AUGUSTO DEL NOCE: O MARXISMO DE GRAMSCI E A RELIGIÃO

Antônio Gram­sci

Augus­to del Noce 
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa
Cen­tro Romano Incon­tri Sac­er­do­tali,
doc­u­men­ti, Anno IV, n. 35,
Roma feb­braio 1977

Gram­sci: marx­is­mo para o Oci­dente

Qual lugar asse­gu­rar a Gram­sci entre os teóri­cos oci­den­tais do comu­nis­mo? Um fato é incon­testáv­el: entre os teóri­cos oci­den­tais do comu­nis­mo, só Gram­sci definiu uma lin­ha políti­ca capaz de ter efeito nos país­es oci­den­tais. Uma vez que para o marx­is­mo o filó­so­fo, o his­to­ri­ador e o políti­co são indis­tin­guíveis, porque o critério de ver­dade é colo­ca­do para o marx­is­mo na ver­i­fi­cação históri­ca, parece legí­ti­mo con­cluir dis­to que se deve ver na posição gram­s­ciana tam­bém o desen­volvi­men­to mais rig­oroso que o marx­is­mo alcançou. Até ago­ra, o marx­is­mo não con­seguiu vencer no Oci­dente e com isso se uni­ver­salizar. A pos­sív­el vitória da ‘batal­ha do Oci­dente’ tor­na o pos­sív­el sinal da sua uni­ver­sal­i­dade. Em todo o caso, é com o comu­nis­mo gram­s­ciano que deve­mos faz­er as con­tas.

Dito isto, deve­mos nos per­gun­tar: existe para tal for­ma de marx­is­mo uma pos­si­bil­i­dade de con­cil­i­ação, não só com o catoli­cis­mo, mas com qual­quer posição de pen­sa­men­to que admi­ta uma real­i­dade tran­scen­dente? Ou ao invés dis­so, o gram­scis­mo con­tém a respos­ta deci­si­va, porém neg­a­ti­va, a qual­quer pos­si­bil­i­dade de diál­o­go?

Deci­si­va porque a negação da tran­scendên­cia reli­giosa aparece em Gram­sci não como uma super­estru­tu­ra acom­pan­hante, em razão dos erros históri­cos cometi­dos pelos crentes, ou de hábitos laicis­tas de pen­sa­men­to, uma práti­ca que em si seria neu­tral, de modo a ser então des­ti­na­da, como super­estru­tu­ra a cair, mas como uma condição, por assim diz­er, tran­scen­den­tal, nas con­sid­er­ações dos aspec­tos teóri­cos e daque­les práti­cos do seu pen­sa­men­to.

Os erros do neo­mod­ernismo marx­ista

Pen­so que isto se deva antes de tudo pelo dev­i­do respeito a leal­dade int­elec­tu­al de Gram­sci; a essa, assim como a coerên­cia e ao rig­or a qual toda a sua obra é imposta­da. Con­fes­so que me repug­nam no mais repul­si­vo dos mod­os aque­les dis­cur­sos hoje infe­liz­mente cor­rentes entre os católi­cos – segun­do qual o dev­er do filó­so­fo e do teól­o­go seria aque­le de cris­tianizar as várias filosofias que tiver­am suces­so (estran­hamente assu­min­do o suces­so como critério de val­or!); colo­can­do-se, se diz, a seu respeito em posição críti­ca e não polêmi­ca, assu­min­do a sua razão ao invés de com­bate-la. Se diz que o ateu nega em real­i­dade uma imagem defor­ma­da e idol­átri­ca de Deus, que cada um é ateu a respeito de qual­quer fal­sa imagem de Deus, etc. Esse dis­cur­so é cer­ta­mente irrepreen­sív­el, mas con­tém o erro de esque­cer o que existe de mais essen­cial: que quem nega Deus não pode não sub­sti­tui-lo com um ído­lo, e que o proces­so idol­átri­co é a ele­vação a total­i­dade de uma parte da real­i­dade (não é um aca­so que a época do ateís­mo é tam­bém aque­la do total­i­taris­mo, porque o total­i­taris­mo é pre­cisa­mente o ateís­mo políti­co). Que católi­cos que não tem ded­i­ca­do ao tra­bal­ho int­elec­tu­al a sua profis­são pos­sam cair em engano e vir atraí­dos a sim­pa­tias pelo comu­nis­mo, é com­preen­sív­el; não o é que no seu erro encon­trem enco­ra­ja­men­to da parte daque­les que, como int­elec­tu­ais, teri­am o dev­er de ilu­mi­nar as con­sciên­cias. O tema da ‘traição dos cléri­gos’, títu­lo de uma afor­tu­na­da obra pub­li­ca­da jus­ta­mente a meio sécu­lo, retor­na.

Para chegar a raiz do erro, que é então aque­le de crer pos­sív­el uma ‘aquisição da real­i­dade’ do marx­is­mo pelo cris­tian­is­mo, é pre­ciso obser­var que aqui­lo que é váli­do para as filosofias pré-cristãs não o é para as pós-cristãs; não o é pelo proces­so de pen­sa­men­to o qual resul­ta­do é o ateís­mo, fenô­meno pós-cristão e lig­a­do a própria ideia de pós-cris­tian­is­mo, tan­to eu como Cornélio Fab­ro colo­camos luz sobre isso em nos­sos livros sobre o ateís­mo. Cer­ta­mente o patrimônio do pen­sa­men­to cristão se acres­cen­ta, e aqui­lo que exis­tia de vir­tu­al nas teses tradi­cionais se man­i­fes­ta naque­le momen­to em que a críti­ca do erro leva a faz­er luz sobre a sua gênese. Que ten­ha exis­ti­do, em um pas­sa­do sufi­cien­te­mente recente, um pen­sa­men­to católi­co razoavel­mente acríti­co porque defor­ma­va as posições que enten­dia com­bat­er, é ver­dadeiro; que exista hoje um pen­sa­men­to católi­co maior­mente acríti­co na sua ten­ta­ti­va de ben­diz­er ou bati­zar as idéias que não ape­nas foram apre­sen­tadas como adver­sas, mas o são, é igual­mente ver­dadeiro. Não é dito que a defor­mação à esquer­da, seria mel­hor diz­er, as defor­mações dirigi­das a con­cil­iar os novos poderosos porque um fio ver­mel­ho une hoje a bur­gue­sia pro­gres­sista rad­i­cal, que é tam­bém a bur­gue­sia mais rica, e o comu­nis­mo – sejam mais vál­i­das que defor­mações a dire­i­ta.

Me seja con­ce­di­do de me referir as dis­cussões do ano de 1945, ou daque­les que ime­di­ata­mente o seguiram [1] e me recon­heceis ao menos um méri­to: o de haver adver­tido des­de então sobre o poder filosó­fi­co do marx­is­mo, em tem­pos em que na filosofia católi­ca ital­iana a exclusão do marx­is­mo da história da filosofia (a sua redução a sim­ples ide­olo­gia apta a mover as mas­sas) era um dog­ma taci­ta­mente, ou não muito taci­ta­mente, aceito; com as con­se­quên­cias que hoje se vêem. Se descon­ta o erro que então se cumpria a dire­i­ta repetindo-o à esquer­da, e em pro­porções muito maiores: já faz um pouco de tem­po que os católi­cos não fazem out­ra coisa senão ler aque­les que vêem chama­dos os grandes desmisti­fi­cadores e em mente, nat­u­ral­mente, Marx e os seus comen­ta­dores. Esta­mos diante, se pode­ria diz­er, grace­jan­do um pouco, mas não muito, a sub­sti­tuir a anti­ga patrolo­gia com uma ‘patrolo­gia alemã’ (Feuer­bach, Marx, Freud). Cris­tian­is­mo ver­dadeiro, ou ade­qua­do aos ‘sinais dos tem­pos’ seria aque­le que per­manece depois que pas­sou pela críti­ca destes novos mestres; e é nat­ur­al que não lhe per­maneça nada; a teolo­gia que con­sta­ta ‘a morte de Deus’ é o seu legí­ti­mo resul­ta­do.

Para Gram­sci, abso­lu­ta incom­pat­i­bil­i­dade entre marx­is­mo e religião

Recor­do a impressão que provei quan­do li o primeiro livro filosó­fi­co de Gram­sci, O mate­ri­al­is­mo históri­co e a filosofia de Benedet­to Croce, assim que foi pub­li­ca­do em janeiro de 1948. Aque­la de ter encon­tra­do a con­fir­mação da min­ha tese. O repi­to tam­bém hoje, com maior con­sciên­cia. Exis­tia uma ver­dade de Gram­sci. Esta: sem ódio anti-católi­co, sem ódio anti-cler­i­cal (como ver­dadeiro his­toricista ele não odeia), Gram­sci tem, porém, colo­ca­do em luz a incom­pat­i­bil­i­dade e insep­a­ra­bil­i­dade de cris­tian­is­mo e de marx­is­mo. Se é ver­dadeiro, isto é, que o gram­scis­mo rep­re­sen­ta a for­ma mais rig­orosa daque­le que se cos­tu­ma diz­er marx­is­mo ‘criti­co’ em respeito ao marx­is­mo lit­er­al como ao mate­ri­al­is­mo dialéti­co o Dia­mat, é entre­tan­to ver­dadeiro que este marx­is­mo define o seu primeiro adver­sário no catoli­cis­mo, ain­da mais que na bur­gue­sia [2].

