Carta de um Padre perplexo a “La tradizione cattolica”

 

 Don Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

PRIMEIRA PARTE

A ASSISTÊNCIA A MISSA TRADICIONAL

 

A posição da “La Tradizione Cat­toli­ca”

La Tradizione Cat­toli­ca”, orgão ofi­cial do ‘Dis­tri­to Ital­iano’ da ‘Frater­nidade Sac­er­do­tal  São Pio X’ (de ago­ra em diante ‘FSSPX’) no n.° 86, 1/2013 (pg. 21) afir­ma:

Quan­to a Mis­sa Tradi­cional cel­e­bra­da pelos sac­er­dotes que fazem profis­são de aceitar os erros do Con­cílio, ou aque­las cel­e­bradas em vir­tude do Motu Pro­prio […], deve­mos estar aten­tos não quan­to a fé pes­soal do cel­e­brante, mas aque­la de que se faz profis­são explíci­ta naque­la par­tic­u­lar cel­e­bração. Se se entende explici­ta­mente cel­e­brar em vir­tude do Motu Pro­prio, que assim­i­la o rito anti­go ao novo (e que na instrução aplica­ti­va requer, como o vel­ho indul­to, a adesão ao Con­cílio), é óbvio que se está par­tic­i­pan­do da profis­são de uma fal­si­dade, e deve­mos nos abster dis­so”.

Algu­mas per­plex­i­dades

1) Está dire­ti­va me deixa per­plexo, sobre­tu­do porque, nestes últi­mos tem­pos mes­mo a Direção ger­al da ‘FSSPX’ faz profis­são de aceitar o Con­cílio na quase total­i­dade dos seus Doc­u­men­tos. Se leia, por exem­p­lo, a entre­vista dada por Dom Bernard Fel­lay, Supe­ri­or ger­al da ‘FSSPX’, ao quo­tid­i­ano vale­sano ‘La Lib­ertè’ de 11 de maio de 2001 e retoma­da pela Agên­cia de impren­sa ofi­cial da Frater­nidade “DICI”, n.º 8, 18 de maio de 2001: «Pode­ria pare­cer que recusamos inteira­mente o Vat­i­cano II. Pelo con­trário, lhe aceita­mos 95%. É mais a um espíri­to, a uma ati­tude que nos opo­mos».

Tan­to para Dom Fel­lay, como para Ben­to XVI, não é a letra (ou seja, os Doc­u­men­tos) do Vat­i­cano II a estarem em rup­tura com a Tradição apos­tóli­ca, mas ape­nas o espíri­to ou seja, a inter­pre­tação abu­si­va que lhe foi dada pelos ultras pro­gres­sis­tas na óti­ca da her­menêu­ti­ca da rup­tura. Ao invés os erros que dizem respeito a cole­gial­i­dade, o ecu­menis­mo, a liber­dade das fal­sas religiões, o pan-cris­tian­is­mo e o antropocen­tris­mo se encon­tram nos próprios Doc­u­men­tos do Con­cílio Vat­i­cano II, os quais não estão em con­tinuidade com a Tradição Apos­tóli­ca.

De fato, os Doc­u­men­tos do Vat­i­cano II (e não a sua inter­pre­tação abu­si­va) apre­sen­tam alguns pon­tos assaz con­tro­ver­sos, que são pelo menos teo­logi­ca­mente erró­neos, temerários, con­trários a dout­ri­na comum, ofen­sivos ao sen­so reli­gioso dos fiéis, mal sonantes, ambígu­os, escan­dalosos, se não até mes­mo favore­cem a Here­sia e próx­i­mos da here­sia.

Breve­mente:

  1. a Con­sti­tu­ição dog­máti­ca sobre “A Div­ina Rev­e­lação” Dei Ver­bum do Vat­i­cano II arqui­va a dout­ri­na defini­da do Con­cílio Tri­denti­no e do Vat­i­cano I sobre as “duas Fontes” da Rev­e­lação (Tradição e S. Escrit­u­ra), para faz­er con­ver­gir a Tradição e o Mag­istério na sola scrip­tura;

  1. a Con­sti­tu­ição dog­máti­ca sobre “A Igre­ja” Lumen Gen­tium se dis­tan­cia da Dout­ri­na da Igre­ja da qual a Cole­gial­i­dade epis­co­pal não faz parte [1]. O con­cil­iaris­mo, ao invés, tende a atribuir aos Bis­pos reunidos em Con­cílio ecuméni­co uma função supre­ma igual se não supe­ri­or a do Papa [2];

  • o antropocen­tris­mo da Con­sti­tu­ição pas­toral Gaudi­um et spes sobre “A Igre­ja no mun­do con­tem­porâ­neo” (n.° 24, § 4): «o homem a úni­ca criatu­ra na ter­ra que Deus quis por si mes­ma (“propter se ipsam”)» está em oposição rad­i­cal com a Dout­ri­na católi­ca a qual como São Pio X quer “instau­rare omnia in Cristo, re-cen­tralizar tudo em Cristo”, enquan­to Gaudi­um et spes quer “instau­rare omnia in homine”; re-cen­tralizar tudo no homem”, ela rep­re­sen­ta um con­tra- Mag­istério todo ori­en­ta­do em direção do homem e chegan­do a abaixar Cristo ao nív­el pura­mente nat­ur­al, des­ti­tuin­do-o do trono da sua Divin­dade. Qual rup­tura é mais rad­i­cal do que está?

  1. A Declar­ação sobre “A liber­dade Reli­giosa” (Dig­ni­tatis humanae, 7 de dezem­bro de 1965) está em con­tradição com a Tradição apos­tóli­ca e o Mag­istério con­stante da Igre­ja resum­i­do no Dire­ito Públi­co Eclesiástico[3]. Pio IX na Quan­ta cura (8 de dezem­bro de 1864) definiu explici­ta­mente que a liber­dade reli­giosa em foro ester­no “é con­trária a dout­ri­na da S. Escrit­u­ra, da Igre­ja e dos San­tos padres ecle­siás­ti­cos” e que “o Esta­do tem o dev­er de reprim­ir os vio­ladores da Religião católi­ca com penas especí­fi­cas”;

