Pérolas agostinianas


Espiritualidade, Filosofia, Teologia / segunda-feira, junho 22nd, 2015

Padre Curzio Nitoglia

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Cas­ti­gat riden­do mores

San­to Agostin­ho no seu Comen­tário a primeira Epís­to­la de São João (mes­mo enquan­to pre­ga­va aos seus fiéis de Hipona na sem­ana San­ta de 413), com o seu espíri­to firme­mente irôni­co (“cas­ti­gat riden­do mores”/brincando e rindo diz a ver­dade), faz algu­mas com­para­ções que não podem nos deixar indifer­entes por que:

  • 1º) se de uma parte somos brin­cal­hões, diver­tidos e agradáveis,
  • 2º) da out­ra somos tam­bém sérios, pro­fun­dos e severos.

De fato, a justiça e a mis­er­icór­dia, a ale­gria e a sev­eri­dade não se excluem, mas se com­ple­tam e se har­mo­nizam como diz a S. Escrit­u­ra: “Justi­tia et Pax oscu­latae sunt”.

Os por­cos e os home­ns

A primeira péro­la agos­tini­ana diz respeito a uma con­sid­er­ação que o San­to de Hipona faz sobre a pas­sagem do Evan­gel­ho segun­do João, em que Jesus per­mite que os demônios entrem em uma inteira vara de por­cos, que vão se lançar em um pen­has­co e mor­rer com grave dano para o seu pro­pri­etário. O dia­bo pede ao Reden­tor, que lhe havia expul­so de um pobre homem pos­suí­do por eles, de poder entrar no cor­po dos por­cos. Os dia­bos são ouvi­dos. Muitas vezes os jus­tos que rezam, nota S. Agostin­ho, não o são, ao con­trário os dia­bos o foram. Todavia, não é pre­cisa se parar nas aparên­cias. De fato, a von­tade dos demônios se real­iza para o seu cas­ti­go, enquan­to se o jus­to não é ouvi­do é para o bem da sua alma. S. Paulo rezou três vezes a Jesus para lib­era-lo da sua enfer­mi­dade, mas não foi ouvi­do “porque a vir­tude se reforça na enfer­mi­dade e nas mis­érias”. Então, nem sem­pre o não ser ouvi­dos é sinal de não ser­mos ama­dos.

Agostin­ho se per­gun­ta porque Jesus fez isso e responde que isto advém com o fim de nos demon­strar que “o dia­bo dom­i­na sobre quan­tos con­duzem uma vida sim­i­lar àque­las dos por­cos”. Atenção, então, a nós. Não viva­mos como os por­cos os quais são os úni­cos ani­mais que não lev­an­tar a cabeça ao céu, olham sem­pre para baixo e se revi­ram na lama, ou seja, busque­mos viv­er para ir ao Paraí­so, não nos deix­e­mos enfeitiçar pelas coisas deste mun­do e envolver pelo vício durante o cur­so da nos­sa vida. De fato, “se recol­he aqui­lo se plan­ta” (S. Agostin­ho, Med­i­tação sobre Car­ta de amor de São João, Roma, Cit­tà Nuo­va, 1980, pg. 158–159).

Cas­ti­gos e docil­i­dades aparentes e reais

Em segun­do lugar o Bis­po de Hipona nos adverte de não ser­mos fal­sa­mente mis­eri­cor­diosos, mas ao con­trário real­mente jus­tos.

A cari­dade não é desan­i­ma­da, ente­di­ante, con­de­scen­dente, fra­ca e mole” (cit., p. 187).

Eis um out­ro sim­páti­co exem­p­lo agos­tini­ano que não pode não sus­ci­tar a nos­sa hilar­i­dade. O mer­cante que quer vender ou se ali­men­tar dos fran­gos, os engor­da, lhes ali­men­ta abun­dan­te­mente, mas não o faz por amor, pelo con­trário por inter­esse e por um inter­esse bas­tante venal, gozoso e assas­si­no. “O mer­cante para vender, lison­jeia, mas é duro no coração: o pai para cor­ri­gir o fil­ho que se com­por­ta mal o cas­ti­ga, mas sem fel. Não acred­i­ta amar o teu ser­vo preguiçoso pelo fato que não o golpeia ou que amas teu fil­ho pelo fato que não o cas­tigue: esta não é cari­dade, é moleza.

Eis porque a cari­dade é sim­boliza­da pela pom­ba. De fato, a pom­ba não tem o fel enquan­to o cor­vo sim, todavia em defe­sa do seu nin­ho com­bate com o bico e com as unhas, golpeia sem amar­gu­ra. Quem é que não cor­rige o próprio fil­ho? Quem é pai que não dá nun­ca cas­ti­gos? E todavia, parece aparente­mente enfure­ci­do. O amor ver­dadeiro se enfurece, o fal­so lison­jeia (como o mer­cante que engor­da os seus fran­gos para mata-los quan­do estão muito gor­dos). A cari­dade, em cer­to modo, enfurece, mas sem veneno, ao modo das pom­bas, ou seja, sem fel como os cor­vos” (cit., p. 187–188).

