Definição das paixões


Psicologia / terça-feira, dezembro 22nd, 2015

CAPÍTULO PRIMEIRO

DEFINIÇÃO DAS PAIXÕES

EXTRAÍDO DO LIVRO:

A MEDICINA DAS PAIXÕES

DE

JEAN BAPTISTE DESCURET

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

 

 

Dis­tinção entre comoções, sen­ti­men­tos, afe­tos, vir­tudes, vício e paixões

A con­fusão das coisas nasce daque­la das palavras.

O vocábu­lo paixão, ade­qua­do a sua gre­ga eti­molo­gia (πάθος), soa pena ou ao menos dis­posição a rece­ber comoções mais ou menos vivas, e a lhes cor­re­spon­der. Duas espé­cies de causa podem pro­duzir estas comoções, as causas exter­nas e as inter­nas. As primeiras agem sobre a per­ife­ria do cor­po, as secun­das ao con­trário tem o cen­tro do organ­is­mo por pon­to de par­ti­da da sua ação. Em ambos os casos, estas comoções mod­i­fi­cam mais ou menos o cére­bro, o qual ime­di­ata­mente comu­ni­ca a sua mod­i­fi­cação a qual­quer pon­to da nos­sa máquina por meio de numerosos con­du­tores chama­dos ner­vos.

Todos os afe­tos vivos, todas as paixões tem o triste priv­ilé­gio de adoe­cer o cor­po e o espíri­to, usan­do-se esta frase para notar o desen­volvi­men­to pro­duzi­do tan­to no físi­co quan­do na moral da paixão. Em tal modo se diz ser muitas vezes as afecções orgâni­cas do coração o resul­ta­do de afeições morais: e em anti­go se dava o nome de paixão hipocon­dría­ca ou histéri­ca a doenças res­i­dentes nos hipocôn­drios ou no útero.

As paixões, como jus­ta­mente obser­vam alguns autores, são assim chamadas porque o homem não as procu­ra, mas as sofre, o que vale diz­er que estão sujeitos as suas ações, e são nis­so pas­sivos.

«Chamamos paixões, disse o douto e judi­cioso Bergi­er, as incli­nações ou as tendên­cias nat­u­rais impul­sion­adas ao exces­so, porque os seus motos não são vol­un­tários: o homem é pura­mente pas­si­vo quan­do lhes pro­va. Se tor­na ati­vo ape­nas quan­do lhes con­sente ou lhes reprime.»

Mas se os moral­is­tas não estão de acor­do sobre a eti­molo­gia deste vocábu­lo paixão, opinam de diver­sas maneiras entorno ao sig­nifi­ca­do e a definição desse.

O chefe da sei­ta estói­ca, Zenon, define a paixão um tur­ba­men­to do espíri­to con­tra a natureza, que faz desviar a razão.

Galeno, seguin­do as idéias de Hipócrates e de Platão, con­sid­era as paixões como movi­men­tos con­trários a natureza da alma irra­cional, e lhe faz derivar todas de um dese­jo insaciáv­el. Acres­cen­ta que fazem o cor­po sair do esta­do nor­mal.

Dés­cartes as con­sid­era como movi­men­tos pro­duzi­dos por espíri­tos vitais emana­dos da glân­du­la pineal (sede da alma, segun­do ele), e quem em várias guisas agi­tam todas as partes do cor­po humano.

O praz­er pro­duz uma comoção grad­ual, e porém, ten­demos a ele; o opos­to acon­tece na dor, e porém, fugi­mos. Esta atração e esta repul­são são chamadas movi­men­tos da alma, não que a alma já não pos­sa mudar de lugar (um ser ima­te­r­i­al não ocu­pa espaço); mas para indicar que no amor e no ódio a alma se une com os obje­tos e se lhe sep­a­ra do mes­mo modo que o cor­po se aprox­i­ma a esse ou se lhe dis­tan­cia. Con­forme estas con­sid­er­ações, Bossuet e out­ros moral­is­tas cristãos definem as paixões movi­men­tos da alma, que, toca o praz­er ou a dor sen­ti­da ou imag­i­na­da em um obje­to, o segue ou se lhes dis­tan­cia.

Segun­do Gall e Spurzheim, os vocábu­los de afeição e paixão não con­vém abso­lu­ta­mente as fac­ul­dades prim­i­ti­vas da alma. O primeiro deve-se aplicar ape­nas as mod­i­fi­cações apre­sen­tadas pela fac­ul­dade, o segun­do ao exces­so da sua ativi­dade. A afeição não seria que uma espé­cie de qual­i­dade, a paixão uma espé­cie de quan­ti­dade.

