P. HENRI RAMIÉRE, S.J.: DESVENDANDO O LIBERALISMO


Apologética / quarta-feira, maio 8th, 2019

A questão do lib­er­al­is­mo diz respeito aos mais graves inter­ess­es
e aos mais fun­da­men­tais dog­mas do cris­tian­is­mo.
Padre Hen­ri Ramière S.J.
Paris, 1870
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa 

Antes de tudo é impor­tante esclare­cer para van­tagem daque­les católi­cos que não enten­dem a lig­ação entre a questão do lib­er­al­is­mo e do dog­ma católi­co e que acred­i­tam defend­er seri­amente os inter­ess­es da Igre­ja acon­sel­han­do-lhes a sep­a­rarem-se, sobre este pon­to, de sua própria tradição.

I – Origem do lib­er­al­is­mo

Para faz­er-lhes com­preen­der que se enganam, bas­ta recor­dar a sua história recente; digam-nos eles como a dout­ri­na que gostari­am que fos­se acei­ta pela Igre­ja se intro­duz­iu no mun­do. O sabem bem como nós; até o sécu­lo pas­sa­do essa não tin­ha encon­tra­do um só defen­sor, nem no inte­ri­or do cris­tian­is­mo nem no seio do pagan­is­mo. No mun­do bár­baro como naque­le civ­i­liza­do foi sem­pre acor­da­do fun­dar a garan­tia das insti­tu­ições soci­ais nas crenças reli­giosas; e Rousseau, quan­do afir­ma que nen­hum Esta­do foi jamais fun­da­do sem que a religião lhe servisse de base, não fazia que con­statar o teste­munho certís­si­mo da história e resumir os ensi­na­men­tos dos filó­so­fos pagãos, como tam­bém dos doutores cristãos.

Quan­do então se pen­sou repu­di­ar esta con­stante e uni­ver­sal per­suasão do gênero humano? Quem são aque­les novos sábios que inven­taram uma teo­ria igno­ra­da ou rejeita­da pelos mestres da anti­ga sapiên­cia?

Sabe­mos bem quem são estes sábios; são aque­les que, no sécu­lo pas­sa­do, declararam a Jesus Cristo e a sua Igre­ja uma guer­ra mor­tal e que, para tri­un­far nes­ta guer­ra, empreen­di­da segun­do eles para o tri­un­fo da ver­dade e da justiça, fiz­er­am uso das mais mal­vadas calú­nias e das mais audazes men­ti­ras.

Já esta origem é assaz sus­pei­ta, e os católi­cos que hoje se fazem pro­mo­tores de uma dout­ri­na inven­ta­da pelos inimi­gos mais mor­tais do catoli­cis­mo tem ver­dadeira­mente neces­si­dade de toda a gen­erosi­dade de seus corações para não tornarem-se cientes do grave risco que cor­rem ao serem chama­rizes de uma mist­i­fi­cação infer­nal.

II. – Táti­ca dos primeiros autores do lib­er­al­is­mo

Este temor não pode que agravar-se, se antes de deixar-se con­quis­tar pela espe­ciosa aparên­cia do lib­er­al­is­mo, nos pegassem a pena de estu­dar, nos escritos dos seus primeiros autores, o ímpio plano que aque­les selaram sob este aspec­to sedu­tor. Todavia nada é mais cer­to: estas pes­soas, as menos lib­erais e as mais intol­er­antes do mun­do quan­do esta­va em jogo a sua ganân­cia ou o seu amor próprio, começaram a pre­gar o lib­er­al­is­mo ou, como então se dizia, a tol­erân­cia em fato de religião, ape­nas com o fim de poder com isto chegar mais segu­ra­mente a destru­ir toda religião. «Écra­sons l’in­fâme!» [Destru­amos o infame!], tal era o seu lema; e a infame era para eles a Igre­ja de Jesus Cristo.    — Mas este lema era reser­va­do a sua cor­re­spondên­cia sec­re­ta. No exte­ri­or eles afe­tavam para a religião toda for­ma de respeito. Era ape­nas por devoção a dout­ri­na de Jesus Cristo que recla­mavam a tol­erân­cia em favor dos erros que ata­cavam esta mes­ma dout­ri­na. «Quan­to mais somos lig­a­dos a san­ta religião de Nos­so Sen­hor Jesus Cristo, mais deve­mos abor­recer o abom­ináv­el uso que se faz da sua lei div­ina.» Assim se exprim­ia Voltaire em uma car­ta des­ti­na­da a ser lida pelos pro­fanos, e exata­mente no momen­to em que se acor­da­va com d’Alembert para difundir uma das suas mais ímpias pub­li­cações, o Tes­ta­men­to de Jean Mes­li­er. E d’Alembert esta­va per­feita­mente de acor­do com seu mestre naqui­lo que diz respeito ao mel­hor meio para enga­nar os cristãos: «São cri­anças que não pre­cisamos tornar obsti­nadas, lhe escrevia (em 22 de fevereiro de 1764)…„ segun­do meu pare­cer tratar-lhes com muito corte­sia, diz­er que eles tem razão, que aqui­lo que creem e que pregam é claro como o dia… mas que, dada a per­ver­si­dade e a teimosia humana, é bom per­mi­tir a qual­quer um de pen­sar como gos­ta.»

