Creio na Igreja «Una» – Reflexões em mérito ao conceito de plena e não plena comunhão


Teologia / sexta-feira, junho 15th, 2012

Don Davide Pagliarani

[Tradução Ged­er­son Fal­cometa]

 

 

 

É abso­lu­ta­mente insus­ten­táv­el o princí­pio de que a Unidade deve ser recom­pos­ta: é dev­i­do, ao invés, cumprir todos os esforços para recol­her os “sep­a­ra­dos” na Unidade que a Igre­ja jamais perdeu e jamais perderá“.

É ago­ra comum no vocab­ulário a expressão de “comu­nidade cristã” em “não ple­na comunhão” com a Igre­ja, e através deste con­ceito serem jus­ti­fi­cadas as inu­meráveis ini­cia­ti­vas ecumêni­cas as quais assis­ti­mos. Mas examinando‑a à luz da dout­ri­na tradi­cional, desco­b­ri­mos que isso é incom­patív­el com a própria natureza da Igre­ja.

Entre os ele­men­tos mais sig­ni­fica­tivos intro­duzi­dos pela ecle­si­olo­gia do Con­cílio Vat­i­cano II há, como se pode notar, uma noção “analóg­i­ca” do con­ceito de comunhão com a Igre­ja; refe­r­i­mos-nos a con­cepção que admite a pos­si­bil­i­dade de união com a Igre­ja Católi­ca em vários graus ou níveis: se temos assim uma ple­na comunhão e uma não ple­na comunhão, que então, se obter­mos as con­se­quên­cias mais lóg­i­cas deste princí­pio, podem ser dec­li­nadas em mil mod­os: uma comunhão imper­fei­ta, uma comunhão “as mar­gens”, uma comunhão cres­cente, uma comunhão vir­tual­mente exis­tente, etc…

 

Este ele­men­to, longe de reve­stir um inter­esse pura­mente acadêmi­co, é na real­i­dade indis­pen­sáv­el para asse­gu­rar dinamis­mo ao movi­men­to ecumêni­co e, sobre­tu­do para dar um fun­da­men­to ecle­si­ológi­co as con­vergên­cias (1) sobre o qual esse se fun­da e que entende estim­u­lar: esta­mos per­sua­di­dos que exata­mente neste pon­to se encon­tre prin­ci­pal­mente o ele­men­to doutri­nal mais necessário e fun­cional a tal escopo. Na ver­dade todos os ele­men­tos cristãos pre­sentes nas fal­sas Igre­jas (a definição é obvi­a­mente incom­patív­el com a nova ecle­si­olo­gia) são apre­sen­ta­dos como um reclamo a unidade da qual a Igre­ja Católi­ca pos­suí em plen­i­tude. Neste sen­ti­do eles já estari­am operan­do e de algu­ma for­ma se delin­eari­am já pos­i­ti­va­mente como fun­da­men­to de uma cer­ta unidade: a comunhão já está pre­sente ain­da se não é ain­da ple­na; é a não ple­na comunhão, mas con­tu­do, comunhão.

Para dar um exem­p­lo, nes­ta per­spec­ti­va o sacra­men­to do batismo admin­istra­do nas igre­jas luter­anas ou a fé em Cristo Sal­vador, sendo mate­rial­mente ele­men­tos comuns com o Catoli­cis­mo, seri­am já fun­da­men­to de uma cer­ta unidade em nome da qual se pode já pre­gar jun­tos ou se podem orga­ni­zar encon­tros ecumêni­cos.

Nota­mos, no momen­to, que neste dinamis­mo não existe espaço para a con­ver­são, mas só para uma ale­ga­da con­vergên­cia comum que deve ser estim­u­la­da sem­pre mais para recon­stru­ir a Unidade orig­inária destruí­da pelo peca­do de todos.

Nota­mos tam­bém – com uma pita­da de com­preen­sív­el iro­nia – que mes­mo os “lefeb­vri­anos” estari­am neste esta­do de não ple­na comunhão com a Igre­ja, mas, con­tu­do em comunhão.

Na real­i­dade para ser fiel a Tradição con­stante da Igre­ja, um “lefeb­vri­ano” como todo católi­co se vê obri­ga­do a recusar o emprego des­ta noção. A comunhão com a Igre­ja é por natureza uma real­i­dade unívo­ca e inde­clináv­el: ou se é em comunhão ou não se é. Ou se per­tence à Igre­ja ou não se per­tence. Nas reflexões que seguem procu­raremos ilus­trar por que.

A nova ori­en­tação ecle­si­ológ­i­ca

Antes de entrar no coração das nos­sas con­sid­er­ações, parece opor­tuno diz­er uma palavra sobre a atu­al ori­en­tação ecle­si­ológ­i­ca sobre este pon­to cru­cial.

