P. CURZIO NITOGLIA: UMA HIPÓTESE DE VELLETRI


Teologia / domingo, junho 14th, 2015

Padre Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Em questões teológ­i­cas difí­ceis e não definidas, deve se dar o próprio pare­cer com humil­dade e paz, con­for­man­do-se a instrução e a capaci­dade do ouvinte, insistin­do mais na práti­ca da Igre­ja, exor­tan­do a seguir o bom cos­tume; ao invés de deixar-se envolver na con­tro­vér­sia para a qual não existe con­clusão cer­ta e que são em segui­da perigosas para quem as expli­ca [abu­so de poder, orgul­ho espir­i­tu­al e int­elec­tu­al] e para quem escu­ta [se não existe capaci­dade e preparação para com­preen­der e colo­car em práti­ca cor­re­ta­mente]. (S. Iná­cio de Loy­ola, Obras Com­ple­tas, Madrid, Barc., 1992, pg 289–290)”.

Intro­dução

Depois de ter 1°) lev­an­ta­do três objeções (6 de jul­ho de 2008) que inval­i­dam (cer­ta­mente a par­tir de 2005, data da eleição de Ben­to XVI) a “Tese de Cas­si­ci­acum” estando aqui­lo que tin­ha escrito de acor­do com o seu próprio ide­al­izador (P. Guérard des Lau­ri­ers); 2°) respon­der a “Sodal­i­tium” nº 62 sobre a analo­gia entre Esta­do e Igre­ja (8 de dezem­bro de 2008); 3º) Aqui cheg­amos ao pon­to cru­cial: como resolver o prob­le­ma da crise na Igre­ja do Con­cílio Vat­i­cano II até hoje? A respos­ta não é sim­ples, porque se encon­tra diante de um “mis­tério de iniq­uidade” que “feriu o Pas­tor e dis­per­sou o reban­ho”. O fato é cer­to, mas o como e o por que me ultra­pas­sam; pos­so só ten­tar bal­bu­ciar qual­quer coisa, uma hipótese no claro obscuro da fé com a aju­da da lóg­i­ca e da sã teolo­gia e da história ecle­siás­ti­ca, sem pre­ten­são algu­ma de ter enten­di­do tudo per­feita­mente e de poder ilu­mi­nar e diri­gir a todos a cul­pa da acusação de “sac­rilé­gio, cis­ma cap­i­tal e defecção irre­ver­sív­el”. Tudo o que sei é, como disse Romano Amério, que a Igre­ja encon­trará o cam­in­ho de saí­da de toda sua “crise” a par­tir do “grande rio da ver­dade e graça que rece­beu – inin­ter­rup­ta­mente até o fim do mun­do – de Cristo e que essa man­tém no cur­so dos sécu­los, ain­da que escon­di­da­mente – como um rio sub­ter­râ­neo – em épocas de trevas”.

Sobre a questão do Papa, que erra onde dev­e­ria ser infalív­el, ou da Autori­dade, que não tem a intenção obje­ti­va de faz­er o bem da sociedade, poden­do dar se só uma hipótese ou opinião prováv­el e não uma tese cer­ta, não é licí­to tomar uma posição deter­mi­na­da, procu­ran­do de impor-la abso­lu­ta­mente. Ora, “Tese” sig­nifi­ca “tomar uma posição deter­mi­na­da, estáv­el e cer­ta”, enquan­to “Hipótese”, quer diz­er “abaixo (hypo)-tesi”, ou “suposição, con­jec­tura para explicar fatos dos quais não se tem per­feito con­hec­i­men­to ou certeza” (N. Zin­garel­li). A min­ha quer ser somente uma “hipótese” e não uma “Tese”. [1]

O prob­le­ma: a “crise na Igre­ja”

Aqui­lo que me é claro na crise atu­al, prati­ca­mente, se deve con­tin­uar a faz­er aqui­lo que a Igre­ja sem­pre fez sem aven­tu­rar-se em novi­dades espec­u­la­ti­vas e con­clusões práti­cas as quais pode­ri­am ser perigosas, nem pre­tender pos­suir a evidên­cia como estão real­mente as coisas, como se não fos­sem cal­adas as trevas, (sed “tene­brae fac­tae sunt”)

São Vicente de Lérins no Com­mon­i­to­ri­um (cap. III) ensi­na que. em tem­po de crise, quan­do o erro se expande o sufi­ciente para invadir quase toda a Igre­ja (a qual per­manece para sem­pre “Igre­ja fun­da­da sobre Pedro” como Cristo a quis, e isto é rep­uta­do pos­sív­el pelo san­to, sem dev­er falar nec­es­sari­a­mente de “sé vacante”), deve­mos per­manecer firmes e nos sub­me­ter­mos aqui­lo que a Igre­ja sem­pre ensi­nou e fez, evi­tan­do toda mudança e novi­dade (seja de “dire­i­ta” ou seja de “esquer­da”). O san­to não inci­ta a procla­mação da vacân­cia de autori­dade na “quase total­i­dade da Igre­ja” e nem sequer um aggior­na­men­to; mas sim­ples­mente a “faz­er aqui­lo que sem­pre foi feito”, sem pre­tender poder enten­der tudo. Pon­to e bas­ta. Isto é cer­to. As inter­pre­tações de tais crises podem ser múlti­plas e diver­sas, a condição de: a) não ser con­trária a fé ou a reta razão; b) não pre­tender ser “infalív­el” ou “abso­lu­ta­mente cer­to” e vin­cu­lante sobre pena de peca­do grave, quan­do não se pos­suí a autori­dade necessária para pode-lo faz­er.

A par­tir de Paulo VI até a João Paulo II (e infe­liz­mente se con­tin­ua com Ben­to XVI, tam­bém se “há vida, há esper­ança sobre­nat­ur­al”, mas não ilusão ou pre­sunção e muito menos deses­per­ação como se o “braço de Deus tivesse encur­ta­do”) assis­ti­mos ao fato (e “con­tra os fatos não exis­tem argu­men­tos que val­ham”) de “Gov­er­nantes espir­i­tu­ais”, os quais usam mal o próprio poder. Gov­er­nam de fato, tem o Títu­lo de Autori­dade (ou são Gov­er­nantes de jure), mas o Exer­cí­cio des­ta deixa per­plex­i­dade (como por exem­p­lo um engen­heiro pode pro­je­tar pontes de fato, mais ter o títu­lo ou licen­ciatu­ra de engen­heiro, mas o exer­cí­cio da sua engen­haria deixa insat­is­fação, se algu­mas de suas pontes entram em colap­so). Este exer­cí­cio defi­ciente da Autori­dade já ocor­reu no cur­so da história da Igre­ja, ain­da que não do mes­mo idên­ti­co modo, mas só analoga­mente e de for­ma menos grave. Na ver­dade, hoje esta­mos diante de três Papas (que entraram para a história, des­de que tiver­am seus pon­tif­i­ca­dos “defin­i­ti­va­mente” ter­mi­na­dos com suas mortes e sobre os quais se pode dar um juí­zo históri­co “defin­i­ti­vo”; enquan­to sobre Ben­to XVI o juí­zo pode ser avança­do, mas sem­pre deixan­do aber­ta a por­ta de uma “con­ver­são” a qual é impos­sív­el só aos dana­dos. Por­tan­to asserir que a con­ver­são de J. Ratzinger não é pos­sív­el, sig­nifi­ca negar, prati­ca­mente, a onipotên­cia div­ina) que ensi­naram (“pas­toral­mente”, sem quer­er empre­gar a infal­i­bil­i­dade) coisas con­trárias a dout­ri­na tradi­cional da Igre­ja.

No pas­sa­do, para dar um exem­p­lo, Alexan­dre VI (antes de ser Papa) com­prou (simo­ni­a­ca­mente) a eleição pon­tif­í­cia [2]. Ora o simonía­co, como ensi­na San­to Tomás:

venden­do ou com­pran­do coisas espir­i­tu­ais, fal­ta com o respeito a Deus e comete um peca­do de irre­li­giosi­dade” (S. Th. II-II, q. 100, a. 1, in cor­pore). A irre­li­giosi­dade é um protesto de incredul­i­dade, razão porque a simo­nia é con­sid­er­a­da uma “here­sia” (ad 1um). Savonaro­la, na sua polêmi­ca com Alexan­dre VI, parece ter extrema­do o pen­sa­men­to do Angéli­co fazen­do ele diz­er que o simonía­co, des­de que com­pra coisas sacras, não acred­i­ta no sacro enquan­to sacro, é ateu e não cristã. Então não pode ser o chefe do cris­tian­is­mo [Ndt: não pode ser cabeça da Igre­ja aque­le que, por here­sia, nem sequer per­tence a seu cor­po].

San­to Tomás, ao invés, com muito equi­líbrio e sen­so das dis­tinções, escreve que: “O Papa pode incor­rer no peca­do de simo­nia, como qual­quer out­ro homem” (ad 7um). Note se bem que não é uma questão de vida moral pri­va­da, mas de vida públi­ca (“fal­ta de fé” ou incredul­i­dade, de que é von­tade públi­ca e obje­ti­va (finis oper­an­tis) de não cuidar o “bem-fim” espir­i­tu­al da Igre­ja, fato mes­mo de here­sia (“a simo­nia é con­sid­er­a­da here­sia” [“simo­nia haretis dic­i­tur”] S. Th., II-II, q. 100, a. 1, ad 1um). Porém, ape­sar dis­to, San­to Tomás e a Igre­ja con­sid­er­am o simonía­co Papa em potên­cia e em ato, não o declar­am “ocu­pante abu­si­vo” (hoje se diria “squat­ter”) do Sólio Pon­tif­í­cio. Os Domeni­canos ital­ianos comen­tam a pas­sagem da Suma Teológ­i­ca: “Seria impos­sív­el defend­er cer­tos Sumo Pon­tí­fices de uma tal acusação [de simo­nia]” (A Suma Teológ­i­ca, Flo­rença, Salani, 1967, vol. XVIII, pg. 397, nota 1). Mais São Pio X na Con­sti­tu­ição Apos­tóli­ca “Vacante Sede Apos­toli­ca” de 25 de dezem­bro de 1904, no nº 79, dis­põem que “o even­tu­al acor­do simonía­co que viesse a ser feito em torno da eleição do Papa não com­por­ta a sua nul­i­dade” (cfr. F Roberti‑P. Palazz­i­ni, Dizionario di Teolo­gia Morale, Roma, Studi­um, 4a ed., 1968, 1 vol., p. 361). É pos­sív­el, me per­gun­to e digo, que San­to Tomás de Aquino e tam­bém São Pio X hou­vessem erra­do? Talvez não era Papa nem mes­mo o Sar­to? Na ver­dade a “Con­sti­tu­ição Apos­tóli­ca” é uma Car­ta envi­a­da pelo Papa de própria ini­cia­ti­va, em matéria dog­máti­ca ou dis­ci­pli­nar; essa, nor­mal­mente se vin­cu­la dog­mati­ca­mente ou tem val­or jurídi­co uni­ver­sal (como neste caso), é assis­ti­da pela infal­i­bil­i­dade (cfr.F. Roberti‑P. Palazz­i­ni, Dizionario di Teolo­gia Morale, Roma, Studi­um, 4a ed., 1968, 1° vol., p. 146). Tam­bém a pres­ti­giosa enci­clopé­dia cat­toli­ca (Cit­tà del Vat­i­cano, 1950, vol. IV, coll. 779–780) con­fir­ma o val­or infalív­el de uma Con­sti­tu­ição pon­tif­í­cia ou apos­tóli­ca dis­ci­pli­nar de caráter uni­ver­sal, escreven­do que as Con­sti­tu­ições Apos­tóli­cas ou pon­tif­í­cias: “São atos solenes do Romano Pon­tí­fice nos quais vêem tratadas graves prob­le­mas que dizem respeito a dout­ri­na e a dis­ci­plina (…). Ess­es são os atos leg­isla­tivos mais solenes na for­ma e mais impor­tantes no con­teú­do, que o Sumo Pon­tí­fice emana motu pro­prio e dire­ta­mente, com eficá­cia de lei ger­al (…). Nor­mal­mente dizem respeito a definições e decisões acer­ca da fé ou a dis­ci­plina ger­al da Igre­ja (…). Se dis­tinguem clara­mente dos out­ros atos leg­isla­tivos pon­tif­í­cios que se ref­er­em a provi­men­tos de menor importân­cia e de caráter par­tic­u­lar (Motu pro­prio, quirogra­faria, etc.)”.

