P. GIOVANNI PERRONE, S.J.: A REGRA DE PROTESTANTE CONDUZ AO RACIONALISMO


Apologética, Teologia / terça-feira, dezembro 22nd, 2015

 

Arti­go III.

A regra protes­tante de fé, con­sid­er­a­da teo­logi­ca­mente, se demon­stra con­duzir ao racional­is­mo.

Dieta de Worms
Padre Gio­van­ni Per­ro, S.J.
Pro­fes­sor de Teolo­gia no Colé­gio Romano
                                                 Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

O racional­is­mo, seja vul­gar, cien­tí­fi­co ou filosó­fi­co, é a tum­ba das crenças reli­giosas ou da fé cristã. A razão humana se faz para este arbi­tro e juiz supre­mo da rev­e­lação ou para falar com maior pre­cisão dos ter­mos, sub­sti­tui a rev­e­lação por si mes­ma destru­in­do e anulando‑a até mes­mo tiran­do a sua noção. O sobre­nat­u­ral­is­mo por isso não tem mais lugar; lhe sub­sti­tui o puro nat­u­ral­is­mo. Os livros san­tos e as doutri­nas con­ti­das nos mes­mos, não são mais a obra de Deus, mas sim dos fru­tos da razão ele­va­da a mais alta potên­cia. Pois bem: o racional­is­mo nasce de um par­to com o protes­tantismo; ao invés dis­so, deve­mos diz­er que este lhe é o princí­pio ger­ador, e aque­le a sua pro­le nat­ur­al.

Uma sútil análise do protes­tantismo nos con­vencerá da ver­dade do quan­to afir­mamos, ape­sar de que em um primeiro momen­to apareça como uma asserção inven­ta­da. Quem real­mente reflete sobre o rígi­do dog­ma­tismo de Lutero; a firme fé por ele requeri­da para a jus­ti­fi­cação; as fór­mu­las tão fran­cas e se cor­ta do refor­mador saxão; o empen­ho e ener­gia no defendê-la, os due­los, as dis­putas sus­ten­tadas con­tra os man­tene­dores ou intro­du­tores de doutri­nas diver­sas das suas, se fará mar­avil­ha como se pode pro­nun­ciar com ver­dade ter nasci­do a um par­to o protes­tantismo e o racional­is­mo, antes ser aque­le, deste princí­pio ger­a­do. Mas a difi­cul­dade não é senão aparente. Emerge essa do con­fundir-se o fato com o dire­ito, o princí­pio com a apli­cação. Lutero, a fim de jus­ti­ficar a sua defecção ou rebe­lião con­tra a Igre­ja, esta­tui como pon­to de par­ti­da o princí­pio da sola scrip­tura que no espíri­to de qual­quer um enten­di­da e inter­pre­ta­da con­sti­tuí a regra de fé, e que por con­seguinte cada um tin­ha o dire­ito de exam­i­nar, e então, admi­tir como de fé tudo quan­do na bíblia tivesse encon­tra­do dev­er crer, e por con­ver­so rejeitar tudo quan­to jul­gasse a ela não per­tencer.

Sobre este princí­pio começou ele a dogma­ti­zar sem nen­hum respeito a autori­dade da Igre­ja, nem ao teste­munho dos Padres, nem ao sen­ti­do da tradi­cional antigu­idade cristã. A quem pois lhe opun­ha essas fontes, ele respon­dia de tra­to ser tudo isto palavra do homem, enquan­to não se deve crer senão na pura palavra de Deus: lema que foi repeti­do depois por todas as ger­ações protes­tantes, e nós acabamos de ouvi-la dos lábios do bis­po protes­tante Nixon. Mas ele, então, foi fiel a seu princí­pio? Nada menos. Ele, que tin­ha procla­ma­do a pura palavra de Deus, isto é, a bíblia, como úni­ca regra de fé e anun­ci­a­da a liber­dade de exame, deu a própria inter­pre­tação sua como nor­ma de crença, e sub­sti­tui a autori­dade da Igre­ja, impon­do tirani­ca­mente aos seus sequazes o seu próprio dog­ma­tismo. No que qual­quer um vê uma inco­erên­cia patente deste grande refor­mador.

Tal é o fato ou a apli­cação pes­soal do princí­pio feito pelo fun­dador do protes­tantismo; ago­ra vemos o dire­ito e o princí­pio em si mes­mo. Então, a bíblia pela razão indi­vid­ual inter­pre­ta­da, e o seu livre exame con­stituem a regra, o dire­ito, o princí­pio, como eu denomi­no, no protes­tantismo. Ora, ele é pre­cisa­mente esta regra, dire­ito e princí­pio que eu afir­mo con­ter como um germe, o racional­is­mo, o sepul­cro da fé e da própria rev­e­lação. Isto não me é difí­cil de demon­strar seja na teo­ria ou na práti­ca.