  1. a Declar­ação sobre “As relações da Igre­ja com as religiões não cristãs” Nos­tra aetate (7 de dezem­bro de 1965) está em deformi­dade com a Tradição católi­ca (Padres ecle­siás­ti­cos) e o Mag­istério con­stan­te­mente ensi­na­do do sécu­lo IX até a Pio XII. Além dis­so, sem­pre segun­do a dout­ri­na con­cil­iar (cfr. Nos­tra aetate: “os dons de Deus são irrevogáveis”) e pós-con­cil­iar (cfr. Gio­van­ni Pao­lo II em Mongú­cia em 1980: “A Anti­ga Aliança jamais revo­ga­da”) o Hebraís­mo atu­al seria ain­da tit­u­lar da Aliança com Deus. Ao con­trário dis­so, a Tradição Católi­ca (S. Escrit­u­ra inter­pre­ta­da unanime­mente pelos Padres e Mag­istério ecle­siás­ti­co con­stante e uni­forme) ensi­na que «existe uma primeira e existe uma segun­da Aliança: irrevogáv­el é aqui­lo que da primeira pas­sa a segun­da, assum­i­da pela out­ra, quan­do está “anti­qua­da e sujei­ta a envel­hec­i­men­to ulte­ri­ores, está ago­ra para desa­pare­cer” (, VIII, 8–13).Senão que a graça prometi­da aos tit­u­lares da primeira Aliança não morre come lá, mas vem alarga­da aos tit­u­lares da segun­da: isto, de fato, se ver­i­fi­cou, quan­do quase todos os tit­u­lares da primeira, recu­san­do Cristo, não recon­hece­r­am o tem­po em que Deus lhes havia vis­i­ta­do (Lc., XIX, 44). “Aque­les, porém, que rece­ber­am” o Vis­i­ta­dor “deu-lhes o poder de se tornarem fil­hos de Deus” (Jo. I,12),  rat­i­fi­ca com ess­es (a “peque­na relíquia” do povo hebraico que aceitou a Cristo) a segun­da Aliança e a abre a quan­tos (os pagãos) chegassem “do ori­ente e do oci­dente” do norte e do meio-dia (Lc., XIII, 29), trans­ferindo para a segun­da todos os dons já em posse da primeira. Então, muitos mem­bros do povo eleito recusaram Cristo, mas “um pequeno resto” (Após­to­los e Dis­cípu­los) O acol­her­am (Rm., XI, 1–10). A declar­ação Nos­tra Aetate não traz nen­hu­ma citação de um Padre da Igre­ja, de um Papa ou de um pro­nun­ci­a­men­to do Mag­istério, porque não há nen­hu­ma. Como se pode diz­er que 95% destes Doc­u­men­tos são aceitáveis e man­tém inte­gra e invi­o­la­da a Fé católi­ca, sem a qual ninguém pode se sal­var?

O úni­co Doc­u­men­to do Con­cílio Vat­i­cano II que não con­tém graves erros, é o Decre­to sobre “Os instru­men­tos de comu­ni­cação social” Inter mir­i­fi­ca (4 de dezem­bro de 1963) [4]. Esse con­ta, a grosso modo, com 10 pági­nas sobre cer­ca de 600 dos 16 Doc­u­men­tos do Vat­i­cano II. Não vejo, por­tan­to, como se pode diz­er que os Doc­u­men­tos do Con­cílio Vat­i­cano II são 95% aceitáveis quan­do a jus­ta pro­porção seria em torno de 1 para 60, admi­ti­do e não con­ce­di­do que seja líc­i­to faz­er uma equação matemáti­ca em questões que dizem respeito a Dout­ri­na e os Cos­tumes.

Esta entre­vista de Mons. Fel­lay sobre a aceitação do Con­cílio Vat­i­cano II em 95%, que verte sobre questões de Fé, sem a qual “é impos­sív­el agradar a Deus” (Hb XI, 6)[5], foi retoma­da pelo órgão de impren­sa ofi­cial “DICI” da ‘FSSPX’ e não foi jamais des­men­ti­da. Por­tan­to, não pode ser min­i­miza­da como se fos­se de pou­ca importân­cia e deixa dúvi­das sobre a inte­gri­dade doutri­nal da Direção da ‘FSSPX’.

De fato, a Fé não pode ser acei­ta em 95% e o erro não pode ser recu­sa­do em 5%.

A teolo­gia católi­ca ensi­na que as “Ver­dades de Fé”, não admitem a escol­ha ou a seleção e os erros con­tra a Fé não admitem a recusa par­cial.

A Rev­e­lação, a Fé, a Dout­ri­na católi­ca ou se acei­ta inte­gral­mente como é, e então, se abre a via ao Céu se é acom­pan­ha­da de Boas Obras, tam­bém, se for nega­do ain­da que seja um só Arti­go ou Ver­dade de Fé, ela é rejeita­da por inteiro, e então, se entra em uma estra­da perigosa, porque “sem Fé é impos­sív­el agradar a Deus” (Hb, XI, 6). A definição eti­mológ­i­ca de here­sia (do grego “haere­ses”=escol­ha) é pro­pri­a­mente aque­la de sele­cionar e escol­her algu­mas Ver­dades ou Arti­gos de Fé e out­ros não.

Ora, “ a todo peca­do mis­er­icór­dia”, se existe arrependi­men­to; porém aqui me parece que não falte ape­nas todo arrependi­men­to ou repen­sar, mas que exista ao menos uma grave inco­erên­cia da parte de “La Tradizione Cat­toli­ca” no con­denar os out­ros por análo­gas doutri­nas pro­fes­sadas pelo Supe­ri­or ger­al da ‘FSSPX’[6]. Não quero ras­gar as min­has vestes e diz­er não fre­quen­tar as Mis­sas dos Sac­er­dotes da Frater­nidade, mas per­maneço mais que per­plexo diante das suas injunções de fre­quen­tar ape­nas a sua Mis­sa.

Ver­dadeira­mente, per­gun­to: ”La Tradizione Cat­toli­ca” desapro­va esta entre­vista de Mons. Fel­lay ou a apro­va? E a apro­va, como pode dar a dire­ti­va de evi­tar a Mis­sa dos sac­er­dotes que “fazem profis­são de aceitar os erros do Con­cílio”, quan­do, por declar­ação ofi­cial do Supe­ri­or ger­al, a própria Frater­nidade aceitaria 95% do Con­cílio?

2) Deixa per­plexo tam­bém a dire­ti­va que diz respeito ao Motu Pro­prioSum­mo­rum Pon­tif­i­cum cura” de 7 de jul­ho de 2007, ele declar­ou que a Mis­sa tradi­cional não podia ser ab-roga­da e então, ain­da está em vig­or e todo sac­er­dote pode cel­e­bra-la. Esta parte pos­i­ti­va do Motu próprio “Sum­mo­rum Pon­tif­i­cum cura” implici­ta­mente recon­hece que Paulo VI come­teu um abu­so de poder declaran­do ab-roga­da a Mis­sa tradi­cional e além dis­so, tor­na pos­sív­el a todos os sac­er­dotes de cel­e­brar a Mis­sa tradi­cional sem obri­ga-lo a recon­hecer a bon­dade doutri­nal dos Doc­u­men­tos do Vat­i­cano II e a ple­na orto­dox­ia do Novus Ordo Mis­sae como reque­ria ao invés o indul­to de 1984, deixan­do assim os sac­er­dotes livres de cen­sura abu­si­va, dev­e­ri­am sofr­er de 1976 até 2007.

