Sermão de natal de Santo Antônio de Pádua


Teologia / domingo, dezembro 8th, 2013
TEMAS DO SERMÃO
Evan­gel­ho do primeiro domin­go após o Natal do Sen­hor: “José e Maria…”, que é divi­di­do em três partes.
No primeiro tema do ser­mão, sobre a graça e a glória de Jesus Cristo, como está escrito: “Aprende onde está a sabedo­ria”. O primeiro tema, sobre a pobreza, como está escrito: “Deus fez-me crescer”. Ain­da, sobre a mis­éria dos ricos, como está escrito: “Deus te gol­peará com pobreza”. Sobre a humil­dade, con­de­nação dos sober­bos e exal­tação dos humildes, como está escrito: “Olhan­do o Sen­hor pela col­u­na de nuvem”. Sobre a útil tris­teza dos pen­i­tentes, como está escrito: “O espíri­to triste”. Sobre a obe­diên­cia, como está escrito: “Fala, Sen­hor”. E, por fim, para os pen­i­tentes e reli­giosos, como está escrito: “Issacar é um asno forte”.
No segun­do tema, sobre a sober­ba e a humil­dade do coração, como está escrito “Depôs os poderosos”. Sobre a util­i­dade da ruí­na para os pecadores con­ver­tidos, como está escrito: “Haverá ruí­na para o cav­a­lo”. Sobre a ressur­reição da alma dos peca­dos, como está escrito: “A mão do Sen­hor pôs-se sobre mim”; e sobre a pro­priedade das prisões. Ain­da, con­tra os amantes das coisas tem­po­rais, como está escrito: “Esten­di as min­has mãos”. Sobre o dup­lo par­to de San­ta Maria, como está escrito: “Antes de dar à luz”; e a Paixão do seu Fil­ho, como está escrito: “Lem­bra-te da pobreza”. Por fim, sobre as qua­tro estações do ano e o seu sig­nifi­ca­do, como está escrito: “Quan­do chegará a plen­i­tude dos tem­pos”.
No ter­ceiro tema, sobre a Anun­ci­ação ou o Natal do Sen­hor, como está escrito: “Quan­do tudo esta­va envolvi­do num grande silên­cio”. E um ser­mão moral sobre a pen­itên­cia, como está escrito: “Quan­do tudo esta­va envolvi­do num grande silên­cio”.
EXÓRDIO. SOBRE A GRAÇA E A GLÓRIA DE JESUS CRISTO
1. Naque­le tem­po: “José e Maria, mãe de Jesus, estavam admi­ra­dos com o que diziam sobre ele” (Lc 2, 33).
Disse Baruc: “Aprende onde está a sabedo­ria, onde está a prudên­cia, onde está a vir­tude, onde está a inteligên­cia, para que saibas tan­to onde está a lon­ga vida e sobre­vivên­cia, quan­to a luz dos olhos e a paz” (Bar 3, 14). Diz o Salmo: “O Sen­hor dará a graça e a glória” (Ps 83, 12); a graça no pre­sente, e a glória no futuro. As primeiras qua­tro pre­mis­sas ref­er­em-se à graça, e as últi­mas qua­tro, à glória. A sabedo­ria, palavra que vem do latim, “sapere”, sen­tir sabor, está no gos­to da con­tem­plação; a prudên­cia, em pre­caver-se das ciladas; a vir­tude, em supor­tar as adver­si­dades; a inteligên­cia, em recusar os males e escol­her os bens. Por out­ro lado, a lon­ga vida será a dos san­tos na eter­na bem-aven­tu­rança; por isso: “Eu vivo, e vós viveis” (Jo 14, 19); a sobre­vivên­cia, na fruição da ale­gria; por isso: “Eu dispon­ho do reino a vos­so favor, para que comais e bebais sobre a min­ha mesa” (Lc 22, 29–30) etc.; a luz dos olhos, na visão da humanidade glo­ri­fi­ca­da de Cristo; por isso, em João: “Pai, os que me deste, quero que, onde eu este­ja, eles este­jam comi­go, para verem a min­ha glória, que me deste” (Jo 17, 24); a paz, na glo­ri­fi­cação do cor­po e da alma; por isso Isaías diz: “Con­ser­varás a paz, porque em vós, Sen­hor, temos esper­a­do” (Is 26, 3). Sobre a lon­ga vida e a luz dos olhos fala-se no Salmo: “A fonte da vida está jun­to de vós, e na tua luz ver­e­mos a luz” (Ps 35, 10); sobre a paz e a sobre­vivên­cia: “Que pôs os teus fins em paz, e te sacia com a flor do tri­go” (Ps 147, 14). A flor do tri­go é a fruição da ale­gria da humanidade de Jesus Cristo, com a qual se sacia­rão os san­tos.
Ou então: Aprende, ó homem, a amar Jesus, e então apren­derás onde está a sabedo­ria etc. Ele é a sabedo­ria; por isso, nos Provér­bios, lê-se: “A sabedo­ria con­stru­iu para si uma casa” (Prov 9, 1). Ele é a prudên­cia; por isso disse Jó: “A sua prudên­cia”, isto é, a prudên­cia do Pai, “golpeou o sober­bo” (Job 26, 12), isto é, o dia­bo. Ele é a vir­tude, como disse o Após­to­lo: É a vir­tude de Deus e a sabedo­ria de Deus (cf. 1Cor 1, 24). Nele está toda a inteligên­cia, a cujos olhos todas as coisas são man­i­fes­tas (cf. Hebr 4, 13). Ele é a vida: “Eu sou o cam­in­ho, a ver­dade e a vita” (Jo 14, 6). Ele é a sobre­vivên­cia, pos­to que é o pão dos anjos, a refeição dos jus­tos. Ele é a luz dos olhos: “Eu sou a luz do mun­do” (Jo 8, 12). “Ele é a nos­sa paz, que de dois fez um” (Eph 2, 14).
Aprende, ó homem, essa sabedo­ria, para que sabor­eies; essa prudên­cia, para que te cuides; essa vir­tude, para que ten­has suces­so; essa inteligên­cia, para que con­heças; essa vida, para que vivas; essa sobre­vivên­cia, para que não des­faleças; essa luz, para que vejas; essa paz, para que des­cans­es. Ó bom Jesus, onde vos procu­rarei? Onde vos encon­trarei? Onde, encon­tran­do a vós, encon­trarei ess­es bens? Pos­suin­do-vos, pos­suirei ess­es bens? Procu­ra e acharás. E, per­gun­to, onde mora ele? Onde se apas­cen­ta ao meio-dia? (cf. Cant 1, 6) Queres ouvir onde? Dize, peço-to. Em meio a José e Maria, a Simeão e Ana, encon­trarás Jesus. Por isso, no evan­gel­ho de hoje, lê-se: “José e Maria, mãe de Jesus, estavam admi­ra­dos” etc.
2. Nesse evan­gel­ho, essas qua­tro pes­soas se propõem, e ver­e­mos o que cada uma sig­nifi­ca do pon­to de vista moral. José quer diz­er “aque­le que acres­cen­ta”; Maria, “estrela do mar”; Simeão, “aque­le que ouve a tris­teza”; Ana, “aque­la que responde”. José sim­boliza a pobreza; Maria, a humil­dade; Simeão, a pen­itên­cia; Ana, a obe­diên­cia. Dis­sertare­mos sobre cada um.
I. SOBRE A POBREZA, HUMILDADE, PENITÊNCIA E OBEDIÊNCIA

3. José acres­cen­ta (cf. Gen 49, 22). Quan­do o homem mis­eráv­el dá-se às delí­cias, dila­ta-se nas riquezas, então decresce, porque perde a liber­dade. O cuida­do com as riquezas fá-lo ser­vo, e enquan­to serve essas coisas, diminui para si, den­tro de si mes­mo. Infe­liz da alma que é menor do que aqui­lo que pos­sui: é menor quan­do se sub­mete às coisas, ao invés de sub­metê-las a si. Essa sub­mis­são servil é mais óbvia quan­do se pos­sui com amor, e com dor se perde. Porque essa dor é grande servidão. E o que mais seria? Não há ver­dadeira liber­dade senão na pobreza vol­un­tária. Esse é o José, que acres­cen­ta, e diz, no Gêne­sis: “Deus me fez crescer na ter­ra da min­ha pobreza” (Gen 41, 52). Na ter­ra da pobreza, diz ele, e não da abundân­cia, “Deus me fez crescer”: cresce naque­la, e decresce nes­sa. Por isso, o segun­do livro dos Reis diz que “Davi, aproveita­va e fica­va cada vez mais robus­to, enquan­to a casa de Saul decres­cia todo dia” (2Reg 3, 1). Davi, que diz no Salmo: “Eu sou mendi­go e pobre” (Ps 39, 18), “aprovei­ta como a luz res­p­lan­des­cente, e cresce até o dia per­feito” (Prov 4, 18), e robustece-se cada vez mais, porque a pobreza ale­gre e vol­un­tária ren­deu-lhe essa força. Por isso, diz Isaías: “O espíri­to dos fortes”, isto é, dos pobres, “é como um tur­bil­hão que empurra a parede” (Is 25, 4) das riquezas. As delí­cias e riquezas pren­dem e dis­solvem. Por isso, diz Jere­mias: “Até quan­do te dis­solverás nas delí­cias, ó fil­ha vagabun­da?” (Jer 31, 22).
