P. LUIGI TAPARELLI D’AZEGLIO, S.J.: O SIM E O NÃO NO REINO DA OPINIÃO


No category / domingo, novembro 25th, 2018
P. Lui­gi Tapar­el­li D’Azeglio S.J.
Roma 1860
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

 

Que me diz o leitor? A opinião é a rain­ha do mun­do?

 

 Este é um daque­les prob­le­mas equívo­cos, ao qual se pode jus­ta­mente respon­der com um sim não menos com que um não. Para esclarece-lo de suas ambigu­idades, o trans­for­mare­mos em out­ros dois prob­le­mas.  

 

 «Toca a ver­dade das coisas con­for­mar-se a opinião dos home­ns ou a opinião dos home­ns deve con­for­mar-se com a ver­dade das coisas»? Se a opinião pudesse trans­for­mar as coisas, a dúvi­da pode­ria ser razoáv­el. Mas o ser das coisas é inde­pen­dente do nos­so pen­sa­men­to. Opinou-se por sécu­los segun­do o sis­tema ptolo­maico, em segui­da segun­do o coper­ni­cano, nem por isso mudaram os astros o seu cur­so. Então, a opinião não é a rain­ha do mun­do.

 

Ago­ra eis um segun­do prob­le­ma. «O homem se guia nat­u­ral­mente segun­do a sua opinião ou con­tra a sua opinião»? Ou em out­ros ter­mos: «O homem e a mul­ti­dão dos home­ns pode oper­ar sem quer­er um bem, e querê-lo sem con­hecê-lo»?

 

Bas­ta a mais leve tin­tu­ra de antropolo­gia para respon­der que não. Se o homem deve oper­ar como homem, é pre­ciso que queira: para quer­er deve encon­trar algu­ma razão de bem; este bem não o pode encon­trar se não com a razão. Então, o oper­ar do homem e da mul­ti­dão é reg­u­la­do pela razão. Ora, o juí­zo da mul­ti­dão se apela a Opinião públi­ca. Por isso a opinião guia o oper­ar da mul­ti­dão, e é por con­se­quên­cia a rain­ha da sociedade.

Aqui, no entan­to, entra um ter­ceiro prob­le­ma. «A mul­ti­dão é infalív­el nos seus juí­zos? E se errasse, tem ela razão no oper­ar segun­do estes fal­sos juí­zos? Se a mul­ti­dão tem razão em oper­ar assim, isto é, quan­do o seu juí­zo é fal­so, a opinião é ver­dadeira­mente rain­ha; rain­ha de fato e rain­ha de dire­ito. Se não tem razão, o seu erro a con­duzirá no fato, mas a opinião não será rain­ha de dire­ito.

 

Então, aqui está o grande prob­le­ma. Que toque a ver­dade reg­u­lar às ciên­cias espec­u­la­ti­vas, ninguém há que o negue. Que as mul­ti­dões sejam arras­tadas pelas opiniões em que se enlaçam, é um fato que todos veem. Aqui­lo que pode ser prob­lemáti­co é se a esta opinião do vul­go se deva ser con­de­scen­dente ou se deva resi­s­tir. O lib­er­al­is­mo het­ero­doxo não ces­sa de invo­ca-la, como rain­ha; e quan­do tem gri­ta­do em face de seus adver­sários a opinião públi­ca, o espíri­to segun­do o sécu­lo e sim­i­lares fras­es que nada dizem, pre­tende ape­nas a cega obe­diên­cia. O Católi­co por out­ro lado, mes­mo diante de um povo inteiro que negue a ver­dade, está dis­pos­to a com­bat­er a opinião para não sac­ri­ficar os dire­itos da ver­dade.

 

Qual das duas sen­tenças é mais razoáv­el? Exam­inemos os seus fun­da­men­tos.

 

Onde se move o het­ero­doxo para esta­b­ele­cer o reino da opinião? Pare­cera-lhes estran­ho o fato: ele parte da inde­pendên­cia da razão pri­va­da. Sim sen­hor, exata­mente porque a razão de cada um é autôno­ma por dire­ito nat­ur­al, pre­cisa­mente por isso cada um deve depen­der da opinião públi­ca. 

 

Estran­ha con­tradição! Direis vós: devo depen­der, porque sou inde­pen­dente! Mas como pode ela nascer da inde­pendên­cia abso­lu­ta do indi­vid­uo?

