Introdução a verdadeira noção de Magistério

Intro­dução a

VERDADEIRA NOÇÃO DE MAGISTÉRIO

 

PADRE CURZIO NITOGLIA
30 de dezem­bro de 2011
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]
http://www.doncurzionitoglia.com/introduzione_magistero.htm

Ó Sen­hor, do qual os San­tos inocentes con­fes­saram o lou­vor, não falan­do, mas mor­ren­do, mor­ti­fi­ca em nós todos os males e vícios; afim de que a Fé em Ti, que é pro­fes­sa­da pela nos­sa lín­gua, seja colo­ca­da em práti­ca tam­bém pela nos­sa boa con­du­ta”

(Missal Romano, Cole­ta da Mis­sa dos San­tos Inocentes, 28 de dezem­bro).

Advertên­cia

Intro­dução para tornar acessív­el a todos quan­to verão escrito na Revista quinzenal “Sim Sim Não Não”, de 15 de janeiro de 2012, e pub­li­ca­do ante­ci­pada­mente, em 28 de dezem­bro de 2011, por gen­til con­cessão, em vários blogs sobre o tema da Tradição e do Mag­istério, o blog “Chiesa e post-con­cilio” tam­bém já o pub­li­cou, mas “não em seu for­ma­to final”. A questão é de máx­i­ma importân­cia, espe­cial­mente nestes dias em que, tam­bém em ambi­ente anti­mod­ernista, apare­ce­r­am pub­li­cações inex­atas (por exces­so ou por defeito) sobre estes dois temas. Espero que este breve resumo seja capaz de esclare­cer e ilu­mi­nar as almas.

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Tradição/Magistério

  • Recen­te­mente apare­ce­r­am arti­gos e livros, que, para defend­er a Tradição e a Igre­ja, ou exager­aram o alcance do Mag­istério, fazen­do dele um “Abso­lu­to” ou o min­i­mizaram e quase o aniquila­ram, negan­do lhe a função de “inter­pre­tar a Tradição e a S. Escrit­u­ra”. Onde para evi­tar o erro por exces­so (que abso­l­u­ti­za o Mag­istério) e por defeito (que min­i­miza a sua real­i­dade) sobre este argu­men­to, resumo aqui­lo que escreveu no pas­sa­do [1] e recen­te­mente mons. Brunero Gher­ar­di­ni (cfr. Dis­pu­ta­tiones The­o­log­i­cae) e aqui­lo que se encon­tra nos mel­hores man­u­ais de ecle­si­olo­gia, que serão cita­dos nas notas.
  • Deve­mos evi­tar a pre­mis­sa errônea que faz do Mag­istério um “Abso­lu­to” e não um “ente cri­a­do”, um “Fim” e não um “meio”, um “Sujeito inde­pen­dente” (abso­lu­tus = livre) de tudo e de todos. Nada neste mun­do tem a qual­i­dade de Abso­lu­to. A Igre­ja não é exceção, nem a sua Tradição, nem o seu Mag­istério e nem sequer a Hier­ar­quia, incluin­do o Papa. Só Deus é a úni­ca real­i­dade últi­ma ou abso­lu­ta, infini­ta e incri­a­da.
  • Sobre a Tradição a Igre­ja exerci­ta um ‘dis­cern­i­men­to’ que dis­tingue o autên­ti­co do não autên­ti­co. O faz medi­ante um instru­men­to que é o Mag­istério. O Mag­istério é um ‘serviço’, mas é tam­bém uma ‘tare­fa’, um “múnus”, pre­cisa­mente o “múnus docen­di”, que não pode nem deve sobre­por-se a Igre­ja da qual e pela qual ele nasce e obra. Do pon­to de vista sub­je­ti­vo, o Mag­istério coin­cide com a Igre­ja docente (Papa e Bis­pos em união com o Papa). Do pon­to de vista oper­a­ti­vo, o Mag­istério é o instru­men­to medi­ante o qual é desen­volvi­da a função de pro­por aos home­ns a div­ina Rev­e­lação com autori­dade.
  • Muitas vezes, porém, se faz deste instru­men­to um val­or em Si[2] (abso­lu­tus) e se faz ape­lo a esse para trun­car o nasci­men­to de todas as dis­cussões, como se o Mag­istério estivesse aci­ma da Igre­ja e como se diante dele não exis­tisse o taman­ho enorme da Tradição a acol­her, inter­pre­tar e retrans­mi­tir na sua inte­gri­dade e fidel­i­dade, que é como Deus a trans­mi­tiu.
  • O pro­ced­i­men­to impro­visa­do hoje e firme­mente esta­b­ele­ci­do é mais ou menos o seguinte: Cristo prom­ete os Após­to­los e então aos seus suces­sores, vale diz­er a Igre­ja docente, o envio do Espíri­to San­to e a sua assistên­cia para um exer­cí­cio de ver­dade do “múnus docen­di” e, por­tan­to, o erro é evi­ta­do des­de o começo, sem condições, as quais ao invés, são necessárias e definidas pelo Con­cílio Vat­i­cano I, como se verá abaixo. Out­ro pro­ced­i­men­to mais que impro­visa­do con­siste no negar ao Mag­istério todo “múnus docen­di et inter­pre­tan­di” das duas fontes da Rev­e­lação (Tradição e S. Escrit­u­ra).

