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A CONCEPÇÃO POLÍTICA DE DANTE ALIGHIERI E O “DE MONARCHIA

 
DON CURZIO NITOGLIA
 19  de agos­to de 2009
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]
Pub­li­ca­do orig­i­nal­mente no
 
 
 
 
Dante, em De Monar­chia, é um um dos pre­cur­sores do Príncipe de Maquiáv­el. Esta frase pode sur­preen­der, mas, se se estu­dar bem o prob­le­ma, as coisas se fazem claras. Para Éti­enne Gilson, segun­do Dante “O imper­ador não deri­va o seu poder do Papa pelo fato que é dire­ta­mente sub­mis­so a Deus” [1]. Diante do ide­al cristão de uma Igre­ja uni­ver­sal, o Poeta quer erguer o ide­al humano gibeli­no ou cesarista de um império uni­ver­sal sobre a autori­dade de um só imper­ador, que dev­e­ria desen­volver o papel que o Papa desen­volve na Igre­ja. O flo­renti­no toma da Igre­ja o ide­al de uma cri­stan­dade uni­ver­sal e o lai­ciza. É o eter­no prob­le­ma, que retor­na con­tin­u­a­mente, em filosofia políti­ca, da relação entre o poder espir­i­tu­al e o poder tem­po­ral. O “gibeli­no fugi­ti­vo” jogou habil­mente citan­do sobre­tu­do Aristóte­les (mas é o aris­totelis­mo aver­roís­ta o que ensi­na o Poeta, como o expli­ca Gilson; além dis­so, Aristóte­les, não con­hecia o con­ceito de cri­ação, de criatu­ra-Cri­ador, de fim ulti­mo sobre­nat­ur­al, razão por que sua Políti­ca é pagã, e San­to Tomás, graças às luzes da Rev­e­lação, a com­ple­tou e em algu­mas partes a reti­fi­cou). Ora a sociedade tem neces­si­dade de uma autori­dade, e o próprio San­to Tomás havia dito que a mel­hor for­ma de gov­er­no é a de um só: a monar­quia. “S. Tomás, todavia, esta­va assim longe de pen­sar em uma monar­quia uni­ver­sal… e definia o rei como aque­le que gov­er­na o povo de uma cidade ou de uma provin­cia em vista do bem comum” [2]. Em De Monar­chia (liv. II), Alighieri afir­ma que o Império Romano, ain­da sub­sis­tente no medie­vo gibeli­no, é um poder legí­ti­mo queri­do por Deus para o bem comum. Ora, o Papa se colo­ca igual­mente como uma autori­dade de origem div­ina. Então se dá o dile­ma de como acor­dar o Papa e o Imper­ador. O prob­le­ma que se apre­sen­ta a Dante é saber se o poder vin­ha ao imper­ador ime­di­a­ta e dire­ta­mente de Deus, ou indi­re­ta­mente e através do Papa (lib. III, 1). Nós já vimos de pas­sagem como Dante resolve o prob­le­ma, mas ago­ra vamos vê-lo mel­hor. Con­tra o Papa, Dante invo­ca o rei Salomão, medi­ante cuja “san­ti­dade” (Salomão em ver­dade mor­reu em con­cu­bi­na­to e politeís­ta) se jul­gam os Papas e a cujo serviço é mobi­liza­do o cris­tian­is­mo (aqui nasceu a len­da do Dante esotéri­co, expos­ta por Guénon; sendo Salomão o con­stru­tor do primeiro Tem­p­lo de Jerusalém, ao qual se ref­er­em os ini­ci­a­dos e os maçons em ger­al, que têm como escopo a recon­strução do ter­ceiro Tem­p­lo, como… Sharon ou Netha­ni­ahu).  Além dis­so, os cristãos – segun­do Dante – devem ao Papa não tudo aqui­lo que se deve a Cristo, mas só aqui­lo que se deve a Pedro. “É hábil a fór­mu­la – comen­ta Gilson – usa­da pelo Poeta para lim­i­tar a exten­são da obe­diên­cia ao Papa: ‘tudo aqui­lo que se deve não a Cristo, mas a Pedro’. Pro­por esta cláusu­la como algo evi­dente sig­nifi­ca fechar a questão no princí­pio, porque equiv­ale a afir­mar que exis­tem priv­ilé­gios de Cristo que nem Pedro nem os seus suces­sores her­daram (…) equiv­a­le­ria a excluir os priv­ilé­gios de Cristo her­da­dos por Pedro e pelos seus suces­sores, e aque­le próprio pri­ma­do tem­po­ral que Dante se prepara para negar-lhes” [3]. Mas colo­que­mos em con­fron­to Dante e San­to Tomás:

