Todo “penso” é torto. Considerações sobre a Mula Sem Cabeça

 

               Uma das primeiras lições que aprendi ao estudar a Filosofia é que há distinção entre: “Doxa” (do grego, opinião) e “Episteme” (do grego, verdade). De forma que todas as nossas opiniões devem ter por finalidade a verdade. Mas o nosso tempo é marcado pelos “doutores” da opinião. Não é estranho vermos, em qualquer meio de comunicação, pessoas discorrerem energicamente durante dois quartos de hora sobre o que não estudaram por pelo menos cinco minutos.  E o uso dessa loquacidade opinativa ganhou proporções inimagináveis com a internet.

               Nestas últimas semanas tenho dado boas risadas com uma senhora que personifica de maneira muito caricatural da  La donna è mobile de G. Verdi. Escreveu ela:

“E as mentiras que esses macaquinhos amestrados espalham não saem dos olhos, mas de corações cheios de fel. A boca fala do que o coração está cheio.”

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Uma de suas discussões é sobre a impossibilidade de milagres fora da Igreja e, de maneira “infalível”, a condenação de toda a Igreja pós conciliar(CVII) ao paganismo.  E por mais de uma vez lhe foi mostrada a jumenta de Balão que, de maneira milagrosa, após apanhar bastante, fala. Pobre jumenta…

É um evento interessante, pois o orgulho, a cobiça e a hostilidade de Balaam é impedida através da humilde figura de uma jumenta. Que, contrariando sua natureza, fala e questiona.  O que alegoricamente vemos até hoje de maneira inversa.

A figura do burro (ou asno) é uma constante na história do cristianismo, que, se outrora utilizado como símbolo pagão, aparecerá no mistério da encarnação próximo a Nosso Senhor Jesus Cristo.  Santo Agostinho, ao comentar o capítulo 49:11 do Gênese, diz o seguinte:  “ assim como o Samaritano impôs sobre o jumento o pobre homem, assim o Filho do Homem foi feito semelhante ao jumento para que carregasse nossos pecados e, ao tomar nosso corpo, abolisse a enfermidade de nossa carne.” São Francisco o chama de “ Fratello asino.”

No Domingo de Ramos vemos Nosso Senhor triunfante sobre o lombo de um jumento.   Na concepção pagã o jumento esteve relacionado às festas de Saturno, Dionísio e Pã. Era o desregramento de nossos baixos instintos em evidência, divinizados.  Nosso Senhor ao reinarem nossas almas inverte a situação e põem nossos instintos em seu devido lugar, mostrando que Ele é o guia. 

No folclore brasileiro vemos a figura da Mula Sem Cabeça, que seria uma maldição dada à mulher que se tornasse amante de um padre.  Nosso grande folclorista, Luiz da Câmara Cascudo, assim descreve a mula: “lança chispas de fogo pelas narinas e pela boca. Suas patas são calçadas de ferro. A violência do seu galope e a estridência do relincho são ouvidas longamente. Às vezes soluça como uma criança”.

O que a realidade nos mostra? Podemos ver não só a loucura da mulher pecadora transformada em um mostro, mas também, por outro lado, a falha de um padre que, fazendo as vezes de alter Christus, perde a razão, deixando-se levar por suas baixas paixões. A mula que deveria ter como guia Nosso Senhor Jesus Cristo, como senhor e rei, perde sua cabeça por uma única mulher.

Outra observação que salta aos olhos é a cor do jumento. Ele não é preto, nem branco: é cinza; com uma bela cruz em tonalidade escura sobre a cernelha.  A oscilação pendular apaixonada dos extremos não o atinge, e, tal qual devemos ser, sua cor representa o equilíbrio tipicamente católico.  Ou ainda a exata personificação do católico que é atento aos aspectos contraditório da realidade. Não seria sua cruz a nossa confirmação neste combate?  