Se ten­ha bem pre­sente que as anális­es da teolo­gia con­tem­porânea do fenô­meno das divisões entre os cristãos se baseia sobre critérios pura­mente his­toricis­tas e nat­u­ral­is­tas. As sep­a­rações seri­am fru­to de ciúmes, brigas, capri­chos, de peca­do, dos quais todos os cristãos teri­am se man­cha­do no cur­so dos sécu­los. Con­se­quente­mente o movi­men­to ecumêni­co seria a recom­posição da Unidade ini­cian­do a par­tir de uma autên­ti­ca purifi­cação da memória para can­ce­lar os vestí­gios de peca­do que ain­da per­manecem. Deste peca­do teria sido man­cha­da de qual­quer for­ma tam­bém a Igre­ja Católi­ca igual aos out­ros: este primeiro ele­men­to fornece já uma útil chave de leitu­ra para o clam­oroso meac­ulpis­mo do qual somos os espec­ta­dores nestes últi­mos anos, no qual é a insti­tu­ição a ser envolvi­da e a ser respon­s­abi­liza­da.

Dize­mos subita­mente que este sta­tus quaes­tio­n­is é ina­ceitáv­el e, sobre­tu­do pres­supõem uma solução de Unidade que não é católi­ca. O peca­do con­tra a Unidade é um peca­do con­tra a Igre­ja Católi­ca é inad­mis­sív­el que Está seja, mais ou menos dire­ta­mente, arras­ta­da sobre o ban­co dos imputa­dos quan­do não out­ro que a úni­ca víti­ma de todos os cis­mas e de todas as divisões entre os cristãos que a história con­heceu. O ver­dadeiro peca­do do qual é pre­ciso se purificar para reen­trar na Unidade se chama “cis­ma” e por definição se tra­ta de um peca­do que não pode ser cumpri­do pela Igre­ja (2) nem de quem é mem­bro da Igre­ja, porque no momen­to no qual é cometi­do se sep­a­ra da própria Igre­ja. É o peca­do de sep­a­ração dos “irmãos sep­a­ra­dos” e, nec­es­sari­a­mente, não pode ser ninguém além deles(3).

Não esqueçamos que o movi­men­to ecumêni­co nasce e se desen­volve em ambi­ente protes­tante, bem antes do Con­cílio; ter aceita­do as regras do jogo, ape­nas a par­tir do Con­cílio, pres­supõem um inad­mis­sív­el despre­zo pela Igre­ja do pas­sa­do, con­sid­er­a­da de qual­quer modo cul­pa­da, e pela obra gen­erosa de dezenas de Papas e San­tos que são prodi­ga­dos por recla­mar ao úni­co reban­ho os “irmãos sep­a­ra­dos”, através da recon­ver­são ao Catoli­cis­mo.

Nota­mos tam­bém que neste con­tex­to a noção clás­si­ca de “cis­ma” perde na práti­ca o seu sig­nifi­ca­do tradi­cional; o peca­do con­tra a Unidade da Igre­ja tor­na-se mais o peca­do de quem recusa o ecu­menis­mo e a tipolo­gia da recom­posição que este propõe: está recom­posição, porém tende a uma for­ma de unidade absur­da e impro­ponív­el a con­sciên­cia católi­ca.

É abso­lu­ta­mente insus­ten­táv­el o princí­pio de que a Unidade deve ser recom­pos­ta:é dev­i­do, ao invés, cumprir todos os esforços para recol­her os “sep­a­ra­dos” na Unidade que a Igre­ja jamais perdeu e jamais perderá.

-1-

A Igre­ja é o Cor­po Mís­ti­co de Cristo

Antes de tudo não deve­mos esque­cer que a pecu­liari­dade da Igre­ja é de ser uma sociedade essen­cial­mente sobre­nat­ur­al na qual se encon­tram e se har­mo­nizam o ele­men­to humano e o ele­men­to divi­no. Isto pres­supõe, na questão que nos ocu­pa, o critério de avali­ação diver­so daque­le comu­mente uti­liza­dos no exam­i­nar uma sociedade pura­mente nat­ur­al.

Para bem definir o prob­le­ma deve­mos então focalizar a atenção sobre o fato que a Igre­ja é, na História e através da História„ a con­tin­u­ação da obra de Encar­nação, sem a qual Essa seria impen­sáv­el. Porque o Ver­bo assum­iu uma natureza humana com­ple­ta e uniu de for­ma per­fei­ta na Sua pes­soa as duas naturezas humana e div­ina, a con­tin­u­ação no tem­po des­ta obra se real­iza na insti­tu­ição que Ele fun­dou e que o rep­re­sen­ta a um títu­lo úni­co e exclu­si­vo, na qual – e somente na qual – os home­ns encon­tram e assumem todos aque­les ele­men­tos sobre­nat­u­rais necessários a sua san­tifi­cação e a sua incor­po­ração a Cristo mes­mo, do qual o Cor­po Mís­ti­co tor­nam-se mem­bros através do Batismo.

Uma vez incor­po­ra­dos a Cristo, os home­ns, per­manecen­do tais, são revesti­dos pela graça e pelos dons do Espíri­to San­to, isto é por ele­men­tos pura­mente sobre­nat­u­rais: neste sen­ti­do a Igre­ja é a con­tin­u­ação da Encar­nação na História.