A esposa fiel e a adul­tera

Para explicar a difer­ença entre o temor servil e aque­le fil­ial – excla­ma S. Agostin­ho – façamos o exem­p­lo de duas mul­heres casadas, da qual uma tem a intenção de come­ter adultério, mas tem o temor que o mari­do a cas­tigue. Ela teme o mari­do, mas o teme porque ama aqui­lo que é mau: o adultério. A pre­sença do mari­do lhe é inde­se­jáv­el, teme o seu retorno. Aque­les que tem ape­nas o temor servil são sim­i­lares a esta primeira esposa e temem a pre­sença e o juí­zo de Cristo.

Ao invés dis­so, a segun­da esposa ama o seu esposo, não o quer trair, bus­ca a sua pre­sença, teme ape­nas perde-lo. Ela que o esposo se dis­tan­cie dela ou que ela se dis­tan­cie dele. A primeira teme ser cas­ti­ga­da, a segun­da ser aban­don­a­da. Como nos des­gos­ta o com­por­ta­men­to da primeira esposa, assim, deve­mos não ter só o temor servil do cas­ti­go da parte de Deus. A cari­dade per­fei­ta lança fora o temor servil ape­nas como ele­men­to prin­ci­pal da relação com Deus. O temor servil é o começo da sabedo­ria, mas não é a per­feição, que con­siste sobre­tu­do no amor ou temor fil­ial de Deus sem excluir total­mente o con­se­quente temor dos cas­ti­gos” (cit., pp. 223–225).

O amor é uma “cura de beleza”

Deus nos amou primeiro quan­do eramos seus inimi­gos e está­va­mos em peca­do e então, feios espir­i­tual­mente. Amando‑o nos tor­namos belos espir­i­tual­mente adquirindo a graça san­tif­i­cante” (cit., pp. 226–227).

Ora, S. Agostin­ho deu um out­ro exem­p­lo – o mais diver­tido e brin­cal­hão – para faz­er nos enten­der como podemos nos tornar belos (espir­i­tual­mente) a par­tir do con­fron­to com uma mul­her muito feia (fisi­ca­mente), que ama um homem belo (ou vice-ver­sa).

O Hiponate escreve: “Que faz um homem bru­to e deforme quan­do vê uma bela dona (ou vice-ver­sa): Poderá, talvez, o homem (ou a mul­her) se tornar belo aman­do uma mul­her bela: O feio a ama e quan­do se olha no espel­ho enrubesce, de tal for­ma é feio, olhar a bela mul­her que ama. Que fará, então, para se tornar belo? Talvez se meta diante do espel­ho a esper­ar que chegue a beleza? Não, porque mais pas­sa o tem­po, mas se tor­na feio com o avançar da vel­hice, a qual nos tor­na sem­pre mais feios.

Humana­mente e fisi­ca­mente dev­e­ria se reti­rar, mas se ama ver­dadeira­mente e espir­i­tual­mente a mul­her, então amas nela a casti­dade, não a beleza do cor­po. Caros irmãos, a nos­sa alma é feia por causa do peca­do, mas essa pode se tornar bela se se arrepende e Deus vem inabitar nela.  Então, só Deus e o amor de Deus são capazes de faz­er tornar belo (espir­i­tual­mente) um homem feio (fisi­ca­mente). Deus é a própria Beleza sub­sis­tente. Nós podemos ter um pouco de beleza de Deus se o amamos, ape­nas então, de deformes e feios espir­i­tual­mente nos tor­namos belos e fil­hos de Deus” (cit., pp. 227–229).

Con­clusão

Amar o próx­i­mo é amar a Deus, odi­ar o próx­i­mo é odi­ar a Deus.

Deus é cari­dade” escreve São João na sua primeira Epís­to­la. Ora, se alguém afe­ta a cari­dade comen­ta­da por San­to Agostin­ho, odeia e ofende Deus. Então, se odi­amos o próx­i­mo odi­amos Deus que é cari­dade. Além dis­so, se Deus nos man­da amar o próx­i­mo como a nós mes­mos por amor de Deus e Deus mais que a nós mes­mos, mas nós des­obe­de­ce­mos a Deus odian­do o próx­i­mo, odi­amos tam­bém a Deus (cit., pp. 230–231).

Eis o porquê pro­fun­do, lógi­co e sobre­nat­u­ral­mente rev­e­la­do do dev­er de amar o próx­i­mo.

Paz e bem a todos

Padre Curzio Nitoglia

22/5/2015

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