Igor Safarevic: “As Origens Heréticas do Anarco/Social/Comunismo”


Apologética / terça-feira, dezembro 22nd, 2015

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Padre Curzio Nitoglia

Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

 

Social­is­mo, anar­quis­mo e lib­er­al­is­mo econômi­co

Já trata­mos do Anar­quis­mo e das suas relações com o Social/comunismo e com o Lib­er­al­is­mo econômi­co lib­ertário tam­bém chama­do “Anarco/liberalismo econômi­co” ou “Anarco/Capitalismo”.

No pre­sente arti­go ver­e­mos, base­an­do-nos sobre o óti­mo livro de Igor Safare­vic, “O social­is­mo como fenô­meno históri­co mundi­al” (Moscou, 1977, tr. It., Milão, La Casa di Matri­ona, 1980, Milão – Viter­bo, Effediefe, 1999), as ori­gens hereti­cais comuns aos movi­men­tos social­is­tas, comu­nistas e lib­ertários.

Essas doutri­nas (Anar­quis­mo, Lib­er­al­is­mo econômi­co e Social/comunismo), como escreve­mos no arti­go sobre o anar­quis­mo, pub­li­ca­do neste site, são sub­stan­cial­mente sim­i­lares (autono­mia do homem de qual­quer ser e val­or) e aci­den­tal­mente difer­entes (ditadu­ra da plu­toc­ra­cia para o lib­er­al­is­mo econômi­co e ditadu­ra do pro­le­tari­a­do para o comu­nis­mo, enquan­to o anar­quis­mo é um mis­to de lib­er­al­is­mo econômi­co lib­ertário e de comu­nis­mo enquan­to quer chegar a sociedade sem class­es como o social/comunismo, mas ime­di­ata­mente e indi­vid­u­al­is­ti­ca­mente sem pas­sar pela rev­olução cien­tifi­ca­mente e cole­ti­va­mente orga­ni­za­da pelo pro­le­tari­a­do marx­is­ti­za­do).

Ori­gens reli­giosas hereti­cais do social­is­mo

No seu livro Safare­vic nos mostra as ori­gens reli­giosas e hereti­cais do social­is­mo na antigu­idade pagã e sobre­tu­do cristã, no medie­vo, na refor­ma protes­tante e na rev­olução mod­er­a­da ingle­sa (gnós­ti­cas e maniquéias do IV a.C. até ao II sécu­lo d.C., pau­peri­s­tas, mile­nar­is­tas e cátaras no medie­vo, Anabatismo protes­tante e Puri­tanis­mo britâni­co da primeira rev­olução ingle­sa de 1648).

Natureza comum das seitas cristãs/socialistas do maniqueís­mo a rev­olução ingle­sa.

O caráter comum destes movi­men­tos heréti­cos, que partem já do Maniqueís­mo e da Cabala e sobre­tu­do do Gnos­ti­cis­mo “cristão” do II sécu­lo d.C. e chegam a rev­olução ingle­sa do sécu­lo XVII-XVIII (de onde nasceu o Neo­con­ser­vadoris­mo britâni­co e estadunidense), é a recusa glob­al da sociedade vigente e do mun­do com os seus lim­ites, que não são suportáveis para os heréti­cos utopis­tas e gnós­ti­cos, que pre­ten­dem para o homem uma dig­nidade infini­ta e para o mun­do uma per­feição abso­lu­ta, escor­re­gan­do, assim, para o pan­teís­mo. O Gnos­ti­cis­mo anti­go é a matriz de todas as here­sias social­izantes e o Pan­teís­mo lhe é o mín­i­mo comum denom­i­nador. Além dis­so, eles querem o aba­ti­men­to cien­tifi­ca­mente vio­len­to e de mas­sa (Marx­is­mo) ou a ultra­pas­sa­men­to utopis­ti­ca­mente indo­lor indi­vid­u­al­ista (Anar­quis­mo) da sociedade vigente. Enfim, gostari­am de con­stru­ir já neste mun­do um “novo paraí­so ter­restre” em que reinem a feli­ci­dade e a justiça abso­lu­tas, neg­li­gen­cian­do ou negan­do o além vida.