A filosofia se tor­na religião ateís­ta

Pas­san­do a demon­stração, começamos com ver em que sen­ti­do o pen­sa­men­to de Gram­sci, emb­o­ra sendo assaz dis­tante da letra, pode e deva diz­er-se marx­ista. Refle­ti­mos para isso sobre o seguinte pon­to: o tra­to úni­co que especí­fi­ca o marx­is­mo na inteira história do pen­sa­men­to está na sua apre­sen­tação como o pen­sa­men­to mod­er­no, no aspec­to em que se define laico, isto é, como ultra­pas­san­do defin­i­ti­va­mente o pen­sa­men­to tran­scen­dente, que se tor­na religião. O proces­so do pen­sa­men­to ima­nen­tista mod­er­no foi sem­pre, na idade mod­er­na, proces­so da religião em direção a filosofia; com marx­is­mo a lin­ha dire­ti­va vem inver­ti­da, se tor­na proces­so da filosofia em direção a religião [3]. Em que sen­ti­do? Naque­le de uma con­cepção da vida que unifi­ca os int­elec­tu­ais e as mas­sas. É neste sen­ti­do que se exprime Gram­sci quan­do afir­ma que “a força das religiões e espe­cial­mente da Igre­ja Católi­ca con­sis­tiu naqui­lo em que elas sen­tem ener­gi­ca­mente a neces­si­dade da união doutri­nal de toda a mas­sa reli­giosa, e lutam para que as camadas int­elec­tu­ais supe­ri­ores não se sep­a­rem daque­las infe­ri­ores” [4]. Ou se quis­er­mos usar um out­ro ter­mo, aqui­lo que dis­tingue o marx­is­mo das out­ras posições filosó­fi­cas mod­er­nas é a sua críti­ca dirigi­da a idéia de religião como momen­to abso­lu­to da vida espir­i­tu­al, ou ain­da rep­re­sen­tação da ver­dade em for­ma sim­bóli­ca e míti­ca. Em con­se­quên­cia des­ta negação a filosofia se faz religião emb­o­ra não per­den­do o seu caráter sec­u­lar; e aqui se re-encon­tra o sen­ti­do autên­ti­co de um ter­mo que muitas vezes foi usa­do, de modo a ter se tor­na­do gas­to, mas que tam­bém, bem enten­di­do, tem uma ple­na ver­dade, aque­le de ‘religião sec­u­lar’.

O ima­nen­tismo rad­i­cal de Gram­sci

Ora, é exata­mente sobre este pon­to que Gram­sci é marx­ista. Ousarei diz­er que o é ape­nas sobre esse, e nat­u­ral­mente sobre aque­le que isso com­por­ta: e que o desen­volvi­men­to deste tema cen­tral do pen­sa­men­to marx­ista o leva a elim­i­nar lhe nec­es­sari­a­mente out­ros, de modo a faz­er pen­sar a sua obra como uma ‘refor­ma do marx­is­mo’ simétri­ca a ‘refor­ma do hege­lis­mo’ cro­ceano ou gen­til­iano; e de fato não é um caso que a pesquisa de um ‘ima­nen­tismo rad­i­cal pos­te­ri­or ao hege­lis­mo’, una Croce, Gen­tile e Gram­sci a tal pon­to que em uma futu­ra história da filosofia estes três filó­so­fos serão provavel­mente estu­da­dos em um mes­mo capí­tu­lo. O tra­to unitário é de fato o his­tori­cis­mo, e a recusa do mate­ri­al­is­mo vis­to na aceitação nat­u­ralís­ti­ca (Gram­sci escreve que no ter­mo ‘mate­ri­al­is­mo históri­co’ é pre­ciso que o acen­to seja feito cair sobre o adje­ti­vo e não sobre o sub­stan­ti­vo). Todos os três con­cor­dam que o mate­ri­al­is­mo é uma posição de pen­sa­men­to metafísi­co-tran­scen­dente: é a respos­ta neg­a­ti­va ao prob­le­ma da existên­cia de Deus dada depois que se são aceita­dos os ter­mos realís­ti­cos em que o prob­le­ma era colo­ca­do. O real­is­mo, isto é, ‘autor­iza’ a per­gun­ta sobre a existên­cia de Deus: para repri­mi-la o comu­nista dev­erá recor­rer a respostas filosó­fi­cas criti­ca­mente insu­fi­cientes ou a méto­dos coerci­tivos (ou a um e ao out­ro).

Em out­ras ocasiões escrevi que a prob­lemáti­ca filosó­fi­ca do cinquentenário entre o 1890 e o 1940 é dom­i­na­da na Itália pelo tema das relações da religião e da filosofia. Nas filosofias de Croce, Gen­tile e de Mar­tinet­ti, para ir aos maiores, temos em cor­re­lação a recusa do sobre­nat­ur­al, uma fratu­ra entre os atrib­u­tos de Deus; pelo qual Gen­tile olha o Deus cri­ador, Croce ao Deus prov­i­dente e Mar­tinet­ti ao Deus reden­tor.

A decom­posição da religião

O dis­cur­so pode ser prossegui­do naqui­lo que diz respeito a Croce, Gen­tile e Gram­sci. Croce e Gen­tile, em ter­mos diver­sos, enten­dem pro­por uma ‘filosofia cristã’, uma filosofia que seja a saber uma religião desmi­tol­o­giza­da. Fazem isto porque olham sobre­tu­do o con­teú­do teóri­co da religião. Em que coisa Gram­sci dis­sente deles? Na recusa da ideia de religião como filosofia infe­ri­or den­tro do hor­i­zonte de uma visão rad­i­cal­mente ima­nen­tista. Todavia, não seria nem mes­mo exa­to falar de com­ple­ta irre­ligião. Gram­sci per­tence ao perío­do 1890–1940 da filosofia ital­iana car­ac­ter­i­za­do, na ver­tente laica, pela decom­posição da religião em con­se­quên­cia da recusa do sobre­nat­ur­al [5]. Se Croce e Gen­tile man­tém momen­tos do con­teú­do teóri­co da religião e são, a seu modo, ‘filó­so­fos cristãos’ mas de uma religião filosó­fi­ca aris­tocráti­ca, Gram­sci vê ao invés dis­so o momen­to social-politi­co da religião, ao seu reli­gare, esta­b­ele­cer uma unidade entre os int­elec­tu­ais e os sim­ples, que real­mente naque­las religiões filosó­fi­cas se perde. Neste sen­ti­do ‘ir ao povo’ pas­sa de uma prospec­ti­va rad­i­cal­mente ilu­minís­ti­ca. Escrevi por isso out­ra vez que aque­la “sub­je­tivista filosofia da práx­is” que ele sub­sti­tui ao “obje­tivista mate­ri­al­is­mo históri­co” cor­re­sponde rig­orosa­mente ao atu­al­is­mo, vivi­do em uma dis­posição espir­i­tu­al român­ti­ca, como em Gen­tile, mas uma dis­posição ilu­min­ista.

O ilu­min­is­mo gram­s­ciano

Sub­lin­hamos ‘dis­posição ilu­min­ista’: porque a posição de Gram­sci a respeito da religião é sob um aspec­to mais neg­a­ti­va do que a do próprio Marx. Have­ria Gram­sci, de fato, sub­scrito a frase segun­do a qual “a religião é um sus­piro da alma em um mun­do sem alma”? Com essa Marx parece deter­mi­nar uma pos­i­tivi­dade da religião em um mun­do bur­guês; ape­nas, acres­cen­ta que este mun­do bur­guês deve nec­es­sari­a­mente ser destruí­do; porque pen­sa na extinção da religião como um resul­ta­do, que seguirá nat­u­ral­mente, como con­se­quên­cia necessária, ao adven­to da sociedade sem class­es.

A pas­sagem de Gram­sci do obje­tivista mate­ri­al­is­mo históri­co para a sub­je­tivista filosofia da práx­is faz sim que o desa­parec­i­men­to da religião tran­scen­dente se con­fig­ure para ele a maneira ilu­min­ista, como a condição de uma sociedade unifi­ca­da. Em out­ros ter­mos: o comu­nis­mo é a condição para que se atue ple­na­mente aque­le pro­gra­ma de lai­ciza­ção total, que já era afir­ma­do pelo rad­i­cal­is­mo bur­guês. O caráter ‘pedagógi­co’ for­mal­mente democráti­co, de ‘guer­ra de posições’, que ele deter­mi­na nos país­es oci­den­tais não é uma sug­estão táti­ca, mas con­segue esta diver­sa inter­pre­tação da religião.

