Analogia: resposta a “Sodalitium” nº 62


Teologia / domingo, junho 14th, 2015

PADRE CURZIO NITOGLIA
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]
Vel­letri, 8 set­tem­bre 2008
http://www.doncurzionitoglia.com/ANALOGIA.htm

Intro­dução

■ O fato: Um ser­mão e uma con­fer­ên­cia

  • Depois de ter pedi­do (6 de jul­ho de 2008), pub­li­ca­mente e por escrito, uma respos­ta a redação da “Sodal­i­tium”, ref­er­ente ao n.º 62 de jun­ho de 2008, esperei em vão mais de dois meses, mas não rece­bi nen­hum feed­back. Então per­gun­to nova­mente – sin­teti­ca­mente – se Pio XII não é Papa for­mal­mente mas só mate­rial­mente. Então Ben­to XVI , não sendo Papa nem sequer “mate­ri­aliter” (segun­do P. Guérard) os “tesis­tas”, para ser coer­entes com a “Tese” devem ou con­sagrar um Papa, ou demon­strar de serem eles mes­mos “lega­dos dire­tos [rep­re­sen­tantes ten­do igual val­or do sujeito rep­re­sen­ta­do, N. Zin­garel­li] de Cristo”. Quais das duas opções vão escol­her? Devo diz­er pub­li­ca­mente ao menos, aos seus fiéis. Eles não podem fugir à questão, escreven­do a tese de Cas­si­ci­acum ain­da é a úni­ca solução para a crise de autori­dade da Igre­ja (“Sodal­i­tium”, n.° 62, p. 4).

  • Por­tan­to, devo especi­ficar, mais detal­hada­mente, que tam­bém naqui­lo que diz respeito a analo­gia entre Esta­do e Igre­ja “Sodal­i­tium” sai fora do sem­i­na­do. Em 8 de dezem­bro de 2006, fiz um ser­mão em Roma, no qual expli­ca­va os motivos que me levaram a dis­tan­ciar me do Insti­tu­to Mat­ter Bon­ni Con­sili. Dizen­do – entre out­ras coisas – que entre Esta­do e Igre­ja há uma analo­gia  e que então a questão da fal­ta de Autori­dade no Papa, dev­e­ria ser apro­fun­da­da (e mati­za­da) ana­logi­ca­mente, segun­do aqui­lo que os escolás­ti­cos (com San­to Tomás de Aquino em mente) havi­am escrito sobre o Príncipe Tira­no. Na ver­dade me pre­ocu­pavam as con­clusões jurídi­co-canôni­cas que os “tesis­tas” tiravam da “Tese de Cas­si­acum”, anu­lan­do eles “canon­i­ca­mente” todos os atos da Igre­ja ofi­cial e chegan­do, assim, a con­clusões práti­cas mas uni­ver­sais, evi­den­te­mente pri­vadas de bom sen­so e de “dire­ito”, os Romanos anti­gos diziam: “Sum­mum jus, sum­ma injuria” (a lei muito estre­i­ta, pro­duz a maior injustiça).

Uma vez que a “tese” do P. Guérard seguia, não a via do Papa heréti­co, (que foi abor­da­da por Mons. Antônio de Cas­tro May­er jun­ta­mente com Arnal­do Xavier da Sil­veira), mas uma dupla estra­da: a) Em atos mag­is­te­ri­ais do Con­cílio Vat­i­cano II (Dig­ni­tatis Humanae), no qual o Papa dev­e­ria ser infalív­el e se encon­tram erros, então Paulo VI não é Papa em ato mas só em potên­cia; b) a Autori­dade tem como fim o bem comum da sociedade. Ora se uma autori­dade põe atos obje­ti­va­mente con­trários ao bem comum da sociedade é uma tira­nia e não é mais Autori­dade. Então, Paulo VI não é for­mal­mente Papa, mas só mate­rial­mente.

A con­statação que fiz (analo­gia entre Esta­do e Igreja/Princípe e Papa) foi nega­da por um sac­er­dote “tesista”, (DR do Insti­tu­to Mater Boni Con­sili), em uma con­fer­ên­cia reg­istra­da, que acon­te­ceu em Roma em 14 de janeiro de 2007 no Oratório São Gregório VII, na Via Pietro del­la Valle. Não que­ria respon­der pub­li­ca­mente e por escrito, mas uma vez que o n.62º da “Sodal­i­tium” (jul­ho de 2008) reto­mou o argu­men­to da mes­ma for­ma incor­re­ta com a qual DR o apre­sen­tou, em janeiro de 2007, devo reti­fi­ca-lo pub­li­ca­mente.