E quan­to a teo­ria, quem não vê, que fix­a­do uma vez que a regra do crer e do oper­ar é a escrit­u­ra inter­pre­ta­da segun­do a inteligên­cia de qual­quer um ou da razão indi­vid­ual, lhe segue que cada um se faz juiz da própria fé? Na ver­dade, a quem com­pete em tal hipótese o jul­gar se uma expressão deve ser enten­di­da em sen­ti­do lit­er­al ou em sen­ti­do figurado?Se ten­ha por se inter­pre­tar um con­sel­ho ou um pre­ceito? Se um fato ten­ha para se enten­der como mirac­u­loso ou como natural?A razão indi­vid­ual uni­ca­mente. E para dar algum exem­p­lo; as palavras de Cristo em S. João: Eu e o Pai somos uma só coisa, deve­mos enten­der uma unidade sub­stan­cial ou uma unidade moral? As palavras da div­ina insti­tu­ição da eucaris­tia: Isto é o meu cor­po, são para se enten­derem ao pé da letra ou em sen­ti­do fig­u­ra­do, e tam­bém é ape­nas de um rito mnemôni­co ou remem­o­ra­ti­vo? E assim diga-se de cem e mais cem out­ras pas­sagens das quais da reta inteligên­cia depende um dog­ma, um sacra­men­to, uma grave obri­gação. O decidir sobre estes pon­tos com a regra de que falam­os, depende da inter­pre­tação de qual­quer um. Dis­sentin­do estes em segui­da, como deve nec­es­sari­a­mente acon­te­cer, acer­ca da inteligên­cia de tais pas­sagens, que se dev­erá acred­i­tar? Quem decidirá a con­tro­vér­sia? Torno a repe­tir, a razão de qual­quer um.

Nem tudo esta aqui. Deven­do a razão indi­vid­ual ser juiz, ela, embat­en­do-se em algu­ma pas­sagem a qual con­tenha algo ver­dadeiro, pon­to que não entende, porque excede o obje­to sobre o qual ape­nas pode se pro­nun­ciar, o que fará? Para um dos lados se virá enten­di­do como soa, deve admi­tir como ver­dadeiro aqui­lo que lhe con­trasta, um mis­tério que não com­preende, uma ao menos aparente con­tradição; para out­ro lado muito bem con­heci­do é que não se pode rejeitar o que se encon­tra reg­istra­do aber­ta­mente no códi­go divi­no. Então, a que se ater? Juiz supre­mo como ela é de sua fé, ao invés de se sujeitar si as escrit­uras e a rev­e­lação admitin­do e acred­i­tan­do no mis­tério no pon­to em que não entende, pelo con­trário o con­tradiz como con­trário aos seus dita­mes nat­u­rais, sujei­tan­do a escrit­u­ra ou a rev­e­lação a si mes­ma; então, a inter­pre­ta a guisa, que nada apre­sente que não seja con­forme a quan­to ela entende. Por tal for­ma o mis­tério e o sobre­nat­u­ral­is­mo devem ced­er ao racional­is­mo.

Mais ain­da: se a razão é aque­la que deve em ulti­ma instân­cia pro­nun­ciar a sen­tença defin­i­ti­va entorno ao sen­ti­do das escrit­uras, supon­do-se que em algu­ma pas­sagem se encon­tre mui­ta oposição as propen­sões e as tendên­cias de sua natureza cor­rup­ta, o inter­pre­ta de tal modo, que a oposição e a con­trariedade esvaneçam, de for­ma que se pos­sa aco­modar tran­quil­a­mente  as incli­nações da mes­ma. Que se encon­tra em algum traço que pareça favore­cer as suas paixões, a agar­ra e se lhe faz uma sus­ten­tação para poder agir mais livre­mente. Nestes casos a escrit­u­ra se tor­na noci­va e mor­tal para o homem deter­mi­na­do a viv­er segun­do os seus dese­jos, nem mais, nem menos do que fiz­er­am não poucos dos anti­gos como dos filó­so­fos mod­er­nos a respeito dos dita­mes da razão. Veio esta ser trata­da a força, direi assim, para que servisse com dis­tor­ci­das e vio­len­tas teo­rias a se faz­erem patroas dos mais opro­briosos malfeitores. Por sim­i­lar guisa a escrit­u­ra aban­don­a­da a inter­pre­tação pri­va­da de cada indi­vid­uo se faz servir de véu as mais tor­pes e igno­min­iosas paixões. Assim, não somente a fé, mas a moral vem de tal modo adul­ter­a­da pela regra que serve de base ao protes­tantismo  [1].

Se dirá que estes são abu­sos da regra que por sua natureza não con­duz a tais exces­sos. Con­ce­da-se tam­bém serem estes meros abu­sos; mas eu per­gun­to: con­ced­erá ele, que sus­ten­ta e tra­bal­ha de tal for­ma, que sejam abu­sos ou ao invés, não sus­ten­tará que é inter­pre­tação legit­i­ma da pura palavra de Deus que ele assim vê, que ele assim entende? Quem poderá con­vence-lo do con­trário em razão de sua regra? Não é ela a razão indi­vid­ual que deve jul­gar? Ninguém logi­ca­mente lhe poderá con­tradiz­er. E eis como por tais lógi­cos proces­sos se vem a sub­vert­er e des­or­ga­ni­zar a econo­mia do cris­tian­is­mo espo­lian­do-lhe de todas as real­i­dades sobre­nat­u­rais, de todos os mis­térios, de todos os even­tos extra­ordinários, que super­am o ordinário cur­so da natureza, e todavia, de todos os vat­icínios ou pro­fe­cias as quais se expli­cam pela razão indi­vid­ual ape­nas como felizes con­jec­turas e nada mais. Além dis­so, se espo­lia dos doc­u­men­tos morais ou ao menos se tira a sua base, que é a fé nos mis­térios, os quais min­is­tram pela observân­cia de seus pre­ceitos os motivos mais fortes e mais gal­har­dos.