É ver­dadeiro que suces­si­va­mente o motu próprio assim­i­la (de maneira errônea e inapro­pri­a­da) o anti­go rito (Mis­sa de Tradição Apos­tóli­ca) ao novo rito (Novus Ordo Mis­sae), mas isto não sig­nifi­ca que os Sac­er­dotes, que (re)-começaram a cel­e­brar a Mis­sa tradi­cional depois do Motu Pro­prio de 2007, ipso fac­to fazem ou devem faz­er própria tal assim­i­lação, como ao con­trário deixa enten­der “La Tradizione Cat­toli­ca” n.º 86, 1/2013

3) Enfim, no que diz respeito ao vel­ho Indul­to me parece jus­to recor­dar que o então Supe­ri­or ger­al da ‘FSSPX’, Padre Franz Schmid­berg­er, tin­ha envi­a­do uma “petição” a João Paulo II para obter a lib­er­ação da Mis­sa de S. Pio V e como con­se­quên­cia o Papa con­cede (3 de out­ubro de 1984) um “indul­to” com a condição (que não se encon­tra no motu próprio de 2007) de recon­hecer a ple­na orto­dox­ia do Con­cílio Vat­i­cano e do ‘Novus Ordo Mis­sae’ de Paulo VI, condição que foi acol­hi­da bem favoráv­el pelo Padre Schmidberger[7], mas não por Mons. Mar­cel Lefeb­vre e nem mes­mo por Mons. Antônio de Cas­tro May­er, que falou até mes­mo de “indul­to doloso”.

Pre­cisações jurídicas/ canôni­cas

Quan­to a ple­na orto­dox­ia da dout­ri­na dog­máti­ca de um Min­istro ou do seu Insti­tu­to, ape­nas o juí­zo canóni­co e jurídi­co da Hier­ar­quia (Papa e Bis­pos res­i­den­ci­ais) pode esta­b­ele­cer qual Min­istro ou Insti­tu­to seja “vitan­do”. Não é um sin­gu­lar Sac­er­dote, uma sin­gu­lar Ordem ou a ‘FSSPX’ que pode emi­tir uma decisão vin­cu­lante nes­ta matéria. Ao máx­i­mo se pode acon­sel­har ou desacon­sel­har caso por caso, mas não obri­gar os fiéis ten­do atenção para não come­ter um Abu­so de autori­dade, cain­do no sub­je­tivis­mo democráti­co, segun­do o qual a Autori­dade vem de baixo.

Na Igre­ja a Autori­dade, por dire­ito divi­no, vem de Deus ao Papa e deste ao Bis­po dioce­sano. A ‘FSSPX’ não rece­beu a Autori­dade ou a Juris­dição de Deus através do Papa, então, não pode atribuir-se a ela, sob pena de grave peca­do e de erro doutri­nal (dog­máti­co e dis­ci­pli­nar) con­tra a div­ina Insti­tu­ição da Igre­ja hierárquica.

Então, é pre­ciso ter atenção em não pri­var os fiéis da Mis­sa tradi­cional lá onde existe uma só, mes­mo se não é cel­e­bra­da por sac­er­dotes da ‘FSSPX’, que não é a Igre­ja uni­ver­sal.

Em tem­pos cat­a­stró­fi­cos como estes, é pre­ciso faz­er o pos­sív­el para aju­dar os fiéis a terem os Sacra­men­tos e o Rito tradi­cional a fim de que vivam na graça de Deus e para sal­var a alma, e não dis­sua­di-lo ou mes­mo proibir de fre­quen­tar lá onde estão.

É fácil para um Sac­er­dote da ‘FSSPX’ diz­er : ”ande aqui e ande lá ”, porque ele pes­soal­mente tem a Mis­sa tradi­cional quo­tid­i­ana­mente asse­gu­ra­da. Mas quan­to ao fiel que, no mun­do ”infer­nal” de hoje, em que é muito difí­cil viv­er habit­ual­mente na Graça de Deus, mora em uma metró­pole em que existe uma só Mis­sa tradi­cional cel­e­bra­da por um Sac­er­dote que não é da ‘FSSPX’, seria – como mín­i­mo – grave­mente impru­dente proibir lhe de fre­quen­ta-la, porque se con­sid­era que o úni­co Insti­tu­to inteira­mente bom seja a Fraternidade[8]. Antes de emi­tir (arro­gan­do-se uma Juris­dição e uma Autori­dade que não se tem) sen­tenças defin­i­ti­vas e obri­g­antes sobre a sub­stan­cial inte­gri­dade dog­máti­ca e litúr­gi­ca de um Sac­er­dote ou de um Insti­tu­to, com con­se­quên­cias dev­as­tantes para as almas dos fiéis, se refli­ta que a ”supre­ma lex Eccle­si­ae” é a ”salus ani­marum“.

A assistên­cia a Mis­sa de um Sac­er­dote não sig­nifi­ca seguir ipso fac­to a Tese teológ­i­ca que ele prop­ugna [9]. Assim, nem todos os fiéis que seguem a Mis­sa tradi­cional em uma Capela em que ofi­ci­am, expli­cam o Evan­gel­ho domini­cal e ensi­nam os rudi­men­tos prin­ci­pais da Dout­ri­na católi­ca tradi­cional os Sac­er­dotes sede­va­can­tis­tas, os Páro­cos que cel­e­bram tam­bém segun­do o Novo Rito, os Sac­er­dotes da Eccle­sia Dei ou os Sac­er­dotes que começaram a cel­e­brar a Mis­sa tradi­cional depois de 7 de jul­ho de 2007 devem ipso fac­to e nec­es­sari­a­mente com­par­til­har a Tese teológ­i­ca dos cel­e­brantes sobre a crise, que ator­men­ta atual­mente os home­ns da Igre­ja. O impor­tante é que, nestes tem­pos assim difí­ceis e apoc­alíp­ti­cos, os fiéis ten­ham a Mis­sa da Tradição apos­tóli­ca, o ensi­na­men­to da Dout­ri­na católi­ca comum e ofi­cial con­ti­da no Cate­cis­mo tradi­cional (sem descer para questões teológ­i­cas árd­uas e ain­da dis­putadas) e se aprox­imem reg­u­lar­mente dos Sacra­men­tos (espe­cial­mente a Con­fis­são e a Comunhão) para viv­er na Graça de Deus e se sal­var a alma.

Estou per­plexo e não con­si­go enten­der com qual Autori­dade se pos­sa proibir, até mes­mo sob pena de peca­do grave, de fre­quen­tar a Mis­sa tradi­cional cel­e­bra­da por Sac­er­dotes que seguem uma Tese teológ­i­ca não com­par­til­ha­da em ape­nas 5% pela ‘FSSPX’ sobre o prob­le­ma da atu­al crise que agi­ta o ambi­ente católi­co e não me parece com isto ofend­er ninguém. Sobre este prob­le­ma a Igre­ja hierárquica ain­da não se pro­nun­ciou explici­ta­mente, em maneira obri­gatória e defin­i­to­ria, muito menos pode fazê-lo a Frater­nidade. A ‘FSSPX’ se atribuí, talvez, uma Juris­dição uni­ver­sal, análo­ga e para­lela àquela do Papa, que lhe viria dire­ta­mente de Deus, sobre todos os fiéis do mun­do: Se é assim, o diga clara­mente. Se não é assim, por qual razão proíbe aos fiéis de fre­quen­tar as Mis­sas tradi­cionais cel­e­bradas pelos Sac­er­dotes que não fazem parte da própria Frater­nidade?

