O NAPOLEÃO DE NOTING HILL: ENTRA UM LUNÁTICO

Chesterton

Livro II

Entra um Lunático

O Rei das Fadas, que foi, pre­sum­i­da­mente, o padrin­ho do rei Auberon, deve ter favore­ci­do muito o seu fan­tás­ti­co afil­ha­do neste dia em par­tic­u­lar, pois com a entra­da da guar­da do super­in­ten­dente de Not­ting Hill havia uma cer­ta adição mais ou menos inex­plicáv­el para o seu deleite. Os tra­bal­hadores braçais mis­eráveis e home­ns-san­duíche que lev­avam as cores de Bayswa­ter ou South Kens­ing­ton, con­trata­dos ape­nas para o dia para sat­is­faz­er o pas­satem­po real, ficavam na sala com um ar com­par­a­ti­va­mente com­pungi­do, e uma grande parte do praz­er int­elec­tu­al do rei con­sis­tia no con­traste entre a arrogân­cia de suas espadas e penas e a mansa mis­éria de seus ros­tos. Mas ess­es alabardeiros de Not­ting Hill, em suas túni­cas ver­mel­has com cin­to de ouro, tin­ham o ar de uma gravi­dade absur­da. Eles pare­ci­am, por assim diz­er, tomar parte da brin­cadeira. Eles mar­charam e des­filavam em suas posições com uma quase sur­preen­dente dig­nidade e dis­ci­plina.

Eles car­regavam uma ban­deira amarela com um grande leão ver­mel­ho, nomea­do pelo Rei como o emble­ma de Not­ting Hill, por causa de uma tav­er­na no bair­ro que cos­tu­ma­va fre­quen­tar.

Entre as duas lin­has de seguidores avançou em direção ao rei um homem alto, de cabe­los ver­mel­hos jovem, de alta cat­e­go­ria e ousa­dos olhos azuis. Ele teria sido chama­do de boni­to, mas que um cer­to ar indefinív­el cau­sa­do pelo seu nar­iz ser grande demais para seu ros­to, e seus pés para as per­nas, dava-lhe uma aparên­cia de estran­heza e extrema juven­tude. Suas vestes eram ver­mel­has, de acor­do com a heráldica do rei, e, soz­in­ho entre os super­in­ten­dentes, ele esta­va cingi­do com uma grande espa­da. Este era Adam Wayne, o super­in­ten­dente intratáv­el de Not­ting Hill.

O rei atirou-se para trás na cadeira, e esfre­gou as mãos.

— Que dia, que dia! — disse para si mes­mo. Ago­ra vai haver barul­ho. Não sabia que seria tão diver­tido. Estes super­in­ten­dentes são tão indig­na­dos, tão razoáveis, tão cert­in­hos. Este homem, pelo olhar em seus olhos, é ain­da mais indig­na­do do que o resto. Nen­hum sinal em seus grandes olhos azuis, de ter ouvi­do falar de uma brin­cadeira. Ele vai recla­mar dos out­ros, e eles vão recla­mar dele, e todos vão ficar sun­tu­osa­mente felizes em recla­mar comi­go.

— Bem-vin­do, meu Lorde — disse ele em voz alta. — Quais são as novi­dades do Mor­ro das Cem Lendas? O que tem para o ouvi­do de vos­so Rei? Sei que prob­le­mas sur­gi­ram entre você e estes out­ros, nos­sos pri­mos, mas estes prob­le­mas devem ser o nos­so orgul­ho de se resolver. E não duvi­do, e não se pode duvi­dar, que o seu amor por mim não é menos sen­sív­el, nem menos ardente, que o deles.

O sr. Buck fez uma amar­ga care­ta e as nar­i­nas de James Bark­er se cur­varam; Wil­son começou a rir baix­in­ho, e o super­in­ten­dente de West Kens­ing­ton fez o mes­mo de uma for­ma disc­re­ta. Mas os grandes olhos azuis de Adam Wayne nun­ca mudaram, e ele gri­tou pelo corre­dor com sua voz sin­gu­lar e infan­til:

— Tra­go a min­ha hom­e­nagem ao rei. Tra­go-lhe a úni­ca coisa que ten­ho: a min­ha espa­da.