 

A gênese é sim­plís­si­ma: a sociedade para os het­ero­dox­os é a união de mil­hares de mil­hões de int­elec­tos autônomos. Ora, entre estas mil­hões de opiniões que dis­cor­dam nec­es­sari­a­mente por mil­hares de razões, é onde nasce a imen­sa difer­ença nos pen­sa­men­tos e afe­tos. E todavia, se umas as out­ras não se aco­modam, nun­ca poderão for­mar a unidade, e darão movi­men­to a máquina social? Um só meio até ago­ra se encon­trou para com­por o dis­sidio dos iguais, quan­do a evidên­cia do dire­ito con­corde­mente não fala; se recorre à con­cil­i­ação, se vem a com­posição, se esta­b­elece um árbi­tro, prom­e­tendo aceitar, qual­quer que seja a sen­tença. E assim pre­cisa­mente devem oper­ar entre protes­tantes os mil­hares, os mil­hões de cére­bros, todos igual­mente infalíveis e tam­bém todos pen­san­do ao seu próprio modo. Bem enten­di­do que quan­do se escol­he o árbi­tro, se lhe acei­ta a sen­tença práti­ca por neces­si­dade, sem levar o int­elec­to a acred­i­tar como ver­dadeira a sen­tença espec­u­la­ti­va. Se acei­ta a primeira, porque a neces­si­dade social a impõe; se recusa a secun­da, porque na razão pri­va­da uma neces­si­dade con­trária se opõe. A ação é livre, logo se per­mite o coman­do: o int­elec­to não se cur­va senão diante do ver­dadeiro, então até que o ver­dadeiro não apareça, o int­elec­to per­manecerá relu­tante. Assim, o arbi­tra­do reg­u­la a obra exter­na e mate­r­i­al, deixan­do livres os int­elec­tos para de den­tro con­denar doutri­nal­mente aqui­lo que prati­ca­mente se exe­cu­ta. O quan­to seja moral tal modo de oper­ar não o con­sid­er­amos ago­ra, mas por hora bas­ta diz­er: isto para o het­ero­doxo é uma neces­si­dade social. 

 

Mas qual será a pes­soa, qual será o árbi­tro, que se dará o Gov­er­no dos het­ero­dox­os? Entre mil­hares de iguais a úni­ca difer­ença que se pode encon­trar é no número. Por isso queren­do uma sen­tença defin­i­ti­va, ou dev­erá se esta­b­ele­cer que muitos obe­deçam a poucos ou que os poucos a muitos. Se si esta­b­elece o reino dos poucos, seria um Gov­er­no irra­zoáv­el, sem força, Gov­er­no impo­tente, Gov­er­no inútil, Gov­er­no que não pode gov­ernar. Res­ta então o Gov­er­no dos muitos sobre poucos, da força sobre a fraque­za: Gov­er­no que, se não é seguro de ter razão, é cer­to ao menos de obter o efeito. Quan­do os muitos empregam a força mate­r­i­al, apelam ao exérci­to; quan­do impõem com influên­cia moral, a opinião.
 

Eis então de onde nasce o reino da opinião: nasce 1º da impos­si­bil­i­dade pre­sum­i­da de con­hecer com certeza o ver­dadeiro e o jus­to, aos quais os int­elec­tos e as von­tades dev­e­ri­am se sujeitar; 2º de cer­ta pre­sunção prováv­el que os muitos adi­v­in­hem mel­hor que os poucos; 3º da segu­rança que, ten­do razão ou não, os muitos tem a força para se faz­erem obe­de­cer, e estão cer­tos por con­se­quên­cia de for­mar na sociedade ao menos aque­la ordem mate­r­i­al, que com a força de todo mate­r­i­al asse­gu­ra os assaltos de qual­quer um.

 

Então, vejais por vós mes­mos ao ulti­mo prob­le­ma pro­pos­to os het­ero­dox­os, como havíamos dito, devem respon­der de si: e o seu argu­men­to pode reduzir-se nes­ta fór­mu­la.

 

Pres­supon­do que a opinião públi­ca obtém a lon­go pra­zo a pre­pon­derân­cia na obra, e que a sociedade exige abso­lu­ta­mente unidade de oper­ação social; qual­quer um que não queira renun­ciar a sociedade deve obter a har­mo­nia da opinião públi­ca com oper­ação; ou coman­dan­do a própria opinião para que se adeque ao dire­ito ou mudan­do ou o dire­ito para que se adeque a opinião. Ora, entre os het­ero­dox­os não se pode coman­dar a opinião segun­do o dire­ito: então é pre­ciso mod­i­ficar o dire­ito segun­do as opiniões. O argu­men­to, como pode se ver, é estri­ta­mente lógi­co, se si pres­supõe o princí­pio da racional inde­pendên­cia dos home­ns e da sua natureza sociáv­el. 