A abolição da família através da comu­nal­i­dade das mul­heres e a rup­tura do legame gen­i­tores-fil­hos (v. a “Sociedade do Livre espíri­to e do Livre amor”), da pro­priedade pri­va­da (v. o Marx­is­mo), o bem estar mate­r­i­al ao grau mais ele­va­do (v. o Lib­er­al­is­mo econômi­co), são as con­clusões prat­i­cas as quais chegam estes movi­men­tos.

Gnos­ti­cis­mo e here­sias “cristãs/socialistas anti­gas

Na antigu­idade clás­si­ca gre­ga temos Aristó­fanes († 385 a. C.) e Platão († 347 a. C.), nos primeiros tem­pos das here­sias cristãs os Nico­laí­tas, que no I sécu­lo d.C. pre­gavam a comu­nal­i­dade dos bens e das mul­heres, e os Car­poc­ra­cianos que no sécu­lo II pre­gavam o “Livre amor” e a sal­vação através do peca­do, con­sideran­do-se além e aci­ma do bem e do mal.

Here­sias social­is­tas medievais

No medie­vo, expli­ca Safare­vic, os pais do Social/comunismo mod­er­no, foram os Cátaros e os Albi­gens­es, que se difundi­ram no sécu­lo XI na Europa cen­tro oci­den­tal (França, Espan­ha e Itália), ess­es eram reple­tos de ódio pela Igre­ja e o Papa­do e ensi­navam a inc­on­cil­i­a­bil­i­dade entre a matéria (intrin­se­ca­mente má) e o espíri­to (total­mente bom), porque a primeira era criatu­ra do Deus mal­va­do (o Mal abso­lu­to, ou seja, o Deus pes­soal e tran­scen­dente da Rev­e­lação mosaico-cristã) e o segun­do era criatu­ra do Deus bom (o Pneu­ma, o En-Sof, o Plero­ma que é inde­ter­mi­na­do e indefinido). Tudo isto lhe lev­a­va a negar a Encar­nação do Ver­bo, o Cris­tian­is­mo e a Igre­ja de Cristo. Todavia, de uma ini­cial teo­ria rig­orista moral abso­lu­ta e rad­i­cal ess­es pas­savam a um lax­is­mo desen­f­rea­do, con­sideran­do-se os eleitos ou os gnós­ti­cos aci­ma do bem e do mal, aos quais tudo, até mes­mo e sobre­tu­do o peca­do, era não ape­nas per­mi­ti­do mas man­da­do como meio de san­tifi­cação, enquan­to o matrimônio e a pro­cri­ação eram con­sid­er­a­dos abso­lu­ta­mente ilíc­i­tos. Ess­es chegavam tam­bém ao assas­si­na­to dos sac­er­dotes e ao incên­dio de Igre­jas, como acon­te com o Bis­po de Mân­tua em 1235 e a uma Igre­ja de Brés­cia em 1225.

