P. CURZIO NITOGLIA: O EQUÍVOCO GUENONIANO

Padre Curzio Nitoglia
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

Tradição” espúria guenon­i­ana

René Guénon († 1951) evi­den­ciou, crit­i­can­do, a crise do mun­do mod­er­no e reabil­i­tou a Tradição. Mas qual é a Tradição a que ele se ref­ere e qual é o aspec­to da Mod­ernidade que criti­cou nas suas obras?

A Tradição guenon­i­ana não é a Tradição apos­tóli­ca, mas a “Tradição pri­mor­dial”, ou seja, um con­hec­i­men­to (gno­sis) iniciático/esotérico, auto-salví­fi­co e até mes­mo auto-divinizante medi­ante ape­nas o con­hec­i­men­to (gno­sis) do ini­ci­a­do na esco­la de um mestre (guru) ou um sábio (eleito).

A ini­ci­ação guenon­i­ana é ati­va­da e se adquire nat­u­ral­mente por parte do ini­ci­a­do medi­ante a gnose ou con­hec­i­men­to esotéri­co; essa é pro­fun­da­mente difer­ente da Mís­ti­ca cristã, que é pas­si­va mas a qual é pre­ciso então cor­re­spon­der, é sobre­nat­ur­al e infun­di­da pelo Espíri­to San­to na alma do jus­to.

Guénon filo-maçom cabal­ista anti-cristão

No oci­dente, segun­do Guénon, a úni­ca força capaz de trans­mi­tir a Tradição pri­mor­dial seria a Maçonar­ia espec­u­la­ti­va e mís­ti­ca, ou seja, cabal­ista (dado que a filosofia esotéri­ca da Maçonar­ia é a cabala hebraica), e não seria mais a Igre­ja Católi­ca, que teria per­di­do des­de os primeiros sécu­los a ver­dadeira Tradição esotéri­ca. Todavia, para­doxal­mente (mas não muito) segun­do os guenon­i­anos a teria re-encon­tra­do com os Decre­tos pas­torais do Con­cílio Vat­i­cano II Nos­tra Aetate e Uni­tatis red­in­te­gra­tio, que propõem o pan-ecu­menis­mo ou a unidade tran­scen­dente de todas as religiões, tan­to aus­pi­ci­a­da por parte de Guénon e Schuon.

No ori­ente, para Guénon, a filosofia hindú seria ain­da mais per­fei­ta trans­mis­so­ra da Tradição pri­mor­dial que a Maçonar­ia cabal­ista no oci­dente. Ora, o hin­duís­mo e o bud­is­mo são uma filosofia niilista fun­da­da sobre o nada, que está a frente do Niil­is­mo filosó­fi­co da pós-mod­ernidade de Niet­zsche, da Esco­la de Frank­furt e do Estru­tu­ral­is­mo francês, que nos lev­ou ao cumpri­men­to e a super­ação do pior da Mod­ernidade, ou seja, ao parox­is­mo ultra-mod­er­no e pós-mod­er­no que se des­en­cadeou com toda vir­ulên­cia com o Sessen­ta e oito. Mas como se faz para criticar a crise da Mod­ernidade bus­can­do curar a pós-mod­ernidade que é ultra-mod­er­na? Se pode talvez curar a um res­fri­a­do com a pneu­mo­nia? E a pneu­mo­nia com um câncer nos pul­mões?

A Tradição pri­mor­dial tam­bém é chama­da por Guénon de “meta-físi­ca”, ou seja, aci­ma (metà) do mun­do mate­r­i­al (tà physicà). Todavia a meta-físi­ca guenon­i­ana não tem nada a que com­par­til­har com a platôni­ca, aris­totéli­ca e tomista. De fato, essa está além, aci­ma não tan­to do mun­do físi­co quan­to sobre­tu­do da Religião rev­e­la­da e pos­i­ti­va espe­cial­mente católi­co-romana, que seria para Guénon uma Tradição desvi­a­da.

Então, mais que de meta-físi­ca, em Guénon, se dev­e­ria falar de meta-religião, ter­mo usa­do pelo padre do neo-mod­ernismo Pierre Teil­hard de Chardin († 1955) que com a dout­ri­na pan­teís­ta e pan­cristi­ca do “Cristo cós­mi­co”, fala­va de “meta-cris­tian­is­mo”. Ora, deixa mais que per­plexo o fato que o con­tes­ta­dor da crise do mun­do mod­er­no o cri­tique base­an­do-se no Mod­ernismo filosófico/teológico, que é a expressão mais rad­i­cal da Mod­ernidade. Como deixa per­plexo o fato de que Julius Evola († 1974) se revoltasse con­tra o mun­do mod­er­no seguin­do o Ide­al­is­mo abso­lu­to de Schelling, pro­du­to últi­mo e mais parox­ís­ti­co que o Eu hegeliano, sub­je­ti­va­mente cri­ador da real­i­dade, cor­rigi­do com uma pita­da de mágia.

