Sócrates


Filosofia / terça-feira, dezembro 22nd, 2015

 

PADRE CURZIO NITOGLIA
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Intro­dução

Sócrates morre em 399 a.C. con­de­na­do for­mal­mente por “impiedade”, ou seja, porque não cria nos Deuses da cidade e porque cor­rompia com as suas doutri­nas a juven­tude de Ate­nas; mas a ver­dadeira razão da sua con­de­nação a morte – como escreve Platão no Eutífron – eram os ressen­ti­men­tos e os ciúmes de ordem políti­ca da parte da classe diri­gente de Ate­nas. Foi-lhe ofer­ta­da a pos­si­bil­i­dade de fugir, mas a recusa, bebe a cicu­ta que lhe vem dada pelos seus juízes, obe­de­cen­do como faz um sol­da­do do pelotão de exe­cução as ordens dos supe­ri­ores. Como Platão disse que Sócrates havia cer­ca de 70 anos quan­do mor­reu, se deduz que nasceu cer­ca de 469–470 a.C.

Sua mul­her era a famosa Xan­tipa defini­da como “a mul­her mais insu­portáv­el daque­las que são, foram e serão” (Xeno­fonte, Sim­pó­sio, II, 10).

Ele havia um físi­co fortís­si­mo, capaz das mais duras fadi­gas e de resi­s­tir aos rig­ores do frio inver­nal descalço e cober­to ape­nas com um fino man­to. De aspec­to era feio e desajeita­do.

Sócrates não escreveu nada. Para con­hecer o seu pen­sa­men­to deve­mos recor­rer aos teste­munhos de seus con­tem­porâ­neos e dos seus suces­sores dire­tos: Aristó­fanes, Platão, Xeno­fonte, Aristóte­les. Mas qual dess­es é mais con­fiáv­el? Me parece que o cam­in­ho segui­do por Gio­van­ni Reale (Socrate. Alla scop­er­ta del­la sapien­za umana, Milano, Riz­zoli 2000) seja a mais sábia. De fato, ele estu­dou todas as prin­ci­pais teste­munhas de Sócrates, sem con­sid­er­ar nen­hum abso­lu­ta­mente e uni­ca­mente priv­i­le­gia­do ao pon­to de excluir os out­ros. Nen­hu­ma fonte deve ser neg­li­gen­ci­a­da, mas exam­i­na­da e com­para com as out­ras acu­rada­mente. Então, “uma recon­strução de Sócrates pode ser fei­ta somente ten­do con­ta de todas as fontes” (G. Reale, Sto­ria del­la filosofia gre­ca e romana, Milano, Bom­piani, 2004, vol. II, Sofisti, Socrate e Socrati­ci minori, p. 124).

A filosofia da natureza e do homem

Segun­do Sócrates quem se ocu­pa de filosofia da natureza e se deixa absorv­er com­ple­ta­mente por ela esquece a si mes­mo, ou seja, aqui­lo que con­ta mais: o homem e os seus prob­le­mas (Xeno­fonte, Mem­o­ráveis, I, 1, 12). É cer­to que Sócrates deixou de lado o estu­do da natureza, mas sem empreen­der algu­ma oper­ação de super­ação da natureza a meta-natureza ou meta-físi­ca. Coisa que fez depois o seu dis­cípu­lo preferi­do Platão para empreen­der a “segun­da nave­g­ação” do sen­sív­el ao meta-sen­sív­el (Fédon). Sócrates, ao invés dis­so, deixou a natureza para dedicar-se ao homem. Então, fal­ta total­mente um implante metafísi­co em Sócrates de modo que o pai da metafísi­ca é Platão segui­do e aper­feiçoa­do por Aristóte­les.

Sócrates inda­ga pela essên­cia do homem para poder depois falar dele (psi­colo­gia) e resolver os seus prob­le­mas (éti­ca). Segun­do Sócrates os sofis­tas fal­haram sobre este argu­men­to porque não pen­e­traram a natureza do homem então falaram-lhe de maneira inapro­pri­a­da e depois resolver­am mal os seus prob­le­mas.

O homem para Sócrates é a sua alma (psiché) porque é a alma que dis­tingue o homem de qual­quer out­ra coisa. Ora, ninguém antes de Sócrates havia enten­di­do a psiché como alma, enquan­to depois de Sócrates o pen­sa­men­to europeu se fun­da sobre esta asso­ci­ação.