Sobre­tu­do deve­mos notar como a união das duas naturezas na Pes­soa do Ver­bo rep­re­sen­ta o que é mais orig­i­nal, insep­a­ráv­el e indi­visív­el pudesse ser real­iza­do e isto por uma razão bem pre­cisa; A pes­soa na ver­dade é “irrepetív­el”, para usar um ter­mo caro a mes­ma filosofia mod­er­na. Isto sig­nifi­ca que não pode exi­s­tir mais de uma unidade na mes­ma pes­soa, mais do que isso, enquan­to na pes­soa é alcança­do o apogeu da unidade. Está uni­ci­dade é tão abso­lu­ta que toda pes­soa rep­re­sen­ta uma real­i­dade úni­ca, per­fei­ta e com­ple­ta.  Se pode exi­s­tir no cri­a­do mais gatos ou mais cav­a­l­os, existe um só Júlio César ou um só Rober­to Bel­larmi­no: a pes­soa é então um unicum irrepetív­el e inco­mu­nicáv­el.

Con­se­quente­mente uma pes­soa que fos­se divin­dade nas partes essen­ci­ais que a com­põem, como alma e cor­po, ou que por absur­do fos­se repeti­da, como se fos­sem dois Júlio César, ces­saria sim­ples­mente de ser pes­soa.

Mas se isto é ver­dade de uma pes­soa humana, quan­to mais isto é ver­dadeiro de uma pes­soa div­ina e – ana­logi­ca­mente – do seu Cor­po Místico(4) que con­tin­ua a mis­são nos sécu­los?

Por con­seguinte e por analo­gia, os mem­bros deste Cor­po cuja cabeça é Nos­so Sen­hor, não podem ser par­cial­mente lig­a­dos a cabeça: ou eles são parte inte­grante do cor­po ou não são mais parte do cor­po de nen­hum modo; ou exis­tem no seu Cor­po Mís­ti­co Per­feito ou esse não podem exi­s­tir em qual­quer out­ro lugar, como se fos­sem seus mem­bros imper­feita­mente unidos.

O con­stata­mos na real­i­dade: para um mem­bro não existe um esta­do inter­mediário no esse ao mes­mo tem­po per­tence e não per­tence ao nos­so cor­po; isto deve ser abso­lu­ta­mente admi­ti­do, sob pena de per­da ou diminuição daque­la per­feição abso­lu­ta e intrínse­ca da Igre­ja que se chama Unidade: a comunhão com a Igre­ja é uma só, porque se a Unidade da Igre­ja pudesse ser dec­li­na­da em modal­i­dade imper­fei­ta ces­saria sim­ples­mente de ser Unidade.

Na ver­dade isto que por essên­cia e por definição é per­feito – e então úni­co e abso­lu­to – não sub­si­s­tiria mais, isto é ces­saria de exi­s­tir, no momen­to no qual ele pode ser infe­ri­or a per­feição úni­ca e admis­sív­el que especí­fi­ca e o car­ac­ter­i­za: em tal caso começaria a ser uma out­ra coisa, com out­ras características(5).

Os prece­dentes históri­cos

A ecle­si­olo­gia con­tem­porânea a qual faze­mos refer­i­men­to é deci­si­va­mente nova. Todavia, a raiz do erro que não está sujeito a qual­quer coisa nova e his­tori­ca­mente coin­cid­iu com a maior dis­pu­ta cristológ­i­ca que a História já con­heceu.  Na ver­dade des­de os primeiros sécu­los da era cristã o demônio procurou aten­tar con­tra o dog­ma fun­da­men­tal expressão da ver­dade fun­da­men­tal através do qual foi der­ro­ta­do: a Encar­nação, que é a união das duas naturezas na Pes­soa do Ver­bo. Este due­lo históri­co, que con­heceu mil diver­si­fi­cações e difi­cul­dades, alcançou seu apogeu no seu encon­tro entre São Cir­i­lo de Alexan­dria e Nestório no quin­to sécu­lo.

Não se deve então sur­preen­der se a Unidade, qual pre­rrog­a­ti­va úni­ca e inder­rogáv­el da Igre­ja Católi­ca, Cor­po Mís­ti­co do Ver­bo Encar­na­do, seja hoje o dog­ma mais ata­ca­do e ofus­ca­do pelas novas con­cepções ecle­si­ológ­i­cas. Como no quin­to sécu­lo foi ata­ca­da a Unidade na Pes­soa do Ver­bo, assim hoje essa é ata­ca­da na sua Igre­ja.

A con­ver­são não é um resul­ta­do arit­méti­co

Antes de prosseguir, enten­demos pre­cis­ar que as nos­sas con­sid­er­ações tem por obje­to os gru­pos cristãos não católi­cos, aos quais foi recon­heci­da qual­quer ecle­sial­i­dade ou, con­tu­do um estatu­to legí­ti­mo de comu­nidade con­sti­tuí­da; man­ten­do-se então sobre um plano estri­ta­mente ecle­si­ológi­co, não entramos em con­sid­er­ações lig­adas a pes­soais per­cur­sos de con­ver­são que podem ter lugar em um ou out­ro indi­vid­uo per­ten­cente a uma destas comunidades(6).