  

Vemos muito bem que o nos­so leitor encon­trará nis­so con­tradições e tira­nias. «Como? Dirá, o int­elec­to inde­pen­dente per natu­ra, é per natu­ra obri­ga­do a obe­de­cer! O int­elec­to que adere nec­es­sari­a­mente ao ver­dadeiro dev­erá por obe­diên­cia aderir ao fal­so! Ou se não é obri­ga­do a aderir o int­elec­to, dev­erá a von­tade ced­er àqui­lo que ele jul­ga iníquo e mal­va­do! E a opinião terá o dire­ito de coman­dar a iniq­uidade e de con­stringir a oper­ar con­tra a con­sciên­cia! E tudo isto pre­cisa­mente em nome daque­la inde­pendên­cia nati­va que se exige como dire­ito inalienáv­el, a liber­dade de con­sciên­cia»! Estas con­tradições, este despo­tismo eno­ja a cada leitor católi­co: e de tal des­gos­to nasce o gri­to de indig­nação, com que todos os católi­cos con­denaram a tirâni­ca perseguição daque­les gov­er­nantes que na Itália cen­tral querem a todo cus­to extorquir do clero cer­tos Te Deum, sob a acusação de que isso não se pode can­tar sem ofend­er a legí­ti­ma autori­dade ecle­siás­ti­ca e a própria con­sciên­cia. Mas qual­quer que seja o des­gos­to que lhe provais, podemos nós can­ce­lar as leis do pen­sa­men­to? Podemos nós faz­er que de um con­ceito con­tra­ditório (criatu­ra inde­pen­dente, ou seja, criatu­ra não criatu­ra) não sur­jam con­se­quên­cias con­tra­ditórias? Ou que para a sociedade não seja necessária a dependên­cia? Ou que entre iguais se encon­trem razões de difer­ença? Ou que a difer­ença de número se torne difer­ença de méri­to e de dire­ito? Ou que o depen­der de quem não tem méri­tos ou dire­itos não seja escravidão? Todas estas con­se­quên­cias fluem a rig­or da lóg­i­ca do princí­pio de inde­pendên­cia het­ero­doxa. Se vós não gostais, não existe out­ro remé­dio que o can­ce­lar a lóg­i­ca, ou can­ce­lar o princí­pio: mudar o princí­pio não se quer, a lóg­i­ca não se pode. Por­tan­to, os het­ero­dox­os devem se res­ig­nar e aceitar o reino das plu­ral­i­dades emb­o­ra desproposi­ta­do e despóti­co. 

 

Notem a este propósi­to: às vezes se ri da Idade Média que a sen­ten­ciar sobre um arti­go de fé, ou sobre um pon­to de dire­ito, invo­ca­va ou a nat­ur­al voraci­dade das chamas ou a espa­da de um pal­adi­no em um torneio: como se o val­or do pal­adi­no ou o com­bi­nar-se do oxigênio fos­sem boas razões para con­cluir uma ver­dade doutri­nal. Ora, parece a vós muito mais sábio o sécu­lo pre­sente, quan­do, para dez bolin­has a mais que se agi­tam em uma urna por qual­quer igno­rante ou des­cuida­do, infere a san­ti­dade de uma lei que com dez bolin­has a menos, seria reprova­da como funes­ta ou mal­va­da?

 

Mas a absur­da tira­nia con­tra os int­elec­tos e as con­sciên­cias  sal­vará ao menos aque­la parte do bem públi­co que pode­ria diz­er-se inter­esse mate­r­i­al? Mes­mo isto, notem, depende mais de cer­tas leis esta­b­ele­ci­das pela natureza, que nem mes­mo o sufrá­gio uni­ver­sal de todo um povo pode­ria mudar. Fazei por exem­p­lo, que com toda a essa plen­i­tude de assen­ti­men­to se pre­scre­va a uma inteira nação que ao invés de beber água beba áci­do prús­si­co: a uni­ver­sal­i­dade do erro bas­tará a este povo para sobre­viv­er aos tor­men­tos do veneno? É talvez menos funesto o ópio aos Chi­ne­ses, porque uni­ver­sal é a mania de embria­gar-se?

