P. CURZIO NITOGLIA: VERDADEIRA E FALSA PRUDÊNCIARESPOSTA A DOMENICO SAVINO


Psicologia, Teologia / sexta-feira, fevereiro 26th, 2016
Prudên­cia, Piero del Pol­laio­lo (1441 — 1496)

 

Quem não está dis­pos­to a arriscar-se por suas ideias, ou não vale nada ou não apli­ca nada de suas ideias”  (Ezra Pound)

Padre Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­co­men­ta]

O caro ami­go Dr. Domeni­co Savi­no, em 8 de abril de 2009, escreveu um inter­es­sante arti­go em seu site “Effedi­effe” inti­t­u­la­do “Frater­nidade São Pio X: temores e esper­anças”, onde “repro­va cer­ta fal­ta de prudên­cia” a Mons. Richard Williamson. Mas que coisa é exata­mente a prudên­cia e a imprudên­cia? Per­gun­te­mos a San­to Tomás de Aquino, “o mais sábio dos san­tos, o mais san­to dos sábios” (Pio XII).

 

Definição

A prudên­cia é uma vir­tude que reside no int­elec­to práti­co e é orde­na­da ao reto gov­er­no das nos­sas ações, em vista do fim (P. Antônio Royo Marín O.P., Teolo­gia del­la per­fezione cris­tiana, Roma, Edições Pauli­nas, 6a ed., 1965). Ela “incli­na o int­elec­to a escol­her os mel­hores meios para atin­gir os vários fins próx­i­mos sub­or­di­nada­mente ao fim últi­mo” (A. Tan­querey, Com­pen­dio di Teolo­gia Asceti­ca e Mist­i­ca, Roma-Paris, Desclée, 1928, p. 627). Seu obje­to são os atos humanos con­cre­tos. O ato próprio da prudên­cia é o de ditar ou ordenar como se deve agir em con­cre­to, hic et nunc, ten­do em con­ta todas as cir­cun­stân­cias e, depois de haver refleti­do e ser acon­sel­ha­do, escol­hen­do os mel­hores meios para atin­gir o fim. É uma vir­tude prin­ci­pal­mente int­elec­tu­al, mas con­se­quente­mente práti­ca ou ati­va, porque me diz em qual­quer caso par­tic­u­lar aqui­lo que devo faz­er ou omi­tir para atin­gir o fim. San­to Tomás trata‑a na Suma Teológ­i­ca (II-II, qq. 47–56).

 

Vícios opos­tos

San­to Tomás dis­tingue entre os vícios aber­ta­mente opos­tos à prudên­cia e os que têm cer­ta semel­hança com ela, sendo emb­o­ra sub­stan­cial­mente con­trários.

a) Aber­ta­mente opos­tos:

A imprudên­cia (q. 53, aa. 1–2) se man­i­fes­ta de três mod­os diver­sos:

• A Pre­cip­i­tação, quan­do se age de modo irrefleti­do e pre­cip­i­ta­do, seguin­do o estí­mu­lo da paixão ou do capri­cho (q. 53, a. 3);

• A Descon­sid­er­ação, quan­do se despreza ou se neg­li­gen­cia a con­sid­er­ação das coisas necessárias para jul­gar reta­mente (q. 53, a. 4);

• A Incon­stân­cia, quan­do se aban­don­am, por motivos fúteis e facil­mente, os bons propósi­tos sug­eri­dos pela prudên­cia (q. 53, a. 5). A luxúria, a ira e a inve­ja favore­cem estes qua­tro defeitos aber­ta­mente con­trários à prudên­cia (q. 53, a.6), porque incli­nam o homem para as coisas sen­síveis, opostas às int­elec­tu­ais;

• A Neg­ligên­cia, que é fal­ta de solic­i­tude no diri­gir efi­caz­mente o que se deve faz­er e segun­do o modo como se deve faz­er. É mais grave que a incon­stân­cia porque não só não cumpre o que a prudên­cia orde­na, mas real­mente se abstém de ordenar (q. 54, aa. 1–3).

b) Vícios aparente­mente semel­hantes à prudên­cia:

• A prudên­cia da carne (q. 55, aa. 1–2) é a habil­i­dade de encon­trar os meios mais opor­tunos para sat­is­faz­er as paixões. “A prudên­cia da carne é inimi­ga de Deus” (Rom., VIII, 7). Prudên­cia car­nal sig­nifi­ca con­sid­er­ar como fim o próprio con­for­to ou a van­tagem mate­r­i­al. Mas este é um peca­do e dis­tan­cia do ver­dadeiro fim últi­mo (Deus, o Ver­dadeiro e Sumo Bem);

