LA CIVILTÀ CATTOLICA: COMENTÁRIO A CARTA ENCÍCLICA AETERNI PATRIS DE PAPA LEÃO XIII

Fé e razão, Lud­wig Seitz (1844–1908), Gale­ria dos Can­de­labros.

A REGRA FILOSÓFICA DE SUA SANTIDADE LEÃO P. P. XIII.

PROPOSTA NA ENCÍCLICA AETERNI PATRIS
La Civiltà Cat­toli­ca*
Flo­rença, 1879
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa
Revisão: Ana Glau­cia Jesus

No tem­po da quar­ta cruza­da, os exérci­tos lati­nos cir­cun­davam Con­stan­tino­pla pelas partes ter­restres; naque­la parte em que se espel­ha no Bós­foro com­ba­t­ia a arma­da veneziana. Grande era o val­or daque­les exérci­tos, mas porque não sendo coor­de­na­dos sabi­a­mente por um hábil coman­dante, se fati­gavam em vãos ataques; fileiras de heróis irrompiam con­tra os muros da cidade gre­ga e se bati­am como ondas fre­mentes con­tra os imóveis pen­has­cos. A batal­ha mudou de aspec­to quan­do Enri­co Dan­do­lo, quase octa­genário, máx­i­ma autori­dade da Repúbli­ca de Veneza e con­du­tor da arma­da naval, mon­ta­do na popa da capitâ­nia, dis­cur­sou para os seus e os inti­mou a maneira que devi­am todos,subitamente, agir no assaltar a cidade. À voz do val­oroso sen­hor, todas as naves venezianas aprox­i­maram-se dos muros e, para usar as palavras do his­to­ri­ador de Inocên­cio III, como um relâm­pa­go cain­do em ter­ra, os guer­reiros con­quis­taram vinte e cin­co tor­res e sobre elas hastear­am a ban­deira de Veneza, entraram vence­dores em Constantinopla.Assim é! Se a pru­dente e opor­tu­na palavra de um expert capitão não for con­cen­tra­da em unidade de ações,todas as forças dos com­bat­entes, dis­per­sam-se, a guer­ra pro­lon­ga-se, a cor­agem dos inimi­gos aumen­ta, diminui a esper­ança da vitória ou não se pode vê-la senão dis­tante.

Assim advém no nos­so caso. A guer­ra entre a ver­dade e o erro e con­se­quente­mente , entre bem e mal é antiquíssima,tanto quan­to a Igre­ja  aqui embaixo é mil­i­tante, por natureza. Mas esta guer­ra, depois da chama­da refor­ma protes­tante, tornou-se mais obsti­na­da e fer­oz, e aos nos­sos dias se fez uni­ver­salís­si­ma e ferocís­si­ma. Podemos bem diz­er que filó­so­fos e teól­o­gos católi­cos, os quais são a mili­cia elei­ta da Igre­ja Romana, tem com a voz e com a pena com­bat­i­do e val­orosa­mente com­bat­em. Mas aque­le sapi­en­tís­si­mo Pon­tí­fice Leão XIII, que, em tem­pos tão agi­ta­dos, regeu com mão fir­mís­si­ma o timão da mís­ti­ca nave, avi­sou que dis­per­savam-se um tan­to das nos­sas forças e por isso, de um lado o nos­so val­or não era coroa­do sem­pre de con­tente suces­so, e do out­ro a cor­agem dos inimi­gos de Deus e da Igre­ja insul­ta­va assim despu­do­rada­mente, e can­ta­va vitória e afir­man­do que a ciên­cia tin­ha, em idos tem­pos , demoli­do os fun­da­men­tais princí­pios da religião rev­e­la­da e, no cam­po do dire­ito, arru­ina­do a própria Igre­ja.

Ele, com agudís­si­mo olhar, ain­da sabia que a estraté­gia dos nos­sos adversários,a época, con­sis­tia espe­cial­mente em tirar da sociedade a ver­dadeira filosofia e  sub­sti­tuí-la por fal­sas, opostas a fé. Para con­cen­trar os dons católi­cos em uma ação comum e obter com isto unidade e eficá­cia maior na luta pela ver­dade, e jun­tos depor as armas adver­sárias , em uma Encícli­ca dirigi­da a todos os Patri­ar­cas, Arce­bis­pos e Bis­pos da Igre­ja deter­mi­nou aque­la que pode-se diz­er Regra Filosó­fi­ca, a ser segui­da nas esco­las católi­cas. Esta Regra Filosó­fi­ca é de máx­i­ma importân­cia: como tal é recon­heci­da por todos; por muitís­si­mos apre­ci­a­da; por pouquís­si­mos con­tra­di­ta; pelos sin­ceros católi­cos e pelos ver­dadeiros sapi­entes ven­er­a­da e acol­hi­da com ver­dadeira ale­gria. Nós não podemos evi­tar de con­sid­erá-la um pouco, como nos con­fes­samos inca­pazes de fazê-lo com aque­la dig­nidade que da índole do Apos­tóli­co doutís­si­mo doc­u­men­to é requeri­da. Supli­camos humilde­mente ao Sumo Pon­tí­fice, a qual bon­dade se iguala em sabedo­ria, que benig­na­mente queira nos per­doar não só por aqui­lo que no nos­so escrito mal respon­derá aos seus dese­jos, mas tam­bém àqui­lo que diante ao agu­do olhar da sua mente pare­cerá inex­a­to.

A ressaltar bem o alcance des­ta Regra Filosó­fi­ca nos ben­e­fi­cia­rá con­sid­er­ar em primeiro lugar os antecedentes: em segun­do exam­iná-la em si mes­ma: em ter­ceiro inves­ti­gar-lhe as con­se­quên­cias. Des­ta maneira parece-nos que podemos reunir, como em um pon­to de vista, se não tudo, ao menos aqui­lo que mais impor­ta obser­var em tal propósi­to e nas adições pre­sentes.