Cer­tos moral­is­tas con­fundi­ram afeição e paixões; out­ros creram pôr no número destes os desvios habit­u­ais do âni­mo e os capri­chos mes­mo insos­sos e pas­sageiros. Os maiores por out­ro lado, reser­varam o vocábu­lo afeições aos sen­ti­men­tos, para assim diz­er, pas­sivos, como são a tris­teza, o des­gos­to, o medo; e chama­ram paixões ape­nas os sen­ti­men­tos altivís­si­mos, o amor, o ódio, a ira, a ambição, etc.

Alguns doutos médi­cos pre­ten­dem que a neces­si­dade de exerci­tar as fac­ul­dades int­elec­tu­ais pos­sa faz­er nascer tendên­cias pro­nun­ci­adís­si­mas, como seria a poe­sia, a pin­tu­ra, a músi­ca; mas que sim­i­lares tendên­cias, ou gos­tos que se quer diz­er, não são jamais impul­sion­a­dos até a paixão. Porém, com todo o respeito a autori­dade daque­les, não pos­so admi­tir uma opinião, a meu pare­cer, aber­ta­mente des­men­ti­da pelos fatos: tive cem ocasiões de ver pin­tores, poet­as e músi­cos antes de tudo, mostrar pela sua arte uma incli­nação, um trans­porte, um ardor tocante para a extrav­agân­cia, e até mes­mo uma vio­len­ta e ver­dadeira mono­ma­nia; funes­ta, e por mal for­tu­na muito fre­quente final­iza­da às grandes paixões.

 Esta dis­crepân­cia entre os escritores entorno ao sig­nifi­ca­do do vocábu­lo paixão deri­va sem fal­ta do ser a sua eti­molo­gia de um sen­ti­do muito vago e, direi antes, ilim­i­ta­do. Quem diz paixão, diz sofri­men­to; onde que toda comoção prova­da seria uma paixão.

Para tirar sim­i­lar con­fusão é abso­lu­ta­mente necessário restringir o sig­nifi­ca­do do vocábu­lo, e bem deter­mi­nar o sen­ti­do que deve ter. Diver­sa­mente, um poderá diz­er que as paixões são boas, um out­ro sus­ten­tará que são sem­pre más; um ter­ceiro pre­tenderá que não são nem boas, nem más, e depen­dera da sua qual­i­dade e do uso. Todas as nos­sas paixões, disse Rousseau, são boas quan­do somos seus sen­hores; todas são más quan­do lhes tor­namos escravos.

Antes de propa­gar a definição que pen­sei, creio opor­tuno antepor breve­mente algu­mas con­sid­er­ações, com o dup­lo fim de jus­ti­ficar a min­ha escol­ha, e dis­si­par a obscuri­dade que envolve este pon­to fun­da­men­tal da ciên­cia.

O homem é um ser essen­cial­mente lev­a­do a agir, ora por impul­sos inter­nos, ora por impressões exter­nas e trans­mi­ti­das a alma por meio dos sen­ti­dos. Destes impul­sos e destas impressões nascem para ele muitas neces­si­dades moventes de cada ação sua. O ani­mal e a cri­ança obe­de­cem subita­mente ao estí­mu­lo da neces­si­dade; o homem (enten­do o homem feito) age e sat­is­faz ao invés a esta neces­si­dade, ape­nas depois de ter jul­ga­do se pode ou se deve sat­is­fazê-lo (Ndt.: Agire sequitur esse, o agir segue o ser). O homem, então, é con­duzi­do por dois guias, a neces­si­dade e a razão; a primeira o solici­ta e o impul­siona, a out­ra o ilu­mi­na e o restringe. Lhe vem que a vida humana, como já vimos, out­ro não é que uma luta quase con­tin­ua entre o dev­er e a neces­si­dade. Acres­cen­ta que cada neces­si­dade com mui­ta vio­lên­cia sen­ti­da exci­ta um dese­jo igual­mente vio­len­to; que este dese­jo, se não é, então, ime­di­ata­mente reprim­i­do ou mod­er­a­do, nos faz quase sem­pre agir con­tra o dev­er e con­tra o nos­so mes­mo inter­esse. É fácil então, com­preen­der a ciên­cia mais útil ser sem dúvi­da aque­la que nos ensi­na pôr con­stan­te­mente as nos­sas neces­si­dades em har­mô­nia com os nos­sos deveres.