 

Ora, aqui­lo que se diz das causas mate­ri­ais quer se diz­er igual­mente das causas morais. Se a lei do divór­cio descom­pag­i­nar a família, se das famílias descom­pag­i­nadas resul­ta grave des­or­dem na sociedade civ­il; mes­mo que seja o quan­to se queira inocente o erro do leg­is­lador, que arreda­do por sofis­mas intro­duz o divór­cio no códi­go, não resul­tará por isto menos funesto a sociedade o ter ingeri­do este áci­do prús­si­co. Poderá des­cul­par-se o leg­is­lador se era ver­dadeira­mente inocente (é pos­sív­el?) no aban­donar as nor­mas do Evan­gel­ho e da Igre­ja: mas se fos­se mes­mo inocente como uma pom­ba, os efeitos da lei não mudari­am, e a con­fusão das famílias propa­gari­am a con­fusão na sociedade.

 

Então?…

Então, a prevalên­cia da plu­ral­i­dade não tor­na per sé jus­ta e van­ta­josa a lei. Con­tu­do, isto mes­mo sendo necessário a uma lei qual­quer, afim de que a sociedade não se dis­sol­va, o het­ero­doxo será con­stri­to a aceitar, ain­da que injus­ta e noci­va, a sen­tença do vul­go: e isto é o despo­tismo da mul­ti­dão. Ou se algu­mas pes­soas pru­dentes e res­o­lu­tas tem em mãos o gov­er­no do Esta­do e querem con­seguir inten­tos diver­sos daque­les do vul­go, devem negar no fato (e isto é despo­tismo de palá­cio), a liber­dade de pen­sa­men­to con­segui­da pela lei, fechan­do os cír­cu­los, seques­tran­do jor­nais, monop­o­lizan­do a instrução públi­ca, obsta­c­ulizan­do a pub­li­cação dos livros, endereçan­do a seu modo a moral­i­dade dos teatros, etc, afim de que a opinião que deve mover a sociedade seja tal, que a con­duza onde ess­es a querem. E isto é final­mente aqui­lo que é feito por todos os per­i­tos gov­er­na­men­tais sejam lib­erais ou católi­cos, com a difer­ença de que os Católi­cos em assim se reg­u­lar são coer­entes, enquan­to os het­ero­dox­os se con­tradizem.

 

 Então, por últi­mo, admi­ti­do o princí­pio het­ero­doxo da razão inalien­avel­mente autôno­ma, o úni­co meio de sal­var a sociedade é o negar com uma facha­da con­tradição esta autono­mia, esta­b­ele­cer o reino da força a despeito de qual­quer dita­do dos int­elec­tos ou das con­sciên­cias.

 

Atente bem, leitor, a esta ulti­ma ilação, a qual chega a evidên­cia do con­to quan­to aqui­lo que dize­mos ante­ri­or­mente, onde foi por nós cita­da a liber­dade ao tri­bunal da Igre­ja; e que repe­tire­mos ain­da muitas vezes arras­ta­da por mil­hares de erros e deli­tos, dos quais não se desviará enquan­to não estiv­er con­ven­ci­da que esta famosa liber­dade de 1789 é na ver­dade um absur­do e cel­er­a­do despo­tismo. Se assim a enten­dessem os pane­giris­tas daque­las famosas con­quis­tas ou se dig­nassem ao menos a  respon­der os nos­sos argu­men­tos! Mas porque ess­es se con­tentam de repe­tir os erros, a vós não será desagradáv­el que nós, quan­do a ocasião se apre­sen­ta, reforce­mos a refu­tação sem­pre com novos argu­men­tos. Se obtivésse­mos final­mente de faz­er com­preen­der bem que o pre­tendi­do reino da liber­dade é ver­dadeiro despo­tismo, encon­trarias mais um lib­er­al sin­cero que quisesse rene­gar as anti­gas doutri­nas católi­cas, para com­prar-se com tal apos­ta­sia a escravidão?

 

 Repeti­mo-lo então: admi­ti­da a inde­pendên­cia het­ero­doxa ple­na e igual para todos no pen­sa­men­to, na con­sciên­cia e na obra, não é mais pos­sív­el a sociedade, se não se encon­tra um árbi­tro a qual sujei­ta-la. Este árbi­tro não pode ser a ver­dade, porque a inde­pendên­cia do pen­sa­men­to con­cede a cada um o dire­ito de crer ver­dadeira a própria razão. Não sendo lig­a­dos aos home­ns pelo dire­ito da ver­dade, e sendo tam­bém necessário um vín­cu­lo de unidade social, out­ra coisa não per­manece que a força da plu­ral­i­dade. Ora, a força impos­ta sem os dire­itos do ver­dadeiro e do jus­to é força despóti­ca. Então, admi­ti­da a liber­dade het­ero­doxa, ou seja, igual inde­pendên­cia de todos os int­elec­tos, a sociedade não existe senão com a aju­da do despo­tismo: e por con­se­quên­cia os pre­ten­sos pro­mo­tores da liber­dade devem nec­es­sari­a­mente se tornar os tira­nos dos seus con­ci­dadãos.

