Dúvida e certeza — Cardeal John Henry Newmann


Filosofia / sexta-feira, junho 26th, 2015

Gramáti­ca do assen­ti­men­to
Jonh Hen­ry New­mann
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Quem a bus­ca ain­da não a encon­trou: ain­da está pre­so a dúvi­da, dese­ja encon­trar, con­fir­mar ou des­men­tir a sua profis­são atu­al. Seria absur­do que um de nós se definisse ao mes­mo tem­po crente e bus­cador. Daqui deri­va o falar de alguns de uma dura situ­ação em que se encon­tra o católi­co, ao qual não é líc­i­to bus­car a ver­dade do seu cre­do. Cer­to não o pode, ou não é mais um crente. Não pode estar ao mes­mo tem­po den­tro e fora do cor­po da Igre­ja. Avis­ar que se está bus­can­do é sinal que não encon­trou, é falar no plano do mais bási­co sen­so comum. Pos­to que bus­car quer diz­er duvi­dar e duvi­dar não se con­cil­ia com o crer, o católi­co que se prepara para uma bus­ca sobre a sua fé declara implici­ta­mente de não lhe pos­suir. Já lhe perdeu. Aqui, de fato reside a sua mais clara jus­ti­fi­cação: ele não é mais católi­co, mas aspi­ra a tor­na-lo. Quem lhe quisesse vetar a bus­ca lhe fecharia a por­ta do estábu­lo depois que os bois fugi­ram. Se ele está em dúvi­da, que coisa pode faz­er mel­hor do que bus­car? De qual out­ro modo pode se tornar nova­mente católi­co? No seu caso, a renún­cia a inves­ti­gação seria sinal que ele se con­tenta com a sua incredul­i­dade. Mas assim falan­do eu tra­to o argu­men­to em abstra­to, sem ter em con­ta as con­tradições a qual são sujeitos os home­ns. Os home­ns muitas vezes se esforçam em ter unidos em si ele­men­tos incom­patíveis. Não duvi­dam, mas se com­por­tam pro­pri­a­mente como se duvi­dassem. Creem, mas a sua fé é fra­ca, e pre­stando ouvi­do sem neces­si­dade a out­ras objeções se expõem a perde-la. E há espíri­tos para os quais racionar sobre uma ver­dade é insep­a­ráv­el de con­testá-la; inda­gar quer diz­er pôr sob proces­so. De out­ra parte exis­tem crenças assim pre­ciosas que, se a metá­fo­ra me é líci­ta, não podem ser lavadas sem restringirem-se e sem que per­cam cor. De tudo isto ten­ho em con­ta; mas aqui estou racioci­nan­do sobre princí­pios gerais e não sobre casos indi­vid­u­ais. Os princí­pios são estes: a bus­ca impli­ca a dúvi­da enquan­to a inda­gação não a impli­ca; quem assente a uma dout­ri­na ou a um fato lhe pode inda­gar a cred­i­bil­i­dade sem con­tradiz­er-se, mas a rig­or não pode colo­car em dúvi­da a ver­dade (Gram­mat­i­ca dell’Assenso, 116).