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O Mag­istério da Igre­ja

  • O Mag­istério se divide em Solene e Ordinário, Aque­le Solene se sub­di­vide em Con­cil­iar e Pon­tif­í­cio; aque­le Ordinário em Uni­ver­sal ou Papal.
  • Mag­istério Solene Extra­ordinário Con­cil­iar é o ensi­na­men­to de “todos” (total­i­dade moral não matemáti­ca ou abso­lu­ta) os Bis­pos do mun­do reunidos fisi­ca­mente – em maneira não habit­u­al ou não per­ma­nente e não estáv­el e então “extra-ordinária” – em Con­cílio Ecumêni­co sobre o Papa.
  • Mag­istério Solene Pes­soal Pon­tif­í­cio: o Papa enquan­to Papa (ou sen­ta­do sobre a Cát­e­dra de Pedro, “ex cathe­dra Petri”) define como div­ina­mente rev­e­la­da uma dout­ri­na que diz respeito a Fé e a Moral e obri­ga a crê-la como abso­lu­ta­mente necessária a sal­vação.
  • O Mag­istério Ordinário se divide em Uni­ver­sal ou Pon­tif­í­cio: Antes de tudo Ordinário sig­nifi­ca quan­to ao modo de exer­cí­cio comum, não é solene, não é excep­cional ou “extra-ordinário”, mas é só nor­mal, habit­u­al, que é “ordinário”. Então não é a reunião dos Bis­pos reunidos extra-ordi­nar­i­a­mente em Con­cílio com o Papa, porque o Con­cílio Ecumêni­co é um even­to não ordinário, não habit­u­al não em plan­ta estáv­el, mas excep­cional no cur­so da história da Igre­ja (Con­cílio de Tren­to, 1563; Con­cílio Vat­i­cano I, 1870). Não é nem sequer o Papa que define de for­ma solene ou extra­ordinária uma ver­dade de Fé, mas enquan­to trans­mite a Rev­e­lação, que é con­ti­da na Tradição e na Sagra­da Escrit­u­ra, em maneira solene. Isto não quer diz­er que não seja Mag­istério ver­dadeiro, autên­ti­co, ofi­cial, e, até infalív­el se quer cumprir as condições para ser assis­ti­do infalivel­mente por Deus, que é definir e obri­gar a crer, ain­da se em maneira comum, ordinária ou sim­ples quan­to ao modo de ensi­nar. Isso neste últi­mo caso trans­mite real­mente o Depósi­to da Rev­e­lação e nis­to não se pode errar, emb­o­ra não empre­gan­do a pom­pa magna ou a for­ma extra­ordinária e solene em tal trans­mis­são da Rev­e­lação.
  • Mag­istério Ordinário Uni­ver­sal: a trans­mis­são da ver­dade div­ina­mente rev­e­la­da é fei­ta pelos Bis­pos espal­ha­dos fisi­ca­mente no mun­do que são res­i­dentes das suas Dio­ce­ses, mas em comunhão com o Papa e unidos inten­cional­mente ou em um acor­do entre os out­ros com Ele em ensi­nar uma ver­dade.
  • Mag­istério Ordinário Papal: a trans­mis­são é fei­ta pelo Papa enquan­to tal e de maneira ordinária. Além dis­so o Papa é infalív­el se  soz­in­ho define e obri­ga a crer e quan­do repreende, repete e enun­cia uma Ver­dade de Fé ou Moral, con­stan­te­mente e uni­ver­salmente acei­ta por toda a Igre­ja (“quod sem­pre, ubique et ab omnibus cred­i­tum est”).
  • O teól­o­go alemão, Albert Lang expli­ca bem que “não reveste nem sequer importân­cia essen­cial o fato que os Bis­pos exerçam o seu mag­istério “de for­ma Ordinária e Uni­ver­sal”, ou exerçam seu Mag­istério “de for­ma Solene” reunidos em um Con­cílio Ecumêni­co con­vo­ca­do pelo Papa. Em ambos os casos são infalíveis somente si, em um acor­do entre eles e o Papa, anun­ci­am uma dout­ri­na de modo defin­i­ti­vo e obri­gatório”. Assim, para a infal­i­bil­i­dade o modo de ensi­na­men­to ordinário ou extra­ordinário é secundário e aci­den­tal; o que é o prin­ci­pal ou sub­stan­cial é a von­tade de definir e obri­gar a crer em uma ver­dade de Fé e de Moral seja de for­ma solene ou de for­ma comum e ordinária.
  • O Mag­istério é a ‘regra próx­i­ma’ da Fé, enquan­to a Escrit­u­ra e a Tradição são a ‘regra remo­ta’. Na ver­dade, o Mag­istério da Igre­ja que inter­pre­ta a Rev­e­lação e propõe a acred­i­tar com obri­ga­to­riedade naqui­lo que é con­ti­do neste como obje­to de Fé, para a sal­vação eter­na.