A Igre­ja con­sta­tou que de fato Alexan­dre VI depois da eleição gov­ernou (emb­o­ra se pouco dig­na­mente quan­to ao exer­cí­cio, pen­san­do muito nos assun­tos tem­po­rais de sua família e pouco no bem espir­i­tu­al da Igre­ja e tam­bém isto não é um fato de vida pri­va­da, mas índice obje­ti­vo da von­tade de neg­li­gen­ciar a procu­ra do bem sobre­nat­ur­al das almas, “supre­ma lex Eccle­si­ae”). A Igre­ja o recon­heceu como legí­ti­mo pas­tor, ain­da que qua­tro cardeais e três reis (de França, Espan­ha e Ale­man­ha) quisessem reunir um Con­cílio (imper­feito) que depusesse Alexan­dre VI enquan­to (ante elec­tionem) simonía­co e não cristão, então inca­paz de ser o chefe do cris­tian­is­mo e (post elec­tionem) não gov­er­nante espir­i­tu­al, mas só tem­po­ral da Igre­ja. Era lic­i­to colo­car-se o prob­le­ma teóri­co sobre a legit­im­i­dade do Bór­gia, mas seu pedi­do foi prati­ca­mente descar­ta­do por todos os out­ros Cardeais e Bis­pos (e depois teori­ca­mente por São Pio X com uma lei ou Con­sti­tu­ição Apos­tóli­ca uni­ver­sal), porque um cis­ma e vários antipa­pas havi­am cau­sa­do mais dano que os Bór­gia. Assim pode­ria ser (analoga­mente) quan­to ao NOM de Paulo VI, esse é noci­vo, para ab-rog­ar ou cor­ri­gir sub­stan­cial­mente (como explicaram e pedi­ram os Cardeais Otta­viani e Bac­ci ao mes­mo Paulo VI em 1970), mas a Igre­ja (Otta­viani e Bac­ci incluin­do até Mons. Lefeb­vre e De Cas­tro May­er, os dois Bis­pos com juris­dição que com­bat­er­am até o fim a novi­dade do “Con­cílio Pas­toral”) se con­tentaram de con­statar que de fato Paulo VI gov­ernou, seu dev­i­do Títu­lo de Autori­dade (ou é Papa de jure), ain­da que o Exer­cí­cio práti­co des­ta ten­ha sido cat­a­stró­fi­co eles procu­raram colo­car remé­dio “cobrindo a nudez de seu Pai”.

Quan­do Padre Saenz y arria­ga no fim do Con­cílio expres­sou a sua opinião “sede­va­can­tista” e per­gun­tou aos Cardeais Otta­viani, Bac­ci, Par­ente, Siri, Palazz­i­ni – reunidos em um con­gres­so da “Chiesa Viva” em Brés­cia – declarar que Paulo VI não era Papa, emb­o­ra desaprovan­do o com­por­ta­men­to e as idéias mon­tini­anas, estes respon­der­am unanime­mente que não. Pen­sar que qua­tro Padres e uma cen­te­na de fiéis pos­sam ter êxi­to sem pro­duzir colap­so onde se abstiver­am os sus­ci­ta­dos cardeais e bis­pos (e São Pio X), me parece uma ilusão. Se – admi­to e não con­ce­do – Papa Bór­gia (/Montini), fos­se depos­to por um Con­cílio imper­feito ou por Cardeais, que pudessem provar com certeza abso­lu­ta, diante de toda a Igre­ja e aos fiéis, que Alexan­dre VI (/Paulo) VI esta­va real­mente depos­to, não era mais real­mente Papa? Quan­ta per­plex­i­dade, con­fusões e cis­mas, não teri­am nasci­do? Quan­tos “papas” teria a pre­ten­são de ser o ver­dadeiro e úni­co Papa? Alguns Cardeais e Bis­pos teri­am fica­do ao lado de Tizio, out­ros com Caio e out­ros ain­da (e seria a maio­r­ia) per­manece­ri­am com Alexan­dre (/Paulo) VI. Seria recomeça­do um out­ro grande cis­ma (como o Avin­hones), pior que o simonía­co pon­tif­i­ca­do do Bór­gia (é aqui­lo que sucedeu depois de 1969–70, com o nome “sede­va­can­tista” de um anti-papa a Pal­mar de Troya na Espan­ha, de for­ma menos grave e mais ridícu­la). A úni­ca certeza que a situ­ação pos­te­ri­or ao Papa Bór­gia (/Montini) seria pior que a do pon­tif­i­ca­do simo­ni­a­ca­mente com­pra­do, mas depois real­mente exerci­ta­do, ain­da que se espir­i­tual­mente não bem, de Alexan­dre VI e então segun­do o ensi­na­men­to de San­to Tomás,  se dev­e­ria con­tentar com o (ale­ga­do e ini­cial­mente) “tira­no” ou mau gov­er­nante (espir­i­tu­al) mais que depor-lo para ficar pior ain­da. Alexan­dre VI é con­ta­do na Igre­ja hierárquica, entre os Papas. Ele, emb­o­ra ten­to (ao menos antes da eleição) peca­do por “irre­li­giosi­dade” (enquan­to real­mente e ver­dadeira­mente simonía­co) e não queren­do agir de for­ma mel­hor (depois da eleição) para o bem espir­i­tu­al da Igre­ja como sociedade sobre­nat­ur­al, todavia gov­ernou de fato foi seu chefe visív­el de jure (Títu­lo), ain­da se maior­mente como príncipe tem­po­ral do que como pon­tí­fice espir­i­tu­al (Exer­cí­cio). A Igre­ja teve em con­sid­er­ação (ao menos até 1904) somente a real­i­dade dos fatos e depois com São Pio X ain­da a pos­si­bil­i­dade teóri­ca da eleição pon­tif­í­cia com­pra­da simo­ni­a­ca­mente (equipara­da a here­sia, por San­to Tomás) e a leg­is­lou, em uma Con­sti­tu­ição apos­tóli­ca para a Igre­ja uni­ver­sal e então infalív­el, que essa seria ain­da vál­i­da. Assim, no sécu­lo de fer­ro (X Séc.) ou na Renascença, quan­tos Papas não quis­er­am, prin­ci­pal­mente e obje­ti­va­mente jul­gar as ações real­izadas (finis operis), o bem espir­i­tu­al da Igre­ja mas quis­er­am, sobre­tu­do, o próprio proveito tem­po­ral e aque­le da própria facção ou família? Estes Papas, de fac­to governaram-(mal) espir­i­tual­mente a Igre­ja (é uma certeza históri­ca e um fato dog­máti­co), mas prati­ca­mente exerci­taram ou tiver­am o gov­er­no e o poder pon­tif­í­cio (de fac­to et de jure), canon­i­ca­mente recon­heci­do com São Pio X.

Alguns exem­p­los tira­dos da história

O poder civ­il inter­viu muitas vezes na eleição dos Papas (até São Pio X, com o veto da Áus­tria con­tra o Cardeal Mar­i­ano Ram­pol­la), nem sem­pre para o bem da Igre­ja (ou salus ani­marum), mas muitas vezes para impor seus can­didatos, os quais ape­sar dis­to são con­sid­er­a­dos – se hou­ver eleição canôni­ca legí­ti­ma – ver­dadeiros Papas. (cfr. Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca, vol. IX, col. 754, voce “Papa”).

O imper­ador Con­stân­cio, man­dou para o exílio, o Papa Libério (+24.IX.366) e nomeou o antipa­pa Felix II em 355, mas quan­do Libério retor­na do exílio a Roma o povo e o clero romano caçam Félix II (365), que, não ten­do sido eleito canon­i­ca­mente, não é con­ta­do pela Igre­ja, no catál­o­go ofi­cial dos Papas.

O imper­ador Teodori­co, em 526, emb­o­ra mori­bun­do, desig­nou como Papa Félix IV (12.VII.526 – 22.IX.530). O clero e o povo romano, ape­sar da eleição a‑canônica e então (provavel­mente, para aque­les tem­pos) invál­i­da de Félix IV, por causa das suas vir­tudes (está inscrito entre os San­tos) o recon­hecem e a sua eleição se tor­na, somente assim, canon­i­ca­mente legí­ti­ma e Félix ver­dadeira­mente Papa.

O gen­er­al bizan­ti­no Belisário, durante a cam­pan­ha na Itália con­tra os Godos, entrou em Roma, depôs em nome do imper­ador Jus­tini­ano, de for­ma anti-canôni­ca, Papa Sil­vério (1. VII. 526 — 11. XI. 537). Teodo­ra, mul­her de Jus­tini­ano, acu­sou fal­sa­mente Sil­vério de alta traição (con­tra Bizân­cio) a favor dos Godos. Belisário con­vo­cou o Papa Sil­vério e o degradou das insíg­nias pon­tif­i­cais, o depôs do trono e o exilou na Lícia. Belisário fez eleger de for­ma não canon­i­ca­mente legí­ti­ma Virgílio (29. III. 537) que é con­sid­er­a­do (por oito meses, de março a novem­bro de 537) Papa ilegí­ti­mo, até quan­to se tor­na ver­dadeiro Papa somente graças a renún­cia de Sil­vério (11. XI. 537) e ao recon­hec­i­men­to, ou eleição canôni­ca legí­ti­ma, da parte do clero e povo romano.

Enfim o imper­ador Otto I con­vo­cou um con­cílio imper­feito na basíli­ca de São Pedro e depôs João XII (16.XII. 955 – 14.V. 964), que foi eleito ape­nas com 18 anos mas de for­ma canon­i­ca­mente legí­ti­ma e o sub­sti­tu­iu, anti-canon­i­ca­mente e sem a aceitação do clero romano, por Leão III (4.XII.963), que é con­sid­er­a­do por­tan­to, pela Igre­ja, antipa­pa.

A dout­ri­na e a práti­ca da Igre­ja católi­ca é clara a este respeito: somente depois da eleição canôni­ca, se o eleito acei­ta é ime­di­ata­mente investi­do de todo o poder pon­tif­í­cio (cfr. Hugo Aemil­ius Lat­tanzi, De Eccle­sia Soci­etate atque Mys­te­rio, Roma, Pon­ti­f­i­cia Uni­ver­sità Lat­er­a­nense, (1956) 1969, p. 245: «Pelo fato mes­mo  que è legit­i­ma­mente eleito e acei­ta a sua eleição, in locum Petri suc­ced­it». Cfr. anche P. Palazz­i­ni [a cura di], Dic­tio­nar­i­um morale et canon­icum, Roma, Offi­ci­um Lib­ri Catholi­ci, 1966, I vol. , voce “Con­clave” e III vol., voce “Papa seu Romanus Pon­tif­ex”).

A Autori­dade é a essên­cia da sociedade e então da Igre­ja. O Papa não é aci­den­tal mas essen­cial para a sub­sistên­cia da Igre­ja (cfr. san­Tom­ma­so d’Aquino, C. Gent., IV, c. 76). Sem um Papa que reine em ato não subiste o Cor­po Mís­ti­co. Afir­mar (como fazem os “tesis­tas”) que os cardeais “con­cil­iares” elegem ape­nas e real­mente, mas não leg­is­lam, des­de que faz­er leis é a natureza da Autori­dade, onde os cardeais “con­cil­iares”, emb­o­ra não ten­do autori­dade for­mal, podem val­i­dade escol­her um Papa, o qual é eleito val­i­da­mente mas não leg­is­la porque não é Autori­dade em ato ou for­mal­mente; sig­nifi­ca adi­ar mas não resolver o prob­le­ma, uma vez que a Autori­dade é a essên­cia da Igre­ja.  Onde a Igre­ja seria ain­da Igre­ja mas sem ter a essên­cia ou a natureza da Igre­ja, o que repugna abso­lu­ta­mente sendo con­tra­ditório; como se a madeira fos­se – ao mes­mo tem­po e sobre a mes­ma relação – madeira e não madeira. Os cardeais elegem val­i­da­mente qual­quer um que não é a Autori­dade, mas isto seria anar­quia práti­ca e vivi­da.

Na ver­dade, que coisa elegem a faz­er? Agem talvez no vázio? Sem algum fim? Ora omne agens agit propter finem e natu­ra abhor­ret a vac­uo. Tudo isto seria pior, mes­mo que a democ­ra­cia mod­er­na, onde os cidadãos são chama­dos a votar em alguém que, em segui­da, uma vez eleito, gov­ernará com autori­dade e não para exerci­tar a anar­quia práti­ca. Imag­ine se dis­ser­mos aos cidadãos (os quais cer­ta­mente não estão a altura dos cardeais, com todos os defeitos que podem ter os cardeais con­cil­iares e não) antes da eleição, que os dep­uta­dos eleitores não teri­am algum poder de gov­er­na e leg­is­lar, eles mes­mos (não ten­do estu­da, Deo gra­tias, a “Tese” e sendo ain­da anco­ra­dos na real­i­dade) enten­de­ri­am a absur­di­dade, a con­tra­di­to­riedade de tal teo­ria e a inutil­i­dade do seu poder de votar val­i­da­mente em um dep­uta­do iná­bil a gov­ernar (con­trad­dic­tio in ter­min­is), o que equiv­a­le­ria faz­er-los agir no vácuo e sem um fim, quod repug­nat.

Se até 2005 se podia respon­der que os cardeais ele­giam um “Papa” só em potên­cia ou mate­ri­aliter, esperan­do que pas­sasse ao ato e se tor­nasse Papa for­maliter; [3] depois da eleição de Ben­to XVI não é mais assim, é ces­sa­da tam­bém a potên­cia e se pre­cip­i­ta­do no nada. Ora ex nihi­lo nihil fit. Então des­de 2005 a Antítese de Ver­rua se auto-“aniquilou”, é um “nada”  e por­tan­to omn­i­mo­do repug­nat.