A casa de Saul, que quer diz­er abu­sador, isto é, os ricos deste mun­do, que abusam dos bens e dons do Sen­hor com os apetites do seu cor­po, decresce todo dia. Por isso disse Moisés, no Deuteronômio: “O Sen­hor te cas­ti­gará com pobreza, febre, frio, ardor, agi­tação, ar insalu­bre, e gos­to ruim na boca, e serás persegui­do até pere­cer” (Deut 28, 32). O sen­hor cas­ti­ga, isto é, per­mite que cas­tiguem, o rico deste mun­do com pobreza, porque sem­pre quer ter mais; febre, porque tor­tu­ra-se e dói-se ven­do a feli­ci­dade alheia; frio, isto é, temor de perder as coisas adquiri­das; o ardor de adquirir o que não pos­sui; a agi­tação da gula; o ar insalu­bre da má fama; o gos­to ruim da luxúria. É assim que decresce a casa de Saul. A casa de Davi, porém, mendi­go e pobre, cresce de vir­tude em vir­tude na ter­ra da sua pobreza.
4. A seguir, sobre a humil­dade. Maria, estrela do mar. Ó humil­dade! Estrela radi­ante, que ilu­mi­na a noite, guia até o por­to como uma chama cor­us­cante, e mostra o rei dos reis e Deus, que diz: “Apren­dei de mim, que sou man­so e humilde de coração” (Mt 11, 29). Quem não tem essa estrela “é cego e míope” (2 Pt 1, 9), a sua bar­ca será destruí­da pela tem­pes­tade, e ele sub­mer­girá em meio às ondas. Por isso se diz, no Êxo­do, que “Olhan­do o Sen­hor, pela col­u­na de nuvem e fogo, para os exérci­tos dos egíp­cios, matou o seu exérci­to, e virou as rodas dos car­ros, e eles afun­daram. Os fil­hos de Israel, porém, pas­saram a pé enx­u­to pelo meio do mar, e as águas dele ficaram como muros, à dire­i­ta e à esquer­da” (Ex 14, 24–25. 29). Os egíp­cios, que a nuvem tene­brosa obnu­bila­va, são os ricos e poderosos deste sécu­lo, que a fumaça da sober­ba põe em trevas, os quais o Sen­hor mata; e vira-lhes as rodas dos car­ros, isto é, a dig­nidade e glória daque­les que giram pelas qua­tro estações do ano; e os afun­da no fun­do do infer­no. Os fil­hos de Israel, porém, ilu­mi­na­dos pelo resplen­dor do fogo, são os pen­i­tentes e pobres de espíri­to, ilu­mi­na­dos pelo resplen­dor da humil­dade; a pé enx­u­to, eles pas­sam pelo mar deste mun­do, cujas águas, isto é, amar­gas inun­dações, são-lhes como muros, porque eles se armam e defen­d­em-se da pros­peri­dade da dire­i­ta e da adver­si­dade da esquer­da, de modo a não serem ele­va­dos pelo prestí­gio pop­u­lar, nem pre­cip­i­ta­dos pela ten­tação da carne.
Sobre isso, fala o Deuteronômio: “Mamarão das inun­dações do mar como do leite” (Deut 33, 19). Note-se que ninguém pode mamar nada, se não o aper­tar com os lábios. Os que têm a boca aber­ta no gan­ho de din­heiro, na nego­ci­ação da van­glória, no favor pop­u­lar, não con­seguem mamar das inun­dações do mar. É difí­cil sep­a­rar os lobos do cadáver, as formi­gas da semente, as moscas do mel, os beber­rões do vin­ho, as mere­trizes do prostíbu­lo, os com­er­ciantes do mer­ca­do. Salomão, nos Provér­bios, disse algo semel­hante: “O provér­bio é o seguinte: O ado­les­cente está no seu cam­in­ho; mes­mo envel­he­cen­do, não sairá dele” (Prov 22, 6). Só os humildes, que fecham seus lábios ao amor das coisas tem­po­rais, mamam das inun­dações do mar como do leite.
Ó estrela do mar! Ó humil­dade de coração, que con­vertes o mar amar­go e impróprio em doce e for­moso leite! Ó quão doce é para o humilde a amar­gu­ra! Quão leve a tribu­lação, que supor­ta pelo nome de Jesus! As pedras foram doces para Estêvão, a grel­ha para Lourenço, os carvões ardentes para Vicente: por Jesus, mama­ram as inun­dações do mar como leite.
Na palavra “mamar”, nota-se a avidez com deleitação. Só a humil­dade sabe mamar das tribu­lações e dores com avidez e deleitação. Por isso, nos Cân­ti­cos: “Quem te dará a mim, meu irmão, maman­do nos peitos de min­ha mãe?” (Cant 8, 1). Fala-se aí de três pes­soas: a mãe, a irmã e o irmão. A mãe é a pen­itên­cia, que tem dois seios: a dor da con­trição, e a tribu­lação da sat­is­fação; a irmã é a pobreza; o irmão, o espíri­to de humil­dade. Diz, pois, a irmã pobreza: Quem me te dará dará, ó meu irmão, espíri­to de humil­dade, para que com avidez mames nos seios de nos­sa mãe? Eis o irmão e a irmã, José e Maria, o esposo e a esposa, a pobreza e a humil­dade. “Quem tem esposa é esposo” (Job 3, 29). Bem-aven­tu­ra­do o pobre, que toma a humil­dade como sua esposa.

5. A seguir, sobre a tris­teza da pen­itên­cia. Simeão, aque­le que ouve a tris­teza. Dela fala o Após­to­lo: A tris­teza que é segun­do Deus opera a sal­vação (cf. 2Cor 7, 10). E nos Provér­bios: “O espíri­to triste seca os ossos” (Prov 17, 22), pelo peso da devas­sidão e petulân­cia. Por isso Jó: “Cas­ti­ga pela dor no leito, e faz enfraque­cer todos os seus ossos. O pão lhe é abom­ináv­el à sua vida, e a comi­da que antes dese­ja­va, à sua alma” (Job 33, 19–20). O leito é a deleitação car­nal, na qual a alma jaz como que par­alíti­ca, dis­so­lu­ta em todos os mem­bros. Por isso, em Mateus: “Mostraram-lhe um par­alíti­co jazen­do num leito” (Mt 9, 2). O Sen­hor cas­ti­ga pela dor no leito, quan­do incute a dor dos peca­dos na alma que repousa na deleitação car­nal, e então ouve a tris­teza, que faz enfraque­cerem todos os seus ossos.
Daniel, ten­do uma visão, dis­so: “Não ficou em mim nen­hu­ma força, mas até a min­ha aparên­cia mudou, e encol­hi, e não tive mais forças” (Dan 10, 8). A quem acon­te­ceu isso, tor­na-se abom­ináv­el o pão, isto é, a deleitação car­nal, à sua vida e à sua alma, isto é, à sua ani­mal­i­dade, o ali­men­to antes dese­jáv­el. Eis o que diz Daniel: “Não comi o pão dese­jáv­el, carne e vin­ho não entraram na min­ha boca, nem fui ungi­do com unguen­tos” (Dan 10, 3).