Que advém do cris­tian­is­mo quan­do se tira os mis­térios da encar­nação e da redenção? Os dog­mas da futu­ra ressur­reição dos cor­pos e da eternidade das penas? Tor­na-se um esquele­to, uma lar­va, uma som­bra. Tor­na-se uma esco­la filosó­fi­ca. Pois bem: aban­don­a­da a escrit­u­ra a inteligên­cia e a inter­pre­tação indi­vid­ual, elas tombam e estragam.
Pois que, já não é a razão por si mes­ma que ao ler a bíblia ten­ha encon­tra­do tais mis­térios e tais dog­mas, mas uni­ca­mente lhe tem do sen­ti­do tradi­cional man­ti­do e propa­ga­do pelo mag­istério sem­pre vivente da Igre­ja. Dê-se a escrit­u­ra sem out­ra expli­cação e comen­tário ao mais sábio dos man­darins chi­ne­ses alheio a tudo da religião cristã, ali encon­trará ele no sen­ti­do em que crê o cris­tian­is­mo o mis­tério de um Deus feito homem, de um só sujeito reunin­do em si a dual­i­dade de naturezas div­ina e humana? Ali encon­trará este homem Deus mor­to para a expi­ação dos peca­dos de todo o gênero humano, em sac­ri­fí­cio de redenção? Par­tic­u­lar­mente pen­so que não; e tan­to menos o pen­so enquan­to vejo home­ns cri­a­dos e nutri­dos des­de a infân­cia nes­ta ideia de cris­tian­is­mo, ver­sa­tilís­si­mo no estu­do da escrit­u­ra, pos­suidores de dotes não ordinários de engen­ho e de erudição, que ain­da não lhe vejo. Dirão os protes­tantes estarem estes de má fé; mas como o provarão? Cer­to é que ess­es o negam e asse­gu­ram de serem assim per­sua­di­dos e con­ven­ci­dos por uma acu­ra­da e pro­fun­da inves­ti­gação da própria escrit­u­ra, que pelo con­trário isto é o resul­ta­do do exame con­scien­cioso que lhe é feito, do seu estu­do bíbli­co. Eu ten­ho a inti­ma con­vicção que Lutero, e o mes­mo diga-se dos out­ros assim chama­dos refor­madores, como já por mais vezes foi incul­ca­do, não teri­am por si mes­mos encon­tra­do tais dog­mas na bíblia, se não lhes tivesse apren­di­do da Igre­ja com o leite. São nis­to os protes­tantes sim­i­lares aos filó­so­fos ou incré­du­los, do sécu­lo XVIII, os quais depois de terem des­de a infân­cia apren­di­do os ensi­na­men­tos da moral cristã, pre­tender­am faz­er abstrações dela, e dar de si, como mestres inde­pen­dentes, lições de éti­ca sub­lime, sem perce­ber a influên­cia que as pas­sadas rem­i­nis­cên­cias exerci­tavam sobre suas mentes.

E que seja real­mente assim, bas­ta refle­tir que muitos entre os protes­tantes com o tem­po e com suas inves­ti­gações perder­am estes dog­mas fun­da­men­tais do cris­tian­is­mo, como é notáv­el, e logo mais o demon­strarei. Ora, eu per­gun­to, como have­ri­am por si mes­mos de encon­trar com sua razão na bíblia tais mis­térios, já rece­bidos e pro­fes­sa­dos, e depois perder com a sua razão explo­rado­ra e com seu estu­do bíbli­co? Ou qual é o cam­in­ho que per­cor­reram para tal perdição? Pre­cisa­mente a regra de fé ado­ta­da pelo protes­tantismo, a razão intér­prete e juíza supre­ma do sen­ti­do da escrit­u­ra. Por este cam­in­ho Lutero, encon­tran­do absur­da a noção de tran­sub­stan­ci­ação na eucaris­tia, rejeitou um dog­ma; por esta via Zwinglio e Calvi­no encon­tran­do absur­da a real e sub­stan­cial pre­sença do cor­po e do sangue do Reden­tor na mes­ma, rejeitaram ambos este out­ro dog­ma: por este cam­in­ho, encon­tran­do Münz­er absur­do que as cri­anças que não tem o ato do crer pudessem ser regen­er­adas pelo batismo, rejeitou ele tam­bém este dog­ma. Exata­mente por este mes­mo cam­in­ho, encon­tran­do Faus­to Soci­no absur­do o dog­ma da trindade das pes­soas div­inas dis­tin­tas em numéri­ca unidade de essên­cia; o dog­ma da encar­nação, pelo qual duas dis­tin­tas naturezas sub­sis­tem em uma só pes­soa, absur­do o dog­ma da redenção oper­a­do pela morte de um inocente, como se Deus tivesse neces­si­dade de tais víti­mas para se rec­on­cil­iar com o homem cul­pa­do, absur­do o pen­sar que por uma cul­pa pas­sageira tivesse uma criatu­ra que ser ator­men­ta­da eter­na­mente, rejeitou, elim­i­nou do cris­tian­is­mo com um só golpe todos estes dog­mas fun­da­men­tais. Já não está na escrit­u­ra, não se encon­tram numerosos tex­tos e sufi­cien­te­mente claros para con­statar-lhe a sua ver­dade, mas a razão indi­vid­ual, supre­ma intér­prete dessa, ou não quer lhes ver ou se lhes vê os entende em out­ro sen­ti­do que lhe enfraque­ce, para que tais nada mais con­tivessem do quan­to tin­ha vis­to se chocar com ela, e lhe levar ao nív­el de seu alcance.