I.

Os antecedentes da Regra Filosó­fi­ca
esta­b­ele­ci­da pelo Sumo Pon­tí­fice Leão XIII

Com este nome de antecedentes quer­e­mos indicar tudo aqui­lo que é remo­ta­mente e prox­i­ma­mente prece­dente a pub­li­cação da Regra Filosó­fi­ca e que deixa-nos claro Papa Leão XIII ter feito coisa con­ve­nien­tís­si­ma e sapi­en­tís­si­ma ao esta­b­elecê-la. Os bons católi­cos que crêem com certeza que Jesus Cristo comu­ni­cou a Pedro e aos seus suces­sores plenís­si­ma autori­dade no reg­i­men­to da sua Igre­ja, e lhe prom­e­teu uma con­tin­ua assistên­cia até o fim dos sécu­los, sem dis­putar ou dis­cor­rer, do fato infer­em o dire­ito. Por esta razão, saben­do que o Papa, não a sua pes­soa pri­va­da, mas como Vigário de Jesus Cristo e Bis­po dos Bis­pos e de toda a Igre­ja, deter­mi­nou algu­ma coisa para o bem da própria Igre­ja, ime­di­ata­mente arguem o dire­ito de faz­er esta deter­mi­nação, a respeitam, a aceitam, a real­izam, não já propter tim­o­rem, mas propter con­sci­en­ti­am; porque sabem que obe­de­cer ao Vigário de Jesus Cristo naqui­lo que orde­na, enquan­to tal, é  obe­de­cer ao mes­mo Jesus Cristo; como faz­er o con­trário seria lhe des­obe­de­cer. Nem podem os bons católi­cos serem, com algu­ma razão nis­to, reprova­dos, por políti­cos de qual­quer governo,seja abso­lu­to, con­sti­tu­cional ou repub­li­cano, e que em toda sociedade bem orde­na­da quer ser recon­heci­da a supre­ma autori­dade, regi­da em uma pes­soa ‚como advém nos gov­er­nos abso­lu­tos, ou cole­ti­va e moral, como acon­tece nos out­ros; e se tem em con­ta de vio­lação ou de insub­or­di­nação, a men­ciona­da supre­ma autori­dade, toda insub­or­di­nação que se faz con­tra aque­les que lhe são os vigários e os min­istros, em todos os graus da hier­ar­quia social.

Se não que alguns por malig­nidade, e muitos por fal­ta de reflexão repreen­dem os católi­cos por aque­la pas­sagem que fazem do fato ao dire­ito, ao qual ago­ra mes­mo acená­va­mos; afir­man­do que seria tolo faz­er o mes­mo com respeito às autori­dades políti­cas supre­mas: assim zom­ban­do deles como ovel­has irra­cionais que, con­tra aqui­lo que pre­screve a dig­nidade da natureza humana, deixan­do-se cega­mente reger, aprovan­do sem con­sel­ho tudo aqui­lo que pro­cede da Sé Apos­tóli­ca. Tais acusações, feitas nestes dias, se repetindo por todos os jor­nais lib­erti­nos de todos os país­es, pre­cisa­mente a propósi­to da Encícli­ca Aeterni Patris, não podem por nós transcor­rer inob­ser­vadas e não redar­guidas. A fazê-lo o bas­tante, se pode per­gun­tar a estes per­pé­tu­os detra­tores da Sé Apos­tóli­ca, se podem elo­giar os princí­pios laicos, for­mais con­cessões e promes­sas, a respeito da sua autori­dade e de seu uso, que vão em igual­dade com os feitos por Jesus Cristo a Pedro e aos seus suces­sores. A dis­crepân­cia é suma e evi­den­tís­si­ma; lá onde muitas vezes a sober­ana autori­dade civ­il ultra­pas­sa os lim­ites do dire­ito no reg­i­men­to públi­co, e com tudo isso querem os sudi­tos obe­di­entes pela força, quan­do não são por ver­dadeiro dev­er: e esta força se exerci­ta fre­quente­mente muito mais destemi­da onde exis­tem gov­er­nos lib­erais, do que se exerci­tasse sob cer­tos gov­er­nos pas­sa­dos, que ago­ra se dizem tira­nos, e na real­i­dade eram cal­mos e pater­nos.

Todavia, a acusação que se faz de ovel­has desacon­sel­hadas, mere­ce­ria uma respos­ta áci­da, porque muito pior que ovel­has desacon­sel­hadas são quase todos os pseu­do-filó­so­fos dos nos­sos tem­pos, os quais se deix­am tor­pe­mente levar pelo nar­iz, não por excel­sa autori­dade, as quais, con­sid­er­adas ain­da as humanas, são dig­nas de pro­fundís­si­mo respeito, mas por char­latões camu­flan­do os sem­blantes de orácu­los e de filó­so­fos. É necessário ter uma fronte de bronze para cen­surar a nós, no cam­po da dout­ri­na, servil­mente e jun­ta­mente dobrar os joel­hos não só diante de Kant, Hegel e out­ros tais, a sabedo­ria dos quais é sim­i­lar a son­hos desconex­os e vãos, mas ain­da aos mod­er­nos chefes de esco­la da sei­ta de Epi­curo, os quais brin­can­do entre os áto­mos eter­nos que de per si se faz qual­quer coisa, até mes­mo home­ns e Deus, e a eter­na Vênus úni­co ou prin­ci­palís­si­mo  obje­to de ado­ração e de amor.

