P. CURZIO NITOGLIA: BELEZA E SERIEDADE DO MATRIMÔNIO


Psicologia / sábado, setembro 28th, 2013

 

 BELEZA E SERIEDADE DO MATRIMÔNIO
Padre Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

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clip_image002No sen­ti­men­tal­is­mo se bus­ca a “con­so­lação sen­sív­el”, ou seja, o “praz­er” e se pode cair facil­mente na des­or­dem ascéti­ca (apari­cionis­mo) e moral. Esta é a con­se­quên­cia práti­ca do erro ascéti­co do Amer­i­can­is­mo ou teóri­co do sen­ti­men­tal­is­mo (ou exper­iên­cia reli­giosa) do Mod­ernismo.

·         Já vimos que o Homem é com­pos­to de alma e cor­po e que as suas fac­ul­dades supe­ri­ores (int­elec­to e von­tade) devem pro­ced­er jun­tas para alcançar o seu Fim ulti­mo, edu­can­do, ele­van­do (pars con­stru­ens) e não ape­nas mor­ti­f­i­can­do (pars destru­ens) a sua sen­si­bil­i­dade (paixões e instin­tos). Ape­nas a repreen­são ou “mor­ti­fi­cação” neg­a­ti­va dos instin­tos, sem um escopo pos­i­ti­vo, ter­mi­nar­ia em obses­sion­ar e ator­men­tar a fan­ta­sia humana e para rea­cen­der e reforçar as paixões des­or­de­nadas. Então, é necessário além da mor­ti­fi­cação dos sen­ti­dos, tam­bém a sua sub­li­mação ou ver­dadeira ele­vação a um Fim supe­ri­or nat­ur­al e sobre­nat­ur­al. Os autores da ascéti­ca e mís­ti­ca [1] ensi­nam que na “guer­ra dos sen­ti­dos vencem os poltrões” (Dom Bosco), ou seja, não é pre­ciso lutar face a face con­tra as ten­tações sen­suais, mas desviar a fan­ta­sia, a imag­i­nação e o pen­sa­men­to dess­es para trans­for­má-la pos­i­ti­va­mente sobre um out­ro obje­to, preferiv­el­mente sobre­nat­ur­al (“ato anagógi­co” ”, São João da Cruz). Assim, tam­bém quan­do “o sangue sobe ao cére­bro” pela cólera, é mel­hor calar e reen­viar toda ten­ta­ti­va de expli­cação quan­do a cal­ma voltar, de out­ro modo, a ira se infla­ma sem­pre mais e toma a direção sobre a razão. Por­tan­to, A Mor­ti­fi­cação Ou “Repreen­são” Con­sti­tui A Fase Ini­cial E Neg­a­ti­va Da Edu­cação Humana, como o ‘temor servil’ de Deus é iní­cio da Sabedo­ria, que é o ‘temor fil­ial’ e amoroso. Como o temor servil não é mal em si, mas é imper­feito, assim a mor­ti­fi­cação ou “repreen­são” não é má, mas deve ser com­ple­ta­da e aper­feiçoa­da pela sub­li­mação do instin­to. Não faz­er o mal é con­di­tio sine qua non para faz­er o bem, mas não é ain­da agir pos­i­ti­va­mente bem em ato. “Evi­ta o mal e faz o bem. Isto é todo o homem”, diz a S. Escrit­u­ra. Essa não se detém a pars destru­ens, mas nos con­vi­da tam­bém àquela con­stru­ens.

·         Para Viv­er Bem E Estavel­mente O Matrimônio (união de um homem e uma mul­her até que a morte lhes sep­a­re, em vista da pro-cri­ação e do amor mútuo) é necessário que quem o con­trai (os côn­juges) sejam maduros, ou seja, que ten­ha ver­dadeira­mente trans­for­ma­do em ato aqui­lo que está em potên­cia: “ser humano, inteligente e livre”, que soube – durante o cur­so da vida pré-mat­ri­mo­ni­al – apren­der a adquirir um con­t­role sobre sua própria sen­si­bil­i­dade, ou seja, sobre o próprio instin­to con­cu­pis­cív­el e irascív­el. Já na ado­lescên­cia se deve ensi­nar aos jovens que o instin­to con­cu­pis­cív­el ou sex­u­al é orde­na­do a pro-cri­ação no Matrimônio e que o instin­to irascív­el ou agres­sivi­dade, é orde­na­do a defend­er a si e o próx­i­mo de um injus­to agres­sor (justiça) e a super­ar os obstácu­los afim de alcançar o próprio Fim (feli­ci­dade ou bem-aven­tu­rança).