Em ambi­ente católi­co tradi­cional e anti-mod­ernista muitas vezes, de boa fé, se equívo­ca a respeito do guenon­is­mo (mas não vice-ver­sa) toman­do os ter­mos Tradição e Mod­ernidade em sen­ti­do estri­ta­mente católi­co, enquan­to para Guénon são ter­mos ou con­ceitos idên­ti­cos, que tem um sig­nifi­ca­do total­mente diver­so (equiv­o­co). Cain­do assim na armadil­ha de Guénon, que sem­pre bus­cou, des­de a sua juven­tude, infil­trar o catoli­cis­mo para ero­di-lo a par­tir de seu inte­ri­or como fiz­er­am o Gnos­ti­cis­mo no sécu­lo II e o Mod­ernismo no sécu­lo XX. Não por aca­so o Mod­ernismo e o Gnos­ti­cis­mo con­tém no seu pro­fun­do as doutri­nas esotéri­c­as, ocul­tas e ini­ciáti­cas a qual se ref­ere Guenon.

Tradição Cristã

A Tradição católi­ca é a divi­no apos­tóli­ca. A Tradição jun­ta­mente com a Bíblia é uma das duas “fontes” da div­ina Rev­e­lação. Essa é tam­bém a “trans­mis­são” (tradere, trans­mi­tir) oral de todas as ver­dades rev­e­ladas por Cristo aos Após­to­los ou sug­eri­das a eles pelo Espíri­to San­to, e que chegaram a nós medi­ante o Mag­istério sem­pre vivo da Igre­ja, na série nun­ca inter­romp­i­da de suces­sores de Pedro, assis­ti­da por Deus até o fim do mun­do.

A Tradição jun­ta­mente com as Sagradas Escrit­uras é o canal con­ti­nente (Tradição pas­si­va) e o veícu­lo trans­mis­sor (Tradição ati­va) da Palavra rev­e­la­da.

A tradição cristã se divide em

a) Tradição div­ina (ensi­na­da dire­ta­mente por Cristo aos Após­to­los);

b) Tradição divi­no-apos­tóli­ca (os Após­to­los não a escu­taram da boca de Cristo, mas a tiver­am por inspi­ração do Espíri­to San­to).

Essa con­siste naque­las ver­dades ou pre­ceitos morais, dis­ci­pli­nares e litúr­gi­cos, os quais derivam dire­ta­mente de Cristo ou dos Após­to­los enquan­to pro­mul­gadores da Rev­e­lação, ilu­mi­na­dos pelo Espíri­to San­to, e trans­mi­ti­das — medi­ante os Padres apos­tóli­cos, apol­o­gis­tas e ecle­siás­ti­cos — aos home­ns de todos os tem­pos incor­rup­tas até o fim do mun­do, por isso ela é obje­to de fé div­ina.

Os primeiros ‘Dis­cípu­los” dos Após­to­los rece­ber­am de maneira dire­ta e ime­di­a­ta a Tradiçao da boca dos Doze, enquan­to os pos­te­ri­ores a recebem de maneira indi­re­ta e medi­a­da, através do ensi­na­men­to dos suces­sores de Pedro (Papas) e dos Após­to­los (os Bis­pos) cum Petro et sub Petro: o Mag­istério é o órgão da trans­mis­são inin­ter­rup­ta da mes­ma her­ança rece­bi­da dos Após­to­los por parte de Cristo ou do Espíri­to San­to.

A Tradição oral não excluí que depois ven­ha a ser colo­ca­da por escrito, mas não sob a “div­ina Inspi­ração” (como ao invés a S. Escrit­u­ra) enquan­to, com o pas­sar do tem­po, a trans­mis­são a voz vem fix­a­da em doc­u­men­tos escritos ou em epí­grafos. Por exem­p­lo a val­i­dade do Batismo dos recém nasci­dos é Tradição, porque é palavra de Deus não escri­ta sob div­ina inspi­ração, mas é ates­ta­da unanime­mente por quase todos os anti­gos escritores ecle­siás­ti­cos. Todavia, o escrito é ape­nas um sub­sí­dio da Tradição oral. Onde podem ser Tradições ou ensi­na­men­tos divino/apostólicos dos quais nada foi escrito. Será a voz do suces­sor de Pedro ou da Igre­ja, ou seja, o Mag­istério vivente na pes­soa do Papa atual­mente reinante a garan­tir que tais ver­dades são de origem div­ina ou divino/apostólica. Só neste sen­ti­do sub­je­ti­vo se pode falar de Tradição “vivente” ou mel­hor ain­da de Mag­istério vivente, enquan­to o ensi­na­men­to divi­no ou apos­tóli­co, obje­to da Tradição, vem trans­mi­ti­do inin­ter­rup­ta­mente pela cadeia dos Papas vivos “todos os dias (e em ato) até o fim do mun­do”.

É dout­ri­na comu­mente ensi­na­da que a Tradição é mais rica que a sola Scrip­tura.

Mais rica:

1º) em antigu­idade (tam­bém a Escrit­u­ra antes de ser colo­ca­da por escri­ta foi Tradição, enquan­to trans­mis­são a viva voz da Rev­e­lação div­ina);

2º) em plen­i­tude (enquan­to a Tradição con­tém todas as ver­dades rev­e­ladas ao pas­so que a Escrit­u­ra não) e

3º) em sufi­ciên­cia (porque a Escrit­u­ra tem neces­si­dade da Tradição para esta­b­ele­cer a sua autori­dade).

O Tradi­cional­is­mo clás­si­co do sécu­lo XVIII francês é um sis­tema que depre­cia a capaci­dade cognosc­i­ti­va da razão humana e lhe sub­sti­tuí com a “Tradição prim­i­ti­va do gênero humano” lig­a­da a gênese da lin­guagem e a Monar­quia de dire­ito divi­no.