Se é licito ir a Missa dos sacerdotes sedevacantistas

d. CURZIO NITOGLIA

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Depois do arti­go sobre o “Neo-Donatismo”, alguns leitores me colo­caram a questão, se é lic­i­to ir a Mis­sa cel­e­bra­da pelos sac­er­dotes sede­va­can­tis­tas.

Parece-me (não me reputo infalív­el e não ten­ho nen­hu­ma juris­dição para obri­gar quem quer que seja, exp­ri­mo ape­nas uma opinião pes­soal) que, em cer­tas condições, seja lic­i­to.

De fato, os Padres sede­va­can­tis­tas cel­e­bram a Mis­sa tradi­cionalsão sac­er­dotes val­i­da­mente orde­na­dos e, e se ensi­nam os princí­pios da Dout­ri­na Católi­ca comu­mente pro­fes­sa­da pela Igre­ja e com­pen­di­a­da no Cate­cis­mo do Con­cílio de Tren­to e de São Pio X (sem entrar, com exces­si­va insistên­cia, nos detal­h­es especí­fi­cos da tese teológ­i­ca dis­puta­da sobre a sé vacante e obri­gar a assen­tir a essa), não vejo razão sufi­ciente para impedir os fiéis de assi­s­tirem a Mis­sa deles.

reg­u­lar­i­dade canôni­ca e a plen­i­tude da pureza doutri­nal (tam­bém a respeito da tese teológ­i­ca sobre a maneira de afrontar e resolver o erro neo­mod­ernista que pen­etrou na Igre­ja), no atu­al esta­do de crise do ambi­ente católi­co, são difi­cil­mente obtiveis e con­cil­iáveis, como busquei explicar no arti­go sobre o Donatismo.

Cer­ta­mente, se forem con­stata­dos evi­dentes e públi­cos erros con­tra a Fé católi­ca, aDout­ri­na teo­logi­ca­mente cer­ta ou a Dout­ri­na comu­mente ensi­na­da(por exem­p­lo, a eleição de um “papa” e a cri­ação de uma hier­ar­quia por parte dos fiéis, a negação de um dog­ma ou de uma dout­ri­na moral cer­ta e con­stan­te­mente ensi­na­da), então se deve abster de fre­quen­tar aque­les que lhe pro­fes­sam, sede­va­can­tis­tas ou menos [1]. Diver­so é o caso de uma tese teológ­i­ca debati­da sobre a qual a Igre­ja hierárquica não se pro­nun­ciou ain­da explici­ta­mente, dog­mati­ca­mente e de for­ma obri­gatória. De fato, não ape­nas os sede­va­can­tis­tas podem errar e nem por isso são o Mal e o Erro abso­lu­to: “todo altar por­ta a sua cruz”, diz o provér­bio.

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MUNDIALISMO, BENSON, ORWELL E O CARDEAL NEWMAN — 1a parte

 

(1a parte)

BENSON E “O SENHOR DO MUNDO

 

 

d. CURZIO NITOGLIA

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

27 de dezem­bro de 2010

http://www.doncurzionitoglia.com/mondialismo_benson.htm

 

 

Em muitos pon­tos, os hereges estão comi­go, em  out­ros pon­tos não; mas por causa destes poucos pon­tos nos quais se sep­a­ram de mim, a eles não serve de  nada  estar comi­go em todo o resto”

(S. Aug., In Psal. 54, n. 19; PL 36, 641).