A reverên­cia que nós faze­mos diante das orde­nações do Vigário de Jesus Cristo não vão sep­a­ra­dos de uma sub­se­quente rig­orosa demon­stração, onde se pro­va que tal obséquio é racional e dev­i­do; demon­stra que jamais fiz­er­am e nem podem faz­er os incré­du­los quan­do incon­sul­ta­mente se arras­tam em torno de seus orácu­los ao modo mais de escravos que de sequazes. Em nos­so caso, essa demon­stração é fei­ta des­ta estu­pen­da Encícli­ca Papal, a qual bas­taria só ela para imor­talizar o nome do Pon­tí­fice que a disse, e a tornar glo­rioso o seu pon­tif­i­ca­do para todo o tem­po futuro.

De fato, ocu­pan­do-se Leão XIII de uma pecu­liar solic­i­tude pelo estu­do da filosofia, out­ra coisa não fez que seguir a tradição dos padres e doutores da Igre­ja, que ou o elo­gia­ram ou o usaram con­stan­te­mente? O San­to Padre na Encícli­ca, começa dos Padres dos tem­pos apos­tóli­cos, dis­corre por todos os sécu­los até os nos­sos tem­pos [1], demon­stran­do que na Igre­ja foi sem­pre tido em grande prestí­gio o estu­do da filosofia e des­ta sem­pre se fez uso gen­er­alís­si­mo. Do que seque que aque­les que nestes dias nos seus per­iódi­cos con­de­nam Papa Leão porque se se ocupou da filosofia, veem jun­ta­mente a con­denar toda a tradição católi­ca, nis­to segui­da pelo mes­mo Pon­tí­fice.

Mas a estes não lhes é pago para indicar his­tori­ca­mente um tal fato, dar a razão deste fato, e o faz­er derivar da índole da filosofia e das suas relações com a fé católi­ca, o dire­ito e o dev­er que tem a Igre­ja de usar ess­es meios que são úteis a sua existên­cia, a sua pro­gres­si­va expli­cação e a sua defe­sa. Diziam úteis, porque [2] não quer diz­er-se a filosofia humana abso­lu­ta­mente necessária nem ao esta­b­elec­i­men­to da Igre­ja, nem a sua con­ser­vação. A filosofia é escra­va da fé, não inspi­ra a essên­cia des­ta, e, como escra­va, lhe pres­ta serviços impor­tan­tís­si­mos e opor­tunís­si­mos.

Primeira­mente a filosofia pre­dis­põe [3] a out­ros abraçar a fé cristã, induzin­do-lhes a admi­tir uma quan­ti­dade infini­ta de proposicões quer espec­u­la­ti­vas, quer práti­cas, que ele deve abraçar, nat­u­ral­mente neces­si­tan­do da luz de sua razão. A mer­cê da filosofia humana a razão vê na fé uma ami­ga que lhe estende a mão, a ele­va, a nobili­ta e a reafir­ma nas suas retas inves­ti­gações, não a con­tradiz, não a abaixa; por isso esta é suave­mente atraí­da por ela e dis­pos­ta a abraçá-la. Que infini­ta seja a quan­ti­dade das proposições que dis­se­mos, a coisa é man­i­festís­si­ma: porque aque­las cog­nições [4] que reta­mente toma a filosofia da con­tem­plação da natureza e se ref­er­em a Deus, são todas ou explici­ta­mente ou implici­ta­mente pro­postas a crença pela fé; e a moral cristã é com­pos­ta, em boa parte, de princí­pios de moral filosó­fi­ca: que a saber na lei nat­ur­al e eter­na, segun­do os princí­pios da fé, quer-se fun­dar toda lei pos­i­ti­va, como aque­la rev­e­la­da e div­ina.

Em segun­do lugar [5] a filosofia demon­stra que Deus é cri­ador, é sapi­en­tís­si­mo, é ver­acís­si­mo: onde essa toma a ilação que Ele tem um domínio total e abso­lu­to sobre nós, e então tem plenís­si­mo dire­ito de pro­por nos a crer aqui­lo que supera (se bem que não con­tr­a­di­ga) a capaci­dade da nos­sa mente; que ele não pode cair em erro con­fundin­do o fal­so com o ver­dadeiro, nem pode min­i­ma­mente deixar-nos em engano, obri­g­an­do-nos a aceitar por ver­dadeiro aqui­lo que sabe ser fal­so. De onde advém que quan­do o homem con­hece o fato da rev­e­lação: ou quan­do ele aprende que uma coisa é rev­e­la­da, pode ser exci­ta­do pelos próprios princí­pios da filosofia a admití-la, apoian­do-se na onis­ciên­cia e veraci­dade de Deus; e este pre­dis­por-se a aceitar a fé vem coroa­do da obra da graça, a qual dá ao ato  sobre­nat­ur­al de crer a sua dig­nidade.

Em ter­ceiro lugar [6] a filosofia nos ensi­na ser abso­lu­ta­mente impos­sív­el e que exista efeito sem causa, e que esta não seja pro­por­cional a pro­dução daque­le. Essa te demon­stra que os mila­gres, com os quais des­de o princí­pio do cris­tian­is­mo lhe foi com­pro­va­da a ver­dade e a divin­dade, são fatos de existên­cia dos quais não pode se exi­s­tir dúvi­da pru­dente, e além dis­so são eles de tal índole de não poderem ser pro­duzi­dos por nen­hu­ma causa cri­a­da, por própria vir­tude nat­ur­al. Por qual coisa a própria filosofia nos ensi­na que aque­les fatos se devem levar em con­ta como vozes do próprio Deus, que com ess­es tor­na infalív­el o teste­munho da fé rev­e­la­da, a qual, por isso mes­mo, tem um lumi­nosis­si­mo caráter de ver­dade.