Disse Salomão: “O coração que con­heceu a amar­gu­ra da sua alma, não se mis­tu­rará na sua ale­gria um estrangeiro” (Prov 14, 10). Onde estiv­er a mir­ra da tris­teza, aí não será admi­ti­do o verme da luxúria. Por isso Isaías diz: “Afas­tai-vos de mim, chorarei amarga­mente”. Como a fumaça espan­ta as abel­has, assim a amar­ga e lac­rimosa com­punção expele os demônios, que rodeiam a alma como as abel­has, o favo. “E não trateis”, ó afe­tos car­nais, “de con­so­lar-me”, porque, como disse Jó, “vós todos sois con­so­ladores pesa­dos” (Job 16, 2). “A min­ha alma não quis ser con­so­la­da” (Ps 76, 3) pelo vos­so con­so­lo. “Vos­sas con­so­lações, ó Sen­hor”, e não as min­has — porque “ai de vós, que ten­des o vos­so con­so­lo” (Lc 6, 24) -, “ale­graram a min­ha alma” (Ps 93, 19). “Não trateis, pois, de con­so­larme sobre a dev­as­tação”, isto é, aflição, “da fil­ha” isto é, da carne, que é fil­ha “do meu povo”, isto é, da pop­u­lação dos meus cin­co sen­ti­dos. Dele fala o Salmo: “Que sub­mete o meu povo a mim” (Ps 143, 2).
6. Segue-se a respeito da obe­diên­cia. Ana, “aque­la que responde”, assim como Samuel: “Fala, Sen­hor, que teu ser­vo escu­ta” (1Reg 3, 10); e como Isaías: “Eis-me, envi­ai-me” (Is 6, 8); e como Saulo: “Sen­hor, que quereis que eu faça?” (At 9, 6). Diz o Ecle­siás­ti­co: “A respos­ta suave que­bra a ira” (Prov 15, 1), “e o modo de falar gra­cioso abun­dará no homem bom” (Eccli 6, 5). “A respos­ta suave” do humilde súdi­to “que­bra a ira” do supe­ri­or sober­bo. Por isso se diz nos Provér­bios: “A paciên­cia” do súdi­to “apla­ca o príncipe” (Prov 25, 15). “Não lutes con­tra o ímpeto da cor­renteza”, como diz o Ecle­siás­ti­co (Eccli 4, 32), isto é, a von­tade do supe­ri­or, “mas humil­ha a tua cabeça diante dele” (Eccli 4, 7).“E o modo de falar gra­cioso abun­dará no bom” súdi­to, de modo que pode diz­er com Jó: Chamai-me, e respon­der-vos-ei (cf. Job 14, 15). Ele responde a quem chama e obe­dece de coração quem lhe é supe­ri­or.
Eis que expli­camos breve­mente essas qua­tro vir­tudes, por que quem quer encon­trar Jesus tem essas qua­tro pes­soas, em meio às quais repousa a sal­vação. José e Maria levaram Jesus ao tem­p­lo. Simeão e Ana pro­fes­sam e ben­dizem. Porque a pobreza e a humil­dade lev­am o Jesus pobre e humilde. A pobreza o leva nos braços.
7. Por isso, no Gêne­sis, lê-se: “Issacar é um asno forte, deita­do nos con­fins; viu que o des­can­so era bom, e que a ter­ra era óti­ma; abaixa o braço para car­regar” (Gen 49, 14–15). Issacar quer diz­er rec­om­pen­sa, e sig­nifi­ca a pobreza, que aban­dona todas as coisas tem­po­rais, para poder rece­ber a rec­om­pen­sa da eternidade. Ela é chama­da “asno forte”. O asno é um ani­mal de car­ga, apas­cen­ta­do nos lugares ásper­os e vis. Assim a pobreza car­rega o peso do dia e do calor (cf. Mt 20, 12), e vive nas coisas gros­seiras e ásperas. Migal­has de pão, diz São Bernar­do, e sim­ples água, veg­e­tais ou legumes sim­ples de modo algum são coisas deleitáveis, mas, no amor a Cristo e dese­jo da deleitação inte­ri­or, é muito deleitáv­el poder sat­is­faz­er com eles um ven­tre sóbrio e mor­ti­fi­ca­do. Quan­tos mil­hares de pobres sat­is­fazem deleitavel­mente a natureza, com ess­es ali­men­tos ou semel­hantes! Seria facílimo e deleitáv­el viv­er segun­do a natureza, adi­cio­nan­do o condi­men­to do amor de Deus, se a nos­sa insanidade no-lo per­mi­tisse.
Con­tin­ua-se: “Deita­do nos con­fins”, não “entre os con­fins” (Gen 49, 14). Dois são os con­fins, a saber: a entra­da e a saí­da da nos­sa vida. Ness­es dei­ta-se, des­cansa a pobreza. Con­tem­pla a paupér­ri­ma entra­da do homem, e vê a sua vilís­si­ma saí­da, e por isso não quer deitar-se entre os con­fins, para ouvir, como diz o livro dos Juízes, o mur­múrio dos reban­hos (Judic 5, 16), isto é, a suave sug­estão dos demônios. Habi­ta ou dei­ta-se entre os con­fins aque­le que não con­tem­pla a entra­da e a saí­da da sua vida, mas pref­ere des­cansar no praz­er da carne e na vaidade do mun­do.
Segue-se: “Viu que o des­can­so” da celes­tial bem-aven­tu­rança “era bom, e que a ter­ra” da eter­na esta­bil­i­dade “era óti­ma; abaixou o braço para car­regar” o pobre Jesus, Fil­ho de Deus. Car­rega Jesus quan­do supor­ta pacien­te­mente, por amor dele, tudo o que lhe acon­tece de adver­so. Por isso diz o Ecle­siás­ti­co: “Recebe tudo o que for lig­a­do a ti, e segura‑o mes­mo na dor” (Eccli 2, 4). A pobreza carrega‑o nos braços, a humil­dade, no peito e nos braços. Por isso diz-se nos Cân­ti­cos: “O meu ama­do é para mim um ram­in­ho de mir­ra, e morará entre os meus seios” (Cant 1, 12). Nesse diminu­ti­vo, “ram­in­ho”, deno­ta-se a humil­dade; a mir­ra des­igna a amar­gu­ra da Paixão do Sen­hor. O coração fica entre os seios, como se a esposa dissesse: Eu car­rego no coração o meu ama­do Jesus, ram­in­ho de mir­ra, isto é, humilde e cru­ci­fi­ca­do, para que eu seja humilde de coração, e fixe meu cor­po à cruz com ele. Por­tan­to, a pobreza e a humil­dade levaram Jesus ao tem­p­lo, quer diz­er: todos os que veem ao tem­p­lo da Jerusalém celeste, que não é feito por mãos de home­ns.
Ain­da, a pen­itên­cia e a obe­diên­cia pro­fes­sam e ben­dizem. Por isso diz o Salmo: “A con­fis­são e a beleza estão diante dele” (Ps 95, 6), falan­do do pen­i­tente, cuja con­fis­são é beleza. Porque a con­fis­são limpa a lep­ra do peca­do e enfei­ta com a graça do Espíri­to San­to. Por isso diz o Salmo: “Vestiste con­fis­são e deco­ro” (Ps 103, 2), isto é, os pen­i­tentes, que são limpos pela con­fis­são e dec­o­ra­dos com a graça. Segue-se: “A san­ti­dade e a mag­nificên­cia estão na sua san­tifi­cação” (Ps 95, 6), falan­do do obe­di­ente, que o Sen­hor san­tifi­ca com a san­ti­dade da con­sciên­cia na mor­ti­fi­cação da própria von­tade, e a mag­nificên­cia da vida na exe­cução da ordem alheia. Eis onde habi­ta o rei das vir­tudes. Tem, pois, essas vir­tudes, e encon­trarás o Deus de sabedo­ria e o Deus das vir­tudes, Jesus.
A ele, carís­si­mos irmãos, implore­mos humilde­mente, para que edi­fique a casa dos nos­sos cos­tumes nes­sas qua­tro col­u­nas, para que ele pos­sa habitar conosco e nós com ele. Con­ce­da-no-lo aque­le que é ben­di­to pelos sécu­los. Amém.

II. SOBRE A PROFECIA DE SIMEÃO

8. “Disse Simeão a Maria sua mãe: Eis que ele é pos­to como ruí­na e ressur­reição de muitos em Israel” (Lc 2, 34). Diz San­ta Maria em seu cân­ti­co: “Depôs do trono os poderosos, e exal­tou os humildes” (Lc 1, 52). “Depôs”, isto é, pôs abaixo. É isto o que o Sen­hor diz no pro­fe­ta Abdias: “A sober­ba do teu coração trans­vi­ou-te, tu que habitas nas fendas do roche­do, exal­tan­do o teu trono. Dizes no teu coração: Quem me faria cair por ter­ra? Mes­mo que fos­s­es ele­va­do como a águia, e em meio às estre­las pusess­es o teu nin­ho, ain­da assim te depo­ria”, isto é, poria abaixo, “diz o Sen­hor” (Abd 1, 3–4). Leiam-se os ser­mões sobre o evan­gel­ho: “Saiu o semeador a semear a sua semente” (Dom. in Sex­a­ges­i­ma) e: “Um cego sen­ta­va-se à beira da estra­da” (Dom. in Quin­qua­ges­i­ma I).