O princí­pio: A analo­gia

1º) Entre um rei e um Papa existe “analo­gia”

Um ter­mo (por exem­p­lo, ser), se atribuí a vários sujeitos (Deus, anjo, homem, cão, pin­ho, pedra), segun­do um sig­nifi­ca­do essen­cial­mente diver­so (por exem­p­lo, Deus é o Ser per sé sub­sis­tente e infini­to; as criat­uras – do anjo até a pedra – recebem a existên­cia de um out­ro e são fini­tas). Enquan­to a semel­hança (entre os sujeitos dos quais se pred­i­ca o ser) é só rel­a­ti­va (Por exem­p­lo, Deus e as criat­uras são sim­i­lares, só rel­a­ti­va­mente ao fato de exi­s­tir).

Mas entre o rei e o Papa, tem qual­quer coisa de rel­a­ti­va­mente sim­i­lar, gov­er­nam para o bem comum que é o fim da sociedade; mas são sub­stan­cial­mente diver­sos, enquan­to o rei gov­er­na tem­po­ral­mente e o Papa espir­i­tual­mente e é infalivel­mente assis­ti­do por Deus (em cer­tas especí­fi­cas condições) nas questões de fé e de moral. Onde, rei e Papa são con­ceitos rel­a­ti­va­mente sim­i­lares (quan­to ao fato de gov­ernar) e essen­cial­mente diver­sos (quan­to ao modo de gov­er­no), um reina nas coisas tem­po­rais, o out­ro entre as coisas espir­i­tu­ais.

Assim, entre o rei e o Papa há analo­gia (não ple­na iden­ti­dade, nem total diver­si­dade), não sendo da mes­ma espé­cie (um é sobre­nat­ur­al e out­ro é nat­ur­al), mas ten­do algo em comum, gov­er­nam tan­to um como o out­ro, uma sociedade per­fei­ta em seu gênero (Esta­do e Igre­ja), ain­da que sejam de ordens (nat­ur­al e sobre­nat­ur­al) essen­cial­mente diver­sas.

Segun­do DR a analo­gia deve ser basea­da ape­nas na semel­hança (sic! Não quero acred­i­tar,  eu tive que ouvir a gravação três vezes para ser capaz de admi­tir, tão grave erro, mais o hor­ror filosó­fi­co no qual DR tropeçou) e não sobre a dissemel­hança, caso con­trário (segun­do ele) a con­clusão do raciocínio é erra­da.

Além dis­so, a analo­gia difer­ente­mente da equiv­o­ci­dade, que diz respeito só a dissemel­hança (como entre o “riso” [ndt: arroz em ital­iano] que se come e o “riso” do homem), e de uni­vo­ci­dade a qual se fun­da só a semel­hança ou iden­ti­dade (Antônio, Mar­co e João, são todos home­ns do mes­mo idên­ti­co modo); a analo­gia, como dizia, se baseia sobre semel­hança e dissemel­hança. Pre­tender falar de dissemel­hança na analo­gia, sig­nifi­ca destruí-la e come­ter um equívo­co. Se entre Deus e a pedra existe analo­gia, a maior razão para haver entre Esta­do e Igre­ja, entre o rei e o Papa, enquan­to a dissemel­hança entre uma pedra e Deus é infini­ta­mente maior do que aque­la que existe entre o rei e o Papa, o Esta­do e a Igre­ja, no entan­to existe uma cer­ta semel­hança, rel­a­ti­va­mente ou quan­to ao fato de exi­s­tir (Deus-pedra, exis­tem) e quan­to ao de ser sociedade (Igre­ja-Esta­do) ou autori­dade (Papa-rei). Está é a primeira razão que me per­mite atribuir a “Tese de Cas­si­ci­acum” como é apre­sen­ta­da por DR (=”Antítese de Ver­rua”) nen­hum val­or. Quan­to aque­la de P. Guérard, essa tem muito mais pro­fun­di­dade. Na ver­dade,

2º) Mons. Guérard des Lau­ri­ers, na entre­vista dada em maio de 1987 a “Sodal­i­tium” n.°13 e re-impres­sa em “O prob­le­ma da Autori­dade e do epis­co­pa­do na Igre­ja, CLS, Ver­rua Savoia, 2005, ensi­na (con­trari­a­mente a DR) que:

