LUZ DO APOCALIPSE

R. Th. Calmel O.P.

 

TEOLOGIA DA HISTÓRIA

 

CAPÍTULO SEGUNDO

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]  

 

 

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Podem-se encon­trar estra­nhas, com­pli­cadas e as vezes até mes­mo descon­cer­tantes visões, sem­pre grandiosas, do Apoc­alipse de São João. Não se pode porém acusá-lo de fornecer uma idéia mile­nar­ista ou pro­gres­sista da história. Neste não se encon­tra uma só alusão, por quan­to sútil a supon­ha, a uma ascen­são do ser humano para uma super-humanidade, nem a uma trans­fig­u­ração da Igre­ja mil­i­tante em um Igre­ja onde não exis­tem mais pecadores ou que cessem de ser um alvo aos ataques das duas Bestas. Sob qual­quer for­ma que se apre­sente, o mito do pro­gres­so é total­mente estran­ho a rev­e­lação do vidente de Pat­mos; este mito, como ver­e­mos, é de fato destruí­do pelas suas rev­e­lações. A razão maior, na per­spec­ti­va do Após­to­lo João, inspi­ra­do pelo Sen­hor, é a impen­sáv­el here­sia ultra­mod­er­na segun­do a qual a con­strução da humanidade através da bus­ca, da ciên­cia e da orga­ni­za­ção ter­mi­nar­ia bem rápi­do por iden­ti­ficar-se com a Igre­ja de Deus.

 

Ver­e­mos no Apoc­alipse ape­nas o des­en­cadea­men­to dos fla­ge­los, o seu rugi­do vin­gador quan­do se abaterem duros e rápi­dos [1] sobre os home­ns ímpios e sacríle­gos, como enormes grãos de grani­zo, e ain­da mais sobre poderosos perseguidores e sobre seus formidáveis impérios? Sem dúvi­da cas­ti­gos e punições são parte inte­grante do Apoc­alipse; todavia, lhe são ape­nas uma parte e não a mais essen­cial. A parte sub­stan­cial, a mais sig­ni­fica­ti­va, aque­la que o após­to­lo inspi­ra­do entende sobre­tu­do ensi­nar, me parece que se pos­sa resumir em duas ver­dades fun­da­men­tais. Primeira ver­dade: sobera­nia de Cristo sobre todos os even­tos da vida do mun­do e da Igre­ja; em efeito, ele é dig­no de rece­ber o livro da história e “de abrir-lhe os selos porque foi con­de­na­do a morte e nos res­ga­tou com seu sangue; — porque é o Primeiro e o Ulti­mo e vive nos sécu­los dos sécu­los, ten­do na mão as chaves da morte e do infer­no” (5,5–9,5–17-18). A out­ra ver­dade é aque­la da vitória de Cristo sobre o demônio e os seus sequazes, e do pro­longa­men­to des­ta vitória na Igre­ja e nos seus san­tos; mas neste pon­to deve­mos ter mui­ta atenção porque esta vitória, longe de suprim­ir a cruz e torná-la inútil, se real­iza ape­nas através da cruz. “Dicite in nation­ibus quia Domi­nus reg­nav­it a lig­no”.

 

Do mes­mo modo o Apoc­alipse colo­ca subita­mente fim ao son­ho por vezes infan­til e ten­ro, mas talvez mais fre­quente­mente vil e odioso, que faz esper­ar para a vida do cristão uma fidel­i­dade a Cristo sem tribu­lações e para o futuro da Igre­ja um fer­vor de san­ti­dade que não dev­e­ria mais sofr­er do exter­no a perseguição do mun­do, nem ao inte­ri­or as traições dos fal­sos irmãos e por vezes até do clero e dos prela­dos. O mil­le­ni­um encan­ta­dor não chegará nun­ca no tem­po. A exclusão defin­i­ti­va e total dos ímpios e dos per­ver­sos e deferi­da no ulti­mo dia, quan­do ressoará a sen­tença inex­oráv­el: “Fora os cães, os enve­ne­nadores, os impúdi­cos, os homí­ci­das os idóla­tras e qual­quer um que ama e práti­ca a men­ti­ra” (22,15). Daqui até então, podemos dar teste­munho de Jesus ape­nas imergin­do a nos­sa veste no sangue do Cordeiro divi­no que “nos amou e nos res­ga­tou dos nos­sos peca­dos”. Não ire­mos a Ele sem atrav­es­sar a tor­rente da grande tribu­lação.

 

Sobera­nia de Cristo, vitória de Cristo pro­lon­ga­da nos seus eleitos por meio da cruz; sobre estes dois maiores ensi­na­men­tos cito alguns dos ver­sícu­los mais sig­ni­fica­tivos.

 

Em primeiro lugar sobre o pleno poder de Cristo: “E quan­do eu o vi (o Fil­ho do Homem), caí a seus pés como mor­to. Mas ele colo­cou a mão dire­i­ta sobre mim e me disse: não temas; eu sou o Primeiro e o Ulti­mo, o Vivente. Sofri a morte, mas eis que estou vivo pelos sécu­los dos sécu­los e ten­ho as chaves da morte e do infer­no” (1,17–18). Diante do Cordeiro imo­la­do, “os qua­tro Viventes e os vinte e qua­tro anciãos… can­tavam um cân­ti­co novo dizen­do: Tu és dig­no de rece­ber o livro [o livro de todas as coisas que devem acon­te­cer] e de abrir-lhes os selos, porque foi abati­do e recu­per­ou para Deus com seu sangue, home­ns de todas as tri­bos, lín­gua povos e nações…” (5,9). “ E vi ime­di­ata­mente apare­cer um cav­a­lo bran­co, e aque­le que esta­va sobre ele tin­ha um arco, e lhe foi dada uma coroa; e parte vence­dor para obter novas vitórias” (6,2). Os dez reis “não tem um que o mes­mo pen­sa­men­to e  sua potes­tade e força,  colo­ca a dis­posição da Besta. Ess­es fazem guer­ra ao Cordeiro, mas o Cordeiro lhes vencerá, porque ele é o Sen­hor dos sen­hores e o rei dos reis, e com Ele vence­r­am os seus, os chama­dos, os eleitos e os fiéis” (17, 13–14).