A prospec­ti­va ger­al de Gram­sci

Recon­stru­amos por isso rap­i­da­mente a sua prospec­ti­va ger­al: a oposição ‘cap­i­tal­is­mo’ ou ‘bur­gue­sia’ e pro­le­tari­a­do ele sub­sti­tui fun­da­men­tal­mente aque­la ‘con­cepção tran­scen­dente da vida’ e ‘con­cepção ima­nen­tista e mod­er­na’. Nos refe­r­i­mos, como pro­va, a um tex­to seu essen­cial: “Uma das maiores fraque­zas das filosofias ima­nen­tis­tas em ger­al con­siste exata­mente em não ter con­segui­do cri­ar uma unidade ide­ológ­i­ca entre o baixo e o alto, entre o ‘sim­ples’ e os int­elec­tu­ais. Na história da civ­i­liza­ção oci­den­tal o fato se ver­i­fi­cou sobre a escala europeia com o fal­i­men­to ime­di­a­to do Renasci­men­to e em parte tam­bém da Refor­ma nos con­fron­tos da Igre­ja Romana. Esta fraque­za se man­i­fes­ta na questão escolás­ti­ca enquan­to das filosofias ima­nen­tis­tas não foi nem mes­mo ten­ta­do con­stru­ir uma con­cepção que pudesse sub­sti­tuir a religião na edu­cação infan­til, então o sofis­ma pseu­do-his­toricista pelo qual ped­a­gogis­tas are­li­giosos (acon­fes­sion­ais) e em real­i­dade ateus, con­ce­dem o ensi­na­men­to da religião porque a religião é a filosofia da infân­cia da humanidade que se ren­o­va em cada infân­cia metafóri­ca. O ide­al­is­mo sim é tam­bém mostra­do aves­so aos movi­men­tos cul­tur­ais de ‘ir em direção ao povo’…” [6]. No pen­sa­men­to de Gram­sci, a sep­a­ração entre as class­es segue ao per­manecer den­tro a for­ma ima­nen­tista de pen­sa­men­to da ideia da religião como “filosofia do povo”.

O rig­oroso ateís­mo do Marx­is­mo

Per­mi­tam-me recor­dar aqui o que escrevi em 1964: “Para o marx­is­mo a filosofia, enquan­to pura­mente racional, não pode se faz­er religião enquan­to rig­oroso ateís­mo. Se a religião tran­scen­dente tivesse ver­dadeira­mente uma ver­dade perene, expres­sa sob for­ma de ‘rep­re­sen­tação’ ela dev­e­ria ser con­ser­va­da na filosofia, o dev­er do filó­so­fo con­fig­u­ran­do-se, a maneira hegeliana, como aque­le de quem deve bus­car o cor­re­spon­dente em ter­mos de pen­sa­men­to da rep­re­sen­tação. Con­se­quente­mente se chegaria de novo ao ultra­pas­sa­men­to da religião pela filosofia, e assim ao movi­men­to de pen­sa­men­to da religião para a filosofia, mais que da filosofia para a religião. Mas a con­ser­vação da religião na filosofia sig­nifi­ca tam­bém a sep­a­ração do filó­so­fo das mas­sas; e isto leva a uma con­tradição vivi­da, porque a posição aris­tocráti­ca a que o filó­so­fo se encon­tra con­stri­to, o leva a impos­si­bil­i­dade da comu­ni­cação com as mas­sas, por­tan­to a jus­ti­fi­cação da dis­posição maquiavéli­ca a seu respeito, e assim a negação da sua humanidade; isto é, do aspec­to vital da religião, a afir­mação da uni­ver­sal­i­dade humana. Se vê nis­to que religião e ateís­mo são no marx­is­mo de tal for­ma lig­a­dos que a aten­u­ação do momen­to ateu coin­cide com o momen­to reli­gioso e assim do momen­to éti­co, não se poden­do falar pelo marx­is­mo de ‘moral autôno­ma’. Por isso é pre­ciso diz­er que existe no marx­is­mo este aspec­to de ver­dade: colo­ca­da a negação ini­cial do sobre­nat­ur­al, a religião, enquan­to vida, poderá reafir­mar-se ape­nas como rad­i­cal ateís­mo. Afir­mação que, pos­ta a hipótese, é abso­lu­ta­mente inegáv­el. A filosofia, ao se tornar religião, assume o aspec­to de ver­dade lib­er­ta­do­ra; a filosofia da história marx­ista se faz religião reduzi­da a for­ma de ‘teodi­ceia’. Mas esta lib­er­tação é de todo mun­dana, históri­ca e social; e assim iden­ti­dade de religião e políti­ca. Por­tan­to, a ideia de rev­olução a qual gênese não se expli­ca com uma rem­i­nis­cên­cia da ideia escat­ológ­i­ca judaico-cristã, mas com ser o ter­mo últi­mo da reabil­i­tação ilu­min­ista da natureza humana. Por isso a plen­i­tude do hege­lis­mo se iden­ti­fi­ca em Marx com a plen­i­tude da exigên­cia ilu­min­ista de razão ati­va, capaz de trans­for­mar o mun­do” [7].

Gram­sci e Croce

Estas lin­has que, quiça referi­das ao pen­sa­men­to de Marx, podem pare­cer dar-lhes uma flexão um pouco ide­al­ista servem cer­ta­mente com pre­cisão para definir o pen­sa­men­to de Gram­sci. Quan­tos lhe escrever­am – e ago­ra a lit­er­atu­ra sobre Gram­sci for­ma uma inteira bib­liote­ca, mes­mo se con­sti­tuí­da por livros e ensaios de val­ores muito desiguais – come­ter­am o erro, creio eu, de não insi­s­tir sobre a função deci­si­va que exerci­tou sobre ele, como estí­mu­lo a sua for­mu­lação deci­si­va, a leitu­ra da Sto­ria d’Europa no sécu­lo XIX de Croce, pub­li­ca­da em janeiro de 1932. Onde havia uma ideia de ‘religião’ enten­di­da no sen­ti­do laico de “unidade de fé entre uma con­cepção do mun­do e uma nor­ma de con­du­ta con­forme”, e se per­gun­ta­va porque esta unidade de fé dev­e­ria ain­da ser chama­da “religião” e não ao invés dis­so “ide­olo­gia” ou até mes­mo “políti­ca” [8]. Croce havia pro­pos­to naque­la obra que tem uma inflexão laicista como nen­hu­ma out­ra entre as tan­tas que escreveu [9], a ideia da “religião da liber­dade”. Nós pudemos ver o pon­to de par­ti­da daque­la orga­ni­za­ção de int­elec­tu­ais que pas­sou depois para as mãos marx­is­tas ou para-marx­is­tas [10].

A impressão que Gram­sci lhe teve foi extra­ordinária, e, por assim diz­er, traumáti­ca. O lev­ou a repen­sar todo o seu pas­sa­do; na juven­tude ele tin­ha “ido em direção a Croce” como mestre de religião sec­u­lar [11]; pare­cia acon­te­cer ago­ra que Croce, estim­u­la­do por aqui­lo que esta­va acon­te­cen­do no mun­do de então, andasse em direção a ele. O Croce prece­dente, o filó­so­fo dos dis­tin­tos, tin­ha afir­ma­do a dis­tinção entre filosofia e ide­olo­gia; referindo a segun­da a ativi­dade práti­ca como instru­men­to de ação políti­ca. Ora, implici­ta­mente lhe renun­ci­a­va quan­do fala da “religião da liber­dade” como de uma “con­cepção de uma real­i­dade com uma moral con­forme”, mostran­do assim de con­sid­er­ar ‘religião’ qual­quer filosofia, isto é, qual­quer con­cepção de mun­do, enquan­to está se tor­na ‘fé’ isto é con­sid­er­a­da “não como ativi­dade teoréti­ca (declar­ação de novo pen­sa­men­to) mas como estí­mu­lo a ação (ativi­dade éti­co-políti­ca conc­re­ta, de cri­ação de nova história) [12].

A críti­ca a Croce

A par­tir deste pon­to se clareia toda a crit­i­ca de Gram­sci a Croce; a religião laica da liber­dade con­tra­pos­ta a religião tran­scen­dente com “fé reli­giosa opos­ta” deve ultra­pas­sar a for­ma lib­er­al sus­ten­ta­da por Croce. Por isso escreve:

 “Esta proposição de Croce da iden­ti­dade da história e da filosofia é a mais rica de con­se­quên­cias críti­cas: 1) Ela está muti­la­da se não chega tam­bém a iden­ti­dade da história e da políti­ca (…) e, 2) então tam­bém a iden­ti­dade da políti­ca e da filosofia. Mas se é necessário admi­tir esta iden­ti­dade, como será pos­sív­el dis­tin­guir as ide­olo­gias (iguais segun­do Croce, a instru­men­tos de ação políti­ca) da filosofia? (…) As ide­olo­gias, ao invés dis­so, serão a ‘ver­dadeira’ filosofia, porque delas resul­tarão as ‘vul­gar­iza­ções’ que lev­am as mas­sas a ações conc­re­tas, a trans­for­mação da real­i­dade. Esse será o aspec­to de mas­sa de qual­quer con­cepção filosó­fi­ca, que no ‘filó­so­fo’ adquire car­ac­teres de uni­ver­sal­i­dade abstra­ta, fora do tem­po e do espaço, car­ac­teres pecu­liares de origem literária e anti-históri­ca. A crit­i­ca do con­ceito de história em Croce é essen­cial: não tem essa uma origem pura­mente livresca e eru­di­ta? Só a iden­ti­fi­cação da história e da políti­ca tira da história este seu caráter” [13]. Croce é, quero diz­er, a juí­zo de Gram­sci, o filó­so­fo que olha o mun­do de uma bib­liote­ca, e trans­for­ma os home­ns em livros, para con­seguir ple­na coerên­cia, e a humanidade real, o his­tori­cis­mo deve encon­trar o marx­is­mo, no aspec­to em que é filosofia da práx­is. His­tori­cis­mo autên­ti­co e filosofia da práx­is se iden­ti­fi­cam.