Uma das duas vias para demon­strar que Paulo VI não é for­mal­mente Papa, é aque­la que ele não tin­ha a von­tade obje­ti­va de gov­ernar para o bem da Igre­ja. “Jesus Cristo, insti­tuin­do a sua Igre­ja como uma sociedade humana visív­el. (…) Uma pes­soa… que no seio de uma sociedade, perseguisse habit­ual­mente (…) a aniquilação do bem comum (…), uma tal pes­soa então não pode ser autori­dade (…). Ago­ra, em toda sociedade, a existên­cia mes­ma da autori­dade requer ser fun­da­da sobre o propósi­to de realizar o bem comum que é o fim da sociedade” (pg. 35).

Mas, está não-von­tade de faz­er o bem da sociedade ecle­siás­ti­ca, a tor­na uma “pes­soa físi­ca que ‘ocu­pa’ ao menos aparente­mente a Sede epis­co­pal de Roma” (pg.33).

Porém, está é exata­mente a definição de tira­no. Mons. Guerárd acres­cen­ta: “ocu­pa a sede de uma maneira ilegí­ti­ma e sacríle­ga” (pg. 34). Aqui Mons. Guérard não fala do rei tem­po­ral mas do papa-tira­no espir­i­tu­al, que ocu­pa a (san­ta) Sé com “S” maiús­cu­la, mas de maneira “sacríle­ga”, porque a Sede é san­ta e é o trono espir­i­tu­al e, então, implici­ta­mente ele faz uma analo­gia entre o Papa e o rei (ain­da que se pareça afir­mar todo tira­no – do títu­lo ou do exer­cí­cio – é sem­pre ilegí­ti­mo de jure et de fac­to. Enquan­to todos os escolás­ti­cos fazem a dev­i­da dis­tinção.

Por­tan­to, para Mon. Guérard existe uma analo­gia entre o rei-tira­no e o papa-usurpador.

O mes­mo se pode diz­er para Don San­born, que no “O papa­do mate­r­i­al”, CLS, Ver­rua Savoia, 2002 (Sodal­i­tium, nº 47, 48 e 49) com razão com­para explici­ta­mente o Papa e o rei, de fato escreve: “A Autori­dade con­sid­er­a­da em con­cre­to, isto em um Papa ou um rei(pg. 38). Onde tam­bém escreve: “A Autori­dade con­sid­er­a­da conc­re­ta­mente con­s­ta de um ele­men­to for­mal e de um mate­r­i­al. O ele­men­to for­mal da autori­dade é (…) o dire­ito de leg­is­lar. Em out­ras palavras o Papa­do mes­mo. O ele­men­to mate­r­i­al (…) é o homem mes­mo que recebe este dire­ito de leg­is­lar. A autori­dade conc­re­ta, isto é o Papa ou o rei, nascem destes dois ele­men­tos” (pg. 53).

3º) Quan­to a objeção de DR segun­do a qual:

O Papa é infalív­el e o rei não, então não existe entre eles analo­gia.

Respon­do que, antes de tudo, a razão nos diz que Deus é infini­to, a pedra não, mas entre eles existe analo­gia, então tam­bém entre o rei e o Papa subiste a analo­gia, mes­mo que o Papa não seja in-fini­to mas só in-falív­el. Além dis­so, o Papa é infalivel­mente assis­ti­do, se man­i­fes­ta clara­mente sua von­tade de obri­gar a crer como rev­e­la­do (sobre pena de peca­do) naqui­lo que ele ensi­na.

 Tam­bém Mons. Guérard, escreve: “O ocu­pante da Sé apos­tóli­ca [o Cardeal Mon­ti­ni ao menos depois de 7 de dezem­bro de 1965] não é Papa for­maliter.