Em quar­to lugar [7] o ver­dadeiro filó­so­fo apoia­do ao nat­ur­al princí­pio de causal­i­dade, tem por firme que não só a propa­gação da fé cristã, mas ain­da a sua con­ser­vação supera os lim­ites das causas nat­u­rais: como aque­las causas que nat­u­ral­mente se aniquila­ram todas as sociedades, nada podem con­tra a Igre­ja, e pelo con­trário a ilus­tram e lhe mul­ti­pli­cam os fiéis; tan­to que pas­sou em princí­pio, des­de ab antiquo, aque­le dito que os novos cristãos pul­u­lam do sanguem dos már­tires. Lá onde para não incor­rer no absur­do que exista efeito sem causa pro­por­cional, o filó­so­fo está dis­pos­to a admi­tir que e na propa­gação e na con­ser­vação da fé e da Igre­ja cristã, está o braço da onipotên­cia div­ina. Então, a ilação, que aque­la fé e esta Igre­ja são de Deus.

Filoso­fan­do [8] sobre o belo aspec­to que nos dá a Igre­ja, ou se diga respeito a sub­lim­i­dade, a nobreza, a pureza da sua dout­ri­na; ou se con­sidere a sua oper­osi­dade para pro­duzir em todos ver­dadeira, inter­na e per­fei­ta e san­ti­dade, e a con­ve­niente pro­porção dos meios que empre­ga para este altís­si­mo fim; ou se refli­ta sobre a cari­dade dos seus fil­hos, a con­stân­cia nas provas mais difí­ceis até dar a vida pela fé pro­fes­sa­da e para não come­ter algu­ma sorte de cul­pa, se vem a inferir que essa Igre­ja entende exprim­ir nos home­ns a imagem das div­inas per­feições e com isto tende efi­caz­mente a glória div­ina. Lá onde essa deve nec­es­sari­a­mente ser a Deus cara e dile­ta: e todo homem pode tran­quil­a­mente estar no seu seio, cer­to de faz­er nis­to a div­ina von­tade.

Em sex­to lugar [9], a filosofia é aque­la que dá a sacra Teolo­gia a natureza de ver­dadeira ciên­cia. De fato ciên­cia não é uma sim­ples proposição de ver­dades rev­e­ladas e cer­tas pela fé; mas é uma cog­nição deduzi­da de princí­pios firmes, imutáveis e evi­dentes. E pre­cisa­mente a filosofia admin­is­tra a lóg­i­ca, sem a qual não pode exi­s­tir aque­la cog­nição deduzi­da. Que se as ver­dades rev­e­ladas sobre inteligíveis não são a nós intrin­se­ca­mente evi­dentes, porque não pode a nos­sa mente ver o ínti­mo nexo que liga o pred­i­ca­do com sujeito daque­las proposições onde são expres­sas, a filosofia lhes dá uma evidên­cia extrínse­ca que se apoia a nat­u­rais motivos de cred­i­bil­i­dade ora indi­ca­dos. Por esta evidên­cia extrínse­ca, que a filosofia dá as ver­dades rev­e­ladas, as quais por si mes­mas são firmes e imutáveis, ela atribui o caráter de princí­pios cien­tí­fi­cos. Essa recol­he em um só sil­o­gis­mo maior e menor rev­e­la­dos, ou a uma proposição rev­e­la­da, con­ju­ga out­ro proposição que é cer­ta e evi­dente a luz da razão e lhe infere ilações cien­tí­fi­cas. A filosofia ain­da apli­ca a teolo­gia os seus méto­dos cien­tí­fi­cos ora analíti­co, ora sin­téti­co, de guisa que a mes­ma teolo­gia apareça ver­dadeira ciên­cia e no seu todo e nas suas partes.

E porque todas as coisas cri­adas são efeitos da div­ina onipotên­cia e o efeito deve sem­pre em qual­quer maneira assemel­har a causa da qual é pro­du­to, segue que nas coisas deve sem­pre res­p­lan­de­cer ou a imagem ou a sim­i­lar­i­dade ou, por assim diz­er, algum vestí­gio qual­quer de Deus Uno em sua natureza e Tri­no nas pes­soas. Pela mes­ma razão o modo sobre­nat­ur­al, com o qual Deus opera na ordem da graça deve tam­bém ser esboço do oper­ar divi­no na ordem da natureza. Por isso diz respeito a filosofia fornecer ao teól­o­go belas e ajus­tadas analo­gias [10], em vir­tude das quais, emb­o­ra o mis­tério, no cam­po sobre­nat­ur­al espec­u­la­ti­vo e práti­co, não seja feito per­spícuo e evi­dente, todavia torne-se mais próx­i­mo a razão humana: e esta no con­tem­plá-Lo exper­i­mente aque­le praz­er nobre e agrad­abilís­si­mo que Dele provém.

Final­mente a filosofia mere­ci­da­mente quer diz­er-se prop­ugnácu­lo da fé [11], porque essa fornece a teolo­gia a espa­da e escu­do para ofen­sa e defe­sa con­tra os seus adver­sários. Isto faz de duas maneiras. A primeira, dan­do as leis uma jus­ta polêmi­ca e indi­can­do todas as for­mas sofís­ti­cas com as quais os erros são usa­dos com­bat­en­do a ver­dade. A segun­da, opon­do aos assaltos que se dão a fé em nome da fal­sa ciên­cia, as defe­sas que a ciên­cia ver­dadeira toma da própria fé. Vis­to que é de se recor­dar a memória que os inimi­gos da fé, tem bus­ca­do colocá-la em descrédi­to diante de todos, esforçan­do-se para fazê-la pas­sar como con­trária aos princí­pios incon­cus­sos da razão. Pelo que é necessário mostrar que isto não é ver­dadeiro: entre tais princí­pios e a fé se existe real oposição, não são princí­pios de razão, nem ilações cien­tí­fi­cas, mas fal­sas asserções; e que entre os sin­ceros princí­pios de razão e a fé se pode clarear per­fei­ta con­cór­dia, ou ao menos se pode demon­strar que real dis­cór­dia não existe.