 

Eis ago­ra algu­mas pas­sagens sobre o tri­un­fo destes eleitos e destes fiéis, que serão relata­dos através da cruz e que rep­re­sen­tam o cumpri­men­to da vitória de Cristo. “Então um dos anciãos toma a palavra, dizen­do: Estes que estão envoltos em vestes bran­cas, quem são e de onde vier­am? E eu respon­di-lhe: Meu Sen­hor, tu o sabes. E ele me disse: Estes são aque­les que veem da grande tribu­lação e lavaram  as suas vestes e as fiz­er­am bran­cas no sangue do Cordeiro. Por isto estão diante do trono de Deus, e dia e noite lhe prestam o seu cul­to de ado­ração em seu tem­p­lo… O Cordeito que esta em meio ao trono os apas­cen­tará, e lhes guiará as fontes de águas vivas, e Deus lhes enx­u­gará toda lágri­ma dos seus olhos” (7,13–17). “…O acu­sador dos nos­sos irmãos [Satanás], aque­le que dia e noite os acusa­va diante de nos­so Deus, foi pre­cip­i­ta­do. Ago­ra, ess­es o vence­r­am em vir­tude do sangue do Cordeiro e com a palavra do seu teste­munho, e dis­prezaram a sua vida até ao pon­to de aceitar a morte” (12,10–11). “E vi como um mar de cristal mis­to de fogo, e aque­les que havi­am ven­ci­do a Besta, a sua está­tua e o número do seu nome, estavam em pé sobre o mar de cristal com as harpas de Deus. E can­tavam o cân­ti­co de Moisés, ser­vo de Deus, e o cân­ti­co do Cordeiro, dizen­do: Grande e mar­avil­hosas são as suas obras, o Sen­hor, Deus onipo­tente! Jus­tas e ver­dadeiras são as tuas vias, o Rei das gentes. Quem não temerá, o Sen­hor, e não glo­ri­fi­cará o seu nome? Se, ape­nas tu és San­to, e todos os povos virão e se prostarão diante de ti, porque os teus juí­zos se tornaram man­i­festos!” (15, 2–4). “… E vi tam­bém as almas daque­les que foram mar­t­i­riza­dos por causa do teste­munho dado por Jesus e pelo Evan­gel­ho de Deus, e todos aque­les que não ado­raram a Besta nem a sua está­tua, nem rece­ber­am a sua mar­ca sobre a fronte e sobre as mãos; estes viverão e reinarão com Cristo, por mil anos… Esta é a primeira ressur­reição” (20,4-,5) [2].

 

Estes ver­sícu­los nos ilu­mi­nam e nos con­for­t­am. Não esqueçamos, porém, que são toma­dos a par­tir das grandes visões alegóri­c­as. É aqui, nes­tas visões preenchi­das de dout­ri­na e de ensi­na­men­to sob for­ma de ale­go­ria, é aqui que o Apoc­alipse deixa entr­ev­er ain­da mel­hor o próprio escopo; e é através da dout­ri­na que se lib­er­ta das visões, que essa exerci­ta ain­da mais a sua admiráv­el vir­tude con­so­lado­ra e paci­fi­cado­ra.

 

Podemos abor­dar ime­di­ata­mente o déci­mo segun­do capí­tu­lo, no qual vem traça­dos os imen­sos afres­cos que estão lig­a­dos mais par­tic­u­lar­mente a história da Igre­ja. Daí e após as mar­avil­hosas car­tas aos sete Bis­pos da Ásia, foi sim a história do mun­do ser enquadra­da; se trata­va em grande parte, tam­bém se não exclu­si­va­mente, das vin­ganças div­inas sobre o mun­do cul­pa­do e da preser­vação dos eleitos em meio a todos os fla­ge­los, no cur­so dos sécu­los (porque é cer­to que o número sete, atribui­do aos selos mis­te­riosos dos cas­ti­gos divi­nos, abraça a sucessão dos sécu­los no seu con­jun­to, até o últi­mo dia). 

O capí­tu­lo déci­mo segun­do, por­tan­to, nos mostra um diante ao out­ro, a Mul­her e o Dragão. A Mul­her, toda pura, reluzente de san­ti­dade, revesti­da do sol, com a luz sob os pés e uma coroa de doze estre­las sobre a cabeça; o Dragão todo lava­do com o sangue dos már­tires, orgul­hoso e fer­oz, aparente­mente invencív­el, mas que acu­mu­la­rá der­ro­ta sobre der­ro­ta. Antes da der­ro­ta: a Cri­ança colo­ca­da no mun­do pela Mul­her, isto é pela Virgem Maria, e que o Dragão se prepara para devo­rar, lhe vem ao invés ime­di­ata­mente sub­traí­do; em out­ras palavras, o Fil­ho de Deus, nasci­do de Maria, que sofreu a paixão, foi glo­ri­fi­ca­do pela ressur­reição e ascenção (12,4–5).

Desilu­di­do o Dragão vol­ta o próprio furor con­tra os dis­cípu­los de Jesus, mas não tar­da a sofr­er uma segun­da der­ro­ta: é neste pon­to que se ouve uma grande voz no céu: “Ago­ra veio final­mente a sal­vação, a potên­cia, o reino do nos­so Deus e a soberâ­nia de seu Cristo, porque foi pre­cip­i­ta­do o acu­sador dos nos­sos irmãos… [a anti­ga sepente que vem chama­da Demônio e Satanás]; ess­es o vence­r­am em vir­tude do sangue do Cordeiro”.

 

Ata­can­do ago­ra a Mul­her que rep­re­sen­ta a Igre­ja, o Dragão se encon­trará per­di­do, ridic­u­lar­iza­do e ven­ci­do, pela ter­ceira vez. “E quan­do o Dragão vê que foi pre­cip­i­ta­do sobre a ter­ra, perseguiu a Mul­her… E foram dadas a Mul­her as duas asas da grande águia afim que voasse para o deser­to… E da sua boca a Ser­pente, vom­i­tou água como um rio atrás da Mul­her, a fim de sub­mer­gi-la. A ter­ra, porém, veio em socor­ro da Mul­her: a ter­ra abriu sua boca e engoliu o rio que o Dragão vom­i­tara”.

 

Per­se­veran­do em não quer­er declarar-se ven­ci­do, o Dragão começou a faz­er a guer­ra “ con­tra aque­les que restavam da prog­en­i­tu­ra da Mul­her”, vale diz­er aos cristãos. Mas con­tin­uará a perder.