Então, Mons. Guérard faz uma analo­gia entre o Papa ocu­pante da San­ta Sé e o rei ocu­pante do trono, inde­pen­den­te­mente da infal­i­bil­i­dade, sendo a analo­gia uma relação entre dois sujeitos (por exem­p­lo, Papa/rei), na qual a dissemel­hança (infal­i­bil­i­dade – sobre­nat­ur­al – para o bem comum). Isso, porque acred­i­to que a “Tese de P. Guérard” foi mal apre­sen­ta­da e apli­ca­da por alguns “tesis­tas” entre os quais DR desta­ca-se, até a trans­for­má-la em uma “Antíte­si de Ver­rua”.  Na ver­dade a “Tese de Cas­si­ci­acum” é fun­da­da sobre a analo­gia, mas a “Antítese de Ver­rua” é apre­sen­ta­da em maneira “unívo­ca” por pes­soas assaz “equívo­cas” que não querem emen­dar-se, acon­tece a todos de errar, mas não se pode jus­ti­ficar, a força de sofis­mas, os próprios erros. Cer­ta­mente é difí­cil admi­tir “estou erra­do”, mas quan­do se tem evidên­cia, é necessário.

4º) O Papa é “sober­a­no em sen­ti­do espir­i­tu­al, políti­co e tem­po­ral no Esta­do do Vat­i­cano. (…) Porque a Igre­ja é uma sociedade juridica­mente per­fei­ta, que é um mem­bro da sociedade inter­na­cional, o seu Chefe é sober­a­no tam­bém em sen­ti­do inter­na­cional e políti­co” (F. Rober­ti – P. Palazz­i­ni, Dicionário de Teolo­gia moral, Roma, Studi­um, 1955, voz do “Pon­tí­fice”).

5º) Não neguei o ele­men­to sobre­nat­ur­al da Igre­ja, mas “como os Docetis­tas e os gnós­ti­cos negam a existên­cia do cor­po físi­co e real de Cristo, assim os Protes­tantes e os Pneu­ma­tol­o­gis­tas negam o ele­men­to visív­el e jurídi­co-humano da Igre­ja” (Hugo. Aemil­ius Lat­tanzi, De Eccle­sia Soci­etate atque Mys­te­rio, Roma, Pon­ti­f­i­cia Uni­ver­sità Lat­er­a­nense, 1956 (1969), p. 378). Onde “Sodal­i­tium” deve ter cuida­do para não neg­li­gen­ciar o ele­men­to humano da Igre­ja, na ver­dade o mes­mo Mons. Lat­tanzi expli­ca que “a Hier­ar­quia é o órgão ordinário da salus ani­marum. Então sem o min­istério da Hier­ar­quia o homem não entra na Igre­ja” (Ibi­dem, pg 229). E tam­bém “a Autori­dade é a causa for­mal da Igre­ja, sua essên­cia ou natureza” (ib., pg 234). San­to Tomás de Aquino ensi­na que “o Vigário de Cristo não é por nada aci­den­tal, mas per­tence a essên­cia do Cor­po Mís­ti­co” (C. Gent., IV, c. 76). Onde “A per­son­al­i­dade da Igre­ja Cor­po Mís­ti­co de Cristo, não se pode con­ce­ber sem um Chefe visív­el: São Pedro e o Papa atual­mente reinante” (H. Cleris­sac, cita­do por Lat­tanzi a p. 390). Durante o inter-reg­no que transcorre depois da morte de um Papa e a eleição de um suces­si­vo, a Igre­ja é gov­er­na­da con­jun­ta­mente pelos cardeais. Por­tan­to há uma hierárquia (mate­r­i­al e for­mal) que gov­er­na a Igre­ja “pro tem­pore”. Enquan­to no caso da “Tese de Cas­si­ci­acum” a Igre­ja não tem “por nada” a Hierárquia, a par­tir de 2005 (eleição de Ben­to XVI) e só “mate­r­i­al” de (Pio XII/João XXIII?) Paulo VI a João Paulo II. Ora o Papa é essen­cial a Igre­ja, então a fal­ta “total” de Autori­dade pon­tif­í­cia é incom­patív­el com a natureza da Igre­ja fun­da­da por Cristo sobre Pedro até ao fim do mun­do e no caso do “mate­ri­aliter papa”, teríamos uma sucessão pura­mente mate­r­i­al que é como aque­la dos cis­máti­cos, a qual não sal­va­guar­da a apos­toli­ci­dade da Igre­ja, que deve ser for­mal, é uma de suas notas e então a sua essên­cia. Em ambos os casos a Igre­ja não teria a própria natureza da Igre­ja (seria Igre­ja mas não ten­do a natureza ou a essên­cia da Igre­ja), o que é con­tra­ditório e abso­lu­ta­mente impossível:”Uma mes­ma coisa não pode ser [Igre­ja] e não ser [Igre­ja] ao mes­mo tem­po e sobre a mes­ma razão” (o princí­pio de não con­tradição). Cfr. Tam­bém D. Com­pos­ta, A Igre­ja visív­el, Roma, Tipografia Poliglot­ta Vat­i­cana, 1985, pg. 151, 440 e 441).