  

 Se a teo­ria cor­re­sponde ao fato, o ver­e­mos den­tre pouco. Se a teo­ria, em si admite qual­quer répli­ca, nós ped­i­mos aos nos­sos adver­sários para expli­ca-la, con­trapon­do pon­to por pon­to a nos­sa breve e límp­i­da demon­stração.

 

 

 Vejamos ago­ra qual é a respos­ta do Católi­co a este prob­le­ma.  «A opinião tem ela o dire­ito de sem­pre guiar o oper­ar das mul­ti­dões»? Qual­quer que seja a mul­ti­dão dos int­elec­tos, a ver­dade tem o dire­ito de coman­dar a todos, porque ela é cer­ta. Ora, depois da rev­e­lação div­ina todas as ver­dades reli­giosas e morais necessárias para viv­er hon­es­ta­mente estão cer­ta­mente em posse da Igre­ja, que é colum­na et fir­ma­men­tum ver­i­tatis. Então, todos os home­ns nas matérias morais devem depen­der da Igre­ja, jul­gan­do e operan­do a nor­ma dos seus ensi­na­men­tos. Mas a estes ensi­na­men­tos pode muitas vezes opor-se a opinião. Logo, ain­da que esta gov­erne de fato, nem sem­pre gov­er­na de dire­ito. Tem tam­bém o gov­er­no quan­do se tra­ta de matéria, onde não é empen­ha­da a con­sciên­cia, ou não é cer­ta a ver­dade. Mas quan­do se tra­ta de hon­esti­dade moral, quan­do esta hon­esti­dade é firme­mente asse­gu­ra­da pelo orácu­lo da Igre­ja; então grite tam­bém um povo inteiro reus est mor­tis, injus­ta será a sen­tença e cada âni­mo hon­esto sen­tirá o dev­er de resi­s­tir.

 

 Segun­do o Católi­co então, a opinião poderá ser a tirana do mun­do, governando‑o de fato, mas não lhe será jamais a rain­ha, não haven­do per sé o dire­ito de gov­erná-lo. Destas duas teo­rias resul­tam como cada um vê, duas polit­i­cas: a católi­ca a qual se engen­ha de reg­u­lar os acon­tec­i­men­tos segun­do os princí­pios, a cus­to de qual­quer sac­ri­fí­cio; e a het­ero­doxa pronta a sac­ri­ficar os princí­pios, con­tan­to que se obten­ha o favor dos home­ns. A primeira expres­sa pelos France­ses com o cav­al­heiresco aforis­ma fais que dois, advi­enne que pour­ra,  e aque­la de que nos dá o belo ensaio do reinante Pon­tí­fice [Ndt.: Pio IX] expon­do-lhe a todos os des­déns dos poderosos com seu gen­eroso non pos­sumus. Esta polit­i­ca é fun­da­da sobre a inter­venção da Providên­cia nas coisas do mun­do e sobre a promes­sa evangéli­ca haec omnia adi­icien­tur vobis. A políti­ca het­ero­doxa por out­ro lado, é aque­la do pro­gredir com o sécu­lo, do não opor-se a opinião, do secun­darizar os dese­jos do povo; for­mu­las todas que sig­nifi­cam em bom vul­gar colo­car de lado os princí­pios, para com­prar pop­u­lar­i­dade e ben­e­fi­ciar os próprios inter­ess­es.

 

Con­sid­er­amos até ago­ra a sen­tença teóri­ca das duas esco­las; e a con­tradição entre elas não pode­ria ser maior. Mas qual dev­e­ria ser a sua apli­cação práti­ca? O vê qual­quer um: o Católi­co per­sua­di­do que uma opinião fal­sa não tem o dire­ito de gov­ernar o mun­do, deve se valer de todo homem, para cor­ri­gir a opinião, expelin­do-lhe o erro: de for­ma que o reino de fato se jun­tasse o reino de dire­ito, e a Ver­dade, reinan­do sobre os int­elec­tos, segun­do o que a ela com­pete, reinasse igual­mente no fato das obras. Este pleno con­sen­so da ver­dade, dos int­elec­tos e da obra pro­duziria na sociedade uma per­fei­ta e nat­u­ralís­si­ma har­mo­nia e, todavia, a plen­i­tude pos­sív­el da feli­ci­dade.