 

Pról­o­go


clip_image001[6]No arti­go prece­dente tratei da Europa de Maas­tricht como ten­ta­ti­va de con­stru­ir o “mundi­al­is­mo”, a “glob­al­iza­ção” e de instau­rar a “Nova Ordem Mundi­al”, comen­tan­do o livro de Ida Magli, A ditadu­ra européia (Milão, Riz­zoli, 2010). Ago­ra vou resumir o que foi escrito por dois lit­er­atos ingle­ses em 1907 (Ben­son) e em 1948 (Orwell), e retomar um dis­cur­so pub­li­ca­do pelo L’Osservatore Romano em 14 de maio de 1879 sobre o lib­er­al­is­mo como prin­ci­pal inimi­go do catoli­cis­mo, que foi feito em 13 de maio do mes­mo ano pelo Card. John Hen­ry New­man. Sur­preen­dentes as suas intu­ições sobre aqui­lo que seria a sociedade lib­er­al e glob­al­iza­da, na qual tudo é líc­i­to, exce­to a ver­dade e o bem, na qual nos encon­tramos viven­do hoje, como demon­stra­do pelo livro de Ida Magli e pelos acon­tec­i­men­tos que se desen­volver­am sob os nos­sos olhos.

(1a parte)

*

BENSON E “O SENHOR DO MUNDO

 

 Robert Hugh Ben­son nasceu na Inglater­ra em 1871 e mor­reu em 1914. Era o quar­to fil­ho do Arce­bis­po angli­cano de Can­ter­bury e se con­verte ao Catoli­cis­mo em 1903 aos 32 anos; no ano suces­si­vo foi orde­na­do sac­er­dote. Escreveu numerosos livros sobre a vida dos san­tos em caráter históri­co-ascéti­co para enquadrar e resolver a dico­to­mia entre protes­tantismo, mes­mo o mais con­ser­vador como aque­le angli­cano, e o catoli­cis­mo romano. Os seus livros tem então, uma forte car­ga apologéti­ca e uma enér­gi­ca vis polem­i­ca (luta para esta­b­ele­cer a ver­dade e refu­tar o erro) evi­tan­do toda con­fusão irêni­ca (ces­sação de toda dis­pu­ta volta­da a bus­ca da ver­dade sob a acusação de paci­fis­mo). O livro do qual me ocupo no pre­sente arti­go (“O sen­hor do mun­do”) foi escrito em 1907, o ano da con­de­nação do mod­ernismo com a Pas­cen­di de São Pio X, e foi traduzi­do e pub­li­ca­do em ital­iano pela primeira vez em 1921 em Flo­rença. Em 1987 graças ao inter­esse do Card. Gia­co­mo Bif­fi foi reed­i­ta­do pela Jaca Book de Milão com três edições (1997 e 2008) e dezes­seis reim­pressões. Ben­son, com um esti­lo ver­dadeira­mente admiráv­el, retoma o tema desen­volvi­do por São Pio X na sua primeira encícli­ca E supre­mi apos­to­la­tus cathe­dra de 1904, na qual o Papa Sar­to obser­va­va que os males que cir­cun­dam o mun­do e a Igre­ja são de tal for­ma graves, que fazem pen­sar que o Anti­cristo este­ja já pre­sente nele.