Um escrito

Ora, “Sodal­i­tium”, n.º 62, retoma o enun­ci­a­do oral de DR e o agra­va (si fieri potest) por escrito. Na ver­dade na pág. 26 (citan­do Pio XII) escreve jus­ta­mente: “A Igre­ja emb­o­ra ten­do em comum com a sociedade civ­il os ele­men­tos soci­ais e jurídi­cos (…), lhe é supe­ri­or pelo espíri­to sobre­nat­ur­al”. (Está é a definição de analo­gia, se com­para Igre­ja e Esta­do naqui­lo que tem “em comum” e se afir­ma a diver­si­dade que decorre entre elas, sendo a Igre­ja supe­ri­or, uma vez que é sobre­nat­ur­al, ao Esta­do). Depois na pági­na seguinte o arti­c­ulista, escreve (da sua) erronea­mente que a Igre­ja: “Não pode ser com­para­da a sociedade civ­il”.  Aqui de novo o equívo­co, negar a analo­gia, mais con­fundir o anál­o­go (semel­hança rel­a­ti­va ou com­para­ção entre Igre­ja e Esta­do, quan­to ao fato de serem sociedades per­feitas) com o unívo­co, iden­ti­dade abso­lu­ta entre Igre­ja e Esta­do, que não sub­siste e da qual nun­ca falei. O que sur­preende é a facil­i­dade com a qual se con­tradiz (“Igre­ja e Esta­do tem qual­quer coisa em comum, porém, “não podem ser com­para­das”) não só mais oral­mente em uma con­fer­ên­cia, mas entre uma pági­na e a suces­si­va, por escrito, então depois de ter “refleti­do” e cor­rigi­do. Além dis­so, na pági­na 28, nota n.º 7, citan­do Maquart (Ele­men­ta philosophi­ae), se escreve jus­ta­mente que “o anál­o­go é um pred­i­ca­do que con­vém a muitos segun­do uma razão essen­cial­mente diver­sa, todavia sim­i­lar em uma cer­ta relação”. Ago­ra como é pos­sív­el não estar ciente de con­tradiz­er-se, três vezes, no cur­so de três pági­nas? Quan­do citam os autores aprova­dos (Maquart ou Pio XII) se diz jus­ta­mente, quan­do se fala por si se erra. Pre­cisamos parar por um momen­to e refle­tir seri­amente, antes de falar e escr­ev­er, e depois calar, e abster-se e cor­ri­gir-se, na ver­dade “errar é humano, mas per­se­ver­ar é dia­bóli­co”. Então, se fos­se o caso de ignorân­cia, não se metesse “a pon­tif­icar erran­do” sobre­tu­do por escrito e pub­li­ca­mente. Nada é mais incove­niente do que a ignorân­cia pre­sunçosa e arro­gante.

O equívo­co con­tin­ua, na pg. 29 um out­ro valente arti­c­ulista escreve que a objeção [analo­gia entre Esta­do e Igre­ja] movi­da con­tra “A Tese” “imag­i­na que a mes­ma coisa este­ja acon­te­cen­do atual­mente na Igre­ja”. Não sen­hor, por definição o anál­o­go não é idên­ti­co ou mes­mo, mas sub­stan­cial­mente diver­so e só rel­a­ti­va­mente sim­i­lar. O idên­ti­co ou mes­mo é unívo­co, não anál­o­go. Há tam­bém um agra­vante de quer­er per­se­ver­ar no erro, na ver­dade em janeiro de 2007, man­dei em pri­va­do ao dire­tor da revista “Sodal­i­tium” a primeira parte deste escrito, no qual procu­ra­va explicar que na pre­gação de 8 de dezem­bro de 2006 havia feito uma analo­gia e não uma iden­ti­dade (como ele me havia feito diz­er, na sua con­fer­ên­cia de 14 de janeiro de 2007) entre Igre­ja e Esta­do, pedi uma respos­ta, pron­to a cor­ri­gir me se me tivesse sido demon­stra­do que havia erra­do em algu­ma coisa, mas ela nun­ca veio, em vez dis­so, ela per­siste por escrito um ano e meio depois, tal e qual (“per­se­ver­ar é dia­bóli­co”). O arti­c­ulista con­tin­ua afir­man­do que a objeção da analo­gia entre Papa/príncipe: “Quer diz­er, atribuir a Igre­ja sobre­nat­ur­al exata­mente aque­las coisas que per­tencem for­mal­mente a uma sociedade humana e nat­ur­al”. Não sen­hor, jamais objetei a exata(mente) iden­ti­dade entre Igre­ja e Esta­do.