Então, admi­to que pos­samos ter dúvi­das sobre a legit­im­i­dade de um Papa, uma vez que foi canon­i­ca­mente eleito e que se é con­stata­do ter gov­er­na­do de fac­to, ele é recon­heci­do Papa legí­ti­mo tam­bém de jure quan­to ao Títu­lo, ain­da que o Exer­cí­cio da autori­dade pode ser defi­ciente. A Igre­ja é uma sociedade visív­el, de origem div­ina, mas for­ma­da por home­ns “defi­cientes”; a vis­i­bil­i­dade, a certeza de gov­er­no e do Pon­tí­fice reinante, são de fun­da­men­tal importân­cia para a sua sobre­vivên­cia e con­tinuidade apos­tóli­ca. Essa tem um ele­men­to divi­no e um humano (não é carte­siana); fixar a atenção em um só deles leva a con­se­quên­cias grave­mente errôneas. O Gov­er­nante é a cabeça de um cor­po (sociedade), é o princí­pio de unidade do cor­po mes­mo (como o cére­bro no cor­po humano). Ora, como o cor­po morre sem cére­bro, assim a sociedade (humana ou ecle­siás­ti­ca) não pode sub­si­s­tir sem o chefe. Emb­o­ra o eletro-ence­fá­lo-gra­ma fra­co ou até mes­mo “plano”, até que “pulse” o “fun­do” do cére­bro, o cor­po vive mate­ri­aliter, quan­do o cére­bro para total­mente de fun­cionar, jun­to ao bati­men­to cardía­co e a res­pi­ração, então e só então, o cor­po morre real­mente e for­maliter.

Uma Igre­ja sem Papa, Cardeais e Bis­pos (“sede­va­can­tismo”), é mor­ta total­iter. O caso de inter­reg­no entre um Papa mor­to e um “eli­gen­do” (“sede­va­cante”) é difer­ente, já que os cardeais (cole­gial­mente “sobre” o cardeal decano) gov­er­nam com autori­dade a Igre­ja, a qual tem um Papa mor­to e um ain­da não eleito, e asse­gu­ram a unidade, a per­manên­cia da vida em si e da sua vis­i­bil­i­dade, e não se limi­tam (como querem os “tesis­tas”) a serem “só eleitores”[4] . Ora, hoje, depois de cinqüen­ta anos de pri­vação de um papa, cardeais e bis­pos (ao menos for­mais), onde está a Igre­ja? Seria um cadáver. Mas isto é impos­sív­el. Nem vale o argu­men­to da sucessão só mate­r­i­al, que não asse­gu­ra a apos­toli­ci­dade legí­ti­ma da Igre­ja. Ago­ra com Ben­to XVI não tem mais nem mes­mo o “mate­ri­aliter”. Então a “Tese” não se sus­ten­ta. Na ver­dade, a apos­toli­ci­dade se divide em:

  1. a) “mate­r­i­al” (ou de origem) e é a sucessão (quan­do ao poder de ordem) inin­ter­rup­ta dos Após­to­los,
  2. b) “for­mal” (ou iden­ti­dade de min­istério e de regime monárquico, isto é poder de ordem mais manda­to apos­tóli­co do suces­sor de Pedro).

Ora, a sucessão é legí­ti­ma só se é tam­bém for­mal, que é aprova­da do Papa (cfr. Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca, Cit­tà del Vat­i­cano, 1948, vol. I, voce “Apos­tolic­ità”). Aque­la pura­mente mate­r­i­al é vál­i­da quan­to a ordem, mas grave­mente ilíci­ta e então não é ver­dadeira e real apos­toli­ci­dade, como aque­la dos “orto­dox­os” cis­máti­cos.

Tam­bém o Cardeal G. Siri, escrevia que “a sucessão apos­tóli­ca é legí­ti­ma só se vem de Pedro e seus suces­sores” (A Igre­ja. Rev­e­lação trans­mi­ti­da, Roma, Studi­um, 1965, pg 193). Onde, se vem só dos Bis­pos, não é legí­ti­ma.

Os lim­ites do dire­ito pos­i­ti­vo

A lei humana (tam­bém ecle­siás­ti­ca) não pode impedir todos os vícios, mas só os mais graves (ou seja, espe­cial­mente aque­les ameaçam a con­ser­vação, a ordem e a paz da sociedade; como tam­bém só aque­las que a maior parte dos home­ns pode evi­tar). Assim a lei humana pode per­mi­tir, tol­er­ar ou não impedir[5] (sem com isso quer­er ou aprovar) um mal menor, para evi­tar revoltas soci­ais e maus maiores. Como a Providên­cia div­ina per­mite os males para desen­har um bem maior, assim o gov­er­nante sábio e pru­dente tol­era alguns males para o fim da ordem supre­ma ou paz social[6] (fim da sociedade). Por exem­p­lo São Pio V – que não era nem “lib­er­al” nem “fanáti­co” – tol­er­a­va em Roma “casas de tol­erân­cias” (segun­do a dout­ri­na tomista, De regimine Prin­cipum, IV, 14:”A mul­her públi­ca esta na sociedade como a cloa­ca no palá­cio. Tira a cloa­ca e o palá­cio será infes­ta­do…”) para evi­tar um mal maior: “adultério com mul­heres não públi­cas e a ruí­na das famílias, homos­sex­u­al­i­dade, escân­da­los em vias públi­cas” (cfr. S. Th. II-II, q. 10, a. 11). Onde pode ocor­rer de dev­er-se con­tentar com o menos bom, o imper­feito, na fal­ta do mel­hor, para evi­tar o pior, quan­do o mel­hor é inimi­go do bom.

O pru­dente leg­is­lador (difer­ente­mente do fanáti­co, “fariseu/calvinista” a “dire­i­ta” ou “liberal/jacobino” a “esquer­da”) não pre­tende nun­ca con­duzir todos os home­ns ime­di­ata­mente a vir­tude, mas só gradualmente[7] (natu­ra non fac­it saltus. Nemo repente fit opti­mus vel pes­simus). Hoje, não se pode pre­tender que em um dia se resolvam todos os prob­le­mas que agi­tam a cri­stan­dade a quarenta anos (NOM e Vat­i­cano II). Então é pre­ciso asse­gu­rar um mín­i­mo indis­pen­sáv­el de ordem, que torne pos­sív­el a con­vivên­cia humana, evi­tan­do o caos anárquico, seguin­do o princí­pio do menor dano a tol­er­ar (e não da von­tade e faz­er pos­i­ti­va­mente), para favore­cer a paz (que é a “tran­quil­i­dade na ordem”) da maior parte da sociedade. A prudên­cia de quem gov­er­na é a arte do pos­sív­el (por exem­p­lo, daqui­lo que é real­mente pos­sív­el hoje em relação ao caos litúr­gi­co intro­duzi­do pelo NOM) e não a tese do improváv­el, senão mes­mo do impos­sív­el.

Por amor de um ide­al atual­mente inacessív­el, por exem­p­lo, a restau­ração, hodier­na, per­fei­ta e ime­di­a­ta da lex cre­den­ci et oran­di, (a qual, porém, não é pre­ciso nun­ca renun­ciar em lin­ha de princí­pio e ocor­rer tra­bal­har por eles sem­pre como ide­al a con­seguir gra­da­tim), se leva a sociedade a catástrofe, com rev­oluções soci­ais e cis­mas reli­giosos (pense­mos na revol­ta, em sen­ti­do estre­ito, que iria estourar – tam­bém entre os fiéis, para não falar dos sac­er­dotes e dos bis­pos – se fos­se impos­ta de um dia para o out­ro só a Mis­sa Tri­denti­na). A tare­fa do leg­is­lador é tam­bém aque­la de esta­b­ele­cer um mín­i­mo de unidade ou de “tran­quil­i­dade na ordem”, e não a rev­olução per­pé­tua, pois é através da amizade que se con­ser­va a sociedade “reg­num con­tra se divi­sum des­olan­i­tur”. “Ens et Unum con­ver­tun­tur”, então se fal­ta um mín­i­mo de unidade, fal­ta o ser e a Igre­ja não exi­s­tiria mais. Ma isto é impos­sív­el. A unidade é uma nota essen­cial da Igre­ja e é (como expli­ca padre Bernard Schultze s. j., do ‘Pon­tif­í­cio Insti­tu­to Ori­en­tal de Roma) essen­cial­mente con­cen­tra­da no úni­co Chefe visív­el da Igre­ja, o Pon­tí­fice Romano, o qual remon­ta o princí­pio da sucessão apos­tóli­ca (ou apos­toli­ci­dade for­mal) [8].

A unidade da hier­ar­quia católi­ca con­siste na união com o suces­sor de Pedro (cfr. Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca, Cidade do Vat­i­cano, 1954, vol. XII, voce “Unità”). Unidade sig­nifi­ca que a Igre­ja é indi­visa em si (se fos­se divi­di­da em si mes­ma seria mor­ta como quan­do a alma deixa o cor­po e o homem se divide, decom­põem e morre) e dis­tin­ta de todas out­ras “igre­jo­las”. Ora sem Papa (como sem alma que é o princí­pio de vida, ser e unidade intrínse­ca) a Igre­ja (e o homem, por analo­gia) são mor­tos, mas a Igre­ja per­du­rará até o fim do mun­do, não um instante antes. Então a “Tese não se sus­ten­ta. San­to Tomás de Aquino mar­avil­hosa­mente resume:”A firmeza ou unidade (fir­mi­tas) da Igre­ja é análo­ga àquela de uma casa que se diz sól­i­da se tem um bom fun­da­men­to. Ora o fun­da­men­to prin­ci­pal da Igre­ja é Cristo, enquan­to o fun­da­men­to secundário são os Após­to­los (com Pedro como chefe). Por isto se diz que a Igre­ja é apos­tóli­ca” (Exp. In Sym­bol., a. 9). Retire o Papa e a Igre­ja entra em colap­so, mas per­manece (aparente­mente) em pé a “Tese”… Seria um peca­do se con­tin­u­asse a não quer­er tomar con­hec­i­men­to da real­i­dade, como a tin­ha descrito ante­cedên­cia de quase 20 anos P. Guérard; com a eleição de Ben­to XVI a “Tese” ces­sou de exi­s­tir (e sobre isto não se chove).

A resistên­cia as leis injus­tas

Uma lei humana(também ecle­siás­ti­ca) pos­i­ti­va (por exem­p­lo, NOM[9], liber­dade reli­giosa), que se opõem a div­ina e nat­ur­al, não é vin­cu­lante, não obri­ga a con­sciên­cia, de onde é moral­mente líci­ta tam­bém a resistên­cia (como aque­la de São Paulo a São Pedro, Gal. II, 11–21) com a condição de que essa não vá além dos lim­ites da con­ser­vação do bem comum, o qual prevalece sobre o indi­vid­ual. Onde em alguns casos par­tic­u­lares, quan­do se tra­ta de evi­tar escân­da­los, graves per­tubações, ou de cair no espíri­to con­stante de rebe­lião (por princípio)[10] e da anárquia, se pode enten­der (sem com­par­til­har) a hes­i­tação sobre a opor­tu­nidade e a modal­i­dade da resistên­cia. (Talvez isto pode­ria explicar a ati­tude de alguns sac­er­dotes, bis­pos e cardeais, que, emb­o­ra com­preen­den­do a gravi­dade da desvi­ação dout­ri­na e litúr­gi­ca, pref­er­em não resi­s­tir exte­ri­or­mente, emb­o­ra sem aceitar inte­ri­or­mente, onde evi­tar o caos no qual, depois, real­mente cairam alguns tradi­cional­is­tas rad­i­cais).

Otta­viani e Bac­ci, depois de terem apre­sen­ta­do o “Breve exame críti­co do NOM” a Paulo VI, per­manece­r­am em silên­cio e em espera; Mons. Lefeb­vre e De Cas­tro May­er resi­s­ti­ram pub­li­ca­mente, mas não negaram o Gov­er­no de fac­to, o Títu­lo autori­ta­ti­vo de jure, ain­da que ten­ham expres­sa­do a sua per­plex­i­dade sobre o Exer­cí­cio defi­ciente de tal Títu­lo. A lei injus­ta (tira­nia em exer­cí­cio) vai con­tra a ordem de Deus e da reta razão. Então, em caso de con­fli­to entre lei humana injus­ta e lei div­ina, ocorre “obe­de­cer antes a Deus, que aos home­ns”, como respon­der­am os Após­to­los ao “Sumo Sac­er­dote” (e não ao Rei tem­po­ral). Nen­hum cristão jamais argu­men­tou que o ocu­pante mate­r­i­al da “Pri­ma Sede Sin­a­go­gal” da Anti­ga Aliança (Caifás) não dev­e­ri­am ser tidas em con­ta pelos Após­to­los, sobre pena de um “cis­ma cap­i­tal” de Cristo, porque, emb­o­ra con­de­nan­do a sua oper­ação e não obe­de­cen­do as suas injus­tas ordens o recon­heci­am como Sumo Sac­er­dote. O mes­mo argu­men­to pode­ria ser apli­ca­do a Jesus, que, emb­o­ra pub­li­ca­mente reprovan­do Caifás e seu mal gov­er­no (durante o inter­ro­gatório da Sex­ta-Feira San­ta), o recon­hecia como Sumo Sac­er­dote, e assim os Evan­ge­lis­tas, inspi­ra­dos pelo Espíri­to San­to com inerrân­cia. Ora, segun­do o argu­men­to dos “tesis­tas”, Jesus teria feito um cis­ma de si mes­mo e o Espíri­to San­to teria erra­do, inspi­ran­do os Evan­ge­lis­tas a escreverem no Evan­gel­ho, que Caifás era Sumo Sac­er­dote tam­bém enquan­to con­de­na­va injus­ta­mente a morte de Cristo. Mas tudo isto é impos­sív­el e então fal­so. Caifás quoad sub­stan­ti­am era a Autori­dade de jure, a exerci­ta­va de fac­to, mas mal quoad mod­um.