Os mile­nar­is­tas amalri­cianos

Depois no sécu­lo XII apare­ce­r­am as here­sias mile­nar­is­tas de Joaquim de Fiore († 1202), já ampla­mente tratadas neste site, e a con­heci­da de Amal­ri­co de Bena (próx­i­mo a Chartres) da qual me ocupo no pre­sente arti­go. Amal­ri­co († 1207) foi pro­fes­sor na Sor­bone, mas aí foi acu­sa­do de here­sia e depois con­de­na­do por Inocên­cio III. Todavia, deixou atrás de si uma forte sei­ta dos Amalri­cianos ou Aumar­i­anos. Ele foi refu­ta­do pelo Beato Hen­rique Suso e por San­to Tomás de Aquino, que lhe repreen­der­am um pan­teís­mo abso­lu­to, em que sobre­tu­do os Amalri­cianos se tor­nam como Jesus ver­dadeiros home­ns e “ver­dadeiros deuses”. A sua era e è aque­la do Espíri­to e então, do Amor. Por­tan­to, todo ato feito por amor, mes­mo que fos­se o mais abom­ináv­el moral­mente, se tor­na bom. Safare­vic expli­ca que os Amalri­cianos se fazi­am chamar de “irmãos do Livre Espíri­to” ou “Espíri­tos livres” e prat­i­cavam o inces­to e a homos­sex­u­al­i­dade e ado­ravam Satanás. Dos amal­ra­cianos nasce­r­am os Begar­dos e as Beguinas, como fenô­menos esotéri­cos para as pes­soas sim­ples e de class­es não ele­vadas, car­ac­ter­i­zadas tam­bém pela suas doutri­nas con­tra a pro­priedade pri­va­da, a família, a monogamia, a Igre­ja e o Esta­do.

Os anabatis­tas de Mün­ster em Ves­tifália

Do protes­tantismo Zuriquen­ho, mod­er­ada­mente eras­mi­ano, de Zwínglio (1520) nasce a sei­ta mais rad­i­cal dos Anabatis­tas na Saxô­nia em 1521, a obra de Tomás Münz­er e Nico­lau Storch, car­ac­ter­i­za­da por um forte impul­so rev­olu­cionário e vio­len­to, que lev­ou a guer­ra civ­il na Ale­man­ha (a “guer­ra dos cidadãos”) e se difundiu na Suiça, Boêmia, Áus­tria, Dina­mar­ca, Holan­da e um pouco tam­bém na Inglater­ra. Atual­mente o Anabatismo foi absorvi­do pelo menos vio­len­to movi­men­to protes­tante estadunidense dito dos “Batis­tas”. O Anabatismo era car­ac­ter­i­za­do por uma recusa anárquica do poder civ­il e do Esta­do. A cidade de Mün­ster e Ves­tifália em 1534 se tor­na pub­li­ca­mente uma colô­nia anabatista, em que se impun­ha a comunhão dos bens e a poligâmia, mas em 1535 foi expug­na­da e com­ple­ta­mente saque­a­da. O Anabatismo é con­sid­er­a­do “a ala esquer­da do protes­tantismo”, forte­mente comu­nista, paci­fista e anti-trinitário.

Nasce do Anabatismo o Uni­taris­mo de Bian­dra­ta, Serve­to e Soci­ni, que influ­en­ciou o Puri­tanis­mo das duas rev­oluções ingle­sas (1649 e 1688) e aque­le da rev­olução estadunidense (1776), das quais nasceu o Neo­con­ser­vadoris­mo estadunidense e britâni­co.

A primeira e a segun­da rev­olução ingle­sa

O Protes­tantismo inglês nasce com o divór­cio de Hen­rique VIII Tudor, que deu nasci­men­to a religião angli­cana (1534) influ­en­ci­a­da não por Lutero († 1546), Melânc­ton († 1560), e Zwínglio († 1531), mas pelo holandês Eras­mo de Rot­ter­dam (1446–1536). O Angli­can­is­mo foi muito mais mod­er­a­do que o Luteranis­mo, se pode definir uma via de meio entre Protes­tantismo dog­máti­co e Catoli­cis­mo litúr­gi­co.

No sécu­lo XVII os Anabatis­tas se deslo­caram da Holan­da para a Inglater­ra, e se fundi­ram com os Lolar­dos (os Pau­peri­s­tas holan­deses do sécu­lo XIV). A primeira rev­olução ingle­sa (1648) coin­cide com o relança­men­to do Anabatismo alemão de Münz­er e Storch na Inglater­ra, onde foram cap­i­tanea­d­os por John Lil­burne († 1657), um dos chefes mais extrem­is­tas do exérci­to puri­tano (com fortes tendên­cias anabatis­tas, anti-trinitárias e comu­nistas) e der­am nasci­men­to a sei­ta dos “Ranters” (“pre­gadores bom­bás­ti­cos”), que se fundi­ram com os Quak­ers (“trem­u­lantes”) em 1650 e viram ser dirigi­dos por Oliv­er Cromwell.