 

Sin­ce­ra­mente não vejo nen­hum Sac­er­dote ou Insti­tu­to sac­er­do­tal assis­ti­do infalivel­mente e inde­fec­tivel­mente por Deus, nem pode exi­s­tir. Só a Igre­ja Católi­ca o é. Mas – ai de mim – hoje, com o Con­cílio Vat­i­cano II e a Nova Mis­sa de 1970, a “fumaça de Satanás pen­etrou tam­bém na Igre­ja”, como recon­hece o próprio Paulo VI (mes­mo se depois não fez nada para faze-la sair). Se o Novo Rito colo­ca o fiel em uma trág­i­ca “neces­si­dade de opção” (Cardeal Alfre­do Otta­viani e Antônio Bac­ci) e se deve fre­quen­tar a Mis­sa que a Igre­ja sem­pre cele­brou des­de a era apos­tóli­ca (“quod sem­per, quod ubique, quod ab omnibus”, S. Vin­cente de Lérins, Com­mon­i­to­ri­um, I), não se pode proibir a assistên­cia ao Rito tradi­cional, só porque se con­sid­era que os úni­cos a cel­e­brar e a pre­gar cor­re­ta­mente sobre qual­quer questão par­tic­u­lar da Teolo­gia católi­ca seja ape­nas os mem­bros da ‘FSSPX. É pre­ciso sem­pre dis­tin­guir uma Tese teológ­i­ca livre­mente dis­puta­da da Dout­ri­na comum e ofi­cial da Igre­ja, daque­la teo­logi­ca­mente cer­ta ou até mes­mo de Fé rev­e­la­da e defini­da.

A Igre­ja foi fun­da­da hier­ar­quica­mente e monar­quica­mente, não demo­c­ra­ti­ca­mente, por Jesus sobre Pedro e os seus suces­sores, os Papas, aos quais trans­mite a Sua Autori­dade; deles vem a Juris­dição aos Bis­pos nas suas Dio­ce­ses os quais a del­egam aos Páro­cos nas suas próprias Paróquias. Ora, se “em tem­pos de grave crise, que começa a invadir quase toda a Igre­ja é pre­ciso faz­er aqui­lo que a Igre­ja sem­pre fez, evi­tan­do as novidades”[10] (S. Vicente de Lérins, Com­mon­i­to­ri­um, I), e, então, “se pode resi­s­tir pub­li­ca­mente e excep­cional­mente a decisões da Autori­dade ecle­siás­ti­ca” ” (Arnal­do Xavier Vidi­gal Da Silveira)[11], não é jamais líc­i­to atribuir-se uma Juris­dição que vem só de Deus através do Papa aos Bis­pos dioce­sanos. Se agísse­mos assim, fare­mos então parte não mais da Igre­ja fun­da­da por Cristo, mas de uma “igre­jo­la” fun­da­da ou, mel­hor, imag­i­na­da por nós.

Nes­ta hora tene­brosa todo sac­er­dote, todo Insti­tu­to e tam­bém a ‘FSSPX’ tem as suas “som­bras”[12], as suas incertezas e as suas defi­ciên­cias diante do “Mys­teri­um iniq­ui­tatis” que envolveu o ambi­ente ecle­sial; ninguém que ten­ha mente sã pode pre­tender ver claro em ple­na noite (“haec est hora potes­tas tene­brarum”, e em tal hora tam­bém os Doze se perder­am, Pedro in prim­is). Se o pre­tendesse seria ou um ilu­di­do ou um hipócri­ta.

Agrade­cen­do a Deus, nestes anos, assim, trági­cos as Mis­sas tradi­cionais e os Sac­er­dotes que (re)-ensinam as bases da Dout­ri­na católi­ca comum e ofi­cial se mul­ti­plicaram e esten­der­am quase toda parte, de modo que os fiéis pos­sam ter tam­bém nos lugares onde antes “era lou­cu­ra esper­ar”. Então, não deve­mos ser pos­ses­sivos como o “irmão do fil­ho pródi­go” ou “os operários da primeira hora”, resmungões do Evan­gel­ho, mas nos ale­gre­mos que a Mis­sa apos­tóli­ca e o Cate­cis­mo tradi­cional estão den­tro do alcance de quase todos os pobres fiéis, ““que vêm de longe e se os devolvêsse­mos de mãos vazias viri­am menos pela fome” [espir­i­tu­al]”, como nos ensi­nou Jesus. Con­heço muitos Sac­er­dotes que cel­e­bram a Mis­sa tradi­cional e tem a ver­dadeira Fé católi­ca emb­o­ra sem faz­er parte da ‘FSSPX’.

A tragé­dia do Con­cílio Vat­i­cano II foi com­para­da a um ”Tsuna­mi lama­cen­to » (Mons. Brunero Gher­ar­di­ni), que arras­tou todas as coisas. Se um fiel sobre­vivente a sua fúria dev­as­ta­do­ra encon­tra uma ”tábua de sal­vação” na qual se agar­rar (a Mis­sa e a Dout­ri­na católi­ca tradi­cional), não seria nor­mal requer­er a mar­ca de fábri­ca da ”tábua » ou pre­tender que se busque um navio cruzeiro (na prat­i­ca, a pertença ao ”navio” da ‘FSSPX’). Este modo de agir não tem nada a ver com a vir­tude da Esper­ança, mas sig­nifi­ca ten­tar a Deus e ser temerário.

Espero que ninguém queira pren­der-se a esta ter­rív­el respon­s­abil­i­dade por inter­ess­es paro­quiais. ”Se Ate­nas cho­ra, Espar­ta não ri” diziam os anti­gos Gre­gos. Hoje se pode diz­er : «Se Roma cho­ra, a ‘FSSPX’…não ri»

SEGUNDA PARTE

ABUSO DE PODER E USURPAÇÃO CANÔNICA

 

Casos recentes

Infe­liz­mente, há qual­quer tem­po, a ‘FSSPX’ (tam­bém na Itália) nega os Sacra­men­tos ou até mes­mo impede o ingres­so nas próprias Capelas a fiéis lei­gos (Inter­dic­tus ab ingres­su eccle­si­ae), sobre os quais estre­ita­mente falan­do não tem Juris­dição, emb­o­ra pre­su­min­do que as suas capelas sejam as úni­cas habil­i­tadas a con­ferir a ver­dadeira Mis­sa tradi­cional e os ver­dadeiros Sacra­men­tos. E isto porque os fiéis lei­gos se man­i­fes­tam a não adesão as dire­ti­vas do Supe­ri­or ger­al da Frater­nidade da própria sobre seus recentes colóquios com o Vat­i­cano ou sobre o “caso Williamson”, são acu­sa­dos de ser inimi­gos da Frater­nidade ou até mes­mo de Difamação [13].

