O Napoleão de Noting Hill: Entra um Lunático

Chesterton

Livro II

Entra um Lunático

O Rei das Fadas, que foi, presumidamente, o padrinho do rei Auberon, deve ter favorecido muito o seu fantástico afilhado neste dia em particular, pois com a entrada da guarda do superintendente de Notting Hill havia uma certa adição mais ou menos inexplicável para o seu deleite. Os trabalhadores braçais miseráveis e homens-sanduíche que levavam as cores de Bayswater ou South Kensington, contratados apenas para o dia para satisfazer o passatempo real, ficavam na sala com um ar comparativamente compungido, e uma grande parte do prazer intelectual do rei consistia no contraste entre a arrogância de suas espadas e penas e a mansa miséria de seus rostos. Mas esses alabardeiros de Notting Hill, em suas túnicas vermelhas com cinto de ouro, tinham o ar de uma gravidade absurda. Eles pareciam, por assim dizer, tomar parte da brincadeira. Eles marcharam e desfilavam em suas posições com uma quase surpreendente dignidade e disciplina.

Eles carregavam uma bandeira amarela com um grande leão vermelho, nomeado pelo Rei como o emblema de Notting Hill, por causa de uma taverna no bairro que costumava frequentar.

Entre as duas linhas de seguidores avançou em direção ao rei um homem alto, de cabelos vermelhos jovem, de alta categoria e ousados olhos azuis. Ele teria sido chamado de bonito, mas que um certo ar indefinível causado pelo seu nariz ser grande demais para seu rosto, e seus pés para as pernas, dava-lhe uma aparência de estranheza e extrema juventude. Suas vestes eram vermelhas, de acordo com a heráldica do rei, e, sozinho entre os superintendentes, ele estava cingido com uma grande espada. Este era Adam Wayne, o superintendente intratável de Notting Hill.

O rei atirou-se para trás na cadeira, e esfregou as mãos.

— Que dia, que dia! — disse para si mesmo. Agora vai haver barulho. Não sabia que seria tão divertido. Estes superintendentes são tão indignados, tão razoáveis, tão certinhos. Este homem, pelo olhar em seus olhos, é ainda mais indignado do que o resto. Nenhum sinal em seus grandes olhos azuis, de ter ouvido falar de uma brincadeira. Ele vai reclamar dos outros, e eles vão reclamar dele, e todos vão ficar suntuosamente felizes em reclamar comigo.

— Bem-vindo, meu Lorde — disse ele em voz alta. — Quais são as novidades do Morro das Cem Lendas? O que tem para o ouvido de vosso Rei? Sei que problemas surgiram entre você e estes outros, nossos primos, mas estes problemas devem ser o nosso orgulho de se resolver. E não duvido, e não se pode duvidar, que o seu amor por mim não é menos sensível, nem menos ardente, que o deles.

O sr. Buck fez uma amarga careta e as narinas de James Barker se curvaram; Wilson começou a rir baixinho, e o superintendente de West Kensington fez o mesmo de uma forma discreta. Mas os grandes olhos azuis de Adam Wayne nunca mudaram, e ele gritou pelo corredor com sua voz singular e infantil:

— Trago a minha homenagem ao rei. Trago-lhe a única coisa que tenho: a minha espada.

E, com um grande gesto, a colocou no chão, e ajoelhou-se em um dos joelhos.

Houve um silêncio de morte.

— Como disse? — disse o Rei, sem expressão.

— Fala bem, senhor — disse Adam Wayne —, como sempre fala, quando diz que meu amor não é menor do que o amor deles. Pequeno seria se não fosse maior. Porque sou o herdeiro de seu projeto, a criança da grande Carta. Estou aqui pelos direitos que a Carta me deu, e juro, por sua coroa sagrada, que onde permaneço, permaneço firme.


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Os olhos dos cinco homens se arregalaram.

Em seguida, Buck disse, com sua voz extremamente forte:

— Todo o mundo ficou louco?

