JEAN MADIRAN: A DIREITA É UMA INVENÇÃO DA ESQUERDA

Auguste Couder: Versailles, 5 de maio de 1789, abertura dos Estados-gerais


Jean Madiran
Tradução*: Gederson Falcometa

A dis­tinção entre dire­i­ta e esquer­da é uma ini­cia­ti­va da esquer­da, fei­ta pela esquer­da em seu proveito próprio, para arru­inar o poder ou para nele se esta­b­ele­cer.

Existe uma dire­i­ta, por out­ro lado atôni­ta de sê-la e mal consen­ciente, na medi­da em que a esquer­da a for­ma, a des­igna e se lhe opõe. As coisas começam, ou recomeçam, pro­pri­a­mente assim, nun­ca em sen­ti­do inver­so. Aque­les que instau­ram ou relançam o jogo “dire­i­ta-esquer­da” fazem ess­es mes­mos parte da esquer­da e delimi­tam uma dire­i­ta, para exclui-la e com­batê-la. Em um segun­do tem­po, a dire­i­ta assim des­ig­na­da e indi­vid­u­a­da, ser­ra as filas, de ordinário nem tem­pes­ti­va e nem efi­caz­mente, se orga­ni­za, se defende, con­tra-ata­ca, algu­mas vezes com suces­so: não é jamais a out­ra que defende e con­tra-ata­ca e faz represália.

Esta for­ma de luta políti­ca era descon­heci­da antes de 1789.

Con­tin­uar lendo →

O MARXISMO DE GRAMSCI E A RELIGIÃO

Antônio Gramsci

Augus­to del Noce 
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa
Cen­tro Romano Incon­tri Sac­er­do­tali,
doc­u­men­ti, Anno IV, n. 35,
Roma feb­braio 1977

Gram­sci: marx­is­mo para o Oci­dente

Qual lugar asse­gu­rar a Gram­sci entre os teóri­cos oci­den­tais do comu­nis­mo? Um fato é incon­testáv­el: entre os teóri­cos oci­den­tais do comu­nis­mo, só Gram­sci definiu uma lin­ha políti­ca capaz de ter efeito nos país­es oci­den­tais. Uma vez que para o marx­is­mo o filó­so­fo, o his­to­ri­ador e o políti­co são indis­tin­guíveis, porque o critério de ver­dade é colo­ca­do para o marx­is­mo na ver­i­fi­cação históri­ca, parece legí­ti­mo con­cluir dis­to que se deve ver na posição gram­s­ciana tam­bém o desen­volvi­men­to mais rig­oroso que o marx­is­mo alcançou. Até ago­ra, o marx­is­mo não con­seguiu vencer no Oci­dente e com isso se uni­ver­salizar. A pos­sív­el vitória da ‘batal­ha do Oci­dente’ tor­na o pos­sív­el sinal da sua uni­ver­sal­i­dade. Em todo o caso, é com o comu­nis­mo gram­s­ciano que deve­mos faz­er as con­tas.

Dito isto, deve­mos nos per­gun­tar: existe para tal for­ma de marx­is­mo uma pos­si­bil­i­dade de con­cil­i­ação, não só com o catoli­cis­mo, mas com qual­quer posição de pen­sa­men­to que admi­ta uma real­i­dade tran­scen­dente? Ou ao invés dis­so, o gram­scis­mo con­tém a respos­ta deci­si­va, porém neg­a­ti­va, a qual­quer pos­si­bil­i­dade de diál­o­go?

Deci­si­va porque a negação da tran­scendên­cia reli­giosa aparece em Gram­sci não como uma super­estru­tu­ra acom­pan­hante, em razão dos erros históri­cos cometi­dos pelos crentes, ou de hábitos laicis­tas de pen­sa­men­to, uma práti­ca que em si seria neu­tral, de modo a ser então des­ti­na­da, como super­estru­tu­ra a cair, mas como uma condição, por assim diz­er, tran­scen­den­tal, nas con­sid­er­ações dos aspec­tos teóri­cos e daque­les práti­cos do seu pen­sa­men­to.

Con­tin­uar lendo →

AS TRÊS FORMAS DE GOVERNO E A TIRANIA

 PADRE CURZIO NITOGLIA
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

 