O San­to Padre Leão XIII tocou com bre­v­i­dade e pre­cisa­mente estes oito pon­tos, dos quais se fez man­i­festo que o nexo entre a fé e a filosofia é estre­itís­si­mo: o dire­mos sim­i­lares àque­les da alma com o cor­po humano. O cor­po humano pres­ta a alma imen­sos serviços, esta depende dele para exor­diar a própria existên­cia. Igual­mente a fé deve res­guardar a filosofia como sua fiel ser­va, onde tira util­i­dade imen­sa: e se bem que a fé seja mais nobre que a razão, que é a fonte da filosofia, como a alma é mais nobre que o cor­po; todavia aque­la não pode exi­s­tir sem que seja em um sujeito racional e então asso­ci­a­da a própria razão. Da util­i­dade que a fé pode ter para a filosofia tira o San­to Padre a ilação, que então os Padres e Doutores da Igre­ja, antes a própria Igre­ja rep­re­sen­ta­da nos Con­cílios ou nos sumo Pon­tí­fices Romanos, bem fiz­er­am cuidan­do da filosofia; que antes lhe tin­ham dire­ito e em cer­to modo dever.«Nec sper­nen­da nec posthaben­da sunt nat­u­ralia adi­u­men­ta, quae div­inae sapi­en­ti­ae ben­efi­cio, for­titer suaviterque omnia dispo­nen­tis, hominum generi sup­petunt; quibus in adi­u­men­tis rec­tum philosophi­ae usum con­stat esse prae­cipu­um. Non enim frus­tra ratio­nis lumen humanae men­ti Deus inseruit; et tan­tum abest, ut super­ad­di­ta fidei lux intel­li­gen­ti­ae vir­tutem extin­guat aut immin­u­at, ut potius per­fi­ci­at, auc­tisque viribus, habilem ad maio­ra red­dat. Igi­tur pos­tu­lat ipsius div­inae Prov­i­den­ti­ae ratio, ut in revo­can­dis ad fidem et ad salutem pop­ulis, eti­am ab humana sci­en­tia prae­sid­i­um quaer­atur; quam indus­tri­am, prob­a­bilem ac sapi­en­tem, in more posi­tam fuisse praeclaris­si­mo­rum Eccle­si­ae Patrum, antiq­ui­tatis mon­u­men­ta tes­tantur [12].»

Mas então deman­demos: para todos os padres e doutores da Igre­ja e depois para aque­les grandes mestres da humana e da div­ina ciên­cia quais eram os escolás­ti­cos, nun­ca exis­tiu uma licença ilim­i­ta­da para filoso­far e aque­le arbítrio de esposar a teolo­gia com qual­quer estran­ha filosofia como a dos pseu­do-filó­so­fos dos nos­sos dias tam­bém querem? Não, jamais! Os padres e os doutores da Igre­ja obtiver­am dos anti­gos filó­so­fos da Gré­cia muitís­si­mos filosó­fi­cos princí­pios, imi­tan­do os hebreus [13] os quais não levaram sec­os, sain­do do Egi­to, os vasos desprezíveis de argi­la que per­ten­ci­am aos egíp­cios; mas sim cópias grande de pra­ta e de ouro. Não seguiam as pes­soas dos filó­so­fos gre­gos, mas a ver­dade por eles pro­pos­ta; e se pla­toniza­va San­to Agostin­ho, fazia-o, como adverte o Aquinate, tor­nan­do o pla­ton­is­mo cristão. E isto vê-se egre­gia­mente no próprio Aquinate, o qual atém-se em ver­dade a filosofia de Aristóte­les, mas purifi­ca­do dos seus erros, e nes­sa sin­teti­ca­mente se con­cen­trou a filosofia empre­ga­da pelos padres e doutores da Igre­ja nos sécu­los que o pre­ced­er­am. O faz­er de out­ra for­ma seria estultí­cia, e uma traição ao depósi­to da rev­e­lação. De ver­dadeiro, a fé sendo ver­dade, essa é por sua natureza inc­on­cil­iáv­el com o erro; por isso estul­ta coisa seria esta­b­ele­cer uma fal­sa filosofia como sua ser­va. Cer­ta­mente lhe serviria mal; ou, mel­hor, uma fal­sa filosofia encon­traria-se em uma con­tínua e evi­den­tís­si­ma oposição a mes­ma.

O Doutor Angéli­co, que alguns dos próprios adver­sários da Encícli­ca ven­er­am como o maior engen­ho filosó­fi­co da Itália, ordi­nar­i­a­mente fixou aque­la que se diz filosofia cristã. Não tal cer­ta­mente porque lhe sejam estadas definidas dog­mati­ca­mente todos os seus princí­pios, mas porque se esposou uni­ver­salmente a Teolo­gia, e porque os sumos Pon­tí­fices e os Con­cílios [14] a recomen­daram, ou tam­bém por vezes a pre­screver­am; e porque geral­mente se ensi­nou nas esco­las católi­cas.

A qual aprovação, por parte dos Papas, por vezes foi dada em ger­al fazen­do-se alusão a dout­ri­na de San­to Tomás. Por vezes explíci­ta de qual­quer proposição filosó­fi­ca de suma importân­cia, com a qual conec­tam-se, muitís­si­mos princí­pios filosó­fi­cos; como é, por exem­p­lo, o modo de união da alma com o cor­po. Às vezes indi­re­ta, apre­sen­tan­do-se ou incul­can­do-se a teolo­gia do Aquinate: porque tratan­do-se de teolo­gia escolás­ti­ca, que é o casa­men­to da razão com a fé, a filosofia dessa é de fato insep­a­ráv­el: por isso lou­van­do aque­la, nec­es­sari­a­mente tam­bém, a esta se lou­va. E isto que aqui dize­mos é tão ver­dadeiro, que se agradasse a alguém a torre das obras do Aquinate tudo aqui­lo que é filosó­fi­co, e deix­as­se a pura pos­i­ti­va teolo­gia, essa reduziria-se a um belo nada. E sobre este belo nada cairi­am os encómios, as aprovações e as pre­scrições?