 

Der­ro­ta irremediáv­el, já pre­nun­ci­a­da pelo paraí­so ter­restre. É a este ulti­mo que nos faz remon­tar a visão do Apoc­alipse, quan­do pela primeira vez a Mul­her e o Dragão se encon­traram de frente. Pense­mos no jardim do Éden, a tarde do primeiro peca­do e da primeira con­trição. O Dragão esta­va lá. Foi bem suce­di­do na sua odiosa empre­sa de enga­nar os prog­en­i­tores da raça humana. Tin­ha tam­bém a mãe da mul­her que devia nos des­per­tar: Eva, trê­mu­la, feri­da pelo arrependi­men­to e encol­hi­da próx­i­ma a Adão. E Deus disse a Eva, na pre­sença do demônio que pen­sa­va ter com­pro­meti­do para sem­pre a sal­vação, a graça e a feli­ci­dade da nos­sa espé­cie: “Colo­carei ini­mizade entre ti e a Mul­her, entre a tua raça e a sua, e ela te esma­gará a cabeça”.  

 

Este foi o Pro­to-Evan­gel­ho. Mas o Evan­gel­ho defin­i­ti­vo dev­e­ria man­ter esta promes­sa muito mais do que se pode­ria pre­v­er ou dese­jar. Se tra­ta da difer­ença entre a pro­fe­cia e a sua real­iza­ção: a real­iza­ção supera em muito a pro­fe­cia em mar­avil­ha e esplen­dor. Ou para diz­er mel­hor, a pro­fe­cia esconde o esplen­dor que não se pode­ria sus­peitar antes da real­iza­ção. A Mul­her do Apoc­aplise é da descendên­cia de Adão e de Eva, como foi pro­fe­ti­za­do, mas é con­tem­po­ranea­mente a mul­her ben­di­ta entre todas, a mãe de Deus. É a descên­cia da Mul­her que esma­gará o Dragão, como foi pro­fe­ti­za­do; mas o Fil­ho de Maria é tam­bém Fil­ho de Deus; entre nós e sen­ta a dire­i­ta do Pai (12,5). A vitória é mostra­ta com uma inte­gri­dade da qual cer­ta­mente Adão e Eva não sus­peitavam, e que ninguém pode­ria ter ante­ci­pa­do com uma idéia ade­qua­da.

 

Quan­do São João ano­ta­va a visão do Dragão e da Mul­her, a hora da vitória, invo­ca­da por milênios por inu­meráveis suplí­cios, era chega­da. O tem­po anun­ci­a­do pelos sécu­los, na obscuri­dade da lei da natureza„ pre­fig­u­ra­da por dois mil anos na penum­bra da lei escri­ta com Adão, Moisés e os Pro­fe­tas, aque­le tem­po da plen­i­tude dos tem­pos chega­va final­mente sobre os home­ns; o tin­ha trazi­do a imac­u­la­da con­ceição da Virgem, e sobre­tu­do pela encar­nação do Ver­bo que a imac­u­la­da con­ceição prepar­a­va.

 

Dize­mos plen­i­tude dos tem­pos por duas razões: em primeiro lugar porque quan­do o Fil­ho de Deus se fez homem, temos para sem­pre, Nele, a plen­i­tude da graça e da ver­dade; então, porque o seu poder plenário não ces­sa de se man­i­fes­tar no guiar os fiéis, ape­sar das piores ínsidias, a plen­i­tude da vitória div­ina, até o dia no qual o demônio será defin­i­ti­va­mente rejeita­do “no lado de fogo e enx­ofre” onde será inca­paz de qual­quer ação do lado de fora. Enten­demos por plen­i­tude dos tem­pos, o tem­po ben­di­to que Deus nos con­cede em Jesus Cristo, os seus dons e a sua plen­i­tude, enquan­to con­feriu a Jesus Cristo a potên­cia plenária para nos faz­er par­tic­i­par dos seus dons, lib­er­ar nos do peca­do e intro­duzir nos no céu.

 

O grande dia não deve ser mais esper­a­do; com o nasci­men­to, a morte, a glo­ri­fi­cação de Jesus Cristo, a data supre­ma já chegou; des­ta ordem não ter­e­mos out­ra. Haverá ali, um desen­volvi­men­to dis­to que foi cumpri­do naque­las horas inefáveis do tem­po humano, mas não nos será jamais o iní­cio de uma out­ra era, uma era que pode­ria levar a qual­quer coisa de rad­i­cal­mente novo em relação a encar­nação reden­to­ra. Péguy o can­tou na sua med­i­tação diante do presé­pio:

 

A solene dis­pu­ta do dia e da noite mar­ca­va naque­le silên­cio uma inví­siv­el trégua

E O TEMPO SUSPENSO NAQUELA HUMILDE MANJEDOURA 

ental­ha­va os con­tornos de uma hora úni­ca e breve.

 

O tem­po era real­mente sus­pen­so, no sen­ti­do que o seu anti­go cur­so parou

naque­le pon­to. Era ali que ter­mi­na­va.

E as estradas de ontem e aque­las de hoje

con­fluiam unidas NAQUELE POBRE BERÇO.

 

E ain­da ali se ini­ci­a­va um tem­po que podemos definir imu­talve­mente novo, no sen­ti­do que a novi­dade da encar­nação reden­to­ra, a nova “econo­mia” foi per­ma­nente e defin­i­ti­va, nun­ca sub­sti­tuí­da por uma out­ra mais estu­pen­da, mais trans­bor­dante de gen­erosi­dade, como foi sub­sti­tuí­da a econo­mia da vel­ha lei. E o sangue que dev­e­ria ser ver­tido sobre a cruz, é “o sangue do tes­ta­men­to novo e eter­no”, como dizem a cada dia os sac­er­dotes sobre o cálice do vin­ho; e o repe­ti­ram até o últi­mo dia, até a Parúsia: “donec veni­at”.

 

Assim, a plen­i­tude dos tem­pos [3] chegou com o nasci­men­to, a morte e a ressur­reição do Sen­hor. Por isso São Paulo escrevia aos Galatas (4,4): “Quan­do veio a plen­i­tude dos tem­pos, Deus envi­ou seu Fil­ho, nasci­do de uma mul­her e sob a lei, afim que res­gatasse aque­les que estavam sujeitos a lei, e nós recebesse­mos a adoção dos fil­hos. E a pro­va que vós sois fil­hos esta no fato que Deus man­dou o espíri­to do seu Fil­ho nos vos­sos corações, o qual gri­ta: Abba! Que sig­nifi­ca Pai”. E tam­bém aos Efé­sos (1,10): Deus quis “ na plen­i­tude dos tem­pos… restau­rar todas as coisas em Cristo”. E ain­da aos cristãos de Cor­in­to (1 Cor. 10,11): “Nós, que cheg­amos a plen­i­tude dos tem­pos”. E Jesus declar­a­va aos seus dis­cípu­los (Lc. 10,24): “Muitos pro­fe­tas e muitos reis dese­jaram ver aqui­lo que vós vedeis e não o viram, ouvir aqui­lo que vós ouvis e não ouvi­ram”. De fato,  “por Moisés foi dada a lei, por Jesus Cristo vier­am a graça e a ver­dade” (Jo 1,17) 