Além do que, o fato de não com­par­til­har todas as decisões tomadas por uma pes­soa não tor­na ninguém inimi­go daque­le com o qual não se con­sente, tiran­do que dita pes­soa não con­sidere seus inimi­gos todos aque­les que não a pensem exata­mente como ele nos mín­i­mos detal­h­es. Por exem­p­lo, quan­to San­to Tomás de Aquino foi faz­er uma visi­ta a São Boaven­tu­ra de Bag­nore­gio e lhe dis­ser­am que esta­va escreven­do a Vida de São Fran­cis­co de Assis, o Aquinate responde: ”deix­e­mos que o San­to escre­va para o San­to! ”, emb­o­ra dis­sentisse notavel­mente e pub­li­ca­mente do sis­tema filosófico/teológico de São Boaven­tu­ra, porém, não ape­nas não o con­sid­er­a­va seu inimi­go, mas o con­sid­er­a­va San­to. San­to Agostin­ho ensi­na: ”Nas coisas cer­tas é necessário unidade, nas coisas dis­putadas nos seja a liber­dade e em todo caso se man­ten­ha a cari­dade!”.

Com maior razão se pode não assen­tir a todas as dire­ti­vas que veem do Supe­ri­or ger­al da ‘FSSPX’, sobre­tu­do se não se é cléri­go juridica­mente mem­bro da mes­ma, sem come­ter ipso fac­to um peca­do moral de Calú­nia e um Deli­to penal de Dene­grir e sem ser inimi­go seu e da sua Frater­nidade. Atenção! Os adu­ladores são os nos­sos piores inimi­gos, quem nos cor­rige é o nos­so ver­dadeiro ami­go. Por exem­p­lo, quan­do São Paulo cor­rigiu pub­li­ca­mente São Pedro em Antióquia (Gálatas, II, 11), lhe foi max­i­ma­mente ami­go, enquan­to se o tivesse tran­quil­iza­do na sua prat­i­ca ambígua nos con­fron­tos dos judaizantes lhe seria esta­do inimi­go mor­tal. É por isto que A Imi­tação de Cristo nos adverte: “Sen­hor dá me a força de evi­tar quem me lison­jeia e a sabedo­ria de escu­tar quem me cor­rige”.

Peca­do e Pena canôni­ca de Detratação

Os canon­istas dis­tinguem clara­mente entre o Peca­do de Injúria, Calú­nia ou Detratação (admi­ti­do e não con­ce­di­do que seja Calú­nia e que não nos encon­tremos diante de uma sim­ples divergên­cia de inter­pre­tação) e Deli­to de Injúria. O peca­do não tem Pena canôni­ca, é uma cul­pa moral, que pode ser tam­bém mor­tal e dele se ocu­pa a Teolo­gia moral; enquan­to o Deli­to de Calú­nia é acom­pan­hado de uma Pena canôni­ca (CIC[15], can. 1938). Porém, os canon­istas expli­cam que o Deli­to de Injúria é aque­le cometi­do “con­tra o Papa, os Cardeais, o Ordinário do lugar ou o Bis­po res­i­den­cial” (cfr. P. Palazz­i­ni, voce “Injuria”, in “Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca”, Cit­tà del Vat­i­cano, 1951, vol. VI, coll. 2006–2009).

Além dis­so, “a pena canôni­ca não é jamais impos­ta ipso fac­to ou latae sen­ten­ti­ae, vale diz­er, auto­mati­ca­mente, mas deve ser apli­ca­da por um juiz que rece­beu a investidu­ra ou o manda­to da Igre­ja hierárquica, ou seja, ela é sem­pre fer­en­dae sen­ten­ti­ae” (ivi)[16]. Por­tan­to, a pub­li­cação sobre um jor­nal de uma fal­ta do Supe­ri­or ger­al da ‘FSSPX’ fei­ta para o bem públi­co ou dos pri­va­dos não é um Deli­to penal de Difamação canon­i­ca­mente falan­do, nem é um peca­do moral­mente falan­do e não incorre em Penas ecle­siás­ti­cas, onde o Inter­di­to lança­do con­tra os fiéis lei­gos que dis­sentem da lin­ha do Supe­ri­or Ger­al da ‘FSSPX’ ou lhe expõem as defi­ciên­cias não tem razão para sub­si­s­tir em si e nem mes­mo quan­to ao sujeito que o lançou, o qual não tem a Autori­dade para fazê-lo[17].

Exis­tem questões teológ­i­cas nas quais é líc­i­to ter opiniões diver­sas sem se dev­er ser con­sid­er­a­do por isto como um inimi­go ou pecador públi­co ao qual negar os Sacra­men­tos.

Abu­so de poder

O Inter­di­to lança­do pelos Supe­ri­ores do Dis­tri­to ou pelo Supe­ri­or ger­al da ‘FSSPX’, canon­i­ca­mente não tem nen­hum val­or, porque esles não estão habil­i­ta­dos a faze-lo da Igre­ja que só dá a Juris­dição aos seus mem­bros.

Ora, a proibição de entrar nas Capelas da ‘FSSPX’ (Inter­dic­tus ab ingres­su eccle­si­ae) e a pri­vação dos Sacra­men­tos são infligi­das por um sujeito que não tem Autori­dade sobre Christi fide­les laici (o Supe­ri­or do Dis­tri­to Ital­iano da ‘FSSPX’ tem poder ape­nas sobre os cléri­gos e Sac­er­dotes do Dis­tri­to Ital­iano e o Supe­ri­or ger­al da ‘FSSPX’ tem podem ape­nas sobre mem­bros cléri­gos, Sac­er­dotes e Bis­pos da súb­di­ta Frater­nidade). Então, canon­i­ca­mente estas penas são nulas (CIC, cânones 2226–2235). E o fato de cul­mi­nar lhe é um Abu­so de poder em si mes­mo, que tor­na ain­da mais grave se se pen­sa que a ‘FSSPX’ pre­sume ser a úni­ca a con­ferir os ver­dadeiros Sacra­men­tos, a ver­dadeira Mis­sa e a pura dout­ri­na tradi­cional. Breve­mente, estás Penas na óti­ca da ‘FSSPX’ equiv­alem prati­ca­mente a uma “Exco­munhão”, que sep­a­ra da “Igre­ja” [=FSSPX] “úni­ca arca de sal­vação” os seus fiéis, os quais não terão mais a pos­si­bil­i­dade de par­tic­i­par da ver­dadeira Mis­sa, de rece­ber os ver­dadeiros sacra­men­tos e a sã Dout­ri­na.

Este Abu­so de poder é um peca­do con­tra a vir­tude da Justiça (dar a qual­quer um o seu ou aqui­lo que merece) moral­mente falan­do é um Deli­to canon­i­ca­mente perseguív­el com a nor­ma CIC can. 2404–2414.