O rei levantou-se, e seus olhos brilharam:

— Sim — gritou, numa voz de júbilo —, todo o mundo é louco, exceto Adam Wayne e eu. É certo como a morte o que lhe disse há muito tempo, James Barker. A seriedade envia os homens a loucura. Você é louco, porque se importa com política, tão louco como um homem que coleciona passagens de bonde. Buck é louco, porque ele se importa com o dinheiro, tão louco como um homem viciado em ópio. Wilson é louco, porque ele acha-se correto, tão louco como um homem que pensa que é o Deus Todo Poderoso. O superintendente de West Kensington é louco, porque acha que é respeitável, tão louco como um homem que pensa que é uma galinha. Todos os homens são loucos, exceto o humorista, que não se preocupa com nada e possui tudo. Pensava que só havia um humorista na Inglaterra. Tolos! Abram seus olhos bovinos; há dois! Em Notting Hill, naquela pouca promissora elevação, nasceu um artista! Tentaram estragar a minha piada, e me intimidar, tornando-se mais modernos, mais práticos, mais agitados e racionais. Oh, que festivo foi para eu responder, tornando-me mais augusto, mais gracioso, mais antiquado e maduro! Mas este rapaz viu como me mover. Ele me respondeu de volta, vanglória por vanglória, retórica por retórica. Ele levantou o escudo que eu não posso quebrar, o escudo da impenetrável pomposidade. Ouçam. Veio, meu Lorde, por Pump Street?

— Pela cidade de Notting Hill — respondeu Wayne, com orgulho —, do qual Pump Street é uma parte viva e alegre.

— Não é uma parte muito grande — disse Barker, com desprezo.

— Aquilo que é grande o suficiente para os ricos cobiçar — disse Wayne, elevando sua cabeça — é grande o suficiente para os pobres defender.

O Rei deu um tapa nas suas pernas, e agitou seus pés no ar por um segundo.

— Toda pessoa respeitável em Notting Hill — cortou Buck, com sua voz grossa e fria — apoia-nos e é contra ti. Tenho muitos amigos em Notting Hill.

— Seus amigos são aqueles que aceitaram o seu ouro para comprar outros lares, meu Lorde Buck — disse o superintendente Wayne. — Posso muito bem acreditar que são seus amigos.

— Eles nunca venderam brinquedos sujos, de qualquer maneira — disse Buck, rindo brevemente.

— Eles venderam coisas mais sujas — disse Wayne, calmamente. — Eles se venderam.

— Isso não é bom, meu Buckito — disse o Rei, rolando sobre a cadeira. — Não consegue lidar com essa eloquência cavalheiresca. Não pode lidar com um artista. Não pode lidar com o humorista de Notting Hill. Oh, nunc dimittis, pois vivi para ver este dia! Superintendente Wayne, permanece firme?

— Deixe-os esperar e ver — disse Wayne. — Se permanecia firme antes, acha que enfraquecerei agora que vi o rosto do Rei? Pois luto por algo maior, se pode haver algo maior que os lares do meu povo e o Senhorio do Leão. Luto por sua visão real, por seu grande sonho da Liga das Cidades Livres. Você mesmo me deu essa liberdade. Se eu fosse um mendigo e tivesse me atirado uma moeda, ou se eu fosse um camponês numa dança e tivesse me arremessado um presente, acha que teria deixado sua oferta ser levada por qualquer bandido na estrada?

— É demais, é demais — disse o rei. — A natureza é fraca. Preciso falar com você, irmão artista, sem mais disfarce. Deixe-me lhe fazer uma pergunta solene. Adam Wayne, alto lorde superintendente de Notting Hill, não acha isso esplêndido?

— Esplêndido — gritou Adam Wayne! Tem o esplendor de Deus.

— Desviou novamente — disse o rei. — Vai manter a pose. Engraçado, é claro, é sério. Mas, seriamente, não é engraçado?

— O quê? — perguntou Wayne, com os olhos de um bebê.

— Pare tudo, não jogo mais. O negócio todo da Carta das Cidades. Não é imenso?

— Imenso não é uma palavra indigna para o glorioso projeto.

— Oh, pare! Mas, é claro, entendo. Você quer que eu limpe o quarto destes bobos razoáveis. Quer os dois humoristas juntos sozinhos. Deixe-nos, senhores.

Buck lançou um olhar azedo em Barker, e com um sinal mal-humorado, saíram da sala como um desfile todo de azul e verde, de vermelho, ouro, púrpura, deixando apenas os dois no grande salão, o rei sentado em seu assento tablado, e a figura avermelhada ainda ajoelhado no chão ante a sua espada caída.

O Rei limitou-se a descer os degraus e bateu nas costas do superintendente Wayne.

— Antes das estrelas serem feitas — gritou ele — fomos feitos um para o outro. É muito bonito. Pensar na valente independência de Pump Street. Isso é real. É a deificação do ridículo.

A figura ajoelhada levantou-se ferozmente:

— Ridículo?! — gritou ele, com um rosto em fogo.

— Oh, pare, pare — disse o rei, impaciente —, não precisa manter isso comigo. Os áugures devem piscar algumas vezes por pura fadiga das pálpebras. Vamos aproveitar por meia hora, e não como atores, mas como os críticos dramáticos. Não é uma piada?