Sócrates ensi­na que a alma coin­cide com a sede da nos­sa ativi­dade racional e com o nos­so pen­sa­men­to. Eis porque só a par­tir de Sócrates o homem adquire o seu ver­dadeiro sen­ti­do de sujeito inteligente (o prob­le­ma do livre-arbítrio escapa a Sócrates). Na ver­dade, o pitagóri­cos e os órfi­cos acred­i­tavam que a alma fos­se sub­stan­cial­mente diver­sa do homem e do sujeito pen­sante, con­sciente e livre. A unidade do homem era com­pro­meti­da e nega­da ou pelo menos dilac­er­a­da. “Por­tan­to, se pode bem diz­er que Sócrates criou a tradição moral e int­elec­tu­al da qual a Europa sem­pre viveu, des­de então” (G. Reale, Sto­ria del­la filosofia gre­ca e romana, cit., p. 137).

socrate-3-nosceteipsvm

A dout­ri­na ou filosofia moral socráti­ca pode ser com­pen­di­a­da em duas fras­es:

  • 1º) con­hecer a si mes­mo;
  • 2º) ter cuida­do de si mes­mo.

Ora, con­hece a si mes­mo não sig­nifi­ca con­hecer o próprio cor­po, mas exam­i­nar-se inte­ri­or­mente e con­hecer a própria alma com as suas oper­ações int­elec­ti­vas. Assim, ter cuida­do de si sig­nifi­ca cuidar e cul­ti­var a própria alma e as suas oper­ações o seu agir. Esta é a tare­fa supre­ma da filosofia socráti­ca e Sócrates se sen­tia encar­rega­do pela Divin­dade de desen­volver esta mis­são a favor da edu­cação do âni­mo humano. E é por isto que Platão apre­sen­ta Sócrates como o médi­co espir­i­tu­al da alma (Alcebíades Maior).

Xeno­fonte con­fir­ma a inter­pre­tação platôni­ca de Sócrates quan­do escreve que para Sócrates “a alma é aqui­lo que no homem par­tic­i­pa mais inti­ma­mente do Divi­no e é a parte que dom­i­na sobre o cor­po” (Mem­o­ráveis, IV, 3, 14).

A éti­ca socráti­ca

Uma vez que os sofis­tas não havi­am estu­da­do a natureza do homem e não havi­am podi­do indi­vid­uar a sua ver­dadeira essên­cia não con­seguiram resolver o prob­le­ma moral da edu­cação do homem endereçando‑o a col­her o seu ver­dadeiro fim. Antes dis­so, haven­do con­fun­di­do o fim com os meios chegaram a dese­d­u­car e até mes­mo a arru­inar o homem.

A supe­ri­or­i­dade de Sócrates sobre os sofis­tas, segun­do Platão, con­siste pro­pri­a­mente no fato de que primeira­mente o homem se dis­tingue de todas as out­ras coisas pela sua alma. A ver­dadeira vir­tude humana para Sócrates con­siste em asse­gu­rar que alma pos­sa se tornar sábia, real­izan­do o eu espir­i­tu­al, inteligente e chegan­do, assim, a feli­ci­dade.

Int­elec­tu­al­is­mo éti­co

A vir­tude para Sócrates é sobre­tu­do ciên­cia e con­hec­i­men­to. O vício, então, é sobre­tu­do a ignorân­cia, ou seja, a fal­ta de ciên­cia. Todavia, Sócrates não con­trapõem, como fará Platão, alma e cor­po. Então, não despreza, nem depre­cia exces­si­va­mente, os val­ores nat­u­rais e físi­cos (força, har­mô­nia, saúde, beleza, vig­or…) se são sub­or­di­na­dos aque­les da alma (con­hec­i­men­to e liber­dade). “Sócrates pode dar ain­da um cor­re­to apreça­men­to aos val­ores tradi­cionais do cor­po, na medi­da em que ele não entende o cor­po como antítese da alma” (G. Reale, Sto­ria del­la filosofia gre­ca e romana, cit., p. 151). A con­clusão errônea tira­da por Sócrates é que se a vir­tude coin­cide com o con­hec­i­men­to ninguém peca vol­un­tari­a­mente ou por má von­tade, mas só por ignorân­cia. Isto é con­fir­ma­do por Platão (Pro­tá­go­ras), Xeno­fonte (Mem­o­ráveis) e Aristóte­les (Éti­ca a Nicô­ma­co). Nis­to se vê quan­to seja impor­tante não sep­a­rar o int­elec­to da von­tade para não chegar a con­clusão socráti­ca do peca­do como pura ignorân­cia. Tocará a Platão apro­fun­dar o pape da von­tade no agir humano. Cer­ta­mente per­manece a grandeza de Sócrates no haver feito coin­cidir a natureza e a vir­tude do homem com a alma e sobre­tu­do com o con­hec­i­men­to, mas não podemos parar ai. Quan­do, Sócrates afir­ma que se um con­hece o bem o quer nec­es­sari­a­mente e invari­avel­mente, afir­ma que o con­hec­i­men­to do bem é condição necessária e sufi­ciente para ser vir­tu­oso. De fato, se é ver­dadeiro que “nada é queri­do se antes não é con­heci­do” é tam­bém ver­dadeiro que a boa von­tade tor­na bom o homem e má von­tade o tor­na mal­va­do. O defeito da éti­ca socráti­ca – que será cor­rigi­da pouco a pouco por Platão, Aristóte­les e sobre­tu­do San­to Tomás de Aquino – é um int­elec­tu­al­is­mo exces­si­vo.