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Os ter­mos exatos da questão

  • O ‘dog­ma’ é uma ver­dade rev­e­la­da por Deus e con­ti­da no Deposi­tum Fidei: Tradição e Sagra­da Escrit­u­ra (dog­ma mate­r­i­al) e então pro­pos­ta para crer como necessária para a sal­vação eter­na, qual div­ina­mente rev­e­la­da ou de Fé (dog­ma for­mal), pelo Mag­istério ecle­siás­ti­co com a obri­gação de crer (Vat­i­cano I, DB, 1800). Por­tan­to, quem nega ou recusa o assen­ti­men­to a uma ver­dade de Fé defin­i­ti­va do Mag­istério é heréti­co e incorre ipso fac­to em exco­munhão ou anátema[5].
  • A “definição dog­máti­ca é a declar­ação obri­g­ante da Igre­ja sobre uma ver­dade rev­e­la­da e pro­pos­ta a crer obri­ga­to­ri­a­mente aos fiéis. Tal definição pode ser fei­ta seja pelo Mag­istério ordinário (Papa que ensi­na de for­ma ordinária ou não solene “quan­to ao modo”, mas obri­g­ante “quan­to a sub­stân­cia” a crer uma ver­dade como rev­e­la­da por Deus e defini­da pela Igre­ja [6]), seja o Mag­istério extra­ordinário ou solene quan­to ao modo (uma declar­ação solene ou “extra-ordinária” do Papa ou do Con­cílio [7]). Tal definição dog­máti­ca se chama pura­mente dog­ma for­mal ou ver­dade de Fé divi­no-católi­ca ou divi­no-defin­i­ti­va. «Geral­mente bas­ta a função do Mag­istério ordinário con­sti­tuir uma ver­dade de Fé divi­no-católi­ca, ver o Con­cílio Vat­i­cano I, sess. III, c. 3, DB, 1792 [8] » (P. Par­ente, Dicionário de teolo­gia dog­máti­ca, Roma, Studi­um, 4º ed, 1957, voz “Definição dog­máti­ca”). Atenção: porém, se o Mag­istério ordinário pode definir infalivel­mente um dog­ma for­mal não sig­nifi­ca que esse seja sem­pre infalív­el e que todos os seus pro­nun­ci­a­men­tos sejam uma definição dog­máti­ca; o é só se o Papa quer definir uma ver­dade como de Fé rev­e­la­da e obri­ga-la a crer para a sal­vação eter­na. (Cfr. “Enci­clopé­dia Católi­ca, IV, col. 1792).
  • A infal­i­bil­i­dade [9] pres­supõe, na ver­dade, por parte do Mag­istério a von­tade de obri­gar e definir, pro­por obri­ga­to­ri­a­mente a crer como dog­ma uma ver­dade con­ti­da no Depósi­to da Rev­e­lação escri­ta ou oral. Para a qual o Mag­istério é real­mente a “regra próx­i­ma da fé, enquan­to Escrit­u­ra e Tradição são a “regra remo­ta”. Na ver­dade, é o Mag­istério da Igre­ja [10], que inter­pre­ta a Rev­e­lação e propõe para crer, com obri­ga­to­riedade, aqui­lo que é con­ti­do nes­sa como obje­to de Fé, para a sal­vação eter­na.