III. — Habil­i­dade des­ta táti­ca.

De fato esta táti­ca, se não se dis­tingue pela sin­ceri­dade, não lhe fal­ta ao menos cer­ta habil­i­dade; se recla­mará a liber­dade para o erro até para que, por força de men­ti­ras, esse con­si­ga recru­tar uma arma­da: e não ape­nas haverão sol­da­dos, se colo­cará em suas mãos as armas da intol­erân­cia para perseguir os dis­cípu­los da ver­dade. Eis o seg­re­do da grande con­spir­ação dos primeiros após­to­los do lib­er­al­is­mo qual nos foi rev­e­la­da pelo cor­re­spon­dente prin­ci­pal e mais inti­mo con­fi­dente dos con­ju­radores. «Todos os grandes home­ns foram intol­er­antes, escreve Grimm, e é pre­ciso sê-lo. Se se encon­tra sobre o próprio cam­in­ho um príncipe bonachão, é pre­ciso pre­gar-lhe a tol­erân­cia afim de que caia na armadil­ha, e que o par­tido destruí­do ten­ha o tem­po de recu­per­ar-se e por sua vez de destru­ir o adver­sário. Assim o dis­cur­so de Voltaire, que insiste sobre a tol­erân­cia, é um dis­cur­so feito aos tolos, ou a gente engana­da, ou a pes­soas que não tem algum inter­esse na coisa [1]

Mas o seg­re­do da sei­ta, nos foi entregue de modo bem mais com­ple­to ain­da pelo seu próprio patri­ar­ca, na obra des­ti­na­da a fun­cionar como man­i­festo da nova dout­ri­na, isto é, no trata­do da Tol­erân­cia, onde afir­ma que a liber­dade é dev­i­da a todas as opiniões, mas que não pode ser acor­da­da a fé cristã, des­ig­na­da, segun­do a ati­tude con­stante da sei­ta, com nome de fanatismo. No começo do capí­tu­lo inti­t­u­la­do: Só o caso em que a intol­erân­cia é de dire­ito humano, ele for­mu­la a seguinte tese: «Para que um gov­er­no não ten­ha o dire­ito de punir os erros dos home­ns, é necessário que estes erros não sejam deli­tos, e são deli­tos ape­nas quan­do ess­es tur­bam a sociedade; ess­es tur­bam a sociedade quan­do inspi­ram o fanatismo; é necessário então que os home­ns parem de ser fanáti­cos para mere­cer a tol­erân­cia.» É claro: quan­do cer­tos lib­erais mod­er­nos, uma vez chegan­do ao poder, pro­pri­a­mente no momen­to em que procla­mavam toda sorte de liber­dade, se per­mi­ti­ram de perseguir os sac­er­dotes católi­cos, de abater as Igre­jas e de pri­var as pobres reli­giosas do abri­go em que se reti­raram para tra­bal­har e rezar em comum, eles não fiz­er­am out­ra coisa que mostrar-se fiéis ao pro­gra­ma traça­do a muito tem­po pelo seu prin­ci­pal mestre do lib­er­al­is­mo. Mas quan­to mais esta práti­ca da esco­la é fiel e con­stante, mais nos sur­preende que ten­ha con­ser­va­do o poder de enga­nar indefinida­mente exata­mente aque­les que a cada dia pode esper­ar para tornarem-se suas víti­mas.