Todavia tal princí­pio (poder obje­tar diante uma ordem injus­ta a von­tade de não obe­de­cer) se con­cil­ia com a obri­gação de respeitar habit­ual­mente a ordem con­sti­tuí­da, na ver­dade a resistên­cia atu­al a lei injus­ta não com­por­ta, de per sé, a negação habit­u­al do Exer­cí­cio da Autori­dade.

A resistên­cia pode ser fei­ta: 1º) de for­ma não vio­len­ta: a) não exe­cu­tan­do a lei (resistên­cia pas­si­va, que é sem­pre líci­ta); b) resistên­cia ati­va por meio legal, com petição, recur­sos aos tri­bunais… 2º) tam­bém de for­ma vio­len­ta (a mão arma­da, mas só no con­fron­to a autori­dade civ­il, não daque­la reli­giosa a qual se pode resi­s­tir mas não cru­en­ta­mente); neste caso, a tira­nia ou as leis injus­tas devem ser con­stantes e habit­u­ais; não bas­ta uma só lei injus­ta para o sub­l­e­va­men­to arma­do ou para a habit­u­al des­obe­diên­cia aos gov­er­nantes e a que­da do gov­er­no tirâni­co não deve cri­ar uma situ­ação pior que a ante­ri­or, onde a mul­ti­dão sofre­ria males maiores.

O sábio real­is­mo do bem gov­ernar

Papa São Zacarias (+752) escreve em 751 ao mor­do­mo da França Pepino III o Breve (prog­en­i­tor dos car­olín­gios): “É mel­hor que seja rei o homem o qual real­mente detém o poder, ao invés de um que de fac­to é desprovi­do na práti­ca de todo poder real”. O chefe é quem detém de fac­to o poder tem­po­ral sobre uma comu­nidade. Ora, o últi­mo rei de jure  (mas preguiçoso de fac­to) merovín­gio Childeri­co III, +755), legí­ti­mo quan­to ao Títu­lo (de jure), mas não exerci­tante o próprio poder (de fac­to) de reger a comu­nidade, emb­o­ra não sendo um tira­no, foi pri­va­do tam­bé de jure legit­i­ma­mente, com con­sen­so do Papa São Zacarias, do trono. O poder não andou ao mais san­to ou vir­tu­oso, mas a quem det­inha o poder efe­ti­vo, real ou de fac­to: Pepino o Breve (coroa­do pelo Papa Ste­fano II em 754) que des­de o iní­cio da dinas­tia car­olín­gia, o qual era o mais pru­dente, e de mor­do­mo tor­na-se rei legit­i­mo tam­bém de jure em vir­tude do fato que gov­er­na­va real­mente e prati­ca­mente (sanc­tus oret, doc­tus doceat, pru­dens gubernet)[11]. Ocorre sem­pre ter em con­ta a real­i­dade dos fatos, tam­bém se ess­es não cor­re­spon­dem ao nos­so ide­al.

A triste real­i­dade de hoje, depois de quarenta anos de sub­ver­são dog­máti­ca, moral e litúr­gi­ca, é a impos­si­bil­i­dade real e práti­ca de mudar tudo (por via ordinária) com um golpe de var­in­ha mág­i­ca, exce­to uma inter­venção mila­grosa div­ina, que é a exceção a qual não deve fun­dar o com­por­ta­men­to humano, o qual deve ter con­ta que Deus (nor­mal­mente e ordi­nar­i­a­mente) respei­ta o livre con­cur­so das causas secundárias; não se pode faz­er da exceção uma regra de vida, se vive­ria fora da real­i­dade. Sem, todavia, excluir apri­or­is­ti­ca­mente a pos­sív­el inter­venção mila­grosa de Deus na vida dos indi­ví­du­os e dos povos. Se Deus quer, pode faz­er o mila­gre, mas não deve­mos ser nós a “tro­ca o nos­so cére­bro pela von­tade de Deus), como fazia a mul­her Prassede das “Promes­si sposi”, e faz­er Deus faz­er a nos­sa von­tade. Se “não pre­cisa desprezar as pro­fe­cias” (ou rev­e­lações pri­vadas aprovadas pela Igre­ja), nem sequer é líc­i­to fun­dar uma Tese de sede vacante total sobre elas e esper­ar o fim do mun­do, que teria já começa­do, como se fos­se a úni­ca via de saí­da da crise atu­al. Lá você se fecha em uma via – nor­mal­mente – sem saí­da, mas graças a Deus exis­tem os mila­gres.

Papa heréti­co ou só mate­r­i­al?

A dis­pu­ta sobre o “Papa heréti­co”, ou sobre aque­le só “mate­ri­aliter” (= em potên­cia, mas não em ato) quem não tem a von­tade obje­ti­va de faz­er o bem da Igre­ja, leva só a opiniões prováveis, nun­ca a certeza abso­lu­ta. Entre os teól­o­gos católi­cos a questão do “Papa heréti­co” é dis­puta­da livre­mente (cfr. A. X. Da Sil­veira, La Messe de Paul VI. Qu’en penser?, Chiré, 1978, libro scrit­to assieme a mon­signo­rAn­to­nio De Cas­tro May­er) [12], enquan­to aque­la von­tade de faz­er o bem da Igre­ja (p. Guérard des Lau­ri­ers), se “em teo­ria” e “ini­cial­mente” pode ser lev­a­da em con­sid­er­ação, “de fac­to” e depois quarenta anos de fal­ta de “for­ma” no Papa­do, nos leva a uma “Igre­ja” mor­ta e mortífera (como o mes­mo Padre Guérard havia pred­i­to, falan­do de “papas aparentes” – e não mais de “papas em potên­cia” – se fos­se eleito como Papa um Bis­po con­sagra­do com o novo Pon­tif­i­cal, como acon­te­ceu com Ben­to XVI) qual como a Sin­a­goga depois do deicí­dio, e uma espé­cie de mile­nar­is­mo Joaquimi­ta (ter­ceira era do Espíri­to San­to, que leva os fiéis a viverem em um esta­do de âni­mo sim­i­lar aque­le do ano Mil.

Na ver­dade, alguns pen­sam que talvez “hoje” [de 1958, a par­tir de 1965 ou 2008?] atingi­mos o fim do mun­do, porque não pode ocor­rer inter­rupção na cadeia dos Papas e porque Cristo sem­pre pro­tegeu a Igre­ja, como prom­e­teu, enquan­to per­mite “hoje” [1958, 1965 ou 2008?] ao inimi­go ocu­par-lá. Mas o fim do mun­do é “um flash”, ora um flash não dura meio sécu­lo. Então o “fim” do mun­do não é “sem fim”. Além dis­so os “sinais próx­i­mos” do fim do mun­do entre os quais a con­ver­são de Israel a Cristo, não estão ain­da sobre os nos­sos olhos, mas… Então não se pode afir­mar nem sequer que “talvez” o fim do mun­do este­ja próx­i­mo). Em 1985, dois sac­er­dotes sede­va­can­tis­tas totais, me explicaram a “tese” deles e a objeção:”Mas onde está a Igre­ja, que deve durar até o fim do mun­do?” Respon­der­am: “Esta­mos no fim do mun­do”. Se pas­saram mais de vinte anos… e o mun­do con­tin­ua. Tam­bém ocorre dis­tin­guir bem os “últi­mos tem­pos” (que começaram a par­tir da Encar­nação do Ver­bo) do “fim do mun­do”.

Reduzir a Igre­ja Católi­ca a um ente pura­mente mate­r­i­al e em fim a uma “aparên­cia”, por quarenta anos, sig­nifi­ca “de fac­to” matar-lá juridica­mente, his­tori­ca­mente e tam­bém espec­u­la­ti­va­mente. [13]

[1] a) Pen­so que tam­bém me seja líc­i­to avançar a uma opinião hipotéti­ca sobre uma questão assim espin­hosa e pun­gente, sem quer­er obri­gar nen­hum a seguir-lá; mas sem dev­er ser força­do a min­ha vol­ta – por quem não tem algu­ma autori­dade do alto – a pen­sar exata­mente como ele, sobre pena de insul­tos gra­tu­itos que não estou mais dis­pos­to a tol­er­ar e aos quais quan­do ultra­pas­sam um cer­to lim­ite de con­vivên­cia e suporta­bil­i­dade, a úni­ca respos­ta é a denún­cia penal.

  1. b) Recor­do, tam­bém, que deix­ei for­mal­mente a “Tese” só em agos­to de 2007, onde por oito meses, enquan­to estive em “Si Si No No” (des­de 8 de janeiro de 2007) e não na FSSPX (que são dois entes real­mente dis­tin­tos) com a qual colab­o­ra­va então e colaboro ain­da hoje “ab extrin­seco”, era ain­da propen­so a assen­tir a “Tese” de Padre Guérard (não mais aque­la de Ver­rua, da qual tomei dis­tân­cia pub­li­ca­mente em novem­bro-dezem­bro de 2006) comoa mais verossímil ou prováv­elsolução do prob­le­ma da autori­dade na crise atu­al que atrav­es­sa a Igre­ja, sem torná-la mais “uma especi­fi­cação de um ato de fé”, nem um cav­a­lo de batal­ha. Antes de aban­donar-lá defin­i­ti­va­mente quis re-estu­dar-lá com cal­ma e pon­der­ação, sobre­tu­do a luz da eleição de Ben­to XVI, que não é con­sid­er­a­do pela Tese de Padre Guérard nem sequer mate­rial­mente “Papa”, sem deixar me condi­cionar pela polêmi­ca ou “pressões” dos “tesis­tas”, por pres­sa ou pre­cip­i­tação.

A todas as pes­soas que per­gun­tavam qual seria a min­ha posição respon­di, até agos­to de 2007, que era ain­da lig­a­do a “Tese”, sem men­tir. Depois, quan­do cheguei a certeza (reforça­da pela embaraça­da e embaraçante “delib­er­ada­mente não respos­ta” ensur­de­ce­do­ra dos “tesis­tas”) que tal Tese não esta­va mais em pé, des­de o “mate­ri­aliter”, por admis­são prévia de Padre Guérard, ter­mi­nou em 2005 (com a eleição de Ben­to XVI), a aban­donei e disse clara­mente a quem me per­gun­tou. Havi­am ape­nas alguns rumores  a respeito da min­ha posição doutrinária, pos­te­ri­or a agos­to de 2007 e ao n.° 62 de “Sodal­i­tium” me induzi­ram a escr­ev­er estes arti­gos, os quais ini­cial­mente eram um “unicum” que man­tive por mim mes­mo como um mis­celânea de notas escritas, para me aju­dar a ver as coisas clara­mente e a estu­dar mel­hor a questão, mas que depois divi­di em três partes para pub­licá-los e torná-los mais acessíveis aos leitores.

[2] Tam­bém para Boni­fa­cio viii (+ 1303), dois Cardeais (Giá­co­mo e Pietro Colon­na), que emb­o­ra ten­do par­tic­i­pa­do da sua entron­iza­ção em 1294, con­tes­taram dois anos e meio depois, a legit­im­i­dade da sua eleição canôni­ca (A. Par­avici­ni Bagliani, Boni­fa­cio VIII, Tori­no, Ein­au­di, 2003, p. 72), jun­to aos Espir­i­tu­ais (pg. 101). Nat­u­ral­mente não podia fal­tar uma Mãe-Abadessa, Mar­gare­ta do con­ven­to de São Pedro Maior (pg. 197); um mon­ge de Bolon­ha, Giuseppe Fla­menghi, em 1299, que o recon­hecia só como “Papa de fac­to mas não de jure” porque eleito simo­ni­a­ca­mente (pg. 236); o jurista francês Guil­herme de Nog­a­ret (1308) acu­sou mes­mo Bonifá­cio de here­sia: “Não acred­i­ta na pre­sença real, na imor­tal­i­dade da alma, na vida eter­na, no sacra­men­to da con­fis­são e nem sequer em Deus” e que­ria, então, apelar a um Con­cílio para depor-lo (pg. 324–26).