Toda a éti­ca gre­ga, se com­para­da a éti­ca cristã, resul­ta, no seu com­plexo, em vários mod­os int­elec­tu­al­ista. E não só Sócrates, mas nem mes­mo os filó­so­fos suces­sivos sou­ber­am prestar con­ta daque­la dramáti­ca exper­iên­cia humana que é o peca­do. Ess­es ten­der­am, mais ou menos, a reduzir o peca­do ou mal moral a um erro da razão” (G. Reale, Sto­ria del­la filosofia gre­ca e romana, cit., p. 158).

O autodomínio e a liber­dade inte­ri­or

Todavia, não se deve esque­cer que Sócrates intro­duz­iu na éti­ca o con­ceito de sen­ho­rio de si ou autodomínio moral, que é “o bem mais exce­lente dos home­ns” (Xeno­fonte, Mem­o­ráveis). O sen­ho­rio de si con­siste essen­cial­mente no domínio sobre a própria ani­mal­i­dade, sobre paixões, sobre impul­sos, nos momen­tos de dor e fadi­ga. Então, a alma se tor­na sen­ho­ra do cor­po, a razão sen­ho­ra dos instin­tos. Ao invés dis­so, se o cor­po pre­dom­i­nar o homem se tor­na sim­i­lar a um ani­mal sel­vagem.

Antes de Sócrates a liber­dade havia um sig­nifi­ca­do jurídi­co e políti­co. Com Sócrates essa pas­sa a sig­nificar o domínio da racional­i­dade sobre a ani­mal­i­dade através do con­t­role pela psiché. Dessa lhe segue a autar­quia moral, ou seja, o ser autônomo que é pro­pri­a­mente o homem vir­tu­oso e livre inte­ri­or­mente.

Segun­do Sócrates a autar­quia com­por­ta três con­se­quên­cias:

 

  • 1º) ser inde­pen­dente dos impul­sos físi­cos, dan­do o pri­ma­do a alma;
  • 2º) só a alma é sufi­ciente para nos faz­er alcançar a feli­ci­dade;
  • 3º) quem se aban­dona as coisas sen­síveis se tor­na depen­dem e perde a sua liber­dade, autono­mia, tran­quil­i­dade e feli­ci­dade.

Nat­u­ral­mente em Sócrates a liber­dade é sobre­tu­do int­elec­tu­al e racional e não é obra da von­tade, não é a liber­dade do quer­er sobre o praz­er, mas é a capaci­dade do int­elec­to de impor ao cor­po os próprios princí­pios.

O praz­er segun­do Sócrates

A arte de medir as coisas é fun­da­men­tal para obter o ver­dadeiro praz­er. Na ver­dade não é o praz­er em si que pode nos tornar felizes, mas uma sábia medi­da dele. O praz­er não é nem um bem e nem um mal em si mes­mo, mas sendo um meio orde­na­do ao fim se si con­segue a sub­mete-lo a dis­ci­plina da razão então se tor­na algu­ma coisa de pos­i­ti­vo, do con­trário não. O mes­mo vale para o útil. Segun­do Sócrates é útil aqui­lo que aju­da a alma. O útil para o cor­po lhe inter­es­sa só em função da util­i­dade para a alma.