IV. – O lib­er­al­is­mo mira provo­car a indifer­ença,
que é mais perigosa do que a hos­til­i­dade.

É pre­ciso, porém, admi­tir que não todos os após­to­los do lib­er­al­is­mo se escon­dem, sob as suas hipócritas ates­tações de tol­erân­cia, o segun­do fim de tornarem-se perseguidores; exis­tem alguns que são mais sin­ceros porque nos ofer­e­cem acor­dar iguais dire­itos a ver­dade e ao erro. Mas se arriscaria de enga­nar-se se quisesse ver nes­ta ofer­ta uma pro­va de maior benevolên­cia nos con­fron­tos da religião; pode ser, ao invés, o resul­ta­do de um ódio mais pro­fun­do e mais hábil. A ver­dade tem de fato um inimi­go mais mor­tal que o erro: a indifer­ença. Aque­les que sus­ten­tam uma ideia errônea com isto mes­mo procla­mam, em cer­ta medi­da, os dire­itos da ver­dade; porque se esforçan­do para faz­er aceitar como ver­dadeira uma coisa fal­sa, supõe como princí­pio evi­dente que ape­nas a ver­dade tem o dire­ito de impor-se a adesão da inteligên­cia. Mas se a inteligên­cia chega a um esta­do tal pelo qual não faz mais dis­tinção entre a ver­dade e o erro e pelo qual, fal­tan­do-lhe a força de afir­mar ou negar qual­quer coisa, se deixa ir a deri­va onde a con­duz a onda da dúvi­da e o ven­to da opinião: então nada pode mais sal­va-la de um com­ple­to naufrá­gio: e aque­le tesouro que é a ver­dade, e que Deus lhe havia con­fi­a­do, é nec­es­sari­a­mente engoli­do com­ple­ta­mente e sem fuga no abis­mo da indifer­ença.

Não duvi­damos: a impar­cial­i­dade mostra­da por um grande número de parte­gianos mes­mo sin­ceros do lib­er­al­is­mo não é out­ra coisa que o resul­ta­do de um sim­i­lar abso­lu­to despre­zo pela ver­dade; e se ess­es atribuem tan­to val­or as liber­dades mod­er­nas, é porque as jul­gam mais ade­quadas que as próprias perseguições para provo­car defin­i­ti­va­mente e irre­me­di­avel­mente o divór­cio entre a fé cristã e as sociedades do futuro. E é pre­ciso bem recon­hecer que dão pro­va nis­to de um con­hec­i­men­to da natureza humana que fal­tou aos mais fer­ozes perseguidores; ao invés de exporem-se as inevitáveis reações que provo­cam a vio­lên­cia, eles pref­er­em esper­ar pela com­ple­ta ruí­na da religião por parte da ação, sim, mas lenta mas tam­bém irre­sistív­el, do ambi­ente social. Eles com­preen­dem que o indi­vid­uo, poden­do nascer e crescer ape­nas den­tro da sociedade, lhe sofre inevi­tavel­mente as inces­santes influên­cias; quem não se rende con­ta, em efeito, quan­tos poucos são os home­ns capazes de pen­sar por si e de sub­traírem-se com­ple­ta­mente a tira­nia da opinião? Base­an­do-se sobre esta ver­dade expe­ri­en­cial, muitos dos mais inteligentes entre os inimi­gos da Igre­ja não são par­ticipes da impaciên­cia dos seus cumplices mais dese­josos do seu fim; eles esper­am, e até ago­ra os acon­tec­i­men­tos não des­men­ti­ram suas esper­anças, que, em toda parte a sociedade se colo­cará em um esta­do de com­ple­ta indifer­ença nos con­fron­tos de Jesus Cristo, as mas­sas sofr­eram inevi­tavel­mente o con­tá­gio des­ta atmos­fera e se destacaram, pouco a pouco, da religião. A destru­ição da realeza social de Jesus Cristo rep­re­sen­ta, então, para eles a pre­lim­i­nar obri­gatória e infalív­el da total decadên­cia da religião; e a tol­erân­cia civ­il é para ess­es um meio cer­to, mes­mo que pos­sa ser um pouco lento, para chegar a tol­erân­cia doutri­nal, isto é, a indifer­ença abso­lu­ta.
V. – Oposição dire­ta entre o princí­pio do lib­er­al­is­mo
e o
dog­ma cristão.

Mas não é somente pela sua origem e pelas suas con­se­quên­cias quase inevitáveis que o lib­er­al­is­mo é con­trário a religião de Jesus Cristo, é tam­bém pela sua essên­cia; não ape­nas essa fornece aos inimi­gos da Igre­ja as armas para destruí-la, mas a ata­va de per sè nos dog­mas mais essen­ci­ais.