 

·         A Reta Razão e a Dout­ri­na Cristã tem sem­pre ensi­na­do que o homem é dono de si mes­mo e respon­sáv­el pelos seus atos, que o peca­do orig­i­nal feriu, mas não destru­iu a natureza humana e o livre-arbítrio. O Freud­is­mo, que infe­liz­mente hoje prevalece mes­mo em ambi­ente cato-pro­gres­sista, ensi­na total­mente o con­trário, antes impul­siona o homem a depen­der dos seus próprios instin­tos, que são edu­ca­dos e nem sequer ele­va­dos ou eno­bre­ci­dos, mas sat­is­feitos de maneira desen­f­rea­da e parox­ís­ti­ca. Tal ide­olo­gia psi­co-analíti­ca arruí­na o homem e então o Matrimônio, a família e a Sociedade que não encon­tram um ter­reno estáv­el sobre o qual se fun­dar e per­du­rar, mas uma acu­mu­lação de instin­tos que prevale­cem sobre a razão livre e tor­nam o homem semel­hante a uma “ovel­ha lou­ca”. Se o Matrimônio hoje está em crise, isto se deve a fal­ta de esta­bil­i­dade dos sujeitos que o con­traem, que foram aniquila­dos pela cul­tura con­tem­porânea pre­dom­i­nante (freud­is­mo e neo-mod­ernismo), que “con­strói sobre a areia e não sobre a rocha”.

 

·         Por­tan­to, para enfrentar e viv­er até o fim o Matrimônio, é indis­pen­sáv­el a edu­cação nat­ur­al e sobre­nat­ur­al do cor­po e da alma humana (sen­si­bil­i­dade, int­elec­to e von­tade). É pre­ciso que o homem sai­ba Ordenar, Canalizar e Trans­por para o seu Fim as próprias ener­gias ou paixões. Este tra­bal­ho de sub­mis­são das potên­cias infe­ri­ores às supe­ri­ores, de trans­fer­i­men­to ou Ele­va­men­to Da Ener­gia Do Infe­ri­or Para O Supe­ri­or deve ser dirigi­do pela boa von­tade e ilu­mi­na­do pela razão sadia. Se o homem chega a eno­bre­cer as fac­ul­dades infe­ri­ores ou sen­síveis em direção ao Fim ulti­mo, medi­ante a razão e a von­tade, chegará a ser dono ou não escra­vo dos inter­ess­es pelos obje­tos sen­síveis (praz­eres sen­síveis e agres­sivi­dade). O homem, difer­ente­mente do ani­mal, pode endereçar a ener­gia sen­sív­el ou infe­ri­or para um Fim nat­u­ral­mente e sobre­nat­u­ral­mente supe­ri­or.

 

·         É pre­ciso saber ensi­nar que O Instin­to Sex­u­al Ou Repro­du­ti­vo No Homem Se Encon­tra Sem­pre Asso­ci­a­do A Neces­si­dade De Amor Racional (quer­er o bem do out­ro, ao out­ro e ser re-ama­do pelo out­ro) E De Doação. Então é errô­neo desunir o praz­er do amor de benevolên­cia ou de altruís­mo, seria puro egoís­mo, nat­u­ral­mente falan­do, e peca­do mor­tal do pon­to de vista sobre­nat­ur­al. Deus quis unir o praz­er sen­sív­el aos atos orde­na­dos ao man­ten­i­men­to do indi­vid­uo (nutrição) e da espé­cie (repro­dução). Se o praz­er é sub­or­di­na­do ao fim (man­ter-se em vida ou pro-cri­ar) então é lic­i­to, mas querê-lo por si mes­mo (ob solam volup­tatem) como fim ulti­mo e não como meio, se tem con­se­quente­mente a des­or­dem e o peca­do. O homem deve viv­er o Matrimônio não ape­nas fisi­ca­mente, mas tam­bém e sobre­tu­do na esfera da alma e do “espíri­to” (que é a alma na Graça de Deus). Ou seja, os dois esposos devem fun­dar a sua união não ape­nas sobre a atração físi­ca, mas tam­bém sobre as qual­i­dades int­elec­tu­ais, morais e espir­i­tu­ais que lhe aco­mu­nam. De fato, se entre eles não existe nada em comum de duradouro (e ape­nas a alma e o espíri­to duram eter­na­mente), com o pas­sar do tem­po e o fenecer do cor­po, que por definição é cor­rup­tív­el, o vín­cu­lo será fatal­mente menor e o Matrimônio ruirá.