O Abu­so de poder pro­pri­a­mente dito, em Dire­ito canôni­co, se ver­i­fi­ca toda vez que alguém, ultra­pas­san­do os lim­ites da própria com­petên­cia, comete um ato ilíc­i­to. […].

O Abu­so de poder no CIC dá sem­pre lugar a um Ilíc­i­to penal (can. 2904). […]. Nos casos de Abu­so cometi­dos pela potes­tade ecle­siás­ti­ca, ver CIC can. 2405–2414” (F. Rober­ti – P. Palazz­i­ni,  voce “Abu­so di potere, in Dizionario di Teolo­gia Morale, Roma, Studi­um, vol. I, p. 17, IV ed., 1968) [18].Como Deli­to a si dev­i­do “o Abu­so de poder da parte dos ecle­siás­ti­cos, por exem­p­lo a cul­mi­nação de Cen­suras injus­tas ou exces­sus prae­la­to­rum seja punido segun­do a decisão pru­dente do Supe­ri­or legí­ti­mo, em pro­porção a gravi­dade da cul­pa” (CIC, can. 2404).

Usurpação de poder

Como se vê a injus­ta cul­mi­nação de um Inter­di­to (Inter­dic­tus ab ingres­su eccle­si­ae) ou de uma Pena (pri­vação dos Sacra­men­tos) são punidos canon­i­ca­mente.

O abu­so, porém, pres­supõe a posse de Autori­dade, Ofí­cio, Função ou Poder legí­ti­mo.

De fato, o Abu­so de poder con­siste no “ultra­pas­sar – seja quan­to ao fim, seja quan­to a sub­stân­cia ou ao modo – os lim­ites impos­tos pela Lei ao exer­cí­cio de cer­tas fac­ul­dades iner­entes as Funções ou Ofí­cios públi­cos […]. Por­tan­to, o Abu­so de poder pres­supõe da parte do sujeito que abusa a legí­ti­ma e efe­ti­va posse de Autori­dade ou do Ofí­cio.

De out­ro modo, é uma Usurpação de poder e de títu­los” (F. Liuzzi, voce “Abu­so di potere”, in “Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca”, Cit­tà del Vat­i­cano, 1949, vol. I, coll. 154–155).

Ora, no caso da ‘FSSPX’, que lança Inter­di­tos e Cen­suras canôni­cas, nos encon­tramos mais pro­pri­a­mente diante da Usurpação de poderes e títu­los que não se tem: aque­les do Bis­po res­i­den­cial com Juris­dição sobre os fiéis da própria Dio­cese ou do Papa com Juris­dição uni­ver­sal sobre os fiéis bati­za­dos de todo o mun­do, porque o Supe­ri­or do Dis­tri­to Ital­iano da ‘FSSPX’ não é o Bis­po dioce­sano e o Supe­ri­or ger­al da Frater­nidade não é o Bis­po res­i­den­cial ten­do Juris­dição e muito menos é o Papa.

O CIC no cânon 2345 recita: “quem usurpa por si ou por meio de out­ros bens ou dire­itos (de infli­gir cen­suras canôni­cas, ndr] incorre na exco­munhão latae sen­ten­ti­ae reser­va­da spe­ciali modo a Sé Apos­tóli­ca. Se são cléri­gos sejam pri­va­dos dos seus bene­fí­cios, ofí­cios, dignidades…”[19]

O Ofí­cio, a Autori­dade, o Car­go ou o Poder é o fun­da­men­to da inteira orga­ni­za­ção da Igre­ja, o instru­men­to indis­pen­sáv­el para o exer­cí­cio nor­mal e orde­na­do das suas funções, de out­ro modo se vive­ria no defeito da Anar­quia (sede­va­can­tismo total) ou no exces­so da Usurpação tirâni­ca (os últi­mos exces­sos da ‘FSSPX’), enquan­to a Igre­ja é uma Sociedade juridica­mente e monar­quica­mente estru­tu­ra­da por Von­tade div­ina, sem anar­quia e tira­nia.

O CIC de 1917 no cânon 145 dis­tingue entre o Ofí­cio (munus) em sen­ti­do largo e o Ofí­cio em sen­ti­do estre­ito. O Ofí­cio em sen­ti­do lato é qual­quer função ou encar­go exerci­ta­do legit­i­ma­mente para um fim espir­i­tu­al (salus ani­marum), por exem­p­lo o Ofí­cio de Sac­er­dote, cateq­ui­sta, pre­gador. Enquan­to em sen­ti­do estre­ito, o Ofí­cio é uma Função estáv­el a qual é anexa uma par­tic­i­pação na Juris­dição (can. 145, § 1), por exem­p­lo o Ofí­cio de Bis­po, Páro­co, Supe­ri­or reli­gioso.

Então para exerci­tar o Ofí­cio de aplicar Cen­suras ecle­siás­ti­cas é necessário ter rece­bido um “Con­fer­i­men­to canóni­co” da Igre­ja hierárquica (Papa e Bis­po res­i­den­cial) dita tam­bém “provi­da” ou “pro­visão”. A “pro­vi­sio canon­i­ca” (can. 147) é a con­cessão do Ofí­cio ecle­siás­ti­co fei­ta pela Autori­dade com­pe­tente (can. 147, § 2) e é indis­pen­sáv­el para pôr atos canon­i­ca­mente líc­i­tos e váli­dos e aplicar Cen­suras ecle­siás­ti­cas.

De fato, a Usurpação é a ocu­pação inde­v­i­da de um Ofí­cio ou Car­go ao qual não se tem dire­ito, não ten­do rece­bido o man­do ou a pro­visão canôni­ca da Autori­dade. Por­tan­to, quem exerci­ta tal Ofí­cio sem títu­lo é um usurpador, ou seja, um tira­no espir­i­tu­al (can. 146–153).

Esta é a difer­ença essen­cial entre o Abu­so de poder e a Usurpação.

1º) Se tem o Abu­so de poder quan­do o ato é arbi­trário e cometi­do por uma pes­soa que pos­sui Autori­dade, Ofí­cio ou Função canôni­ca (CIC, can. 2404–2014), e é punido com uma pena fer­en­dae sen­ten­ti­ae pro­por­cional a gravi­dade do deli­to; 2º) Se tem a Usurpação quan­do o arbítrio é cometi­do por quem não tem nen­hu­ma autori­dade canôni­ca para pôr cer­tos atos e aplicar Cen­suras ecle­siás­ti­cas [20].

Con­clusões

1º) É líc­i­to fre­quen­tar a Mis­sa tradi­cional cel­e­bra­da por qual­quer Min­istro val­i­da­mente orde­na­do e não ape­nas dos Sac­er­dotes da ‘FSSPX’, que acei­ta 95% do Con­cílio Vat­i­cano II;

2º) se a ‘FSSPX’ proíbe isto comete um Abu­so de poder e se essa cul­mi­na Cen­suras (pri­vações dos Sacra­men­tos, inter­dição de entrar na Igre­ja), caí na Usurpação de poder ou tira­nia espir­i­tu­al.