Tradi­cional­is­mo políti­co, filosofia políti­ca tomista e dout­ri­na social da Igre­ja

Segun­do de Bonald (Teo­ria do poder políti­co e reli­gioso na sociedade civ­il, 1796) tam­bém a dout­ri­na políti­ca sobre a origem da sociedade civ­il e sobre úni­ca (para ele) ver­dadeira­mente boa for­ma de gov­er­no (Monar­quia hered­itária e abso­lu­ta de dire­ito divi­no) foi dada, como a lin­guagem, por Deus a humanidade. Então, o monar­quis­mo abso­lu­to bonal­diano faz uma reduc­tio ad unum com o Tradi­cional­is­mo fideís­ta da gênese da lin­guagem.

Segun­do esta teo­ria o poder viria ime­di­ata­mente de Deus ao chefe, sem pas­sar através do povo como canal. Deus escol­he­ria um indi­ví­duo sobre o qual con­feriria o poder. Ora, isto é ver­dadeiro para a Igre­ja Católi­ca, para o Rei do Anti­go Tes­ta­men­to, mas não para a autori­dade humana do Novo Tes­ta­men­to.

Ao invés dis­so — segun­do Aristóte­les e San­to Tomás — a autori­dade vem de Deus como causa remo­ta, mas Deus não man­i­fes­ta (per se ou nor­mal­mente) dire­ta­mente qual seja a pes­soa ou o regime de gov­er­no que deva exerci­tar o poder (pode fazê-lo per acci­dens ou excep­cional­mente, mas em filosofia se leva em con­sid­er­ação o per se, ou seja, a regra, e não a exceção). A pes­soa é escol­hi­da do cor­po social. O povo, porém, atenção!, não cria o poder, mas des­igna a pes­soa que o deve exerci­tar.

A Monar­quia de dire­ito divi­no, na qual o rei obtém o poder dire­ta­mente de Deus, se pres­ta a uma dúplice inter­pre­tação:

a) o poder deri­va, como de fonte remo­ta, de Deus, e isto é de Fé: “todo poder vem de Deus” (Rm XIII, 1);

b) a autori­dade real deri­va dire­ta­mente ao Príncipe de Deus, e por isso é sep­a­ra­da (ab-solu­ta) de qual­quer vín­cu­lo ou dependên­cia (do Papa, da Igre­ja e do povo, mes­mo quan­do o monar­ca se tor­na tira­no) e isto é con­trário a sã dout­ri­na.

O “poder del­e­ga­do do povo canal” é a tese ensi­na­da pela primeira escolás­ti­ca (S. Tomás), pela segun­da escolás­ti­ca (Belarmi­no e Suárez), pela ter­ceira escolás­ti­ca, pelos teól­o­gos aprova­dos do sécu­lo XX e XXI e — inin­ter­rup­ta­mente — pelo Mag­istério ecle­siás­ti­co a par­tir de Gregório XVI até Pio XII. A escol­ha do chefe per­tence ao cor­po social, enten­di­do como san­ior pars, de modo que a autori­dade tra­bal­he pelo bem comum. É pre­ciso especi­ficar que o povo (que não é a mas­sa amor­fa) “tem” o poder ape­nas para comu­nicá-lo ao chefe, ou seja, o povo é sujeito imper­feito ou tran­si­ti­vo ou “via” do poder, enquan­to o chefe “é” sujeito per­feito e per­ma­nente desse; isto é o chefe detém estavel­mente o poder como seu, uma vez dado-lhe ele não pode ser tira­do-lhe pelo povo a seu capri­cho (a não ser em caso de tira­nia); ele tem a autori­dade estavel­mente, porque lhe vem, medi­ante o povo-canal, de Deus.

Esta é a dout­ri­na escolás­ti­ca e católi­ca ou a teo­ria tradi­cional do poder-del­e­ga­do diame­tral­mente diver­sa daque­la tradi­cional­ista fideís­ta de de Bonald, de Maistre e sequazes. Deus é fonte remo­ta de poder, o povo lhe é ape­nas canal de trans­mis­são e, uma vez que a comu­nidade nor­mal­mente não sabe per­feita­mente e estavel­mente, exerci­tar o poder, eis a neces­si­dade de escol­her uma pes­soa (ou mais, segun­do a for­ma de gov­er­no) a qual trans­fere o poder e na qual o poder per­manece estavel­mente.

San­to Tomás ensi­na que as pos­síveis for­mas de gov­er­no são três: monar­quia, aris­toc­ra­cia, politéia (hoje ‘democ­ra­cia’ clás­si­ca, essen­cial­mente diver­sa do ‘democ­ra­tismo’ mod­er­no de Rousseau). Ele con­sid­era a monar­quia como a primeira for­ma de gov­er­no (o gov­er­no de um só), que, porém, pode degener­ar em tira­nia. A segun­da for­ma de gov­er­no con­sid­er­a­da pelo Aquinate é a aris­toc­ra­cia (gov­er­no dos mel­hores ou vir­tu­osos), que pode degener­ar em oli­gar­quia, ou seja, tira­nia de poucos. A ter­ceira for­ma é a politéia (gov­er­no dos mag­istra­dos ou dos cidadãos/militares) ou tim­o­c­ra­cia (gov­er­no no qual os car­gos são atribuí­dos ten­do por base a hon­ra e a força da san­ior pars pop­uli). Hoje, em lugar da politéia ou tim­o­c­ra­cia, prevale­ceu o uso da palavra democ­ra­cia — que para os clás­si­cos e os escolás­ti­cos tin­ha já de per sé uma valên­cia neg­a­ti­va — a qual pode degener­ar em dem­a­gogia, como se diz comu­mente hoje.