  • Os “Lugares Teológi­cos” são «a sé de todos os argu­men­tos da “Ciên­cia Sacra” a par­tir dos quais os teól­o­gos trazem as suas argu­men­tações seja para demon­strar uma ver­dade seja para refu­tar um erro» (Melquior Cano, De Logis the­o­logi­cis, Roma, ed. T. Cuc­chi, 1900, Lib. 1, cap. 3). Mon­sen­hor Antônio Piolan­ti escreve: «A Teolo­gia é fun­da­da sobre a Ver­dade rev­e­la­da, que estão con­ti­das nas Escrit­uras e na Tradição, a qual inter­pre­tação é con­fi­a­da ao vivo Mag­istério da Igre­ja, o qual por sua vez se man­i­fes­ta através das definições dos Con­cílios e das decisões dos Papas, o ensi­na­men­to comum dos Padres e dos Teól­o­gos escolás­ti­cos» (Dicionário de Teolo­gia dog­máti­ca, Roma, Studi­um, IV, ed., 1957, pg. 246). Por­tan­to, erra grave­mente quem sep­a­ra as definições dos Con­cílios e dos Papas do Mag­istério e reduz, assim, o Mag­istério a um aci­dente con­tin­gente, nasci­do com a crise neo­mod­ernista que Pio XII tin­ha respon­di­do com a Humani Gener­is (1950) lançan­do a idéia do Mag­istério como balu­arte con­tra a nou­velle théolo­gie. Não! o mag­istério, como expli­ca Melquior Cano nos “Lugares Teológi­cos”, é “a voz do Pas­tor” e inter­pre­ta real­mente a Escrit­u­ra e a Tradição, caso con­trário bas­taria a sola bíblia e o solo Dezinger, enquan­to Cristo disse aos seus após­to­los: “Ide e ensi­nai a todos os povos” (Mt, XXVIII, 18). Então, o meio esta­b­ele­ci­do por Cristo para a difusão da dout­ri­na evangéli­ca não é a sola Scrip­tura ou a sola Tra­di­tio oral, mas o Mag­istério vivo, que Ele asse­gu­ra (em cer­tas condições) uma assistên­cia (infalív­el) até o fim do mun­do. O Cardeal Pietro Par­ente escreve que o Mag­istério é, por­tan­to: “o poder con­feri­do por Cristo a sua Igre­ja, em vir­tude do qual a Igre­ja docente é con­sti­tuí­da úni­ca depositária e autên­ti­ca intér­prete da Rev­e­lação div­ina […]. Segun­do a dout­ri­na católi­ca a Sagra Escrit­u­ra e a Tradição não são que a fonte e a “regra remo­ta” da Fé, enquan­to a “regra próx­i­ma” é o Mag­istério vivo da Igre­ja” (Dicionário de Teolo­gia dog­máti­ca, cit., pg, 249–250).