  • Além dis­so, se notam diver­sas out­ras con­tradições nas quais caem a revista “Sodal­i­tium” entre uma pági­na e a seguinte, por exem­p­lo: A nova oração da Sex­ta-Feira San­ta, pro­mul­ga­da por Ben­to XVI, na pág. 57 é apre­sen­ta­da (sic et sim­pliciter) como a negação do esta­do de pri­vação da ver­dade na qual se encon­tra o judaís­mo, enquan­to na pág. 60 escreve que: “A oração de Ratzinger é ago­ra inti­t­u­la­da “Para a con­ver­são dos Judeus, como o era no Missal de 1962”. Ago­ra, se qual­quer prela­do (Kasper) procu­ra inter­pretá-la em sen­ti­do escat­ológi­co, aqui­lo que con­ta é a oração em si como foi pro­mul­ga­da por Ben­to XVI, onde no tex­to se pode encon­trar um aceno ao fim dos tem­pos (Rom. XV, 26), no títu­lo se escreve: “ore­mos [no pre­sente] pela con­ver­são dos Judeus”. Onde a inter­pre­tação des­ta oração não pode ser unívo­ca: Só escat­ológ­i­ca, (por exem­p­lo, os rabi­nos a enten­der­am com o sig­nifi­ca­do do esta­do atu­al de erro no qual se encon­tra ago­ra Israel pelo qual se pre­ga ago­ra afim de que se con­ver­ta deste. A quem obje­ta­va que a oração é só escat­ológ­i­ca rabi­no Ricar­do di Seg­ni respon­dia: “ago­ra além de ser­mos “cegos” nós hebreus ser­e­mos tam­bém “defi­cientes”), mas deve ser qual­i­fi­ca­do e sobre­tu­do deve­mos “afi­nar os vio­li­nos” dos arti­c­ulis­tas, caso con­trário da “Asso­ci­ação” deles não sai uma melo­dia, mas uma caco­fo­nia e ao con­trário do rabi­no Di Seg­ni pode­ria resul­tar além de “cegos” tam­bém “man­cos”…

  • Enfim, há alguns equívo­cos que devem ser clarea­d­os: na pag. 59, se escreve que o Missal Romano de 1962 é “sub­stan­cial­mente, tam­bém se muito imper­feita­mente o Missal Tradi­cional”. Ora se é sub­stan­cial­mente tradi­cional é sub­stan­cial­mente bom e não pode ser recu­sa­do. Mas na pag. 62, o arti­c­ulista expli­ca que o Missal de 1962 forçou‑o a aban­donar a FSSPX em 1983, uma vez que que­ria obrigá-lo a cel­e­brar com este e ele não podia aceitar. Então sig­nifi­ca que o Missal de 1962 não é nem sequer “muito imper­feita­mente” tradi­cional, mas mod­ernista e intrin­se­ca­mente mal? O autor não expli­ca sufi­cien­te­mente e deixa aber­ta a por­ta do equívo­co. A sua frase é suscetív­el de duas diver­sas inter­pre­tações. Dev­e­ria especi­ficar. Sobre­tu­do se você olha com microscó­pio as ambigu­idades dos out­ros (Mes­mo aque­la de Pio XII, tam­bém se procu­ra – incor­re­ta­mente – atribuir-lá a Bugni­ni, como fazem geral­mente os mod­ernistas para evi­tar a negação da autori­dade do Papa, a con­de­nação e per­manecerem assim na Igre­ja), caso con­trário, você corre o risco de “ver o cis­co nos olhos do out­ro e não a trave que enco­bri o seu próprio”.

A Igre­ja da qual falam os “tesis­tas” é aque­la da pura razão, fecha­da no enun­ci­a­do de um “sil­o­gis­mo imper­feito” e não aque­la real e da história.