Tam­bém enten­demos esclarece sobre um pon­to que tocare­mos ain­da no cur­so das nos­sas reflexões: se tra­ta de numerosos ele­men­tos comuns que o catoli­cis­mo tem com as difer­entes con­fis­sões cristãs. É inegáv­el, por exem­p­lo, que a Igre­ja ten­ha muito em comum com os orto­dox­os e con­se­quente­mente apare­ce­ria evi­dente uma não ple­na, mas sig­ni­fica­ti­va comunhão eclesial(7). Como primeiro e fun­da­men­tal ele­men­to de respos­ta ten­hamos pre­sente que está comunhão se baseia uni­ca­mente sobre a pre­sença de ele­men­tos comuns con­sid­er­a­dos na sua mate­ri­al­i­dade; as nos­sas reflexões ao invés enten­dem evi­den­ciar o val­or for­mal destes ele­men­tos em relação a Igre­ja e a sua par­tic­u­lar natureza.

O escopo des­ta dis­tinção pode ser evi­den­ci­a­do com um exem­p­lo con­cre­to: não é óbvio que aque­les que têm em comum, a nív­el mate­r­i­al, um grande número de ele­men­tos com a Igre­ja católi­ca se con­ver­ta mais facil­mente e mais rap­i­da­mente do que aque­les que ao invés fal­ta. Por exem­p­lo, um não cristão pode­ria con­vert­er-se mais facil­mente que um orto­doxo, emb­o­ra este últi­mo ten­ha cer­ta­mente “em comum” com a Igre­ja muito mais. Na ver­dade, se pode talvez afir­mar o con­trário: quem tem pouco ou nada em comum com a Igre­ja pode con­vert­er-se mais facil­mente do que quem, em teo­ria, com o catoli­cis­mo com­par­til­ha quase tudo, mas tem aque­la hos­til­i­dade para com a Igre­ja típi­ca de quem se man­chou com o peca­do de cis­ma.

E a História esta ai para demon­stra-lo: no últi­mo milênio a Igre­ja con­seguiu con­vert­er mil­hões de pagãos, enquan­to o número de recon­ver­tidos do cis­ma do Ori­ente foi sem­pre baixo.

Então fun­dar a “recon­strução” da Unidade sobre a base de quan­ti­dade de ele­men­tos em comum entre as diver­sas con­fis­sões cristãs tomadas exclu­si­va­mente em seu aspec­to numéri­co, sig­nifi­ca anal­is­ar o prob­le­ma sobre um plano pura­mente mate­r­i­al e não ter em con­ta a real­i­dade dos fatos e da ver­dadeira natureza do prob­le­ma.

-2-

A Igre­ja é a esposa de Cristo

Bem con­heci­da é a analo­gia que São Paulo mes­mo (8) uti­liza para definir a Igre­ja como Esposa de Cristo.

Na real­i­dade já no Evan­gel­ho Nos­so Sen­hor uti­liza fre­qüen­te­mente o tema do ban­quete nup­cial para apre­sen­tar o mis­tério da Igre­ja; está imagem recor­rente encon­tra a sua expressão mais solene e defin­i­ti­va no Apoc­alipse de João, no qual a eternidade bea­ta é ilustra­da através do ícone das nupcías entre a Igre­ja e o Cordeiro(9).

Porque o Novo Tes­ta­men­to priv­i­le­giou está analo­gia, em meio a tan­tas out­ras, a um títu­lo par­tic­u­lar?

Matrimônio sig­nifi­ca antes de tudo união estáv­el e defin­i­ti­va, exata­mente aqui­lo que Nos­so Sen­hor quer realizar com sua Igre­ja e através Dessa com as almas, mem­bros do seu Cor­po Mís­ti­co. É evi­dente que as duas fig­uras da Esposa e do Cor­po Mís­ti­co se cruzam: onde existe autên­ti­ca união con­ju­gal, mari­do e mul­her se tor­nam um.

Ora, um matrimônio para ser váli­do deve antes de tudo volta­do para a per­pe­tu­idade e a fidel­i­dade abso­lu­ta e recíp­ro­ca: sem estes pres­su­pos­tos sim­ples­mente não existe matrimônio váli­do.

Sobre­tu­do nota­mos como o empen­ho a fidel­i­dade abso­lu­ta e recíp­ro­ca expri­ma e pro­te­ja a sacral­i­dade do vín­cu­lo con­ju­gal a tal pon­to que uma só som­bra con­trária a este empen­ho repugna e aparece incom­patív­el com o vín­cu­lo con­ju­gal mes­mo: aqui mais que em qual­quer out­ro ele­men­to encon­tramos sig­nifi­ca­da a natureza do vín­cu­lo que Cristo quer com a Sua Igre­ja.

Este vín­cu­lo é úni­co por duas ordens da razão. Antes de tudo ele pode exi­s­tir val­i­da­mente em um só caso: assim como a comunhão entre dois esposos pode exi­s­tir só em um úni­co caso e especí­fi­co, enquan­to um matrimônio é imped­i­men­to a um segun­do matrimônio, assim a união entre Cristo e a Igre­ja pode exi­s­tir só em um úni­co caso pre­ciso. Em segun­do lugar este vín­cu­lo, onde existe, não pode ser dec­li­na­do – ou diluí­do – em for­ma diver­sa: ele existe só em uma modal­i­dade abso­lu­ta e per­fei­ta.