 

Entramos nos ulti­mos tem­pos, os tem­pos do Ver­bo de Deus encar­na­do, do Espíri­to San­to envi­a­do e da Igre­ja fun­da­da. Sem dúvi­da estes últi­mos tem­pos tiver­am seu começo, quan­do Elis­a­bete chega ao sex­to mês e o anjo Gabriel foi envi­a­do por Deus a Virgem Maria. Os ulti­mos tem­pos são aber­tos pelo fiat de Nos­sa Sen­ho­ra.   Con­hecer­e­mos um ulti­mo flo­resci­men­to “quan­do apare­cer no céu um o sinal do Fil­ho do homem… e verão o Fil­ho do Homem vir sobre as nuvens do céu com grande poder e glória” para ress­sus­ci­tar nos, para jul­gar todos, instau­rar os novos céus e a nova ter­ra, reduzirá os demônios e os home­ns dana­dos a impotên­cia total e os “lançará no lago da segun­da morte” (Mt 24; 1 Cor 15; Ap 20). Qual­quer que seja o número dos sécu­los que se suced­er­am no inte­ri­or dos ulti­mos tem­pos, entre o seu começo e a sua con­clusão, estes tem­pos per­manecem os ulti­mos: não serão sub­sti­tu­i­dos por tem­pos novos. Nós nos encon­tramos para sem­pre no tem­po mes­siâni­co, aque­le da encar­nação reden­to­ra e de Maria mãe de Deus e dos home­ns.

 

 

Toda a sucessão da história até a con­sumação dos sécu­los, esta ape­nas a explicar aqui­lo que foi dado uma vez por todas, e não cer­ta­mente para inven­tar um novo gênero de dom. A sucessão dos sécu­los é uma dependên­cia que podemos definir intrin­se­ca nos con­fron­tos redentores”[4] e serve para rev­e­lar-lhe as riquezas, para per­mi­tir aos eleitos de mul­ti­pli­carem-se, para man­i­fes­tar a var­iedade mul­ti­forme da sua par­tic­i­pação no amor e a na cruz de Jesus, para teste­munhar a mater­nidade espir­i­tu­al da San­ta Virgem. Do rio da história que escorre aos pés de Nos­sa Sen­ho­ra, poder­e­mos diz­er, citan­do os ver­sos de Péguy.

 

 

É este rio de areia e este rio de glória

é aqui ape­nas para bei­jar o vos­so glo­rioso man­to.

 

Os tem­pos foram cumpri­dos; é soa­da a hora da mis­er­icór­dia e da insu­peráv­el lib­er­al­i­dade do Pai dos céus nos cuida­dos com a espé­cie humana: “Ele que não poupou o próprio Fil­ho, mas que o sac­ri­fi­cou por todos nós, como não estará dis­pos­to a dar nos todas out­ras coisas jun­to com Ele? “ (Rm 8,32). Sem dúvi­da a Parúsia, o segun­do adven­to do Fil­ho do Homem deve traz­er uma mudança inimag­ináv­el. Como podemos então imag­i­nar o cor­po glo­ri­fi­ca­do, inteira­mente trans­par­ente de uma alma toda san­ta? Como podemos imag­i­nar aque­la nova ter­ra na qual os home­ns serão como anjos, “porque ném os home­ns terão mul­her, ném as mul­heres mari­dos” ? (Mt 22,30). Mas quais podem ser as pro­priedades mila­grosas do esta­do que seguirá o ulti­mo juí­zo, não se pro­duzi­ram mudanças essen­ci­ais. Porque o essen­cial é a visão de Deus, flo­resci­men­to plenário da graça san­tif­i­cante. E a este cul­mi­nar de feli­ci­dade e de glo­ria temos aces­so através do sacrí­fi­cio de Cristo. Aqui­lo que nos será dado depois da Paru­sia, não será out­ro, que o Cristo que nos foi dado no presé­pio, no calvário e na ressur­reição: o Cristo que nos foi dado uma vez por todas e que fará explodir a sua vitória em plen­i­tude, deixan­do trans­bor­dar toda a potên­cia do seu amor em cada um dos seus irmãos e no cor­po mís­ti­co que será for­ma­do no cur­so dos tem­pos, “em meio a grande tribu­lação”.

 

A evo­cação do Dragão e da Mul­her no déci­mo segun­do capí­tu­lo do Apoc­alipse se apli­ca não só a Virgem Maria mãe de Deus, mas tam­bém a san­ta Igre­ja que imi­ta a Virgem. Como Maria de fato foi sem­pre cir­cun­ci­da­da pela sua inter­cessão, a Igre­ja é san­ta, “sem man­cha e nem ruga”, lig­a­da a Jesus Cristo como sua esposa, “spon­sa Christi”; e ger­ado­ra de san­tos: “mater Eccle­sia”. Sobre o des­ti­no des­ta Igre­ja fei­ta a imagem de Maria e que, como Nos­sa Sen­ho­ra, é rep­re­sen­ta­da pela Mul­her, o após­to­lo João nos rev­ela pro­fun­dos mis­térios. Nos diz que a Igre­ja persegui­da pelo Dragão, se esconde no deser­to; a sua existên­cia é antes de tudo sec­re­ta, con­tem­pla­ti­va, reti­ra­da em Deus, infini­ta­mente dis­tante da vida segun­do o mun­do; em efeito, a Igre­ja vive prin­ci­pal­mente da vida teolo­gal que a faz viv­er em Deus. Escon­di­da assim em Deus, pela cari­dade que a recol­he em Deus e pelos poderes hierárquicos que pos­suí de for­ma inad­mis­sív­el, a fim de dis­pen­sar inde­fec­tivel­mente a graça, a este dup­lo títu­lo reti­ra­da do mun­do e como pro­te­gi­da em um deser­to, não deve temer os ataques do Dragão, ante­ci­pada­mente volta­dos para o insuces­so, porque a região na qual a Igre­ja encon­trou asi­lo, isto é a região da vida edi­fi­ca­da no Sen­hor, a defende como um deser­to inacessív­el, um refú­gio inex­pugnáv­el. Pela sua fun­dação, a Igre­ja rece­beu “as duas asas da grande águia” para voar ao lugar do seu refú­gio; ali estará segu­ra até o últi­mo dia [5], assis­ti­da pelo Espíri­to de Jesus, nutri­da, recon­for­t­a­da pelo seu cor­po e pelo seu sangue sob as espé­cies eucarís­ti­cas.