 

·         Matrimônio e União Mís­ti­ca. Quem vive no esta­do reli­gioso de casti­dade per­fei­ta deve levar o amor humano ao nív­el sobre­nat­ur­al e viv­er o Matrimônio com Deus (‘União trans­for­mante’ ou ‘ter­ceira via mís­ti­ca’ dos ‘per­feitos’, ver San­to Tomás De Aquino, S. Th., II-II, q. 24, a. 9). Se tra­ta do amor de benevolên­cia ou do bem do Out­ro e não do próprio (egoís­mo ou con­cu­pis­cên­cia), que com­por­ta rec­i­pro­ci­dade e con­vivên­cia. Ape­nas viven­do sobre­nat­u­ral­mente a vida da Graça jun­to a Deus, o reli­gioso poderá ser fiel aos seus votos, de out­ro modo a natureza o oprim­irá e o fará amar a criatu­ra mais que o Cri­ador. Ora a definição do peca­do mor­tal é pre­cisa­mente esta: “Aver­sio a Deo et con­ver­sio ad crea­t­uras” (San­to Tomás).

Os médi­cos (radi­ológi­cos e psiquiátri­cos) recen­te­mente estu­daram as ativi­dades cere­brais durante o amor nat­ur­al e durante o espir­i­tu­al, e obser­varam que no amor nat­ur­al ou sex­u­al é o hipotálamo que age maior­mente, enquan­to no amor espir­i­tu­al ou durante a med­i­tação é o lobo frontal que tra­bal­ha mais e neste segun­do esta­do o bem estar psi­cológi­co a saúde psíquica são bem supe­ri­ores ao primeiro esta­do [2].

·         Os Lim­ites Do Amor Humano. Pre­cisamos ser real­is­tas e saber que todo con­hec­i­men­to e amor pura­mente humano é lim­i­ta­do, caduco, con­tin­gente e fini­to como o próprio homem. Por­tan­to, é pre­ciso evi­tar a ilusão do amor ide­al, abso­lu­to, român­ti­co, per­feito entre mari­do e mul­her. A con­se­quên­cia é que não deve­mos nos mar­avil­har com os lim­ites do próprio côn­juge e nem mes­mo pelos nos­sos próprios. De fato, é impos­sív­el realizar humana­mente a Feli­ci­dade abso­lu­ta. Muitos Matrimônios acabam porque são fun­da­dos sobre esta ilusão, que não leva em con­ta a fini­tude da natureza humana. Ape­nas Deus vis­to face a face no Paraí­so pode dar-nos esta feli­ci­dade per­fei­ta. Mes­mo a Fé é vivi­da sobre­nat­u­ral­mente quan­to a sub­stân­cia, mas quan­to ao modo no claro obscuro (Fides est de non visis) e apre­sen­ta, assim, o “out­ro lado da moe­da”, ou seja, o medo das difi­cul­dade a serem afrontadas e das renún­cias a cumprir para viv­er coer­ente­mente a Fé infor­ma­da pela Cari­dade. Onde o reli­gioso deve saber aceitar os lim­ites da sua vida espir­i­tu­al sobre esta ter­ra e tam­bém as defi­ciên­cias das pes­soas (fiéis e con­frades) que o cir­cun­dam e sobre­tu­do as suas, para viv­er sobre­tu­do em ordem a Deus, que será ple­na­mente alcança­da ape­nas com a morte, a qual é o iní­cio da ver­dadeira vida. Não se deve jamais esper­ar a ple­na feli­ci­dade sobre esta ter­ra, mas ape­nas no lado de lá. Se o con­sagra­do se ilude sobre si mes­mo, sobre seus con­frades, sobre fiéis, pen­san­do que eles pos­sam dar a paz de âni­mo e feli­ci­dade per­fei­ta, irá de encon­tro a ruí­na da sua vocação, como tam­bém se ele se ilude de ter uma união per­fei­ta e estáv­el com Deus sobre esta ter­ra, a qual se entrevê no fim da vida espir­i­tu­al (ter­ceira via dos per­feitos ou mís­ti­ca), que é uma prévia da Visão Beat­i­fi­ca do Paraí­so, a qual ape­nas nos dá a Feli­ci­dade ou Bem aven­tu­rança per­fei­ta e eter­na. É inútil e danoso imag­i­nar a alma gêmea, o príncipe, o con­frade ou o fiel ide­al sobre esta ter­ra, não se vive jun­to a uma “Ideia”, mas a uma pes­soa conc­re­ta de carne e osso com todos os seus lim­ites e val­ores. Essa a encon­tramos no esta­do em que Deus nos faz viv­er, o mari­do na mul­her e vice-ver­sa, com todos os seus defeitos, e o reli­gioso nos con­frades e fiéis, que Deus os faz próx­i­mos e vice-ver­sa (tam­bém os fiéis devem supor­tar o sac­er­dote).