A mel­hor for­ma de gov­er­no segun­do S. Tomás e o Mag­istério não é aque­la de de Bonald

Segun­do a tradição escolás­ti­ca, a mel­hor for­ma de gov­er­no não é a monar­quia abso­lu­ta e hered­itária de dire­ito ime­di­ata­mente divi­no (como que­ria de Bonald), mas é uma for­ma “mista”, dada a malí­cia do homem feri­do pelo peca­do orig­i­nal que facil­mente é lev­a­do a degen­er­ação. Na Suma Teológ­i­ca (I-II, q. 95, a. 4) San­to Tomás escreve: “existe um cer­to regime, que é um mis­to destas três for­mas, o qual é o mel­hor”. E ain­da: “a mel­hor for­ma de poder é bem tem­per­a­da pela união da monar­quia, em que coman­da um só, e pela aris­toc­ra­cia, em que coman­dam os mel­hores ou os vir­tu­osos, e pela democ­ra­cia, que é o poder do povo, enquan­to os Príncipes podem ser escol­hi­dos na classe pop­u­lar e podem ser eleitos pelo próprio povo” (S. Th., I-II, q. 105, a. 1). Todo bom regime deve, então, ser mis­to e rad­i­ca­do no princí­pio de povo-canal, que trans­mite tare­fas e funções de gov­er­no ao home­ns aptos, prepara­dos e hon­estos (os mel­hores); enquan­to ao vér­tice, a supre­ma unidade de gov­er­no per­tence a um homem pru­dente e maduro (o monar­ca).

San­to Tomás, retoman­do e aper­feiçoan­do o ensi­na­men­to de Aristóte­les, sub­lin­ha que a monar­quia é mais nobre que a aris­toc­ra­cia e esta o é mais que a democ­ra­cia. Todavia, San­to Tomás aler­ta para os peri­gos da monar­quia, não enquan­to perigosa em si mas por causa da malí­cia do homem. Se pode, então, con­cluir que a mais nobre for­ma de gov­er­no, a monar­quia, é bom que seja tem­per­a­da pela aris­toc­ra­cia e pela tim­o­c­ra­cia ou democ­ra­cia (obvi­a­mente não a democ­ra­cia mod­er­na ou dem­a­gogia, segun­do a qual o poder não deri­va de Deus mas do homem).

Na sua obra De Regimine prin­cipum San­to Tomás expli­ca ser necessário que os home­ns, viven­do em sociedade, sejam gov­er­na­dos por alguém: “se é nat­ur­al para o homem viv­er em Sociedade, é necessário que entre os home­ns exista algum que gov­erne o povo. De fato, quan­do os home­ns são em muitos, se cada um provesse ape­nas aqui­lo que lhe serve, o povo se frag­men­taria nos seus com­po­nentes, supon­do que não exis­tisse quem se ocu­passe do bem comum; assim como o homem se dis­solve­ria se no cor­po não exis­tisse uma fac­ul­dade coor­de­nado­ra ger­al (o cére­bro) dirigi­da ao bem comum de todos os mem­bros […]. Se uma mul­ti­dão de home­ns é orde­na­da pelo chefe para o bem comum de todos, o gov­er­no será reto e jus­to. Se ao invés o gov­er­no é orde­na­do não ao bem comum, mas ao bem pri­va­do do chefe, será injus­to e per­ver­so”.

O Aquinate expli­ca, além dis­so, que é mais útil que uma mul­ti­dão de home­ns seja gov­er­na­da por um só, ao invés de muitos. Isto enquan­to o um por essên­cia pode garan­tir a unidade mel­hor que muitos indi­ví­du­os. Então, é mais útil que o gov­er­no de um só que de muitos. Mas San­to Tomás aler­ta para o peri­go que tam­bém a mel­hor for­ma de gov­er­no, por causa das con­se­quên­cias do peca­do orig­i­nal, pode degener­ar e se tornar tira­nia de um só que é pior que a tira­nia de poucos (oli­gar­quia) assim como esta é pior que a tira­nia de muitos (dem­a­gogia). A coisa mel­hor se con­trapõem aque­la pior e um gov­er­no é tan­to mais injus­to, quan­to mais se dis­tan­cia do bem comum, como aque­le de um só tira­no. É pre­ciso, de qual­quer modo, con­sid­er­ar tam­bém o enorme dano ao bem comum que derivaria da caóti­ca par­tic­i­pação de muitos, inep­tos e moral­mente cor­rup­tos, na gestão do poder.