As eta­pas das duas rev­oluções ingle­sas são as seguintes: em 1603 com a morte da rain­ha Eliz­a­beth se extingue a casa Tudor e começa o reino dos Stu­art com James I (1603–1625). A sua políti­ca era forte­mente abso­lutista e antipar­la­men­tarista, do pon­to de vista reli­gioso era anti-católi­ca e anti-puri­tana. Então, os Puri­tanos ou Calvin­istas ingle­ses em 1620 deixaram a Inglater­ra e sobre o navio Mayflower chegaram as Améri­c­as. A parte seten­tri­on­al foi con­quis­ta­da pelos colonos holan­deses e britâni­cos e foi chama­da “Nova Inglater­ra”, quem em 1776 mudará de nome e pas­sará a se chamar “Esta­dos Unidos da Améri­ca”, enquan­to a parte cen­tro-merid­ion­al foi con­quis­ta­da pelos espan­hóis e pelos por­tugue­ses.

A James I sucede Car­los I (1625–1649), que aguça o abso­lutismo régio con­tra o par­la­men­to inglês e o abso­lutismo reli­gioso angli­cano con­tra os Puri­tanos e os Católi­cos. Foi assim que os Calvin­istas esco­ce­ses se revoltaram con­tra o rei em 1637 e em 1642 eclodiu uma ver­dadeira e própria guer­ra civ­il entre o rei e o exérci­to do par­la­men­to cap­i­tanea­do por Oliv­er Cromwell, que venceu o rei em 1645 e depois de um lon­go proces­so o con­de­nou a morte em 1649. Então, na Inglater­ra se teve uma for­ma gov­er­na­ti­va repub­li­cana e dita­to­r­i­al de 1649 a 1659 sob Oliv­er Cromwel e seu fil­ho.

Durante este decênio a Inglater­ra com­bate a Irlan­da católi­ca, con­tra a Holan­da (1652–54) e con­tra a Espan­ha alian­do-se (1657–59) com a França do Cardeal Júlio Maz­zari­no († 1661) para obter o pre­domínio sobre os mares e sobre o mun­do e no inte­ri­or con­tra os “Nive­ladores” (Lev­ellers) uma sei­ta ain­da mais rad­i­cal do Calvin­is­mo ou Puri­tanis­mo inglês. Oliv­er morre em 1658 e seu fil­ho dev­e­ria renun­ciar depois de ape­nas um ano de poder, porque não pos­suía as qual­i­dades do pai. O poder retornou aos Stu­art com o rei Car­los II (1660–60), que era forte­mente abso­lutista em políti­ca, mas em religião não era hos­til ao Catoli­cis­mo.

Seu irmão James II (1685–88) emb­o­ra con­tin­uan­do no abso­lutismo politi­co se aprox­i­mou sem­pre mais do Catoli­cis­mo e fez bati­zar nesse o seu pri­mogêni­to. Então, o par­la­men­to se revoltou e chamou para reinar o sober­a­no holandês Guil­herme III de Orange (1688–1702), que era calvin­ista e maçom. Esta é a segun­da rev­olução ingle­sa chama­da “glo­riosa” espe­cial­mente pelos neo­con­ser­vadores anglo-amer­i­canos e pelos teo-con­ser­vadores ital­ianos, porque acon­te­ceu sem esparg­i­men­to de sangue. De 1688 na Inglater­ra vig­o­ra uma monárquia con­sti­tu­cional onde quem gov­er­na real­mente é o par­la­men­to.