Lig­amos este tre­cho ao ante­ri­or­mente cita­do. Temos que na con­cepção ima­nen­tista e his­toricista, na ver­são que lhe dá Gram­sci, a religião se resolve na políti­ca; ou que a políti­ca toma o lugar da religião na lib­er­ação do homem; o ‘futuro’ é com­ple­ta­mente sub­sti­tuí­do pelo des­can­so eter­no. Esta políti­ca idên­ti­ca a filosofia não pode se realizar senão como ima­nen­tismo rad­i­cal. Impor­ta a supressão, não só do prob­le­ma, mas tam­bém da dese­ja­bil­i­dade da existên­cia de Deus. A elim­i­nação mais com­ple­ta dos pos­tu­la­dos kan­tianos da razão práti­ca. A respeito do marx­is­mo, se pode diz­er que o lai­ciza rad­i­cal­mente através da aten­u­ação, ou a ten­den­cial elim­i­nação, do momen­to escat­ológi­co [14].

O ateís­mo rad­i­cal do comu­nis­mo gram­s­ciano

Chegan­do a este pon­to, deve­mos nos per­gun­tar se o gram­scis­mo, ou seja, a reafir­mação do marx­is­mo depois ‘da filosofia do Espíri­to’ ital­iana não con­tenha alguns ensi­na­men­tos de maior importân­cia. Prin­ci­pal­mente aqui­lo que a úni­ca for­ma de comu­nis­mo que hoje pode ter suces­so no Oci­dente é rad­i­cal­mente ateu, ain­da se, pro­pri­a­mente porque ateu, pode renun­ciar ao anti­cler­i­cal­is­mo. No entan­to, não é sobre este pon­to, politi­ca­mente impor­tan­tís­si­mo, sobre­tu­do porque a exam­i­na-lo a fun­do mostraria o caráter cler­i­cal de cer­to catoli­cis­mo do ‘dial­o­go’ [15], que quero chamar a atenção. Ao con­trário sobre este fato que con­tém implíci­ta uma críti­ca deci­si­va daque­la dis­posição espir­i­tu­al, tor­na­da ago­ra aflu­ente do rio, segun­do a notáv­el frase de Mar­i­tain, que é o mod­ernismo reli­gioso. Uma das teses sobre as que mais insis­tem os seus apoiadores é aque­la que cada um é ateu a respeito de qual­quer fal­sa imagem de Deus, etc. O coer­ente e rig­oroso pen­sa­men­to de Gram­sci é uma des­men­ti­da de excep­cional importân­cia des­ta tese; esse entende fechar ver­dadeira­mente qual­quer via a pos­si­bil­i­dade de afir­mação de um ‘out­ro lado’ a respeito do mun­do históri­co; o recon­hec­i­men­to dev­i­do do rig­or do seu pen­sa­men­to se funde ver­dadeira­mente com aqui­lo que é impos­sív­el cris­tianizar, as filosofias que tem seu pon­to de par­ti­da no hege­lis­mo. A via a seguir é a opos­ta. Sem pode-la desen­volver aqui de for­ma ade­qua­da, tentarei, todavia, delin­ear o primeiro traço.

Como busquei demon­strar em out­ras ocasiões, Gram­sci, acred­i­tan­do encon­trar Marx através da sua críti­ca da “filosofia espec­u­la­ti­va” de Croce, encon­tra ao invés Gen­tile; e já o ter­mo do qual, alteran­do-o, se serve sub­sti­tuin­do-o àquele de “mate­ri­al­is­mo históri­co”, “filosofia da práx­is” é sig­ni­fica­ti­vo [16]. Todo comen­ta­dor deve recon­hecer a pre­sença em Gram­sci de uma série de temas, lig­a­dos entre eles em for­ma de conexão necessária, que não ape­nas rep­re­sen­tam do pon­to de vista lit­er­al novi­dade a respeito do marx­is­mo como do lenin­is­mo, mas nem mes­mo podem vir assim­i­la­dos em algum modo ao seu desen­volvi­men­to. Ora, se pode demon­strar como em qual­quer um dess­es, Gram­sci encon­tra o atu­al­is­mo. Nor­mal­mente se pen­sa que o atu­al­is­mo se encon­tre ao iní­cio do pen­sa­men­to de Gram­sci como pon­to de par­ti­da [17], suces­si­va­mente super­a­do através da redescober­ta, depois de Croce, do marx­is­mo; creio ter demon­stra­do como ao con­trário dis­so se man­i­festem pro­pri­a­mente na con­clusão, e como isto acon­tece por um proces­so necessário, ain­da se Gram­sci não pos­sa lhe ter clara con­sciên­cia.

Mas qual atu­al­is­mo? Um atu­al­is­mo sep­a­ra­do da relação entre religião e filosofia como era colo­ca­do por Gen­tile, então da sua inter­pre­tação em ter­mos de ‘filosofia cristã’. Isto não sig­nifi­ca a pas­sagem a uma posição mais críti­ca, como se Gen­tile, ao apre­sen­tar o atu­al­is­mo como ‘filosofia cristã’ out­ra coisa não tivesse feito que exprim­ir a sua lig­ação sen­ti­men­tal a uma tradição famil­iar; não tivesse feito out­ra coisa que bus­car cobrir, tam­bém a si mes­mo, um destaque que tam­bém era racional­mente inevitáv­el. Não é assim: per­den­do o seu caráter de ‘filosofia cristã’, o atu­al­is­mo perde tam­bém o seu critério de ver­dade que não pode ser bus­ca­do em out­ro lugar que no ren­der con­ta da história da filosofia (segun­do a per­spec­ti­va desen­volvi­da sobre­tu­do no Sis­tema de Lóg­i­ca em que vem situ­a­do o momen­to de ver­dade de cada posição da filosofia oci­den­tal, des­de os primór­dios da filosofia gre­ga até hoje). Este critério de ver­dade vem a fal­tar no pen­sa­men­to de Gram­sci pro­pri­a­mente na medi­da em que ele se apre­sen­ta como rev­olu­cionário. É necessário a este propósi­to uma con­sid­er­ação; muitas vezes Gram­sci vem con­sid­er­a­do como um rev­olu­cionário mod­er­a­do.

A rev­olução cul­tur­al gram­s­ciana

Na real­i­dade, naqui­lo que diz respeito as intenções, ele entende levar o princí­pio rev­olu­cionário a con­se­quên­cias extremas, ain­da que a sua rev­olução tome em primeiro lugar o sem­blante de “refor­ma int­elec­tu­al e moral”, no sen­ti­do que quer oper­ar no pro­fun­do. Val­ha este tre­cho, fre­quente­mente cita­do em dema­sia, de fun­da­men­tal importân­cia:

A orto­dox­ia não deve ser bus­ca­da neste ou naque­le dos sequazes da filosofia da práx­is, nes­ta ou naque­la tendên­cia lig­a­da a cor­rentes estra­nhas a dout­ri­na orig­i­nal, mas no con­ceito fun­da­men­tal de que a filosofia da práx­is ‘bas­ta a si mes­ma’ (…). Este con­ceito assim ren­o­va­do de orto­dox­ia, serve para pre­cis­ar mel­hor o atrib­u­to de ‘rev­olu­cionário’ che se cos­tu­ma com tan­ta facil­i­dade aplicar a diver­sas con­cepções de mun­do, teo­rias, filosofias. O cris­tian­is­mo foi rev­olu­cionário em con­fron­to com o pagan­is­mo porque foi um ele­men­to de com­ple­ta sep­a­ração entre os sus­ten­ta­dores do vel­ho e do novo mun­do. Uma teo­ria pre­cisa­mente ‘rev­olu­cionária’ na medi­da em que é ele­men­to de sep­a­ração e dis­tinção con­sciente em dois cam­pos, enquan­to é um vér­tice inacessív­el ao cam­po adver­sário. Reter que a filosofia da práx­is não seja uma estru­tu­ra de pen­sa­men­to com­ple­ta­mente autôno­ma e inde­pen­dente, em antag­o­nis­mo com todas as filosofias e as religiões tradi­cionais, sig­nifi­ca na real­i­dade não ter tal­ha­do os legames com o vel­ho mun­do, se não exata­mente de ter capit­u­la­do” [18]. Per­di­do o critério da ‘con­ser­vação’ das ver­dades da história, o his­tori­cis­mo no faz­er-se rev­olu­cionário perde o dire­ito de afir­mar-se como ver­dade, no próprio ato que não pode apre­sen­tar-se que se declaran­do como ele­men­to de com­ple­ta sep­a­ração; mas, nes­ta per­da de ver­dade o his­tori­cis­mo rev­olu­cionário se reduz a ‘ide­olo­gia’, pro­pri­a­mente naque­le sen­ti­do de instru­men­to de ação políti­ca que Gram­sci enten­dia criticar, ou de dis­ci­plina racional de uma nor­ma de con­du­ta com a final­i­dade de efi­ciên­cia práti­ca.