Um últi­mo ape­lo

Faço, então, um dup­lo ape­lo:

1º) aos sac­er­dotes: Que são um pouco mais “qual­i­fi­ca­dos”, sem con­denar todos aque­les que não pen­sam exata­mente como eles; ape­nas então se poderá dis­cu­tir com eles [1].

2º) aos fiéis (que não se deixaram deslum­brar com tan­ta demon­stração de ciên­cia aparente): Se os sac­er­dotes “tesis­tas”, per­se­verassem neste espíri­to de pre­ten­sa infal­i­bil­i­dade (própria), fujam, porque “se um cego guia um out­ro cego, ambos caem no bura­co”. Fujam dos fal­sos refor­madores dos out­ros (e não de si mes­mos). Na ver­dade as con­tradições, os equívo­cos, as fal­si­fi­cações inten­cional­mente queri­das, nas quais caem com per­se­ver­ança, tor­na-os evi­den­te­mente (mas não irre­ver­sivel­mente) “guias cegos” e “man­cos”.

Vel­letri, 8 de setem­bro de 2008

[1] São Pio X, em 29 de jun­ho de 1914, no “Motu Pro­prio” (Doc­toris Angeli­ci) orde­na­va que a filosofia a qual ensi­na­va nos sem­i­nários e nas uni­ver­si­dades pon­tif­í­cias, devesse esten­der os princí­pios da filosofia de San­to Tomás e que o tex­to dos estu­dos ecle­siás­ti­cos fos­se a Suma Teológ­i­ca. Mas a per­gun­ta: “Qual a ver­dadeira dout­ri­na tomista? São pio X respon­dia que ela encon­tra­va con­den­sa­da nas XXXIV Teses do Tomis­mo, com­postas pelo P. Gui­do Mat­tius­si s. j., no inver­no de 1914 e aprova­da pela San­ta Sé em 27 de jul­ho de 1914. A Sagra­da Con­gre­gação dos Estu­dos e dos Sem­i­nários (fevereiro 1916) define as XXIV Teses “regras seguras (tutae) de direção int­elec­tu­al. O Papa Ben­to XV aprova­va (7 de março de 1916) a decisão da Sagra­da Con­gre­gação dos Estu­dos e orde­nou (em 1922) ao Eduar­do Hugon o. p. a faz­er um comen­tário em francês as XXIV Teses de Mat­tius­si (que já a tin­ha comen­ta­do em ital­iano). Papa Gia­co­mo Dal­la Chiesa a prop­un­ha como “dout­ri­na preferi­da pela Igre­ja, mas não impôs obri­ga­to­ri­a­mente seu assen­ti­men­to inter­no”. (Cfr. p. R. Gar­rigou-Lagrange o. p. , Les 24 thès­es th., in “Angelicum”,Roma, 1945 e in La Syn­thèse Thomiste, Paris, 1950. Padre T. S. Cen­ti o. p. , La Som­ma Teo­log­i­ca. Intro­duzione gen­erale, Firen­ze, 1950). Ora se as XXIV Teses são tut­tae (cer­tas ou seguras), a filosofia suareziana ou aque­la sco­tista são não cer­tas e nem seguras, mas a San­ta Sé não proibiu seu ensi­no, mais mostrou sua própria prefer­ên­cia pela filosofia tomista. Naqui­lo que diz respeito a difer­ença entre Suarezis­mo e Tomis­mo, cfr. p.Cornelio Fab­ro, Neotomis­mo e Suarezis­mo, (1941), EDIVI, Seg­ni, 2005. O filó­so­fo demon­stra com­para­n­do as duas filosofias que entre elas se tem uma oposição de con­tradição. Então ou é ver­dadeira uma ou a out­ra. Mas a Igre­ja ten­do qual­i­fi­ca­do como cer­to o Tomis­mo deixa livre o Suarezis­mo.

Ago­ra não se pode acusar São Pio X e Ben­to XV de serem rel­a­tivis­tas, mas eles sabi­am dis­tin­guir e qual­i­ficar para unir, sem con­fundir.

Me parece que a mes­ma ati­tude dev­e­ria ani­mar, sobre o prob­le­ma da fal­ta (material/formal) ou ao menos de Autori­dade na Igre­ja, os sac­er­dotes católi­cos lig­a­dos a dout­ri­na tradi­cional da Igre­ja. Sem dev­er gri­tar ao rel­a­tivis­mo ou ao lib­er­al­is­mo.

Link para a pági­na em ital­iano: http://www.doncurzionitoglia.com/ANALOGIA.htm