Intolerância doutrinal. Sermão do Cardeal Pie (Primeira parte).


Apologética, Política, Teologia / sexta-feira, dezembro 27th, 2013


Card. Louis-Édouard Pie

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Ser­mão pre­ga­do na Cat­e­dral de Chartres 1841 e 1847

  

Unus Domi­nus, una fides, unum bap­tisma. 

Existe um só Sen­hor, uma só fé e um só batismo.

(São Paulo aos Efé­sios, c . IV, v . 5.)

Um sábio disse que as ações do homem são fil­has do seu pen­sa­men­to, e nós mes­mos esta­b­ele­ce­mos que todos os bens, como tam­bém todos os males de uma sociedade, são fru­tos das máx­i­mas boas ou más que essa pro­fes­sa. A ver­dade no espíri­to e a vir­tude no coração são quase insep­a­ráveis e em estre­i­ta relação: quan­do o espíri­to é pre­sa do demônio da men­ti­ra, o coração, se tam­bém deu iní­cio a obsessão, é assaz próx­i­mo a deixar-se levar em baila pelo vicio. A inteligên­cia e a von­tade, de fato, são duas irmãs para as quais a sedução é con­ta­giosa; se se vê que a primeira se aban­dona ao erro, se esten­da um piedoso véu sobre a hon­ra da segun­da.

E é por isso, meus Irmãos, e é porque não existe algum ataque, algu­ma lesão na ordem int­elec­tu­al que não ten­ha funes­tas con­se­quên­cias na ordem mate­r­i­al, que nós nos empen­hamos, seja em com­bat­er o mal atacando‑o nos seus princí­pios, seja a secar sua fonte, isto é, as idéias. Entre nós são cred­i­ta­dos mil pre­juí­zos: o sofis­ma, estúpi­do de ser ata­ca­do, invo­ca a pre­scrição; o para­doxo se van­glo­ria de haver obti­do o dire­ito de cidada­nia. Os próprios cristãos, que vivem bem no meio des­ta atmos­fera impu­ra, não lhe evi­tam todo o con­tá­gio, mas aceitam muitos erros muito facil­mente; muitas vezes cansa­dos de resi­s­tir em pon­tos essen­ci­ais, para dis­farçar, cedem em out­ros pon­tos que pare­cem a eles menos impor­tantes, não perceben­do, e muitas vezes não queren­do perce­ber, aonde eles poderão ser con­duzi­dos pela sua impru­dente frag­ili­dade.

Nes­ta con­fusão de idéias e de fal­sas opiniões cabe a nós, sac­er­dotes de incor­rup­tív­el ver­dade, de nos lançar­mos no com­bate prote­s­tando com a ação e com a palavra: bom para nós se a rígi­da inflex­i­bil­i­dade do nos­so ensi­na­men­to pud­er impedir o trans­bor­dar da men­ti­ra, desle­git­i­mar os princí­pios errô­neos que reinam com sober­ba sobre as inteligên­cias, cor­ri­gir os axiomas funestos já afir­ma­dos no tem­po, e enfim ilu­mi­nar e purificar a sociedade que ameaça de pre­cip­i­tar, envel­he­cen­do, em um caos de trevas e de des­or­dens em que não lhe será mais pos­sív­el dis­tin­guir a natureza dos seus males e muito menos remediá-los.

O nos­so sécu­lo excla­ma: Tol­erân­cia! Tol­erân­cia! Pen­sa-se que um sac­er­dote deve ser tol­er­ante, que a religião deve ser tol­er­ante. Meus Irmãos, em cada coisa nada se iguala a fran­queza, e eu vos digo sem ter­giver­sar que existe no mun­do uma só sociedade que pos­suí a ver­dade, e que esta sociedade deve ser nec­es­sari­a­mente intol­er­ante. Mas, antes de entrar no argu­men­to, para nos enten­der­mos bem, difer­en­ciemos as coisas colo­que­mo-las de acor­do sobre o sen­ti­do das palavras para não faz­er con­fusão.

A tol­erân­cia pode ser civ­il ou teológ­i­ca, e a primeira não nos diz respeito, me per­mi­tirei ape­nas uma palavras sobre essa; se a lei afir­ma per­mi­tir todas as religiões porque diante dessa são todas igual­mente boas ou real­mente porque o poder públi­co é incom­pe­tente para tomar uma posição sobre este tema, esta lei é ímpia e atéia, porque pro­fes­sa não já a tol­erân­cia civ­il como a definire­mos, mas a tol­erân­cia dog­máti­ca e, com uma neu­tral­i­dade crim­i­nal, jus­ti­fi­ca nos indi­ví­du­os a indifer­ença reli­giosa mais abso­lu­ta. Se ao con­trário a lei, recon­hecen­do que uma só religião é boa, sus­ten­ta e per­mite somente o tran­qui­lo exer­cí­cio das out­ras religiões, essa nis­to, como já se obser­vou antes de mim, pode ser sábia e necessária segun­do as cir­cun­stân­cias. Se exis­tem momen­tos em que é pre­ciso diz­er com o famoso con­destáv­el [*]:Une foi, une loi; Uma só fé, uma só lei, exis­tem out­ros em que é pre­ciso diz­er como Fenélon ao fil­ho de Thi­a­go II: «Con­cedeis a todos a tol­erân­cia civ­il, não aprovan­do tudo de for­ma indifer­ente, mas supor­tan­do com paciên­cia aqui­lo que Deus supor­ta».

Então, deixan­do a parte este argu­men­to reple­to de difi­cul­dade, e ded­i­can­do me a questão pro­pri­a­mente reli­giosa e teológ­i­ca, irei expor os dois princí­pios seguintes:

1º A religião que provém do céu é ver­dade e é intol­er­ante para com as doutri­nas.

2º A religião que vem do céu é cari­dade, e é ple­na de tol­erân­cia para com as pes­soas.

Reze­mos a Maria para que nos ven­ha em socor­ro e invoque para nós o Espíri­to de ver­dade e de cari­dade: Spir­i­tum ver­i­tatis et pacis. Ave Maria.

[*] Se tra­ta verossim­il­mente de Anne de Mont­moren­cy (1493–1567), con­nétable de França, a tin­ha por lema: une foi, une loi, un roi. [N.d.T.I.]