Em suma lhe é irre­pugnáv­el que pelo mes­mo moti­vo onde os primeiros refor­madores der­am ou atribuíram a escrit­u­ra um sen­ti­do diver­so daque­le que ela tem segun­do a inter­pre­tação tradi­cional da Igre­ja a respeito da eucaris­tia, do batismo e das out­ras ver­dades católi­cas, por este e não out­ro moti­vo, os socianos der­am e atribuíram um diver­so sen­ti­do a todas as pas­sagens nas quais se con­tém os mis­térios e dog­mas, onde todos pas­saram estas pas­sagens e todas as out­ras por uma revisão. Então, os dog­mas que foram descon­heci­dos e nega­dos, o foram em razão da regra do protes­tantismo [2].

Vejamos ago­ra a ulti­ma pas­sagem que per­mane­cia a se faz­er pas­sar pelo trân­si­to do socian­is­mo ao mais abje­to racional­is­mo. Se pre­men­do os pas­sos dos primeiros refor­madores, isto é, daque­les que em vir­tude da regra ou princí­pio procla­ma­do por si refor­maram a Igre­ja, os socianos em vir­tude da própria regra refor­maram a refor­ma, os racional­is­tas por sua vez refor­maram a refor­ma da refor­ma. Real­mente toman­do eles a mes­ma nor­ma, a sua razão encon­trou absur­da a ime­di­a­ta comu­ni­cação da divin­dade com o homem.  Encon­traram eles supér­flua uma rev­e­lação sobre­nat­ur­al quan­do Deus já tin­ha sufi­cien­te­mente provi­do o homem com a rev­e­lação inter­na, uni­ver­sal, comum, não a todo gênero humano, mas ain­da bem espe­cial a cada indi­vid­uo. Encon­traram está rev­e­lação inter­na, ou seja, a razão, que é sus­cep­tív­el de aper­feiçoa­men­to e pro­gres­so sem­pre ulte­ri­ores e indefinidos, e porém, que bas­ta a si mes­ma. Encon­traram que real­mente em cer­tas épocas deter­mi­nadas sob os aus­pí­cios de felizes com­bi­nações e medi­ante o impul­so de home­ns dota­dos de gênio supe­ri­or ao comum de seus con­tem­porâ­neos, esta razão fez na espé­cie humana pro­gres­sos mar­avil­hosos. Entre estes home­ns, assim priv­i­le­gia­dos pela natureza e sus­ci­ta­dos pela div­ina providên­cia, a tenor da exigên­cia dos tem­pos em assi­nalar-se, devem con­star um Moisés e um Con­fú­cio, então um Jesus e um Maomé, e enfim um Lutero e out­ros grandes pares. Todos ben­eméri­tos em sumo grau do gênero humano. Os seus livros foram escritos sob a inspi­ração de tal gênio; e porém, naque­la mes­ma guisa que nós dize­mos inspi­ra­dos os poet­as, que chamam divi­no Platão e Túlio, assim são do pare­cer de se dev­er chamar divi­nos e inspi­ra­dos os livros san­tos. De fato, ess­es con­tém doc­u­men­tos morais assaz bons; nem lhe fal­ta a sua poe­sia, a sua parte mitológ­i­ca. Se encon­tram mitos históri­cos, mitos poéti­cos, mitos morais. O primeiro mito é aque­le da cri­ação do homem; um segun­do da for­mação da mul­her; um ter­ceiro na que­da do homem, e assim pas­so a pas­so, até o Evan­gel­ho, o qual da mes­ma maneira é rico de mitos, a anun­ci­ação da Virgem de Nazaré, o nasci­men­to de Cristo, os con­tos prodi­giosos, a ressur­reição, a assunção ao céu, e assim por diante [3].

É bem ver­dadeiro que depois deste racional­is­mo vul­gar surge-lhe um out­ro cien­tí­fi­co e filosó­fi­co no seio da refor­ma. Kant foi o seu primeiro pro­mo­tor, e vem aper­feiçoa­do por Schelling, então por Fichte e por Hegel. Fichte, como já disse, o propõem na apres­sa­da esco­la de se cri­ar Deus. Hegel depois o propõe no desen­volvi­men­to da ideia, que se desen­volve na história. A história por con­seguinte out­ro não é que Deus, ou a ideia que desen­volve a si mes­ma com leis imutáveis e inflexíveis como a geome­tria. O homem não é senão a man­i­fes­tação deste Deus no seu mais alto grau, a qual pas­sageira man­i­fes­tação retor­na no oceano das ondas onde teve origem per­den­do toda per­son­al­i­dade, e neste sen­ti­do, ape­nas o homem é ver­dadeira­mente imor­tal. A história bíbli­ca do vel­ho e do novo tes­ta­men­to faz parte de tal desen­volvi­men­to per­pé­tuo [4].