De fato é sufi­ciente exam­i­nar esta dout­ri­na no seu princí­pio para com­preen­der que essa nega os dire­itos sober­a­nos de Jesus Cristo quan­do declara que as sociedades tem­po­rais são inde­pen­dentes do domínio Dele. Segun­do este princí­pio a sociedade civ­il é mera­mente ter­restre, e não deve ocu­par-se em nen­hum modo, nem dire­ta ou indi­re­ta­mente, dos dire­itos das ver­dades e dos inter­ess­es eter­nos; o seu úni­co e supre­mo fim é a feli­ci­dade tem­po­ral dos próprios mem­bros, e a razão é a sua úni­ca tocha: Jesus Cristo para esta sociedade é então um estran­ho. Que ele seja Deus ou não, ela não sabe, não se lhe ocu­pa, não é tare­fa sua, mas uni­ca­mente tare­fa dos indi­ví­du­os; e se um número maior ou menor dos seus mem­bros recon­hece Jesus Cristo como Fil­ho de Deus, o poder públi­co não per­mi­tirá que se use a vio­lên­cia para impe­di-lo, pro­pri­a­mente como faria se out­ros cidadãos quisessem recon­hecer Maomé como seu pro­fe­ta.

Esta é a teo­ria que faz de base as liber­dades que a Igre­ja não ces­sa de reprovar em lin­ha de princí­pio, emb­o­ra de fato as pos­sa tol­er­ar naque­las sociedades que tem ces­sa­do de serem cristãs. Pio IX expres­sou claris­si­ma­mente esta teo­ria na Encícli­ca Quan­ta Cura, con­de­nan­do aque­les quais que ousam ensi­nar «que a per­feição dos gov­er­nos e o pro­gres­so civ­il exigem abso­lu­ta­mente que a sociedade humana seja con­sti­tuí­da e gov­er­na­da sem ter em con­ta a religião, como se não exis­tisse, ou ao menos sem faz­er algu­ma difer­ença entre a ver­dade religião e as fal­sas. Mais, con­trari­a­mente a dout­ri­na da Escrit­u­ra, da Igre­ja e dos san­tos Padres, não temem afir­mar que o mel­hor gov­er­no é aque­le no qual ao poder não é recon­heci­do a obri­gação de reprim­ir, com sanção de penas, os vio­ladores da religião católi­ca, se não quan­do a ordem públi­ca o requeira.»

Esta dout­ri­na, que Pio IX qual­i­fi­ca como ímpia e absur­da, seria ver­dadeira se a realeza de Jesus Cristo fos­se per­feita­mente estran­ha a esfera em que opera a sociedade; mas porque o fil­ho de Deus, fazen­do-se homem e fun­dan­do a sua Igre­ja para que con­tin­u­asse a sua obra sobre a ter­ra, quis abrir as sociedades, como tam­bém aos indi­ví­du­os que a com­põem, esta úni­ca via de per­feição e de sal­vação, é evi­dente que não se pode eri­gir a princí­pio a com­ple­ta inde­pendên­cia da sociedade civ­il em suas relações sem tornar-se culpáv­el de uma ver­dadeira e própria apos­ta­sia.

Então, se deve tam­bém renun­ciar a exal­tar como pre­ciosas con­quis­tas aque­las liber­dades que Pio IX, como Gregório XVI, chama delírio, isto é, a liber­dade abso­lu­ta de pen­sa­men­to, de impren­sa e de cul­to.