 

O que faz então, o Dragão? Irri­ta­do pelo próprio insuces­so, recru­ta alía­dos  para lança-los con­tra a Igre­ja. Por meio deles prosseguirá a luta; uma luta sem respiro que se desen­volve por quarenta e dois meses; em out­ras palavras, por toda a duração dos tem­pos históri­cos.

 

Se colo­ca depois sobre a areia do mar (12,18). Vê sair do fun­do do abis­mo uma Besta enorme e mon­stru­osa a qual comu­ni­ca as suas forças e o seu grande poder; sem mais demo­ra, a Besta é lib­er­a­da (13, 1–10).

 

Traduzi­da cor­re­ta­mente, esta ale­go­ria sig­nifi­ca que o demônio se intro­duz no poder políti­co com a final­i­dade de voltá-lo con­tra a Igre­ja. O primeiro dos impérios por ele uti­liza­dos para a exe­cução da sua von­tade de perseguição é o império romano. São João  indi­ca como a Besta do mar Roma, porque em com­para­ção a ilha de Pat­mos, ela surge sobre a out­ra margem do mediter­râ­neo; e, porque Roma é edi­fi­ca­da sobre sete col­i­nas, a Besta do mar vem rep­re­sen­ta­da com sete col­i­nas (“as sete cabeças são as col­i­nas sobre as quais ela se assen­ta” [Babilô­nia], 17,9). 

 

Assim o demônio se intro­duz na cidade políti­ca a fim de com­bat­er com mais eficá­cia a Igre­ja e os san­tos. Começou servin­do-se de Roma, e a par­tir de então nun­ca parou. Depois da que­da do império, quan­do se instau­rou há pouco uma cri­stan­dade, que é uma cidade rel­a­ti­va­mente sã, hon­es­ta, reta e sub­mis­sa a Igre­ja, o demônio não esta­va mais em grau, como antes, de servir-se das insti­tu­ições para colo­car em ato os seus desígnios; as insti­tu­ições, bem ou mal, eram con­formes a justiça e per­me­adas do espíri­to cristão. O que fazia então o demônio? Ten­ta­va desviar o rei e os home­ns do ide­al de justiça cristã que era aque­le da cidade. Todavia, enquan­to a cidade no con­jun­to, per­mane­cia cristã, não se tor­na­va enquan­to tal um instru­men­to do demônio; não se iden­ti­fi­ca­va com a Besta do mar. Mas a dois ou três sécu­los esta parte da cidade políti­ca assum­iu nova­mente as car­ac­terís­ti­cas da Besta recu­san­do-se de recon­hecer Cristo e a sua Igre­ja, é nova­mente persegui­da, seja aber­ta­mente ou com sis­temas camu­fla­dos. Todavia, difere nis­to da Roma pagã, a cidade mod­er­na não esta mais ao serviço da idol­a­tria, mas da apos­ta­sia: um gênero de apos­ta­sia que oca­sion­al­mente pos­suí a capaci­dade de se escon­der sob definições cristãs. De for­ma que a Besta é mais perigosa ago­ra que na época de São João.

 

Mas a Besta do mar não esta soz­in­ha; uma out­ra a aju­da, é a Besta da ter­ra (13,11–18). Enfure­ci­da em nos­sos dias, mais que nos primeiros sécu­los, no tem­po no qual São João escrevia a sua obra. Ape­sar das tréguas momen­tâneas, será der­ro­ta­da no fim do mun­do. Esta Besta da ter­ra, segun­do os mais rel­e­vantes comen­ta­dores, sim­boliza os fal­sos doutores e as fal­sas doutri­nas, as hierárquias com o seu Evan­gel­ho defor­ma­do, os por­tavozes da apos­ta­sia (seja negan­do o con­teú­do da rev­e­lação, seja que, com uma erúdi­ta alquimia, sapi­ente e hipócri­ta, a alterem e a cor­rompam, emb­o­ra man­ten­do intac­ta a sua aparên­cia); a dois sécu­los vier­am a con­fundir o Evan­gel­ho seja com a pre­gação de uma liber­dade utopista e desen­f­rea­da, seja, como na nos­sa época, com a pre­gação de um inces­sante pro­gres­so e de uma evolução indefini­da, em direção de um ultra-humano que sem­pre se dis­tân­cia.

 

É assim que se apre­sen­ta, segun­do o déci­mo segun­do capí­tu­lo do Apoc­alise, o antag­o­nis­mo entre o Dragão e a Mul­her. Então o demônio con­duz a luta não ape­nas em pes­soa, mas tam­bém por meio dos aux­il­iares formidáveis em primeiro lugar as instruções políti­cas e depois com os fal­sos pro­fe­tas; de um lado as forças da autori­dade, a lei, o poder políti­co, por out­ro o prestí­gio e a sedução da inteligên­cia, o sis­tema, os fal­sos dog­mas ou a arte cor­rup­ta.

 

Evi­den­te­mente, todas estas pre­cisações não estão con­ti­das no tex­to, mas se baseiam sobre elas, e lhes são con­formes, como poder­e­mos nos con­vencer­mos facil­mente, com uma paciente e aten­ta leitu­ra dos comen­ta­dores cristãos mais rel­e­vantes [6].

 

Aos comen­ta­dores me lim­i­to a acres­cen­tar uma evo­cação, aliás rapídis­si­ma, das man­i­fes­tações suces­si­vas das duas bestas, daqui­lo que no cur­so da história se apre­sen­ta como a sua encar­nação. Espero com isto não trair o livro inspi­ra­do: e è por isso. Os imen­sos afres­cos com os quais o Após­to­lo João nos descreve o gov­er­no do mun­do e a vitória do Sen­hor, são de algum modo cícli­cos e reca­pit­u­lantes. Retomam alguns temas imutáveis, que desen­volvem e  enrique­cem toda vez, mas, na sub­stân­cia, os temas essen­ci­ais não mudam; podem ser enu­mer­a­dos como seguem: império sober­a­no de Deus e do seu fil­ho Jesus glo­rioso sobre toda a série dos acon­tec­i­men­tos; evan­ge­liza­ção que nada pode desli­gar; inter­cessão dos san­tos da Igre­ja tri­un­fante; retorno instancáv­el das perseguições mas der­ro­ta final e cer­ta, dos perseguidores, vitória dos eleitos através do sofri­men­to e a cruz; inter­venção con­tin­ua dos anjos beat­os para cas­ti­gar os perseguidores e para sus­ten­tar e preser­var os san­tos. Estes temas não mudam, mas voltam por vezes através dos vinte e dois capí­tu­los, a ilus­tração lhe tor­na mais evi­dente e óbvia. Pen­so que se pos­sa con­cluir-lhe os acon­tec­i­men­tos que com­põem a tra­ma da história do mun­do e da Igre­ja apre­sen­tam car­ac­terís­ti­cas essen­cial­mente imutáveis, mas nun­ca se repetem da mes­ma maneira.