Muito do que se discute provém da absoluta confusão que se faz entre hermenêutica e exegese. Acredito que boa parte dos rapazolas partícipes da tradição desconheçam esses termos, à exceção do primeiro que, católico por excelência, ganhou mau odor devido à aplicabilidade dada por Bento XVI.  A exegese é muito utilizada pelo protestantismo, como única forma interpretativa, uma vez que busca tão somente a literalidade do texto, sem aportes com o Magistério e Tradição. 

A hermenêutica como ferramenta interpretativa é seguida de um método.

  • Interpretação literal, ou gramatical; (se houver problemas)
  • Interpretação analógica;
  • Teleológica;
  • Extensiva;

Todas essas formas em relação às Sagradas Escrituras, Magistério e Tradição. Ao sair desse caminho traçado pela Igreja por mais de dois mil anos, incorremos no tortuoso caminho do devaneio. Qual o motivo de tantas igrejas protestantes? A oscilação pendular de uma estrita interpretação da Sagrada Escritura ou a livre interpretação não margeada pelo Magistério e Tradição.

O Cântico dos Cânticos bem demonstra como deve ser a interpretação das Sagradas Escrituras. “Sou negra, como as tendas de Cedar, filhas de Jerusalém, mas sou bela,  como os pavilhões de Salomão” (C. dos Cânticos 1:4).

Apesar de toda a literalidade, este livro jamais deve ser interpretado como a conjunção canal dos nubentes, representando, antes, todo pudor, modéstia, castidade virginal que invoca a Santíssima Mãe de Deus, a Igreja e toda alma que aspira às núpcias espirituais com Nosso Senhor.  E a Sagrada Escritura não evidencia isso, tendo em vista que seu leitor não  será uma “mula sem cabeça.”

Tal versículo pode ser interpretado de várias formas, entre elas:

  • “Sou negra, mas sou bela” – mesmo a alma marcada pelo pecado original, por seus maus instintos e movimentos da natureza, poderá dizer: Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser. Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte? (Rom 7:21-24)
  • “como as tendas de Cedar” – “Cedar” é o segundo filho de Ismael, descendente de Abraão por Agar, a escrava. Para os hebreus, esse povo que descende de Agar, os árabes, é de grosseiros, vulgares…
  • “mas sou bela, como os pavilhões de Salomão.” – ou seja, mesmo com suas fraquezas e imperfeiçoes exteriores seu interior permanece calmo e passivo. Como as magnificas tendas de Salomão que rivalizavam com as de Dario.

Por fim, podemos lembrar a Santíssima Virgem que estava “negra”, com aparência exterior de uma mulher adúltera, em visita a sua prima Santa Izabel. Mas estava ela toda pura, “bela” com o seu brilho virginal imaculado. Ela pareceu ser “negra” ao ter a aparência de uma mulher grávida, que portasse um filho do pecado original, mas ela estava “bela” como as tendas de Salomão, rei pacífico por excelência.

Podemos dizer ainda que Nossa Senhora estava “negra” por seus opróbrios, dores e sofrimentos na crucificação do seu Filho bem amado, mas ela é “bela”, pois no céu está associada a glória do Salvador.

Muito mais poderia ser dito, mas estes que vomitam seus despautérios são uma sociedade de malícia mútua, exatamente como existiu entre Herodes e Pilatos.           

Em alguns daqueles que oferecem o Santo Sacrifício, vemos a nítida atitude de Caim, que oferece sacrifício a Deus alimentando em seu coração a inveja contra seu irmão.

Como preceitua o manual de patifaria de B. Gracián, “Quando nos falam com malicia. Com alguns tudo há de ser às avessas; o sim é não e não é sim. Falam mal do que estimam, pois o que se quer para si se desacredita para os outros”.

Jumentas e macacos podem falar desde que falem a verdade. O contrário é opinião.  Penso, logo me engano.

 

Noel Neder                                               

 

 

 

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