Leão XIII que despendeu grande parte da doutís­si­ma Encícli­ca em dis­cor­rer sobre o méri­to sin­gu­larís­si­mo, em respeito a Igre­ja, da filosofia do Angéli­co, não dig­nou nem sequer uma palavra, nem as más supostas con­de­nações feitas por um tal Bis­po de Paris* e nem ao con­cil­iábu­lo de Oxford. E fez egre­gia­mente: assim reque­ria a sua autori­dade supre­ma e a sua altís­si­ma dig­nidade. Nós não gastare­mos tem­po com históri­c­as obser­vações para con­tentar aque­les jor­nal­is­tas mali­ciosos ou irrel­e­vantes, que colo­cam com pou­ca importân­cia ou despres­ti­giam as sen­tenças da Sé Apos­tóli­ca e dos Con­cílios, e fin­gem reverên­cia (repetindo como papa­gaios as supostas con­de­nações) àquela assem­bléia de Oxford que só é digna de ser aban­don­a­da e esque­ci­da. Estes tais são sim­i­lares àque­les, se emb­o­ra não sejam os mes­mos, que con­sid­er­am desprezíveis os maiores pen­sadores anti­gos e mod­er­nos, nem dig­nan­do-se de lhes recor­dar os nomes, e e exal­tam como sumo filó­so­fos cer­tos mer­cadores de nin­harias, que não enten­dem nem mes­mo os primeiros e evi­den­tís­si­mos princí­pios da filosofia, qual é o princí­pio de con­tradição e aque­le de causal­i­dade, que tor­pe­mente tem por sinôn­i­mos o ser e o não ser, que o efeito con­fun­dem com a causa, e afir­mam que aque­le não pre­cisa deste. Coisa de man­icômio, mas que ago­ra admi­ra-se e ven­era-se por amor de pro­gres­so, poster­gan­do e ridic­u­lar­izan­do tudo aqui­lo que em filosofia há de grande, e nós ain­da dire­mos, tudo aqui­lo que há de ital­iano [15].

Se não que quan­do nós dize­mos filosofia cristã dos Padres e dos Doutores escolás­ti­cos, daque­la nós enten­demos falar que é ver­dadeira­mente filosofia, a qual é sapi­en­te­mente con­tra­pos­ta pelo San­to Padre a físi­ca mod­er­na [16]. Aque­la é essen­cial­mente racional, os seus princí­pios são evi­dentes; as suas ilações são sujeitas a demon­strações; todas as suas teses são uni­ver­sais. A físi­ca mod­er­na, de que falam­os, é orde­na­da a coleção dos fatos, con­heci­dos por meio da exper­iên­cia. Onde vem que se esta físi­ca se pode diz­er ciên­cia, porque é com orde­na­do méto­do pro­pos­ta; não se pode diz­er tal naque­le sen­ti­do em que a palavra ciên­cia era empre­ga­da pelos escolás­ti­cos, para os quais a ciên­cia dev­e­ria apoiar-se em princí­pios racionais, cer­tos e evi­dentes, e não era rep­uta­da ciên­cia a proposição de fatos admi­ti­dos por out­ra autori­dade ou con­heci­dos ape­nas pela própria exper­iên­cia.

Daqui vem primeira­mente que a filosofia, de que fala o San­to Padre, tem por obje­to a essên­cia das coisas, e aque­las pro­priedades que surgem das próprias essên­cias. Isto é o ver­dadeiro obje­to, seja que trate de Deus, seja que trate das inteligên­cias sep­a­radas, do homem, dos bru­tos, das plan­tas e dos inorgâni­cos. Secun­dari­a­mente se faz man­i­fes­ta a ignorân­cia ou a malí­cia daque­les que para vilipen­di­ar a filosofia escolás­ti­ca, lhe atribuem algu­mas risíveis sen­tenças em torno a alquimia ou a astrolo­gia, que lhe são de fato estra­nhas, como se os filó­so­fos escolás­ti­cos até mes­mo as aceitassem em suas obras.

A filosofia escolás­ti­ca do Aquinate reinou nas esco­las católi­cas, pode-se diz­er somente e uni­ca­mente, por muitos sécu­los: pelo fato que as dis­crepân­cias entre os Doutores católi­cos eram fora do ver­dadeiro cam­po filosó­fi­co ou eram rarís­si­mas; ou ain­da eram em obje­tos secundários. A pre­ten­sa refor­ma, divid­iu com iníquas facções a grei de Cristo, quis destru­ir o vín­cu­lo onde div­ina­mente a teolo­gia esta­va esposa­da com a filosofia, e por isso não quis saber de teolo­gia escolás­ti­ca. Desven­tu­ra­mente nis­to os protes­tante se asso­cia­ram a muitos filó­so­fos católi­cos, ludib­ri­a­dos pelos sofis­mas ou pela pre­potên­cia daqueles.«Adnitentibus enim nova­toribus saeeuli XVI, placuit philosophari cit­ra quem­piam ad fidem respec­tum, peti­ta dataque vicis­sim potes­tate quae­li­bet pro lubito inge­nioque excog­i­tan­di. Qua ex re pron­um fuit, gen­era philosophi­ae plus aequo mul­ti­pli­cari, sen­ten­ti­asque diver­sas et inter se pug­nantes oriri, eti­am de iis rebus, quae sunt in huma­n­is cog­ni­tion­ibus pre­cipuae. A mul­ti­tu­dine sen­ten­tiarum ad hae­si­ta­tiones dubi­ta­tionesque per­saepe ven­tum est; a dubi­ta­tion­ibus vero in errorem quam facile mentes hominum dela­ban­tur, nemo est qui non videat. Hoc novi­tatis studi­um, cum homines imi­ta­tione tra­han­tur, catholico­rum quoque philosopho­rum ani­mos visum est alicu­bi per­va­sisse: qui pat­ri­mo­nio anti­quae sapi­en­ti­ae posthabito, nova moliri, quam vet­era novis augere et per­fi­cere maluerunt, certe minus sapi­en­ti con­silio et non sine sci­en­tiarum detri­men­to. [17]». O sep­a­rar a filosofia da teolo­gia era lógi­co e necessário àque­les que que­ri­am destru­ir a fé católi­ca, por dois motivos: o primeiro porque aque­la, como demon­strou Papa Leão, é ver­dadeira ser­va des­ta; nos demon­stra os motivos de cred­i­bil­i­dade; des­faz todas as difi­cul­dades que con­tra a fé fazem em nome da ciên­cia, e tor­na a própria fé aos doutos mais acessív­el e mais dile­ta. Em segun­do lugar porque não  poden­do haver oposição ver­dadeira entre a sin­cera filosofia e a fé, e tam­bém queren­do demon­strar que tal oposição exis­tia, foi depois da aber­tu­ra a intro­dução de fal­sas filosofias que nec­es­sari­a­mente, porque tais, a fé se opõem.