“Depôs os poderosos.” Isto é dito em Daniel: “Eis que um san­to vig­i­lante desceu do céu, e clam­ou forte­mente, dizen­do assim: Der­rubai a árvore, desgalhai‑a e tirai suas fol­has, e dis­per­sai os seus fru­tos” (Dan 4, 10–11). O nome “árvore”, em latim, “arbor”, vem de “robusteza” (“robur”), e indi­ca o poderoso deste mun­do, que, como disse Jó, “esten­deu con­tra Deus a sua mão, e robuste­ceu-se con­tra o Onipo­tente” (Job 15, 25). Eles segu­ra­mente mor­rerão e serão lança­dos no infer­no, e então os seus ramos, isto é, o poder dos par­entes, a nobreza da lin­hagem, que cos­tu­ma­va incre­men­tar e alargar, cairão; então as fol­has, isto é, os dis­cur­sos cheios de ven­to da sober­ba, serão abal­adas; então os fru­tos das delí­cias e riquezas, que ajun­tou para o seu mal, serão dis­per­sos.
“Depois do trono os poderosos, e exal­tou os humildes.” Isto diz Jó: “Lev­an­ta os tristes na sal­vação” (Job 5, 11); e ain­da: “Quan­do te creres con­sum­i­do, lev­an­tar-te-ás como um luzeiro. E terás con­fi­ança na esper­ança dada a ti” (Job 11, 17–18). Depôs o sober­bo Aman e exal­tou o humilde Mar­do­queu. Aque­le caiu do trono, esse subiu no seu lugar. Bem diz San­ta Maria: “Depôs do trono os poderosos, e exal­tou os humildes”. Por isso, diz-lhe, a respeito do seu fil­ho, São Simeão, no evan­gel­ho de hoje: “Eis que ele é pos­to como ruí­na” etc. Ele dis isto em João: “Eu vim ao mun­do para o juí­zo, para que os que não veem vejam, e os que veem fiquem cegos” (Jo 9, 39). Sobra a ruí­na daque­les, Isaías fala: “Jerusalém ruiu, e Judá pere­ceu, por causa da sua lín­gua” (“Crucifica‑o, crucifica‑o”) “e das suas invenções” (“Pos­so destru­ir este tem­p­lo feito por mãos de home­ns” etc) “con­tra o Sen­hor, para provo­car os olhos da sua majes­tade” (Is 3, 8).
9. Do pon­to de vista moral. Diz o Ecle­siás­ti­co [Provér­bios]: Vira o ímpio, e ele não mais será (cf. Prov 12, 7) ímpio. Caiu Saulo perseguidor, e levan­tou Paulo pre­gador. Isso é, pois, o que quer diz­er: “Eis que ele é pos­to em ruí­na” dos pecadores. Dessa ruí­na fala Zacarias: “Haverá ruí­na para o cav­a­lo e o mulo, para o came­lo e o asno e todos os jumen­tos” (Zach 14, 15). No cav­a­lo é des­ig­na­da a sober­ba, pois Jere­mias dia: “Todos voltaram para o seu cur­so, como um cav­a­lo impetu­oso” (Jer 8, 6). No mulo, a luxúria, pois diz o Salmo: “Não vos façaos como o cav­a­lo e o mulo” (Ps 31, 9). No came­lo, a avareza, por isso: O came­lo, isto é, o avar­en­to, não pode pas­sar pelo bura­co da agul­ha, isto é, a pobreza de Jesus Cristo (cf. Mt 19, 24). No asno, o tor­por da neg­ligên­cia, que é o esgo­to de todos os vícios. Por isso o asno é chama­do, em latim, “asi­nus”, semel­hante a “alta sinens”, isto é, que per­mite coisas altas. O tor­por da neg­ligên­cia não sobe a coisas altas, mas quer ir sem­pre pelo plano. Por isso diz Abraão os seus fil­hos, no Gêne­sis: “Esperai aqui com o asno” (Gen 22, 5). Os fil­hos são os afe­tos pueris e car­nais, que esper­am com o asno, isto é, com o tor­por e retar­do do asno. No jumen­to, a volup­tu­osa deleitação dos cin­co sen­ti­dos, dos quais fala Isaías: “Sina dos jumen­tos do sul. Para a ter­ra da tribu­lação e da angús­tia, de onde vêm a leoa e o leão, a víb­o­ra e a ser­pente voado­ra” (Is 30 ‚6). A ter­ra é a carne, na qual ger­mi­nam em nós os espin­hos da tribu­lação e os tríbu­los da angús­tia. Esta é a sina dos jumen­tos, isto é, dos cin­co sen­ti­dos, que são os jumen­tos do sul, isto é, as ale­grias mun­danas. Na ter­ra de tribu­lação e angús­tia que os jumen­tos pisam e ester­cam, estão a leoa da luxúria e o leão da sober­ba, a víb­o­ra da ira, a ser­pente voado­ra da inve­ja e van­glória.
Ó Sen­hor Jesus, caiam em ruí­na todas essas bestas e jumen­tos, para que o jumentin­ho do pecador mor­ra jun­to e, mor­ren­do, ressus­cite espir­i­tual­mente. Dig­amos pois: Eis que ele é pos­to em ruí­na.
10. Segue-se: “E ressur­reição de muitos”. Há con­cordân­cia acer­ca dis­so em Eze­quiel: “Pôs-se sobre mim a mão do Sen­hor, e con­duz­iu-me para um cam­po, que esta­va cheio de ossos de mor­tos. Eram muitís­si­mos, e vee­mente­mente sec­os. E disse-me: Pro­fe­ti­za, fil­ho do homem, sobre ess­es ossos, e dize-lhes: Ossos ári­dos, ouvi a palavra do Sen­hor. Eis que eu infundi­rei em vós o espíri­to, e vivereis, e dar-vos-ei ner­vos e farei crescer carnes sobre vós, e esten­derei pele sobre vós” (Ez 37, 1–2. 4–6). Os ossos sec­os são os pecadores, que são sec­os do influxo da graça, e cujo coração seca, porque esque­ce­r­am-se de com­er o pão (cf. Ps 101, 5), que con­tém todo sabor e todo deleita­men­to (cf. Sap 16, 20); Deles diz Jó: Os ossos de Beemot são como canos de ar (cf. Job 40, 13). Per­ver­tidos na malí­cia, duros como os ossos do dia­bo, pois sus­ten­tam os car­nais como os ossos sus­ten­tam a carne, são como canos de ar, porque repelem de si as setas aéreas da pre­gação, e, ao ímpeto da reprovação, emitem o barul­ho da mur­mu­ração. Pro­fes­sam as palavras de Cristo (eis os canos), mas negam os seus feitos (cf. T 1, 16) (eis a dureza do ar).
Mas, porque a mis­er­icór­dia desse Cristo é maior do que a aridez e dureza dos ossos, disse: “Eis que eu infundi­rei em vós o espíri­to, e vivereis” etc. Note­mos estas qua­tro coisas: espíri­to, ner­vos, carnes e pele. O espíri­to des­igna a inspi­ração da graça pre­ve­niente; os ner­vos, a con­cate­nação de bons pen­sa­men­tos; as carnes, a com­paixão com o próx­i­mo; a pele, a exten­são da per­se­ver­ança final. “Infundi­rei o espíri­to em vós, e vivereis.” Por isso é dito no Gêne­sis: “Soprou em sua face um sopro (spirac­u­lum) de vida” (Gen 2, 7) etc. Leia-se o ser­mão sobre o evan­gel­ho: “Jesus foi lev­a­do para o deser­to” (Dom. I in Quadrag., Ser­mo alter: De Poen­i­ten­tia I).
11. “E dar-vos-ei ner­vos.” Há uma miríade de ner­vos jun­to às mãos, pés, coste­las, e ao redor das espá­d­uas e pescoço; e os ossos, que se artic­u­lam uns com os out­ros, são lig­a­dos pelos ner­vos. Ao redor deles há uma cer­ta umi­dade, da qual se ger­am e nutrem os ossos. Quan­do o Sen­hor infunde o espíri­to da graça num pecador, então bro­ta no seu coração a umi­dade da com­punção, da qual se ger­am e nutrem os ner­vos da boa afeição e boa von­tade, que com­põem e lig­am todo o cor­po às boas obras.