E, com um grande gesto, a colo­cou no chão, e ajoel­hou-se em um dos joel­hos.

Hou­ve um silên­cio de morte.

— Como disse? — disse o Rei, sem expressão.

— Fala bem, sen­hor — disse Adam Wayne —, como sem­pre fala, quan­do diz que meu amor não é menor do que o amor deles. Pequeno seria se não fos­se maior. Porque sou o herdeiro de seu pro­je­to, a cri­ança da grande Car­ta. Estou aqui pelos dire­itos que a Car­ta me deu, e juro, por sua coroa sagra­da, que onde per­maneço, per­maneço firme.


Screen Shot 04-08-16 at 12.13 PM

Os olhos dos cin­co home­ns se arregalaram.

Em segui­da, Buck disse, com sua voz extrema­mente forte:

— Todo o mun­do ficou louco?

O rei levan­tou-se, e seus olhos bril­haram:

— Sim — gri­tou, numa voz de júbi­lo —, todo o mun­do é louco, exce­to Adam Wayne e eu. É cer­to como a morte o que lhe disse há muito tem­po, James Bark­er. A seriedade envia os home­ns a lou­cu­ra. Você é louco, porque se impor­ta com políti­ca, tão louco como um homem que cole­ciona pas­sagens de bonde. Buck é louco, porque ele se impor­ta com o din­heiro, tão louco como um homem vici­a­do em ópio. Wil­son é louco, porque ele acha-se cor­re­to, tão louco como um homem que pen­sa que é o Deus Todo Poderoso. O super­in­ten­dente de West Kens­ing­ton é louco, porque acha que é respeitáv­el, tão louco como um homem que pen­sa que é uma gal­in­ha. Todos os home­ns são loucos, exce­to o humorista, que não se pre­ocu­pa com nada e pos­sui tudo. Pen­sa­va que só havia um humorista na Inglater­ra. Tolos! Abram seus olhos bovi­nos; há dois! Em Not­ting Hill, naque­la pou­ca promis­so­ra ele­vação, nasceu um artista! Ten­taram estra­gar a min­ha pia­da, e me intim­i­dar, tor­nan­do-se mais mod­er­nos, mais práti­cos, mais agi­ta­dos e racionais. Oh, que fes­ti­vo foi para eu respon­der, tor­nan­do-me mais augus­to, mais gra­cioso, mais anti­qua­do e maduro! Mas este rapaz viu como me mover. Ele me respon­deu de vol­ta, van­glória por van­glória, retóri­ca por retóri­ca. Ele levan­tou o escu­do que eu não pos­so que­brar, o escu­do da impen­etráv­el pom­posi­dade. Ouçam. Veio, meu Lorde, por Pump Street?

— Pela cidade de Not­ting Hill — respon­deu Wayne, com orgul­ho —, do qual Pump Street é uma parte viva e ale­gre.

— Não é uma parte muito grande — disse Bark­er, com despre­zo.

— Aqui­lo que é grande o sufi­ciente para os ricos cobiçar — disse Wayne, ele­van­do sua cabeça — é grande o sufi­ciente para os pobres defend­er.

O Rei deu um tapa nas suas per­nas, e agi­tou seus pés no ar por um segun­do.

— Toda pes­soa respeitáv­el em Not­ting Hill — cor­tou Buck, com sua voz grossa e fria — apoia-nos e é con­tra ti. Ten­ho muitos ami­gos em Not­ting Hill.

— Seus ami­gos são aque­les que aceitaram o seu ouro para com­prar out­ros lares, meu Lorde Buck — disse o super­in­ten­dente Wayne. — Pos­so muito bem acred­i­tar que são seus ami­gos.

— Eles nun­ca vender­am brin­que­dos sujos, de qual­quer maneira — disse Buck, rindo breve­mente.

— Eles vender­am coisas mais sujas — disse Wayne, cal­ma­mente. — Eles se vender­am.