Algu­mas lem­branças con­ser­vadas demon­stram como as coisas foram preparadas acu­rada­mente. Entre out­ras coisas se dev­e­ria pedir ao [futuro] Papa a declar­ação de inval­i­dade de todos os provi­men­tos toma­dos por Bonifá­cio VIII con­tra a França (…), exu­mação do cadáver de Bonifá­cio (…), can­on­iza­ção de Celesti­no V, con­de­nação de Bonifá­cio VIII e cre­mação do seu cadáver” (H. Jedin, Sto­ria del­la Chiesa. Tra medio­e­vo e rinasci­men­to, XIV-XVI sec­o­lo. Milano, Jaca Book, 1987, vol. V/2, p. 10). O proces­so começou em 1310 em Avin­hão na pre­sença de um Papa (a acusação mais perigosa era aque­la de here­sia); esse se encer­ra em 1311, depois que o Papa reinante Clemente V havia “recon­heci­do que o rei [Felipe o Belo] havia pro­ce­di­do com bom zelo con­tra Bonifá­cio VIII (!) [como é pos­sív­el isto? Quem tem razão? Bonifá­cio ou Papa Clemente que o con­de­nou implici­ta­mente? Nda] e havia absolvi­do ad caute­lam o Nougaret” (ibi). No Con­cílio de Vienne (aber­to no final de 1311) “ressurgiu o Fac­tum Boni­fa­cianum, mas não foi mais trata­do dire­ta­mente” (Ibi). Se con­tentaram em faz­er desa­cred­i­tar Bonifá­cio e de reabil­i­tar Felipe por um Papa avin­honese, manobra­do pela França, sem quer­er ir mais longe. “Clemente V anu­lou (…) a parte mais inci­si­va da Bula Unam Sanc­tam, na qual Bonifá­cio havia expres­so o princí­pio [não uma nor­ma práti­ca] do pri­ma­do abso­lu­to do Pon­tí­fice sobre os sober­a­nos tem­po­rais” (Aa. Vv., I Papas e os antipa­pas, Milão, Tea, 1993, p. 90). Uma vez que este princí­pio é, ao menos, dout­ri­na comum, isto colo­ca prob­le­mas quan­to a Clemente V, mas ninguém son­hou de con­sid­er­ar-lo não – “papa”.

A ati­tude de Felipe o Belo (…), é tam­bém a extrem­iza­ção daque­la con­cepção sacral da monar­quia france­sa que tin­ha começa­do com os Car­olín­gios e que a tradição fazia remon­tar ao mila­groso batismo de Clóvis; o Sober­a­no, con­sagra­do com o óleo San­to lev­a­do mis­te­riosa­mente em um voo por uma pom­ba, era o úni­co entre todos os monar­cas da ter­ra a ser ungi­do com uma crisma san­tifi­ca­do por Deus mes­mo [e não do Pon­tí­fice]: daqui a sua espe­cial dig­nidade sacral, supe­ri­or aque­la de todos os out­ros que eram ungi­dos com óleo de fab­ri­cação humana. Nem deri­va de uma visão grandiosa da mis­são políti­ca da França sobre a cri­stan­dade inteira (…). Não casual­mente o Papa­do, em seu extremo esforço de afir­mação teocráti­ca, col­id­iu con­tra a França (…). A ambição de domínio uni­ver­sal in tem­po­ral­ibus do Papa­do se encon­tra­va inex­o­ral­mente com as aspi­rações da França a hege­mo­nia sobre a cri­stan­dade” (Beat­rice. Frale, L’ultima battaglia dei Tem­plari, Roma, Viel­la, 2001, pp. 30–31). A auto­ra expli­ca que o proces­so con­tra Bonifá­cio, por here­sia e “idol­a­tria” (enquan­to com a Bula Unam Sanc­tam o Papa se pre­sum­ia infalív­el e rein­vidi­ca­va a plen­i­tu­do postes­ta­tis tam­bém sobre o princí­pio tem­po­ral) inter­pos­to pelo rei da França, “des­ti­na­va-se a destru­ir a cred­i­bil­i­dade da Igre­ja de Roma para torná-la mais vul­neráv­el e pri­va­da (…).Felipe IV [o Belo] enten­dia destru­ir a imagem moral da Igre­ja de Roma demon­stran­do que esta­va dev­as­ta­da pela cor­rupção seja na mas­sa (irmãos), seja na hier­ar­quia (bis­pos), até ao vér­tice (Papa). Des­ti­na­da a deri­va, a Igre­ja seria sal­va de emer­gir pelo rei cris­tianís­si­mo, ungi­do com o óleo mila­groso de Clóvis e ger­a­do na estirpe de Luís IX, ele­va­do a hon­ra dos altares; Felipe o Belo tin­ha assum­i­do o papel de tutor (e sal­vador) da res pub­li­ca chris­tiana” (Ibi­dem, pg. 274). Onde “em março de 1310 se abria o con­ven­to dos Domeni­canos de Avin­hão o proces­so con­tra a memória de Bonifá­cio VIII, que de ago­ra em diante pro­ced­e­ria de for­ma quase inin­ter­rup­ta (…). O Papa [Clemente V] até abriu uma inves­ti­gação (…) sobre o mes­mo sober­a­no francês, des­ti­na­do a demon­strar que Felipe não havia ata­ca­do Bonifá­cio movi­do por moti­vações indig­nas, mas para defend­er a fé” (Ibi­dem, pg. 276–277). Por fim “ Clemente V havia declar­a­do em 1º de janeiro de 1305 que o dita­me da Unam Sanc­tam não se apli­ca­va ao rei da França” (Ibi­dem, pg 277–278). Todavia Clemente V não que­ria declarar a ile­git­im­i­dade de Bonifá­cio “que, se declar­a­da, colo­ca­va abso­lu­ta­mente fora as leis e tudo o oper­a­do pelo Papa Cae­tani e pelos seus suces­sores: incluin­do as bulas, as nomeações car­di­nalí­cias e epis­co­pais, a inteira história ecle­siás­ti­ca a par­tir da abdi­cação de Celesti­no V. Como expli­ca Jules Michelet, “A Igre­ja seria apan­ha­da em uma ‘ile­gal­i­dade sem fim’” (Ibi­dem, pg 278). A Auto­ra con­cluí: “É pos­sív­el que Felipe IV quisesse minar a autori­dade da Igre­ja romana em vista de sua sub­sti­tu­ição por uma Igre­ja france­sa” (Ibi). Ora é líc­i­to per­gun­tar-se se a teo­ria da sede vacante, com­preen­di­da de Paulo VI a Ben­to XVI, não coloque hoje a Igre­ja (com maior razão que no tem­po de Bonifá­cio VIII) em um esta­do “fora da lei” e de “ile­gal­i­dade sem fim”, no qual essa seria mina­da e sub­sti­tuí­da por aque­la “Thucista” ou aque­la nacional (gal­i­cana ou padana) da qual se fala hoje em cer­tos ambi­entes “tradi­cional­is­tas” sui gener­is e sede­va­can­tis­tas. Ou mes­mo a “Ter­ceira Novís­si­ma Aliança”, que é a era do Espíri­to San­to de Joaquim de Fiore.

Além dis­so do pon­to de vista estre­ita­mente jurídi­co “o proces­so de Bonifá­cio VIII não durou ape­nas os pon­tif­i­ca­dos suces­sivos. Foi dito que os seus atos não foram ain­da fecha­dos a todos até hoje” (H. Jedin, História da Igre­ja. Civ­i­tas medievale, XII-XIV sécu­lo, Milão, Jaca Book, 1987, vol. V/1, p. 401). De jure, com base nos man­u­ais de Teolo­gia fun­da­men­tal, se pode­ria, talvez, procla­mar a “sé vacante” des­de 1303. Mas que coisa seria da Igre­ja real de fac­to? Os sede­va­can­tis­tas devem ter em con­ta tam­bém este ele­men­to, se a per­gun­ta sobre a pos­si­bil­i­dade da Autori­dade “destru­ir” a Igre­ja é de jure líci­ta, não menos legí­ti­ma é aque­la sobre o esta­do da Igre­ja em “vacân­cia per­ma­nente” e ago­ra não só mate­r­i­al, mas total (com sim­ples Papas “aparentes”). Me parece que a eleição canôni­ca (de Paulo VI até Ben­to XVI) recon­heci­da como legí­ti­ma pela major et san­ior pars Eccle­si­ae (com­preen­di­dos os dois bis­pos res­i­den­ci­ais que se opuser­am – até o fim – as novi­dades do Con­cílio: Mon­sen­hor Antônio de Cas­tro May­er e Mar­cel Lefeb­vre) resol­va de fac­to o prob­le­ma.

Celesti­no V ( o qual Bonifá­cio VIII sub­sti­tu­iu) que emb­o­ra ten­do sido can­on­iza­do (se diz) enquan­to eremi­ta, ain­da que sobre o “impul­so” do rei da França (Felipe o Belo) em função anti-Bonifá­cio VIII, foi –como Papa – “de jejum da ciên­cia jurídi­ca e exper­iên­cia políti­ca, se enre­da­va todos os dias nas redes que se esten­di­am pelas pet­ti­fog­gers astu­tos e ambi­ciosos príncipes “(A. VV, The Papas e anti-papas, Milão,Tea, 1993, p. 88). Enquan­to Bonifá­cio, ape­sar “da fama [imere­ci­da] de cor­rupção e simo­nia que gan­hou” (pg. 89), gov­ernou a Igre­ja “com extrema ener­gia e coerên­cia, supor­ta­da por um pro­fun­do con­hec­i­men­to do dire­ito canôni­co e por uma luci­da von­tade de ação” (pg. 88).

[3] Mas tam­bém neste caso, se o Papa se con­verte enquan­to os bis­pos e os cardeais não, que coisa suced­e­ria? As dio­ce­ses per­manece­ri­am sem autori­dade próx­i­ma em ato, a cúria romana seria con­tra o Papa e o Papa sem a cúria. A Igre­ja vive­ria, de fac­to, em um esta­do irre­al de des­or­dem quase total e fal­ta de unidade. O Papa seria, prati­ca­mente, uma espé­cie de “Rei viga, ao qual nen­hum obe­dece”. Mas tudo isto é sur­re­al ou mel­hor “carte­siano”.

[4] “A eleição é per­fei­ta e irrevogáv­el no momen­to que o des­ig­na­do, inter­ro­ga­do pelo Sacro Colé­gio, declara aceitar (nº 87–88 da Con­sti­tu­ição de São Pio V de 25 de dezem­bro de 1904, Vacante Sede Apos­toli­ca). Se o eleito não é padre ou bis­po é ime­di­ata­mente orde­na­do ou con­sagra­do pelo mes­mo cardeal decano (nº 90)”. (F. Roberti‑P.Palazzini, Dizionario di Teolo­gia Morale, Roma, Studi­um, 1968, 4a ed., 1° vol. p. 360).

[5] S. Th., I‑II, q. 101, a. 3, ad 2; C. Gent., III, c. 123.

[6] S. Th., I‑II, q. 96, a. 2; C. Gent., III, c. 129.

[7] S. Th., I‑II, q. 97, a. 1.

[8] “Pedro é a “pedra” que con­fere solidez [com­pactação e unidade] a Igre­ja” (A. Lang, Com­pen­dio di Apolo­get­i­ca, Tori­no, Mari­et­ti, 1960, p. 310). Ora sem unidade não existe o ser (ens et unum con­ver­tun­tur). Então a Igre­ja, sem Papa, ces­saria de exi­s­tir (sine Petro, nul­la Eccle­sia). Quod repug­nat. Na ver­dade é de fé católi­ca defini­da que a Igre­ja dev­erá durar até o fim do mun­do, onde não é pos­sív­el que falte jun­to ao Papa um Colé­gio de Cardeais capaz de suprir o Papa defun­to (uma espé­cie de Colé­gio “vigário” do Vigário de Cristo), gov­er­nan­do com autori­dade e man­ten­do assim a unidade e a existên­cia da Igre­ja, a espera de uma eleição de um novo Papa. A difer­ença entre o perío­do de “sede vacante”, ou inter­reg­no entre um Papa e out­ro, para o “sede­va­can­tismo” que é a fal­ta (total ou só atu­al) de um Papa, de um cor­po de bis­pos ten­do juris­dição e com um colé­gio de cardeais capazes só de par­tic­i­par da eleição, mas impos­si­bil­i­ta­dos de gov­ernar porque estão pri­va­dos de autori­dade, é abissal. Na ver­dade, a) no primeiro caso os cardeais man­tém a vida da Igre­ja porque eles agem com autori­dade ou com o princí­pio de vida da mes­ma (são vigários do Vigário mor­to); enquan­to b) no segun­do caso a autori­dade é aparên­cia (e com essa o princí­pio de unidade e de existên­cia) no Papa, nos Bis­pos e nos cardeais, onde a sociedade espir­i­tu­al Igre­ja hier­ar­quica romana é sem princí­pio for­mal de vida (=autori­dade), então deve estar mor­ta. Mas isto é con­tra a fé.