“E farei crescer carnes.” Eis o que diz o mes­mo Pro­fe­ta: “Tirarei de vós do coração de pedra, e dar-vos-ei um coração de carne” (Ez 36, 26), que, com­pungi­do, doa-se de com­paixão pelo próx­i­mo, porque o nos­so irmão tam­bém é carne. (cf. Gen 37, 27). Ó coração de pedra, que não te moves de nen­hu­ma com­paixão para com o próx­i­mo! Diz ele: “Aca­so eu sou guardião dos meus irmãos?” (Gen 4, 9). Saberás que em o guardar há uma grande rec­om­pen­sa (cf. Ps 18, 12). O primeiro livro dos Reis diz que “o coração de Nabal amorte­ceu den­tro do peito, e tornou-se como uma pedra” (1Reg 25, 37). Porque ele não quis com­pade­cer-se de Davi, nem dar-lhe do que era seu, mas pror­rompeu em palavras afron­tosas, dizen­do: “Quem é Davi, e quem é o fil­ho de Isaí? Hoje em dia, há cada vez mais escravos que fogem dos seus sen­hores. Pegarei, pois, eu os meus pães, a min­ha água, as carnes dos carneiros, que matei com as min­has naval­has, e darei a home­ns que não sei de onde são?” (1Reg 25, 10–11). Hoje, os avar­en­tos e usurários, que têm o coração de pedra, dizem coisas semel­hantes aos pobres de Jesus Cristo.
“E esten­derei pele sobre vós.” A exten­são da pele é a per­se­verân­cia final. “Sois vós”, diz o Sen­hor, “os que per­manece­r­am comi­go nas min­has ten­tações” (Lc 22, 28). Mas ai daque­les que perder­am essa per­se­ver­ança. Por isso diz Jó: “A min­ha pele sec­ou e con­traiu-se” (Job 7, 5). A pele seca e con­trai-se quan­do se reti­ra à boa obra o efeito da per­se­ver­ança final. Por isso diz o Ecle­siás­ti­co: A denudação do homem é no seu fim (cf. Eccli 11, 29). Então apare­cerá a sua feiu­ra.
Está expli­ca­do como o Sen­hor viv­i­fi­ca os ossos sec­os, aque­le que “é pos­to em ressur­reição de muitos”. 12. Segue-se: “E em sinal a ser con­tra­di­to” (Lc 2, 34). Dis­so, em Mateus: “E então apare­cerá no céu o sinal do Fil­ho do homem” (Mt 24, 30); e Isaías: “Sobre o monte esfu­maça­do ele­vai um sinal, erguei a voz, lev­an­tai a mão” (Is 13, 2). O monte esfu­maça­do é o dia­bo: monte, dev­i­do à sober­ba, e esfu­maça­do, dev­i­do à fumaça da sug­estão, que apli­ca às almas. Sobre ele, então, os pre­gadores ele­vam um sinal, quan­do pregam-no ven­ci­do por vir­tude da cruz; erguem a voz quan­do opor­tu­na e impor­tu­na­mente argúem, pregam, repreen­dem (cf. 2Tim 4, 2); lev­an­tam a mão, quan­do pregam com a voz, e prati­cam com obras.
Ain­da sobre esse sinal, fala o Sen­hor em Eze­quiel: “O sinal ‘thau’ (T) nas frontes dos home­ns que gemem e com­pungem-se por causa de todas as abom­i­nações que se fazem em meio a eles” (Ez 9, 4). Somente ess­es não con­tradizem o sinal da Paixão do Sen­hor, porque o car­regam na fronte. Quem são os que gemem e com­pungem-se, senão os pen­i­tentes, pobres de espíri­to, que se glo­ri­am na cruz de Cristo, e, por causa das abom­i­nações que se fazem no mun­do, têm com­punção e gemem? Os infiéis o con­tradizem por palavras e obras — por isso diz o Após­to­lo: “Preg­amos Jesus cru­ci­fi­ca­do, escân­da­lo para os judeus, lou­cu­ra para os pagãos” (1Cor 1, 23) -; os fal­sos cristãos, pelas obras. “Ai”, diz Isaías, “daque­le que con­tradiz o seu feitor, sendo ter­ra­co­ta entre os cacos da ter­ra!” (Is 45, 9), isto é, um vaso. Caco de louça é chama­do “Samius” em latim, pois nes­sa cidade são fab­ri­cadas louças. Ter­ra­co­ta, ou cozi­da, é o fal­so cristão: tosta­do, porque sem devoção, frágil na obra, louça pela cri­ação; o qual con­tradiz o seu feitor, Cristo, que, com as mãos pre­gadas na cruz, modelou‑o, resti­tu­iu-lhe a hon­ra da primeira dig­nidade, na qual não pode per­manecer senão por ele. Por que, pois, o infe­liz con­tradiz, com o teste­munho de uma vida má, o seu feitor, o seu reden­tor?
13. Por isso, em Isaías: “Abri as min­has mãos o dia todo para um povo incré­du­lo, que cam­in­ha por um cam­in­ho não bom, atrás dos seus pen­sa­men­tos; povo que, diante da min­ha face, sem­pre me provo­ca à ira, que imo­lam nos hor­tos e fazem sac­ri­fí­cios sobre tijo­los, que habitam em sepul­cros e dormem nos tem­p­los dos deuses, que comem carne suí­na, e nos seus vasos há um dire­ito pro­fano” (Is 65, 2–4). “Abri” larga­mente, não negan­do nada aos que pedi­am. Por isso, nos Provér­bios: “Abri min­ha mão, e não havia quem olhas­se” (Prov 1, 24). Na sua primeira vin­da, a mão do Sen­hor foi aber­ta, mas na segun­da será fecha­da, e então baterá com o pun­ho, “e que­brará as mandíbu­las dos leões” (Ps 57, 7). “Abri”, pois, “as min­has mãos”, na cruz, como se dia nos Cân­ti­cos: “Suas mãos são torneadas, de ouro, cheias de safi­ras” (Cant 5, 14). As mãos de Cristo são ditas “torneadas” pela Paixão, porque foram per­furadas pelos cravos como um torno; “de ouro”, pela pureza das obras; “cheia de safi­ras”, isto é, dos prêmios da vida eter­na; dos quais a primeira safi­ra mere­ceu rece­ber o Ladrão: “Hoje estarás comi­go no paraí­so” (Lc 23, 43).
“O dia todo”, e toda a noite, porque, quan­do o dia da pros­peri­dade mun­dana nos sor­ri, então deve­mos recor­dar-nos da morte de Jesus Cristo. Por isso se diz que o sol, na sua morte, obscure­ceu-se (cf. Lc 23, 45). O sol da glória mun­dana deve obscure­cer-se para nós à memória da Paixão do Sen­hor.
“Abri a um povo incré­du­lo.” Diz Isaías: “Quem é incré­du­lo age como um infiel” (Is 21 ‚2). Diz San­to Agostin­ho: Crer em Deus é amar a Deus, e ir a ele, e incor­po­rar-se aos seus mem­bros. Quam não faz isso mente quan­do diz: Creio em Deus. Incré­du­lo é, pois, quem não crê nis­so, e age como um infiel: a sua fé é mor­ta, porque carece de cari­dade.
“Que cam­in­ha por um cam­in­ho não bom”, largo e espaçoso, que con­duz à morte (cf. Mt 7, 13). Igual­mente nos Provér­bios: “O homem após­ta­ta é um homem inútil, cam­in­ha com a boca per­ver­ti­da, fala com o dedo, apon­ta com os olhos, esfre­ga com o pé” (Prov 6, 12–13). “Atrás de seus pen­sa­men­tos”, dos quais se fala no livro da Sabedo­ria: “Os pen­sa­men­tos maus sep­a­ram de Deus” (Sap 1, 3); e: “O Espíri­to San­to se reti­ra dos pen­sa­men­tos que são sem inteligên­cia” (Sap 1, 5).
“Povo que me provo­ca à ira”, isto é, à vin­gança, pelo zelo em faz­er o mal. Por isso diz Sofo­nias: “Ai da cidade provo­cado­ra e red­im­i­da” (Soph 3, 1), como se dissesse: Aque­les que red­i­mi com o meu sangue provo­cam-me à ira.
“Diante da min­ha face, sem­pre”, isto é, man­i­fes­ta­mente, o que é pior. “O seu peca­do”, diz Isaías, “alardear­am como Sodoma, e não escon­der­am” (Is 3, 9).
“Que imo­lam nos hor­tos”, eis a luxúria. Por isso diz Isaías: “Enrubescereis sobre os hor­tos” (Is 1, 29), isto é, os locais volup­tu­osos, “que elegestes” para a vos­sa luxúria.