— Isso não é bom, meu Buck­i­to — disse o Rei, rolan­do sobre a cadeira. — Não con­segue lidar com essa elo­quên­cia cav­al­heiresca. Não pode lidar com um artista. Não pode lidar com o humorista de Not­ting Hill. Oh, nunc dimit­tis, pois vivi para ver este dia! Super­in­ten­dente Wayne, per­manece firme?

— Deixe-os esper­ar e ver — disse Wayne. — Se per­mane­cia firme antes, acha que enfraque­cerei ago­ra que vi o ros­to do Rei? Pois luto por algo maior, se pode haver algo maior que os lares do meu povo e o Sen­ho­rio do Leão. Luto por sua visão real, por seu grande son­ho da Liga das Cidades Livres. Você mes­mo me deu essa liber­dade. Se eu fos­se um mendi­go e tivesse me ati­ra­do uma moe­da, ou se eu fos­se um cam­ponês numa dança e tivesse me arremes­sa­do um pre­sente, acha que teria deix­a­do sua ofer­ta ser lev­a­da por qual­quer ban­di­do na estra­da?

— É demais, é demais — disse o rei. — A natureza é fra­ca. Pre­ciso falar com você, irmão artista, sem mais dis­farce. Deixe-me lhe faz­er uma per­gun­ta solene. Adam Wayne, alto lorde super­in­ten­dente de Not­ting Hill, não acha isso esplên­di­do?

— Esplên­di­do — gri­tou Adam Wayne! Tem o esplen­dor de Deus.

— Desvi­ou nova­mente — disse o rei. — Vai man­ter a pose. Engraça­do, é claro, é sério. Mas, seri­amente, não é engraça­do?

— O quê? — per­gun­tou Wayne, com os olhos de um bebê.

— Pare tudo, não jogo mais. O negó­cio todo da Car­ta das Cidades. Não é imen­so?

— Imen­so não é uma palavra indigna para o glo­rioso pro­je­to.

— Oh, pare! Mas, é claro, enten­do. Você quer que eu limpe o quar­to destes bobos razoáveis. Quer os dois humoris­tas jun­tos soz­in­hos. Deixe-nos, sen­hores.

Buck lançou um olhar aze­do em Bark­er, e com um sinal mal-humora­do, saíram da sala como um des­file todo de azul e verde, de ver­mel­ho, ouro, púr­pu­ra, deixan­do ape­nas os dois no grande salão, o rei sen­ta­do em seu assen­to tabla­do, e a figu­ra aver­mel­ha­da ain­da ajoel­ha­do no chão ante a sua espa­da caí­da.

O Rei lim­i­tou-se a descer os degraus e bateu nas costas do super­in­ten­dente Wayne.

— Antes das estre­las serem feitas — gri­tou ele — fomos feitos um para o out­ro. É muito boni­to. Pen­sar na valente inde­pendên­cia de Pump Street. Isso é real. É a deifi­cação do ridícu­lo.

A figu­ra ajoel­ha­da levan­tou-se fer­oz­mente:

— Ridícu­lo?! — gri­tou ele, com um ros­to em fogo.

— Oh, pare, pare — disse o rei, impa­ciente —, não pre­cisa man­ter isso comi­go. Os áugures devem pis­car algu­mas vezes por pura fadi­ga das pálpe­bras. Vamos aproveitar por meia hora, e não como atores, mas como os críti­cos dramáti­cos. Não é uma pia­da?

Adam Wayne olhou para baixo como um meni­no, e respon­deu em uma voz con­strangi­do:

— Não enten­do a sua Majes­tade. Não pos­so acred­i­tar que, enquan­to luto por sua car­ta régia, sua majes­tade me aban­dona para estes cães caçadores de ouro.

— Oh, dro­ga… Mas o que é isso? Que dia­bo é isso

O rei olhou para o ros­to do jovem super­in­ten­dente, e na penum­bra da sala começou a ver que seu ros­to esta­va muito bran­co e os lábios tremen­do.

— Em nome de Deus, qual é o prob­le­ma? — gri­tou Auberon, segu­ran­do seu pul­so.

Wayne virou seu ros­to, e as lágri­mas bril­havam sobre ele.