Muitas coisas se pode­ri­am aqui obser­var, e vem a mente uma mul­ti­dão de pen­sa­men­tos. Admi­ta­mos, como sim­ples ver­i­fi­cação, ace­nan­do em for­ma de alusão a temas de maior importân­cia, a alguns entre ess­es. Um é aque­le da coin­cidên­cia, ou cor­re­lação necessária, entre a pas­sagem do pen­sa­men­to em ter­mos de ver­dade (ou filosofia) ao pen­sa­men­to em ter­mos de ide­olo­gia (ou poder) é o adven­to do total­i­taris­mo. Um segun­do, se con­tra toda sua intenção (já que o soci­ol­o­gis­mo foi o seu máx­i­mo adver­sário) o gram­scis­mo não sinal­ize a capit­u­lação do marx­is­mo como filosofia a respeito das ‘ciên­cias humanas’. Um ter­ceiro, se a críti­ca de Croce ao marx­is­mo – de ser uma ide­olo­gia e não uma filosofia – pos­sa adquirir val­i­dade ape­nas depois que ten­ha sido recon­heci­da a val­i­dade da críti­ca de Gram­sci nos con­fron­tos com a filosofia de Croce; com que se entende a tese de extrema importân­cia que a críti­ca do marx­is­mo não pode estar con­ti­da den­tro da refor­ma da dialéti­ca hegeliana e que a pro­va dis­to pode vir pre­cisa­mente ado­ta­da pela filosofia de Croce, dado que a sua definição com­plex­i­va pode ser ape­nas aque­la que vê a ten­ta­ti­va mais rig­orosa de críti­ca do marx­is­mo no inte­ri­or da refor­ma dialéti­ca hegeliana. Por­tan­to, con­tin­ua Croce a quer­er colo­car em dis­cussão aque­le princí­pio assum­i­do por ele como pres­su­pos­to do ima­nen­tismo como dado ago­ra sub­traí­do da dis­cussão. Um quar­to, se não se tem uma curiosa het­erogê­nese dos fins; Gram­sci com a iden­ti­fi­cação filosó­fi­ca e ide­ológ­i­ca, enten­dia con­ferir a filosofia a máx­i­ma eficá­cia; de fato acabou resol­ven­do a filosofia na ide­olo­gia.

Mas para voltar ao argu­men­to de que par­tic­u­lar­mente se tra­ta, o tre­cho ante­ri­or­mente cita­do sobre a orto­dox­ia diz explici­ta­mente que a posição do marx­is­mo a respeito do cris­tian­is­mo é estri­ta­mente simétri­ca àquela do cris­tian­is­mo a respeito do pagan­is­mo. A tese não era cer­ta­mente nova no tem­po em que Gram­sci escrevia, ou antes já tin­ha uma lon­ga história; todavia foi Gram­sci a leva-la a con­se­quên­cias extremas, dado que lhe fez coin­cidir com aque­la da auto-sufi­ciên­cia da filosofia da práx­is como teo­ria rev­olu­cionária.

 A críti­ca his­toricista do catoli­cis­mo

O com­plexo das teses aqui enun­ci­adas pode assom­brar, dados os juí­zos cor­rentes sobre  o gram­scis­mo como marx­is­mo ‘aber­to’ ou ‘mod­er­a­do’, crit­i­ca­do antes pelos seus adver­sários de esquer­da pela sua mod­er­ação. Per­gun­ta­mo-nos, porém: qual é o real sujeito da história ital­iana dos últi­mos trin­ta anos? Podemos defi­ni-lo em out­ro modo que não seja aque­le da rev­olução como ‘guer­ra de posição’, ade­qua­da aos país­es em que a sociedade civ­il é mais desen­volvi­da, segun­do as lin­has teorizadas pre­cisa­mente por Gram­sci? Cer­to, este avanço foi lento, em razão dos obstácu­los a remover; todavia pro­cede sem­pre, sem que lhe ten­ha sido opos­ta uma con­tro-ofen­si­va cul­tur­al-políti­ca ver­dadeira­mente vál­i­da, e foi pro­te­gi­da por um sis­tema de aliança que sem­pre fun­cio­nou, mes­mo se não san­ciona­da por pactos, com o laicis­mo e com o catoli­cis­mo pro­gres­sista. Ora, como negar que nestes decênios se ten­ha desen­volvi­do o maior proces­so de sec­u­lar­iza­ção das mentes e dos corações, ao menos naqui­lo que diz respeito a sua exten­são, que a nos­sa pátria jamais havia con­heci­do?

Isto acon­te­ceu, sem pro­pa­gan­da ateís­ta, ou pelo con­trário nem mes­mo anti­cler­i­cal dire­ta, é ver­dade; e se pode recor­dar como a esta pro­pa­gan­da ateís­ta dire­ta Togli­at­ti ten­ha sem­pre se man­i­fes­ta­do con­trário, e ten­ha ain­da repeti­do a sua oposição no memo­r­i­al de Yal­ta. Per­gun­ta­mo-nos, todavia, como se passe da con­cepção tran­scen­den­tal a ima­nen­tista da vida segun­do Gram­sci, e refli­ta­mos sobre este tex­to deci­si­vo:

Todos tem a vaga intu­ição de que, fazen­do do catoli­cis­mo uma nor­ma de vida erram, tan­to é ver­dadeiro que ninguém se atém ao catoli­cis­mo como nor­ma de vida, emb­o­ra declaran­do-se católi­co. Um católi­co inte­gral, isto é, que apli­cas­se em todo ato da vida as nor­mas católi­cas, pare­ce­ria um mon­stro, isto que é, a nos­so pen­sar, a críti­ca mais rig­orosa do próprio catoli­cis­mo e a mais peremp­tória” [19].

Esse tre­cho demon­stra os carác­teres da rev­olução gram­s­ciana; que excluí assim a con­quista vio­len­ta do poder, como a argu­men­tação de tipo cien­tí­fi­ca, ou ao menos a limi­ta. É uma rev­olução cul­tur­al de tipo his­toricista. Não é cer­ta­mente um caso que entre os ter­mos que Gram­sci pref­ere, exista aque­le de “refor­ma int­elec­tu­al e moral”; é um ter­mo que ele retoma­va de Sorel, que por sua vez se refe­ria a um livro de Renan que teve grande suces­so nos anos pos­te­ri­ores a 1870 e que muito influ­en­ciou Francesco De Sanc­tis, o mestre ao qual ele faz remon­tar o con­ceito nacional pop­u­lar. Se pode diz­er que Gram­sci quer tornar coer­ente através do marx­is­mo o pro­je­to desanc­tiano de “refor­ma int­elec­tu­al e moral”, unin­do-se ao laicis­mo ‘inte­gral’ de De Sanc­tis con­tra o laicis­mo ‘mod­er­a­do’ de Croce e de Gen­tile.

Par­tido e esco­la para a morte indo­lor da religião

O católi­co deve chegar a aban­donar a sua religião, impul­sion­a­do pela reflexão sobre juí­zos aparente­mente neu­tros, que o lev­em a ver no catoli­cis­mo ou na religião tran­scen­dente em gênero uma posição ide­al defin­i­ti­va­mente ultra­pas­sa­da pela história, de tal modo que não se pode mais vive-la. A críti­ca his­toricista do catoli­cis­mo deve con­si­s­tir em levar a con­sciên­cia da sua his­to­ri­ci­dade; mas esta con­ver­são a con­vicção ‘laica’ e ‘mod­er­na’ da vida não deve se restringir aos poucos per­ten­centes a gru­pos supe­ri­ores; deve ser esten­di­da, através do par­tido comu­nista, as mas­sas pop­u­lares. Daqui a polêmi­ca con­tra Croce, acu­sa­do de não ter pro­movi­do na Itália uma Kul­turkampf anti-católi­ca; e nas acres críti­cas con­tra Gen­tile, Gram­sci salien­ta sobre­tu­do o ter recolo­ca­do o ensi­na­men­to reli­gioso nas esco­las primárias.

Esta Kul­turkampf e as neu­tral­iza­ções do ensi­na­men­to reli­gioso, e ago­ra as difi­cul­dades em que são colo­cadas as esco­las mater­nas reli­giosas nas regiões comu­nistas, são coisas notáveis a todos. Aqui­lo que impor­ta obser­var é como nis­to se atua a rev­olução comu­nista de tipo gram­s­ciano, como a história recente ital­iana real­iza um per­feito para­lelis­mo filosó­fi­co-políti­co.