“E sac­ri­fi­cam sobre tijo­los”, eis a avareza. Por isso, se diz no Êxo­do: “Não vos será dada pal­ha, e fareis o mes­mo número de tijo­los” (Ex 5, 18). Acon­tece muitas vezes que os avar­en­tos e usurários tirem a pal­ha, isto é, as riquezas, ren­den­do ao dia­bo os mes­mos tijo­los de avareza. Ou: sobre os tijo­los sac­ri­fi­cam os que rezam ao Sen­hor o ofí­cio divi­no jun­to ao fogo ou na cama.
“Que habitam nos sepul­cros”, eis a detração. “A sua gar­gan­ta é um sepul­cro aber­to” (Ps 13, 2) etc. “E dormem nos tem­p­los dos ído­los”, eis a hipocre­sia, que, como um ído­lo, mostra uma aparên­cia de religião, mas carece da ver­dade das obras. Ai! Quan­tos cul­tuadores de ído­los hoje são ven­er­a­dos como um sim­u­lacro, que sim­u­lam a san­ti­dade que não têm.
“Que comem carne de por­co”, eis a imundí­cie da gula; “e há nos seus vasos um dire­ito provano”, isto é, nos seus corações, a impureza dos pen­sa­men­tos. Os que fazem assim, con­tradizem o sinal da Paixão do Sen­hor.
14. Segue-se: “E uma espa­da transpas­sará a tua alma” (Lc 2, 35). A dor, que San­ta Maria supor­tou na Paixão do seu Fil­ho, foi como uma espa­da, que transpas­sou a sua alma. Isto diz Isaías: “Deu à luz antes dos tra­bal­hos de par­to” (Is 66, 7). Note-se que dup­lo foi o par­to de San­ta Maria: um segun­do a carne e out­ro segun­do o espíri­to. O par­to da carne foi vir­ginal e todo cheio de ale­gria, porque a Virgem deu à luz sem dor, com a ale­gria dos anjos. Por isso diz, com Sara, no Gêne­sis: “O Sen­hor fez-me um riso; todos os que ouvirem rirão comi­go” (Gen 21 ‚6). Deve­mos rir e ale­grar-nos com San­ta Maria no Nasci­men­to do seu Fil­ho; deve­mos tam­bém com­pun­gir­mos com ela na Paixão dele, na qual a sua alma foi transpas­sa­da por uma espa­da, e então foi o segun­do par­to, doloroso e cheio de toda amar­gu­ra. Isso não é de admi­rar, porque o Fil­ho de Deus, que con­ce­bera e dera à luz sendo Virgem, com a coop­er­ação do Espíri­to San­to, via ser pre­ga­do no lenho com cravos, e sus­pen­so entre ladrões. Como não esper­ar que uma espa­da lhe transpas­sasse a alma? “Chegai e vede se há dor como a sua dor” (Lam 1, 12). Antes, por­tan­to, de parir na Paixão, deu à luz no Natal.
15. Do pon­to de vista moral. Diz Jere­mias, em nome de Jesus Cristo, ao Pai: “Lem­brar da min­ha pobreza e cruza­men­to é para mim absin­to e fel” (Lam 3, 19). A Paixão de Cristo é chama­da cruza­men­to, pois cru­zou a dor e a paixão de todos os már­tires. Por isso Lucas diz que “Moisés e Elias nar­rara, a sua pas­sagem”, isto é, a sua Paixão, que pas­sou por toda paixão, “que se daria em Jerusalém” (Lc 9, 31). Quan­do o homem jus­to aten­ta para isso, logo acres­cen­ta o seguinte: “Lem­brarei com a memória, e a min­ha alma se cala” (Lam 3, 20).
Ó Fil­ho de Deus, “lem­brarei com a memória” — a redundân­cia de palavras exprime o grande afe­to do amante — a tua “pobreza”, que foi tan­ta, que na morte não teria um sudário com o qual fos­se envolvi­do, ou um túmu­lo no qual fos­se sepul­ta­do, se não lhe fos­se dado como a um pobre mendi­go, como obra de mis­er­icór­dia e esmo­la; “e o cruza­men­to”, isto é, a Paixão, com a qual cruza­stes toda dor humana. Por isso se diz, em João: “Saiu Jesus com os seus dis­cípu­los para além da tor­rente de Cedron” (Jo 18, 1), que quer diz­er “luto do triste”. Porque toda tris­teza e luto foi per­cor­ri­do na Paixão. Todos os már­tires, antes de supor­tar a paixão, igno­ravam quan­ta dor sofre­ri­am nela, e assim não sen­ti­am tan­ta dor quan­to sen­tiri­am se soubessem. O Sen­hor, porém, que sabe tudo antes que acon­teça, antes de chegar à Paixão, sabia toda a força da sua dor, e, por­tan­to, não é de admi­rar que se doesse mais do que todos os out­ros. “Absin­to e fel”, dos quais se diz no Salmo: “Der­am-me a com­er fel” (Ps 68, 22) de touro, mais amar­go do que qual­quer coisa. Quan­do me lem­bro dis­so, cala-se a min­ha alma, que transpas­sa a espa­da da tua Paixão.
Quan­do isso acon­te­cer, então, como diz o seguinte: “rev­e­lar-se-ão os pen­sa­men­tos de muitos corações” (Lc 2, 35). Isto é o que diz Jó: “O que rev­ela as pro­fun­dezas das trevas, e rev­ela na luz a som­bra da morte” (Job 12, 22). Quan­do o Sen­hor transpas­sa uma alma com a espa­da da sua Paixão, então as “pro­fun­dezas”, isto é, os vícios, que estão longe do fun­do da sufi­ciên­cia, porque nun­ca dizem: “Bas­ta”, mas sem­pre: “Traze, traze” (cf. Prov 30, 15), “rev­ela das trevas”, isto é, da cegueira da alma, na con­trição do coração, para que o homem a con­heça, e, con­heci­da, manifeste‑a na con­fis­são; da qual se segue: “e rev­ela na luz” da con­fis­são “a som­bra da morte”, isto é, o peca­do mor­tal.
16. Com essa pas­sagem evangéli­ca, con­cor­da esta parte da epís­to­la de hoje: “Quan­do virá a plen­i­tude dos tem­pos” (Gal 4, 4). Se, como diz o Ecle­si­astes, “todo negó­cio é tem­po” (Eccle 8, 6), e o Ecle­siás­ti­co: “o sabio calar-se‑á até o tem­po” (Eccli 20, 7), é próprio de Deus, no negó­cio da sal­vação do homem, obser­var o seu tem­po para a emis­são do Ver­bo. Note-se que há qua­tro estações no ano: inver­no, pri­mav­era, verão e out­ono. De Adão até Moisés foi como o inver­no: “Reinou”, diz o Após­to­lo, “a morte de Adão até Moisés” (Rom 5, 14). A pri­mav­era foi de Moisés até Cristo. Nela começaram a pul­u­lar dev­eras as flo­res, prom­e­tendo fru­tos. Quan­to, porém, veio o verão, que é a plen­i­tude dos tem­pos, no qual as árvores enchem-se de fru­tos, então “envi­ou Deus o seu Fil­ho, feito da mul­her” (Gal 4, 4).
O Lev­íti­co con­cor­da com isso: “Dar-vos-ei as chu­vas nos seus tem­pos, e a ter­ra ger­mi­nará a sua semente, e as árvores encher-se-ão de fru­tos. A debul­ha do tri­go durará até a vin­di­ma, e a vin­di­ma até a sementeira; e com­ereis o vos­so pão à saciedade” (Lev 26, 3–5). O Sen­hor deu a chu­va, quan­do pôs o orval­ho no ar, e a chu­va desceu como um véu (cf. Judic 6, 40), isto é, quan­do, pelo anún­cio do Anjo, a Virgem con­ce­beu o Fil­ho de Deus. A ter­ra ger­mi­nou a semente, quan­do a mes­ma Vrigem deu ao mun­do o Sal­vador, em cuja pre­gação e oper­ação de mila­gres, as árvores, isto é, os após­to­los, encher­am-se dos fru­tos das vir­tudes. E a debul­ha, isto é, a Paixão do Sen­hor, que foi debul­ha­do por causa das nos­sas man­chas (cf. Is 53, 5), apreen­deu a vin­di­ma, isto é, a infusão do Espíri­to San­to, do qual foram ine­bri­a­dos os após­to­los: Os que o Espíri­to enchera eram con­sid­er­a­dos embria­ga­dos de vin­ho doce (cf. Act 2, 13–14). E essa vin­di­ma durou até a sementeira, isto é, a sua pre­gação, porque começaram ime­di­ata­mente a pre­gar e diz­er: “Fazei pen­itên­cia, e cada um de vós seja bati­za­do em nome de Jesus Cristo” (Act 2, 38).