Para Aristóte­les e San­to Tomás, a democ­ra­cia é a degen­er­ação da politéia ou tim­o­c­ra­cia, enquan­to essa se baseia sobre o povo reduzi­do a mas­sa informe ao pas­so que a tim­o­c­ra­cia é fun­da­da sobre a par­tic­i­pação equi­tati­va do povo no poder, for­ma­da por pes­soas racionais, livres e hon­es­tas. Enquan­to sis­tema, a sobera­nia reside na lei e não na mul­ti­dão e nas suas delib­er­ações. Na democ­ra­cia (hoje dire­mos dem­a­gogia), enten­di­da como degen­er­ação da politéia ou tim­o­c­ra­cia, a lei perde a própria força e a mas­sa informe e amor­fa se tor­na árbi­tro do Esta­do. Em tal sis­tema os dem­a­go­gos, e não os mel­hores, tem as rédeas do gov­er­no, e as leis pos­i­ti­vas como especi­fi­cações da lei nat­ur­al (enten­di­da como par­tic­i­pação na lei eter­na ou div­ina), inscri­ta pelo Cri­ador no âni­mo humano, não são mais sober­anas, mas depen­dem do capri­cho da mul­ti­dão despóti­ca. A politéia ou tim­o­c­ra­cia (hoje dire­mos democ­ra­cia clás­si­ca) se fun­da sobre a par­tic­i­pação do povo no poder de for­ma respon­sáv­el e orde­na­da. Todo civ­il deve ter a pos­si­bil­i­dade de par­tic­i­par, se capaz e dig­no, na vida políti­ca da nação. Qual­quer que seja a for­ma do poder, é essen­cial que quem o exercite legit­i­ma­mente ten­ha a con­sciên­cia de não ser a origem da sobera­nia, e, con­se­quente­mente, de não ter algum dire­ito ao exer­cí­cio do poder em sen­ti­do abso­lu­to. Quem gov­er­na — seja esse o rei, o chefe de uma repúbli­ca, os mem­bros de um gov­er­no — deve con­sid­er­ar-se vas­sa­lo de Deus, ou seja, sub­or­di­nar-se ao Úni­co Sen­hor origem da autori­dade e da sobera­nia, que — através do instru­men­to povo/canal — trans­mite a quem é legit­i­ma­mente des­ti­na­do a guiar o Esta­do a insti­tu­ição dep­uta­da a gov­ernar a vida do con­sór­cio humano asso­ci­a­do. Uma sub­or­di­nação que se con­cretiza na adesão inte­gral, exata­mente por parte do Esta­do, a éti­ca nat­ur­al e cristã. Como se vê, com o tomis­mo, esta­mos nas antípo­das do bonald­is­mo ou Tradi­cional­is­mo políti­co, des­ta Tradição pri­mor­dial, que segun­do de Bonald, aco­mu­na todas as religiões pos­i­ti­vas, as englo­ba e as supera (como tam­bém todos os gov­er­nos). L. de Bonald, como J. de Maistre, ensi­na que o homem teria ideias inatas e não lhes abstrai do con­hec­i­men­to sen­sív­el, como ensi­nam Aristóte­les, San­to Tomás e toda a primeira, segun­da e ter­ceira escolás­ti­ca. O homem teria rece­bido de Deus uma “lin­guagem prim­i­ti­va” e uma “Tradição pri­mor­dial” lin­guís­ti­ca e políti­ca des­de a cri­ação. Segun­do eles a lin­guagem e as ideias que são expres­sas pela lin­guagem não são obra do homem medi­ante a abstração do con­ceito inteligív­el da coisa sen­sív­el e então medi­ante uma con­venção com a qual os home­ns tem deci­di­do a dar tal nome a um con­ceito (por exem­p­lo ‘homem’ ao ani­mal racional). A lin­guagem pri­mor­dial trans­mi­ti­da de ger­ação em ger­ação, man­te­ria a Tradição pri­mor­dial segun­do eles (com­preen­di­do o pan­teís­ta medieval Scott de Erí­ge­na, no qual se baseiam).

Como se vê, a Tradição cristã é diame­tral­mente diver­sa daque­la esotéri­ca e fideís­ta. Todos os home­ns, a qual­quer religião que pertençam, tem a mes­ma Tradição e ver­dade pri­mor­dial trans­mi­ti­da por uma lin­guagem infun­di­da prim­i­ti­va­mente na mente humana pela Divin­dade. As diver­sas (por ele­men­tos aci­den­tais postiços e adven­tivos) religiões, então, são infe­ri­ores a pura Tradição pri­mor­dial, a meta-religião ghenon­i­ana e devem ser con­sid­er­adas ini­ci­ati­ca­mente segun­do a unidade tran­scen­dente de cada religião (F. Schuon † 1998).

Segun­do de Maistre e de Bonald a religião mais próx­i­ma a Tradição prim­i­ti­va é o cris­tian­is­mo, enquan­to para Guénon é o hin­duís­mo jun­ta­mente ao eso­ter­is­mo islâmi­co e àquele ori­en­tal e para Evola é o neo­pa­gan­is­mo pan­teís­ta. Mas, na real­i­dade, é a cabala ou a fal­sa mís­ti­ca hebraica que aco­mu­na todas essas várias fal­sas con­cepções esotéri­c­as.

É curioso notar como um notáv­el estu­dioso e ancião adep­to do guenon­is­mo Jacques-Albert Cut­tat, define o guenon­is­mo como um “neo Tradi­cional­is­mo”. Parece que que Guénon reto­mou e sub­limou, a luz da filosofia ori­en­tal, as três teses fun­da­men­tais do Tradi­cional­is­mo oito­cen­tista francês (espe­cial­mente aque­le de J. de Maistre, de L. de Bonald e de F. Lamen­nais), isto é: 1º) o anti-racional­is­mo; 2º) a una­n­im­i­dade da Tradição pri­mor­dial, expres­sa pela lin­guagem, como úni­co critério de ver­dade e sobre­tu­do 3º) o pri­ma­do espir­i­tu­al do Ori­ente (Le néo-Tra­di­tion­al­isme: René. Guénon, Aanan­da K. Coomaraswamy, Frithjof Schuon, in Annu­aire del l’E. P. H. E, Vème sec­tion: Sci­ences Religieuses, 1958–1959, p. 68).