Assim como a união ver­dadeira e legí­ti­ma entre os con­jugues existe só no matrimônio e não pode exi­s­tir entre dois fal­sos “con­jugues” que recusam – por exem­p­lo – as obri­gações do matrimônio, assim a união entre Cristo e a Igre­ja existe só na sua for­ma per­fei­ta, ou seja, na úni­ca Igre­ja queri­da e fun­da­da por Ele (10). Em ter­mos mais sim­ples um matrimônio ou é váli­do ou inváli­do; se é váli­do é nec­es­sari­a­mente per­feito (11).

Nes­ta per­spec­ti­va – que é a úni­ca admis­sív­el – o con­ceito de unidade par­cial, de não ple­na comunhão das fal­sas igre­jas ou comu­nidades, aparece mais como uma ten­ta­ti­va de legit­i­mação de uma união espúria ou de um matrimônio fal­so: ain­da mais absur­do aparece a ten­ta­ti­va de val­orizar este tipo de união como um ele­men­to pos­i­ti­vo e intrin­se­ca­mente váli­do para alcançar a per­fei­ta união com Cristo na Igre­ja. Não é nun­ca demais repe­tir: seja sobre o plano teológi­co seja sobre o plano históri­co uma fal­sa Igre­ja não é um meio para alcançar a “ple­na comunhão”, mas um instru­men­to fun­cional a man­ter longe as almas da úni­ca ver­dadeira Igreja(12).

Sobre­tu­do a per­spec­ti­va cri­a­da pelo con­ceito de não ple­na comunhão pre­tende impor a Nos­so Sen­hor das “esposas” de segun­do classe que não se escol­heu e que não pode aceitar como tais.

Ain­da uma vez só a ide­olo­gia ecumêni­ca pode­ria pro­duzir um erro de tal mag­ni­tude, com o úni­co resul­ta­do de provo­car con­fusão e diminuição da fé na Unidade e Uni­ci­dade da Igre­ja Católi­ca e – con­se­quente­mente – obscure­cen­do aos olhos dos errantes a neces­si­dade abso­lu­ta de per­tencer a Mes­ma ou de recon­vert­er-se a Ela.

-3-

A Unidade da Igre­ja se fun­da sobre a adesão sobre­nat­ur­al ao Úni­co Ver­dadeiro

Deve­mos ago­ra inter­rog­ar sobre os ele­men­tos que asse­gu­ram a Unidade da Igre­ja para em segui­da aplicar as dev­i­das con­clusões ao prob­le­ma que nos inter­es­sa.

Como é ensi­na­do pela dout­ri­na clás­si­ca exis­tem na Igre­ja três fatores de unidade: a unidade de fé, a unidade de gov­er­no e a unidade de cul­to. Isto sig­nifi­ca que na Igre­ja deve exi­s­tir uma úni­ca fé, um úni­co gov­er­no e uma úni­ca litúr­gia com os mes­mos sacra­men­tos e com ritos sub­stan­cial­mente equiv­a­lentes. Estes três fatores obvi­a­mente rep­re­sen­tam um unicum e não é pos­sív­el escol­her um excluin­do um out­ro.

No entan­to a fé tem uma pri­or­i­dade lóg­i­ca sobre os out­ros dois ele­men­tos, enquan­to fun­da­men­to da vida cristã, por­ta e pres­su­pos­to fun­da­men­tal de todas as out­ras vir­tudes sobre­nat­u­rais. Não por aca­so a fé é a primeira coisa que o bati­zan­do pede a Igre­ja. A fé procu­ra a vida eter­na: é a segun­da afir­mação do bati­zan­do. Os sacra­men­tos não fazem out­ro que faz­er fru­ti­ficar o germe da fé sem­i­na­do com o batismo e o gov­er­no mes­mo da Igre­ja não tem out­ro fim senão aque­le de con­duzir às almas a vida eter­na. Neste unicum a fé tem então uma pri­or­i­dade lóg­i­ca. Focalizare­mos então a nos­sa atenção de fé católi­ca enten­di­da como fator fun­da­men­tal de unidade: isto per­mi­tirá dis­si­par alguns graves equívo­cos ao qual já tin­hamos ace­na­do e evi­den­ci­a­do ime­di­ata­mente.

Se de fato esta­mos unidos no pro­fes­sar a mes­ma fé, com todos os seus dog­mas, pare­cerá que existe real­mente uma cer­ta unidade com a profis­são de fé luter­ana (só para dar um exem­p­lo), enquan­to cre­mos ambos em alguns dog­mas: a divin­dade de Cristo, a vida eter­na, a neces­si­dade do batismo, o infer­no, etc… Bem, sus­ten­tam os fau­tores do ecu­menis­mo, é sobre este pon­tos comuns de ele­men­tos essen­ci­ais que devem ser aproveita­dos para recon­stru­ir a unidade per­di­da por causa do peca­do. Neste sen­ti­do os luter­a­nos estari­am em uma cer­ta comunhão com a Igre­ja. Ain­da mais o seri­am os angli­canos e ain­da mais os orto­dox­os, enquan­to com­par­til­ham conosco quase todos os dog­mas.