A rev­olução ingle­sa é coetânea  e coex­iste com a “Rev­olução indus­tri­al”, onde em 1733 se desen­volveu a tec­nolo­gia (que já exis­tia), mas foi apli­ca­da para a sem­pre maior pro­dução econômica/industrial. A invenção do tear mecâni­co aciona­do pela ener­gia hidráuli­ca (1733–1769) mata o tra­bal­ho arte­sanal, da peque­na agri­cul­tura e do tra­bal­ho a domi­cilio.

Nasce a fábri­ca mod­er­na com um alto número (entre 600 e 1000) operários tran­ca­dos em um enorme edifí­cio, a repe­tir con­tin­u­a­mente as mes­mas lim­i­tadas oper­ações por 16/18 horas tra­bal­hadas por dia. Se abrem as minas de carvão fós­sil em que os operários desci­am em situ­ações perigosas nas vísceras da ter­ra para extrair tam­bém out­ros min­erais, se expande a indús­tria met­alúr­gi­ca para a fusão nos alto fornos de metais. Enfim, em 1768 se apli­cou o vapor (que já era con­heci­do) na util­i­dade da prat­i­ca indus­tri­al: trans­portar os car­rin­hos de carvão fora das minas, acionar as máquinas das fábri­c­as e mais tarde a loco­mo­ti­va de trens.

O urban­is­mo degrada­do e alien­ante foi uma con­se­quên­cia da rev­olução indus­tri­al. De fato, os operários vivi­am em fave­las próx­i­mas as fábri­c­as insalu­bres. Se pense que em Man­ches­ter em cer­ca de 100 anos (entre 1690 e 1800) a pop­u­lação pas­sou de 6 mil para 80 mil habi­tantes. Os cidadãos e os pequenos artesãos ficaram des­ocu­pa­dos e nas pre­sas da fome. Os pro­pri­etários, ten­do as máquinas e então, baixa neces­si­dade de mão de obra, podi­am impor horários e salários desumanos e tam­bém as mul­heres e cri­anças dev­e­ri­am entrar nas fábri­c­as para a manutenção da família. Quem se adoen­ta­va ou per­dia o tra­bal­ho não tin­ha nen­hu­ma pen­são ou pre­v­idên­cia social e médi­ca, então, era des­ti­na­do a mor­rer de fome. Os sindi­catos ou as vel­has cor­po­rações foram declar­adas fora da lei e, se alguém protes­ta­va com uma cer­ta veemên­cia e uma peque­na for­ma de revol­ta, se arrisca­va a pena de morte. Esta situ­ação cri­a­da pelo Lib­er­al­is­mo foi a mãe do Social­is­mo cien­tifi­co marx­ista.

A rev­olução amer­i­cana

O con­ti­nente amer­i­cano a par­tir de 1584 foi inva­di­do pelos primeiros colonos que fugi­ram da Inglater­ra, depois nos primeiros anos do Sécu­lo XVII pelos france­ses e então em 1620 foi ocu­pa­do pelos ‘Pais Pere­gri­nos’, calvin­istas que fugiam da Inglater­ra angli­cana (e em parte tam­bém da Holan­da), na sua parte seten­tri­on­al, que se chamou “Nova Inglater­ra” até 1776, quan­do com a rev­olução amer­i­cana foi renomea­da “Esta­dos Unidos da Améria” (Usa). A Espan­ha ocupou a parte cen­tro-merid­ion­al, que foi denom­i­na­da, ain­da hoje, “Améri­ca lati­na”, a França ocupou a metade com a Inglater­ra o Cana­da e Por­tu­gal ocupou o Brasil.