 

Os acon­tec­i­men­tos da história do mun­do e da Igre­ja não são acon­tec­i­men­tos de trans­for­mações totais e indefinidas que super­am a natureza da Igre­ja e aque­la da cidade em um esforço de ascendên­cia irrefrenáv­el e alu­ci­nante para uma humanidade e uma Igre­ja sem­pre mel­hores. Esta con­cepção é ape­nas um mito hegeliano e teil­hardiano. A dout­ri­na rev­e­la­da, é em par­tic­u­lar aque­la que se des­en­cadeia pelo Apoc­alipse, é em real­i­dade toda out­ra, até con­trária. A sagra­da dout­ri­na, con­fir­ma­da aliás pela exper­iên­cia, nos demon­stra que os acon­tec­i­men­tos da história da Igre­ja são sem­pre feitos pela evan­ge­liza­ção, ain­da que os povos evan­ge­liza­dos sejam difer­entes a segun­da das épocas, das raças e das lín­guas; encon­tramos sem­pre perseguições e traições, mas tam­bém sem­pre a vitória dos már­tires, dos con­fes­sores e das vir­gens; por sua vez, estas perseguições ou estas traições tomam sem­pre a for­ma de ataques ou de manobras, dev­i­das seja ao poder políti­co (ofi­cial ou escon­di­do), seja aos pro­fe­tas de men­ti­ras e aos doutores de ilusões e de con­fusões. Evi­den­te­mente, os ataques e as manobras das duas Bestas mudam no cur­so dos sécu­los e a vitória obti­da a cada vez pela Igre­ja sobre ela aparece sem­pre sob aspec­tos novos, não ain­da entre­vis­tos. É neste sen­ti­do que é irre­ver­sív­el, mas nem a perseguição nem a vitória, nem seus ele­men­tos con­sti­tu­tivos, são irre­ver­síveis. Ao con­trário, os seus car­ac­téres essen­ci­ais se reen­con­tram invari­avel­mente, com notáv­el con­stân­cia.

 

O afir­mo porque é ver­dadeiro, mas tam­bém porque por toda parte se bus­ca de impor-se o con­trário, ou mel­hor, porque a Besta da ter­ra empre­ga toda astú­cia e inu­meráveis pressões para levar nos a pen­sar que tudo estaria em trans­for­mação e no divenire; que, por exem­p­lo, a Igre­ja do con­cílio de Tren­to com o seu ensi­na­men­to, a sua litúr­gia e a sua con­cepção de apos­to­la­do não seria mais atu­al. Então, dev­eríamos por ago­ra con­stru­ir uma Igre­ja do sécu­lo XX, total­mente diver­sa daque­la do sécu­lo XVII e que abriria por sua vez a via da Igre­ja do Sécu­lo XXI e XXII, que por sua vez não teria em comum com a prece­dente uma que impetu­osa ver­tigem para um neocris­tian­is­mo nun­ca alcança­do, mas sem­pre mais deslum­brante e extra­or­di­nar­i­a­mente fab­u­loso.

 

A Besta da ter­ra nos diz tam­bém que  acabou a divisão com o mun­do e a sua hos­til­i­dade. A Igre­ja então coex­i­s­tiria pací­fi­ca­mente com o mun­do que, quase sem querê-lo e como espon­tanea­mente, acabaria por coin­cidir com ele sem ser-lhe mais hos­til: pelo menos, na medi­da em que tin­ha sido despo­ja­da de toda autori­dade jurídi­ca e de toda cari­dade tran­scente.

 

Esta­mos envoltos nas bru­mas do pro­gres­sis­mo. Se con­tin­ua a nos falar de história, mas se perdeu o sen­ti­do dos carác­teres fun­da­men­tais da história: de fato, tam­bém se colo­ca preva­len­te­mente o acen­to sobre o irre­ver­sív­el (e é ver­dadeiro que a sucessão dos acon­tec­i­men­tos é irre­ver­sív­el), se esque­cem das vir­tu­al­i­dades bem deter­mi­nadas e pre­cisas que os diver­sos acon­tec­i­men­tos da cidade ter­re­na e da Igre­ja de Deus con­tin­u­am a man­i­fes­tar, longe de esticar lhe sem fim. O suces­si­vo e o irre­ver­sív­el escon­der­am o estáv­el e o per­ma­nente.

 

Se esta­mos cir­cun­da­dos pelas bru­mas do pro­gres­sis­mo, a causa é um grave peca­do: o orgul­ho. O homem quis sub­sti­tuir-se a Deus, e não ape­nas a títu­lo indi­vid­ual mas tam­bém por meio de um novo tipo de sociedade que tem per­sis­ti­do em eri­gir. E, porque o exper­i­men­to foi incon­clu­dente e a sociedade se rev­el­ou cheia de defi­ciên­cias, a real­iza­ção de uma sociedade ide­al foi então adi­a­da para um futuro que se aprox­i­ma do infini­to. O futuro da sociedade em con­strução: eis aqui aqui­lo que tomou o lugar de Deus. É um mito devo­rante que tem sem­pre razão porque fala, coman­da, edi­fi­ca e oprime, não em nome de critérios e de leis ver­i­ficáveis – traços de uma natureza bem con­heci­da com uma final­i­dade atribuí­da e fixa -  mas em nome de um futuro que assume todos os con­tornos de um son­ho quiméri­co, que esta a cada dia um pouco mais dis­tante.

 

O Apoc­alipse nos ensi­na ao invés, que a história da Igre­ja é sem dúvi­da uma história, um desen­volver-se irre­ver­sív­el e não uma espé­cie de engrenagem de reló­gio que gira em cír­cu­los; mas tam­bém que esta história, nun­ca idên­ti­ca e de uma beleza que se ren­o­va sem sub­sti­tu­ição, apre­sen­ta todavia carác­teres fixos e imutáveis: em par­tic­u­lar a evan­ge­liza­ção que nada pode parar; e então a hos­til­i­dade, seja declar­a­da ou mas­cara­da, do Dragão e das duas Bestas con­tra a Mul­her; enfim, a vitória de Cristo e dos Beat­os.   