Infe­liz­mente a per­spec­ti­va é erra­da e reduz a fé a um con­jun­to de enun­ci­a­dos mais ou menos com­par­til­ha­dos pelas diver­sas con­fis­sões. Se tra­ta de uma visão deci­si­va­mente “hor­i­zon­tal” e mate­r­i­al de infor­mações que dev­e­ri­am ao invés ser lev­adas em con­sid­er­ação per­manecen­do sobre o plano sobre­nat­ur­al que respei­ta a natureza intrínse­ca da vir­tude teolo­gal da fé: é a “fé” vista por quem não mais a fé ou a está per­den­do.

De um pon­to de vista for­mal a Unidade que dis­tingue quem pro­fes­sa a ver­dadeira fé não se baseia sim­ples­mente sobre uma suma mais ou menos idên­ti­ca de dog­mas, mas sobre o fato que nós nos sub­me­te­mos sobre a autori­dade de Deus que se rev­ela e que fala através da Igre­ja: é este o moti­vo fun­da­men­tal de Unidade para quem pro­fes­sa a fé católi­ca. Ora, a autori­dade de Deus que se rev­ela não pode ser que Una porque Deus é Uno (obvi­a­mente com tais pre­mis­sas e con­teú­dos dog­máti­cos não podem que ser abso­lu­ta­mente idên­ti­cos).

Por­tan­to aque­les que acred­i­tam em algu­ma coisa ou mes­mo em quase todos os dog­mas católi­cos, não pode fazê-lo pela mes­ma razão que nós indicamos, mas com base em per­suasões ou con­vicções de out­ra natureza, o que excluí qual­quer tipo de comunhão no sen­ti­do for­mal do ter­mo. Res­ta ape­nas um traço comum, mais ou menos alarga­do, de tipo mate­r­i­al e fenomenológico(13).

Em ter­mos mais sim­ples: qual­quer um que com­par­til­has­se todas as ver­dades ensi­nadas pela Igre­ja exce­to  ain­da que uma de fato no crer em todas as out­ras o faria não por obe­diên­cia a Igre­ja, mas ape­nas a sua própria razão. Então tam­bém sobre o plano quan­ti­ta­ti­vo e mate­r­i­al teria muito em comum com o catoli­cis­mo, sobre o plano da fé (que como temos vis­to é aque­le fun­dante de todos os out­ros) não se dis­tin­guiria sub­stan­cial­mente de quem recusa todos os dog­mas.

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O fim da Igre­ja é a sal­vação das almas

Final­mente deve­mos nos inter­rog­ar sobre a final­i­dade especí­fi­ca da comunhão com a Igre­ja. Na ver­dade tam­bém sobre este pon­to exis­tem graves equívo­cos: a pertença a Igre­ja fre­qüen­te­mente reduzia a um mero sinal de iden­ti­dade cul­tur­al ou reli­giosa, legit­i­ma­do, sobre­tu­do pela tradição local própria aos país­es católi­cos, o que jus­ti­fi­ca de fato qual­quer per­cur­so alter­na­ti­vo.

Na real­i­dade o prob­le­ma é deci­si­va­mente mais grave e deve ser avali­a­do em relação a mis­são da Igre­ja, fora da Qual não existe sal­vação.

A pertença a Igre­ja é então pos­tu­la­da por está ver­dade dog­máti­ca e o será em ter­mo pro­por­cional a mag­ni­tude des­ta mes­ma ver­dade.

Ora, a sal­vação como tal rep­re­sen­ta ao mes­mo tem­po o fim últi­mo da vida de todo homem e a razão de ser da Igre­ja. É uma real­i­dade que não pode ser nem dec­li­na­da e nem diluí­da: for­mal­mente falan­do não é pos­sív­el estar em um esta­do de quase sal­vação, de não ple­na sal­vação, de par­cial sal­vação, nem teria sen­ti­do pro­por a qual­quer um uma sal­vação imper­fei­ta como um bem para a sua alma. Infe­liz­mente a úni­ca alter­na­ti­va a sal­vação é a danação, sem algu­ma som­bra inter­mediária.

Con­se­quente­mente o vín­cu­lo com a Igre­ja (a comunhão), através da qual a sal­vação é veic­u­la­da, não pode em nen­hum caso ser par­cial sem ser absur­da e então inex­is­tente.

A oração de Jesus para a Unidade (14)

Enten­demos con­cluir as nos­sas reflexões com qual­quer con­sid­er­ação sobre a céle­bre oração de Nos­so Sen­hor pela Unidade. Tra­ta-se da notáv­el pas­sagem do Evan­gel­ho de São João (17, 11–21) na qual Jesus ora ao Pai afim que con­ce­da o dom da Unidade aos após­to­los e aos crentes. A céle­bre pas­sagem é sis­tem­ati­ca­mente uti­liza­da para jus­ti­ficar o movi­men­to ecumêni­co, o qual se auto cer­ti­fi­ca como respos­ta fiel ao ensi­na­men­to e a von­tade explíci­ta de Jesus expres­sa nes­ta mes­ma oração.  Na real­i­dade, para­doxal­mente está própria oração de Jesus desmon­ta e con­de­na tal movi­men­to.