 

·         É pre­ciso Viv­er Pos­i­ti­va­mente As lim­i­tações No Matrimônio. Se si chega a faz­er tesouro dos próprios lim­ites e dos out­ros – graças a vir­tude da humil­dade, que coin­cide com a ver­dade e a real­i­dade criat­ur­al – fini­ta do ser humano – então, os sofri­men­tos, os incon­ve­niente, as imper­feições da con­vivên­cia de duas pes­soas lim­i­tadas, que com pas­sar do tem­po tor­na difí­cil, aju­dam os côn­juges a aper­feiçoarem-se e a san­tifi­carem-se. De fato, lhes tor­nam mais maduros e con­scientes da fini­tude da natureza humana. Para viv­er estavel­mente jun­to ao out­ro é pre­ciso entendê-lo e faz­er-se enten­der por ele e então, pen­e­trar mais fun­do (intus-leg­ere) a si mes­mo e o próx­i­mo. Se o homem per­manece só con­si­go mes­mo toma mais difi­cil­mente con­sciên­cia dos próprios defeitos e supor­ta mais difi­cil­mente aque­les dos out­ros e os impre­vis­tos da vida (é o peri­go dos “solip­sos”, das “solteironas’ e dos “reli­giosões”). É o risco da duri­tia cordis, que cor­rem os reli­giosos ou os “sen­horez­in­hos”, os quais vêem na vida reti­ra­da ape­nas um refú­gio do sofri­men­to des­ta vida e deste mun­do.

 

·         União De Von­tade e Não Sen­ti­men­tal­is­mo. No Matrimônio como na vida reli­giosa, é pre­ciso que o sen­ti­men­to seja sub­or­di­na­do a von­tade e a razão e não ten­ha o pri­ma­do, como querem os mod­ernistas que fazem do sen­ti­men­tal­is­mo e da exper­iên­cia a parte prin­ci­pal da vida humana e espir­i­tu­al. Se pode diz­er que o mod­ernismo é, como a Rev­olução france­sa, “satâni­co na sua essên­cia”, revolta­do e revoltoso. Por isso o ver­dadeiro amor entre mari­do e mul­her é um ato da von­tade mais ain­da que do sen­ti­men­to, o qual não deve ser destruí­do, mas sub­or­di­na­do a parte supe­ri­or da alma espir­i­tu­al. No sen­ti­men­to se bus­ca a “con­so­lação sen­sív­el”, ou seja, o “praz­er” e se pode cair facil­mente na des­or­dem moral. Esta é a con­se­quên­cia práti­ca do erro teóri­co do sen­ti­men­tal­is­mo. É pre­ciso amar o out­ro em Deus, sain­do de si mes­mo, “tran­scen­den­do-se” com a aju­da da Graça div­ina. Sair de si sem aniquilar-se, sem exau­rir-se, é pre­ciso adquirir per­feição espir­i­tu­al doan­do amor a Deus e ao próx­i­mo. Sêneca dizia: “Eu ten­ho aqui­lo que dei”.