Que são em efeito essas liber­dades? – Essas não tem nada em comum com a liber­dade moral pro­pri­a­mente dita, que a Igre­ja jamais deixou de defend­er con­tra os erros que em todos os sécu­los e tam­bém hoje não ces­saram de ata­ca-la; não se tra­ta do dire­ito de bus­car a ver­dade no âmbito históri­co, cien­tí­fi­co, filosó­fi­co e até mes­mo na ordem reli­giosa: a Igre­ja enco­ra­jou o exer­cí­cio deste dire­ito mais do que toda insti­tu­ição humana; e as obras dos grandes gênios cristãos estão a demon­strar com qual fer­oz inde­pendên­cia ess­es sou­ber­am tirar-lhe proveito. A liber­dade que a Igre­ja con­de­na como liber­dade de perdição, é, ao invés, aque­la que se arro­ga o dire­ito de atacar a dout­ri­na de Cristo, de obscurecê-la com sofis­ma, de trav­es­ti-la com calú­nia, de dis­tan­ciar-lhe as almas para as quais essa é a úni­ca via de sal­vação. Não é talvez man­i­festo que, se Jesus Cristo é chefe e rei das sociedades, estas ulti­mas não podem recon­hecer aos seus mem­bros o dire­ito de atacar a dout­ri­na deste Rei divi­no e de insul­tar a sua autori­dade? Tudo isto que se pode con­sen­tir é de se tol­er­ar, em deter­mi­nadas cir­cun­stân­cias, estes ataques e estes insul­tos como um mal menor que não pode ser com­bat­i­do sem com­por­tar des­or­dem ain­da maior; mas inve­stir estas iniq­uidades com a majes­tade do dire­ito, e lhe coroa com a aure­o­la do pro­gres­so, isto sig­nifi­ca evi­den­te­mente procla­mar decaí­do o Deus-Homem e fun­dar sobre o anti­cris­tian­is­mo todo o edifí­cio da sociedade mod­er­na.

Por­tan­to, a dout­ri­na lib­er­al é real­mente a negação da sobera­nia social de Jesus Cristo. É ver­dadeiro que os lib­erais católi­cos não exprimem esta negação assim clara­mente quan­to os seus con­frades não católi­cos; nós acred­i­ta­mos até mes­mo que muito poucos, no caso em que a questão da realeza social de Jesus Cristo fos­se clara­mente colo­ca­da a eles, hes­i­tari­am a resolvê-la afir­ma­ti­va­mente. Temos tido por mais de uma vez a ocasião de con­vencer-nos que o maior número dess­es não sus­peitam nem mes­mo que as suas teo­rias lhe con­duzem até a negação deste dog­ma; exis­tem neles, a este respeito, muito mais ilusões que erros vol­un­tários; e é por isto que nos parece de máx­i­ma importân­cia dis­si­par a ilusão repor­tan­do a dis­cussão ao seu princí­pio, sobre o qual não se pode exi­s­tir, entre cristãos, algu­ma divergên­cia.

Seja este princí­pio clara­mente e uni­ver­salmente admi­ti­do, jun­to as suas con­se­quên­cias necessárias, e a Igre­ja não pen­sará e nem sequer impedirá àque­les dos seus fil­hos que são mais lig­a­dos as liber­dades mod­er­nas de defendê-la como fato e con­se­quên­cia do nos­so esta­do social [2].

Jamais ela impedirá aos bis­pos amer­i­canos dos Esta­dos Unidos e da Inglater­ra de reivin­dicar, como uma pre­ciosa con­quista, a liber­dade de que goza a Religião nestes país­es em que se foi um tem­po sub­mis­sa a mais ini­qua opressão; nem serão culpáveis todos aque­les que nas liber­dades mod­er­nas recon­hece­r­am ape­nas um fato em relação a um par­tic­u­lar esta­do social. Des­graçada­mente a inter­pre­tação mais benev­o­lente não pode impedir-nos de notar total­mente o con­trário nas palavras e nos escritos de um cer­to número de católi­cos lib­erais; se os mais sábios evi­tam as fór­mu­las de que se servem os líderes do lib­er­al­is­mo anti-cristão para eri­gir as suas teo­rias em princí­pios abso­lu­tos, demon­stram porém, clara­mente, com toda a sua lin­guagem, que aos seus olhos estes pre­ten­sos princí­pios são total­mente o con­trário que here­sias e assim, bem longe de unir-se a con­de­nação da Igre­ja, pare­cem faz­er-lhe uma grande con­cessão con­tentan­do-se de supor a ver­dade sem afir­mar estes mes­mos princí­pios muito aber­ta­mente; e se sur­preen­dem que uma conivên­cia assim disc­re­ta com o erro pos­sa descon­cer­tar a Igre­ja, que todavia São Paulo chama «col­u­na e fun­da­men­to da ver­dade». Mas a insistên­cia e a aparente sev­eri­dade da Igre­ja ces­saram de sur­preen­der-lhes quan­do com­preen­derem que se se tra­ta, para ela, de um dog­ma sobre o qual não lhe é per­mi­ti­do tran­si­gir como sobre aque­le da própria divin­dade do Sal­vador.