Depois dis­so poderá ele ain­da falar de fé, de mis­térios, de dog­mas e de moral? Poderá ain­da falar de rev­e­lação, de inspi­ração, de escrit­u­ra e de cris­tian­is­mo? E em ver­dade os nos­sos racional­is­tas sus­ten­tam que o filó­so­fo deve do próprio fun­do, ou seja, da própria razão uni­ca­mente sacar a sua religião. Ela bas­ta a si mes­ma sem que lhe seja ade­qua­do recor­rer a algu­ma aminicu­lo exter­no. A religião pos­i­ti­va ou rev­e­la­da, como eles dizem, eve ser deix­a­da ape­nas para o não filó­so­fo, para aque­les que pelo seu grau de cul­tura não se erguem tan­to para poderem se for­marem por si mes­mos, ou seja, pelo vul­go, ao qual con­vém deixar a bíblia e um cul­to exter­no qual­quer como suple­men­to a sua inca­paci­dade [5].

Ora, esta tum­ba de todas as crenças, como se vê, este sepul­cro do cris­tian­is­mo é uma infer­ên­cia lóg­i­ca, uma rig­orosa con­clusão da teo­ria e da obra práti­ca do protes­tantismo ou mel­hor dizen­do, da regra de fé pela qual nasce o protes­tantismo, se esta­b­elece e se desen­volve. Nos primór­dios não era claro este nexo inti­mo e esta dependên­cia, porque os protes­tantes foram muito ten­ros nos seus primeiros movi­men­tos, e ain­da estavam impreg­na­dos sem aperce­berem-se do princí­pio católi­co, atin­ham-se, ao menos na práti­ca quase por hábito em grande parte ao anda­men­to católi­co. Bem havi­am eles prova­do imen­so hor­ror ao sus­peitar ain­da de longe o abis­mo e a vor­agem que andavam cavan­do com a sua regra, e se em qual­quer lúci­do inter­va­lo esque­ci­am da sua mente, logo dis­tra­iam o pen­sa­men­to. Não apre­cia­ram subita­mente a força de seu princí­pio, e exata­mente por esta cega incon­sid­er­ação eles admi­ti­ram o dog­ma­tismo como foi impos­to pelos seus chefes. Daqui tam­bém tiver­am origem tan­tas profis­sões de fé em seus fre­quentes con­gres­sos, colóquios ou sín­o­dos reparadores; aqui os seus lití­gios inter­mináveis, as suas divergên­cias de sei­ta, a sua intol­erân­cia com todas as con­se­quên­cias que lhe bro­tavam. Perce­bi­am bem que de quan­do em quan­do a fé deles era vac­ilante, que móv­el era o solo sobre o qual cam­in­havam, e que qual­quer ven­to, que pouco inten­so soprasse, ameaça­va arru­inar o edifí­cio mal fir­ma­do; mas tam­bém ain­da não se viam no pre­cipí­cio arru­inante que se prepar­avam. Não com­preen­der­am, dig­amos rap­i­da­mente, a natureza do protes­tantismo. Pre­cisavam do tem­po, aque­le severo desco­bri­dor das coisas, para que colo­casse em aber­to o mal que o protes­tantismo encer­ra­va em seu seio; que fizesse bro­tar, explicar e vir a mat­u­rar os fru­tos que con­tin­ham ape­nas como em sementes no seu nasci­men­to. Pre­cisa­mente três sécu­los de deduções lóg­i­cas fiz­er­am ao fim claro até a evidên­cia toda a mon­stru­osi­dade da regra que exam­i­namos [6]. Ora, em todas as partes os protes­tantes lib­erais e racional­is­tas con­fes­sam aber­ta­mente que os seus maiores não com­preen­der­am a ver­dadeira natureza do protes­tantismo, que foram engana­dos de par­tido quan­do quis­er­am impor o far­do das con­fis­sões de fé pos­i­ti­vas, for­mu­la­rias e dos livros sim­bóli­cos. Assim na Helvé­cia (Ndt.: Suiça), assim na Holan­da, assim na França, assim na Ale­man­ha, e assim tam­bém na Inglater­ra onde o socini­an­is­mo e o racional­is­mo vão gan­han­do ter­reno [7].  Não existe out­ro sin­cero e genuíno protes­tantismo fora daque­le que vem nestes últi­mos tem­pos definido: o poder de acred­i­tar naqui­lo que se quer, e o oper­ar aqui­lo que se acred­i­ta.