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Tradição, Assistên­cia div­ina e Mag­istério

  • Seja na Escrit­u­ra que nos Padres o con­ceito de Tradição é sem­pre lig­a­do 1º) a Assistên­cia de Deus, porque, sem a aju­da do Espíri­to da Ver­dade, a pureza do ensi­na­men­to oral não pode­ria con­ser­var-se sem mis­tu­ra de erros. Além dis­so, o con­ceito de Tradição é insep­a­ráv­el 2º) do Mag­istério que, emb­o­ra não sendo a Tradição mes­ma, é o órgão através do qual é trans­mi­ti­da; o sen­ti­do pleno de Tradição se pode ter só com a condição de ter unidos os seus dois aspec­tos (pas­si­vo e ati­vo) do qual o segun­do é muito impor­tante, de for­ma que uma “tradição” tam­bém do I sécu­lo, mas não ates­ta­da pelo Mag­istério da Igre­ja não con­sti­tuiria “ver­dadeira” Tradição divi­no-apos­tóli­ca, ao máx­i­mo teria um val­or de doc­u­men­tação históri­ca, mas não de Fé div­ina. Entre Mag­istério e Tradição se tem cer­ta dis­tinção, mas não é total, que a Igre­ja é como uma Mes­tra (Mag­istério) que con­tém e trans­mite a Escrit­u­ra (Bíblia) e a Tradição (Dezinger), tem um Livro de tex­to ofi­cial (Bíblia + Den­zinger) e expli­ca o ver­dadeiro sig­nifi­ca­do aos dis­centes; se um dis­cente não entende bem o sig­nifi­ca­do do Livro pode pedir expli­cação ao Mag­istério e ele o ilu­mi­nará. De tudo isto resul­ta a parte essen­cial e não mín­i­ma ou mes­mo con­tin­gente que desen­volve o Mag­istério no dar, “todos os dias até o fim do mun­do”, a reta inter­pre­tação subjetiva/formal do con­teú­do dog­máti­co-moral da Tradição, ten­do garan­ti­do ontem a veraci­dade do con­teú­do pas­si­vo ou objetivo/material [11].

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Relação entre Tradição e Mag­istério

  • A tradição jun­to a Bíblia é uma das duas “fontes” da Rev­e­lação div­ina (Tradição pas­si­va e obje­ti­va). Essa é tam­bém a “trans­mis­são” (do latim tradere, trans­mi­tir) oral de todas as ver­dades rev­e­ladas por Cristo aos Após­to­los ou sug­eri­das a eles pelo Espíri­to San­to e chega até nós medi­ante o Mag­istério vivo da Igre­ja, assis­ti­do por Deus até o fim do mun­do (Tradição pas­si­va e obje­ti­va). A Tradição jun­to a Sagra­da Escrit­u­ra é o “canal recip­i­ente (Tradição pas­si­va) e veícu­lo trans­mi­ti­dor (Tradição ati­va)” da Palavra div­ina­mente rev­e­la­da. O Mag­istério ecle­siás­ti­co é “o órgão da Tradição”. Enquan­to os “instru­men­tos” no qual se con­ser­va são os Sím­bo­los de Fé, os escritos dos Padres, a Litur­gia, a práti­ca da Igre­ja, os Atos dos már­tires e os mon­u­men­tos arque­ológi­cos.
  • Por­tan­to a Tradição se pode con­sid­er­ar sobre dois aspec­tos: 1º) em sen­ti­do ati­vo (sub­je­ti­vo ou for­mal), esse é o órgão vivo ou o sujeito (pes­soa ou instituição/Papa e Igre­ja) o qual serve como canal de trans­mis­são; 2º) em sen­ti­do pas­si­vo (obje­ti­vo ou mate­r­i­al) é o obje­to ou depósi­to trans­mi­ti­do (Dout­ri­na e Cos­tumes) [12].
  • A Tradição da qual nos ocu­pamos neste arti­go é aque­la sagra­da ou cristã e não aque­la pro­fana. A Tradição cristã se divide em a) Tradição div­ina (ensi­na­da dire­ta­mente por Cristo aos Após­to­los; b) Tradição divi­no-apos­tóli­ca (os Após­to­los não a escu­taram da boca de Cristo, mas a tiver­am por inspi­ração do Espíri­to San­to). Essa con­siste naque­las ver­dades ou pre­ceitos morais, dis­ci­pli­nares e litúr­gi­cos, os quais derivam dire­ta­mente de Cristo ou dos Após­to­los, enquan­to pro­mul­gadores da Rev­e­lação, ilu­mi­na­dos pelo Espíri­to San­to, trans­mi­ti­da aos home­ns incor­rup­ta até o fim do mun­do: ess­es são obje­tos de Fé div­ina.

