Archive | dezembro, 2014

A AMIZADE (II) — SIDNEY SILVEIRA

Cap­tura de Jesus 1602, Car­avag­gio. Um retra­to do bei­jo de Judas, pro­tótipo do fal­so ami­go.

 

Sid­ney Sil­veira
Con­tra impug­nates
Pedi­ram-me alguns para escr­ev­er mais sobre a amizade, porque lhes pare­ceu bem o tex­to ante­ri­or sobre o tema, pub­li­ca­do aqui no Con­tra Impug­nantes. Resol­vo fazê-lo, então, ten­do como mod­e­lo o que nos diz São Fran­cis­co de Sales em sua Intro­dução à Vida Devota, con­heci­da tam­bém como Filotéia — um livro sim­ples­mente extra­ordinário, um clás­si­co recomendáv­el a pes­soas de todas as idades e condições de vida. Edi­f­i­cante, belo, cheio de con­sel­hos lumi­nosos.
Lem­bra-nos ali o grande San­to e grande Con­fes­sor que há as amizades boas e as más. As más nos lev­am a pecar con­tra os out­ros e con­tra nós mes­mos, e rematam em palavras e pedi­dos tor­pes, con­vites tor­tu­osos, “às vezes injúrias, calú­nias, impos­turas, tris­tezas, con­fusões, men­ti­ras, ciúmes — e nos con­duzem, geral­mente, a bru­tal­i­dades ou desvar­ios”. De min­ha parte, eu diria que, na práti­ca, essas amizades acabam, com o tem­po, con­for­man­do-se aos seus maus motivos ini­ci­ais, são como um espel­ho das intenções ou incli­nações vici­adas que as orig­i­naram. Sendo assim, deve­mos estar aten­tos para não faz­er amizades jus­ta­mente com as pes­soas que vão agravar as nos­sas patolo­gias, vão sus­ci­tar em nós o que temos de pior. Com mui­ta razão dizia San­to Agostin­ho num famoso ser­mão: “Queres con­hecer se o teu amor é bom? Vê o que ele te leva a faz­er!”. Esse critério nos serve, tam­bém, para dis­cernir as amizades. Não vamos, por­tan­to, ser alcoóla­tras a travar amizade com o dono do bote­co, que mais dia menos dia nos ofer­e­cerá um tra­go de pin­ga a cus­to “zero”.
Nesse tipo de amizade, a cor­rupção é insidiosa porque vem escon­di­da sob o afe­to. Por isso o autor de Filotéia nos fala da neces­si­dade de nos armar­mos com grande firmeza, nas ocasiões em que pre­ten­sos ami­gos nos chamam para faz­er coisas indig­nas, ou falam sobre baix­ezas como a nos apon­tar um cam­in­ho de gozo ou mes­mo de vin­gança. Afir­ma São Fran­cis­co:
“Não rece­bais a moe­da fal­sa com a ver­dadeira, nem o ouro aquilata­do com o fal­so; sep­a­rai o que é pre­cioso do que é vil e desprezív­el. Decer­to, ninguém existe que não ten­ha cer­tas imper­feições — e por que razão deve­mos, na amizade, par­tic­i­par das imper­feições do ami­go? Deve­mos amá-lo, emb­o­ra imper­feito, mas não deve­mos apro­pri­ar-nos nós das suas imper­feições e nem amá-las [nem ele das nos­sas maze­las, quedas, vícios, etc.]”.

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A amizade — Sidney Silveira

 

“Aristóte­les já nos ensi­nara, em suas duas Éti­cas, que os ami­gos são aque­les que se reúnem em torno da ver­dade, indi­can­do-nos com isto que, onde não há ver­dade, não pode haver amizade em sen­ti­do próprio. O cris­tian­is­mo foi além e disse que a amizade ver­dadeira é, tam­bém, impos­sív­el fora do amor, cujo obje­to for­mal não é out­ro senão o bem. Isto nos remete à mais bela definição de cari­dade que já li, tão cara a San­to Tomás:
 
“Cari­dade é par­til­har as ver­dades con­tem­pladas”.”
 