 

O het­ero­doxo por out­ro lado, per­sua­di­do que a razão é inde­pen­dente e que a plu­ral­i­dade das razões tem o dire­ito de coman­dar, deve deixar libér­ri­mo o pen­sa­men­to e a palavra, acei­tan­do da plu­ral­i­dade o decre­to, qual­quer que seja, da opinião públi­ca.

 

 Sim cer­ta­mente, assim requer a lóg­i­ca, pres­su­pos­tos os princí­pios. Mas o homem é ele sem­pre lógi­co? E as paixões sem­pre aceitam o jul­go dos princí­pios? Con­fes­samo-lo fran­ca­mente e dig­amos com o Evan­gel­ho a nos­sa con­fusão pru­den­tiores fil­ii tene­brarum. Os Católi­cos que negam a opinião os dire­itos de sobera­nia, lhe aceitam muitas vezes o jul­go como escravos; e ape­nas sen­tem-se inti­mar que o sécu­lo quer, que o pro­gres­so orde­na, etc, se res­ig­nam a tira­nia e cur­vam o pescoço ao jul­go sem silen­ciar. Os het­ero­dox­os por out­ro lado, enquan­to dizem em teo­ria que reina a opinião, com­preen­dem muito bem exi­s­tirem mil maneiras de dom­iná-la; e apli­can­do a ela o seu aforis­ma: «o Rei reina e não gov­er­na», empen­ham todas as artes para dom­iná-la, seguros de pos­suir o mun­do, acor­rentan­do a nos­sa opinião. 

 

Demos uma olha­da neste pro­ced­er das duas esco­las igual­mente coer­entes de ambas as partes. Vejamos ago­ra, em qual Modo os het­ero­dox­os que dev­e­ri­am obe­de­cer, a opinião, lhe coman­dam; e os Católi­cos que dev­e­ri­am lhes coman­dar, lhes obe­de­cem. E a con­tem­plação deste doloroso espetácu­lo nos enco­ra­ja a resi­s­tir a tira­nia dos primeiros e para des­per­tar a apa­tia dos segun­dos.

 

E quan­to a tira­nia dos primeiros, não há quem não sai­ba como ela pro­cede. Per­suade-se da neces­si­dade de dom­i­nar as mentes para dom­i­nar a sociedade, ape­nas ven­do bril­har uma esper­ança de agar­rar o timão do Esta­do, vós lhes vedeis lançarem-se com uma espé­cie de obsessão febril sobre todos os meios de pub­li­ci­dade e de influên­cia sobre os int­elec­tu­ais. Esco­las públi­cas e pri­vadas, jor­nais cotid­i­anos, sem­anais, men­sais, acad­e­mias cien­tí­fi­cas e literárias, edições repeti­das de obras favoráveis, silên­cio ou descrédi­to con­tra as obras con­trárias, decla­mações de saltim­ban­cos para o vul­go; tragé­dias e comé­dias para a classe civ­il, músi­cas e romances para damas e dândis; tudo se procu­ra para que se cante em unís­sono, para que se forme um só juí­zo, uma só opinião. E se às vezes chegam a encon­trar pelos esgo­tos soci­ais qual­quer recusa do san­tuário, um padre após­ta­ta que pro­fane o Evan­gel­ho do púl­pi­to, ou blas­feme de jale­co entre as diver­tidas brigadas, chegam então a plen­i­tude dos seus votos, e vão alarde­an­do que tam­bém os padres estão ple­na­mente de acor­do com a opinião.

 