Carís­si­mos fiéis podeis fre­quen­tar a Mis­sa na ‘FSSPX’, mas se “La Tradizione Cattolica/FSSPX” quis­er per­se­ver­ar sobre esta lin­ha (espero que não) e lhes negar os Sacra­men­tos, fre­quen­tai tran­quil­a­mente a Mis­sa tradi­cional dos Sac­er­dotes não embe­bidos por pre­juí­zos teológi­cos, que chegam até mes­mo a graves Abu­sos de poder e a Usurpações canôni­cas.

Em uma situ­ação difí­cil como a hodier­na é fácil desviar muito a dire­i­ta ou muito a esquer­da. Enten­do a pressão a que são sub­meti­dos os Sac­er­dotes da Frater­nidade e a ten­são que lhe pode seguir, mas espero viva­mente que não queiram per­se­ver­am na direção abu­si­va aci­ma expos­ta.

Padre Curzio Nitoglia

12 de abril de 2013

 http://doncurzionitoglia.net/2013/04/13/332/

[1] A Cole­gial­i­dade epis­co­pal foi con­stan­te­mente con­de­na­da pelo Mag­istério ecle­siás­ti­co até Pio XII, que três meses antes de mor­rera ain­da escreveu na Encícli­ca Ad Apos­tolo­rum prin­cip­is (29 de jun­ho de 1958), insiste pela ter­ceira vez, depois da Mys­ti­ci Cor­poris de 1943 e da Ad Sinarum gen­tem de 1954, que a juris­dição vem aos Bis­pos através do Papa.

[2] O cardeal Arca­dio Maria Lar­raona em 18 de out­ubro de 1964 invi­ou uma car­ta a Paulo VI em que entre out­ras escreve: «seria novo, inau­di­to e bem estran­ho que uma dout­ri­na [cole­gial­i­dade epis­co­pal], que antes do Con­cílio era tida como menos comum, menos prováv­el, menos séria e menos fun­da­da, pas­sasse impro­visada­mente […] a se tornar mais prováv­el, antes cer­ta ou mes­mo madu­ra para ser inseri­da em uma Con­sti­tu­ição con­cil­iar. Isto seria coisa con­trária a toda nor­ma ecle­siás­ti­ca, seja em tópi­co de definições infalíveis pon­tif­í­cias seja dos ensi­na­men­tos con­cil­iares mes­mo não infalíveis. […] O esque­ma [sobre cole­gial­i­dade] muda o ros­to da Igre­ja, de fato: a Igre­ja se tor­na monárquica, epis­co­pal e cole­gial; e isto em vir­tude da con­sagração epis­co­pal. O Pri­ma­do papal per­manece into­ca­do e esvazi­a­do. […]. O Pon­tí­fice romano não é apre­sen­ta­do como a Pedra sobre a qual se apoia toda a Igre­ja de Cristo (hier­ar­quia e fiéis); não é descrito como Vigário de Cristo na ter­ra; não é pre­sen­ta­do como aque­le que ape­nas tem o poder das chaves.

[…] A Hier­ar­quia de Juris­dição, enquan­to dis­tin­ta da Hier­ar­quia de Ordem, vem dese­qui­li­bra­da. De fato, se se admite que a con­sagração epis­co­pal leva com si a Potes­tade de Ordem, mas tam­bém, por dire­ito divi­no, todas as Potes­tades de Juris­dição (mag­istério e gov­er­no) não só na própria Igre­ja, mas tam­bém na uni­ver­sal, evi­den­te­mente a dis­tinção obje­ti­va e real entre Poder de Ordem e Poder de Juris­dição, se tor­na arti­fi­ciosa, capri­chosa e medrosa­mente vac­ilante. E tudo isto – se atente bem – enquan­to todas as fontes, as declar­ações doutri­nais solenes, tri­denti­nas e pos­te­ri­ores, procla­mam esta dis­tinção ser de dire­ito divi­no. […] A Igre­ja teria vivi­do por muitos sécu­los em dire­ta oposição ao dire­ito divi­no […] Os orto­dox­os e em parte os protes­tantes teri­am, então, tido razão nos seus ataques con­tra o pri­ma­do» Cit. in M. Lefeb­vre, J’accuse le Con­cile, Mar­tigny, Ed. Saint Gabriel, 1976, pp. 89–98.

[3] Dout­ri­na con­stan­te­mente e então infalivel­mente (cfr. Pio IX, Car­ta ao Arce­bis­po de Môna­co Tuas liben­ter, 1863) ensi­na­da por S. Gregório Nazianzeno Nazianzeno († 390), Hom. XVII; até Pio XII († 1958), Dis­cor­so ai Giuristi Cat­toli­ci Ital­iani, 6 dicem­bre 1953

[4] Inter mir­i­fi­ca ensi­na que os instru­men­tos de comu­ni­cação (jor­nais, rádio, tele­visão, cin­e­ma, etc) são neu­tros em si e podem se tornar bons se são orde­na­dos a um fim hon­esto (ensi­nar a ver­dade e mover ao bem); enquan­to podem se tornar nocivos se são orde­na­dos ao mal (o erro e o vício). Então, exor­ta os pro­du­tores, os oper­adores e os con­sum­i­dores a faz­er-lhe bom uso como um meio orde­na­do a um fim hon­esto, “tan­to quan­to nem mais e nem menos”.

[5] O Sím­bo­lo de San­to Ataná­sio (275–373) recita: «Quem quer sal­var-se deve, antes de tudo, pro­fes­sar a fé católi­ca; se alguém a não pro­fes­sar, inte­gral e invi­olavel­mente, é cer­to que se perderá por toda a eternidade. […].Esta é a fé católi­ca; e todo aque­le que a não pro­fes­sar, com fidel­i­dade e firmeza, não poderá sal­var-se» (DS 75–76).

[6] Veja a Parábo­la do Evan­gel­ho segun­do Mateus (XVIII, 23–35): «Por isso, o Reino dos céus é com­para­do a um rei que quis ajus­tar con­tas com seus ser­vos. Quan­do começou a ajustá-las, troux­er­am-lhe um que lhe devia dez mil tal­en­tos. Como ele não tin­ha com que pagar, seu sen­hor orde­nou que fos­se ven­di­do, ele, sua mul­her, seus fil­hos e todos os seus bens para pagar a dívi­da. Este ser­vo, então, prostrou-se por ter­ra diante dele e supli­ca­va-lhe: Dá-me um pra­zo, e eu te pagarei tudo! Cheio de com­paixão, o sen­hor o deixou ir emb­o­ra e per­doou-lhe a dívi­da. Ape­nas saiu dali, encon­trou um de seus com­pan­heiros de serviço que lhe devia cem denários. Agar­rou-o na gar­gan­ta e quase o estran­gu­lou, dizen­do: Paga o que me deves! O out­ro caiu-lhe aos pés e pediu-lhe: Dá-me um pra­zo e eu te pagarei! Mas, sem nada quer­er ouvir, este homem o fez lançar na prisão, até que tivesse pago sua dívi­da. Ven­do isto, os out­ros ser­vos, pro­fun­da­mente tristes, vier­am con­tar a seu sen­hor o que se tin­ha pas­sa­do. Então o sen­hor o chamou e lhe disse: Ser­vo mau, eu te per­doei toda a dívi­da porque me supli­cas­te. Não devias tam­bém tu com­pade­cer-te de teu com­pan­heiro de serviço, como eu tive piedade de ti?” ».

