ”Eu ti bati­zo em Nome do Pai, do Fil­ho e do Espíri­to San­to” as palavras: “e de Maria Virgem”; ou a água foi aque­ci­da, mas é sem­pre água, isto é, a mes­ma sub­stân­cia que foi acresci­da de uma qual­i­dade aci­den­tal, o calor). Neste caso, o Sac­er­dote deixou intac­ta a sub­stân­cia da for­ma e lhe acres­cen­tou algu­ma coisa que a mod­i­fi­ca ape­nas aci­den­tal­mente ou a altera não a inval­i­dan­do, emb­o­ra cumprindo pes­soal­mente um peca­do grave. A intenção do Min­istro na con­fecção do Sacra­men­to é obje­ti­va (quer faz­er um Rito sagra­do) e ela é con­stata­da se ele segue obje­ti­va­mente e real­mente as Rubri­c­as da Igre­ja; se ao invés inven­ta um Rito novo, então, a intenção obje­ti­va­mente con­statáv­el é diver­sa daque­la da Igre­ja e se infere a inval­i­dade prováv­el do Sacra­men­to. A intenção sub­je­ti­va (se o Min­istro crê ou não na Pre­sença real) não é con­statáv­el, e descon­heci­da aos fiéis e não é essa que tor­na váli­do ou não o Sacra­men­to (de fato, muitos mila­gres eucarís­ti­cos ocor­reram pro­pri­a­mente para os Sac­er­dotes que não acred­i­tavam na Pre­sença real). Jesus, por­tan­to, quis excluir da val­i­dade dos sacra­men­tos, que são os canais prin­ci­pais da Graça, todo ele­men­to sub­je­tivista. Então, o Mon­tanis­mo, o Donatismo como o Luteranis­mo são rad­i­cal­mente fora da óti­ca de Jesus e da Igre­ja, que tiram os fiéis daque­le esta­do patológi­co que é a “dúvi­da metódi­ca”, a qual nasce de maneira cien­tí­fi­ca com o Sub­je­tivis­mo reli­gioso (de Lutero), filosó­fi­co (de Descartes) e leva ao “escrúpu­lo habit­u­al”, que tira a paz da alma, que é essen­cial a vida reli­giosa sã. O Mon­tanis­mo e o Donatismo pre­ced­er­am – sem romper a resistên­cia da Cri­stan­dade – o Luteranis­mo e o Carte­sian­is­mo, com o que se vê como “todo erro novo, é vel­ho como o dia­bo” (P. MATTEO LIBERATORE), a úni­ca difer­ença é quan­ti­ta­ti­va (com Lutero e Descartes o erro se tornou quase uni­ver­sal, enquan­to antes deles, ele era recu­sa­do pela maior parte da Sociedade civ­il com a aju­da da Igre­ja hierárquica) e não qual­i­fica­ti­va (entre Montanismo/Donatismo e Luteranismo/Calvinismo, não exis­tem dis­tinções sub­stan­cias, mas só aci­den­tais).

[9] A Here­sia é dout­ri­na que con­tradiz dire­ta­mente uma Ver­dade rev­e­la­da por Deus e pro­pos­ta a crer como tal pela Igre­ja aos fiéis. Para que se ten­ha Here­sia é necessário, então, dois ele­men­tos essen­ci­ais:

1º) a oposição a uma Ver­dade div­ina­mente rev­e­la­da;

2º) a oposição a definição do Mag­istério ecle­siás­ti­co com obri­gação de adesão. Ora, uma Ver­dade que é somente rev­e­la­da se chama de Fé div­ina-católi­ca. A Here­sia per­fei­ta se opõe a Ver­dade de Fé div­ina-católi­ca, ou seja, rev­e­la­da por Deus e defini­da pela Igre­ja com obri­gação de crer-lhe sob pena de danação. Quem nega uma Ver­dade somente Rev­e­la­da está próx­i­mo da here­sia, mas não é heréti­co, estre­ita­mente falan­do (cfr. S. Th., II-II, q. 11; G. VAN NOORTDe fonti bus Rev­e­la­tio­n­is, Ams­ter­dam, 1911, n. 259 ss.; A. PIOLANTI, voce Ere­sia, in “Dizionario di Teolo­gia dom­mat­i­ca, Roma, Studi­um, IV ed., 1957, p. 139).