Adam Wayne olhou para baixo como um menino, e respondeu em uma voz constrangido:

— Não entendo a sua Majestade. Não posso acreditar que, enquanto luto por sua carta régia, sua majestade me abandona para estes cães caçadores de ouro.

— Oh, droga… Mas o que é isso? Que diabo é isso

O rei olhou para o rosto do jovem superintendente, e na penumbra da sala começou a ver que seu rosto estava muito branco e os lábios tremendo.

— Em nome de Deus, qual é o problema? — gritou Auberon, segurando seu pulso.

Wayne virou seu rosto, e as lágrimas brilhavam sobre ele.

— Sou apenas um menino, mas é verdade. Pintaria o Leão Vermelho em meu escudo mesmo que tivesse só o meu sangue.

Rei Auberon soltou a mão e ficou sem mexer, atordoado.

— Meu Deus do Céu! Será possível que alguém dentro dos quatro mares da Grã-Bretanha realmente leva Notting Hill a sério?

— Meu Deus do Céu! — Wayne disse apaixonadamente. — É possível que haja, dentro dos quatro mares da Grã-Bretanha um homem que não a leve a sério?

O rei não disse nada, mas apenas voltou a subir os degraus da tribuna, como um homem atordoado. Caiu novamente para trás em sua cadeira e chutou seus calcanhares.

— Se esse tipo de coisa continuar… — disse fracamente — Vou começar a duvidar da superioridade da arte à vida. Em nome dos Céus, não brinque comigo. Você realmente quer dizer que você (Deus me ajude!) um patriota de Notting Hill? Você é…

Wayne fez um gesto violento, e o Rei o acalmava freneticamente.

— Tudo bem, tudo bem, vejo que você é; mas deixe-me continuar. Você realmente propõe lutar contra estes renovadores modernos, com seus conselhos, inspetores e agrimensores e todo o resto?

— Eles são tão terríveis? — perguntou Wayne, com desdém.

O rei continuou a olhar como se ele fosse uma curiosidade humana.

— E suponho que você acha que os dentistas, pequenos comerciantes e senhoras solteiras que habitam Notting Hill, vão se reunir com hinos de guerra seguindo seu estandarte.

— Se eles têm sangue, irão — disse o superintendente.

— E acho — disse o Rei, com a cabeça para trás entre as almofadas — que nunca passou pela sua mente que… — sua voz parecia perder-se exuberantemente — nunca passou pela sua cabeça que qualquer um pensou que a ideia de um idealismo por Notting Hill é.. er.. um pouco.. pouco ridícula?

— Claro que pensam assim — disse Wayne.

— Qual era o significado de zombar dos profetas?

— De onde — perguntou o rei, inclinando-se para frente —, de onde em nome do Céu tirou essa ideia milagrosamente fútil?

— Você foi meu tutor, Senhor — disse o superintendente —, em tudo que é alto e honroso.

— Eh? — disse o rei.

— Foi Sua Majestade quem primeiro colocou meu patriotismo em chamas. Dez anos atrás, quando eu era um menino (tenho apenas 19), estava brincando na encosta de Pump Street, com uma espada de madeira e um capacete de papel, sonhando em grandes guerras. Num transe de raiva batia com a minha espada, e fiquei petrificado, pois vi que tinha te batido, Senhor, meu Rei, enquanto vagava em nobre segredo, cuidando do bem-estar das pessoas. Mas não precisava ter medo. Pois me ensinou a entender a realeza. Você nem se encolheu ou franziu a testa. Nem convocou nenhum guarda. Nem impôs punições. Mas, em palavras ardentes e augustas, que estão escritas na minha alma, para nunca mais serem apagadas, disse-me para sempre virar a minha espada contra os inimigos da minha cidade inviolada. Como um sacerdote apontando para o altar, me apontou para o monte de Notting. “Enquanto estiver pronto para morrer pela montanha sagrada, mesmo que seja cercado por todos os exércitos de Bayswater.” Não me esqueci das palavras, e tenho razão agora para me lembrar delas, pois é chegada a hora para coroar sua profecia. A colina sagrada está cercada pelos exércitos de Bayswater, e estou pronto para morrer.

O rei estava deitado para trás na cadeira, uma espécie de ruína.