 

·         São Bernar­do de Clar­aval recomen­da: “Esto con­ca, non canal, seja um reser­vatório não um sim­ples canal”. De fato, o reser­vatório se enche de água e aque­la que excede a dá ao canal, enquan­to o aque­du­to ou canal trans­mite a água rece­bi­da pelo reser­vatório ao seu fim e não man­tém nada para si, ao invés o reser­vatório é sem­pre pleno. Assim deve ser na vida mat­ri­mo­ni­al e espir­i­tu­al, dar sem perder tudo. Nes­ta óti­ca se os côn­juges tem divergên­cias, mes­mo pro­fun­das, de caráter que podem superá-los “tran­scen­den­do-se”, ou seja, sain­do fora de si, do próprio cômo­do ou pon­to de vista para ten­der a Deus aman­do a out­ra parte propter Deum. Tudo isto pres­supõe espíri­to de sac­ri­fí­cio e de abne­gação, sem o qual a vida é estéril porque egocên­tri­ca e egoís­ta, ou seja, o con­trário da definição de vida, que como dizia  Aristóte­les est in motu, seu movere se ipsum, ou seja, a vida con­siste no movi­men­to de cresci­men­to e enriquec­i­men­to e não no exau­ri­men­to ou na lim­i­tação egoís­ta. Fun­dar tudo sobre o Eu, que é caduco e perecív­el, sig­nifi­ca con­stru­ir sobre o nada. Mas ex nihi­lo, nihil fit. Ergo ipsum fieri est impos­si­bile.

 

·         É Mel­hor Um Matrimônio Tem­pes­tu­oso Que Uma Sep­a­ração Dolorosa E Defin­i­ti­va. Os médi­cos demon­straram, com estatís­ti­cas em mãos, que os fil­hos dos divor­ci­a­dos sofrem mais e apre­sen­tam danos psi­cológi­cos maiores que os fil­hos de um casal estáv­el mas em “luta continua”[3]. De fato, depois do divór­cio não existe mais esper­ança de recomeçar, de per­doar, de enten­der-se por amor recípro­co e pelos fil­hos, enquan­to um casal liti­gioso pode faz­er tesouro das diver­si­dade e apren­der a arte de apren­der com o out­ro, com a capaci­dade de supor­tação, de sac­ri­fí­cio, de renún­cia, de perdão e a von­tade de recomeçar, que são as mes­mas vir­tudes que se encon­tram na base da vida espir­i­tu­al dos lei­gos e dos reli­giosos. San­to Stanis­lau Kos­ka dizia: vita com­mu­nis, mea max­i­ma pen­i­ten­tia! Ora, sem pen­itên­cia há ruí­na da vida espir­i­tu­al. “Se não fiz­eres pen­itên­cia pere­cereis todos da mes­ma maneira” nos ensi­nou o Evan­gel­ho. Então, analoga­mente sem sac­ri­fí­cio há tam­bém a ruí­na do Matrimônio.

 

·         Não Se Deve Fixar Sobre O Côn­juge A Tendên­cia Humana Para O Abso­lu­to. Todo homem anela a Deus e “o nos­so coração é inqui­eto até quan­do não repousar Nele” (S. Agostin­ho). Se nos iludi­mos pen­san­do encon­trar repouso em um ser humano se chega a falên­cia e o Matrimônio ou a vida em comu­nidade perde. O coração se tor­na inqui­eto e bus­ca um “paraí­so” arti­fi­cial ou em relações extra-mat­ri­mo­ni­ais ou no álcool ou pior ain­da, na dro­ga. É o mes­mo risco que se corre espir­i­tual­mente no apari­cionis­mo ou bus­ca desme­di­da de aparições e rev­e­lações pri­vadas, que pode­ri­am ser sobre­nat­u­rais ou não, enquan­to se bus­ca ter um “deus” tangív­el, que se sen­ti, se vê, se escu­ta, sem neces­si­dade da Rev­e­lação públi­ca (S. Escrit­u­ra e Tradição apos­tóli­ca) apre­sen­ta­da e inter­pre­ta­da pela Hier­ar­quia ecle­siás­ti­ca, que ape­nas é a garan­tia de Ver­dade div­ina.