[9] A oposição entre NOM e Mis­sa Romana é evi­dente: bas­ta assi­s­tir uma e a out­ra e a difer­ença salta aos olhos. Na ver­dade, a reação (Otta­viani-Bac­ci, como aque­la de numerosos sac­er­dotes e fiéis-lei­gos) real­mente pre­cedeu a pro­mul­gação do NOM. Ao invés quan­to ao prob­le­ma da autori­dade, Padre Guérard (que era uma águia da teolo­gia) chegou a sua solução ape­nas em 1978 e começou a tra­bal­har em 1975 emb­o­ra ten­do começa­do a refle­tir em 1969–1970 (pro­mul­gação NOM). Se o prob­le­ma fos­se evi­dente e claro para todos (e não só para os teól­o­gos, como evi­den­ci­a­do pela real­i­dade), Padre Guérard iria escr­ev­er a sua Tese subita­mente depois do fechamen­to do Con­cílio (1965) ou ao menos subita­mente após o NOM (1969). Em vez dis­so não foi assim. Tam­bém Padre Noel Bar­bara só em 1975 chegou a con­clusão da “sede total­mente vacante”. Ora se dois grandes teól­o­gos, um espec­u­la­ti­vo e out­ro pos­i­ti­vo (Guérard e Bar­bara), empre­garam tan­to tem­po, e em grave dis­pari­dade de opinião (materialiter/totaliter), para resolver o prob­le­ma da autori­dade, não vejo “com qual autori­dade” se pos­sa impor-la ‘sub gravi” aos fiéis (que dizem a tê-la com­preen­di­do), quan­do essa – para ser enten­di­da real­mente (“entre o diz­er e o faz­er existe meio mar”), requer noção de alta filosofia e teolo­gia – que não todos podem ter, nem sequer os sac­er­dotes. Muitas vezes o ter­mo “Tese” é usa­do como uma “palavra mág­i­ca” ou arma de chan­tagem (analoga­mente a Shoah): “Como faze­mos com a “Tese/(Shoah)”; “Não quer colo­car em dúvi­da a “Tese/Shoah”?”. O pobre “lei­go”, his­to­ri­ador, fiel, sem­i­nar­ista ou Padre intim­i­da­do, se deixa ater­rorizar e des­de que não ouse con­fes­sar, de onde seria con­de­na­do ipso fac­to e “lap­i­da­do” por quem se rep­u­ta “mestre em Israel”; cala e “con­sente” em públi­co enquan­to em pri­va­do não pode não dis­cor­dar ou ao menos duvi­dar. O homem ver­dadeira­mente “livre”, da “san­ta liber­dade dos fil­hos de Deus”, segue o lema de Dante:”Não fale deles, mas olha e pas­sa” (Infer­no, III, 51); depois de ter colo­ca­do per­gun­tas e não ter obti­do respostas disse a si mes­mo, como o cego nato cura­do por Jesus no sábado:”Este é pre­cisa­mente o prob­le­ma que, enquan­to eu sou um pobre des­graça­do con­sta­to eu sei que foi cura­do, vós mestres da lei se obsti­nam a negar o fato”.

[10] Aristóte­les, Políti­ca, II, 8, 1269 a, 20–24.; 1268 b, 27.

[11] O céle­bre medieval­ista pro­fes­sor Pao­lo Brezzi escreve:”Clóvis (…) se con­verte ao Cris­tian­is­mo depois de uma batal­ha con­tra os Alemães. (…) O gesto foi deter­mi­na­do cer­ta­mente, não só por motivos pes­soas e pela ação da mul­her, a piís­si­ma Clotilde, por opor­tu­nidade políti­ca, e per­mi­tiu que o rei ter com ele toda a pop­u­lação romana da Gália (…) Clóvis, mor­reu em 511, era um homem rude, prim­i­ti­vo, vio­len­to: mata­va com suas mãos quan­tos lhe davam som­bra; tin­ha ânsia de domínio; tam­bém em seu sen­ti­men­to reli­gioso foi impul­si­vo” (Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca, Cit­tà del Vat­i­cano, 1949, vol. 3, coll. 1876–1877).

A mes­ma tese é sus­ten­ta­da por K. Bihlmeyer‑H. Tuech­le, (História da Igre­ja, Bres­cia, Mor­cel­liana, 1 vol., pp. 280–282): “Os motivos da sua decisão foram cer­ta­mente, bem como reli­giosos, tam­bém políti­cos. (…) A con­ver­são do rei e do povo dos Fran­cos, em princí­pio não era muito mais que um muta­men­to reli­gioso exte­ri­or e não com­por­ta­va de fato, uma real­iza­ção do ide­al de vir­tude cristã. (…) Con­tin­u­avam a reinar larga­mente cos­tumes rudes, era muito difusa a super­stição e a per­mane­ci­am em pé usos pagãos (…). A Igre­ja fran­ca depen­dia toda do rei, era clara­mente a Igre­ja de Esta­do e nacional, sobre a qual a influên­cia do papa­do se reduzia a bem pou­ca coisa”.

  1. Fliche e V. Mar­tin(História da Igre­ja, Cinisel­lo Bal­samo, San Pao­lo, vol. IV, 1972, pp. 490–492) seguiu a mes­ma tril­ha,não falam da ampo­la trazi­da do céu, como todos os out­ros his­to­ri­adores que con­sul­tei e tam­bém admite que “seria pouco exa­to rep­re­sen­tar Clóvis como dócil instru­men­to nas mãos do epis­co­pa­do. (…) Ele perce­beu que a prin­ci­pal (…) bar­reira que sep­a­r­a­va ain­da as duas raças, fran­ca e gal­lo-romana, era a difer­ença de religião, e que o con­sti­tuir-se pro­te­tor da Igre­ja Católi­ca seria atrair não só a mul­ti­dão (…), mas tam­bém a sim­pa­tia de inúmeras almas. (…) Os Fran­cos per­mane­ci­am pagãos na grande maio­r­ia; mas (…) a obra de evan­ge­liza­ção, que se pro­lon­garia por todo sécu­lo VII, o [o pagan­is­mo] elim­i­nar­ia pouco a pouco”.

Hubert Jedin, (História da Igre­ja,  Milano, Jaca Book, 1978, 3 vol., p126) escreve que “fontes con­tem­porâneas são de escarças luzes sobre a gênese do reino merovín­gio e sobre a con­ver­são de Clóvis”, não fala abso­lu­ta­mente de ampo­la celeste e de pom­ba envi­a­da por Deus, mas ref­ere-se ao tra­bal­ho de di W. V. Den SteinChlod­wigs Uber­gang zum Chris­ten­tum, MIOG Erg, vol. 12, 1923–1933, pp. 417–501, no qual não se encon­tra nen­hum traço de tal ocor­rên­cia mila­grosa.

A história da França con­tin­u­ou, a grosso modo, seguin­do a lin­ha de uma Igre­ja muito nacional e pouco uni­ver­sal ou romana, mas não ain­da ao extremo (ain­da com São Luís IX se dev­e­ria assi­s­tir a “prag­máti­ca sanção” na qual o arti­go VI restringia “mod­er­ada­mente” e não até as ulti­mas con­se­quên­cias o poder do Papa sobre o rei francês:“o rei recebe o seu poder só de Deus e da sua própria espa­da”. Está máx­i­ma, como obser­vam jus­ta­mente os his­to­ri­adores e os juris­tas foi o primeiro movi­men­to de rebe­lião con­tra a teoc­ra­cia papal no sen­ti­do que o rei não deri­va do Papa, e con­tra a feu­dal­i­dade no sen­ti­do que não deri­va do imper­ador (…)A prag­máti­ca sanção é con­sid­er­a­da o fun­da­men­to daqui­lo que os france­ses chamam a liber­dade da igre­ja gal­i­cana” (S. Sibil­la, Gre­go­rio IXMilano, Meschi­na, 1961, pp. 267–268), até 1300 época na qual a ati­tude de Felipe o Belo, rep­re­sen­ta a extrem­iza­ção daque­la con­cepção sacral do pre­su­min­do dire­ito divi­no da monar­quia france­sa, que a len­da fazia remon­tar ao mila­groso batismo de Clóvis; o sober­a­no, con­sagra­do com o óleo San­to trazi­do mis­te­riosa­mente pelo voo de uma pom­ba, era o úni­co entre todos os monar­cas da ter­ra a ser ungi­do com um crisma san­tifi­ca­do dire­ta­mente por Deus mes­mo [e não pelo Pon­tí­fice]: daqui a sua espe­cial dig­nidade entre os reis que eram ungi­dos com óleo de fab­ri­cação humana (monar­quia de dire­ito divi­no indi­re­to ou remo­to). O resul­ta­do é uma visão grandiosa (a grandeur…) da mis­são políti­ca da França sobre a cri­stan­dade inteira. Depois do par­ente­ses de S. Joana D’Arc, que reclam­ou a França uma ple­na sub­mis­são a Roma, infe­liz­mente as coisas andaram de mal a pior, com a con­sti­tu­ição gal­i­cana do clero ide­al­iza­da em 1682 por Bossuet e depois com a rev­olução de 1789, que abriu as por­tas para a sep­a­ração total e a con­tra­posição entre Esta­do e Igre­ja, explodiu mais uma vez em 1906 sobre São Pio X.

Ora bom sen­so, ciên­cia históri­ca e fé ensi­nam que, admi­to e não con­ce­do, porque não prova­do, que Clo­vis foi ungi­do (498–99) com um óleo não con­sagra­do por um bis­po mas trazi­do por uma pom­ba (o que não é his­tori­ca­mente acer­ta­do), todavia é cer­to que o poder monárquico é pas­sa­do aos Merovín­gios (descen­dentes de Clóvis) aos Car­olín­gios (751) com Pepino o Breve pai de Car­los Mag­no, não graças a uma inter­venção (não prova­da, mas imag­i­na­da) mila­grosa e dire­ta de Deus, mas a decisão (his­tori­ca­mente cer­ta) do Papa tomar ati­tude de pas­sagem práti­ca do poder dos Merovín­gios aos Car­olín­gios. No entan­to, uma vez que se tornaram “preguiçosos”, estes mes­mos foram por sua vez sub­sti­tuí­dos (987) com Hugo Capeto (nem sequer eleito dire­ta­mente por Deus) e pelos Capetín­gios, que se inter­rompeu em 1328 e aos quais foram sub­sti­tuí­dos pelos Val­ois (como ramo colat­er­al) e depois pelos Bour­bons (1589), que osten­tavam uma lig­ação de par­entesco com os Capetín­gios, que (admi­ti­do e não con­ce­di­do) foram con­sagra­dos com o óleo celeste, foram sem­pre ungi­dos por um Bis­po ou por um Papa e aceita­dos pelo Sumo Pon­tí­fice como reis e imper­adores como ‘con­di­tio sine qua non’ para exerci­tar o poder. Onde a teo­ria gal­i­cana que o rei frances não depende do Papa nem sequer indi­re­ta­mente “in tem­po­ral­ibus, ratione pec­ca­ti”, mas só dire­ta­mente de Deus (por via da ampo­la trazi­da em 498–499 via aérea… por pom­bos cor­reio via­jantes) coisa con­tra o bom sen­so, a ciên­cia históri­ca e a dout­ri­na católi­ca, que, quan­to a relação entre Esta­do e Igre­ja, como mín­i­mo é próx­i­ma a fé. Mais que da história, seria mel­hor falar de “estória” ou de mitolo­gia fan­ta­scien­tí­fi­ca gal­i­cana. Na ver­dade, seja os Car­olín­gios, que os Capetín­gios foram escol­hi­dos pelo homem, e aceita­dos pelo Papa e não dire­ta­mente por Deus como suce­dia ao rei do Anti­go Tes­ta­men­to.  Se os gal­i­canos insi­s­tirem sobre sua dout­ri­na heréti­ca da monar­quia france­sa de dire­ito dire­ta­mente-prox­i­ma­mente (e não remo­ta­mente-indi­re­ta­mente) div­ina, bem, assim retor­namos ao Anti­go Tes­ta­men­to (no qual os reis eram escol­hi­dos dire­ta­mente por Deus) e terão uma intu­ição div­ina do Cardeal Ange­lo Ron­cal­li, Nún­cio Apos­tóli­co em Paris, sobre o pon­tif­i­ca­do de Pio XII, segun­do a qual “os france­ses seri­am de cer­to modo os “hebreus” do Novo Tes­ta­men­to”, dado o seu espíri­to exager­ada­mente chau­vin­ista. Tal tendên­cia ‘a‑romana’ e vir­tual­mente gal­i­cana, per­maneceu sem­pre latente na França, e explodiu em alguns momen­tos par­tic­u­lares quais o “Ral­liement” de Leão XIII e “L’Action Française” de Charles Mau­r­ras sobre Pio XI, essa infe­liz­mente con­tin­ua ain­da hoje a exerci­tar um influxo nefas­to em ambi­ente católi­co-tradi­cional­ista, que não dis­tingue entre origem do poder remo­ta­mente de Deus, mas prox­i­ma­mente do Papa.

Como se vê De La Mar­querie (A mis­são div­ina da França) não ‘inven­tou’ ou desco­briu nada de novo, ou mel­hor inven­tou tudo a par­tir do zero, assim como Felipe o Belo e os gal­i­canos.