O out­ono será na celes­tial bem-aven­tu­rança, na qual com­erão o pão do san­to à saciedade, “e sen­tar-se-ão”, como diz Miqueias, “abaixo da sua vin­ha e abaixo do seu figo, e não haverá quem os desterre” (Mich 4, 4).
Segue-se: “Feito sob a lei” (Gal 4, 4), isto é, sub­meti­do às observân­cias da lei: “Não vim abrog­ar a lei, mas levá-la à plen­i­tude” (Mt 5, 17), “para red­imir os que estavam sob a lei” (Gal 4, 5). Semel­hante­mente, na epís­to­la aos Hebreus: “Para que, pela morte, destruísse aque­le que tin­ha o poder da morte, isto é, o dia­bo; e lib­er­tasse aque­les que, sub­meti­dos a vida toda ao temor da morte, eram lig­a­dos à servidão” (Hebr 2, 14–15). Eis aí clara­mente como ele foi pos­to em ruí­na para os demônios e ressur­reição de muitos. Por isso segue-se: “Para que fôsse­mos rece­bidos na adoção dos fil­hos” (Gal 4, 5). Quan­ta graça! Ado­tou os ser­vos como fil­hos! “Se fil­hos, tam­bém herdeiros: herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rom 8, 17).

III. NA ANUNCIAÇÃO OU NASCIMENTO DO SENHOR, E SOBRE A PENITÊNCIA


17. Com essa pas­sagem da epís­to­la, con­cor­da o introito da Mis­sa de hoje: “Quan­do um pro­fun­do silên­cio envolvia todas as coisas, e a noite chega­va ao meio do seu cur­so, vos­sa palavra todo-poderosa desceu dos céus e do trono real, e, qual um implacáv­el guer­reiro, arremes­sou-se no meio da ter­ra do exter­mínio. Espa­da afi­a­da, levan­do o teu império não sim­u­la­do, e, em pé, encheu tudo de morte, e, pisan­do a ter­ra, toca­va os céus” (Sap 18, 14–16).
Eis o que disse o Sen­hor em Lucas: “Quan­do um forte arma­do”, isto é, o dia­bo, “guar­da a sua casa”, isto é, o mun­do ou infer­no, “está em paz aqui­lo que ele pos­sui” (Lc 11, 21). Por isso, Sena­que­rib, que rep­re­sen­ta o dia­bo, diz, em Isaías: “Min­ha mão encon­trou como um nin­ho”, isto é, inca­pazes de pro­te­ger-se, “a for­t­aleza dos povos; e como se recol­hem os ovos aban­don­a­dos” pela mãe, “eu reuni a ter­ra inteira, e ninguém moveu a asa”, isto é, a mão con­tra mim, “nem abriu o bico, nem piou” (Is 10, 14). Eis como um qui­eto silên­cio con­tin­ha tudo.
“E a noite chega­va ao meio do seu cur­so.” O meio é dito com relação aos extremos. Os extremos da noite são o crepús­cu­lo e a auro­ra. De Adão até a lei foi como o crepús­cu­lo; da lei até a Anun­ci­ação a San­ta Maria foi como a meia-noite, que rep­re­sen­ta a pas­sagem do pre­ceito. Nem Adão no paraí­so, nem o povo no deser­to guardou o pre­ceito; todos eram obscure­ci­dos pela nebli­na daque­la noite, e por isso sus­pi­ravam pela auro­ra, isto é, a bênção do adven­to do Sen­hor, que começou com a saudação angéli­ca. O princí­pio da noite foi a sug­estão dia­bóli­ca da ser­pente para Eva. O iní­cio do dia foi a saudação angéli­ca a Maria. E então, ó Pai, o Ver­bo todo-poderoso con­sub­stan­cial a vós, isto é, o Fil­ho, veio dos vos­sos tronos reais, isto é, do seio da vos­sa majes­tade, do qual fala João: “O Fil­ho unigêni­to, que está no seio do Pai, ele rev­el­ou” (Jo 1, 18).
“Implacáv­el guer­reiro.” Isto é dito em Lucas: “Se, porém, um mais forte do que ele sobre­vi­er” (Lc 11, 22). Aque­le que veio para que­brar as por­tas de cobre e despedaçar os fer­rol­hos de fer­ro (cf. Ps 106, 16), sem dúvi­da con­vin­ha que fos­se um guer­reiro implacáv­el. Sobre o dia­bo, o Sen­hor diz, em Jó, que con­sid­era “pal­ha o fer­ro, e pau podre o bronze. A flecha não o faz fugir, as pedras da fun­da são pal­hin­has para ele. O marte­lo lhe parece um fiapo de pal­ha; ri-se do asso­bio da aza­ga­ia” (Job 41, 18–20). Que mais? “Foi feito para não ter medo de nada” (Job 41, 24). Con­vin­ha, pois, que fos­se um implacáv­el guer­reiro, no qual ele não tivesse parte algu­ma, aque­le que veio expoliá-lo.
“No meio da ter­ra”, que está no meio entre o céu e o infer­no, “do exter­mínio”, isto é, que o dia­bo exter­mi­nara, ou seja, pusera fora da vida eter­na. Por isso Isaías dele fala: “Aca­so é um homem esse que per­tur­bou a ter­ra, que que­brou os reinos, que fez do globo um deser­to e destru­iu as suas cidades?” (Is 14, 16–14), “arremes­sou-se”, jun­tos os pés da divin­dade e da humanidade.
“Espa­da afi­a­da.” Isto é o que diz o Após­to­lo: “A palavra de Deus é viva e efi­caz, e mais pen­etráv­el que toda espa­da de dois gumes” (Hebr 4, 12) etc. A espa­da é a divin­dade, que ficou escon­di­da na bain­ha da humanidade. Por isso, diz Isaías: “Dev­eras tu és o Deus escon­di­do, Deus sal­vador de Israel” (Is 45, 15). Por essa espa­da foi transpas­sa­do o dia­bo, que exter­mi­na­va a ter­ra. Por isso diz Isaías: “Acabou o pó, con­sum­iu-se o mis­eráv­el, fal­iu aque­le que oprim­ia a ter­ra” (Is 16, 4).
18. “Levan­do o vos­so império não sim­u­la­do.” Diz João: O Pai deu-lhe tudo na sua mão (cf. Jo 3, 35; 13, 3). E ain­da: “Tudo o que o Pai tem é meu” (Jo 16, 5). E: “Tudo o que é meu é teu, e o que é teu é meu” (Jo 17, 10). Lev­ou, pois, o impe­rio do Pai, que lhe dera poder sobre toda carne (cf. Jo 17, 2), o seu poder é um poder eter­no (cf. Dan 7, 14), que dá ordens aos ven­tos e ao mar, e obe­de­cem-no (cf. Lc 8, 25). “Levan­do o império não sim­u­la­do”, isto é dito em Mar­cos: “Ensi­na­va-os como quem tem poder, e não como os escribas” (Mc 1, 22) deles, que ensi­navam em hipocrisia e sim­u­lação. E em Lucas: “Que dis­cur­so é este, porque, com poder e força, dá ordens aos espíri­tos imun­dos, e eles saem?” (Lc 4, 36).
“E, em pé, encheu tudo de morte.” Em pé, abriu as mãos na cruz, e encheu, com a sua morte, tudo o que havia sido esvazi­a­do pela des­obe­diên­cia dos primeiros pais. De cuja plen­i­tude nós todos recebe­mos (cf. Jo 1, 16).
“E toca­va o céu”, no qual está a divin­dade, pos­to que a sabedo­ria atinge de um fim a out­ro, forte­mente (cf. Sap 8, 1), “em pé sobre a ter­ra”, que des­igna a humanidade. Diz ele em João: “Ninguém subiu ao céu, senão aque­le que desceu do céu, o Fil­ho do homem, que está no céu” (Jo 3, 13). Dele é fal­a­do em Jó: “É mais alto do que o céu, e que farás? Mais pro­fun­do que o infer­no, e como con­hecerás? A sua medi­da é mais lon­ga do que a ter­ra, e mais larga do que o mar” (Job 11, 8–9).
A ele, carís­si­mos irmãos, humilde­mente implore­mos, para que nos faça mor­rer para os vícios, e ressuci­tar para as vir­tudes; que a espa­da da sua Paixão transpasse a nos­sa alma, para que mereçamos a ale­gria na ressur­reição ger­al.