 

·         A Dis­tinção Dos Sex­os. “Macho e fêmea Deus os criou”, recita a S. Escrit­u­ra. Infe­liz­mente a ide­olo­gia fem­i­nista, que tirou da mul­her toda car­ac­terís­ti­ca fem­i­ni­na, mater­na e espon­sal prevale­ceu e desagre­gou as famílias. De fato, sem dis­tinção de sexo, divisão de tare­fas, o Matrimônio e a família são um caos: a mul­her faz o mari­do, o mari­do faz a mul­her e os fil­hos se tor­nam dis­per­sos. Já Mao Tse Tung  tin­ha dito: “Tor­na o homem uma meia mul­her, a mul­her um meio homem e assim gov­ernarás facil­mente sobre meias coisas”. Dis­to se vê A Importân­cia Da For­ma Cristã Dos Gov­er­nos. De fato, um Gov­er­no que se fun­da sobre a Moral nat­ur­al, não vio­la a Rev­e­lação e os primeiros princí­pios per se notáveis pela reta razão, tornará mais fácil viv­er vir­tu­osa­mente na Sociedade, na família e indi­vid­ual­mente. O homem é “ani­mal sociáv­el por natureza” (Aristóte­les), não pode não viv­er em Soci­etas ou Polis.  Se a Polis ou Soci­etas na qual vive o aju­da a agir vir­tu­osa­mente tudo será mais fácil para ele, a família e o próprio Esta­do. Mas se a Polis o obsta­c­uliza na vida vir­tu­osa, então, tudo se com­pli­ca. É por isto que Pio XII disse: “Tam­bém da nor­ma dada aos Esta­dos depende em grande parte a sal­vação das almas”. Então, é pre­ciso evi­tar os dois erros opos­tos por defeito (laicis­mo) e por exces­so (exager­a­do espir­i­tu­al­is­mo ou cler­i­cal­is­mo ange­lista). De fato, o primeiro – sep­a­ran­do o Esta­do da Religião -  leva o caos nas famílias e nos indi­ví­du­os, que são sep­a­ra­dos indi­re­ta­mente tam­bém de Deus. O segun­do faz do homem não “um ani­mal nat­u­ral­mente” sociáv­el, que vive em Soci­etas, Polis e Esta­do e que, então, não pode não faz­er políti­ca, vida comum ou “vir­tude da prudên­cia apli­ca­da ao viv­er em Sociedade” (San­to Tomás De Aquino). Mas quer­er tor­na-lo – por um exager­a­do e insano espir­i­tu­al­is­mo ou ange­lis­mo – um ani­mal des­en­car­na­do “nat­u­ral­mente con­ven­tu­al” (con­trad­dic­tio in ter­min­is), quan­do ao invés, a vida reli­giosa depende de uma chama­da div­ina e sobre­nat­ur­al e não é inscri­ta na natureza humana, a natureza não exige a Graça. A “vocação agu­da ou crôni­ca” é uma defor­mação do int­elec­to cler­i­cal­ista, que quer tornar o mun­do um sem­i­nário. Mas a vocação é um Con­sel­ho divi­no e não um Pre­ceito. Para eles é sem­pre váli­do o dito espir­i­tu­oso de Pas­cal: “quem quer faz­er o anjo ter­mi­na por faz­er a besta”. É pre­ciso “dis­tin­guir para unir”, e não para con­tra­por, seja o papel do mari­do ou aque­le da mul­her, para unir-lhes har­moni­ca­mente no Matrimônio, cada um em seu pos­to; seja o papel do sac­er­dote e do lei­go, o qual não é um cler­i­calz­in­ho do primeiro, mas deve levar Jesus na sua família, no seu ambi­ente de tra­bal­ho e na Sociedade. Esta é a Realeza social – que é políti­ca – de Cristo (cfr. Pio XI, Quas pri­mas, 1925). São Pio X disse: “Nós não podemos não faz­er políti­ca”, o seu lema era: “Instau­rar e restau­rar tudo [tam­bém a Polis] em Cristo”. Pio XI disse que “o trono faz fron­teira com o altar”. A sã dout­ri­na e a reta razão ensi­nam que como “a Graça não destrói a natureza, mas a aper­feiçoa”, assim a Religião não destrói a Polis ou Soci­etas, mas a aper­feiçoa. O laicis­mo quer sep­a­rar e extin­guir a Graça e a Religião (pan-estadis­mo), o espir­i­tu­al­is­mo exager­a­do ou ange­lis­mo cler­i­cal­ista quer destru­ir a natureza e a sociedade (pan-voca­cional­is­mo/­con­ven­tu­al­ista) para tornar o mun­do uma imen­sa “fradaria”. Se a mul­her está sem­pre fora de casa e não se ocu­pa amavel­mente dos fil­hos e do mari­do, se cam­in­ha para o divór­cio, se ao invés está muito pre­po­tente den­tro e tirani­ca­mente sobre a casa se tem o despo­tismo “mamista”, que arruí­na sobre­tu­do os fil­hos e dis­tan­cia o mari­do da casa. Assim, se o sac­er­dote se dis­tan­cia muito do san­tuário cam­in­ha para o divór­cio com Deus, enquan­to se quer tornar o mun­do um con­ven­to e dom­i­nar tirani­ca­mente os fiéis, então, ou arruí­na aque­les que o seguem como autônomos, chaman­do lhe a ele e não Deus ou lhes afas­ta da Religião, des­go­stan­do lhes com seu modo de faz­er exces­si­va­mente o ange­lista [4] .  