— Sou ape­nas um meni­no, mas é ver­dade. Pin­taria o Leão Ver­mel­ho em meu escu­do mes­mo que tivesse só o meu sangue.

Rei Auberon soltou a mão e ficou sem mex­er, ator­doa­do.

— Meu Deus do Céu! Será pos­sív­el que alguém den­tro dos qua­tro mares da Grã-Bre­tan­ha real­mente leva Not­ting Hill a sério?

— Meu Deus do Céu! — Wayne disse apaixon­ada­mente. — É pos­sív­el que haja, den­tro dos qua­tro mares da Grã-Bre­tan­ha um homem que não a leve a sério?

O rei não disse nada, mas ape­nas voltou a subir os degraus da tri­buna, como um homem ator­doa­do. Caiu nova­mente para trás em sua cadeira e chutou seus cal­can­hares.

— Se esse tipo de coisa con­tin­uar… — disse fra­ca­mente — Vou começar a duvi­dar da supe­ri­or­i­dade da arte à vida. Em nome dos Céus, não brinque comi­go. Você real­mente quer diz­er que você (Deus me ajude!) um patri­o­ta de Not­ting Hill? Você é…

Wayne fez um gesto vio­len­to, e o Rei o acal­ma­va fre­neti­ca­mente.

— Tudo bem, tudo bem, vejo que você é; mas deixe-me con­tin­uar. Você real­mente propõe lutar con­tra estes ren­o­vadores mod­er­nos, com seus con­sel­hos, inspetores e agri­men­sores e todo o resto?

— Eles são tão ter­ríveis? — per­gun­tou Wayne, com des­dém.

O rei con­tin­u­ou a olhar como se ele fos­se uma curiosi­dade humana.

— E supon­ho que você acha que os den­tis­tas, pequenos com­er­ciantes e sen­ho­ras solteiras que habitam Not­ting Hill, vão se reunir com hinos de guer­ra seguin­do seu estandarte.

— Se eles têm sangue, irão — disse o super­in­ten­dente.

— E acho — disse o Rei, com a cabeça para trás entre as almo­fadas — que nun­ca pas­sou pela sua mente que… — sua voz pare­cia perder-se exu­ber­an­te­mente — nun­ca pas­sou pela sua cabeça que qual­quer um pen­sou que a ideia de um ide­al­is­mo por Not­ting Hill é.. er.. um pouco.. pouco ridícu­la?

— Claro que pen­sam assim — disse Wayne.

— Qual era o sig­nifi­ca­do de zom­bar dos pro­fe­tas?

— De onde — per­gun­tou o rei, incli­nan­do-se para frente —, de onde em nome do Céu tirou essa ideia mila­grosa­mente fútil?

— Você foi meu tutor, Sen­hor — disse o super­in­ten­dente —, em tudo que é alto e hon­roso.

— Eh? — disse o rei.

— Foi Sua Majes­tade quem primeiro colo­cou meu patri­o­tismo em chamas. Dez anos atrás, quan­do eu era um meni­no (ten­ho ape­nas 19), esta­va brin­can­do na encos­ta de Pump Street, com uma espa­da de madeira e um capacete de papel, son­han­do em grandes guer­ras. Num transe de rai­va batia com a min­ha espa­da, e fiquei pet­ri­fi­ca­do, pois vi que tin­ha te bati­do, Sen­hor, meu Rei, enquan­to vaga­va em nobre seg­re­do, cuidan­do do bem-estar das pes­soas. Mas não pre­cisa­va ter medo. Pois me ensi­nou a enten­der a realeza. Você nem se encol­heu ou franz­iu a tes­ta. Nem con­vo­cou nen­hum guar­da. Nem impôs punições. Mas, em palavras ardentes e augus­tas, que estão escritas na min­ha alma, para nun­ca mais serem apa­gadas, disse-me para sem­pre virar a min­ha espa­da con­tra os inimi­gos da min­ha cidade invi­o­la­da. Como um sac­er­dote apon­tan­do para o altar, me apon­tou para o monte de Not­ting. “Enquan­to estiv­er pron­to para mor­rer pela mon­tan­ha sagra­da, mes­mo que seja cer­ca­do por todos os exérci­tos de Bayswa­ter.” Não me esque­ci das palavras, e ten­ho razão ago­ra para me lem­brar delas, pois é chega­da a hora para coroar sua pro­fe­cia. A col­i­na sagra­da está cer­ca­da pelos exérci­tos de Bayswa­ter, e estou pron­to para mor­rer.