Mas não se pode­ria pen­sar que o sec­u­lar­is­mo de Gram­sci seja na real­i­dade volta­do ape­nas con­tra o ateís­mo práti­co e o mau catoli­cis­mo daque­les que se servem de Deus para os seus fins tem­po­rais, de modo que, quem vê além da letra pode lhe recon­hecer um impul­so des­ti­na­do a infringir as fór­mu­las e ir mais além? Dis­cur­sos de tal natureza, dirigi­dos con­tra aque­les que pre­ten­dem ‘fixar’ uma real­i­dade em movi­men­to, lhe sen­ti­mos a repetição por muitos anos; mas, ao que parece, man­tém a sua eficá­cia e con­seguem con­vencer os católi­cos do ‘dis­senso’, ou tam­bém ape­nas do ‘diál­o­go’. Seja con­ce­di­do a quem lhes fala não lhe reter total­mente con­vin­cente; movi­do a isto tam­bém pelo respeito que ten­ho pela organi­ci­dade do pen­sa­men­to gram­s­ciano. Pen­so real­mente que a coerên­cia do pen­sa­men­to gram­s­ciano seja tal a ilu­mi­nar em con­trário o sen­ti­do do renasci­men­to tomista pro­movi­do por Leão XIII e ain­da em cur­so de elab­o­ração. Pen­samos no tema de praeam­bu­la fidei. Que out­ro sig­nifi­ca­do senão que o acol­hi­men­to de fé pres­supõe uma cer­ta metafísi­ca, uma con­cepção dos princí­pios primeiros sobre o real, que já está pre­sente no sen­so comum e que o filó­so­fo tor­na explíc­i­to e defende?

A insep­a­ra­bil­i­dade entre filosofia e políti­ca

Gram­sci, para o qual, não aca­so, a essen­cial refor­ma int­elec­tu­al e moral esta­va na cri­ação de um novo ‘sen­so comum’, a sub­sti­tuir àquele tradi­cional ori­en­ta­do em sen­ti­do teís­ti­co, recla­ma assim os católi­cos, não já a refor­mar o seu pen­sa­men­to, para obter uma espé­cie de con­cordis­mo que ele teria des­den­hado, mas a retoma-lo para verem de longe aqui­lo que esque­ce­r­am [20].

Direi ain­da mais, que recla­ma a esse do pon­to de vista históri­co e políti­co.

Isto leva a um tema que mere­ce­ria um amp­lo esmi­uça­men­to; aque­le que recon­hece na história do nos­so sécu­lo a luta entre as con­cepções gerais da história, insep­a­r­avel­mente filosó­fi­cas e políti­cas, que já tin­ham sido pro­postas no sécu­lo XIX; acres­cen­tan­do que, per­doem me o tro­cadil­ho, a fraque­za dos católi­cos está pro­pri­a­mente em não ter con­sciên­cia da força que eles havi­am avança­do, e que, depois de lon­ga incubação, encon­trou expressão no renasci­men­to católi­co pro­movi­do pelo Pon­tí­fice Leão XIII, e que começou com a Aeterni Patris em 1879. Quan­tos poucos católi­cos sejam con­scientes des­ta sua força o mostrou Gilson no seu belís­si­mo livro Le philosophe et la théolo­gie de 1960, obser­van­do que se se leem as prin­ci­pais encícli­cas de Leão XIII na ordem lóg­i­ca e não cronológ­i­ca em que ele mes­mo as dis­pôs, em ocasião do vigési­mo quin­to aniver­sário da sua eleição ao pon­tif­i­ca­do, nos damos fé que “Leão XIII toma o lugar na história da Igre­ja como o maior filó­so­fo cristão do sécu­lo XIX e um dos maiores de todos os tem­pos”, acres­cen­tan­do como é curioso que “assim poucos entre os nos­sos con­tem­porâ­neos, digo entre os católi­cos, pareçam ter con­sciên­cia deste fato”. Os católi­cos demon­straram ver­dadeira­mente terem dado fé a muito pouco do caráter orgâni­co da obra leon­i­na. Os vel­hos políti­cos católi­cos liam a Rerum novarum como se fos­se isoláv­el do con­jun­to do Cor­pus Leo­ni­anum; coer­ente­mente os novos, por­tan­do as últi­mas con­se­quên­cias o defeito des­ta lin­ha, tem com­ple­ta­mente neg­li­gen­ci­a­do a sua leitu­ra. Ora, o renasci­men­to católi­co deve ser, segun­do o pen­sa­men­to de Leão XIII, insep­a­r­avel­mente reli­giosa, filosó­fi­ca e políti­ca; ‘políti­ca’, porque requeri­da como necessária para a sal­vação tam­bém tem­po­ral da sociedade humana, mas esta políti­ca deve apoiar-se sobre uma filosofia que seja por sua vez pre­am­bu­lo de fé. Acon­te­ceu que a unidade entre a filosofia e a políti­ca foi sen­ti­da per­feita­mente pelos marx­is­tas, e nis­to con­sista a sua força; enquan­to não foi até ago­ra perce­bi­da, se não em uma mín­i­ma parte, pelos católi­cos.

Marx­is­mo e men­tal­i­dade bur­gue­sa rad­i­cal

Se abriria aqui um out­ro dis­cur­so ao qual, nes­ta ocasião, pos­so ape­nas ace­nar; os críti­cos de esquer­da do marx­is­mo (pen­so ao endereço borghi­ano, e em par­tic­u­lar no livro de Riech­ers) demon­straram como ele leva na real­i­dade a involução da rev­olução comu­nista no pre­domínio da bur­gue­sia do esta­do do cap­i­tal­is­mo avança­do, quan­to a diz­er na pior bur­gue­sia pos­sív­el desen­raiza­da de qual­quer sub­or­di­nação a val­ores [21]. O comu­nis­mo gram­s­ciano arrisca a faz­er o papel de medi­ador entre os rep­re­sen­tantes do super cap­i­tal­is­mo, os tec­nocratas e os buro­cratas da ‘nova classe’ comu­nista. Esta demon­stração que pen­so irrepreen­sív­el leva a per­gun­tar-se se a util­i­dade da rev­olução cul­tur­al gram­s­ciana não este­ja pro­pri­a­mente no dar a ocasião para a redescober­ta, como do úni­co adver­sário que pos­sa lhe tri­un­far – sal­van­do jun­to assim os val­ores reli­giosos como a liber­dade indi­vid­ual e nacional – daque­le pen­sa­men­to de renasci­men­to católi­co, que ao invés os católi­cos pare­cem ter esque­ci­do.

Uma últi­ma palavra é opor­tu­na, para con­cluir. É sin­gu­lar a coin­cidên­cia entre a críti­ca que devem mover ao marx­is­mo aque­les que creem nos val­ores reli­giosos e aque­la que já mover­am os seus adver­sários de esquer­da. Uns e out­ros devem con­cor­dar no des­ig­nar o gram­scis­mo como rad­i­cal-marx­is­mo, vale diz­er como involução do marx­is­mo na men­tal­i­dade bur­guês rad­i­cal. Isto é, o desen­volvi­men­to oci­den­tal do lenin­is­mo, e a coerên­cia de Gram­sci a respeito não pode ser colo­ca­da em dúvi­da, rep­re­sen­taria, na hipótese do seu suces­so, a um tem­po o fechamen­to com­ple­to ao pen­sa­men­to reli­gioso – assim a dar lugar a uma ‘políti­ca da cul­tura’ e des­ti­na­da a resolver-se de fato em uma coerção int­elec­tu­al mais perigosa que a perseguição físi­ca – e a der­ro­ta das esper­anças escat­ológ­i­cas do comu­nis­mo.

Tam­bém, é a úni­ca for­ma de comu­nis­mo que pode ter suces­so no Oci­dente, mes­mo se isso deva realizar-se na for­ma que se é dita. Isto não leva a recon­hecer a auto-amputação do marx­is­mo? A con­sid­er­ação críti­ca do gram­scis­mo pode rev­e­lar-se uma das mel­hores vias para encon­trar o pen­sa­men­to da tradição, no sen­ti­do mais alto do ter­mo, católi­ca.

AUGUSTO DEL NOCE

NOTAS:

[1] Me per­mi­to assi­nalar um fato obje­ti­va­mente impor­tante, mes­mo se devo, para chamar-lhes a atenção, con­travir a mod­és­tia. É sin­gu­lar que no meu escrito La non-filosofia di Marx e il comu­nis­mo come realtà polit­i­ca, relação apre­sen­ta­da no primeiro Con­gres­so Inter­na­cional de Filosofia do pós-guer­ra, real­iza­do em Roma em novem­bro de 1946 (re-impres­sa, sem algu­ma vari­ação, no meu livro Il prob­le­ma dell’ateismo, Il Muli­no, Bologna, 3ª edição, 1970, pg. 213–266), recon­struí o marx­is­mo filosó­fi­co (falo de recon­strução, porque os tex­tos e os comen­tários em cir­cu­lação eram naque­le tem­po muito escas­sos) em uma for­ma sim­i­lar a gram­s­ciana, emb­o­ra os escritos do cárcere tivessem tido até então a pub­li­cação de ape­nas pouquís­si­mos frag­men­tos. A razão da coin­cidên­cia deve ser bus­ca­da na exper­iên­cia do últi­mo decênio do perío­do fascista; a par­tic­u­lar for­ma de sep­a­ração entre moral e políti­ca a que dava lugar lev­a­va a reen­con­trar o pen­sa­men­to rev­olu­cionário exata­mente na for­ma gram­s­ciana (este pon­to dev­e­ria ser feito obje­to de inda­gação, como até ago­ra não foi). Neste escrito sub­me­to suces­si­va­mente a críti­ca este ‘marx­is­mo reen­con­tra­do’, bus­can­do faz­er emer­gir as difi­cul­dades a que ia de encon­tro a ver­são rev­olu­cionária do his­tori­cis­mo.