• A Astú­cia ou habil­i­dade de con­seguir um fim, bom ou ruim, com meios ilíc­i­tos ou fal­sos (“o fim jus­ti­fi­ca os meios”, Maquiav­el), sim­u­la­dos ou aparentes;

• A Fraude ou astú­cia na ação (q. 55, a. 5);

• A Solic­i­tude exces­si­va para com as coisas tem­po­rais pre­sentes ou futuras, que provém da fal­ta de fé na providên­cia div­ina e da super­es­ti­mação das coisas ter­re­nas (q. 55, aa. 6–7).

A fonte destes cin­co vícios é sobre­tu­do a avareza ou o apego exces­si­vo aos bens deste mun­do (riqueza, fama, bem-estar).

NB

P. Antônio Royo Marín (Teolo­gia del­la per­fezione cris­tiana, Roma, Edições Pauli­nas, 6a ed., 1965, pp. 650–651) faz recomen­dações sobre­tu­do aos sac­er­dotes, que, haven­do estu­da­do teolo­gia moral, podem facil­mente mudar o bem em mal e vice-ver­sa, com qual­quer sofis­ma ou tro­cadil­ho “jurídi­co” de pedir o Dom do Con­sel­ho, o qual aper­feiçoa a vir­tude da prudên­cia e nos aju­da a vencer as “célu­las das paixões des­or­de­nadas”, que por sua vez nos lev­am a “jus­ti­ficar o mal com qual­quer princí­pio moral, cer­to em si mas [vol­un­tari­a­mente] mal apli­ca­do ao caso par­tic­u­lar”, e nos lev­am a “pôr fal­sa­mente a ciên­cia a serviço da paixão”.

Além dis­so, Pe. REGINALDO GARRIGOU-LAGRANGE (Le tre età del­la vita inte­ri­ore, Vicen­za, LICE, 4a ed., 1963, vol. 3, p. 102) escreve que: “Ela deter­mi­na o jus­to meio racional, que é um ápice, no meio e aci­ma de todo desvio não razoáv­el por defi­ciên­cia ou por exces­so”, e prossegue: “não se tra­ta de prudên­cia neg­a­ti­va, que acon­sel­ha quase sem­pre a não agirnão empreen­der grandes coisas, e isso para evi­tar prob­le­mas e difi­cul­dadesEsta prudên­cia que tem por princí­pio ”nen­hum estor­vo” é a dos pusilân­imes […], que sem­pre procu­ram faz­er-se per­doar falan­do de mod­er­ação e dizen­do: “nun­ca se deve exager­ar”.  […] A sim­pli­ci­dade da pom­ba, que não é ingenuidade, e con­ser­va em silên­cio o que não se deve diz­er, mas não fala nun­ca con­tra a ver­dade” (pp. 106–110).

Resu­min­do

 

A ver­dadeira prudên­cia (Pe. TITO SANTE CENTI O.P.) é con­hecer a opor­tu­nidade de uma ação que ordene sua exe­cução, jun­to à con­stân­cia no agir segun­do o dita­me da reta razão. Por­tan­to, prudên­cia não é sinôn­i­mo de cautela e cir­cun­specção, com uma lentidão acen­tu­a­da ou com a arte de tem­po­rizar e de não com­pro­m­e­ter-se nas ocasiões perigosas. A ver­dadeira prudên­cia con­siste em reg­u­lar segun­do a razão, no lim­ite do jus­to meio, todas as vir­tudes morais. Racional­i­dade no agir, aí está a ver­dadeira prudên­cia. Esta é uma per­feição da razão, enquan­to a delib­er­ação, o juí­zo e o con­sel­ho são atos preparatórios ou prévios para a prudên­cia. Esta con­siste essen­cial­mente em pre­scrição ou ordem da razão. O dote prin­ci­pal da prudên­cia é a solic­i­tude (q. 47, a. 9) e não a lentidão ou pon­der­ação no decidir. De fato a delib­er­ação pre­cede a prudên­cia, e não é a sua natureza. “Oportet oper­ari velociter con­sil­i­a­ta” (Arist., 6 Et., c. 10, lect. 8). Há quem objete que é pre­ciso alcançar a cal­ma segu­ra da certeza abso­lu­ta para haver a per­fei­ta prudên­cia (que é uma vir­tude int­elec­tu­al). San­to Tomás responde citan­do a Aristóte­les: “não se deve bus­car em todas as coisas a certeza abso­lu­ta, mas o quan­to dis­to a natureza de cada matéria per­mite”. Ora, a matéria da prudên­cia são os sin­gu­lares con­tin­gentes. Então, a certeza da prudên­cia não pode ser tan­ta que elim­ine todo e qual­quer cuida­do (q. 47, a. 9, ad 2) e fre­quente­mente deve con­tentar-se com a certeza moral ou, até, com a sim­ples prob­a­bil­i­dade.