Vejamos ago­ra qual dis­tinção quer se esta­b­ele­cer entre paixões, comoções, sen­ti­men­tos, afe­tos, vir­tudes e vícios.

As paixões parece me podem definir-se: neces­si­dades desreg­u­ladas, quer por con­sue­tude começam nos seduzir, e ao finar se tor­nam os nos­sos tira­nos.

As comoções exci­tam mais ou menos a nos­sa sen­si­bil­i­dade; são praze­rosas ou dolorosas. Em ambos os casos podem chegar até a des­or­ga­ni­zar a máquina. Agem, então, como as paixões vio­len­tas, e por hábito se tor­nam até mes­mo ver­dadeiras paixões. Por isso um sagaz moral­ista De-Levis, notou que a mais perigosa de todas as neces­si­dade fic­tí­cias é a das comoções.

Os vocábu­los sen­sação, sen­ti­men­to e per­cepção indicam as impressões equiv­a­lentes dos obje­tos sobre a alma, com esta dis­tinção, porém, geral­mente admi­ti­da, que a sen­sação se ref­ere aos sen­ti­dos, o sen­ti­men­to ao coração e as per­cepções ao int­elec­to. Todas as três pro­duzem em nós choques ner­vosos, comoções de praz­er e de ale­gria, de dor e de tris­teza, primeiras fontes das nos­sas paixões.

Como o vocábu­lo sen­ti­men­to, o vocábu­lo afe­to (deriva­do do ver­bo lati­no affi­cere, tocar, faz­er impressão) indi­ca sim­ples­mente uma maneira de sen­tir, um modo qual­quer de ser mod­i­fi­ca­do. O afe­to, que tem por usu­al dis­tin­ti­vo uma qui­eta ativi­dade, é susce­ti­vo sem­pre de diver­sos graus, e se trans­for­ma em ardor, em ímpeto, em irra­cional­i­dade e em paixão. Na mul­her max­i­ma­mente tor­na­da mãe não é raro ver o afe­to lev­a­do até o heroís­mo, vale diz­er a uma espé­cie de con­sagração que lhe faz esque­cer de si mes­ma para sac­ri­ficar-se toda ao ser que lhe deve a vida.

Geral­mente falan­do, vem dado o nome de vício a degradação de nos­sos sen­ti­men­tos e vir­tude ao seu aper­feiçoa­men­to. Ver­e­mos mais adi­ante que o pro­gres­so dos vícios são infini­ta­mente mais rápi­dos que aque­les da vir­tude, e que o hábito do primeiro é muito mais forte e tenaz.

Con­sid­era sob o aspec­to social, a vir­tude é uma habit­u­al prefer­ên­cia do bem ger­al ao bem par­tic­u­lar. Esta gen­erosa prefer­ên­cia não se adquire sem lutar com o nos­so egoís­mo; ates­ta a força da alma, e por isso mes­mo merece o nome de vir­tude¹. Cada vez mais se tor­na rara na sociedade mod­er­na.

Em religião a vir­tude é o tri­un­fo habit­u­al da von­tade sobre as nos­sas depravadas incli­nações; é a saúde da alma con­ser­va­da pela inocên­cia, ou recu­per­a­da por meio da pen­itên­cia. Os moral­is­tas admitem qua­tro vir­tudes prin­ci­pais, chamadas cardeais, porque as con­sid­er­am como o fun­da­men­to de todas as out­ras: são a prudên­cia que lhes dirige; a justiça que lhes gov­er­na; a for­t­aleza que lhes sus­ten­ta; a tem­per­ança que lhes cir­cun­screve em jus­tos lim­ites.

As três vir­tudes teolo­gais do cristão são a , a esper­ança e a cari­dade que abraça as out­ras duas, porque é o vín­cu­lo do amor que une o homem ao homem, enquan­to une o homem a Deus.

Uma obser­vação fei­ta a muito tem­po lhe apre­sen­ta quase todas as vir­tudes colo­cadas entre dois opos­tos vícios como entre duas rochas; o porque, queren­do evi­tar um, muitas vezes se cai no out­ro; o difí­cil esta no ter o meio entre o estre­ito espaço que lhes sep­a­ra.

Como todas as incli­nações nat­u­rais ou fic­tí­cias, tam­bém as vir­tudes podem degener­ar em paixões, quan­do são lev­adas ao extremo, ou se lev­am ao exces­so em lhes exerci­tar. O sinal evi­dente que são chegadas a tal grau é que então ren­dem errô­neo o juí­zo, caso em que per­dem o nome de vir­tude.