Leiam as Memórias para uma história do Jacobin­is­mo, que foram, pode se diz­er, as primeiras denun­cias solenes da imen­sa con­ju­ração ilu­min­ista; per­cor­rei em segui­da toda a história dos asso­la­men­tos europeus: inter­ro­ga­dos final­mente todos aque­les, dos quais foi ensi­na­da em teo­ria, ou exerci­ta­da na práti­ca a arte (ver­dadeira arte hoje em dia que se ensi­na por princí­pio, que tem pron­tos os méto­dos, exper­i­men­ta­dos os meios, cal­cu­la­do o tem­po e asse­gu­ra­dos os resul­ta­dos) de dev­as­tar uma sociedade tran­quila: tudo demon­strará que é necessário padronizar as mentes antes de coman­dar nas praças. E para não nos dis­tan­cia­r­mos dos exem­p­los que nos ofer­ece a pre­sente agi­tação ital­iana, escu­tai como lhe prepar­a­va a des­or­ga­ni­za­ção um daque­les tan­tos livre­tos anôn­i­mos que enx­am­eavam a França em 1859, inti­t­u­la­do La Foi des Traités. No § 6° (pag. 27) o anôn­i­mo se ocu­pa em explicar de qual modo a gente cris­tianís­si­ma irá pro­mover na Itália a san­ta lei de cari­dade e de amor. «Acred­i­tai vós, diz, que tal dev­er ten­ha ele a cumpri-lo com a guer­ra? Não temeis: a opinião vai mat­u­ran­do aque­les princí­pios que foram gri­ta­dos pela san­ta aliança. Fiéis a estes princí­pios essa lhe prepara com idéias a propa­gação: e quan­do estas idéias pro­duzirem o seu fru­to, empos­san­do-se dos int­elec­tos e atrain­do os povos para mudar lhes em ato, de for­ma que comece a mudar e agi­tar-se, cimen­tan­do a paz da Europa; então se qual­quer oposição anti­cristã (não sabe­mos de qual cris­tian­is­mo fala o autor) vetasse o con­duzir lhe a efeito, ali estará a França acor­ren­do e fazen­do-se o primeiro sol­da­do da PALAVRA DE VIDA.

 

 «Não ago­ra, vigiai, que se queira subita­mente desem­bain­har a espa­da: esta se reser­va para depois. Antes por quan­to é pos­sív­el a França tra­bal­ha com potên­cias da ideia e da lín­gua; onde res­p­lan­dece para todos nos int­elec­tos e nos corações o dire­ito, a justiça, a cari­dade a seu modo, mostran­do aos out­ros a sua van­tagem. E quan­do a força de falar con­seguir iso­lar seus inimi­gos, a faz­er vac­ilar as con­sciên­cias, a faz­er titubear coman­dantes e defen­sores; então a França desem­bain­hará a espa­da e a vitória será inques­tionáv­el. Esta políti­ca a pro­fes­samos sem dis­sim­u­lação, sem mis­tério e a alta voz. A opinião é a rain­ha do mun­do e quem dela toma posse tri­un­fa. O tin­ha escrito a lon­go tem­po Napoleão I nas memórias de S. Hele­na: «O primeiro Sober­a­no que no grande com­bate abraçar de boa fé a causa dos povos (Ou de quem se diz o povo) se encon­trará como sumo chefe de toda a Europa e poderá quan­do quis­er ten­tar. Abraçar então de boa fé a causa dos povos, eis a mis­são da França».

 

Assim aque­le anôn­i­mo. Ago­ra direis, pode­ria explicar-se mais can­di­da­mente em qual modo este regen­er­ador entende con­ced­er a liber­dade às ideias e aos povos. Con­ced­er tal liber­dade sig­nifi­ca, como podem ver, no vocab­ulário deles, sur­preen­der antes com a fraude e con­stringir depois com a força todos os povos a uni­formizarem-se as idéias france­sas ou mais as ideias rev­olu­cionárias. Até que estes não pen­e­trem no povo, se pede liber­dade para pub­licar lhes: quan­do, pub­li­ca­dos, começam a agi­tar-se e com­pro­m­e­ter a paz da Europa, a dout­ri­na con­trária se diz oposição anti­cristã; e o sol­da­do da ver­dade se mostra pron­to a desem­bain­har a espa­da para com­prim­ir toda dout­ri­na con­trária. Quan­do esta é con­stri­ta a silen­ciar, quan­do políti­cos, mag­istra­dos, sol­da­dos, ali­a­dos que a defen­d­em, se encon­tram iso­la­dos naque­le silên­cio, nem surge mais uma voz que fala por eles (seront démoral­isés), então a espa­da é embain­ha­da, e a opinião tri­un­fa com a liber­dade da cim­i­tar­ra.

 

Aqui­lo que o livre­to anôn­i­mo prome­tia em 1839, os ital­ianís­si­mos o con­seguiram com a sua primeira chega­da ao vér­tice do poder. Em Flo­rença o Barão Bet­ti­no declar­a­va fran­ca­mente que é proibido na Toscana o ingres­so e a cir­cu­lação de todo opús­cu­lo políti­co e reli­gioso pub­li­ca­do em Roma e nos out­ros lugares, etc. E sabeis por quê? Porque aque­les opús­cu­los con­fun­dem as ver­dades eter­nas da religião com os tran­sitórios inter­ess­es mun­danos, ultra­jan­do com o erro a fé e a civ­i­liza­ção… Con­tra estas armas tem neces­si­dade e dire­ito de pre­mu­nir-se os Esta­dos da Itália cen­tral. Assim o Ric­a­s­oli. 