 No suces­si­vo ensaio de 1948 Marx­is­mo e salto qual­i­ta­ti­vo (repub­li­ca­do em op. cit. pg. 267–292) crit­i­ca­va as ten­ta­ti­vas de con­cil­i­ação entre cris­tian­is­mo e marx­is­mo, recon­hecen­do a definição insu­peráv­el do seu pres­su­pos­to no escrito de Felice Bal­bo, Reli­gione e ide­olo­gia reli­giosa (ago­ra em F. Bal­bo, Opere, Bor­inghieri, Tori­no 1966, pp. 223–249). Tan­tos anos se pas­saram e as ten­ta­ti­vas de con­cil­i­ação se mul­ti­plicaram, de tal for­ma a for­marem ago­ra uma bib­liote­ca. Se bem que per­maneço com o pare­cer que o seu pres­su­pos­to, geral­mente dis­sim­u­la­do, apareça ao invés de for­ma clara naque­le dis­tante escrito de Bal­bo, e já tivesse sido por mim ade­quada­mente crit­i­ca­do.

[2] Isto é recon­heci­do aper­tis ver­bis pelo mel­hor con­hece­dor de Gram­sci que existe na França, e gram­s­ciano orto­doxo ele próprio, H. Portel­li: “Assim se deve rechaçar as inter­pre­tações de cer­tos comen­ta­dores de Gram­sci que veem nos Quaderni uma espé­cie de ‘Anti-Croce’. Uma leitu­ra apro­fun­da­da dos cader­nos do cárcere mostra ver­dadeira­mente que a Igre­ja lhe parece (…) como a antag­o­nista do par­tido rev­olu­cionário” (Gram­sci et la ques­tion religieuse, Edi­tions Anthro­pos, Pari­gi 1974, p. 15). Efe­ti­va­mente, advém que Gram­sci foi geral­mente apre­sen­ta­do como o Anti-Croce no sen­ti­do que o seu pen­sa­men­to real teria sido expres­so na críti­ca a Croce; no que diz respeito a religião teria aceita­do a posição marx­ista, ou sec­u­lar­ista em ger­al, sem fazê-la obje­to de reflexão. Pouquís­si­mos trataram por isso do seu pen­sa­men­to reli­gioso.

Creio esta prospec­ti­va, que Portel­li tem o méri­to de fur­tar-se, de todo inad­e­qua­da. Aqui­lo que Gram­sci entende demon­strar é ao con­trário a coin­cidên­cia entre a rev­olução filosó­fi­ca ima­nen­tista lev­a­da as con­se­quên­cias extremas, e a rev­olução políti­ca comu­nista. Neste sen­ti­do a Igre­ja católi­ca, e não Croce, é a antag­o­nista essen­cial. Mes­mo se se com­preen­dem muito bem as razões práti­cas pela qual o Par­tido comu­nista ital­iano preferiu chamar a atenção para o que antes dis­se­mos.

[3] Se se con­sid­era a importân­cia do tema teológi­co na filosofia clás­si­ca alemã, e lhe comece dos seus grandes rep­re­sen­tantes na reflexão teológ­i­ca, se pode ver no marx­is­mo a bus­ca, oper­a­da do filó­so­fo, do sub-roga­do daque­la religião que o filó­so­fo-teól­o­go tin­ha dis­solvi­do.

[4] Quaderni del carcere, Ein­au­di, Tori­no 1975, pp. 1380–81. Il pas­so appar­tiene a quelle note inti­to­late Alcu­ni pun­ti di rifer­i­men­to che for­mano la pri­ma parte del quader­no undec­i­mo, Intro­duzione alla filosofia, e che gius­ta­mente era­no state poste, dai cura­tori del­la pri­ma edi­zione, all’inizio del vol­ume Il mate­ri­al­is­mo stori­co e la filosofia di Benedet­to Croce; quali pagine intro­dut­tive, dunque, all’intero pen­siero filosofi­co di Gram­sci.

[5] Ninguém a tem até ago­ra con­sid­er­a­do sob este aspec­to. A exper­iên­cia de pen­sa­men­to do cinquentenário foi antes sen­ti­da em ter­mos tri­un­fal­is­tas, como se com a filosofia de Croce e de Gen­tile a Itália tivesse atingi­do um pri­ma­do mundi­al. Suces­si­va­mente se pas­sou ao exces­so opos­to, o juí­zo sobre seu provin­cial­is­mo, como se a Itália, pro­pri­a­mente através des­ta filosofia, se tivesse iso­la­do, com ilusões provin­ci­ais de supe­ri­or­i­dade, do proces­so mundi­al de pen­sa­men­to. Ao invés, uma con­sid­er­ação sob o aspec­to que pro­pus levaria a recon­hecer a extrema sig­nifi­cação, sob uma con­sid­er­ação que quero diz­er fenom­e­nológ­i­ca, daque­le perío­do da história da filosofia que tem pre­cisa­mente em Gram­sci a sua con­clusão.

 [6] Quaderni, p. 1381.

 [7] Il prob­le­ma dell’ateismo, cit., pp. 120–122.

 [8] Quaderni, p. 1378.

[9] Sobre este caráter insiste Gram­sci, expli­can­do e jus­ti­f­i­can­do a con­de­nação pro­nun­ci­a­da pela Con­gre­gação do Índice (a Sto­ria d’Europa foi a primeira obra de Croce colo­ca­da no Índice): ”Na real­i­dade a Sto­ria d’Europa é o primeiro livro de Croce em que as opiniões anti-reli­giosas do escritor assum­i­am um sig­nifi­ca­do de políti­ca ati­va e tin­ha uma difusão inau­di­ta” (Quaderni, p. 1298). Gram­sci vê na Sto­ria d’Europa a con­tin­u­ação do laicis­mo intran­si­gente daque­le frag­men­to de éti­ca, Reli­gione e seren­ità, a qual leitu­ra, aos primeiros dias de 1917, o tin­ham lev­a­do a um enam­ora­men­to pelo pen­sa­men­to cro­ciano. “É para se recor­dar o ‘frag­men­to de Éti­ca’ sobre religião; por  que não foi desen­volvi­do? Talvez isto era impos­sív­el (…). Não é pos­sív­el pen­sar na vida e na difusão de uma filosofia que não este­ja jun­to a políti­ca atu­al, estre­ita­mente lig­a­da a ativi­dade pre­pon­der­ante na vida das class­es pop­u­lares, o tra­bal­ho, e não se apre­sente, por­tan­to, den­tro de cer­tos lim­ites, como conexa nec­es­sari­a­mente a ciên­cia” (Quaderni, p. 1295). Este tre­cho tem grande importân­cia porque indi­ca como Gram­sci, par­tic­u­lar­mente de 32 em diante, sente e inter­pre­ta a si mes­mo: como aque­le que teria con­tin­u­a­do o mel­hor ensi­na­men­to de Croce, liberan­do-o da involução gen­til­iana, e tor­nan­do-o coer­ente através do marx­is­mo.

[10] A Sto­ria d’Europa era ver­dadeira­mente um ape­lo aos int­elec­tu­ais que per­manece­r­am fiéis ao mel­hor sen­ti­do da ‘mod­ernidade’ às palavras com que se fecha o primeiro capí­tu­lo: “E não obstante difun­di­do por todos os lugares o gri­to da pal­ingê­nese, do ‘sécu­lo que se ren­o­va’: quase uma saudação augur­al àquela ‘ter­ceira idade’, a idade do Espíri­to, que no sécu­lo déci­mo segun­do Joaquim de Fiore tin­ha pro­fe­ti­za­do, e ago­ra se con­cretiza­va diante da sociedade humana que lhe tin­ha prepara­do e esper­a­do” (pg. 24–25).

[11] Dos tre­chos recor­da­dos no n. 9 resul­ta como o Gram­sci leitor da Sto­ria d’Europa pudesse reconec­tar a si mes­mo com o jovem Gram­sci que se tin­ha entu­si­as­ma­do com a leitu­ra de Reli­gione e seren­ità. Tin­ha a impressão de não ter erra­do naque­le seu fer­vor juve­nil pela cul­tura ide­al­ista que tan­to lhe tin­ha sido repreen­di­do por Bor­di­ga; porque ape­nas a reafir­mação do marx­is­mo depois da cul­tura ide­al­ista podia leva-lo àquela for­mu­lação supe­ri­or capaz de chegar nos país­es oci­den­tais.

[12] Quaderni, p. 1217.

[13] Quaderni, pp. 124J-42.

[14] Sobre o caráter escat­ológi­co do marx­is­mo, como per­manên­cia da idéia da função reden­to­ra dos sofri­men­tos do jus­to, trans­pos­ta em ver­são sec­u­lar­iza­da no pro­le­tari­a­do, muito se escreveu. Mas já no tre­cho do Prob­le­ma dell’ateismo aci­ma recor­da­do, adver­tia como este tema escat­ológi­co coex­is­tisse com aque­le ilu­min­ista da reabil­i­tação da natureza humana. Em Gram­sci, o his­tori­cis­mo can­cela o escat­ol­o­gis­mo, e leva as con­se­quên­cias últi­mas o momen­to ilu­min­ista. 