Face ao expos­to, não chegam talvez até ao ridícu­lo aque­las polem­i­cas vul­gares do protes­tantismo, em que todos os dias eles pro­duzem seus trata­dos para impug­nar a Igre­ja Católi­ca a respeito de alguns dog­mas secundários e adiá­fo­ra a sub­stân­cia da religião? Lhe vejam todos os inten­tos ao abor­recer o catoli­cis­mo pela invo­cação dos san­tos, pela ven­er­ação que pro­fes­sa as ima­gens e as relíquias sagradas; depois que eles não só rejeitaram todos os sím­bo­los, mas tam­bém cavaram os fun­da­men­tos do cris­tian­is­mo. Não se assemel­ham estes vãos decla­madores àque­les, os quais, enquan­to tem um fogo devo­rador na própria casa que tudo con­some, arde e destrói, como a nada que lhes mova a solic­i­tude, volvessem toda a sua solic­i­tude e ânsia para a casa de um viz­in­ho por algu­mas teias de ara­nhas pen­dentes nas pare­des? Pior se depois tais teias não exis­tis­sem fora de sua imag­i­nação ou de seus olhos. Mas tan­to é o homem, que muitas vezes é engen­hoso em iludir a si mes­mo.

Para as pes­soas instruí­das e ver­sadas na polêmi­ca reli­giosa não existe nada do que dis­se­mos que não con­heçam, mas não é assim para as menos ver­sadas em tal gênero de estu­do. Estes podem, talvez, sus­peitar que exista exagero ao menos em alguns pon­tos toca­dos aci­ma. Emb­o­ra por estes me seja tida a grande peça abaixo da real­i­dade. É coisa cer­ta que o protes­tantismo trans­for­ma­do-se em racional­is­mo em força da sua regra pre­cip­i­tou-se em tais exces­sos a faz­er arrepi­ar qual­quer um que não ten­ha de todo per­di­do todo avanço de fé. A religião cristã se mudou em mera filosofia, a razão tomou o lugar da rev­e­lação. O Cristo some.

Daqui Marhei­necke, céle­bre pre­gador de Berlim, pre­tende explicar nos seus dis­cur­sos os dog­mas luter­a­nos por meio da filosofia ide­al­ista hegeliana, Strauss lhe fez a apli­cação no cris­tian­is­mo inteiro. Ele que na vida de Jesus já tin­ha prova­do, se bem que ten­tan­do, a resta­b­ele­cer um Cristo da religião, depois de ter anu­la­do aque­le da história por meio da críti­ca. Tin­ha ele afir­ma­do que os cristãos dos primeiros sécu­los tin­ham revesti­do de uma for­ma históri­ca a imagem do Mes­sias, que era viva neles, e porém, já tin­ha fal­a­do no sen­ti­do dos hegelianos, que afir­mam que o espíri­to humano, como por pressen­ti­men­to da sua filosofia futu­ra, tin­ha dado uma for­ma históri­ca aos dog­mas do peca­do orig­i­nal, da Trindade e do Homem-Deus. Strauss acu­sa­do por esta pas­sagem no cam­po da filosofia, o con­fes­sou, per­sistin­do não menos a crer que tam­bém per­mane­cia-lhe um dado pos­i­ti­vo na história do cris­tian­is­mo [8]. Mas depois na sua dog­máti­ca se é tira­do o empen­ho de demon­strar que a filosofia tornou-se assim a sober­ana, o Cristo de Hegel can­ce­lará para sem­pre a memória do Cristo evangéli­co.

E eis como, seguin­do logi­ca­mente a regra protes­tante, se perder­am os mis­térios, se perder­am todos os dog­mas, e tam­bém a própria noção de fé, de maneira que já pode o próprio Harms, protes­tante, cen­surar a refor­ma, que se pode escr­ev­er sobre as gar­ras do dito as doutri­nas geral­mente recon­heci­das [9]. E ain­da mais explici­ta­mente Smaltz: O protes­tantismo, escreve, impul­sio­nou á frente o seu gos­to por refor­mas, que isso ago­ra não ofer­ece mais que uma série de zeros sem cifras numéri­c­as [10]. Nem aqui ficou, mas o protes­tantismo pas­sou a trans­for­mar-se não ape­nas em racional­is­mo, mas em um tal filosofis­mo que absorve o cris­tian­is­mo todo e reduz a uma mera idéia o próprio autor do cris­tian­is­mo. As out­ras impiedades que se lhe seguiram serão em out­ro lugar ref­er­en­ci­adas. Entre­tan­to, bas­ta o quan­to dis­cur­samos a pro­va evi­dente do assun­to.

R. Padre Gio­van­ni Per­rone S.J.
Pro­fes­sor de Teolo­gia no Colé­gio Romano

Notas:

[1] Aqui bem cai apro­pri­a­do o quan­to ref­ere Lin­gard na História da Inglater­ra (tom, III, cap. 18, pág. 386. Páris 1843), entorno aos ulti­mos instantes de Cromwell, tenaz do dog­ma calvin­ista da inad­mis­si­bil­i­dade da graça. «O pro­te­tor de Cromwell, escreve ele, esper­a­va em White-hall a hora de ren­der a Deus a sua bela alma. Ven­do sem dúvi­da errar entorno ao seu leito a som­bra ensanguen­ta­da do seu rei e aque­las de tan­tos mil­hares de ingle­ses e de irlan­deses imo­la­dos a sua ambição e a glo­ri­fi­cação do puro Evan­gel­ho, se dirige para um de seus capelães: Diz-me, Ster­ry, é pos­sív­el decair do esta­do de graça? — Isto não é pos­sív­el, responde o min­istro. Então, disse o mori­bun­do: Eu estou em segu­rança; pois eu sei que estive uma vez em esta­do de graça. Nes­ta con­vicção ele empre­gou o que lhe resta­va de vida e com suas forças rezou, não por si, mas pelo povo de Deus.