As três for­mas de gov­er­no e a tira­nia

San­to Tomás ensi­na que as pos­síveis for­mas de gov­er­no são três: monar­quia, aris­toc­ra­cia e politeía (hoje ‘democ­ra­cia’ clás­si­ca, essen­cial­mente difer­ente do ‘democ­ra­tismo’ mod­er­no de Rousseau). Ele con­sid­era a monar­quia como a primeira for­ma de gov­er­no (o gov­er­no de um só) que, porém, pode degener­ar em tira­nia. A segun­da for­ma de gov­er­no con­sid­er­a­da pelo Aquinate, é a aris­toc­ra­cia (gov­er­no dos mel­hores) que pode degener­ar em oli­gar­quia, ou seja, tira­nia dos poucos. A ter­ceira for­ma é a politeía (gov­er­no dos mag­istra­dos ou dos cidadãos/militares) ou tim­o­c­ra­cia (gov­er­no onde os car­gos são atribuí­dos ten­do por base a hon­ra e a força da san­ior pars pop­uli), a qual pode degener­ar em democ­ra­tismo ou democ­ra­cia mod­er­na (tira­nia do povo). Hoje, em lugar de politeía ou de tim­o­c­ra­cia, prevale­ceu o uso da palavra democ­ra­cia – que para os clás­si­cos e escolás­ti­cos havia já de per sè uma valên­cia neg­a­ti­va – a qual pode degener­ar em dem­a­gogia, como se diz comu­mente hoje.

Con­tin­uar lendo →

CARIDADE E JUSTIÇA SOCIAL COMO FUNDAMENTO DA POLÍTICA

PADRE CURZIO NITOGLIA
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]
Papa Gregório VII

 

 Papa Gregório VII
“Do desprezo do bem comum ou social um pode ser induzido a todos os pecados”
(S. Tomás de Aquino, S. Th., II-II, q. 59, a. 1).

Para o ‘bom gov­er­no’, que é a ver­dadeira vir­tude de ‘prudên­cia social’ ou seja, a políti­ca no sen­ti­do clás­si­co do ter­mo, é pre­ciso sobre­tu­do duas vir­tudes além da prudên­cia: a justiça e o amor nat­ur­al e sobre­nat­ur­al, que são sub­stan­cial­mente diver­sas da egal­itè et fra­ter­nitè da mod­ernidade. Aqui lhe estu­dare­mos na óti­ca social e não estre­ita­mente indi­vid­ual, porque nos ocu­pamos da filosofia políti­ca ou social, que estu­da a vida em comum ou em sociedade dos indi­ví­du­os home­ns, os quais se unem antes em uma família e depois em mais famílias, as quais for­mam uma sociedade ou polis (=cidade) e mais cidades for­man­do enfim um Esta­do. No arti­go sobre “Dire­ito nat­ur­al” pub­li­ca­do neste mes­mo site, vimos como a lei, é eter­na ou div­ina, nat­ur­al e pos­i­ti­va e como estas leis regem a sociedade e sem essas se cai inevi­tavel­mente na “dis-sociedade” ou dis­so­ci­ação anárquica, que é o ‘pés­si­mo gov­er­no’1. No pre­sente arti­go nos ocu­pamos da justiça e da sua per­feição, que é a amizade ou amor (nat­ur­al ou sobre­nat­ur­al)2, para colo­car bem a fogo que sem essa não é pos­sív­el uma ver­dadeira vir­tude de prudên­cia social ou políti­ca, vale diz­er o ‘bom gov­er­no’3. No livro em dois vol­umes cita­dos em nota, se afronta o tema da políti­ca enten­di­da por Aristóte­les e San­to Tomás de Aquino como vir­tude social, as suas bases metafísi­cas, a natureza, causa efi­ciente e final da sociedade, a sociedade inter­na­cional, a origem do poder, da tira­nia e do tiran­icí­dio, as três for­mas de gov­er­no (monar­quia, aris­toc­ra­cia e polí­cia), a realeza social de Cristo, as relações entre Esta­do e Igre­ja, o maquiavelis­mo como iní­cio da “políti­ca” mod­er­na, con­ce­bi­da de maneira diame­tral­mente opos­ta à políti­ca aris­totéli­ca-tomista como sep­a­ra­da da vir­tude e da moral e por isso ‘mau gov­er­no’ (1º vol­ume). No 2º vol­ume se afronta a prob­lemáti­ca das relações entre a vir­tude políti­ca clás­si­ca e as desvi­ações “políti­cas” mod­er­nas: a guer­ra jus­ta, a pena de morte, a tor­tu­ra e a represália, a questão social e a sua ver­dadeira solução con­tra os dois erros – por exces­so e por defeito – do cole­tivis­mo social­ista e do indi­vid­u­al­is­mo lib­er­al, da ver­dadeira natureza do comu­nis­mo, mes­mo daque­le de “ros­to humano”, ou seja, “euro comu­nis­mo” e do “cato-comu­nis­mo”, do lib­er­al­is­mo clás­si­co, da democ­ra­cia cristã, qual mod­ernismo social ou lib­er­al­is­mo-católi­co, do fas­cis­mo e do nazis­mo, mes­mo se estes dois capí­tu­los são data­dos (remon­tam ao ano de 2002) e, pen­so, exces­si­va­mente severos na críti­ca. Con­clusão a) dire­ito nat­ur­al, divi­no e pos­i­ti­vo; b) cari­dade e justiça são os dois pilares que regem a estru­tu­ra da prudên­cia social ou políti­ca clás­si­ca. Con­tin­uar lendo →