A feli­ci­dade

O fim do homem é a feli­ci­dade e a filosofia moral socráti­ca entende ensi­nar ao homem que coisa faz­er para chegar a ela. A moral kan­tini­ana do dev­er pelo dev­er é uma novi­dade da mod­ernidade com­ple­ta­mente descon­heci­da ao mun­do clás­si­co grego/romano. A feli­ci­dade é dada pelos bens da alma, ou seja, pelo aper­feiçoa­men­to da alma medi­ante a vir­tude e espe­cial­mente a sabedo­ria int­elec­tu­al. A feli­ci­dade não é dada nem pelos bens exte­ri­ores nem sequer por aque­les do cor­po. Quan­do o homem chega a aper­feiçoar a sua alma medi­ante a vir­tude, ou seja, o con­hec­i­men­to, então é ple­na­mente si mes­mo, é ple­na­mente homem dota­do de alma racional. Como se vê o con­ceito de feli­ci­dade com Sócrates é ple­na­mente inte­ri­or­iza­do.

Ao con­trário tam­bém a infe­li­ci­dade não vem de fora, mas de den­tro do homem. Não são os out­ros a nos causar dano, mas nós mes­mos podemos nos faz­er os mais graves males. Platão faz diz­er a Sócrates que “quem é bom tem na sua bon­dade a maior defe­sa do mal e ninguém o pode arran­har” (Apolo­gia de Sócrates). Âni­to que con­de­nou a morte Sócrates não tocou Sócrates, mas prej­u­di­cou a si. Sócrates bebe tran­quil­a­mente a cicu­ta que Âni­to lhe havia orde­na­do tomar saben­do que isto não prej­u­di­caria a ele, mas a Âni­to. Todavia, é pre­ciso ter sem­pre bem em mente que a vir­tude para Sócrates é aque­la int­elec­tu­al e não aque­la moral ou da von­tade.

Além do mais, a vir­tude ou a sapiên­cia humana não tem neces­si­dade nem mes­mo de nada aci­ma de si. O con­ceito do além não é pre­sente em Sócrates, que não afron­tou teori­ca­mente o prob­le­ma da imor­tal­i­dade da alma e então de uma sua rec­om­pen­sa eter­na. “Ao nív­el da razão Sócrates não podia demon­strar a imor­tal­i­dade da alma porque lhe fal­ta­va as cat­e­go­rias metafísi­cas requeri­das para essa final­i­dade” (G. Reale, Sto­ria del­la filosofia gre­ca e romana, cit., p. 170).

A morte mata o cor­po, não dan­i­fi­ca a vir­tude ou a sabedo­ria do homem. Essa destrói a vida, mas não o haver vivi­do sabi­a­mente. Jan Patoc­ka comenta:”porque a vida não é tro­ca­da pelo medo da morte, ela se tor­na uma demo­ra unifi­ca­da próx­i­ma ao fim, que é a feli­ci­dade e então ao homem sábio não pode acon­te­cer nada de mal” (Socrate, Milano, Bom­piani, 2003, p. 455). Quem acred­i­ta naqui­lo em que crê Sócrates tem a feli­ci­dade entre as mãos. Nada pode tornar nos infe­lizes. Os heróis do mun­do grego são humana­mente perde­dores: Aquiles, Heitor, Antíg­o­na e Sócrates.

Sócrates e a políti­ca

Sócrates sente uma forte antipa­tia pela políti­ca mil­i­tante. Todavia, ensi­nou algu­ma coisa sobre a políti­ca como ciên­cia de viv­er em sociedade. O seu ensi­na­men­to diz respeito a polis gre­ga e espe­cial­mente ate­niense. Toda a sua dout­ri­na políti­ca é dirigi­da ao serviço de Ate­nas.

Ele tra­bal­hou toda a sua vida a fim de que os seus dis­cípu­los pudessem ocu­par-se da coisa públi­ca em Ate­nas do mel­hor modo.

Platão (Gór­gias) escreveu que a Divin­dade quer que Sócrates não fos­se um políti­co mil­i­tante, nem um polit­i­cante, mas que ensi­nasse a filosofia políti­ca aos out­ros e lhe tor­nassem capazes de faz­er boa políti­ca para o bem de Ate­nas.

O ver­dadeiro homem políti­co para Sócrates é o homem moral­mente bom, ou seja, sábio na alma e espe­cial­mente no int­elec­to, capaz de cuidar das almas dos out­ros cidadãos.