Estas pou­cas dicas de alguns podem ser sufi­cientes para nos faz­er com­preen­der que a vir­tude da prudên­cia não con­siste em tem­po­rizar, e em adi­ar, esperan­do com covarde astú­cia a solução dos prob­le­mas humanos, indi­vid­u­ais e soci­ais por cir­cun­stân­cias exter­nas; mas em empen­har-se cotid­i­ana­mente, com per­spicá­cia, diligên­cia e pon­tu­al­i­dade, na bus­ca de suas soluções” (Pe TITO SANTE CENTI O.P., “S. Tom­ma­so D’Aquino. La Som­ma Teo­log­i­ca”. Intro­duzione e note, Firen­ze, Salani, 1966, vol. XVI, pp. 205–217, pas­sim). Tra­ta-se, por­tan­to, de uma vir­tude suma­mente dinâmi­ca. Assim como o ani­mal é lev­a­do a agir por seu instin­to nat­ur­al, assim tam­bém é o homem por sua razão. A escol­ha ou elec­tio dos meios para nos faz­er atin­gir o fim é fei­ta por uma delib­er­ação da razão, e, assim, para con­cretizar a escol­ha, faz-se necessária a ordem ou coman­do da razão. Ora, é pro­pri­a­mente aqui que se insere a prudên­cia. Esta, por con­seguinte, é um sen­so de respon­s­abil­i­dade, de autode­cisão con­sciente e livre, que vence toda per­plex­i­dade com critério. A prudên­cia é um feixe de con­junções entre ciên­cia espec­u­la­ti­va e ação moral. O homem deve con­cretizar o juí­zo na ação con­sciente. A prudên­cia que impli­ca retidão da razão é poten­cial­iza­da sobre­nat­u­ral­mente, tam­bém quan­to ao modo de agir, pelo Dom do Con­sel­ho (q. 52, a. 2).

 

Exem­p­lo práti­co e atu­al: Mons. Williamson

Per­gun­to a Domeni­co Savi­no, no que diz respeito a Mons. Williamson e a “shoah”, usa­da – sobre­tu­do hoje – como arma de pressão con­tra a Igre­ja, para con­strangê-la a rene­gar implici­ta­mente a si mes­ma:

 • É ver­dadeira­mente impru­dente respon­der – após uma per­gun­ta explíci­ta – que segun­do his­to­ri­adores sérios, os quais con­sul­taram os doc­u­men­tos rel­a­tivos ao assun­to que se encon­tram nos arquiv­os de Moscou e vis­i­taram os cam­pos do deli­to (Auschwitz e Birke­nau), não se encon­traram provas de um plano de destru­ição total dos judeus europeus por câmaras de gás?

• É ver­dadeira imprudên­cia diz­er que se forem apre­sen­tadas provas em con­trário nós mudamos de ideia, mas se não se acres­centarem provas, fatos e doc­u­men­tos não se pode, em con­sciên­cia, diz­er o con­trário daqui­lo que se pen­sa?

• É ver­dadeira prudên­cia ou “prudên­cia da carne” (= con­sid­er­ar como fim o próprio con­for­to, q. 55, a. 1); ou “engano” (= astú­cia prat­i­ca­da com as palavras, q. 55, a. 4); ou ain­da “solic­i­tude exces­si­va” para com as coisas tem­po­rais pre­sentes ou futuras (= fal­ta de fé na div­ina providên­cia e super­es­ti­mação das coisas ter­re­nas, q. 55, aa. 6–7), obri­gar a falar da “shoah” somente em cer­to sen­ti­do, politi­ca­mente cor­re­to, e ain­da que his­tori­ca­mente não seja cer­to? Não seria, ao con­trário, “engano” (= astú­cia prat­i­ca­da com as palavras, q. 55, a. 4)?