Sid­ney Sil­veira


A amizade se fun­da na comu­ni­cação de bens obje­tivos
. E quan­to maior e mais exce­lente o bem que se queira comu­nicar, maior a amizade. Ami­go, por­tan­to, é a pes­soa que quer o mel­hor para aque­le por quem nutre o que alguns teól­o­gos morais chamam de amor de benevolên­cia.
San­to Tomás, em alguns pon­tos de sua obra, chega a diz­er que a amizade é o modo mais per­feito do amor (In III Sent., d.27, q.2, a.1), pois, além de pos­suir todas as car­ac­terís­ti­cas iner­entes ao amor, ela acres­cen­ta-lhe a mútua cor­re­spondên­cia. Ade­mais, diz ain­da o Angéli­co que a amizade tem duas excelên­cias pro­pri­a­mente suas: a primeira é que, graças a ela, existe uma cer­ta sociedade entre amante e ama­do no amor (soci­etas quaedam aman­tis et amati in amore); a segun­da é que o ami­go age por eleição (ou seja: por escol­ha livre) e não por paixão con­cu­pis­cente. E nes­ta escol­ha livre uma pes­soa quer o mel­hor, quer o bem para o seu dile­to ami­go — e o bem numa trí­plice per­spec­ti­va: um bem hon­esto, um bem deleitáv­el e um bem útil.
Ess­es bens especi­fi­cam as três for­mas de amizade: a hon­es­ta, a útil e a deleitáv­el. Vale diz­er que, para San­to Tomás, não se tra­ta de espé­cies unívo­cas de amizade den­tro de um mes­mo gênero, pois a amizade se pred­i­ca de maneira análo­ga. Elas se esta­b­ele­cem segun­do o ante­ri­or (mais per­feito) e o pos­te­ri­or (que se lhe segue), como afir­ma Patri­cia Astrorquiza Fier­ro em seu estu­pen­do Ser y amor – Fun­da­mentación Metafísi­ca del Amor en San­to Tomás de Aquino. Assim, a amizade mais per­fei­ta será a hon­es­ta, que abar­ca as out­ras duas e na qual se cumpre, em seu ápice, o amor benev­o­lente, pois esse tipo de amizade se baseia na ver­dade, e não em inter­ess­es tópi­cos menores. A amizade hon­es­ta é o mod­e­lo da ver­dadeira amizade porque, nela, o ami­go é ama­do pelo que é — e tan­to mais será ama­do quan­to mais isto que ele é seja con­tem­pla­do pelo amante em sua dimen­são espir­i­tu­al, supe­ri­or. Se ele é ama­do porque tem uma alma racional-voli­ti­va, uma alma fei­ta por Deus à Sua imagem e semel­hança, este moti­vo da amizade bas­tará para especi­ficá-la como vir­tu­osa, forte, resistente às intem­péries e aos mal-enten­di­dos que muitas vezes chegam a engen­drar ódios onde, antes, havia amizade. A propósi­to, este é, jus­ta­mente, o porquê de o cristão amar os inimi­gos: nós não os amamos, dizia San­to Agostin­ho, enquan­to inimi­gos, o que seria absur­do, mas enquan­to semel­hantes. Em suma, nós amamos os inimi­gos enquan­to partícipes da semel­hança div­ina. E aqui não é demais lem­brar que os inimi­gos de hoje — em grande parte das vezes, pos­sivel­mente a maio­r­ia — são aque­les que, um dia, foram ami­gos, mes­mo não ten­do tal amizade a solidez requeri­da.
O fato é que, se a amizade não tiv­er essa vir­tude, a saber, essa força espir­i­tu­al basea­da em Deus — fonte de todas as ver­dades e de todos os bens —, ela ten­derá a ser mais útil e deleitáv­el do que hon­es­ta. Terá uma ou out­ra car­ac­terís­ti­ca, mas com exclusão da prin­ci­pal, ou seja: ten­derá a faz­er dos bens úteis e dos bens deleitáveis um real imped­i­men­to para os bens hon­estos. Este é o caso, por exem­p­lo, de pes­soas que têm ami­gos ape­nas na medi­da do seu inter­esse ou do inter­esse do grupo a que servem. Ess­es não estão, por isso mes­mo, no ato livre de uma escol­ha amorosa, mas escrav­iza­dos no serviço a algo menor.
Aristóte­les já nos ensi­nara, em suas duas Éti­cas, que os ami­gos são aque­les que se reúnem em torno da ver­dade, indi­can­do-nos com isto que, onde não há ver­dade, não pode haver amizade em sen­ti­do próprio. O cris­tian­is­mo foi além e disse que a amizade ver­dadeira é, tam­bém, impos­sív­el fora do amor, cujo obje­to for­mal não é out­ro senão o bem. Isto nos remete à mais bela definição de cari­dade que já li, tão cara a San­to Tomás:
“Cari­dade é par­til­har as ver­dades con­tem­pladas”.
Assim, se alguém não par­til­ha inte­gral­mente as ver­dades (des­de as mais sim­ples e facil­mente com­par­til­háveis) das quais hau­riu con­hec­i­men­tos hon­estos, úteis e deleitáveis para si e para os demais, esse alguém é antes um egoís­ta que tem amizade mais por si mes­mo do que por qual­quer pes­soa.
Vale ain­da diz­er que a ver­dadeira amizade é a raiz do perdão e tam­bém a raiz de quais­quer sac­ri­fí­cios que se façam. Ou, noutra for­mu­lação: ser­e­mos tan­to mais capazes de per­doar e de nos sac­ri­ficar, quan­to mais a nos­sa amizade for hon­es­ta e se basear, pri­mor­dial­mente, em Deus. Pos­tos nes­ta situ­ação, poder­e­mos cap­tar o ele­va­do sen­ti­do destas palavras sim­ples de Nos­so Sen­hor: “Ninguém tem maior amor do que aque­le que dá a vida por seus ami­gos” (Jo. XV, 13).
 