 

Em real­i­dade, a hos­til­i­dade do Dragão se rev­ela defin­i­ti­va­mente impo­tente. E, ain­da que os fil­hos da Mul­her devam supor­tar ter­ríveis sofri­men­tos, eles serão vito­riosos em meio a pena e os mes­mos tor­men­tos. Como a Igre­ja, a sua mãe,  escapa do Dragão porque se encon­tra sobre um out­ro plano, assim ess­es são colo­ca­dos sobre um plano diver­so e não cor­rem o risco de serem ven­ci­dos; pelo menos aque­les que enten­dem seguir o Cordeiro, que chegam até a dar o teste­munho do mar­tirio e que “tem despreza­do a sua vida até ao pon­to de aceitar a morte” (12,11). Aque­les, em suma, que vivem as vir­tudes teolo­gais com tan­ta pro­fun­di­dade em agar­rar-se inflex­ivel­mente a cruz de Jesus. Os out­ros, “os vis e os incré­du­los” (21,8) são ven­ci­dos pelo demônio. Assim, os cristãos que per­manecem fiéis a Jesus estão seguros de obter com Ele a vitória sobre o Dragão.

 

Eis como ter­mi­na a batal­ha, aqui o fim da luta das duas Bestas con­tra a Igre­ja: “Então, eu vi o Cordeiro que esta­va em pé sobre o monte Sião, e com ele cen­to e quarenta e qua­tro mil pes­soas que tin­ham escrito na fronte o seu nome e aque­le do seu Pai… E can­tavam um cân­ti­co novo diante do trono, diante dos qua­tros Viventes e dos anciãos, e nen­hum podia apren­der o cân­ti­co se não os cen­to e quarenta e qua­tro mil res­gata­dos da ter­ra. São aque­les que não se mac­u­laram com mul­heres, porque são vir­gens” (14, 1–4). São puros porque con­sagraram a Jesus Cristo a sua alma e o seu cor­po, e é este o óbvio sig­nifi­ca­do do ver­sícu­lo; mas são puros tam­bém no sen­ti­do que con­ser­varam a sua alma na san­ti­dade de Deus, não pros­ti­tuiram a sua vida ao cul­to do Dragão e das Bestas (ou se arrepen­der­am antes de mor­rer). Aque­les cen­to e quarenta e qua­tro mil não ape­nas são puros e sem mácu­la, mas tri­un­fam por meio da cruz de Jesus; de fato avançam “depois de ter atrav­es­sa­do [a tor­rente] da grande tribu­lação, depois de terem lava­do e feito bran­cas as suas vestes no sangue do Cordeiro. Por isto estão em pé diante do trono de Deus e diante do Cordeiro, envoltos em bran­cas vestes e com pal­mas nas suas mãos. E o Cordeiro será o seu pas­tor, e lhes guiará as fontes de água da vida, e Deus enx­u­gará toda lágri­ma de seus olhos” (7, 14–9-17).

 

Naqui­lo que diz respeito a Besta do mar, a cidade políti­ca pas­sa­da a dependên­cia de Satanás, a grande Babilò­nia, a sober­ba pros­ti­tu­ta ine­bri­a­da pelo sangue dos már­tires de Jesus (18, 5–6), essa desmorona em poucos min­u­tos, como a pedra enorme que o cordeiro lev­an­ta e pre­cipi­ta no fun­do dos oceanos (18,21). Babilô­nia ten­ta recu­per­ar-se no inteiro cur­so da história, mas os colap­sos são numerosos quan­to as ten­ta­ti­vas de recon­struções.. E assim será sem­pre. O demônio e as duas Bestas não estão sobre o pon­to de tomar em mãos os des­ti­nos do mun­do; é o Cordeiro imo­la­do e glo­ri­fi­ca­do, que lhes é Sen­hor sober­a­no, que a esse foram entregues.

 

O demônio e as duas Bestas defin­i­ti­va­mente não super­arão as suas der­ro­tas e para vencer; fre­quente­mente, poderá pare­cer que se recu­perem;  se pode­ria até mes­mo afir­mar que o tri­un­fo seja da sua parte, mas não é senão uma aparên­cia. No fim, o demônio e as duas Bestas “serão lançadas no lago de fogo e enx­ofre, e serão ator­men­tadas dia e noite nos sécu­los dos sécu­los” (20,11); não não ten­taram mais destru­ir e nem recomeçara os seus jogos satan­i­cos de perseguição e cor­rupção.

A par­tir dis­to, então, o tri­un­fo é ape­nas aparente. Em efeito se tra­ta de um tri­un­fo que não pode­ria ser atribui­do ao demônio, como se estes pudessem ver­dadeira­mente obter algu­ma vitória sobre Jesus Cristo, ou como se Ele pudesse ser ven­ci­do. A este propósi­to se deve prestar a máx­i­ma atenção para não per­manecer engana­do pela lin­guagem, para não imag­i­nar a luta de Satanás con­tra Jesus Cristo como se si tratasse de uma guer­ra entre dois quais­quer monar­cas    deste mun­do, que como tais são ambos criat­uras. De fato, o demônio é, sim, uma per­son­al­i­dade cri­a­da (um puro espíri­to, rebelde e con­de­na­do), mas não o é Jesus Cristo, que é o próprio Ver­bo de Deus. Nem deri­va que a luta de Satanás con­tra ele não pode ser com­para­da as guer­ras que acon­te­cem entre dois grandes des­ta ter­ra.

Em real­i­dade, as pos­si­bil­i­dades do demônio se chamam peca­do mor­tal, infer­no e danação, per­da defin­i­ti­va da graça e da paz. De uma per­da e uma pri­vação tão assus­ta­do­ra, assim total, não pode­ria vir defin­i­ti­va “vitória” se não muito impro­pri­a­mente.

 

Se diz que o demônio tri­un­fa quan­do induz os home­ns a sub­trairem-se vol­un­tari­a­mente a graça de Cristo, a vida e a ale­gria, como ele próprio, pirmeira­mente se sub­traiu vol­un­tari­a­mente. Não se tra­ta porém de um suces­so obti­do sobre Deus, mas mais de uma vol­un­tária renún­cia aos prêmios inefáveis que Deus reser­va para aque­les que ama.

 

É pre­ciso perce­ber além dis­so, que em Cristo não existe nun­ca carên­cia de graça e de poder, tan­to para colocá-lo em condição de infe­ri­or­i­dade quan­do ele vem recu­sa­do ou com­bat­i­do pelos home­ns. Cristo não pode ser der­ro­ta­do. O peca­do não é nun­ca o resul­ta­do de sua infe­ri­or­i­dade. Quan­do os home­ns o recusam ou até mes­mo o com­bat­em, a infe­ri­or­i­dade e a der­ro­ta são da parte deles e são hor­ríveis; os home­ns se sub­traem a uma graça que era de todo sufi­ciente e se pri­vam assim dos dons celestes. Não gan­ham; per­dem de for­ma atroz.