[12] Os Doutores da Igre­ja e os teól­o­gos mais reno­ma­dos afir­mam que o Papa não pode cair em here­sia (com exceção de um ou dois pouco con­heci­dos). Em segui­da colo­cam a questão “fic­tí­cia” (análo­ga ao  “Se Deus existe” de San­to Tomás na Suma Teológ­i­ca) se pode ser heréti­co e respon­dem que não pode, mas admi­ti­do e não con­ce­do que o seja per absur­duma) alguns dizem que é depos­to ipso fac­tob) out­ros que deve ser ou pelos cardeais ou por um Con­cílio imper­feito (os bis­pos ten­do juris­dição), os quais depois de ter-lo avisa­do, con­statam a sua obsti­nação na here­sia, o declar­am um heréti­co ao qual Cristo a reti­ra­do o poder pon­tif­í­cio e só então os cardeais podem eleger um novo Papa. Mas está é uma hipótese por nada cer­ta e nem mes­mo prováv­el, se colo­ca o caso como “pura pos­si­bil­i­dade per absur­dum” e se dão respostas não unân­imes. Então a tese daque­les que declar­am a sé total­mente vacante, a par­tir de João XXIII, não só não é cer­ta, mas nem sequer é prováv­el.

[13] A objeção seria segun­do a qualse os “papas con­cil­iares” (ten­do erra­do habit­ual­mente) fos­sem ver­dadeiros Papas, para aderir a ver­dade não se pode­ria mais fun­dar com segu­rança sobre Pedro e suces­sores como regra próx­i­ma de fé, se pode respon­der:

  • I –Antes de tudo é um mis­tério, com­paráv­el a con­cil­i­ação da onipotên­cia div­ina (a qual nada pode resi­s­tir) com a liber­dade humana (a qual se pode diz­er sim ou não).
  • II — Tam­bém você pode bal­bu­ciar no claro-obscuro da fé e da teolo­gia que:
  1. a)A questão da resistên­cia (pri­va­da ou públi­ca) ou do silên­cio obse­quioso (sem o assen­ti­men­to) respeito a even­tu­al e excep­cional erro da suma autori­dade ecle­siás­ti­ca foi trata­do por muitos autores, mas não se tem uma sen­tença unanime­mente cer­ta (vedi  Tom­ma­so, J. M. Hervé, J. Salaver­ri, F. Suarez, C. Pesch, F. De Vito­ria, R. Bel­larmi­no, C. A Lapi­de, F. X. Wernz‑P. Vidal, C. Mazzel­la, B.H. Merkel­bach, V. Cathrein, A. Tan­querey, S. Carte­chi­ni, A. X. Da Sil­veira). Como se vê não se tem um con­sen­so moral­mente unân­ime, então não se pode pre­tender o assen­ti­men­to firme a própria “tese”, mas se pode apre­sen­tar só como opinião prováv­el. “In cer­tis uni­tas, in dubi­is lib­er­tas, in omnibus car­i­tas”.
  1. b)Tam­bém a pos­si­bil­i­dade (remo­ta e excep­cional) de erro em doc­u­men­to do mag­istério foi debati­da entre os teól­o­gos, (Hervé, Pesch, Salaver­ri, Merkel­bach, Carte­chi­ni, T. Pègues, Da Sil­veira, J. B. Franzelin, L. Bil­lot, C. Jour­net) sem que se chegasse a uma sen­tença unân­ime. Onde não se pode faz­er pas­sar a “tese” de uma esco­la teológ­i­ca como “especi­fi­cação de um ato de fé”.
  1. c)Incluin­do o prob­le­ma da autori­dade doutri­nal dos doc­u­men­tos do Con­cílio Vat­i­cano II. Uma das condições da infal­i­bil­i­dade (seja do mag­istério extra­ordinário ou ordinário) é que o Papa man­i­feste a sua von­tade de pro­por a Igre­ja uma ver­dade con­ti­da na Rev­e­lação (escri­ta ou oral) como a ser acred­i­ta­da obri­ga­to­ri­a­mente. Ora a Declar­ação de 6 de março de 1964 da Comis­são Doutri­nal, retoma­da por Paulo VI em um dis­cur­so de 12 de janeiro de 1966, disse que “nesse [Con­cílio Vat­i­cano II] a Igre­ja […] não quis pro­nun­ciar-se com sen­tenças dog­máti­cas extra­ordinárias”. Isto não sig­nifi­ca nec­es­sari­a­mente que o que­ria com sen­tença ordinárias, como dizem alguns, enquan­to out­ros o negam:”Não pro­cure­mos de dar um assen­ti­men­to ao Vat­i­cano II que esse mes­mo não pediu” ( X. Da Sil­veira, Qual é a autor­dade doutri­nal dos doc­u­men­tos pon­tif­í­cios e con­cil­iares?, in «Cris­tian­ità », Pia­cen­za, gen­naio-feb­braio 1975, p. 7).

O pro­fes­sor Bernard Bart­mann (Man­uale di Teolo­gia Dog­mat­i­ca, Alba, Edi­zioni Pao­line, 1949, vol. II, p. 417) escreve que o Papa para gozar de infal­i­bil­i­dade “deve ter a von­tade de dar uma decisão dog­máti­ca e não um sim­ples adver­ti­men­to ou só uma instrução ger­al”.

Padre G. B. Mondin, La Chiesa. Trat­ta­to di eccle­si­olo­gia, Bologna, ESD, 1993, a p. 304 escreve que “o Romano Pon­tí­fice, quan­do fala da Cát­e­dra de São Pedro (ex cathe­dra) quan­do desem­pen­ha a função de pas­tor e de mestre de todos os cristãos […] e define que uma dout­ri­na, diz respeito a fé ou aos cos­tumes, deve ser tida por toda a Igre­ja (…) vin­cu­lan­do a fé dos crentes” só então é infalív­el. A definição ou o mag­istério dog­máti­co vin­cu­lante pode ser ‘extra­ordinário’ ou ‘ordinário’, mas deve respeitar estas condições para gozar da assistên­cia infalív­el por parte do Espíri­to San­to.

Fal­ta o fato que des­de João XXIII o ensi­na­men­to pon­tif­í­cio é habit­ual­mente ini­ci­a­do com ambigu­idade e erros. Ora, se si admite que os “papas con­cil­iares” são ver­dadeiros Papas, se corre o risco de tirar do Papa­do a solidez de ser o critério próx­i­mo da ver­dade rev­e­la­da, sem sub­me­ter o ensi­na­men­to papal ao teste da inter­pre­tação pes­soal. Está é uma vál­i­da razão para admi­tir in teo­ria a pos­si­bil­i­dade da ‘sede vacante’, sem, porém, quer­er impor aos fiéis que não podem chegar a cer­tas con­se­quên­cias com facil­i­dade, ou tirar con­clusões jurídi­cas que lev­am a um esta­do de espíri­to e de exal­tação reli­giosa muito perigosa para os fiéis e van­ta­josa (formaliter/materialiter) para os “chefes caris­máti­cos” (sim­i­lar a “nuvem pri­va­da de água e trans­porta­da pelo ven­to”). Cer­ta­mente é líci­ta a per­gun­ta espec­u­la­ti­va: Como pode um ver­dadeiro vigário de Cristo pro­mul­gar o NOM, o Con­cílio Vat­i­cano II, bei­jar o Corão…? A respos­ta é árd­ua e é pre­ciso deixar aos fiéis ampla pos­si­bil­i­dade de opinião (como a respeito do dog­ma da pre­des­ti­nação) e esper­ar o juí­zo dog­máti­co ou a indi­cação defin­i­ti­va e pru­den­cial da Igre­ja hierárquica (eleição canôni­ca= sana­tio in radice; o ter gov­er­na­do de fac­to e quan­to ao Títu­lo de Autori­dade tam­bém de dire­ito, tam­bém se Exer­cí­cio de tal Gov­er­no deixa per­plex­i­dades e som­bras).

Out­ros fiéis se per­gun­tam tam­bém lici­ta­mente: Como você diz que Paulo VI (Ben­to XVI) não é Papa, quan­do todos – fiéis, his­to­ri­adores, cardeais, bis­pos, embaix­adores e chefes de Esta­do – (“exce­to para qua­tro Padres e uma cen­te­na de fiéis”) o recon­hecem como tal?

Ø  Pes­soal­mente me parece que a estra­da a ser per­cor­ri­da seja aque­la do mag­istério “pas­toral”, que não quer ser assis­ti­do infalivel­mente e então pode con­ter erros, sem destru­ir com isto a solidez da “Rocha” sobre a qual Cristo fun­dou a Igre­ja: Pedro e seus suces­sores. Segun­do o Cardeal G. Siri, La Chiesa.A Rev­e­lação trans­mi­ti­da, Roma, Studi­um, 1965, “o Papa é infalív­el quan­do propõem uma ver­dade a se reter com assen­ti­men­to abso­lu­to” (pg 97). E se é ver­dadeiro que o Papa pode ser infalív­el tam­bém no mag­istério ordinário (e não somente no extra­ordinário) ocorre especi­ficar em quais condições bem pre­cisas o é; coisa que os “tesis­tas” geral­mente não fazem.

A “crise” con­cil­iar e pós-con­cil­iar é um perío­do de eclipse da fé e de autori­dade não exerci­ta­da ou mal exerci­ta­da, a qual pas­sará, como todas as crises que a Igre­ja con­heceu, de maneira que Deus con­sidere mais opor­tu­na. Se pode com­parar a Igre­ja do Con­cílio Vat­i­cano II a um homem em “coma pro­fun­do”, no qual o cére­bro não emite ondas detec­táveis, mas o coração bate e não ces­sa de res­pi­rar. Bem, este homem não está mor­to, emb­o­ra sua vida seja muito reduzi­da, quase a um nív­el de veg­e­ta­ti­vo. Assim o Exer­cí­cio do Poder da Hier­ar­quia a par­tir do Con­cílio “econômi­co” Vat­i­cano II é quase ‘veg­e­ta­ti­vo’, mas não está mor­ta, assim como a divin­dade de Cristo era escon­di­da durante a sua Paixão, mas não desa­pare­ceu.

■ Em alguns casos, muito raros, tam­bém depois do Con­cílio Vat­i­cano II o Papa quis, e ele disse, empre­gar a infal­i­bil­i­dade, através do mag­istério não só “pas­toral” mas dog­máti­co e vin­cu­lante, como por exem­p­lo no caso da inadimis­si­bil­i­dade do sac­er­có­dio fem­i­ni­no, no qual João Paulo II especi­fi­cou que a rejeição deste era sen­tença infalív­el et se ex se irreforma­bile. Cfr. Car­ta Apos­tóli­ca Ordi­na­tio sac­er­do­tal­is (22. V. 1994): “Por­tan­to, a fim de tirar toda dúvi­da sobre uma questão de grande importân­cia, que se rela­ciona com a div­ina con­sti­tu­ição da Igre­ja, em vir­tude de Nos­so min­istério de con­fir­mar os irmãos (Lc, XXIII, 32), declar­amos que a Igre­ja não tem em nen­hum modo a fac­ul­dade de con­ferir a mul­heres a orde­nação sac­er­do­tal e que está mes­ma sen­tença deve ser tida em modo   defin­i­ti­vo para todos os fiéis da Igre­ja.  Além dis­so a s. Con­gre­gação para a dout­ri­na da fé deu um Respon­sum (fir­ma­do em for­ma especí­fi­ca por João Paulo II) a dúvi­da Utrum doc­t­ri­na (28.x.1995) no qual especí­fi­ca que “A dout­ri­na (…) da Car­ta Apos­tóli­ca Ordi­na­tio Sac­er­do­tal­is como deve reter-se como defin­i­ti­va, a par­tir do Depósi­to da fé. Está dout­ri­na exige um assen­ti­men­to defin­i­ti­vo, porque fun­da­da sobre a Palavra de Deus escri­ta e con­stan­te­mente con­ser­va­da e apli­ca­da na Tradição da Igre­ja des­de o iní­cio, foi infalivel­mente pro­pos­ta pelo mag­istério ordinário e uni­ver­sal. Por­tan­to o Romano Pon­tí­fice, no exer­cí­cio do seu min­istério de con­fir­mar os irmãos (Lc, XXII, 32) propôs a mes­ma dout­ri­na com uma declar­ação for­mal, afir­man­do explici­ta­mente aqui­lo que se deve ter sem­pre, em qual­quer lugar e por todos, enquan­to per­ten­cente ao Depósi­to da fé” (DS, 304‑3041). A teo­ria do “não-mag­istério   dos Papas do con­cílio é con­tra­di­ta pelos fatos (declar­ação de João XXIII e de Paulo VI sobre o val­or do Vat­i­cano II como ‘mag­istério somente pas­toral’) e abre o cam­in­ho a tese sede­va­can­tista, pois se há “não-mag­istério” a cinqüen­ta anos, não se há nem sequer autori­dade (a qual tem o trí­plice munus do mag­istério, sac­erdó­cio e império; não existe uma autori­dade que tem o munus do “não-mag­istério”, não seria autori­dade por definição) a qual enquan­to fala­va e ensi­na­va (ora e sobre­tu­do pas­toral­mente, ora e rara­mente dog­mati­ca­mente).