A Maçonar­ia mís­ti­ca (a qual tem por alma a Cabala) é para todos eles a for­ja da trans­mis­são esotéri­ca da Tradição pri­mor­dial. Como se vê todos eles, são con­scien­te­mente ou não, imbuí­dos do gnos­ti­cis­mo cabalís­ti­co, maçôni­co e então, ulti­ma­mente, de luciferis­mo.

Pelo que o Tradi­cional­is­mo fideís­ta francês do sécu­lo XVIII não é ape­nas um erro filosó­fi­co que esvazia a razão humana, mas é tam­bém uma desvi­ação teológ­i­ca, lin­guís­ti­ca e políti­ca, que lev­ou a recusa do Mag­istério de Leão XIII em 1892 e àquele de Pio XI em 1926 sobre­tu­do na França, que é deve­do­ra a cabala espúria judaica e a Maçonar­ia das suas doutri­nas mais especí­fi­cas.

Os prin­ci­pais expoente do tradi­cional­is­mo francês do sécu­lo XVIII são Joseph de Maistre († 1821), Louis de Bonald († 1840), Felic­ité de Lamen­nais ou mais exata­mente La Men­nais († 1854), Louis Bau­tain († 1867) e Augustin Bon­nety († 1897). O úni­co impen­i­tente que não quis se retratar dos seus erros foi Lamen­nais, enquan­to os out­ros (sal­vo de Maistre que não tin­ha explic­i­ta­do o seu erro e não foi, então, con­de­na­do) se sub­me­ter­am a con­de­nação da Igre­ja (DB 1613 ss.; DB 1622 ss.; DB 1649 ss., Conc. Vat. I, sess. III, DB 1781 ss.). A par­tir deles, nasce­r­am duas esco­las politi­ca­mente diver­gentes: 1º) o monar­quis­mo abso­lu­to (Joseph de Maistre, Louis de Bonald, Louis Bau­tain e Augustin Bon­net­ty), de onde deri­va a oposição ao assim chama­do Ral­liement de Leão XIII de 1892 e a revol­ta de Charles Mau­r­ras con­tra Pio XI em 1926; 2º) o democ­ra­tismo cato/liberal (Felic­ité de Lamen­nais), de onde deri­va o catoli­cis­mo-lib­er­al con­de­na­do a par­tir de 1832 por Gregório XVI inin­ter­rup­ta­mente até 1958 com Pio XII.

Con­clusão

A Mod­ernidade é con­trária real­mente e efi­caz­mente da filosofia metafísi­ca do ser (sobre­tu­do tomista, que retoma o mel­hor do pla­ton­is­mo e do aris­totelis­mo e lhes sub­li­ma).

De fato a noção tomista

1º) de ser qual ato supre­mo da sub­stân­cia aris­totéli­ca, e,

2º) de par­tic­i­pação, que aper­feiçoa aque­la platôni­ca, resolve todos os prob­le­mas que o pla­ton­is­mo, o aris­totelis­mo e a patris­ti­ca, não ain­da sis­tem­ati­za­da e com­ple­ta­da pela escolás­ti­ca, não pode­ri­am afrontar de maneira total­mente ade­qua­da.

Se pense, por exem­p­lo, nas questões lev­an­tadas pela filosofia mod­er­na (de Dés­cartes até Hegel) como o ima­nen­tismo pan­teís­ta, que é refu­ta­do pelo Ser e pela essên­cia ou ‘a se’ (que sub­siste inde­pen­den­te­mente do out­ro) real­mente dis­tin­to do ente por par­tic­i­pação ou ‘ab alio’, com­pos­to de essên­cia e de ser, que não é o seu ser mas tem ou recebe e par­tic­i­pa o ser.

Toda a mod­ernidade, mes­mo aque­la não explici­ta­mente hos­til ao cris­tian­is­mo (de Male­branche a Ros­mi­ni), assim como aque­la aber­ta­mente incom­patív­el com a Rev­e­lação (Dés­cartes, Kant, Fichte, Schelling, Hegel), encon­tra uma respos­ta (a primeira) e uma rad­i­cal refu­tação (a segun­da) na teo­ria tomista do actus essen­di ultimus et per­fec­tus, da com­posição ens/esse e da par­tic­i­pação.

Naqui­lo que diz respeito a pós-mod­ernidade (de Niet­zsche a Freud e as suas ram­i­fi­cações: Esco­la de Frank­furt e Estru­tu­ral­is­mo francês), que é car­ac­ter­i­za­da por um sub­stan­cial niil­is­mo metafisi­co (gnose­ológi­co e éti­co) ou destru­ição do ser (con­hecív­el e bom moral­mente), encon­tra na metafísi­ca do ser a bar­ragem que se inter­põe entre aqui­lo que é e o nada para o qual ten­de­ria a pós-mod­ernidade, por ódio satâni­co con­tra o próprio Ser sub­sis­tente, bus­ca destru­ir o ser por par­tic­i­pação, enquan­to exis­tente (“ente-cídio”), enquan­to con­hecív­el (“racio-cídio”) e enquan­to bom (“mora-cídio”), próprio como Satanás ten­ta o homem ou ente por par­tic­i­pação (cri­a­do a “imagem e semel­hança de Deus”, inteligente e livre) para ferir indi­re­ta­mente Deus ou o Ato puro, o Ser por essên­cia. Onde o Ima­nen­tismo pan­teís­ta (orgul­ho auto-exal­ta­dor), o Niil­is­mo teoréti­co (ódio auto-lesion­ista) e o neo­mod­ernismo são refu­ta­do in nuce pelo tomis­mo orig­inário e não pelo guenon­is­mo que, antes, lhe faz próprio em um cer­to qual modo.