Con­ce­da-no-lo aque­le que é ben­di­to pelos sécu­los. Amém.
19. “Quan­do um pro­fun­do silên­cio envolvia todas as coisas” expli­ca­do no sen­ti­do moral. Fala Jó do dia­bo: “Dorme sob a som­bra, no seg­re­do dos caniços e dos lugares úmi­dos” (Job 40, 16). À som­bra da sober­ba, chama­da som­bra da morte, ou o dia­bo. Assim como a som­bra segue o cor­po, assim a sober­ba segue o dia­bo. Por isso, se diz no Apoc­alipse: “Eis um cav­a­lo páli­do, e o nome do que o mon­ta­va era morte; e o infer­no o seguia” (Apoc 6, 8). Eis o cav­a­lo, o sol­da­do e o escud­eiro. O cav­a­lo páli­do é o hipócri­ta; o sol­da­do, cujo nome é morte, é o dia­bo; o escud­eiro é o infer­no, isto é, a sober­ba, que apas­cen­ta o cav­a­lo com ceva­da e água, isto é, com a aus­teri­dade da abstinên­cia, para que apareça jejuan­do per­ante os home­ns (cf. Mt 6, 16), sela‑o com a humil­dade e freia‑o com o silên­cio. “O estúpi­do”, diz Salomão, “se se calar, será rep­uta­do como sábio” (Prov 17, 28), assim como o hipócri­ta será tido por san­to. Mon­tou aque­le cav­a­lo a morte, per­cor­reu o mun­do, sauda­da com lou­vores, com saudações nos foros, cát­e­dras nas sin­a­gogas, e primeiros lugares nos ban­quetes (cf. Mt 23, 6–7). Não há sober­ba maior do que a sober­ba dos hipócritas: a equidade sim­u­la­da não é equidade, mas dupla iniq­uidade.
Ain­da, nos caniços (em latim, cala­mus, donde vem a palavra “calami­dade”) está a avareza, a cujo vazio (porque nun­ca diz: Bas­ta) segue-se a eter­na calami­dade. Os lugares úmi­dos des­ig­nam a gula e a luxúria. Porque a umi­dade é a mãe da cor­rupção, na qual se ger­am ver­mes e coisas semel­hantes. Nos sober­bos, avar­en­tos e lux­u­riosos, dorme e des­cansa o dia­bo, e então, num qui­eto silên­cio, prende todos os seus mem­bros. Porque o coração cala-se para o bem pen­sa­men­to, a lín­gua, para o lou­vor de Deus, e a mão, para a obra reta. Diz Isaías: “Ai de mim, porque me calei” (Is 6, 5). Em tal silên­cio está o ai da eter­na con­de­nação.
“E a noite chega­va ao meio do seu cur­so.” A palavra noite vem do latim “nocere”, faz­er mal, porque faz mal aos olhos, e sim­boliza o peca­do mor­tal, que obscurece a luz da razão. Quem cam­in­ha de doite fere-se (cf. Jo 11, 10). Os extremos dessa noite são o crepús­cu­lo e a auro­ra, esto é, o con­sen­ti­men­to da alma cega­da, e a infusão da graça, em cujo meio está essa ação e cos­tume do peca­do. Desse meio cam­in­ho fala-se no Salmo: “O cam­in­ho dos ímpios pere­cerá” (Ps 1, 6).
Isso ocor­reu quan­do “a palavra todo-poderosa arremes­sou-se”, isto é, a graça do Espíri­to San­to, jus­ta­mente chama­da palavra todo-poderosa: todo-poderosa porque rompe todos os obstácu­los pos­tos à sal­vação; palavra (em latim, ser­mo), porque plan­ta (ser­it) e insere na alma as vir­tudes, ou porque con­ser­va (ser­vat) a alma, que curou do peca­do. Por isso, no livro da Sabedo­ria: Não foi uma erva, isto é, a ver­du­ra das riquezas, que logo seca, nem um emoliente de delí­cias que os curou, mas a vos­sa palavra todo-poderosa, Sen­hor, que cura tudo (cf. Sap 16, 12), “des­de os tronos reais” da benig­nidade e mis­er­icór­dia div­inas. Por isso Joel: “Con­vertei-vos ao Sen­hor vos­so Deus, porque é benig­no e mis­eri­cor­dioso” (Joel 2, 13).
20. “Guer­reiro implacáv­el”, na con­trição. A graça é chama­da guer­reiro implacáv­el, porque, como um marte­lo, bate na dureza da alma: Aca­so as min­has palavras não são como o fogo, e como um marte­lo que­bran­do pedras? (cf. Jer 23, 29).
“No meio da ter­ra”, isto é, na alma do pecador, que é chama­da ter­ra, porque é dada às coisas ter­re­nas; meio, porque é pos­ta entre a mis­er­icór­dia e a justiça. Por isso João diz que “Jesus ficou soz­in­ho com a mul­her no meio” (Jo 8, 9), entre a mis­er­icór­dia e a justiça.
“Do exter­mínio.” Dois são os tér­mi­nos: a entra­da e a saí­da da nos­sa vida. Quan­do a alma do homem não habi­ta neles, neles não pen­sa, e então é exter­mi­na­da, isto é, pos­ta fora dos tér­mi­nos. Diz Isaías: Cir­cu­lou um clam­or no con­fim de Moab (cf. Is 15, 8), que rep­re­sen­ta o pecador, em cujos ambos tér­mi­nos há clam­or: quan­do entra no mun­do, cla­man­do, cho­ra; quan­do sai, os seus choram. Por isso, no Ecle­si­astes: “Cir­cu­larão” com o cadáver “choran­do pela rua” (Eccle 12, 5).
Segue-se: “Espa­da afi­a­da”, na con­fis­são. A graça é, então, uma espa­da afi­a­da, pois aguça a lín­gua do pecador na con­fis­são, para que pos­sa diz­er, com Isaías: “Fiz de min­ha boca uma espa­da afi­a­da” (Is 49, 6). Dis­so fala o Sen­hor a Eze­quiel: “E tu, fil­ho do homem, toma para ti uma espa­da afi­a­da, que raspe pêlos, e passa‑a pela tua cabeça e tua bar­ba” (Ez 5, 1). O pacador, com a espa­da da con­fis­são, deve ras­par a cabeça, na qual está a mente, para que nen­hum peca­do per­maneça na con­sciên­cia, e a bar­ba, que rep­re­sen­ta a for­t­aleza das boas obras, para que não con­fie em si, mas no Sen­hor, do qual pro­cede todo bem.
Por isso, segue-se: “Por­tan­do o teu império não sim­u­la­do”. A ver­dadeira con­fis­são não con­hece sim­u­lação, pois elu­ci­da a ver­dade da con­sciên­cia diante do Altís­si­mo e do seu con­fes­sor, e então car­rega o não sim­u­la­do império do Sen­hor. Note-se que são qua­tro os inimi­gos da con­fis­são: e amor ao peca­do, a ver­gonha de con­fes­sar, o temor da pen­itên­cia e o deses­pero do perdão. Quem vence todos ess­es qua­tro inimi­gos na con­fis­são, sem dúvi­da leva o império não sim­u­la­do do Sen­hor.
Segue-se: “E, em pé, encheu tudo de morte”, na sat­is­fação. A graça fica em pé quan­do faz o pen­i­tente per­se­ver­ar vir­il­mente na pen­itên­cia, para que encha de morte, isto é, mor­ti­fi­cação, todos os seus mem­bros, para que, mor­to para o peca­do, viva para Deus (cf. Rom 6, 11), e então se poderá diz­er, a respeito dele, o seguinte: “E, de pé sobre a ter­ra, alcança­va o céu”. A graça chega até o céu, estando sobre a ter­ra, quan­do faz o pen­i­tente, ain­da na carne, atin­gir o céu, pela celeste con­ver­sação, para que diga, com o Após­to­lo: “A nos­sa con­ver­sação está no céu” (Phil 3, 20).
Rogue­mos pois, carís­si­mos irmãos, ao Sen­hor Jesus Cristo, para que envie a graça do Espíri­to San­to no meio da ter­ra do exter­mínio, para que que­bre a dureza da alma, afie a lín­gua na con­fis­são, encha os cor­pos de mor­ti­fi­cação, e, nes­sa celeste con­ver­sação, mereçamos atin­gir o céu. Con­ce­da-no-lo aque­le que é ben­di­to pelos sécu­los. Amém.

Fonte e tradução: São Pio V