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Existe uma Tradição “vivente”?

  • Os primeiros “Dis­cípu­los” dos Após­to­los rece­ber­am de for­ma dire­ta e ime­di­a­ta a Tradição pela boca dos Doze, enquan­to os pos­te­ri­ores a rece­ber­am de for­ma indi­re­ta e medi­a­da, através do ensi­na­men­to dos suces­sores de Pedro (os Papas) e dos Após­to­los (os Bis­pos) cum Petro et sub Petro. O Mag­istério é o órgão da trans­mis­são inin­ter­rup­ta da mes­ma her­ança rece­bi­da dos Após­to­los da parte de Cristo ou do Espíri­to San­to. Está é a função do Mag­istério: medi­ar, inter­pre­tar e atu­alizar ou trans­mi­tir o ensi­na­men­to divi­no, mas sem­pre enga­jan­do a Tradição rece­bi­da e então já trans­mi­ti­da. Não se tra­ta de faz­er viv­er uma Fé nova, mas de pas­sar e faz­er rece­ber ou reviv­er con­tin­u­a­mente e nova­mente a úni­ca Fé pre­ga­da por Cristo e pelos Após­to­los, até o fim do mun­do. Tal função não con­tém e não propõe nen­hu­ma novi­dade sub­stan­cial, mas só repete de for­ma nova e apro­fun­da­da ou explici­ta a mes­ma ver­dade con­ti­da na Escrit­u­ra e na Tradição. Des­ta trans­mis­são da Fé é total­mente ausente toda som­bra de con­tradição entre ver­dades anti­gas e novas e o desen­volvi­men­to ou apro­fun­da­men­to deve ser “no mes­mo sen­ti­do e no mes­mo sig­nifi­ca­do” (S. Vicente de Lérins, Com­mon­i­to­ri­um, XXIII). Somente em tal sen­ti­do se pode falar tam­bém de Tradição “viva”, não enquan­to “mutante”, mas “homo­ge­nea­mente cres­cente” [13]. Não se tem Tradição, não sub­siste ver­dade católi­ca onde se encon­tra con­tradição, con­trariedade ou con­cor­rên­cia entre “nova et vet­era”. O Cardeal Pedro Par­ente no L’Osservatore Romano de 9–10 de fevereiro de 1942 já escrevia: «há de se deplo­rar {…} a estran­ha iden­ti­fi­cação da Tradição (fonte da Rev­e­lação) com o Mag­istério vivo da Igre­ja (guardião e inter­prete da div­ina Palavra)». Em breve se tem uma dis­tinção entre Tradição e Mag­istério no sen­ti­do que o segun­do cus­to­dia, expli­ca e propõe a crer as ver­dades con­ti­das na Tradição e é muito perigoso iden­ti­ficar a Tradição com o Mag­istério vivente, porque se ter­mi­na com dar a primeira um caráter intrin­se­ca­mente evo­lu­ti­vo ou ao con­trário rel­a­tivizar de tal for­ma o Mag­istério a respeito da Tradição até a min­i­miza-lo ou quase aniquila-lo. São os dois erros, por exces­so e por defeito, que se refazem hoje.