Leão XIII com a Encícli­ca Aeterni Patris de 1879 lançou o renasci­men­to do neotomis­mo em con­tra­posição a filosofia mod­er­na e sub­je­tivista, que sob o pon­tif­i­ca­do de Pio IX e o seu tin­ha dado a luz ao tradi­cional­is­mo (de Maistre in incog­ni­to, de Bonald, de Lamen­nais, Bau­tain, Bon­net­ty, aper­tis ver­bis) ou fideís­mo francês, o ontol­o­gis­mo ital­iano (Giober­ti e Ros­mi­ni) e o neo-ide­al­is­mo ger­mâni­co (Her­mes e Gün­ther). Papa Pec­ci con­vi­da­va a descon­fi­ar de toda sín­tese dire­ta entre dout­ri­na cristã e filosofia mod­er­na e a apre­sen­tar o tomis­mo como a antítese total do sub­je­tivis­mo ima­nen­tista da mod­ernidade, o qual de sua parte com Feur­bach (Essên­cia do cris­tian­is­mo, 1841) tin­ha enten­di­do muito bem que a vel­ha dout­ri­na teológ­i­ca a destru­ir para sub­sti­tuir com o “novo Cris­tian­is­mo” era o tomis­mo.

Ao invés dis­so é pro­pri­a­mente a Mod­ernidade filosó­fi­ca que está na fonte teoréti­ca do Tradi­cional­is­mo fideís­ta (mes­mo se politi­ca­mente esse é monar­quista e anti-rev­olu­cionário) espe­cial­mente com o Nom­i­nal­is­mo, o Luteranis­mo, o Kan­tismo e o Roman­ti­cis­mo intu­icionista de Friedrich Jaco­bi (As coisas div­inas e a sua rev­e­lação, 1811), que — roman­ti­ca­mente e irra­cional­mente — põe no homem uma capaci­dade de intuir pura­mente Deus sem ter a neces­si­dade da Rev­e­lação, com o Prag­ma­tismo de William James e enfim com o Mod­ernismo, põe a exper­iên­cia ou o sen­ti­men­to reli­gioso na base do con­hec­i­men­to do Divi­no e ao lugar da Tradição pri­mor­dial.

O con­ceito de exper­iên­cia reli­giosa per­tence sobre­tu­do ao sub­je­tivis­mo protes­tante e mod­ernista. Padre Cornélio Fab­ro define a exper­iên­cia reli­giosa como «dis­so­ci­ação da con­sciên­cia do con­teú­do obje­ti­vo da Fé » (voce Espe­rien­za reli­giosa, in Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca, Cit­tà del Vat­i­cano, 1950, vol. V, col. 603).

Em filosofia a Mod­ernidade laicista elevou a experên­cia reli­giosa sub­je­ti­va a critério abso­lu­to e inde­pen­dente de qual­quer dado obje­ti­vo. Essa tem como chefe de esco­la Kant, para o qual o próprio Deus não é um Ente real e obje­ti­vo, inde­pen­dente do sujeito humano, mas um pos­tu­la­do da “Razão prat­i­ca”, que sente a neces­si­dade de uma exper­iên­cia reli­giosa da divin­dade a qual a “Razão pura” ou teoréti­ca não pode chegar. A par­tir de Kant nasce um dup­lo endereço de pen­sa­men­to:

1º) um mais filosó­fi­co e racional­ista: o ide­al­is­mo-tran­scen­den­tal de Fichte, Schelling e Hegel, que — seguin­do Kant — bus­ca sub­or­di­nar a religião a filosofia sub­je­tivista;

2º) o out­ro mais espir­i­tu­al e mist­icóide: o irra­cional­is­mo fideís­ta e ontol­o­gista de Jaco­bi e Schleier­ma­ch­er os quais seguem Kant espe­cial­mente priv­i­le­gian­do o sen­ti­men­tal­is­mo reli­gioso sub­je­tivista, antes para Schleier­ma­ch­er e Jaco­bi o «o sen­ti­men­to é o úni­co critério da ver­dade» (cit., col. 603) onde «a Fé é puro sen­ti­men­to ime­di­a­to» (ivi).

Tal con­cepção sub­je­tivista e sen­ti­men­tal­ista com o Mod­ernismo começa a tomar um endereço sem­pre mais irra­cional­ista e a exper­iên­cia reli­giosa sub­sti­tuí total­mente seja a reta razão que a Rev­e­lação e a Fé teolo­gal. Auguste Sabati­er com a sua obra Esquisse d’une philoso­phie de la reli­gion (Paris, 1879) e o protes­tantismo francês foram a pon­ta de dia­mante da exper­iên­cia reli­giosa subjetivista/irracionalista, que insis­tia no pri­ma­do da vida e da exper­iên­cia sobre a razão espec­u­la­ti­va e a Fé obje­ti­va. O influxo de Sabati­er foi de tal modo forte que a teolo­gia evangélica/protestante foi nos últi­mos cinquen­ta anos essen­cial­mente uma fenomel­o­gia da exper­iên­cia.