[10] O Cis­ma é o deli­to de quem se sep­a­ra da Igre­ja Católi­ca para for­mar uma Igre­ja par­tic­u­lar. Enquan­to a Here­sia erra con­tra a Fé ou o Dog­ma rev­e­la­do e definido, o Cis­ma rompe o vín­cu­lo social com a Igre­ja docente e dis­cente, recu­san­do faz­er parte da Sociedade div­ina insti­tuí­da por Cristo, que é a Igre­ja romana e sep­a­ran­do-se Dessa. Os Cis­máti­cos, estão em má fé, não podem se sal­var, porque escrevia SANTO AGOSTINHO (Epist. 173 ad Dona­tum): “Serás punido com o suplí­cio eter­no, mes­mo se fos­se queima­do vivo pelo nome de Cristo, se te colo­cas fora da Igre­ja e ti sep­a­res da estre­i­ta Unidade e do vín­cu­lo da Cari­dade” (cfr. S. Th., II-II, q. 39; M. JUGIE,The­olo­gia dog­mat­i­ca Chris­tiano­rum ori­en­tal­i­um, Pari­gi, 1927, t. I; ID., Le Scisme Byzan­tin, Pari­gi, 1942).

[11] As suas obras mais famosas são: De schis­mate donatis­tarum seu con­tra Par­me­ni­anum,tr. it., La vera Chiesa, Roma, Cit­tà Nuo­va, 1988.

[12] “Ex opere oper­a­to” é um ter­mo teológi­co usa­do pela primeira vez por PEDRO DE POITIERS († 1205) e sig­nifi­ca exata­mente “o ato obje­ti­vo con­sid­er­a­do em si mes­mo (‘opus in se oper­a­tum’), inde­pen­den­te­mente das qual­i­dades ou méri­tos daque­le que age”. Enquan­to “ex opere oper­antes” sig­nifi­ca “o ato sub­je­ti­va­mente con­sid­er­a­do (‘opus per­son­ae oper­an­tis’), enquan­to tem um val­or moral e mer­itório, que lhe provém dos méri­tos ou das qual­i­dades do sujeito oper­ante”. Ora, estes ter­mos apli­ca­dos aos Sacra­men­tos sig­nifi­cam que “o opus oper­a­tum é sinal sen­sív­el em si val­i­da­mente pos­to, ou seja, o Rito sacro con­sti­tuí­do de matéria e for­ma, admin­istra­do como Rito sacro”, enquan­to o opus oper­an­tis é “o ato do min­istro depen­dente dos seus méri­tos, isto é, enquan­to tem um val­or moral ou mer­itório”. Mas a causal­i­dade obje­ti­va dos Sacra­men­tos (“ex opere oper­a­to”) é opos­ta àquela sub­je­ti­va (“ex opere oper­an­tis”). Então, afir­mar a primeira, sig­nifi­ca negar a segun­da. Por­tan­to, quan­do se ensi­na que os Sacra­men­tos pro­duzem o seu efeito (a Graça) ‘ex opere oper­a­to’ ou obje­ti­va­mente, sig­nifi­ca que o Rito val­i­da­mente pos­to pro­duz em si a Graça, inde­pen­den­te­mente dos méri­tos do Min­istro ou pes­soa oper­ante (‘ex opere oper­an­tis’). Estas duas fór­mu­las per­mi­ti­ram ao Con­cílio de Tren­to refu­tar o fal­so princí­pio luter­a­no e antes ain­da donatista, que asse­ria que a fé fidu­cial (Lutero) ou os méri­tos (Dona­to) causam sub­je­ti­va­mente a Graça ‘ex opere oper­an­tis’ e não obje­ti­va­mente o Sacra­men­to em si ou ‘ex opere oper­a­to’ a pro­duzi-la. Cfr.  J. B. FRANZELINTrac­ta­tus de Sacra­men­tis, Roma, 1911, the­sis 7.