[2] «Lutero, bem disse New­man no Hist. du développe­ment, se move de uma dupla base, porque o seu princí­pio dog­máti­co era con­tra­di­to pelo seu dire­ito de juí­zo pri­va­do, e o seu princí­pio sacra­men­tal da sua teo­ria da jus­ti­fi­cação. O ele­men­to sacra­men­tal não mostrou jamais sinal de vida; mas na sua morte, aqui­lo que rep­re­sen­ta­va na sua pes­soa, como ensi­nante, isto é o princí­pio dog­máti­co, gan­hou a ascendên­cia, e cada expressão dele sobre pon­tos con­tro­ver­sos tornou-se nor­ma para as seitas das quais em qual­quer tem­po a mais vas­ta (a luter­ana) foi enfim coes­ten­di­da (quase) com a própria Igre­ja. Esta quase idol­átri­ca ven­er­ação foi talvez acresci­da pela escol­ha fei­ta nos livros sim­bóli­cos da sua igre­ja de declar­ação de fé, a qual sub­stân­cia no todo jun­to era sua.» (São palavras de Pusey sobre o racional­is­mo alemão, pag. 21 In nota). «Depois teve lugar uma reação. O juí­zo pri­va­do foi resti­tuí­do ao seu pri­ma­do. Cal­ix­to mede a razão, Spen­er a assim dita religião do coração em lugar da exatidão dog­máti­ca. O pietismo para o pre­sente prevalece; mas o racional­is­mo se desen­volveu em Wolf, que pro­fes­sou provar todas as doutri­nas orto­doxas, por um proces­so de raciocínio, de pre­mis­sas a nív­el com a razão. Logo se con­hece que o instru­men­to que Wolf tin­ha usa­do para a orto­dox­ia, podia com igual plau­si­bil­i­dade usar-se con­tra ela: nas suas mãos tin­ha prova­do o Cre­do; naque­las de Sem­ler, d’Ernesti e out­ros destru­iu a autori­dade da escrit­u­ra. Em que então devia faz­er-se con­sti­tuir a religião ago­ra? Segue uma espé­cie de pietismo filosó­fi­co, ou mel­hor o pietismo de Spen­er, e a orig­i­nal teo­ria da jus­ti­fi­cação encon­tra­da anal­iza­da mais inteira­mente, e saíram várias teo­rias de pan­teís­mo o que era em princí­pio no fun­do da dout­ri­na de Lutero e no seu caráter pes­soal. E este parece ser o esta­do do luteranis­mo no pre­sente, seja vis­to na filosofia de Kant, seja na aber­ta incredul­i­dade de Strauss, como nas reli­giosas profis­sões da nova igre­ja evangéli­ca da Prús­sia. Apli­can­do este exem­p­lo ao argu­men­to ao qual ilus­trar foi adu­to, direi que equanime e orde­na­do anda­men­to, e nat­ur­al sucessão de opiniões pelo qual o cre­do de Lutero foi muda­do na filosofia incré­du­la ou heréti­ca dos seus pre­sentes rep­re­sen­tantes, é uma pro­va que aque­la mudança não foi per­ver­são ou cor­rupção, mas fiel desen­volvi­men­to da ideia orig­i­nal.» Até aqui New­man, como que esparge luz a quan­to trata­mos neste arti­go.

[3] Entorno a este sis­tema míti­co pode se ler com fru­to Ranold­er, Hermeneu­ti­cae bib­li­cae gen­er­alis prin­cip­ia ratio­na­lia, chris­tiana et catholi­ca. Quinque-eccle­si­is 1838. Appen­dix Pseu­do-inter­pre­ta­tio­n­is species, § 75 e segg.

[4] Veja-se entorno a tal racional­is­mo a elab­o­ra­da obra de Chas­say, Défense du chris­tian­isme his­torique, sec. edit., ou Christe et l’é­vangile. Esta obra, como já adver­tido, é ple­na de pre­ciosos doc­u­men­tos que desco­brem o anda­men­to do racional­is­mo alemão e francês da sua origem até estes últi­mos anos. É para ler-se o belo e bem feito pre­fá­cio do céle­bre autor. Ver do mes­mo modo o opús­cu­lo de Steininger, pro­fess. di Treveri, Exa­m­en cri­tique de la philoso­phie alle­mande. Treves 1840. — Amand Saintes, Hist. cri­tique du ratio­nal­isme en Alle­magne. Paris 1841. — A. Ott., Hegel et la philoso­phie alle­mande. Paris 1844.