Eman­ci­pa­da a filosofia do respeito a fé e, por­tan­to, removi­da da vig­ilân­cia dire­ta e ple­na da autori­dade infalív­el da Sé Apos­tóli­ca, não hou­ve uma filosofia lou­ca que não viesse intro­duzi­da. Pan­teís­mo, mate­ri­al­is­mo, ide­al­is­mo, niil­is­mo, pos­i­tivis­mo, trans­formis­mo, epi­curis­mo: tais e tan­tas estultí­cias for­mam o tesouro da filosofia eman­ci­pan­do-se da fé nestes últi­mos sécu­los. E aqui con­sideran­do os antecedentes que atém-se a Regra Filosó­fi­ca esta­b­ele­ci­da pelo San­to Padre, não podemos escon­der aqui­lo que ele mes­mo toca e deplo­ra. A saber que mes­mo filó­so­fos católi­cos aban­don­a­da, com ligeireza, a filosofia do Aquinate perder­am-se, tal fala, atrás de fan­tasias dos não católi­cos, se bem que não caíssem nas filosó­fi­cas enormi­dades deles; ou exam­i­nan­do-se o fab­ricar-se de novos sis­temas filosó­fi­cos sem o fun­da­men­to da ver­dade. Onde, como obser­va o mes­mo San­to Padre [18], por uma parte temos uma filosofia lou­ca e ímpia que tudo cor­rompe e da destru­ição da ordem espec­u­la­ti­va ocorre a destru­ição da ordem práti­ca; da out­ra parte temos uma con­tínua flu­tu­ação e insta­bil­i­dade, pela qual os católi­cos, divi­di­dos entre eles e duvi­dosos, são pouco ade­qua­dos a debe­lar o erro e impedir males infini­tos que sobrevém a Igre­ja e a sociedade civ­il.

Enquan­to isso os Papas os quais tin­ham o dire­ito e o dev­er de pôr toda a solic­i­tude afim de que o depósi­to da fé não sofresse algu­ma calami­dade, e por isso tin­ha (como aci­ma dizíamos com o San­to Padre) o dire­ito e o dev­er de vigiar a filosofia, não fal­taram de faz­er ouvir a própria voz. Con­denaram fal­sas proposições filosó­fi­cas ora espec­u­la­ti­vas, ora práti­cas; por meio das Con­gre­gações Romanas cen­suraram muitís­si­mas doutri­nas filosó­fi­cas e con­denaram infini­tos livros, que ex pro­fes­so tratavam de filosofia, espe­cial­mente dos chefes de esco­la. Com tudo isto não se teve um remé­dio uni­ver­sal e efi­caz. As novas seitas filosó­fi­cas con­tin­uaram a pul­u­lar e dura­va ain­da em muitas esco­las católi­cas a dis­crepân­cia em pon­tos de grande momen­to e então a con­fusão e a fraque­za. Não se pode não ser sobre­car­rega­do de altís­si­ma mar­avil­ha pen­san­do que neste mes­mo sécu­lo, nas esco­las regi­das muitas vezes por home­ns da Igre­ja, dava-se uma filosofia empíri­ca sobre as pegadas de Locke e de Condil­lac, e que des­ta filosofia empíri­ca pas­sou-se tam­bém, em muitas esco­las católi­cas, a ensi­nar o ontol­o­gis­mo e uma espé­cie de oca­sion­al­is­mo. Em muitís­si­mos cur­sos filosó­fi­cos dos lei­gos e por vezes tam­bém de ecle­siás­ti­cos não se tin­ha respeito a que pon­tos filosó­fi­cos que dos Con­cílios e das Con­gre­gações Romanas foram deter­mi­nadas; e o Anjo das esco­las, o sumo filó­so­fo, por muitos não era nomea­do nem em son­ho, quase fos­se um homem bara­to: enquan­to que o títu­lo hon­orí­fi­co de filó­so­fo dava-se a home­ns de engen­ho medíocre, de fan­ta­sia desen­f­rea­da, e aque­les son­hos desconex­os tin­ham em con­ta de espec­u­lações sub­limes e ple­nas de ver­dade.