— Oh, Senhor, Senhor, Senhor — ele murmurou. — Que vida! Oh vida! Tudo meu trabalho! Parece que fiz tudo isso. Então você é o menino de cabelos vermelhos que me bateu no colete. O que fiz? Deus, o que fiz? Pensei que tinha feito uma piada, e criei uma paixão. Tentei compor uma paródia, e parece estar no meio da transformação num épico. O que é feito com um mundo assim? Em nome do Senhor, a piada não era grande e ousada o suficiente? Abandonei meu humor sutil para diverti-lo, e parece-me que trouxe lágrimas aos seus olhos. O que deve ser feito para as pessoas entenderem que você escreve uma pantomima? Chamar as salsichas de festões clássicos, e fazer o policial cortar uma tragédia em duas por dever público? Mas por que estou falando? Por que estou fazendo perguntas a um cavalheiro jovem e bonito que é totalmente louco? Qual é o propósito? Qual é o propósito de qualquer coisa? Oh, Senhor! Oh, Senhor!

De repente, ele levantou-se.

— Acha mesmo que a sagrada Notting Hill não é absurda?

— Absurda? — perguntou Wayne, sem expressão. — Por que deveria?

O rei olhou para trás igualmente sem expressão:

— Como?

— Notting Hill — disse o superintendente, simplesmente — é um terreno elevado de terra comum, em que homens construíram casas para viver, onde eles nascem, se apaixonam, rezam, casam e morrerem. Por que devo achar absurdo?

O rei sorriu.

— Porque, meu Leônidas — começou, então, de repente, não sabia, sua mente era um branco total. Afinal, por que era um absurdo? Por que era um absurdo? Ele sentiu-se como se o chão de sua mente tivesse sumido. Ele sentiu o que todos os homens sentem quando seus principais fundamentos são duramente atingidos por uma pergunta. Barker sempre se sentia assim quando o rei dizia: “Por que se preocupar com política?”

Os pensamentos do rei estavam em uma espécie de debandada, não podia recolhê-los.

— A percepção geral é de ser um pouco engraçado — disse vagamente.

— Suponho — disse Adam virando-se com rapidez — que considera a crucificação como algo sério?

— Bem — começou Auberon —, admito que, em geral, achei que tinha um lado mais grave.

— Então está errado — disse Wayne, com incrível violência. — A crucificação é cômica. É primorosamente divertida. Era um tipo absurdo e obsceno de empalação reservado para as pessoas que foram feitas para serem ridicularizadas, para escravos e provinciais, para dentistas e pequenos comerciantes, como você diria. Vi a grotesca forca, que os garotos de rua romanos rabiscaram como uma piada vulgar, em chamas sobre os pináculos dos templos do mundo. E devo continuar?

O rei não respondeu.

Adam continuou, a sua voz ressoando no telhado.

— Esse riso com que os homens tiranizam não é o grande poder que acredita. Pedro foi crucificado, e crucificado de cabeça para baixo. O que poderia ser mais engraçado do que a ideia de um Apóstolo de idade respeitável de cabeça para baixo? O que poderia ser mais ao estilo de seu humor moderno? Mas qual foi o fim dele? De cabeça para baixo ou do lado certo, Pedro era Pedro para a humanidade. De cabeça para baixo ele paira sobre a Europa, e milhões se movem e respiram na vida da sua Igreja.

Rei Auberon levantou-se distraído:

— Há algo no que você diz. Parece que esteve pensando, jovem.

— Apenas sentindo, senhor — respondeu o superintendente. — Nasci, como os outros homens, num ponto da terra que amei, porque brinquei jogos de meninos lá, e me apaixonei, e conversei com os meus amigos em noites que eram noites dos deuses. E sinto o mistério. Estes pequenos jardins onde dissemos nossos amores. Essas ruas onde nós colocamos nossos mortos. Por que deveriam ser comuns? Por que deveriam ser absurdos? Por que deveria ser grotesco dizer que uma caixa de correio é poética quando, por um ano não podia ver uma caixa de correio vermelha contra o amarelo do anoitecer numa determinada rua sem ser sacudido por algo que Deus guarda em segredo, mas que é mais forte do que a alegria ou a tristeza? Por que alguém deveria levantar uma risada, ao dizer a “causa de Notting Hill”? Notting Hill, onde milhares de espíritos imortais brilham ora com esperança, ora com medo.

Auberon estava sacudindo a poeira de sua luva com uma nova seriedade em seu rosto, distinta da solenidade de coruja que era a pose de seu humor.

— É muito difícil — disse finalmente. — É uma dificuldade maldita. Vejo o que você quer dizer. Até concordo com você em certo ponto ou gostaria de concordar, se eu fosse jovem o suficiente para ser um profeta ou poeta. Sinto uma verdade em tudo que diz, até chegar às palavras ’Notting Hill’. E então lamento dizer que o velho Adão acorda morrendo de rir e acaba com o novo Adão, cujo nome é Wayne.