[5] Para dar um esboço do esta­do em que não tem cura se vai a Prús­sia bas­tará referir aqui­lo que escreve um cor­re­spon­dente do Univers em 18 de jul­ho de 1844:

«Berlin est le cen­tre de la sci­ence protes­tante, qui, comme vous le savez, croit être arrivée au point de se trou­ver bien non seule­ment indépen­dante de toutes croy­ances religieuses, mais encore bien au dessus de toute vérité révélée. La philoso­phie du célèbre Hegel a fait, sous ce rap­port, un mal immense, et que l’on n’a pas encore bien appré­cié, que l’on sent cepen­dant, et que le roi lui-même n’ig­nore aucune­ment. La philoso­phie de Berlin pré­tendait que la rai­son humaine était par­v­enue à un degré de développe­ment et de matu­rité, qui la met­tait en etat de par­venir, par ses pro­pres forces, à la con­nais­sance de toutes les vérités que l’homme avait autre­fois accep­tées comme venant d’une source supérieure, et lui étant com­mu­niquées par la révéla­tion. Il soute­nait, que la rai­son humaine péné­trait bien plus dans l’in­tel­li­gence la plus intime de ces vérités, que ne l’au­raient jamais pu faire les hommes qui, étant éclairés eux-mêmes d’une lumière sur­na­turelle, avaient tâché de les expli­quer.

La reli­gion et la philoso­phie, dis­ait-il, ont le même objet; mais la sec­onde est bien plus supérieure á la pre­mière.… Ces idées ont été adop­tées par la plus part des hommes dis­tin­gués et savants de Berlin; voilà ce qui explique pourquoi ils n’ex­pri­ment ni haine, ni aver­sion pour ceux, qui tien­nent encore à des doc­trines religieuses pos­i­tives; ils pren­nent ces hommes en pitié, tout en hon­o­rant en eux leurs bonnes inten­tions. — Vous avez encore besoin d’une reli­gion révélée, d’un culte extérieur, de céré­monies, vous dis­ent-ils, c’est très-bien, nous com­prenons par­faite­ment l’é­tat dans lequel vous vous trou­vez, car nous y étions aus­si; mais vous en sor­tirez peut-être, si vous pénétrez plus avant dans les études philosophiques, si la lumière de la sci­ence éclaire enfin votre rai­son.»

[6] Aqui tam­bém New­man, na sua Hist. du développe­ment, obser­vou bem que «O princí­pio é mel­hor pro­va da here­sia que a dout­ri­na. Os heréti­cos são fiéis a seus princí­pios; mas mudam aqui e ali, a frente e atrás em opinião: porque doutri­nas assaz opostas podem ser exem­pli­fi­cações do mes­mo princí­pio. Assim, os antio­quenos e out­ros heréti­cos as vezes foram ari­anos, as vezes sabelianos, out­ras vezes nesto­ri­anos, out­ras vezes ain­da monofi­sis­tas, quase ao aca­so por fiel ao seu cap­i­tal princí­pio comum, que não existe mis­tério em teolo­gia. Assim, os calvin­istas se tornaram unitários pelo princí­pio do juí­zo pri­va­do. As doutri­nas da here­sia são aci­dentes e rápi­do cor­rem para um ter­mo; os seus princí­pios são sem­pre per­ma­nentes.

«O protes­tantismo vis­to no seu aspec­to mais católi­co é dout­ri­na sem princí­pios; vis­to no seu aspec­to heréti­co é princí­pio sem dout­ri­na. Muitos fal­adores, por exem­p­lo, usam elo­quente e esplen­di­da lin­guagem sobre a igre­ja e as suas car­ac­terís­ti­cas: alguns deles não real­izam aqui­lo que dizem, mas usam altas palavras e afir­mações gerais sobre fé e ver­dades prim­i­ti­vas, cis­ma e here­sia a qual não dão algum sen­ti­do defin­i­ti­vo; enquan­to out­ros falam de unidade, uni­ver­sal­i­dade e catoli­ci­dade, e usam as palavras no seu próprio sen­ti­do e para as suas próprias ideias.

«O cur­so das here­sias é sem­pre cer­to: é um esta­do inter­mediário entre a vida e a morte ou aqui­lo que é sim­i­lar a morte: ou se não resul­ta em morte, é res­o­lu­to em qual­quer nova, talvez o con­trário, cur­so de erros, que não apre­sen­ta algu­ma razão de ser conexo com aqui­lo. E neste modo um princí­pio heréti­co terá muitos anos de vida, cor­ren­do primeiro em um sen­ti­do, depois em um out­ro.» Sect. 3, § 1 e seg.

[7] Ved. Amand Saintes, Hist. cri­tique du ratio­nal­isme en Alle­magne. Paris 1841, pag. 314 e segg.

[8] Ver os escritos polêmi­cos dele na ter­ceira parte.

[9] Eis as suas palavras: «L’on peut écrire sur l’on­gle du doigt les doc­trines générale­ment recon­nues.» Pres­so l’Hoen­ing­haus, La réforme con­tre la réforme, tom. I, ch. 1, pag. 12.

[10] «Le protes­tantisme a poussé si loin son goût des réformes, qu’il n’of­fre plus main­tenant qu’une série de zéros sans chiffre numéra­teur.» Ibid., pag. 37.

Extraí­do do livro “O protes­tantismo e a Regra de Fé, vol.I Milão-Gen­o­va 1854, pág. 208–220 Parte I. Seção II. Capí­tu­lo III