O disse o Papa? Não: Putin


No category, Política / domingo, setembro 29th, 2013

clip_image001Repas­so sem comen­tários, extratos de um dis­cur­so [1] bem mais artic­u­la­do e sig­ni­fica­ti­vo tido por Vladimir Putin no Val­dai Inter­na­tion­al Dis­cus­sion Club: um fórum de pen­sa­men­to aber­to a vários hós­pedes do exte­ri­or. Fun­da­do pela RIIA Novosti e pelo think tank gov­er­na­ti­vo rus­so Coun­cil on For­eign and Defense Pol­i­cy, que bus­ca sus­ci­tar e enrique­cer com debates e con­tribuições de alto nív­el ao pen­sa­men­to estratégi­co. Um pouco como o atlantista Grupo Bilder­berg, il Val­dai deve o seu nome a local­i­dade onde ocor­reu a primeira reunião e 2004, o hotel Val­dai sobre o lago Val­daiskoye, na zona de Nov­gorod, rica de monastérios e memórias históri­c­as da orto­dox­ia.

O encon­tro em que Putin falou acon­te­ceu em 19 de setem­bro. Fala da Rús­sia, mas o dis­cur­so vale para o Oci­dente, para aqui­lo que res­ta da sua civ­i­liza­ção e para o mun­do inteiro. [2] Dis­cur­so de um chefe de Esta­do, como não se faz mais, nem mes­mo do sólio petri­no. 


«Hoje pre­cisamos de novas estraté­gias para preser­var a nos­sa iden­ti­dade em um mun­do que muda rap­i­da­mente, um mun­do que se tornou mais aber­to, trans­par­ente e inter­de­pen­dente. Este fato desafia prati­ca­mente a todos os povos e país­es de um modo ou de out­ro, rus­sos, europeus, chi­ne­ses e amer­i­canos – de fato, as sociedades de todos os país­es.

(…) Para nós (falo dos rus­sos e da Rús­sia) as per­gun­tas sobre quem somos e o que quer­e­mos ser estão cada vez mais em primeiro plano. Deix­am­os para trás a ide­olo­gia soviéti­ca, ela não tem retorno. Quem propõe um con­ser­vadoris­mo fun­da­men­tal, e ide­al­iza a Rús­sia pré-1917, parece igual­mente dis­tante do real­is­mo, assim como são os sus­ten­ta­dores de um lib­er­al­is­mo extremo, no Oci­dente.

É evi­den­te­mente impos­sív­el ir adi­ante sem autode­ter­mi­nação espir­i­tu­al, cul­tur­al e nacional. Sem isto, não ser­e­mos capazes de resi­s­tir aos desafios inter­nos e exter­nos, nem chegare­mos na com­petição glob­al. Hoje vemos uma nova roda­da des­ta com­petição, cen­tra­da sobre os planos econômi­co-tec­nológi­co e ide­ológi­co-infor­ma­cional. Os prob­le­mas mil­itares e as condições gerais estão pio­ran­do. O mun­do se tor­na mais rígi­do, e muitas vezes igno­ra não só o dire­ito inter­na­cional, mas tam­bém a mais ele­men­tar decên­cia». […]

«Out­ro grave desafio a iden­ti­dade da Rús­sia é lig­a­da a even­tos que tem lugar no mun­do. São aspec­tos con­jun­tos de políti­ca exter­na, e morais. Podemos ver como os País­es euro-atlân­ti­cos estão repu­dian­do as suas raízes, mes­mo as raízes cristãs que con­stituem a base da civ­i­liza­ção oci­den­tal. Ess­es renegam os princí­pios morais e todas as iden­ti­dades tradi­cionais: nacionais, cul­tur­ais, reli­giosas e finan­co sex­u­ais. Estão apli­can­do dire­ti­vas que igualam as famílias com a con­vivên­cia de par­ceiros do mes­mo sexo, a fé em Deus com a crença em Satanás.

O “politi­ca­mente cor­re­to” chegou a tais exces­sos, que há pes­soas que dis­cutem seri­amente o reg­istro de par­tidos políti­cos que pro­movem a ped­ofil­ia. Em muitos País­es europeus a gente que retém ou tem medo de man­i­fes­tar a sua religião. As fes­tivi­dades são abol­i­das ou chamadas com out­ros nomes; a sua essên­cia (reli­giosa) vem escon­di­da, assim como o seu fun­da­men­to moral. Estou con­vic­to que isto abre uma estra­da dire­ta para a degradação e o regres­so, que desem­bo­cará em uma pro­fundís­si­ma crise demográ­fi­ca e moral.

E que out­ra coisa, senão a per­da da capaci­dade de se auto repro­duzir teste­munha mais dra­mati­ca­mente a crise moral de uma sociedade humana? Hoje a maior parte de nações desen­volvi­das não são mais capazes de per­pet­u­arem-se, nem mes­mo com a aju­da da imi­gração. Sem os val­ores incor­po­ra­dos no Cris­tian­is­mo e nas out­ras religiões históri­c­as, sem os estandartes de moral­i­dade que tomaram for­ma em milênios, as pes­soas perder­am inevi­tavel­mente a sua dig­nidade humana. Bem: nós rete­mos que é nat­ur­al e jus­to defend­er estes val­ores. Se devem respeitar o dire­ito de toda mino­ria de ser difer­ente, mas os dire­itos da maio­r­ia não devem ser colo­ca­dos em questão (Ndt.: Leia-se o tex­to “O bem do todo é maior que o bem da parte”).

Simul­tane­a­mente, vemos esforços de faz­er reviv­er em qual­quer modo um mod­e­lo padroniza­do de mun­do unipo­lar e o ofus­car das insti­tu­ições de dire­ito inter­na­cional e da sobera­nia nacional. Este mun­do unipo­lar e padroniza­do não requer Esta­dos sober­a­nos: requer vas­sa­los. Isto equiv­ale sobre o plano históri­co a rene­gação da própria iden­ti­dade e da diver­si­dade do mun­do queri­do por Deus»…

 

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1.   Tre­cho de Effedi­effe, do ulti­mo arti­go de Mau­r­izio Blondet. Me lim­i­to a dar a refer­ên­cia da fonte, saben­do que do link é visu­al­izáv­el ape­nas o títu­lo e o incip­it, enquan­to o tex­to inte­gral é acessív­el ape­nas aos assi­nantes.

2.   Um comen­ta­dor fez notar que Putin con­cedeu de novo ao Patri­ar­ca Kir­ill II a residên­cia ofi­cial no inte­ri­or dos muros do Krem­lin entre as suas três Basíli­cas (Anun­ci­ação, Dormição e Arcan­jo Miguel). Kir­il II fun­ciona como apoiador da políti­ca exter­na do gov­er­no além de guia espir­i­tu­al para Putin e para a Rús­sia. Parece que Putin nos dias pas­sa­dos se casou de for­ma bas­tante reser­va­da com Nizni Nov­gorod, e pela primeira vez, com cer­imô­nia reli­giosa.

Fonte: Chiesa e post-Con­cilio

Tradução: Ged­er­son Fal­cometa