O rei esta­va deita­do para trás na cadeira, uma espé­cie de ruí­na.

— Oh, Sen­hor, Sen­hor, Sen­hor — ele mur­murou. — Que vida! Oh vida! Tudo meu tra­bal­ho! Parece que fiz tudo isso. Então você é o meni­no de cabe­los ver­mel­hos que me bateu no colete. O que fiz? Deus, o que fiz? Pen­sei que tin­ha feito uma pia­da, e criei uma paixão. Ten­tei com­por uma paró­dia, e parece estar no meio da trans­for­mação num épi­co. O que é feito com um mun­do assim? Em nome do Sen­hor, a pia­da não era grande e ousa­da o sufi­ciente? Aban­donei meu humor sutil para diver­ti-lo, e parece-me que trouxe lágri­mas aos seus olhos. O que deve ser feito para as pes­soas enten­derem que você escreve uma pan­tomi­ma? Chamar as sal­sichas de fes­tões clás­si­cos, e faz­er o poli­cial cor­tar uma tragé­dia em duas por dev­er públi­co? Mas por que estou falan­do? Por que estou fazen­do per­gun­tas a um cav­al­heiro jovem e boni­to que é total­mente louco? Qual é o propósi­to? Qual é o propósi­to de qual­quer coisa? Oh, Sen­hor! Oh, Sen­hor!

De repente, ele levan­tou-se.

— Acha mes­mo que a sagra­da Not­ting Hill não é absur­da?

— Absur­da? — per­gun­tou Wayne, sem expressão. — Por que dev­e­ria?

O rei olhou para trás igual­mente sem expressão:

— Como?

— Not­ting Hill — disse o super­in­ten­dente, sim­ples­mente — é um ter­reno ele­va­do de ter­ra comum, em que home­ns con­struíram casas para viv­er, onde eles nascem, se apaixon­am, rezam, casam e mor­rerem. Por que devo achar absur­do?

O rei sor­riu.

— Porque, meu Leônidas — começou, então, de repente, não sabia, sua mente era um bran­co total. Afi­nal, por que era um absur­do? Por que era um absur­do? Ele sen­tiu-se como se o chão de sua mente tivesse sum­i­do. Ele sen­tiu o que todos os home­ns sen­tem quan­do seus prin­ci­pais fun­da­men­tos são dura­mente atingi­dos por uma per­gun­ta. Bark­er sem­pre se sen­tia assim quan­do o rei dizia: “Por que se pre­ocu­par com políti­ca?”

Os pen­sa­men­tos do rei estavam em uma espé­cie de deban­da­da, não podia recol­hê-los.

— A per­cepção ger­al é de ser um pouco engraça­do — disse vaga­mente.

— Supon­ho — disse Adam viran­do-se com rapi­dez — que con­sid­era a cru­ci­fi­cação como algo sério?

— Bem — começou Auberon —, admi­to que, em ger­al, achei que tin­ha um lado mais grave.

— Então está erra­do — disse Wayne, com incrív­el vio­lên­cia. — A cru­ci­fi­cação é cômi­ca. É pri­morosa­mente diver­ti­da. Era um tipo absur­do e obsceno de empalação reser­va­do para as pes­soas que foram feitas para serem ridic­u­lar­izadas, para escravos e provin­ci­ais, para den­tis­tas e pequenos com­er­ciantes, como você diria. Vi a grotesca for­ca, que os garo­tos de rua romanos rabis­caram como uma pia­da vul­gar, em chamas sobre os pinácu­los dos tem­p­los do mun­do. E devo con­tin­uar?

O rei não respon­deu.

Adam con­tin­u­ou, a sua voz ressoan­do no tel­ha­do.