A CONCEPÇÃO POLÍTICA DE DANTE ALIGHIERI E O “DE MONARCHIA

 
DON CURZIO NITOGLIA
 19  de agos­to de 2009
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]
Pub­li­ca­do orig­i­nal­mente no
 
 
 
 
Dante, em De Monar­chia, é um um dos pre­cur­sores do Príncipe de Maquiáv­el. Esta frase pode sur­preen­der, mas, se se estu­dar bem o prob­le­ma, as coisas se fazem claras. Para Éti­enne Gilson, segun­do Dante “O imper­ador não deri­va o seu poder do Papa pelo fato que é dire­ta­mente sub­mis­so a Deus” [1]. Diante do ide­al cristão de uma Igre­ja uni­ver­sal, o Poeta quer erguer o ide­al humano gibeli­no ou cesarista de um império uni­ver­sal sobre a autori­dade de um só imper­ador, que dev­e­ria desen­volver o papel que o Papa desen­volve na Igre­ja. O flo­renti­no toma da Igre­ja o ide­al de uma cri­stan­dade uni­ver­sal e o lai­ciza. É o eter­no prob­le­ma, que retor­na con­tin­u­a­mente, em filosofia políti­ca, da relação entre o poder espir­i­tu­al e o poder tem­po­ral. O “gibeli­no fugi­ti­vo” jogou habil­mente citan­do sobre­tu­do Aristóte­les (mas é o aris­totelis­mo aver­roís­ta o que ensi­na o Poeta, como o expli­ca Gilson; além dis­so, Aristóte­les, não con­hecia o con­ceito de cri­ação, de criatu­ra-Cri­ador, de fim ulti­mo sobre­nat­ur­al, razão por que sua Políti­ca é pagã, e San­to Tomás, graças às luzes da Rev­e­lação, a com­ple­tou e em algu­mas partes a reti­fi­cou). Ora a sociedade tem neces­si­dade de uma autori­dade, e o próprio San­to Tomás havia dito que a mel­hor for­ma de gov­er­no é a de um só: a monar­quia. “S. Tomás, todavia, esta­va assim longe de pen­sar em uma monar­quia uni­ver­sal… e definia o rei como aque­le que gov­er­na o povo de uma cidade ou de uma provin­cia em vista do bem comum” [2]. Em De Monar­chia (liv. II), Alighieri afir­ma que o Império Romano, ain­da sub­sis­tente no medie­vo gibeli­no, é um poder legí­ti­mo queri­do por Deus para o bem comum. Ora, o Papa se colo­ca igual­mente como uma autori­dade de origem div­ina. Então se dá o dile­ma de como acor­dar o Papa e o Imper­ador. O prob­le­ma que se apre­sen­ta a Dante é saber se o poder vin­ha ao imper­ador ime­di­a­ta e dire­ta­mente de Deus, ou indi­re­ta­mente e através do Papa (lib. III, 1). Nós já vimos de pas­sagem como Dante resolve o prob­le­ma, mas ago­ra vamos vê-lo mel­hor. Con­tra o Papa, Dante invo­ca o rei Salomão, medi­ante cuja “san­ti­dade” (Salomão em ver­dade mor­reu em con­cu­bi­na­to e politeís­ta) se jul­gam os Papas e a cujo serviço é mobi­liza­do o cris­tian­is­mo (aqui nasceu a len­da do Dante esotéri­co, expos­ta por Guénon; sendo Salomão o con­stru­tor do primeiro Tem­p­lo de Jerusalém, ao qual se ref­er­em os ini­ci­a­dos e os maçons em ger­al, que têm como escopo a recon­strução do ter­ceiro Tem­p­lo, como… Sharon ou Netha­ni­ahu).  Além dis­so, os cristãos – segun­do Dante – devem ao Papa não tudo aqui­lo que se deve a Cristo, mas só aqui­lo que se deve a Pedro. “É hábil a fór­mu­la – comen­ta Gilson – usa­da pelo Poeta para lim­i­tar a exten­são da obe­diên­cia ao Papa: ‘tudo aqui­lo que se deve não a Cristo, mas a Pedro’. Pro­por esta cláusu­la como algo evi­dente sig­nifi­ca fechar a questão no princí­pio, porque equiv­ale a afir­mar que exis­tem priv­ilé­gios de Cristo que nem Pedro nem os seus suces­sores her­daram (…) equiv­a­le­ria a excluir os priv­ilé­gios de Cristo her­da­dos por Pedro e pelos seus suces­sores, e aque­le próprio pri­ma­do tem­po­ral que Dante se prepara para negar-lhes” [3]. Mas colo­que­mos em con­fron­to Dante e San­to Tomás:

Powered by WordPress. Designed by WooThemes

Seguir

Obtenha todo novo post entregue na caixa de entrada do seu email.

Junte-se a outros seguidores