[7] “Ape­sar dis­to [as condições impostas por João Paulo II, ndr], nos ale­gramos com esta decisão…” (don Franz Schmid­berg­er, Riken­bach 18 otto­bre 1984).

[8] Cada Ordem ou Insti­tu­to tem os seus lados de som­bra ou lim­ites doutri­nais, ape­nas Deus é abso­lu­ta­mente sim­ples, puro e per­feito. Por exem­p­lo os Domini­canos, os Fran­cis­canos e os Jesuí­tas seguem três doutri­nas teológ­i­cas livre­mente dis­putadas assaz diver­sas entre elas (Tomis­mo, Sco­tismo e Suarezis­mo). Seria um grave abu­so de poder, além de uma fal­ta de bom sen­so, se os Jesuí­tas ou os Domini­canos ou Fran­cis­canos dissessem: «se pode ir ape­nas na Mis­sa cel­e­bra­da pela ‘Com­pan­hia de Jesus’ ou pela “Ordem dos Pre­gadores’ ou pelos ‘Frades Menores’».

[9] Por exem­p­lo, não todos os fiéis que vão a Mis­sa dos Domini­canos são ipso fac­to tomis­tas, como não todos os fiéis que vão a Mis­sa dos Jesuí­tas são suarezis­tas. Se pode fre­quen­tar a Mis­sa dos Domini­canos e ser suarezis­tas ou a Mis­sa dos Jesuí­tas e ser tomis­tas. Os Jesuí­tas não podem expelir das suas igre­jas os tomis­tas e nem os Domini­canos podem expelir das suas os suarezis­tas.

[10] Por exem­p­lo, se podem evi­tar as “novi­dades’ neo­mod­ernistas con­ti­das nos Doc­u­men­tos do Con­cílio Vat­i­cano II, o qual «não definiu nen­hum dog­ma, mas escol­heu delib­er­ada­mente de per­manecer a um nív­el modesto, como sim­ples Con­cílio pura­mente pas­toral» (card. J. RATZINGER, Dis­cur­so a Con­fer­ên­cia Epis­co­pal Chile­na, San­ti­a­go do Chile, 13 luglio 1988, in “Il Saba­to”, n. 31, 30 jul­ho-5 agos­to 1988). Então, o Con­cílio Vat­i­cano II não obri­ga e se pode não aderir as suas indi­cações pas­torais, per­manecen­do lig­a­dos àqui­lo que a Igre­ja sem­pre ensi­nou ou definiu dog­mati­ca­mente. Esta mes­ma tese já tin­ha sido for­mu­la­da por Paulo VI por bem mais de três vezes em 6 de março de 1964, em 16 de novem­bro de 1965 e em 15 de novem­bro de 1966.

[11] Cfr. A. X. Vidi­gal Da Sil­veira, Pode haver erro nos doc­u­men­tos do mag­istério, in “sì sì no no”, n. ° 17, 15 out­ubro de 2010; Id., Qual é a autori­dade doutri­nal dos doc­u­men­tos pon­tif­í­cios e con­cil­iares? , in “sì sì no no”, n. ° 18, 31 out­o­bro 2010;  Id., Resistên­cia públi­ca a decisões da Autori­dade ecle­siás­ti­ca, in “sì sì no no”, n. ° 19, 15 novem­bre 2010; Id., La Nou­velle Messe de Paul VI. Qu’en penser?, Chiré en Mon­treuil, DPF, 1975.

Se pode, então, não fre­quen­tar a Mis­sa nova sem come­ter peca­do, porque ela está em rup­tura com a Tradição apos­tóli­ca (Da Sil­veira) e “se dis­tan­cia de maneira impres­sio­n­ante da Dout­ri­na católi­ca defini­da infalivel­mente pelo Con­cílio de Tren­to sobre o Sac­ri­fí­cio da Mes­sa” (Cardeais Alfre­do Otta­viani e Anto­nio Bac­ci, Breve Esame Criti­co del Novus Ordo Mis­sae, 1969).

[12] Atenção! Não digo que a Frater­nidade é só e exclu­si­va­mente “som­bra”, recon­heço que mes­mo ela, como todo ente cri­a­do, pode ter som­bras e de fato lhe tem, veja a entre­vista aci­ma cita­da de Mons. Fel­lay.

[13] Cfr. P. Ciprot­ti, De ini­uria ac diffamazione in iure poe­nali canon­i­co, Roma, 1937; F. X. Wernz – P. Vidal, Jus Canon­icum, tom. VII, Jus Poe­nale Eccle­si­as­ticum, Roma, 1937, nn. 445–500, pp. 476–557; F. M. Cap­pel­lo, Sum­ma Juris Canon­i­ci, vol. III, Roma, 1940, n. 452, p. 407 ss.; P. Palazz­i­ni (a cura di), Dic­tio­nar­i­um morale et canon­icum, Roma, Offi­ci­um Lib­ri Catholi­ci, 1965, vol. II, voce “Detrac­tio”, pp. 70–72 e voce “Ini­uria”, pp. 719–727.

[14] E. Jone, Com­pen­dio di Teolo­gia Morale, Tori­no, Mari­et­ti, VI ed., 1964, p. 311, n.° 377.

[15] Me refiro ao Códi­go de 1917, que é mais severo do que o de 1983. Pelo que se o primeiro Códi­go não pune cer­tos atos, a maior razão o novo Códi­go pro­mul­ga­do por João Paulo II não lhe penal­iza.

[16] Sobre Deli­to canôni­co-penal di Injuria cfr. F. M. Cap­pel­lo, Trac­ta­tus canon­i­co-moralis de cen­suris, III ed., Tori­no, 1933; F. Liuzzi, voce “Autorità Eccle­si­as­tiche. Delit­ti con­tro le”, in “Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca”, Cit­tà del Vat­i­cano, 1949, vol. II, coll. 491–496.

[17] Cfr. A. Ret­zbach, Il Dirit­to del­la Chiesa, tr. it., Alba, Pao­line, 1958, libro V, parte 1, 2 e 3, pp. 577–660; P. Ciprot­ti, Lezioni di dirit­to canon­i­co, Pado­va, 1943.

[18] F. Rober­ti, Abu­so di potere canon­i­co, in “Nuo­vis­si­mo Digesto Ital­iano, I, 1, pp. 104–107.

[19] Cfr. E. Jone, Com­pen­dio di Teolo­gia morale, cit., p. 374, n.° 439, § 9.

[20] Cfr. F. Rober­ti, De delic­tis et poe­nis, I, 1, Roma, 1930.

 

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