Na ver­dade, quan­do Jesus pede qual­quer coisa ao Pai, a sua oração é sem­pre infalív­el, isto é ele obtém sem­pre aqui­lo que pede(15): Jesus é Sumo Sac­er­dote e então Sumo Medi­ador, esta­b­ele­ci­do como tal pelo Pai. Isto acon­tece sem­pre e nec­es­sari­a­mente a menos que a mes­ma oração seja condi­cional, como acon­tece no Get­sê­mani, quan­do Jesus sub­mete a von­tade do Pai o êxi­to da sua solic­i­tação. Na oração pela Unidade isto não acon­tece: Jesus pede a Unidade para a Sua Igre­ja como um bem abso­lu­to e necessário. Por­tan­to, Ele não pode senão que obtê-la e o Pai não pode senão que con­cedê-la. Se tra­ta da Unidade abso­lu­ta, pre­rrog­a­ti­va inamovív­el, da qual temos trata­do, que a Igre­ja não poderá jamais perder e que não pode exi­s­tir nem ser procu­ra­da, nem ser recon­struí­da do lado de fora Dela.

Fonte: Revista Tradizione Cat­toli­ca – FSSPX Itália

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Notas:

(1) «Con­vergên­cia» é o ter­mo empre­ga­do por Teil­hard de Chardin – e mais tarde, abraça­da pela maio­r­ia dos teól­o­gos con­tem­porâ­neos – para sub­sti­tuir o tradi­cional con­ceito de con­ver­são, con­sid­er­a­do obso­le­to. Tratar-se-ia, em sín­tese, de faz­er somente “con­ver­gir” todas as con­fis­sões cristãs evi­den­cian­do aqui­lo que elas tem em comum ao invés daqui­lo que a sep­a­ra, “bypas­san­do” deste modo o prob­le­ma da con­ver­são com tudo aqui­lo que essa com­por­ta.

(2) Cfr. Sil­l­abus, proposição con­de­na­da 38: «A divisão da Igre­ja em ori­en­tal e oci­den­tal, con­tribuíram os exces­sivos arbítrios dos romanos pon­tí­fices».

(3) Não enten­demos escon­der o fato que tam­bém com­po­nentes lin­guís­ti­cos, históri­cos e humanos entraram em jogo, mas nen­hum destes, nem sequer con­sid­er­a­do em seu con­jun­to, pode ser con­sid­er­a­do moti­vo sufi­ciente de um ato tão grave como aque­le da sep­a­ração da Sé Apos­tóli­ca. Seja naqui­lo que diz respeito as Igre­jas vet­ero-ori­en­tais que aque­las orto­doxas, a his­to­ri­ografia con­tem­porânea min­i­miza o prob­le­ma dog­máti­co acen­tuan­do muito as incom­preen­sões lin­guís­ti­cas e as recíp­ro­cas tendên­cias pre­var­i­cado­ras. O prob­le­ma essen­cial per­manece ao invés o seguinte: «Não bas­ta aceitar de boa mente os anti­gos doc­u­men­tos do mag­istério ecle­siás­ti­co, mas que é tam­bém necessário abraçar com âni­mo sub­mis­so e fiel tudo aqui­lo que a Igre­ja, com a força de sua autori­dade supre­ma, nos man­da crer”.» (Pio XII, Ori­en­tal­is Eccle­si­ae). Nem é pro­va o fato que depois da Declar­ação cristológ­i­ca comum entre a igre­ja assíria do Ori­ente, fir­ma­da em 1994 respec­ti­va­mente por João Paulo II e Mar Dinkha IV, a igre­ja assíria per­siste em uma situ­ação de cis­ma, sinal evi­dente que out­ro é aceitar uma definição e out­ro acei­ta-la em função da autori­dade da Sé Apos­tóli­ca.

(4) A Igre­ja, para ser pre­cisa, não é uma pes­soa mas uma soci­etas. Todavia, igual a pes­soa, a Igre­ja é Una.

(5) Está con­clusão pode facil­mente ser supor­ta­da por um sim­ples argu­men­to filosó­fi­co. Onde existe um movi­men­to em direção a uma per­feição últi­ma existe nec­es­sari­a­mente um esta­do atu­al de imper­feição. Mais pre­cisa­mente: onde sub­siste uma potên­cia a qual­quer per­feição, sig­nifi­ca que está últi­ma não está per­feita­mente em ato. Se então a Unidade da Igre­ja pudesse sub­si­s­tir tam­bém em for­mas não per­feitas, em direção a um pro­gres­si­vo aper­feiçoa­men­to, sig­nifi­caria atribuir a Unidade mes­ma da Igre­ja a uma imper­feição inad­mis­sív­el.

(6) Por­tan­to além das nos­sas reflexões a questão do batismo no voto.