 
De tudo isto fica-nos a lição de que a amizade, em sen­ti­do próprio, só será pos­sív­el entre pes­soas que, pelo menos, bus­cam a san­ti­dade. Fora daí, poderá até haver cer­to tipo de amizade, mas sem aque­la com­placên­cia inte­ri­or pela bon­dade intrínse­ca do ami­go. Poderá haver uma amizade, sim, mas sem nen­hum deleite espir­i­tu­al.
Em tem­po. A um dile­to ami­go, dedi­co o vídeo a seguir. Tra­ta-se de uma músi­ca que sei que ele apre­cia (ao vio­lão com certeza, não sei se ao vio­li­no, como nes­ta ver­são):

 

O VALOR DO SYLLABUS E ALGUNS CATÓLICOS — P. CARLO RINALDO S.J.

Extraí­do do tex­to IlVal­ore del Sil­l­abo, 3º Il Val­ore del Sil­l­abo e alcu­ni cat­toli­ci, revista La Civiltà Cat­toli­ca, Serie XIII, vol. III, fasc. 869, 26 agos­to 1886.

R.P. Car­lo Rinal­di d.C.d.G.

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

 

Muito mais fácil é entrar em dis­cussão com aque­les, os quais emb­o­ra negan­do o val­or dog­máti­co do doc­u­men­to pon­tif­í­cio, se pro­fes­sam devo­tos fil­hos da Igre­ja, obse­quiosos e dóceis ovel­has para o Pas­tor supre­mo do reban­ho de Jesus Cristo. Ess­es estão conosco na mes­ma fé e cari­dade; e se neste pon­to se difer­em, não é porque negam dev­er sujeição de mente e de coração ao ensi­na­men­to do Vigário de Jesus Cristo, quan­do Ele fala como tal, e essa seria questão de princí­pio; mas ape­nas porque nega con­ter no Syl­labus um ensi­na­men­to ver­dadeira­mente dog­máti­co: pron­tos (e como não?) a rendição total onde isto seja a eles demon­stra­do. A questão então, como cada um vê, é de fato. É jus­to, antes de sujeitar-se a uma obri­gação, pedir-lhe as provas; como tam­bém é ver­dadeiro que uma obri­gação recon­heci­da na questão de princí­pio, não é ape­nas por isto recon­heci­da se não condi­cionada­mente ao fato; con­se­quente­mente isto é ao ver­i­fi­carem-se aque­las condições que são requeri­das, para que um fato par­tic­u­lar caia sob o já admi­ti­do princí­pio. É claro então, que uma e out­ra parte dos con­tendentes deve con­vir em esta­b­ele­cer quais e quan­tas são essas condições; que se aci­ma dis­so hou­vesse uma dis­pari­dade de sen­tir, então, a dis­cussão cairia sobre out­ras questões, as quais, como pon­to do qual todo o resto da dis­pu­ta depende e que em primeiro lugar dev­e­ria se resolver. Que se deva obe­de­cer, a títu­lo de exem­p­lo, a autori­dade legit­i­ma­mente con­sti­tuí­da, quan­do esta coman­da, não existe dúvi­da de sorte algu­ma. Mas que tal ou tal out­ra coisa ven­ha de fato orde­na­da, pode-se muito bem ser con­tes­ta­do, a dar-lhe uma pro­va se con­cor­da a recor­rer aque­las ver­dades de que o fato depende, e a luz do qual este é demon­stra­do. É pro­pri­a­mente o nos­so caso. Con­tin­uar lendo →