►É um fato que há teól­o­gos alta­mente qual­i­fi­ca­dos, que não fazem parte da resistên­cia estri­ta­mente tradi­cional­ista, os quais em revis­tas espe­cial­izadas e muito lidas con­tin­u­am a ensi­nar a ver­dade e colo­cam o prob­le­ma da dis­cordân­cia entre a dout­ri­na tradi­cional da Igre­ja e os últi­mos ensi­na­men­tos “pas­torais”. Por exem­p­lo mons. Brunero Gher­ar­di­ni em “Divini­tas” (fun­da­da pelo ex reitor da Lat­er­a­nense [pre-con­cil­iar], mons. Anto­nio Piolan­ti), Cidade do Vat­i­cano, nº 2/2008, da qual ele é hoje o Dire­tor, escreveu um belís­si­mo arti­go (“A questão polêmi­ca do deicí­dio”, pg. 215–223), na qual sus­ten­ta e pro­va que para os católi­cos, os quais acred­i­tam na divin­dade de Cristo, a sua morte foi (pela União hipostáti­ca, das duas naturezas, div­ina e humana, em uma só Pes­soa div­ina do Ver­bo) um ver­dadeiro “deicí­dio”. Tam­bém na revista “Fides Catholi­ca”, Frigen­to, nº1/2008 escreveu um mag­ní­fi­co arti­go (“Sobre os Hebreus: assim, ser­e­na­mente”, pg 245–278). Nesse Mons. Gher­ar­di­ni dis­tingue o judaís­mo vet­ero-tes­ta­men­tário daque­le talmúdi­co, fala da respon­s­abil­i­dade do povo judeu, e não somente de seus Chefes, na morte de Jesus; críti­ca Nos­tra Aetate por ter omi­ti­do a palavra “deicí­dio”, a qual é a úni­ca que pos­sa definir exata­mente a morte de Jesus; afir­ma que o judaís­mo de hoje, con­tin­ua na recusa de Cristo e não ten­do rompi­do com aque­le o qual con­de­nou Jesus a morte, for­ma uma mes­ma enti­dade com ele; reafir­ma que o judaís­mo talmúdi­co descende de Abraão somente segun­do a carne e não pela fé; críti­ca pacata­mente, mas firme­mente a teo­ria da Anti­ga Aliança nun­ca revo­ga­da, porque a Nova sub­sti­tu­iu a Vel­ha que era cad­u­ca e ago­ra defin­i­ti­va­mente ultra­pas­sa­da; Tam­bém afir­ma, que Israel, ten­do recusa Cristo, foi aban­don­a­do por Deus e de tal aban­dono seguiu a “maldição” obje­ti­va desse, enquan­to “o pequeno resto de Israel”, que acred­i­ta­va que o Mes­sias entrou com os pagãos na Nova e Eter­na Aliança, final­mente, que os dons de Deus são irrevogáveis da parte de Deus se os home­ns coop­er­am com Ele, mas, se o aban­don­am, são por Ele aban­don­a­dos e então, con­cluí qual­i­f­i­can­do o ensi­na­men­to “pas­toral”, do Con­cílio Vat­i­cano II ao pós-con­cílio, como “teo­logi­ca­mente absur­do, mas politi­ca­mente cor­re­to”. Mons. Gher­ar­di­ni escreveu tam­bém vários arti­gos sobre “cole­gial­i­dade”, colo­can­do a nu a con­tradição intrínse­ca.

Como se vê, tudo não está encer­ra­do. Exis­tem ordens reli­giosas, que são abso­lu­ta­mente firmes na dout­ri­na tomista (reim­primem a obra do P. C. Fab­ro), se fun­dam sobre a espir­i­tu­al­i­dade ina­ciana (os “Trin­ta dias” obri­gatórios a cada cin­co anos), pregam mis­sões pop­u­lares segun­do o esti­lo de S. Afon­so Maria Ligório (Apar­el­ho de morte) a luz dos Exer­cí­cios de San­to Iná­cio. Out­ros dis­se­cam a questão da maçonar­ia em maneira apro­fun­da­da, cien­tí­fi­ca e no espíri­to de Leão XIII e Padre Kolbe. Muitos retor­nam a Mis­sa Tri­denti­na. Ordens monás­ti­cas e eremi­tas fazem um bem enorme, tam­bém graças ao “Motu pro­prio” de 7 de jul­ho de 2007 (vis­to debaixo), ao qual acres­cen­tam a orto­dox­ia (defi­ciente no alto) doutri­nal sem a qual ela seria anu­la­da; se veja o óti­mo livro de Med­i­tações sobre os Atos dos Após­to­los de  Don Divo Bar­sot­ti, re-impres­so pela San Pao­lo di Cinisel­lo Bal­samo em 2008 e o sem­pre atu­al “Get­se­mani” do Cardeal Giuseppe Siri, lança­dos por uma daque­les Insti­tu­tos reli­giosos, que sofr­eram e supor­taram a tem­pes­tade “con­cil­iar”.

Há tam­bém Insti­tu­tos espe­cial­iza­dos em litur­gia e can­to gre­go­ri­ano, que fazem con­hecer aos fiéis a beleza da Mis­sa “ante-70”.

Fora da “Tese” e do Inti­tu­to MBC (assim como qual­quer insti­tu­to que não seja a Igre­ja Romana, a qual ape­nas foi prometi­da por Deus assistên­cia e inde­fectibil­i­dade até o fim do   mun­do) há ver­dade, bon­dade e sal­vação ain­da que em graus diver­sos. É um fato e “con­tra fatos, não valem argu­men­tos”. A Igre­ja não acabou, ela se regen­era, porque é div­ina­mente assis­ti­da. Não pre­cisamos de «mas-“sacri“» thucista para sobre­viv­er.

Con­clusão

Se pode duvi­dar ini­cial­mente e em teo­ria se os Papas “con­cil­iares” são legí­ti­mos, mas na práti­ca a eleição canôni­ca e a aceitação de fac­to lhes con­fir­mam como Papas que gov­er­nam a Igre­ja tam­bém de jure quan­to ao Títu­lo de Autori­dade, emb­o­ra o Exer­cí­cio dessa deixa mais que per­plex­os, mes­mo ater­ror­iza­dos.

Onde se pode recon­hecer Ben­to XVI, sem seguir-lo nos even­tu­ais atos dire­ta­mente con­trários a ver­dadeira religião, onde o exer­cí­cio prati­co da sua Autori­dade de fac­to e de jure deixa ao menos, dúvi­das e incertezas. Cer­ta­mente per­manece o mis­tério como pos­sa um Papa colo­car atos con­trários a Religião. Infe­liz­mente é um mis­tério tremen­do que nos toca viv­er e supor­tar hoje. Não ten­ho a pre­ten­são de tê-lo esclare­ci­do (cfr. Hipótese do “mag­istério pas­toral e não div­ina­mente assis­ti­do”, então sus­cep­tív­el de erros, sem dano – por­tan­to – a infal­i­bil­i­dade e a inde­fectibil­i­dade da Igre­ja e do Papa), mas não pen­so nem sequer que a úni­ca solução reside exclu­si­va­mente na “Tese de Cas­si­ci­acum” (extra quam non ‘esset’ sal­lus). Ben­to XVI gov­er­na de fac­to, tem o Títu­lo de Papa de jure, todavia o Exer­cí­cio de tal títu­lo é defi­ciente.  Além dis­so, não pos­so ir, nem quero impor a quem quer que seja a min­ha opinião, todavia acon­sel­ho aos pobres fiéis de cer­tos “chefes caris­máti­cos” de deixar-los ir, porque, como diz o provér­bio romano: “ Quem é muito ami­go do Padre e do Médico/ vive doente e morre heréti­co”. Quan­do os sac­er­dotes favore­cem a tendên­cia dos sim­ples fiéis a dis­cu­tir as questões de alta teolo­gia sem a dev­i­da preparação, e os leva a con­clusões irreais,  lhes arruí­nam espir­i­tual­mente; obje­ti­va­mente não perseguem o “Fim-Bem” da Igre­ja e de seu min­istério sac­er­do­tal, que é a “salus ani­marum”, que são necessários para obter a fé e a cari­dade sobre­nat­u­rais e não a alta ciên­cia teológ­i­ca (“Tese de Cassiciacum”/Antítese de Ver­rua), a qual não é requeri­da aos fiéis e que nem sequer todos os sac­er­dotes pos­suem nec­es­sari­a­mente, mas só  os “teól­o­gos de profis­são” e aprova­dos pela Igre­ja.

  1. Ignazio di Loy­ola(Obras Com­ple­tas, Madrid, BAC, 1982, pp. 289–290) escrevia em 1546 em uma “Car­ta aos Padres da Com­pan­hia de Jesus” que ““Em questões teológ­i­cas difí­ceis e não definidas, deve se dar o próprio pare­cer com humil­dade e paz, con­for­man­do-se a instrução e a capaci­dade do ouvinte, insistin­do mais na práti­ca da Igre­ja, exor­tan­do a seguir o bom cos­tume; ao invés de deixar-se envolver na con­tro­vér­sia para a qual não existe con­clusão cer­ta e que são em segui­da perigosas para quem as expli­ca e para quem as escu­ta. 

É por isto que após ter expres­so min­ha hipótese (11), me apli­co a procu­rar sal­var a min­ha alma com a aju­da de Deus, per­manecen­do lig­a­do ao cer­to deixan­do de parte o incer­to; queren­do “faz­er o bem e evi­tar o mal, porque este é o homem todo”, sem prestar atenção aos rumores que não tem fun­da­men­to, mas sem­pre pron­to a respon­der a quem traz argu­men­tos váli­dos e não insul­tos gra­tu­itos. “Se estou no erro que Deus me livre, se estou no cer­to, que Deus me man­ten­ha” digo parafrase­an­do San­ta Joana D’Arc.

[11] Quoad sub­stan­ti­am Ben­to XVI é Papa de jure (ou tem o Títu­lo de Autori­dade Papal) e Gov­er­na de fac­to: mas quoad mod­um o Exer­cí­cio de tal autori­dade é pas­toral­mente defi­ciente. Como é pos­sív­el (propter quid) não o sei explicar per­feita­mente, mas bas­ta saber (quia) que para a Lei uni­ver­sal da Igre­ja (São Pio X, 25 de dezem­bro de 1904, Con­sti­tu­ição Apos­tóli­ca Vacante Sedes Apos­toli­ca nº 79), ‘um Papa que com­prou simo­ni­a­ca­mente a eleição pon­tif­í­cia é val­i­da­mente Papa”. Ora San­to Tomás de Aquino – o Doutor Comum da Igre­ja – escreve que “a simo­nia é con­sid­er­a­da here­sia”, [“simo­nia haretis dic­i­tur”], (S. Th., II-II, q. 100, a. 1, ad 1um) e São Pio X can­on­i­zou a tese do Angéli­co em uma “Con­sti­tu­ição Apos­tóli­ca”, que é uma das Car­tas invi­adas pelo Papa de própria ini­cia­ti­va, em matéria dog­máti­ca ou dis­ci­pli­nar; essa, nor­mal­mente, são vin­cu­lantes dog­mati­ca­mente ou uni­ver­sais juridica­mente, são assis­ti­das pela infal­i­bil­i­dade (cfr. F. Roberti‑P. Palazz­i­ni, op. cit., 1° vol., p. 146). Tam­bém a pres­ti­giosa enci­clo­pe­dia cat­toli­ca (Cit­tà del Vat­i­cano, 1950, vol. IV, coll. 779–780) con­fir­ma o val­or infalív­el de uma Con­sti­tu­ição apos­tóli­ca ou apos­tóli­ca dis­ci­pli­nar de caráter uni­ver­sal, escreven­do que as Con­sti­tu­ições apos­tóli­cas ou pon­tif­í­cias “São atos solenes do Romano Pon­tif­íce nos quais vêem tratadas graves prob­le­mas que dizem respeito a dout­ri­na e a dis­ci­plina (…). Ess­es são os atos leg­isla­tivos mais solenes na for­ma e mais impor­tantes no con­teú­do, que o Sumo Pon­tí­fice emana motu pro­prio e dire­ta­mente, com eficá­cia de lei ger­al (…). Nor­mal­mente dizem respeito a definições e decisões acer­ca da fé ou a dis­ci­plina ger­al da Igre­ja (…). Se dis­tinguem clara­mente dos out­ros atos leg­isla­tivos pon­tif­í­cios que se ref­er­em a provi­men­tos de menor importân­cia e de caráter par­tic­u­lar (Motu pro­prio, quirogra­faria, etc.)”. Pon­to e bas­ta. Se qual­quer um quisesse con­tes­tar tam­bém a autori­dade teológ­i­ca do Doutor Comum da Igre­ja San­to Tomás de Aquino e a autori­dade pon­tí­fi­ca de uma “Con­sti­tu­ição apos­tóli­ca” uni­ver­sal de São Pio X sente-se bem, porque eu não ten­ho mais tem­po a perder.

Vel­letri, 15 de novem­bro de 2008

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