 

Como respon­de­ria San­to Tomás?

É necessário pre­gar aos judeus sem nen­hum medo de chocá-los, assim como Jesus Cristo, sem temor de ofend­er, ensi­na­va pub­li­ca­mente a ver­dade que eles odi­avam e lhes cen­sura­va seus vícios” (S. T., III, q. 42, a. 2).

O Padre Gar­rigou-Lagrange escreveu que “a prudên­cia man­tém silên­cio sobre tudo quan­to não se deve diz­er, mas nun­ca fala con­tra a ver­dade”. Não é sequer “a arte de tem­po­rizar e de não se com­pro­m­e­ter em ocasiões perigosas”, como expli­cou Padre Cen­ti.

Tam­bém terá sido impru­dente o Doutor Comum da Igre­ja? Para Jules Isaac, sim: segun­do ele e o Cardeal Bea, os Evan­ge­lis­tas, espe­cial­mente São Mateus e São João, os Padres da Igre­ja, sobre­tu­do San­to Agostin­ho e São João Crisós­to­mo, e por­tan­to San­to Tomás de Aquino, que os resum­iu e aper­feiçoou, eram impru­dentes, se não anti­s­semi­tas. Destas pre­mis­sas nasceu Nos­tra aetate (1965) e a fal­sa teolo­gia pós-con­cil­iar da “Anti­ga Aliança nun­ca revo­ga­da”, dos “judeus irmãos mais vel­hos e predile­tos na fé” (1986). Mas, para um católi­co fiel aos ensi­na­men­tos tradi­cionais da Igre­ja, tudo isso é con­cil­iáv­el com a Fé? Pen­so que não.

A ver­dadeira prudên­cia “man­tém silên­cio sobre aqui­lo que nun­ca se deve diz­er” (por exem­p­lo, “lin­char” pub­li­ca­mente um con­frade por uma opinião não politi­ca­mente cor­re­ta) e sobre­tu­do “nun­ca fala con­tra a ver­dade”, tor­nan­do obri­gatória a vul­ga­ta exter­mi­na­cionista, que não é cien­tifi­ca­mente fun­da­men­ta­da nem com­pro­va­da pelos fatos, doc­u­men­tos e teste­munhos não con­tra­ditórios.

É líc­i­to, parar evi­tar “estor­vo”, como o foi a con­fis­cação dos bens ecle­siás­ti­cos (cf. São Pio X e a França em 1906) ou a prisão (cf. o Cardeal Joaquim Pec­ci, futuro Leão XIII, na Itália durante o Risorg­i­men­to), diz­er o con­trário do que se pen­sa? Não. É mel­hor ser mate­rial­mente pri­sioneiro e espir­i­tual­mente livre do que espir­i­tual­mente escra­vo ain­da que fisi­ca­mente “livre”. Ver­i­tas lib­er­abit vos. O “pai da men­ti­ra” é o dia­bo, e quem mente delib­er­ada­mente e leva out­ros a men­tir se tor­na fil­ho e escra­vo do dia­bo.

• Mons. Williamson agiu aber­ta­mente em oposição à prudên­cia? 1) Com “pre­cip­i­tação”, de modo irreflex­i­vo, seguin­do o estí­mu­lo da paixão ou do capri­cho (q. 53, a. 3)? 2) Com “descon­sid­er­ação”, desprezan­do o con­sid­er­ar as coisas necessárias para jul­gar reta­mente (q. 53,a. 4)? 3) Com “incon­stân­cia”, aban­do­nan­do, por motivos fúteis e facil­mente, os bons propósi­tos, sug­eri­dos pela prudên­cia (q. 53, a. 5)? 4) Com “neg­ligên­cia”, com fal­ta de solic­i­tude em ordenar efi­caz­mente aqui­lo que se deve faz­er e do modo como se deve faz­er (q. 54, aa. 1–3)?

Não me parece. Ver­dadeira prudên­cia é o jus­to meio racional, que é um ápice, no meio e aci­ma de todo e qual­quer desvio não razoáv­el. A respos­ta de Mons. Williamson foi não razoáv­el? Não me parece. E, por­tan­to, atenção para os vícios aparente­mente semel­hantes à prudên­cia. Pen­so que foi muda­da a ver­dadeira imprudên­cia em aparente prudên­cia, que é fal­sa e por­tan­to real imprudên­cia sobre­nat­ur­al. Como diz o provér­bio, “as aparên­cias enganam”.