Sócrates criti­cou a democ­ra­cia porque con­fi­a­va na escol­ha da maio­r­ia a dis­tribuição das funções e deveres, enquan­to dev­e­ri­am ser dis­pen­sa­dos em base as com­petên­cias dos indi­ví­du­os.

A Teolo­gia socráti­ca

Sócrates foi con­de­na­do a morte como réu de não crer nos Deuses em que acred­i­ta­va as cidades de Ate­nas e porque havia intro­duzi­do out­ras novas Divin­dades (Xeno­fonte, Mem­o­ráveis). Então, não foi acu­sa­do de ateís­mo, mas de “here­sia nos con­fron­tos da religião do Esta­do” (G. Reale, Sto­ria del­la filosofia gre­ca e romana, cit., p. 179).

O pesa­do antropo­mor­fis­mo (físi­co e moral) do qual era car­rega­da a religião pop­u­lar da sua cidade rep­uta­da aos deuses lhe repug­na­va forte­mente.  Na ver­dade, Sócrates nega­va que os Deuses podi­am ter paixões, sen­ti­men­tos e cos­tumes não só humanos mas tam­bém neg­a­tivos. Já com Sócrates se nota a grande difer­ença entre religião pagã pop­u­lar e a con­cepção filosó­fi­ca sobre a Divin­dade que se aper­feiçoara cada vez mais com Platão e Aristóte­les.

Reagin­do con­tra o politeís­mo exas­per­a­do da reli­giosi­dade pop­u­lar, Sócrates se moveu para uma con­cepção filosófica/teológica da religião e da Divin­dade ain­da que não ten­ha chega­do ao monoteís­mo. Na antigu­idade não se chegou por Deus total­mente sobre o mun­do, entre Divin­dade e cos­mos não existe uma dual­i­dade e uma tran­scendên­cia, não haven­do ain­da Sócrates o con­ceito de pes­soa o seu Divi­no não é um Deus pes­soal e nem tran­scen­dente. Todavia, apli­cou a Divin­dade a sua cat­e­go­ria de éti­ca de vir­tude int­elec­tu­al e falou de Deus como de uma Inteligên­cia orde­nado­ra, final­izado­ra e como “Providên­cia’.

Xeno­fonte nos seus Mem­o­ráveis nar­ra haver escu­ta­do um diál­o­go entre Sócrates e Aristóte­les a respeito da Divin­dade, que se aprox­i­ma à uma demon­stração da existên­cia de Deus, e o resume assim:

  • 1º) o mun­do não é efeito do aca­so, mas é con­sti­tuí­do para chegar a um fim e então requer uma inteligên­cia que lhe ten­ha pro­duzi­do;
  • 2º) o homem é uma espé­cie de micro-cos­mo em que os órgãos são final­iza­dos em tal modo para poder serem expli­ca­dos só medi­ante uma inteligên­cia orde­nado­ra;
  • 3º) como a nos­sa alma e a nos­sa inteligên­cia não se vêem, mas se vêem os home­ns inteligentes e os artí­fices próx­i­mos as suas obras e ninguém pode­ria diz­er que fazem tudo ao aca­so e sem reflexão, a inteligên­cia e alma; assim é para a Divin­dade que não se vê, mas se vê as suas obras e não se pode diz­er que são fru­tos do aca­so, da irreflexão e da mate­ri­al­i­dade;
  • 4º) além do mais o homem é o úni­co ser que seja provi­do de alma e de int­elec­to pela Divin­dade se lhe cui­da mais que de todas as out­ras coisas e lhe tem uma espé­cie de “providên­cia”. Sócrates neste pon­to pôe um nexo ou uma analo­gia entre inteligên­cia div­ina e humana.

Todavia, o argu­men­tar de Sócrates sobre a Divin­dade é desprovi­do de qual­quer ele­men­to metafísi­co, é nar­ra­ti­vo, intu­iti­vo e serão Platão e sobre­tu­do Aristóte­les a dar fun­da­men­to metafísi­co as insti­tu­ições do bom sen­so socráti­co.

Além dis­so, a éti­ca socráti­ca é total­mente sep­a­ra­da da teolo­gia ou da von­tade div­ina, mas é toda cen­tra­da sobre a alma e sobre a inteligên­cia humana que coin­cide com a essên­cia do homem. A Divin­dade não inter­vém com prêmios ou cas­ti­gos nem neste mun­do nem no out­ro. A feli­ci­dade socráti­ca é inter­na ao homem, ou seja, sua alma se ela é sábia. O sábio leva em si a sua feli­ci­dade e a sua rec­om­pen­sa, o estul­to o seu cas­ti­go e a sua infe­li­ci­dade.