A rev­olução amer­i­cana – car­ac­ter­i­za­da reli­giosa­mente pelo calvin­is­mo, politi­ca­mente pelo democ­ra­tismo rousseauiano e pelo maçonar­ia – começou em 1774 a luta con­tra a Inglater­ra do rei Jorge III de Orange durante o ‘1º Con­gres­so da Filadél­fia’, em que foi redigi­da a “Declar­ação dos Dire­itos” e se pegou em armas con­tra a “mãe pátria” porque os colonos amer­i­canos que­ri­am con­quis­tar o West da Améri­ca e exter­mi­nar os amerín­dios ou indi­anos da Améri­ca, enquan­to o rei inglês o havia proibido; além dis­so, os colonos da ‘Nova Inglater­ra’ não que­ri­am pagar o aumen­to das taxas que a mãe pátria pedia depois da san­grenta e cus­tosa guer­ra dos sete anos.

Enfim, em 4 de jul­ho de 1776 no ‘2º Con­gres­so da Filadél­fia’ foi fei­ta a “Declar­ação de inde­pendên­cia” (escri­ta pelo maçom Thomas Jef­fer­son) em que se esta­b­elece:

1º) que os cidadãos tem o dire­ito de arru­inar qual­quer gov­er­no, que não respeit­em as fun­da­men­tais liber­dades civis e polit­i­cas;

2º) que a liber­dade tem um val­or abso­lu­to e é um fim e não um meio;

3º) que o “sen­ti­men­to reli­gioso” deve aco­mu­nar todos os colonos dos EUA, mal­gra­do a diver­si­dade dos dog­mas das difer­entes con­fis­sões reli­giosas a qual per­tencem;

4º) enfim se toma o nome de “Esta­dos Unidos da Améri­ca” (Usa) e em 1781 se chegou a vitória final dos EUA – aju­da­dos pela França, Holan­da e Espan­ha – con­tra a Inglater­ra, vitória que é rat­i­fi­ca­da no Con­gres­so de Ver­sal­h­es de 1783 por Jorge III de Orange.

Nos EUA, a par­tir do sécu­lo XVIII ao XX, sur­gi­ram espé­cies de movi­men­tos calvin­istas de origem anabatista, anti-trinitária e que não con­fes­savam a divin­dade de Cristo, que rep­re­sen­tam, segun­do Gio­van­ni Filo­ramo, o “neomile­nar­is­mo oci­den­tal”, dess­es fazem parte: os Adven­tis­tas do Séti­mo Dia, os Mór­mons, os Teste­munhas de Jeová que tem em comum

1º) rep­re­sen­tar a “ver­dadeira Igre­ja” do fim do mun­do;

2º pos­suir ape­nas eles a ple­na orto­dox­ia da fé, sobre­tu­do naqui­lo que diz respeito aos even­tos que pre­ce­dem o fim do mun­do ago­ra próx­i­mo;

3º) ser ape­nas eles os ver­dadeiros e per­feitos san­tos.

Além dis­so, existe uma sub­di­visão do Mile­nar­is­mo mod­er­no, esse vem definido, sem­pre por Filo­ramo, “Pós-mile­nar­is­mo otimista”. De fato, a parúsia segun­do este movi­men­to viria depois de um reino sim­bóli­co e não estre­ita­mente cronológi­co de mil anos de pro­gres­so e feli­ci­dade humana, desse fazem parte o Social Gospel (Evan­gel­ho Social) mais out­ras for­mas de “social­is­mo cristão”.

Enquan­to alguns ele­men­tos do nacional­is­mo amer­i­cano, que vê os EUA como o novo sacro Império Romano, são salpic­a­dos destas idéias de pós-mile­nar­is­mo otimista, de que se serve ampla­mente o movi­men­to dos neo­con­ser­vadores para expor­tar o amer­i­can­is­mo no mun­do inteiro.

Con­clusão

É inegáv­el que as ori­gens do Social­is­mo, do Lib­er­al­is­mo econômi­co e do Anar­quis­mo de dire­i­ta (“anar­co cap­i­tal­is­mo”) e de esquer­da (“anar­quis­mo indi­vid­u­al­ista”) são reli­giosas e heréti­cas. Ess­es tem em comum a crença:

1º) em um “paraí­so na ter­ra”;

2º) na dig­nidade abso­lu­ta e suma da pes­soa humana, que é o “deus” de si mes­ma;

3º) a aver­são por qual­quer hier­ar­quia humana e tran­scen­dente;

4º) a comunhão dos bens (comu­nis­mo) e das mul­heres (lib­er­tar­i­an­is­mo).