Se não que nestes últi­mos anos andou-se uni­ver­sal­izan­do um dese­jo de refor­ma filosó­fi­ca: a filosofia escolás­ti­ca quer-se reme­ter em hon­ra e muitos anal­isan­do-se de demon­strar que o angéli­co doutor San­to Tomás nos deu em suas obras um com­ple­to sis­tema de filosofia, o mel­hor de todos os pro­pos­tos nestes últi­mos sécu­los, o qual egre­gia­mente pode-se e deve-se con­cil­iar com cer­tos desco­bri­men­tos das ciên­cias mod­er­nas e com as ilações que, logi­ca­mente e segun­do a ver­dade, deduzem-se dos próprios fatos. Tais cur­sos de filosofia escolás­ti­ca ele­men­tar foram impres­sos segun­do a dout­ri­na do Aquinate; em muitas obras sep­a­radas dis­cu­ti­ram-se os pon­tos prin­ci­pais do sis­tema de San­to Tomás, e demon­strou-se a insub­sistên­cia real e a fal­si­dade de todos os sis­temas opos­tos. Despon­taram aqui e lá Acad­e­mias de San­to Tomás e digna de comem­o­ração hon­or­abílis­si­ma é aque­la de Perú­gia fun­da­da pelo seu Arce­bis­po, ago­ra sumo Pon­tí­fice, e aque­la de Nápoles Car­di­nal Riario Sforza. A Acad­e­mia filosó­fi­co-médi­ca de San­to Tomás fun­da­da em 1874 nestes últi­mos cin­co anos expli­cou uma pecu­liarís­si­ma e uni­ver­sal ener­gia e obtém suces­sos, ten­do em con­ta a condição dos tem­pos, ines­per­a­dos. O per­iódi­co La Scien­za ital­iana (vin­da como aux­il­iar do nos­so, que a muitos anos propõe a dout­ri­na do Aquinate) escri­ta somente por sócios acadêmi­cos, tomou para si a tare­fa de demon­strar que os cardeais princí­pios da filosofia de San­to Tomás (os quais se propõem a seguir no diplo­ma acadêmi­co, e são recomen­dadas no Breve Imper­it­uro de Pio IX, com o qual a estes lou­va e apro­va a própria Acad­e­mia) não opõem-se àqui­lo que é de ver­dadeiro e cer­to na mod­er­na ciên­cia, se bem que opõem-se as infun­dadas hipóte­ses de muitos cien­tis­tas mod­er­nos. A Sé Apos­tóli­ca durante o Pon­tif­i­ca­do de Pio IX aplaude a este movi­men­to ger­al de retorno a filosofia escolás­ti­ca: em cem ocasiões àque­les que o exci­tavam demon­strou-se favoráv­el: mas não pre­screveu a própria dout­ri­na nas esco­las católi­cas.

A este movi­men­to opun­ham-se diante dos mod­er­nos adver­sários do catoli­cis­mo, os quais pro­fes­sam, quase todos, a filosofia teoréti­ca e moral de Epi­curo. O próprio movi­men­to foi com grande ardor com­bat­i­do por muitos filó­so­fos católi­cos, os quais temi­am que o retorno a tan­to odi­a­da filosofia escolás­ti­ca e do Peri­pa­to não con­duziria gravís­si­mas con­se­quên­cias e cis­mas espe­cial­mente entre doutos laicos. Enquan­to a ordem social anda­va para a ruí­na: a guer­ra, em nome da ciên­cia con­tra a Igre­ja, se fazia com tal calami­dade, a poder afir­mar-se que em quase todas as obras eru­di­tas dos mod­er­nos pseu­do-filó­so­fos, que o antag­o­nis­mo entre a fé e a ciên­cia era evi­den­tís­si­ma­mente clarea­do e que ou devia-se renun­ciar a ciên­cia e aos dire­itos da razão, ou a fé católi­ca.

Estes são os antecedentes que pre­ced­er­am a Regra Filosó­fi­ca dada pelo Papa Leão XIII na Encícli­ca Aeterni Patris. Tal sendo o esta­do das coisas, con­tra os detra­tores deste sapi­en­tís­si­mo Pon­tí­fice dado por divi­no favor a Igre­ja, nestes tem­pos tempestuosos,quer demon­strar-se ‚que con­ve­nien­tís­si­ma­mente ‚ele deu-se a refor­mar a filosofia, e que pru­den­tís­si­mo, opor­tunís­si­mo e justís­si­mo é o modo onde quer que tal refor­ma seja fei­ta. Não façamos esta demon­stração, para que os católi­cos sin­ceros curvem-se a autori­dade Pon­tif­í­cia: não pre­cisam. O ver­dadeiro católi­co acol­he as instruções que o Vigário de Jesus Cristo faz não como de pes­soa pri­va­da, mas como Bis­po de toda a Igre­ja católi­ca, com respeito, com ple­na sub­mis­são, exter­na­mente e inter­na­mente, pro­pon­do-se de aplicá-las, o quan­to está em seu poder e a ele dizem respeito. Mas como filó­so­fo con­tra o ímpio ou os estul­tos dá-se, filoso­fan­do, a jus­ti­ficar as obras de Deus e os decre­tos da sua div­ina providên­cia, assim pos­samos nós faz­er das orde­nações tam­bém solenes da Sé Apos­tóli­ca.

CONTINUA

*La Civiltà Cat­toli­ca anno XXX, serie X, vol. XI (fasc. 702, 9 set­tem­bre 1879), Firen­ze 1879 pag. 657–672.

Notas:

[1] Ad agevolare le citazioni dell’Enciclica diamo ad ogni capover­so un numero pro­gres­si­vo. — Per la pre­sente citazione vedi nn. 4, 10 e segg.

[2] Enci­cl. n. 2.

[3] Enci­cl. n. 4.

[4] Enci­cl. n. 4 cit.

[5] Enci­cl. n. 5.

[6] Enci­cl. n. 5 cit.

[7] Enci­cl. n. 5 cit.

[8] Enci­cl. n. cit.

[9] Enci­cl. n. 6.

[10] Enci­cl. num. cit.

[11] Enci­cl. n. 7.

[12] Enci­cl. n. 2.

[13] Enci­cl. n. 4.

[14] Enci­cl. n. 11, 12.

[15] Si leg­ga sopra questo pun­to l’opera del Cornol­di: Pro­le­gomeni del­la filosofia Ital­iana ecc.

[16] Enci­cl. n. 22.

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