VI – Con­se­quên­cia deste modo de colo­car a questão

Não é ain­da chega­do o momen­to de provar a ver­dade deste dog­ma, mas o seu modo de colo­car a questão dev­e­ria já ser sufi­ciente para abrir os olhos dos católi­cos que acred­i­tam a este respeito de poder seguir um par­tido opos­to àquele indi­ca­do pelo vigário de Jesus Cristo. Nós cer­ta­mente não admiti­mos que, tam­bém nas questões de con­du­ta, e sobre­tu­do quan­do se tra­ta de inter­ess­es gerais da Igre­ja, seja con­sen­ti­do a um católi­co de recusar a própria obe­diên­cia a quem Jesus Cristo investiu da supre­ma autori­dade; mas mes­mo supon­do que sobre isto fos­se pos­sív­el faz­er-se iludir, não o seria cer­ta­mente sobre questões que dizem respeito ao dog­ma: e no entan­to, que o dog­ma este­ja em questão é certís­si­mo, e é difí­cil explicar como católi­cos ilu­mi­na­dos ten­ham podi­do enga­nar-se nis­to.

Na supre­ma batal­ha que a Igre­ja sus­ten­ta há um sécu­lo sobre o ter­reno social está em causa o dog­ma, como o era nas lutas con­tra o pagan­is­mo dos imper­adores romanos e con­tra o ari­an­is­mo dos Césares de Bizân­cio; é sem­pre a mes­ma guer­ra e sem­pre o mes­mo inimi­go. O orgul­ho da razão humana, que não quer de modo algum sub­me­ter-se ao Deus vivo, recusa por primeira coisa recon­hecer a Sua existên­cia e a Sua unidade; ven­cen­do nes­ta primeira luta, esse bus­ca sal­va­guardar a própria inde­pendên­cia negan­do a divin­dade daque­le ao qual Deus seu Pai deu o domínio de todas as coisas; e é aqui que hoje esse pre­tende recu­per­ar todas as van­ta­gens per­di­das nas suas duas primeiras lutas, ao menos pri­van­do o Deus-Homem da sua realeza social, apoio necessário da Sua autori­dade sobre as almas e condição indis­pen­sáv­el do seu reino uni­ver­sal sobre a humanidade.

Nes­tas três batal­has o Anti­cris­tian­is­mo, para assus­tar e seduzir os ser­vos de Jesus Cristo fez uso das mes­mas promes­sas e das mes­mas ameaças; se é dito por eles que sus­ten­tan­do com uma firmeza muito abso­lu­ta os dire­itos de Deus ess­es impe­di­am o domínio da sociedade humana, e que ess­es, ao con­trário, have­ri­am tira­do toda sorte de van­ta­gens das sábias con­cessões feitas ao espíri­to dos tem­pos; ain­da hoje se faz aos cristãos o mes­mo dis­cur­so, com a difer­ença que a rec­om­pen­sa das con­cessões que são requeri­das não é mais o favor dos Césares quan­to àquele da opinião, soz­in­ha a potên­cia sober­ana no seio das sociedades mod­er­nas. Mas qual­quer que seja a coisa que se faça, não se chegará nem a assus­tar e nem a nos cor­romper; os favores e os anátemas da opinião encon­traram todos os ver­dadeiros cristãos  igual­mente imóveis quan­to as promes­sas e as ameaças dos Césares; e nós defend­er­e­mos a sobera­nia social do Deus-Homem com igual firmeza de quan­to lhe demon­straram os cristãos dos primeiros sécu­los no con­fes­sar a sua divin­dade.

Da: Les doc­trines romaines sur le libéral­isme envis­agées dans leur rap­ports avec le dogme chré­tien et avec les besoins des soci­etes mod­ernes, Paris 1870, pag. 1–19.

Fonte: Prog­et­to Bar­ru­el

NOTAS:

[1] Cor­rispon­den­za di Grimm, car­ta de 1 de jun­ho de 1772, cita­da pelo conde de Maistre no preâm­bu­lo as Let­tere sul­l’In­qui­sizione spag­no­la. Este tre­cho foi elim­i­na­do pelas ulti­mas edições do Grimm.

[2] Mons. de Ségur no seu notáv­el livro inti­t­u­la­do: A Liber­dade, se exprime exata­mente como nós sobre este argu­men­to: «Se aceitásse­mos as liber­dades mod­er­nas como um fato que é con­se­quên­cia do nos­so esta­do social, mas sem erigí-lo em prin­ci­pio, seri­amos lib­erais quan­to ao Papa e a Chiesa.» (§ XXXVII, pag. 175.)