PREGUIÇA E ABATIMENTO: OS DEFETOS DO HOMEM E DO RELIGIOSO CONTEMPORÂNEO


Espiritualidade / sábado, setembro 28th, 2013

PADRE CURZIO NITOGLIA

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

2 de jul­ho de 2012

http://www.doncurzionitoglia.com/pigrizia_e_abbattimento_difetti.htm

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São viv­i­fi­ca­dos pelo Espíri­to aque­les que não atribuem ao próprio eu toda ciên­cia que sabem e dese­jam saber, mas a ref­er­em, com a palavra e o exem­p­lo, ao Altís­si­mo Deus, ao qual per­tence todo bem” (S. Fran­cis­co de Assis).

·         A fonte da preguiça e da ací­dia, que é a preguiça espir­i­tu­al, são o orgul­ho, o amor próprio, a vida tran­quila, a avareza e o apego exces­si­vo aos bens des­ta ter­ra, o não quer­er ter inimi­gos e então chegar a com­pro­mis­sos ou ao menos a pactos com os inimi­gos de Deus. O aba­ti­men­to, ao invés, nasce da pre­sunção exces­si­va de si mes­mo ou de uma pusi­la­n­im­i­dade e timidez que é fal­sa humil­dade, e que às vezes pode ser mais perigosa que o próprio orgul­ho.

 ·         As Sagradas Escrit­uras, ao con­trário dis­so, nos advertem: “mili­tia est vita homin­is super ter­ram!”. Infe­liz­mente o espíri­to do catoli­cis­mo-lib­er­al e do mod­ernismo, que querem desposar o Cris­tian­is­mo com a mod­ernidade, está impreg­na­do de rendição, paci­fis­mo pusilân­ime nat­ur­al e sobre­nat­ur­al e é inimi­go uni­ca­mente do espíri­to com­bat­i­vo con­tra “o mun­do, o demônio e a carne”.

 

·         A ací­dia é um risco que cor­rem tam­bém os con­sagra­dos que vivem em con­ven­to. É famoso o afres­co na S. Cav­er­na de Sub­ía­co, que rep­re­sen­ta S. Ben­to curan­do um mon­ge acidioso com a vara, obrigando‑o a ir aos ofí­cios da comu­nidade, aos quais facil­mente se sub­traía, pelo som de chico­tadas sobre as costas.

 

·         No con­ven­to a vida reg­u­lar mar­ca­da pelos mes­mos pre­cisos e invar­iáveis horários, sem­pre iguais, que pode pare­cer “ monó­tona” e fora do con­ven­to os xadrezes da vida apos­tóli­ca podem levar o con­sagra­do tam­bém ao aba­ti­men­to e ao des­en­co­ra­ja­men­to. Mas isto é fru­to de um equívo­co: os insuces­sos exter­nos não devem nos abater: mes­mo Jesus teve muitos. Todavia nos ensi­nou “se o grão de tri­go não cai na ter­ra e morre, ele não pro­duz fru­to”. Ao invés dis­so, ele nos salvou pro­pri­a­mente através do insuces­so humano do Calvário, aban­don­a­do por todos. Cruz vem do latim Cru­cia­ri e sig­nifi­ca ser ator­men­ta­do. Para ir para o céu é pre­ciso pas­sar pelos tor­men­tos mate­ri­ais e aque­les – ain­da mais duros – espir­i­tu­ais.

 

·         Para evi­tar o peri­go da ací­dia e do des­en­co­ra­ja­men­to, que podem levar a deses­per­ação, é opor­tuno con­hecer a teolo­gia ascéti­ca e mís­ti­ca, que nos expli­ca os fal­sos con­ceitos da vida espir­i­tu­al e dela nos pre­mu­ne. Além do que é mais necessária que nun­ca a cari­dade sobre­nat­ur­al, que nos faz amar Deus por si mes­mo e não pelas con­so­lações que nos pode dar. Se bus­camos nós mes­mos na vida reli­giosa (“gula espir­i­tu­al”), então as primeiras difi­cul­dades, (aridez, insuces­sos apos­tóli­cos…), caí­mos na ací­dia e no des­en­co­ra­ja­men­to. Ao invés dis­so, como ensi­na S. Agostin­ho “ubi amatur non lab­o­ra­tori et si lab­o­ra­tori labor amatur” (“onde se ama nun­ca se cansa e onde se cansa, seja ama­da tam­bém a fadi­ga”). É pre­ciso não cur­var-se jamais sobre si mes­mo: as difi­cul­dades, as pre­ocu­pações, os insuces­sos, os defeitos, as enfer­mi­dades, devem ser vivi­das como meios que Deus nos ofer­ece para chegar a Ele, através das humil­hações que nos causam e das quais nasce a humil­dade (S. Iná­cio de Loio­la).