O ESPÍRITO DA TRISTEZAJOÃO CASSIANO

Extraí­do do livro
“As insti­tu­ições cenobíti­cas”

Albrecht Dür­er, melan­co­l­ia 1514

Livro Nono

O Espíri­to da tris­teza

João Cas­siano

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

1. OS DANOS DA TRISTEZA

No quin­to com­bate deve­mos reprim­ir as tendên­cias da tris­teza: é um vício que morde e devo­ra. Se esta paixão, em momen­tos alter­na­dos e com os seus ataques de cada dia, vari­ada­mente dis­tribuí­dos segun­do cir­cun­stân­cias impre­vis­tas e diver­sas, chegar a tomar o domínio da nos­sa alma, nos sep­a­rará um pouco às vezes da visão da con­tem­plação div­ina até deprim­ir inteira­mente a própria alma depois de tê-la afas­ta­do de toda sua condição de pureza: não per­mi­tirá mais dedicar-se as orações com a habit­u­al espon­tanei­dade de coração e nem mes­mo de aplicar-se, como remé­dio, a leitu­ra das Sagradas Escrit­uras. Este vício impede nos de ser­mos tran­qui­los e gen­tis com os próprios irmãos e tor­na impa­ciente e áspero diante de tudo os ofí­cios dev­i­dos aos vários tra­bal­hos e a religião. Per­di­da assim toda fac­ul­dade de boas decisões e com­pro­meti­da a esta­bil­i­dade da alma, aque­la paixão tor­na o mon­ge como des­ori­en­ta­do e ébrio, o enfraque­ce e o afun­da em uma penosa deses­per­ação.

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DA LIBERDADE DE RELIGIÃO E DE CULTO — P. MATTEO LIBERATORE S.J.

La Civiltà Cat­toli­ca anno XXVIII,
serie X, vol. III (fasc. 653, 20 agos­to 1877),
Firen­ze 1877 pag. 527–538.

R.P. Mat­teo Lib­er­a­tore d.C.d.G.
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

I.

Um pequeno erro de prin­ci­pio se tor­na grave nas ilações. Parvus error in prin­cipi­is, fit max­imus in illa­tion­ibus.

Esta sen­tença de San­to Tomás se enquadra bem a Cas­sani, naqui­lo que diz respeito a liber­dade de religião e de cul­to, que ele propõe em sua obra [1]. O erro, no qual ele incorre, pro­cede de um pequeno erro (adver­tida­mente ou inad­ver­tida­mente, não impor­ta) no con­ceito que ele dá a liber­dade de pen­sa­men­to, de onde se ini­cia o seu trata­do. Ele diz que essa con­siste no dire­ito de empre­gar todos os meios para con­hecer a ver­dade, a qual bus­car é o sumo dev­er do homem. «Quan­do se afir­ma que o homem tem por primeiro e fun­da­men­tal dire­ito a liber­dade de pen­sa­men­to… se quer diz­er que o homem ten­do o sumo dev­er de bus­car a ver­dade, deve por con­se­quên­cia ser livre para usar todos os meios aptos a con­duzir a cog­nição da mes­ma [2] .» Como se vê, o prin­ci­pio, no qual ele se move, é sim: ser sumo dev­er do homem a bus­ca pela ver­dade. Con­tin­uar lendo →

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