No cam­po católi­co Mau­rice Blondel intro­duz­iu o sub­je­tivis­mo e a exper­iên­cia com a nova definição de ver­dade como “ade­qua­tio rei et vitae” e não mais “rei et intel­lec­tus”. O vital­is­mo de Hen­ry Berg­son bus­ca­va resolver a religião em uma exper­iên­cia psi­cológ­i­ca ínti­ma. O prag­ma­tismo, com Wil­iam James e o amer­i­can­is­mo ou mod­ernismo ascéti­co, reduz a religião a sen­ti­men­to sub­je­ti­vo erup­ti­vo da ‘sub-con­sciên­cia’, afun­dan­do sem­pre mais o ima­nen­tismo sen­ti­men­tal­ista ou racional­ista e abrindo as por­tas a psi­co-análise cabalista/freudiana, fei­ta fênom­e­no de mas­sa da Esco­la de Frank­furt.

Guénon a maneira do Tradi­cional­is­mo e do Fideís­mo francês do XIX sécu­lo não só esvazia a razão, mas ain­da mais ele desa­cred­i­ta tam­bém a Fé sobre­nat­ur­al para sub­sti­tuir Fé e razão com a ini­ci­ação ocultista auto-salví­fi­ca e auto-divinizante.

Como o Fideís­mo tradi­cional­ista exal­ta e exagera a função da Fé ou da “Tradição pri­mor­dial” no con­hec­i­men­to da ver­dade (e da filosofia políti­ca) não só de ordem éti­ca e tran­scen­dente, mas tam­bém nat­ur­al colo­can­do no lugar da razão o con­hec­i­men­to da ver­dade nat­ur­al através da Tradição pri­mor­dial e a Fé, assim Guénon colo­ca no lugar da razão e da Fé teolo­gal a gnose ou intu­ição da ver­dade medi­ante a Tradição pri­mor­dial ou meta-religião e con­trária a políti­ca mod­er­na, mas para se referir a uma con­cepção abso­lutista e teocráti­ca (que não dis­tingue, tam­bém na sub­or­di­nação hier­ar­quica, autori­dade tem­po­ral e poder espir­i­tu­al) do poder políti­co.

Então, exis­tem duas metafísi­cas ou mel­hor uma metafísi­ca e uma con­tra-metafísi­ca (espec­u­lar­mente a Igre­ja e a con­tra-Igre­ja): a ver­dadeira metafísi­ca do ser e a fal­sa metafísi­ca ou con­tra-metafísi­ca da exper­iên­cia reli­giosa sub­je­ti­va e do não-ser.

O sub­je­tivis­mo esotéri­co, a metafísi­ca do nada pós-mod­er­no, se tornaram a filosofia da época con­tem­porânea. A mod­ernidade, depois da exal­tação ilu­min­ista que tin­ha con­duzi­do o homem aos lim­i­ares do céu, pas­sou, no sécu­lo XX, a deses­per­ação irra­cional­ista, que não só pre­tendeu ter mata­do Deus, apa­gan­do a chama de toda esper­ança, mas tam­bém fez pre­cip­i­tar o homem para o abis­mo do nada. Assim da metafísi­ca do ser se pas­sou ao pri­ma­do do Eu e da Idéia e depois se desli­zou para a metafísi­ca do nada. Hoje o princí­pio não é mais o ser, mas o sen­ti­men­tal­is­mo irra­cional e ani­male­sco, o nada e o Niil­is­mo con­stituem o caráter dom­i­nante da nos­sa época.

Guénon si inserisce, con la sua gnosi eso­ter­i­ca, occul­ta ed infera pro­prio in questo filone e lo rende peg­giore medi­ante l’iniziazione che non è scevra di lega­mi col mon­do preter­nat­u­rale e demo­ni­a­co. Quin­di non è pos­si­bile curare e com­bat­tere la Moder­nità col guénon­is­mo, il quale non fa che aggravare il male del mon­do mod­er­no e post-mod­er­no.

Quin­di occorre scegliere o la Tradizione div­ina e apos­toli­ca o la con­tro-tradizione infera e eso­ter­i­ca guénon­i­ana: ter­tium non datur, “Per la con­trad­dizion che nol con­sente”.

Guénon se insere, com a sua gnose esotéri­ca, ocul­ta e ínfera pro­pri­a­mente neste filão e o tor­na pior medi­ante a ini­ci­ação que não é desprovi­da de vín­cu­los com o mun­do preter­nat­ur­al e demonía­co. Assim, não é pos­sív­el curar e com­bat­er a Mod­ernidade com o guenon­is­mo, o qual não faz senão agravar o mal do mun­do mod­er­no e pós-mod­er­no.

Então, é pre­ciso escol­her ou a Tradição div­ina e apos­tóli­ca ou a con­tra-tradição ínfera e esotéri­ca guenon­i­ana: ter­tium non datur, “Per la con­trad­dizion che nol con­sente”.

d. Curzio Nitoglia

19/5/2015

http://doncurzionitoglia.net/2015/06/02/lequivoco-guenoniano/

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