 

Com estas indi­cações, ain­da que muito ráp­i­das, podemos com­preen­der que a guer­ra de Satanás con­tra Jesus Cristo e os seus san­tos não devem ser con­ce­bidas sob o tipo das out­ras guer­ras; nem sequer a vitória é do próprio gênero; em real­i­dade, ela não per­tence ao demônio; o ser vito­rioso não é uma pre­rrog­a­ti­va de Satanás, mas de Jesus Cristo.

 

Para voltar a sub­lime visão dos cen­to e quarenta e qua­tro mil que obtiver­am a vitória sobre o demônio e sobre os seus sequazes; recordemos antes de tudo o caráter pecu­liar des­ta vitória: se  cumpriu não porque ela foi dis­pen­sa­da pela cruz, mas porque a tin­ha aceita­do com amor. Encon­tramos aqui, ain­da que apre­sen­ta­da de um pon­to de vista diver­so, a dout­ri­na da beat­i­tude. A beat­i­tude, como a vitória, é con­ce­di­da não aos dis­cípu­los que fazem de tudo para escapar das pri­vações, das dores e das perseguições, mas aque­les que a aceitam por amor de Deus. Beat­os aque­les que tem o espíri­to de pobreza.… Beat­os aque­les que choram… Beat­os aque­les que sofrem perseguições pela justiça…

 

Esta é a estra­da da beat­i­tude. O via­jante que se apre­sen­ta, não cam­in­ha nun­ca soz­in­ho, porque o Sen­hor faz esta estra­da com ele, ain­da quan­do esta escon­di­do ou per­manece em silên­cio. Por out­ro lado, qual­quer que sejam as con­trariedades ou os impre­vis­tos do cam­in­ho, o fiel não será nun­ca pre­sa de uma per­da total; sente próx­i­mo o mur­múrio de uma fonte viva; encon­tra de beber ain­da quan­do o lugar é ári­do e o sol é quente. Como escrevia São João da Cruz [8]. Esta fonte eter­na é bem escon­di­da, mas ape­nas de onde jor­ra e flui, ain­da se é noite”. É o Sen­hor mes­mo que faz jor­rar uma fonte no momen­to opor­tuno, para o via­jante fiel.

 

Depois da anun­ci­ação, da paixão e do pen­te­costes, nos encon­tramos na plen­i­tude dos tem­pos. A Esposa desceu do céu, vin­do de Deus, vesti­da pelo seu Esposo. Deus erigiu o seu tabernácu­lo entre os home­ns, ess­es se tornaram o seu povo, o povo da nova e eter­na aliança (21,1–4, 10–11). Esta plen­i­tude dos tem­pos tem uma história que é de uma novi­dade impre­ví­siv­el, que aparece no cur­so dos sécu­los, dos anos e dos dias, ines­per­a­da e repou­sante quan­to ao ros­to dos inu­meráveis san­tos que Deus sus­ci­ta no jardim da sua Igre­ja. Mas a novi­dade da história se fun­da sobre a per­manên­cia da natureza. Por out­ro lado, ain­da que se os san­tos não são nun­ca inter­cam­biáveis, a sua san­ti­dade é invari­avel­mente uma vitória através da cruz.

 

Assim a Igre­ja desen­volve a sua história no inte­ri­or da plen­i­tude dos tem­pos e se apres­sa a encon­trar o Esposo, não pre­stando-se a algu­ma mudança sacríle­ga, mas ele­van­do, enquan­to se pro­lon­ga a sua pere­gri­nação sobre a ter­ra, o próprio can­to de vitória e a própria implo­ração sug­eri­da pelo Espíri­to San­to; o tim­bre de voz é a cada dia novo, mas a implo­ração não muda e o can­to é o mes­mo. Ao mes­mo modo, na sua acla­mação a Virgem, a Igre­ja ele­va sem­pre o mes­mo Mag­ni­fi­cat, o qual acen­to porém, é sem­pre novo, de ger­ação em ger­ação.

 

Estes são os pon­tos prin­ci­pais da dout­ri­na do Apoc­alipse sobre a história mis­te­riosa da imutáv­el Igre­ja de Deus.

 

_________________________

Notas:

[1] Ver 8,7

[2] A ressur­reição antes dos san­tos e dos már­tires indi­ca a regen­er­ação espir­i­tu­al que se cumpre já ago­ra, difer­ente­mente da ressur­reição glo­riosa, depois da Parúsia; a duração de mil anos que mede a primeira ressur­reição indi­ca o cur­so da história pre­sente em tudo o seu con­jun­to (sendo mil anos uma cifra per­fei­ta) em con­tra­posição a eternidade que medirá a ressur­reição glo­riosa. Nen­hum sen­ti­do mile­nar­ista.

[3] Ver I-II, 106, 4, sobre a nova lei que deve durar até o fim do mun­do. “Arti­go… que esma­ga pelas raízes todas as ten­ta­ti­vas, que se ren­o­vam inces­san­te­mente, de ori­en­tar a história para uma era de mes­sian­is­mo do Espíri­to, onde a rev­e­lação do Novo Tes­ta­men­to e a con­cepção da Igre­ja como cor­po passív­el de Cristo, foi super­a­da (JOURNET, Intro­duc­tion à la Théolo­gie, Desclée de Brouw­er, Pari­gi, pp. 185–186).

[4] Esta dout­ri­na vem ilustra­da por São João, no capí­tu­lo 5 do Apoc­alipse, quan­do nos descreve em um grandioso afres­co como os des­ti­nos do gênero humano são per­doa­d­os por Jesus Cristo, imo­la­do e glo­ri­fi­ca­do; como somente ele este­ja em grau de abrir o livro dos sete selos.

[5] A indi­cação da duração do seu retiro: um tem­po, dois tem­pos, um meio-tem­po e um códi­go-sim­bóli­co que indi­ca o cur­so da história inteira.

[6] Em par­tic­u­lar P. ALLO O.P., L’Apocalypse (Gabal­da, Paris) ou o resumo que nos da Padre Laver­gene O.P. (mes­mo títu­lo do próprio edi­tor)

[7] São João da Cruz. O poe­ma, Aunque es de noche, que com­in­cia così:” Que bien sé yo la fonte que mana y corre. Aunque se es de noche”

 

Ver o meu livro Sur nos routes d’exil, les béat­i­tudes, fim do oita­vo capí­tu­lo, sobre Deu escon­di­do.

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