— Esse riso com que os home­ns tiranizam não é o grande poder que acred­i­ta. Pedro foi cru­ci­fi­ca­do, e cru­ci­fi­ca­do de cabeça para baixo. O que pode­ria ser mais engraça­do do que a ideia de um Após­to­lo de idade respeitáv­el de cabeça para baixo? O que pode­ria ser mais ao esti­lo de seu humor mod­er­no? Mas qual foi o fim dele? De cabeça para baixo ou do lado cer­to, Pedro era Pedro para a humanidade. De cabeça para baixo ele paira sobre a Europa, e mil­hões se movem e res­pi­ram na vida da sua Igre­ja.

Rei Auberon levan­tou-se dis­traí­do:

— Há algo no que você diz. Parece que esteve pen­san­do, jovem.

— Ape­nas sentin­do, sen­hor — respon­deu o super­in­ten­dente. — Nasci, como os out­ros home­ns, num pon­to da ter­ra que amei, porque brin­quei jogos de meni­nos lá, e me apaixonei, e con­ver­sei com os meus ami­gos em noites que eram noites dos deuses. E sin­to o mis­tério. Estes pequenos jardins onde dis­se­mos nos­sos amores. Essas ruas onde nós colo­camos nos­sos mor­tos. Por que dev­e­ri­am ser comuns? Por que dev­e­ri­am ser absur­dos? Por que dev­e­ria ser grotesco diz­er que uma caixa de cor­reio é poéti­ca quan­do, por um ano não podia ver uma caixa de cor­reio ver­mel­ha con­tra o amare­lo do anoite­cer numa deter­mi­na­da rua sem ser sacu­d­i­do por algo que Deus guar­da em seg­re­do, mas que é mais forte do que a ale­gria ou a tris­teza? Por que alguém dev­e­ria lev­an­tar uma risa­da, ao diz­er a “causa de Not­ting Hill”? Not­ting Hill, onde mil­hares de espíri­tos imor­tais bril­ham ora com esper­ança, ora com medo.

Auberon esta­va sacud­in­do a poeira de sua luva com uma nova seriedade em seu ros­to, dis­tin­ta da solenidade de coru­ja que era a pose de seu humor.

— É muito difí­cil — disse final­mente. — É uma difi­cul­dade maldita. Vejo o que você quer diz­er. Até con­cor­do com você em cer­to pon­to ou gostaria de con­cor­dar, se eu fos­se jovem o sufi­ciente para ser um pro­fe­ta ou poeta. Sin­to uma ver­dade em tudo que diz, até chegar às palavras ’Not­ting Hill’. E então lamen­to diz­er que o vel­ho Adão acor­da mor­ren­do de rir e aca­ba com o novo Adão, cujo nome é Wayne.

Pela primeira vez o super­in­ten­dente Wayne ficou em silên­cio, e ficou olhan­do son­hado­ra­mente para o chão. A noite se aprox­i­ma­va, e o quar­to tin­ha fica­do mais escuro.

— Eu sei — disse ele, numa voz estran­ha, quase sono­len­ta. — Tam­bém há ver­dade no que diz. É difí­cil não rir com nomes comuns, digo ape­nas que não se devia. Ten­ho pen­sa­do num remé­dio, mas tais pen­sa­men­tos são bas­tante ter­ríveis.

— Que pen­sa­men­tos? — per­gun­tou Auberon.

O super­in­ten­dente de Not­ting Hill parece ter caí­do em uma espé­cie de transe, nos seus olhos havia uma luz élfi­ca.

— Sei de uma var­in­ha mág­i­ca, mas é uma var­in­ha que ape­nas um ou dois podem usar cor­re­ta­mente, e só rara­mente. É uma var­in­ha de grande medo, mais forte do que aque­les que a usam, muitas vezes assus­ta­do­ra, muitas vezes per­ver­sa. Mas o que é toca­do com ela nun­ca mais é total­mente comum, o que é toca­do recebe uma magia fora do mun­do. Se eu tocar, com esta var­in­ha, as fer­rovias e as estradas de Not­ting Hill, os home­ns irão amá-las, e terão medo delas para sem­pre.