[13] “O Batismo não vale pelos méri­tos de quem o admin­is­tra, mas pela própria intrínse­ca eficá­cia e san­ti­dade, lhe comu­ni­ca­da por Deus que o insti­tu­iu” (Con­tra Cresco­ni­um, I, IV, cap. 19).

[14] G. MATTIUSSIDe Sacra­men­tis, Roma, 1925; E. HUGONLa causal­ité in stru­men­tale dans l’ordre sur­na­turel, Pari­gi, 1924; D. ITUORRIOZLa defini­ciòn del Con­cilio de Tren­to sobre la causal­i­dad de los Sacra­men­tos, Madrid, 1951.

[15] Cfr. S. Th., III, qq. 60–65; R. BELLARMINO, De Sacra­men­tis, Venezia, 1599; J. B. FRANZELINDe Sacra­men­tis in genere, Roma, 1911; A. PIOLANTIDe Sacra­men­tis,Roma, 1947; ID., I Sacra­men­ti, Firen­ze, 1956.

[16] A analo­gia diz “semel­hança e dissemel­hança”, onde a dissemel­hança é supe­ri­or a semel­hança. Por exem­p­lo entre o Ser de Deus, do anjo, do homem, do ani­mal, da plan­ta e da pedra existe uma cer­ta leve semel­hança (quan­to ao fato de exi­s­tir), mas tam­bém uma maior dissemel­hança, porque o Ser de Deus é infini­ta­mente supe­ri­or ao das suas criat­uras e o do anjo é diver­so essen­cial­mente daque­le do homem, do ani­mal, da plan­ta e do min­er­al e assim esca­lan­do.

Ora, entre o prob­le­ma da Mis­sa cel­e­bra­da por um Min­istro em peca­do grave ou na Graça de Deus e o prob­le­ma da Mis­sa cel­e­bra­da por um Min­istro que pos­suí a dout­ri­na católi­ca inte­gral­mente ou defi­cien­te­mente, existe uma “semel­hança e dissemel­hança”.

De fato, para o Montanismo/Donatismo se trata­va de uma questão moral (esta­do de peca­do ou de Graça), que teria inval­i­da­do a eficá­cia do Sacra­men­to; enquan­to para o “Tradi­cional­is­mo” hodier­no se tra­ta de uma questão de dout­ri­na (inte­gral ou defi­ciente) do Min­istro ou do seu Insti­tu­to, que tornar­ia líc­i­to ou ilíc­i­to fre­quen­tar a sua Mis­sa ou aque­la do seu Insti­tu­to.

Nes­ta dis­pu­ta a diver­si­dade (questão doutri­nal obje­ti­va) é maior a semel­hança (questão moral sub­je­ti­va), todavia existe uma cer­ta semel­hança quan­do se jul­ga como ten­do Autori­dade quem tem a plen­i­tude da dout­ri­na católi­ca e quem não, e se decide qual Rito deve ser segui­do ou não.

Isto causa estu­por, sobre­tu­do nestes últi­mos dias, quan­do, tam­bém os “vet­ero Tradi­cional­is­tas” – obje­ti­va­mente – deban­dam doutri­nal­mente (Ndt.: Refer­ên­cia à deri­va da FSSPX de Dom Fel­lay). Kyrie, elei­son!