As eta­pas de tal proces­so partem da Cabala e do Gnos­ti­cis­mo anti­gos, chegam ao Mile­nar­is­mo medieval, ao Protes­tantismo clás­si­co, calvin­ista e angli­cano, depois ter­mi­nam nas Rev­oluções ingle­sas (1649 e 1688), naque­la amer­i­cana (1776) e chegam ao seu ápice na Rev­olução france­sa de 1789 e enfim, atual­mente, nos lev­ou aos lim­i­ares de um prováv­el con­fli­to mundi­al (v. Ucrâ­nia, Rús­si e EUA) ou uma guer­ra “civil/religiosa” inter­na na Europa, a qual já satu­ra 20 mil­hões de muçul­manos está para ser inva­di­da pelo novo Cal­i­fa­do, que o ISIS (o al qaedis­mo inte­gral­ista islâmi­co, que com­bat­eu sem suces­so – de 2011 a 2014 – con­tra a Síria de Assad) está para edi­ficar na Líbia de Fheddafi destruí­da pela França, pela Nato e pelos EUA (2011), depois de ter com­ple­ta­mente edi­fi­ca­do, em um só mês, um Cal­i­fa­do jihadista no Iraque de Sad­dam destruí­do pelos EUA e pela Nato (1990/2003).

Nos tem­pos atu­ais nasceu uma nova for­ma de pós-mile­nar­is­mo super-otimista amer­i­can­ista, que se serve de uma “reli­giosi­dade apoc­alip­ti­ca” para difundir o domínio do sionismo/americanismo no mun­do inteiro, coad­ju­va­da e supor­ta­da int­elec­tual­mente pelo neo­con­ser­vadoris­mo anglo/americano (Pop­per, Hayek, Mis­es, Mil­ton Fried­man, Noz­ick) e pelo teo­con­ser­vadoris­mo brasileiro (Plínio Côr­rea de Oliveira & TFP), europeu e espe­cial­mente ital­iano (Mar­cel Pera, Giu­liano Fer­rara, “Allean­za Cat­toli­ca” com Intro­vi­gne, Can­toni e Respin­ti e “Lep­an­to Foun­da­tion” de De Mat­tei, dois satélites da TFP brasileira).

O Lib­er­al­is­mo Mod­er­a­do (Locke) e o Anar­quis­mo Lib­er­al Rad­i­cal ou mini-anar­quis­mo (F. A. von Hayek  † 1992, L. von Mis­es † 1973, R. Noz­ick † 2002, Mil­ton Fried­man † 2006) declar­am que a Autori­dade é um mal enquan­to limi­ta a liber­dade do indi­vid­uo, mas é um mal abso­lu­ta­mente necessário, porque sem essa não seria pos­sív­el orga­ni­zar uma con­vivên­cia públi­ca e civ­il

Atenção! Mes­mo o Esta­tismo exager­a­do hegeliano (de dire­i­ta e de esquer­da) con­cede ao Esta­do muito poder, mas sem­pre para favore­cer e garan­tis a máx­i­ma liber­dade do indi­vid­uo, que é o cri­ador, o cen­tro e o fim do Esta­do (antropocen­tris­mo rad­i­cal). Isto é o “peca­do orig­i­nal” da mod­ernidade, do qual derivam duas cor­rentes ou ramos prin­ci­pais: o democ­ra­tismo lib­er­al (Locke, Hayek, Mis­es, Mil­ton Fried­man, R. Noz­ick) e o pan-Esta­tismo hobbesiano/hegeliano (Hobbes e Hegel, Marx e Gen­tile).

  1. Curzio Nitoglia

4 luglio 2014

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