Pela primeira vez o superintendente Wayne ficou em silêncio, e ficou olhando sonhadoramente para o chão. A noite se aproximava, e o quarto tinha ficado mais escuro.

— Eu sei — disse ele, numa voz estranha, quase sonolenta. — Também há verdade no que diz. É difícil não rir com nomes comuns, digo apenas que não se devia. Tenho pensado num remédio, mas tais pensamentos são bastante terríveis.

— Que pensamentos? — perguntou Auberon.

O superintendente de Notting Hill parece ter caído em uma espécie de transe, nos seus olhos havia uma luz élfica.

— Sei de uma varinha mágica, mas é uma varinha que apenas um ou dois podem usar corretamente, e só raramente. É uma varinha de grande medo, mais forte do que aqueles que a usam, muitas vezes assustadora, muitas vezes perversa. Mas o que é tocado com ela nunca mais é totalmente comum, o que é tocado recebe uma magia fora do mundo. Se eu tocar, com esta varinha, as ferrovias e as estradas de Notting Hill, os homens irão amá-las, e terão medo delas para sempre.

— Do que diabo você está falando? — perguntou o rei.

— Ela fez paisagens medianas serem magníficas, e casebres durarem mais do que catedrais — continuou o louco. — Por que não poderia fazer de postes de luz mais mágicos do que as lâmpadas gregas? E um passeio de ônibus, como de um navio pintado. O toque dela é o dedo de uma estranha perfeição.

— O que é a sua varinha? — gritou o rei, impaciente.

— Aí está — disse Wayne, e apontou para o chão, onde a sua espada estava lisa e brilhante.

— A espada! — gritou o rei, e levantou-se em frente do estrado.

— Sim, sim — gritou Wayne, com voz rouca. — As coisas tocadas por ela não são vulgares, as coisas tocadas por ela…

O rei Auberon fez um gesto de horror.

— Vai derramar sangue por isso! — gritou. — Por um maldiçoado ponto de vista…

— Oh, vocês reis! — gritou Adam, em uma explosão de desprezo. — Quão humano são vocês, quão carinhosos, quão atenciosos! Fazem a guerra por uma fronteira, ou pelas importações de um porto estrangeiro! Derramam sangue pelos direitos de impostos, ou como a saudação de um almirante. Mas para as coisas que tornam a vida digna ou miserável, quão humanos são! Digo aqui, e sei bem o que eu falo, nunca houve guerras necessárias, mas as guerras religiosas. Nunca houve guerras justas, mas as guerras religiosas. Havia nunca nenhuma guerra humana, mas as guerras religiosas. Pois estes homens estavam lutando por algo que afirmava, pelo menos, ser para a felicidade do homem, a virtude do homem. Um cruzado pensou, pelo menos, que o Islã feria a alma de cada homem, rei ou funileiro, tudo o que poderia cair em seu domínio. Acho que Buck, Barker e estes abutres ricos ferem a alma de cada homem, ferem cada centímetro do chão, ferem cada tijolo das casas, tudo o que cai em seus domínios. Acha que não tenho o direito de lutar por Notting Hill, quando seu governo inglês tantas vezes lutou por tolices? Se, como dizem seus amigos ricos, não há deuses, e acima de nós há somente os céus escuros, para o que deve lutar o homem, mas pelo lugar onde teve o Éden da infância e o curto céu do primeiro amor? Se não houver templos e não são sagradas as escrituras, o que é sagrado, senão a própria juventude do homem?

O rei andou um pouco inquieto para cima e para baixo no estrado.

— É difícil — disse ele, mordendo os lábios — ser favorável a uma visão tão desesperada, tão responsável

Enquanto falava, a porta da sala de audiência abriu entreaberta, e pela abertura veio, como um súbito trino de um pássaro, a voz alta, nasal, mas bem-educada de Barker:

— Eu disse a ele de forma muito clara, o interesse público…

Auberon se voltou para Wayne com violência:

— Que diabos é isso? O que estou dizendo? O que você está dizendo? Você me hipnotizou? Malditos sejam seus misteriosos olhos azuis! Deixe-me ir. Devolva-me o meu senso de humor. Devolva-me, eu digo!

— Eu lhe asseguro solenemente — disse Wayne, inquieto, com um gesto, como sentindo sobre si — que não o tenho.

O rei caiu para trás em sua cadeira, e com uma gargalhada rabelaisiana:

— Não acho que tenha — exclamou.

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