 

Ora, todo leitor sen­sato deve diz­er em seu coração: mas caro Bas­cià Bet­ti­no, se estas armas podem faz­er tan­to mal que garan­tem até mes­mo o dire­ito de pre­mu­nir-se tiran­do a opinião dos vos­sos adver­sários, todos os meios de man­i­festarem-se, para que nos diz­er que a impren­sa deve ser livre e a opinião rain­ha?

 

E este mes­mo argu­men­to, se pode­ria usar con­tra os Fari­ni na Emília Romagna, con­tra os Miglio­rati em Fer­rara e em suma con­tra todos os lib­erais quan­do chegam ao poder, que em breve se apres­sam em tomar posse de todos os meios para gov­ernar a opinião, pre­cisa­mente porque sabem que quem quer gov­ernar os home­ns deve gov­ernar a opinião; sendo que, a tor­to ou a dire­ito, a opinião gov­er­na de fato, não poden­do o homem oper­ar difer­ente­mente daqui­lo que quer, ou quer­er de out­ro modo aqui­lo que pen­sa.

 

E aqui notais a ridícu­la con­tradição. A razão que eles alegam para dar ple­na liber­dade às opiniões é que «afas­ta­da a liber­dade de expressão não exi­s­tirá mais bar­reira con­tra a tira­nia. Por out­ro lado, enquan­to durar a liber­dade de expressão, toda tira­nia tem fim, sendo impos­sív­el que não sur­ja con­tra ela um protesto uni­ver­sal». E então, quan­do o protesto começa e se faz bar­reiras a liber­dade, eles apelam ao dire­ito de pre­mu­nirem-se, aprovei­tan­do as lín­guas e as pren­sas, pre­cisa­mente porque o públi­co iria quer­er valer-se delas para defend­er-se da tira­nia.

 

 Os lib­erti­nos, então, tem razão na práti­ca: todo o seu erro está na con­tradição teóri­ca e na cel­er­a­da hipocrisia, com que prosseguem a van­glo­ri­arem-se como doadores da liber­dade, enquan­to na ver­dade são fab­ri­cantes de cadeias e tira­nos para os seus con­ci­dadãos. Mas com­pade­ce­mo-nos: a con­tradição é uma neces­si­dade do par­tido e quase dire­mos da sociedade; a qual não pode estar sem um gov­er­no: se então não gov­er­nam os bons, é pre­ciso que gov­ernem os maus.

 

Aque­les que de modo algum mere­cem com­padec­i­men­to, sabem quem são? Somos nós, nós defen­sores da ordem, nós crentes católi­cos que de um lado pro­fes­samos em teo­ria, todas as opiniões devem se cati­var em obséquio a fé  [In Cap­tiv­i­tatem redi­gentes omnem intel­lec­tum, in obse­quium Christi. II Cor. X, 5], e ape­nas com tal con­formi­dade obse­quiosa pode-se con­seguir a tran­quil­i­dade e a per­feição da ordem social; e por out­ro lado recusamos na práti­ca todos aque­les meios empre­ga­dos para um mal fim dos nos­sos adver­sários, porque são abso­lu­ta­mente necessários ao bom anda­men­to da comu­nidade civ­il. Vejais leitor, a estran­ha e deploráv­el antin­o­mia! Aque­les que pro­fes­sam, as opiniões devem ser livres, encar­ce­r­am a liber­dade para não sac­ri­fi­carem os seus inter­ess­es mate­ri­ais; nós que pro­fes­samos em teo­ria que as opiniões não devem ser livres, sac­ri­fi­camos a teo­ria, e com ela sac­ri­fi­camos ain­da os inter­ess­es. Ó real­mente que pru­den­tiors fil­ii tene­brarum!

 

O leitor per­spi­caz e exper­i­men­ta­do nas coisas do mun­do com­preen­derá muito bem as apli­cações práti­cas destas nos­sas con­sid­er­ações: mas os menos exerci­ta­dos e agu­dos, não lhe medin­do toda a exten­são, poderão talvez rep­utar-lhes como quere­las fan­tás­ti­cas de obscu­ran­tista melancóli­co. Por­tan­to, será útil deixar claro o nos­so pen­sa­men­to mostran­do as opiniões ora fal­sas, ora equívo­cas que por cul­pa nos­sa adquirem um império, e a neg­ligên­cia dos meios com que pode­ri­am propa­gar-se as opiniões con­trárias. Mas o mostrar isto, o cortês leitor nos con­sin­ta fazê-lo em out­ro tem­po e em out­ro cader­no.