— Do que dia­bo você está falan­do? — per­gun­tou o rei.

— Ela fez pais­agens medi­anas serem mag­ní­fi­cas, e case­bres durarem mais do que cat­edrais — con­tin­u­ou o louco. — Por que não pode­ria faz­er de postes de luz mais mági­cos do que as lâm­padas gre­gas? E um pas­seio de ônibus, como de um navio pin­ta­do. O toque dela é o dedo de uma estran­ha per­feição.

— O que é a sua var­in­ha? — gri­tou o rei, impa­ciente.

— Aí está — disse Wayne, e apon­tou para o chão, onde a sua espa­da esta­va lisa e bril­hante.

— A espa­da! — gri­tou o rei, e levan­tou-se em frente do estra­do.

— Sim, sim — gri­tou Wayne, com voz rou­ca. — As coisas tocadas por ela não são vul­gares, as coisas tocadas por ela…

O rei Auberon fez um gesto de hor­ror.

— Vai der­ra­mar sangue por isso! — gri­tou. — Por um maldiçoa­do pon­to de vista…

— Oh, vocês reis! — gri­tou Adam, em uma explosão de despre­zo. — Quão humano são vocês, quão car­in­hosos, quão aten­ciosos! Fazem a guer­ra por uma fron­teira, ou pelas impor­tações de um por­to estrangeiro! Der­ra­mam sangue pelos dire­itos de impos­tos, ou como a saudação de um almi­rante. Mas para as coisas que tor­nam a vida digna ou mis­eráv­el, quão humanos são! Digo aqui, e sei bem o que eu falo, nun­ca hou­ve guer­ras necessárias, mas as guer­ras reli­giosas. Nun­ca hou­ve guer­ras jus­tas, mas as guer­ras reli­giosas. Havia nun­ca nen­hu­ma guer­ra humana, mas as guer­ras reli­giosas. Pois estes home­ns estavam lutan­do por algo que afir­ma­va, pelo menos, ser para a feli­ci­dade do homem, a vir­tude do homem. Um cruza­do pen­sou, pelo menos, que o Islã feria a alma de cada homem, rei ou funileiro, tudo o que pode­ria cair em seu domínio. Acho que Buck, Bark­er e estes abutres ricos fer­em a alma de cada homem, fer­em cada cen­tímetro do chão, fer­em cada tijo­lo das casas, tudo o que cai em seus domínios. Acha que não ten­ho o dire­ito de lutar por Not­ting Hill, quan­do seu gov­er­no inglês tan­tas vezes lutou por tolices? Se, como dizem seus ami­gos ricos, não há deuses, e aci­ma de nós há somente os céus escuros, para o que deve lutar o homem, mas pelo lugar onde teve o Éden da infân­cia e o cur­to céu do primeiro amor? Se não hou­ver tem­p­los e não são sagradas as escrit­uras, o que é sagra­do, senão a própria juven­tude do homem?

O rei andou um pouco inqui­eto para cima e para baixo no estra­do.

— É difí­cil — disse ele, mor­den­do os lábios — ser favoráv­el a uma visão tão deses­per­a­da, tão respon­sáv­el

Enquan­to fala­va, a por­ta da sala de audiên­cia abriu entre­aber­ta, e pela aber­tu­ra veio, como um súbito tri­no de um pás­saro, a voz alta, nasal, mas bem-edu­ca­da de Bark­er:

— Eu disse a ele de for­ma muito clara, o inter­esse públi­co…

Auberon se voltou para Wayne com vio­lên­cia:

— Que dia­bos é isso? O que estou dizen­do? O que você está dizen­do? Você me hip­no­ti­zou? Malditos sejam seus mis­te­riosos olhos azuis! Deixe-me ir. Devol­va-me o meu sen­so de humor. Devol­va-me, eu digo!

— Eu lhe asse­guro solen­e­mente — disse Wayne, inqui­eto, com um gesto, como sentin­do sobre si — que não o ten­ho.

O rei caiu para trás em sua cadeira, e com uma gar­gal­ha­da rabelaisiana:

— Não acho que ten­ha — exclam­ou.

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