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CUIDADO COM ASMEIAS VERDADES

 
PADRE CURZIO NITOGLIA
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa}
27 de jun­ho de 2009
Mon­sign­or Hen­ri Delas­sus  dizia: «Hoje mais que nun­ca é pre­ciso diz­er a ver­dade, sem sub­ter­fú­gios e sem hábeis estraté­gias. […] A moral é que as ver­dades dimin­uí­das não são a Ver­dade e ape­nas a Ver­dade leva con­si­go a vida; e ape­nas ela pode dar nos a ressur­reição a par­tir do esta­do  de coma que nos encon­tramos […] Jesus con­fes­sou a Ver­dade e com isto venceu o mun­do, mes­mo que isto lhe ten­ha cus­ta­do a morte de Cruz» [1]. E con­tin­u­a­va:«Aque­le que, hoje, procla­ma a ver­dade pela metade, faz mais danos do que quem a nega res­o­lu­ta­mente; temos neces­si­dade da Ver­dade inte­gral. Ou a Fé ou o Eu. Ou o cris­tian­is­mo nas almas e na sociedade; ou o orgul­ho, a inve­ja e todas as paixões des­or­de­nadas, que o egoís­mo esconde em si, e que a rev­olução des­en­cadeia […] tudo aqui­lo que não é a ple­na, fran­ca e inteira Ver­dade reli­giosa, não pode nada sobre o coração do homem, nem pode reme­ter a Sociedade civ­il sobre a estra­da”. [2]
 
 
 
 
Con­sel­hos práti­cos para “restau­rar tudo em Cristo”
 
1º) Para refor­mar a Sociedade é pre­ciso primeiro refor­mar a si mes­mo
(Nemo dat quod non habet). “Toda mudança na Sociedade deve ter o seu primeiro princí­pio nos corações” [3].
 

A Constituição Cristã dos Estados e a “liberdade religiosa”

Miguel Ayu­so
PADRE CURZIO NITOGLIA

7 de jul­ho de 2011
http://www.doncurzionitoglia.com/forma_societa_stati_liberta_reli.htm

 
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]
 
Pub­li­ca­do orig­i­nal­mente no
 
 
  “A here­sia de um indi­ví­duo, com o laicis­mo lib­er­al, tor­na-se social e políti­ca” (M. Ayu­so)
 
 Da for­ma dada à sociedade, con­forme ou não às leis div­inas, depende o bem ou o mal das almas; isto é, se os home­ns, chama­dos todos a ser viv­i­fi­ca­dos pela graça de Cristo, nas con­tingên­cias ter­re­nas do cur­so da vida res­pi­ram o são e viv­i­f­i­cante hál­i­to da ver­dade e da vir­tude moral ou o baci­lo mor­boso e muitas vezes mortífero do erro e da depravação. Per­ante tal con­sid­er­ação e pre­visão, como pode­ria ser líc­i­to à Igre­ja, Mãe tão amorosa e solíci­ta do bem de seus fil­hos, per­manecer espec­ta­do­ra indifer­ente dos seus peri­gos, calar ou faz­er que não vê nem pon­dera condições soci­ais que, vol­un­tária ou invol­un­tari­a­mente, tor­nam árduo e prati­ca­mente impos­sív­el um modo de vida cristão con­forme aos pre­ceitos do Supre­mo Leg­is­lador? (Pio XII, Radiomen­sagem “A solenidade”, Pen­te­costes, 1941)
 
 
Pról­o­go
 
Miguel Ayu­so, pro­fes­sor de Dire­ito Con­sti­tu­cional na Uni­ver­si­dade de Madri e Pres­i­dente da União Inter­na­cional dos Juris­tas Católi­cos, escreveu em 2008 um livro muito inter­es­sante sobre a relação entre Esta­do e Igre­ja, traduzi­do em ital­iano pela “Edi­zioni Sci­en­ti­fiche Ital­iane” de Nápoles em 2010, com o títu­lo A Con­sti­tu­ição Cristã dos Esta­dos [1]. No livro, o céle­bre jurista con­sid­era tam­bém o tema da “liber­dade reli­giosa” tal como foi abor­da­do no Decre­to Dig­ni­tatis Humanae do Con­cílio Vat­i­cano II e o con­fronta com o ensi­na­men­to do “Dire­ito Públi­co Ecle­siás­ti­co”, tranzen­do à luz a diver­si­dade entre a dout­ri­na tradi­cional e o ensi­na­men­to pas­toral do Vat­i­cano II do pon­to de vista cien­tifi­ca­mente jurídi­co.
 

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