 

·         O “alarme” que se acende quan­do a ací­dia e o aba­ti­men­to inva­dem o nos­so espíri­to é a dis­si­pação ou a fal­ta de recol­hi­men­to, de vida inte­ri­or e de união com Deus: ama­do, con­heci­do e inter­pela­do na med­i­tação “como um ami­go fala ao seu Ami­go” (S. Iná­cio de Loio­la). Ela é acom­pan­ha­da geral­mente de fenô­menos exter­nos facil­mente recon­hecíveis: a vã curiosi­dade das coisas deste mun­do e de fatos alheios; a exces­si­va loquaci­dade (S. Agostin­ho dizia: “silen­tium Chris­tum est!”), pelo que quem fala muito com os home­ns não chega a colo­quiar com Deus; a irre­qui­etação cor­po­ral que é sin­toma de fal­ta de paz inte­ri­or; a insta­bil­i­dade que nos leva a mudar de opinião, humor como uma cana agi­ta­da pelo ven­to ou uma ban­deiro­la. Tudo isto pode ser a estra­da da defecção e para a per­da da vocação reli­giosa.

 

·         A vida reli­giosa com­por­ta uma grande com­pan­hia, que pode se tornar nos­sa inimi­ga se não sabe­mos apre­ciar-lhe os dotes: a solidão. S. Bernar­do de Clar­aval dizia “o bea­ta soli­tu­do o sola beat­i­tu­do” (“Ó abençoa­da solidão, ó úni­ca bem-aven­tu­rança!”), des­de que seja preenchi­da por Deus, “con­heci­do, ama­do e servi­do” (S. Pio X). Se o reli­gioso bus­ca a paz na com­pan­hia dos home­ns está fora do cam­in­ho: ele escol­heu servir antes de tudo o Sen­hor, sep­a­ran­do-se das criat­uras. Por isso os Padres do deser­to ensi­navam aos seus jovens noviços “fuge, tace et qui­esce” (“fugi do mun­do, calai com as criat­uras e repousa em Deus”). Se o con­sagra­do chega a apre­ciar a solidão porque lhe dá a pos­si­bil­i­dade de estar a sós com Deus, con­segue fugir da hon­ra vã do mun­do, a calar naqui­lo que diz respeito as coisas aqui debaixo e estar em paz com o Sen­hor, con­si­go mes­mo, pos­sivel­mente com o próx­i­mo e na graça de Deus, ele per­corre a reta estra­da que o con­duzirá ao Paraí­so. 

 

·         Con­cluo com esta bela oração de S. Iná­cio: “Tomai e rebe­cei Sen­hor toda a min­ha liber­dade [para faz­er o bem e evi­tar o mal], a min­ha memória [as paixões des­or­de­nadas que se albergam em nós depois do peca­do orig­i­nal], a min­ha inteligên­cia [para con­hecer a ver­dade e refu­tar o erro] e a min­ha von­tade [para amar a Deus e odi­ar o peca­do]. Aqui­lo que sou e pos­suo. Tudo é vos­so e Vós mo destes, a Vós resti­tuo, da me o Vos­so Amor e a Vos­sa Graça, porque isso me bas­ta, não dese­jo nen­hu­ma out­ra coisa e sou rico o sufi­ciente. (S. Iná­cio, Con­tem­pla­tio ad Amorem obti­nen­dum).   

 

·         Como se vê quan­do tem o Amor de Deus ou a Graça san­tif­i­cante, que com­por­ta a pre­sença real da SS. Trindade na nos­sa alma, para podê-La con­hecer, amar e com Ela colo­quiar, então se tem tudo e não existe moti­vo algum para se ser acidioso, abati­do, temeroso da solidão, mas se encon­trará na oração e no tra­bal­ho (“ora et lab­o­ra”), no silên­cio, no apos­to­la­do, mes­mo sem fru­tos aparentes e chama­tivos, a ver­dadeira paz de âni­mo que ninguém pode tirar-nos, exce­to nos­sa má von­tade. Muito, muitís­si­mo antes depende dessa, San­to Tomás de Aquino escreve: “um homem é dito bom não poque tem boa inteligên­cia, mas porque tem boa von­tade”. Peçamos, então, ao Sen­hor de tornar boa a nos­sa pobre von­tade, direcionando‑a para Ele e enchendo‑a da Graça san­tif­i­cante, de Vir­tudes infusas e dos sete Dons do Espíri­to San­to.

 

Padre Curzio Nitoglia

2 de jul­ho 2012

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