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Resu­min­do

  • Quan­to a relação entre Mag­istério e Tradição, o Mag­istério cus­to­dia, expli­ca e inter­pre­ta a Palavra de Deus escri­ta ou oral. Então, Mag­istério e Tradição não são idên­ti­cos. O Mag­istério não é fonte de Rev­e­lação, a Escrit­u­ra e a Tradição sim. Por­tan­to, o Mag­istério pres­supõe as duas fontes de Rev­e­lação, as cus­to­dia e as expli­ca, onde em sen­ti­do estre­ito não coin­cide com a Tradição. Todavia, se se con­sid­era o Mag­istério nos seus doc­u­men­tos ou obje­ti­va­mente, então se pode diz­er que nesse se encon­trou a fonte ou lugar no qual se tem a Rev­e­lação [14].
  • O Mag­istério é assis­ti­do por Deus. Todavia, está assistên­cia não é abso­lu­ta, mas lim­i­ta­da a trans­mis­são da Rev­e­lação. Então, longe de con­sti­tuir a dout­ri­na ou a Ver­dade, o ato do Mag­istério a con­ser­va e a declara: o Mag­istério se define como tal em dependên­cia obje­ti­va da Rev­e­lação div­ina, da qual deve asse­gu­rar a trans­mis­são e não deve “inven­tar” novas doutri­nas sub­stan­cial­mente diver­sa daque­la Rev­e­la­da, que pode ser apro­fun­da­da.
  • A assistên­cia é dada ao Papa para que ele pos­sa preser­var a Fé da Igre­ja. Se se perde de vista a jus­ta relação que faz depen­der o Mag­istério da Tradição obje­ti­va, o Deus rev­e­lador corre o risco de pas­sar ao segun­do plano em van­tagem do Mag­istério cus­to­di­ador e intér­prete, o “Cri­ador” ced­e­ria o lugar a “criatu­ra”, o “Fim” ao “meio”, o “Abso­lu­to” ao “instru­men­to”. Mas isto é con­tra­ditório. Então, repugna o que é abso­lu­ta­mente impos­sív­el.

PADRE CURZIO NITOGLIA

30 de dezem­bro de 2011

http://www.doncurzionitoglia.com/introduzione_magistero.htm

Ler tam­bém:

O Mag­istério “Lugar teológi­co”, Sim Sim Não de 15 de janeiro de 2011 — (em breve será traduzi­do)

[1] Brunero Gher­ar­di­ni, Tra­di­di quod et accepi. A Tradição, vida e juven­tude da Igre­ja, Frigen­to, Casa Mar­i­ana Editrice, 2010; Id., Quae­cumque dixe­ro vobis. Palavra de Deus e Tradição em com­para­ção com a história e a teolo­gia, Tori­no, Lin­dau, 2011.

[2] Em filosofia escolás­ti­ca out­ro que de “Abso­lu­to” se usa tam­bém o ter­mo de “A se” ou “Aseitas” para indicar Deus, que não é “ab alio”, não depende de nen­hum out­ro, mas só de Si mes­mo (‘Ipsum Esse sub­sis­tens”). Ao invés, toda criatu­ra, tam­bém o Anjo é “ab alio” ou é cri­a­do por Deus quan­do é “depen­dente” e não “Abso­lu­to”. 

[3] A. Lang, Com­pên­dio de Apologéti­ca, tr. it. Tori­no, Mari­et­ti, 1960, p. 461.