[17] Cfr. SANTIGNAZIO D’ANTIOCHIA MARTIREEph., II, 2; V, 3; VI, 1; Rom., 9;Philadel­phi, III, 2; IV, 1; Magn., IV, 1; VI, 1; Trall., II, 1; II, 2; VII, 2; XII, 2; Smyrn. VII, 1; VIII, 1; IX, 1; Polyc., IV, 1; S. IRENEO DA LIONEAdv. Haeres., III, 142; S. CORNELIO PAPAEp., XLIX, 2; S. CIPRIANODe uni­tate Eccle­si­ae, VIII; cfr. E. RUFFINILa Ger­ar­chia del­la Chiesa Cat­toli­ca negli Atti degli Apos­toli e nelle Let­tere di San Pao­lo, Roma, 1921.

[18] Se pense na dis­pu­ta sobre a Pre­des­ti­nação e a Graça efi­caz, que apare­ceu no sécu­lo XVI entre Domini­canos com DOMINGO BAÑEZ (Com­men­tar­i­um in Iam partem Sum­mae The­olo­giae Sanc­ti Thoa­mae, Sala­man­ca, 1584) e Jesuí­tas com LUÍS DE MOLINA (De Con­cor­dia, Lis­bona, 1588), com recíp­ro­cas acusações de Here­sia. De fato, os Domini­canos acusavam os Jesuí­tas de serem Pela­gianos e os Jesuí­tas acusavam os Domini­canos de serem Calvin­istas. A Igre­ja – sob os pon­tif­i­ca­dos de Clemente VIII e Paulo V – insti­tuí a Con­gre­ga­tio de Aux­ili­is ou Con­gre­gação sobre auxílios da Graça (1597–1607), que depois de 120 reuniões não chegou a uma con­cil­i­ação das duas sen­tenças, nem emi­tiu uma aprovação ou uma con­de­nação, mas em 5 de setem­bro de 1707 sob Paulo V proibiu a uns e a out­ros de emi­tir juí­zo de Here­sia (DS, 1997). Além dis­so, Papa Urbano VIII nos ‘Decre­tos do S. Ofí­cio de 22 de maio de 1625 e de 1º de agos­to de 1641’ con­fir­mou o Decre­to de Paulo V de 1607 e ameaçou com a comunhão reser­va­da ao Papa a quem acusasse a out­ra parte de Here­sia. A questão per­manece aber­ta e é ain­da viva­mente dis­puta­da (famosa é àquela entre P. REGINALDO GARRIGOU-LAGRANGE o.p. †1964 e o Cardeal LOUIS BILLOT s.j. †1931 e mais recen­te­mente entre J.H. NICOLAS e J. MARITAIN em 1960–1963), mas se pode seguir a dout­ri­na tomista ou aque­la molin­ista sobre a Graça e ir à Mis­sa dos Domini­canos ou dos Jesuí­tas, sem ser jul­ga­dos como heréti­cos. Pelo con­trário, quem emi­tisse este juí­zo incor­re­ria, ele e não out­ros, na cen­sura ecle­siás­ti­ca de Exco­munhão reser­va­da a S. Sé.

[19] Cfr. os mel­hores Comen­ta­dores da Sum­ma The­olo­giae (III, qq. 73–83) di SAN TOMMASO D’AQUINO: CAJETANUS; GIOVANNI DA SAN TOMMASO; BILLUART; inoltre J. B. FRANZELINDe SS. Euchares­ti­ae Sacra­men­to, Roma, 1868; G. MATTIUSSI,De SS. Eucher­es­tia, Roma, 1925; L. BILLOTDe Eccle­si­ae Sacra­men­tis, Roma, VII ed., 1931; R. GARRIGOU-LAGRANGEDe Euchares­tia, Tori­no-Roma, 1943;  A. PIOLANTI,De Sacra­men­tis, Tori­no-Roma, II ed., 1947; A. PIOLANTI, voce Eucares­tia, in “Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca”, Cit­tà del Vat­i­cano, 1950, vol. V, col. 772.

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