 [15] É efe­ti­va­mente hipo­ti­za­v­el uma espé­cie de neo­cler­i­cal­is­mo, em que con­fluem católi­cos sem fé e comu­nistas sem fé; a fal­ta de fé servin­do de cimen­to.

[16] Por ver­dade, o ter­mo de filosofia da práti­ca já era usa­do por Antônio Labri­o­la, como sinôn­i­mo, porém, de mate­ri­al­is­mo históri­co, no tra­to o difer­en­ci­a­va do mate­ri­al­is­mo nat­u­ral­ista. Quem, ao invés, o entende em sen­ti­do próprio, reivin­di­can­do a pos­i­tivi­dade do marx­is­mo como ‘filosofia da práti­ca’ dis­so­ci­a­da do mate­ri­al­is­mo foi Gen­tile em La filosofia de Marx (1899). Gram­sci segue o uso que do ter­mo faz Gen­tile, como é recon­heci­do, por ex., do maior estu­dioso de Labri­o­la, Lui­gi da Pane, (La polem­i­ca su Marx e le orig­i­ni del neo ide­al­is­mo ital­iano, in Rasseg­na eco­nom­i­ca, 1968, p. 15).

[17] É já juí­zo adquiri­do aque­le sobre o cli­ma atu­al­ista dom­i­nante no turi­nense Ordine Nuo­vo, dos anos 19 e 20. Mas o recon­hec­i­men­to dis­to pode levar a tese que segue como inter­pre­tação com­plex­i­va do desen­volvi­men­to do pen­sa­men­to de Gram­sci: 1) aque­le que per­manece na orig­inária exper­iên­cia atu­al­ista é a insistên­cia sobre o tema da unidade entre a teo­ria e a práti­ca; 2) suces­si­va­mente ele teria acol­hi­do a críti­ca movi­da por Croce a Gen­tile em nome do his­tori­cis­mo; 3) porém, teria reafir­ma­do con­tra Croce a tese da unidade da teo­ria e da práti­ca, dis­so­cian­do-a do ide­al­is­mo e reen­con­tran­do deste modo o marx­is­mo (ain­da se per­maneça em sua obra qual­quer traço do orig­inário ide­al­is­mo). Ora, esta impostação de um proces­so de Gen­tile a Marx através do Croce his­toricista, me-parece erra­do: aqui­lo que Gram­sci não pode­ria não reen­con­trar era o atu­al­is­mo, emb­o­ra em uma ver­são rev­olu­cionária, porque na lin­ha da filosofia da práti­ca depois de Hegel, o atu­al­is­mo rep­re­sen­ta uma posição ulte­ri­or a marx­ista. É aque­le que creio ter demon­stra­do no meu escrito Gen­tile e Gram­sci (de próx­i­ma pub­li­cação nos Atos da con­venção romana pro­movi­do pela Enci­clopé­dia ital­iana em ocasião do cen­tenário do nasci­men­to de Gen­tile, 1975).

[18] É de se obser­var como na primeira redação deste tre­cho (quar­to Quader­no, p. 435) apareça o ter­mo “mate­ri­al­is­mo históri­co” ao invés de “filosofia da práx­is”. Isto con­fir­ma a tese aci­ma expos­ta sobre a deci­sivi­dade da leitu­ra da Sto­ria d’Europa; inter­pre­tan­do-a do pon­to de vista filosó­fi­co, Gram­sci lhe vê o aban­dono, implíc­i­to mes­mo senão declar­a­do, da dis­tinção entre filosofia e ide­olo­gia, e a con­se­quente des­men­ti­da da sua polêmi­ca con­tra o marx­is­mo, a qual Croce se encon­tra­va con­stri­to. Ao quader­no déci­mo sobre La filosofia di Benedet­to Croce segue o déci­mo primeiro Intro­duzione alla filosofia em que se opera a sub­sti­tu­ição da idéia (e não ape­nas do ter­mo) de “filosofia da práx­is” por aque­le de “mate­ri­al­is­mo históri­co”. Gram­sci, desen­vol­ven­do Croce, pen­sa chegar a um “marx­is­mo mel­hor” sep­a­ra­do daque­les aspec­tos mate­ri­al­is­tas, eco­nomicis­tas, deter­min­istas, con­tra os quais a críti­ca cro­ciana era vál­i­da.

[19] Quaderni, p. 1344.

[20] Sobre base abso­lu­ta­mente injus­ti­fi­ca­da de um juí­zo sobre a história con­tem­porânea, de que sem­pre mais os estu­diosos ver­i­fi­cam a erronei­dade, os novos mod­ernistas tem ao invés pro­nun­ci­a­do a con­de­nação da retoma­da do tomis­mo da segun­da metade do sécu­lo XIX (na real­i­dade, mais em ger­al, da filosofia católi­ca do sécu­lo XIX, sal­van­do ape­nas os filões prossegui­dos pelo mod­ernismo) como retoma­da, ao invés do intel­lec­tus fidei, da metafisi­ca tomista, vista como ‘sub­cul­tura acadêmi­ca’ de ‘colé­gio’ (o que pode ser ain­da ver­dadeiro para cer­to trata­do man­u­al­is­ti­co) para chegar a sur­preen­dente con­clusão que a pro­pos­ta da unidade históri­co dialéti­ca das relações entre razão e fé, e então a condição da retoma­da do méto­do do intel­lec­tus fidei e da definição das relações entre o cris­tian­is­mo e a cul­tura mod­er­na, ten­do o olhar volta­do em par­tic­u­lar para o marx­is­mo, a ser bus­ca­da em Hegel. O exem­p­lo de Gram­sci serve ao invés para demon­strar como sobre tal hor­i­zonte hegeliano não se pode chegar senão a afir­mação do pós-cris­tian­is­mo e ao juí­zo sobre o cris­tian­is­mo como real­i­dade históri­ca ago­ra defin­i­ti­va­mente super­a­da.

[21] Na Sto­ria d’Europa de Croce é pre­ciso dis­tin­guir entre uma parte cad­u­ca, a con­tra­posição entre a “religião da liber­dade” para a qual “o fim da vida é na própria vida” e a con­cepção católi­ca (pg 27–28), temáti­ca pela qual jus­ta­mente se pode falar de uma repro­pos­ta da men­tal­i­dade ilu­min­ista, e um olhar assaz agu­do sobre a nova dis­posição espir­i­tu­al que vícia a idade con­tem­porânea e que tem ori­gens total­mente mod­er­nas e que mere­ce­ria, como cor­rupção da ideia de liber­dade, o ter­mo, que con­tu­do não me parece que Croce ten­ha jamais usa­do, de ‘lib­er­tismo’: “Que se a liber­dade se tira a sua alma moral, se lá se sep­a­ra do pas­sa­do e da sua veneran­da tradição… (se tem) nes­ta tradução e redução e triste paró­dia que em ter­mos mate­ri­al­is­tas cumpre um ide­al éti­co, sub­stan­cial­mente uma per­ver­são do amor pela liber­dade, um cul­to do dia­bo colo­ca­do no lugar de Deus e que é tam­bém um cul­to…” (pg 341–342). Tal dis­posição, então ain­da con­trasta­da, teve ple­na expli­cação nos anos recentes: naque­les em que se pode falar de uma hege­mo­nia cul­tur­al marx­ista-gram­s­ciana. Cer­ta­mente a rev­olução cul­tur­al que Gram­sci tin­ha em mente não mira­va ao seu suces­so. Todavia a este resul­ta­do não devia levar a infusão do moti­vo rev­olu­cionário, como car­ac­ter­i­za­do pela ideia da sep­a­ração rad­i­cal, no inte­ri­or da pro­pos­ta de uma con­cepção ima­nen­tista da vida; ao con­trário da supressão da bur­gue­sia, levaria a uma bur­gue­sia nova, ori­en­ta­da não já para a con­cil­i­ação com os ideais do pas­sa­do, mas para a sua negação? Seria aqui a con­sid­er­ar a ver­dade do juí­zo de Bor­di­ga sobre a necessária involução bur­gue­sa do gram­scis­mo. His­tori­ca­mente (a parte, então, as intenções) se quer­e­mos ain­da nos servir do ter­mo de bur­guês no sen­ti­do depre­cia­ti­vo, isso exerci­ta a função de medi­ação para a pas­sagem de um esta­do ao out­ro do domínio bur­guês; para a pas­sagem a out­ro pior. Para o juí­zo de Bor­di­ga são con­duzi­dos dois entre os mel­hores estu­dos sobre Gram­sci: CHRISTIAN RICIHERSAnto­nio Gram­sci – Marx­is­mus in Ital­ien, 1970, trad. it., Thélème, Napoli 1975 (il migliore libro com­p­lessi­vo) e TITO PERLINIGram­sci e il gram­scis­mo, Celuc, Milano 1974.

Fonte: http://simsimnaonao.altervista.org/174–2/

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