·         “Sem Mim não podeis faz­er nada” nos disse Jesus no Evan­gel­ho. Isto vale na vida do solteiro, na mat­ri­mo­ni­al e na reli­giosa. “Entre o diz­er e o faz­er no meio esta um mar”, diz o provér­bio. Ora, nós temos dito tan­tas belas coisas sobre o Matrimônio (com o côn­juge e com Deus), mas nos res­ta colocá-las em práti­ca. Que Deus nos con­ce­da a forçar de levar ao fim aqui­lo que nós começamos. Nos cum pro­le pia, bened­i­cat Vir­go Maria!

 

PADRE CURZIO NITOGLIA

27 de jun­ho 2011

http://www.doncurzionitoglia.com/matrimonio_bellezza_e_serieta.htm

 

 

[1] Cfr. Adol­fo Tan­querey, Com­pen­dio di teolo­gia asceti­ca e mist­i­ca,Roma-Brux­elles, Desclée, 1928.

[2] Cfr. Andrew New­berg – Eugene d’Aquini, Dio nel cervel­lo, Milano, Monda­tori, 2002, pp. 104, 112–113, 127–128.

[3] Cfr. Jurg Willi, Che cosa tiene insieme le cop­pie, Milano, Mon­dadori, 1992, pp. 7–11.

[4] Cfr. Bat­tista Mondin, L’uomo: chi è? Ele­men­ti di antropolo­gia filosofi­ca, Milano, Mas­si­mo, 1982; Mario Pan­gal­lo, Il Cre­atore del mon­do: breve trat­ta­to di teolo­gia filosofi­ca, Roma, Leonar­do da Vin­ci, 2004; Vin­cen­zo Bene­tol­lo, Morale e felic­ità: i fon­da­men­ti dell’etica, Bologna, ESD, 1996; Fran­co Ame­rio, La Dot­t­ri­na del­la Fede: dog­ma, morale, spir­i­tu­al­ità, Milano, Ares, 1982; Car­lo Drag­one, Spie­gazione del Cat­e­chis­mo di San Pio X, Alba, Pao­line, 1956, ristam­pa anasta­t­i­ca, Ver­rua Savoia (TO), CLS, 2008; Anto­nio Royo Marin, Teolo­gia del­la per­fezione cris­tiana, Roma, Pao­line, 1960, ristam­pa anasta­t­i­ca.