(7) Vale a pena gas­tar algu­mas lin­has sobre este pon­to. O Vigário de Cristo na ter­ra, isto é o legí­ti­mo suces­sor de São Pedro, não é um “ele­men­to adi­cional” com ou sem o qual a Igre­ja per­manece a mes­ma. O Sumo Pon­tí­fice é o vín­cu­lo visív­el da unidade, como a cabeça o é para o cor­po inteiro. Por­tan­to, removi­do este vín­cu­lo, não temos mais um cor­po, mas um con­jun­to de mem­bros descere­bra­dos. O afir­ma­va clara­mente Pio XII: «Em erro perigoso estão, pois, aque­les que jul­gam poder unir-se a Cristo, cabeça da Igre­ja, sem aderirem fiel­mente ao seu vigário na ter­ra”. Suprim­i­da a cabeça visív­el e rompi­dos os vín­cu­los visíveis da unidade, obscure­cem e defor­mam de tal maneira o cor­po mís­ti­co do Reden­tor, que não pode ser vis­to nem encon­tra­do de quan­tos deman­dam o por­to da eter­na sal­vação» (Pio XII, Mys­ti­ci Cor­poris). Analoga­mente sus­ten­tar uma ecle­si­olo­gia que explici­ta­mente recusa o pri­ma­do petri­no (nos seus suces­sores) como per­ten­cente ao ensi­na­men­to de Nos­so Sen­hor tem, por­tan­to, reper­cussões em toda a dout­ri­na sobre a Igre­ja, que his­tori­ca­mente  lhe con­duz­iu a um acen­tu­a­do cesaropa­pis­mo e ao real prob­le­ma da sin­to­nia entre os diver­sos patri­ar­cas.

(8) Cfr. 1 Cor 6, 15–17; 2 Cor 11, 2.

(9) Cfr Ap 22, 17; Ef 1, 4; 5, 27.

(10) O desen­volvi­men­to da analo­gia pode ulte­ri­or­mente cor­rob­o­rar o con­ceito. Os dois esposos depois do matrimônio, são uma só carne (cfr. Mt 19,6). Sobre o plano ontológi­co, então, entre um momen­to antes e um momen­to depois o matrimônio há uma difer­ença abissal. Vice-ver­sa, no cur­so do noiva­do existe sem out­ro uma lon­ga mat­u­ração que, entre o iní­cio e o perío­do final ime­di­ata­mente prece­dente ao matrimônio, leva, a nív­el humano, os dois noivos a um con­hec­i­men­to muito maior. Porém, a nív­el ontológi­co, nada muda. Que os dois noivos se con­heçam ape­nas ou que se con­heçam já per­feita­mente (como o dia antes do casa­men­to), sua união con­ju­gal, até não se casarem é onto­logi­ca­mente  sem­pre a mes­ma: isto é nada, sim­ples­mente não existe; sobre­tu­do nota­mos como os dois noivos em todo momen­to estão pri­va­dos de qual­quer vín­cu­lo.

Uma dis­tinção análo­ga pode ser apli­ca­da a real­iza­ção que inter­corre entre as comu­nidades acatóli­cas e a Igre­ja. Entre uma comu­nidade calvin­ista e uma “igre­ja” orto­doxa existe cer­ta­mente grande difer­ença sobre o plano mate­r­i­al, mas sobre aque­le ontológi­co nen­hum: ambos não tem nen­hu­ma união for­mal com a Igre­ja; próprio como dois noivos não tem nen­hu­ma união mat­ri­mo­ni­al tan­to um ano quan­to um dia antes do matrimônio: não podem ser “imper­feita­mente esposa­dos” ou em esta­do de “não pleno matrimônio”! Onto­logi­ca­mente, então, a união ou sub­siste na sua for­ma com­ple­ta ou não sub­siste abso­lu­ta­mente.

(11) O nos­so raciocínio se move nat­u­ral­mente entre o plano ontológi­co, no qual isto que faz a val­i­dade é o con­jun­to e a per­feição dos req­ui­si­tos, a pre­scindir dos lim­ites e das difi­cul­dades humanas e psi­cológ­i­cas que investem ao invés o plano pes­soal e fenom­e­nológi­co.

(12) É supér­fluo repe­tir que isto vale para as fal­sas religiões enquan­to tais, a pre­scindir das dis­posições sub­je­ti­vas de quem lhe faz parte. Enquan­to tais, na ver­dade, não podem jamais ser instru­men­tos de sal­vação, car­ac­terís­ti­ca própria só da religião católi­ca e isto por insti­tu­ição div­ina.

(13) Se note que, neste caso, não impor­ta a inten­si­dade sub­je­ti­va do ato de fé; é bem ver­dadeiro que um adven­tista ou um mór­mon pode ter uma “fé” muito mais inten­sa (ou fanáti­ca) que um católi­co e este últi­mo pode ser tíbio como fre­qüen­te­mente acon­tece: isto que esta­mos anal­isan­do é a natureza intrínse­ca do ato de fé enten­di­do como tal e os req­ui­si­tos nec­es­sari­a­mente devem ter para poder exi­s­tir.

(14) Assi­nalam­os sobre este tema o óti­mo Pier Car­lo Lan­duc­ci, O ver­dadeiro sig­nifi­ca­do de: «Ut unum sint» (Gv 17, 11.21), in Ren­o­va­tio, anno XVII, n. 1, 1983.

(15) Suma Teológ­i­ca, III, Q. 21, art. 4.