[4] Cfr. Cipri­ano Vagag­gi­ni, voz “Dog­ma”, in “Enci­clopé­dia Católi­ca”, Cidade do Vat­i­cano, 1950, vol. IV, col. 1792–1804; Giac­in­to Ameri, voz “Definição dog­máti­ca”, em “Enci­clopé­dia Católi­ca”, Cidade do Vat­i­cano, 1950, vol. IV, coll. 1306–1307.

[5] Cfr. G. Zan­noni, voz “Here­sia”, em “Enci­clopé­dia Católi­ca”, Cidade do Vat­i­cano, 1950, vol. V, coll. 487–492

[6] Por ex. João Paulo II sobre a impos­si­bil­i­dade do sac­erdó­cio fem­i­ni­no; ou os Bis­pos dis­per­sos no mun­do jun­to ao Papa. Por ex. Pio XII que per­gun­ta aos Bis­pos de todo o mun­do, se rep­utam rev­e­la­da e definív­el a Assunção de Maria SS. ao Céu.

[7] Por ex. Pio IX, que define soz­in­ho a Imac­u­la­da Con­ceição ou o Con­cílio Vat­i­cano I, que define a Infal­i­bil­i­dade Papal.

[8] «São para crer como de Fé divi­no-católi­ca todas as coisas que são con­ti­das na Palavra de Deus escri­ta ou trans­mi­ti­da e que são pro­postas a crer pela Igre­ja, seja com Juí­zo solene seja com Mag­istério ordinário, como div­ina­mente rev­e­la­da».

[9] Cfr. Fed­eri­co dell’Immacolata, voz “Infal­i­bil­i­dade”, em “Enci­clopé­dia Católi­ca”, Cidade do Vat­i­cano, 1951, vol. VI, coll. 1920–1924.

[10] Cfr. M. Cor­dovani, voz “Igre­ja”, em “Enci­clopé­dia Católi­ca”, Cidade do Vat­i­cano, 1949, vol. III, coll. 1443–1466; Anto­nio Piolan­ti, voz “Pri­ma­do de São Pedro e do Romano Pon­tí­fice”, em “Enci­clopé­dia Católi­ca”, Cidade do Vat­i­cano, 1953, vol. X, coll. 6–19; Giuseppe Damizia, voz “Con­cilio”, in “Enci­clopé­dia Católi­ca”, Cidade do Vat­i­cano, 1950, vol. IV, coll. 167–172.

[11] Cfr. J. B. Franzelin, De div­ina tra­di­tione et Scrip­tura., Roma, 1870; L. Bil­lot, De immutabil­i­tate tra­di­tio­n­is, Roma, 1904; S. G. Van Noort, Trac­ta­tus de fon­tibus Rev­e­la­tio­n­is nec­non de fide div­ina, 3a ed., Bus­sum, 1920; S. Cipri­ano, As fontes da Rev­e­lação, Flo­rença, 1953; A. Michel, voz “Tra­di­tion”, in DThC, XV, coll., 1252–1350; G. Filo­gras­si, A Tradição divi­no-apos­tóli­ca e o mag­istério ecle­siás­ti­co, em “La Civiltà Cat­toli­ca”, 1951, III, pp. 137–501; G. Proulx, Tra­di­tion et Protes­tantisme, Paris, 1924; S. Tomaz de Aquino, S. Th., III, q. 64, a. 2, ad 2; B. Gher­ar­di­ni, Divini­tas 1, 2, 3/ 2010, Cidade do Vat­i­cano, S. Carte­chi­ni, Da opinião ao dog­ma, Roma, Civ­i­liza­ção Católi­ca, 1953, M. Schmaus, tr. it., A Igre­ja, Casale Mon­fer­ra­to, Mari­et­ti, 1973.

[12] Cfr. G. Mat­tius­si, A imutabil­i­dade do dog­ma, em “A Esco­la católi­ca”, março 1903.

[13]  Cfr. A. Marìn Sola, L’evolution homogène du dogme, Fribur­go, 1924.

[14]  Cfr. J. Salaver­ri, De Eccle­sia Christi, Madrid, BAC, 1958, n° 805 ss.

 


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