Então, os val­ores morais ou mel­hor int­elec­tu­ais não são impos­tos por Deus, mas uma vez que são val­ores supre­mos em si então a Divin­dade lhes recon­hece e lhes apro­va. Por isso a Divin­dade toma con­ta do homem sábio ten­do em com esse a inteligên­cia (“sim­il­ia cum sim­ilibus”) e não tra­ta de todos os home­ns. Como se vê é o exa­to opos­to do pen­sa­men­to medieval segun­do o qual con­sideran­do que Deus ama uma pes­soa a tor­na boa, enquan­to para Sócrates uma vez que uma pes­soa é sábia então Deus se lhe ocu­pa enquan­to se assemel­ha a Ele quan­to a sua sabedo­ria. A tran­scendên­cia não se encon­tra em Sócrates, a sua filosofia é cen­tra­da sobre o homem e sobre seus val­ores. A sua filosofia não é antropocên­tri­ca no sen­ti­do mod­er­no como anti-tran­scendên­cia, mas não é nem mes­mo aber­ta ao tran­scen­dente: o tran­scen­dente é ausente por fal­ta das cat­e­go­rias metafísi­cas ausentes em Sócrates, porém não é nega­do ou con­tra­di­to.

O méto­do dialógi­co socráti­co

Enquan­to os sofis­tas ten­di­am a dar exibição de cul­tura, a con­quis­tar o ouvinte tam­bém por lucro, Sócrates havia na mira o cuida­do da alma e sobre­tu­do do int­elec­to dos seus dis­cípu­los. Os sofis­tas segun­do Sócrates estragam as almas dos home­ns porque não lhes cuidam, mas lhes tor­nam escravas das suas aren­gas. Na ver­dade, a alma do homem não cui­da aren­gan­do as mas­sas mes­mo porque assim fazen­do se des­cui­da do indi­vid­uo que escu­ta e se lhe funde na mas­sa anôn­i­ma e amor­fa. A políti­ca mod­er­na com o fenô­meno das paradas de mas­sa colo­cou no auge a práti­ca dos sofis­tas e se dis­tan­ciou de Sócrates e da tradição da metafísi­ca clás­si­ca greco/romana e medieval, des­cuidou da edu­cação do indi­ví­duo para dis­solver a indi­vid­u­al­i­dade na sociedade e no total­i­taris­mo.

Sócrates cui­da­va das almas indi­vid­ual­mente (em sen­ti­do sério) com eles e não monolo­gan­do. O dia- “logos” para Sócrates con­siste no uso do int­elec­to que proce­den­do por per­gun­tas e respostas envolve mestre e dis­cípu­lo em uma bus­ca, em um apro­fun­da­men­to da ver­dade, que é ensi­na­da e demon­stra­da, fornecen­do uma respos­ta as objeções sérias, respos­ta que faz avançar não ape­nas o dis­cípu­lo, mas tam­bém o mestre que deve apro­fun­dar o tema em questão para refu­tar as objeções e respon­der a cada “por que?”. Os temas trata­dos por Sócrates são de natureza éti­ca, não metafísi­ca. Ele mira a exor­tação a vir­tude, sobre­tu­do a sabedo­ria int­elec­tu­al. Nis­to a filosofia romana será muito próx­i­ma a Sócrates que não a Platão ou Aristóte­les, mas não será int­elec­tu­al­ista como aque­la socráti­ca, bem que sobre­tu­do práti­ca.

Este ensi­na­men­to cus­tou a Sócrates a con­de­nação a morte. De fato, ele inter­ro­ga­va os cidadãos de Ate­nas e os aju­da­va a cuidarem das suas almas, ou seja, do seu int­elec­to e não serem escravos dos erros des­ti­la­dos pelos sofis­tas e pelos chefes da cidade. Para muitos Sócrates era um incô­mo­do, uma espé­cie de “gri­lo falante” que colo­ca­va a alma nua e lhe cor­ri­gia as suas incon­gruên­cias. Por isso como Pinóquio esmagou o gri­lo falante assim os chefes de Ate­nas con­denaram a morte Sócrates.

A iro­nia socráti­ca

Na sua bus­ca pela ver­dade Sócrates se serve da iro­nia, que eti­mo­logi­ca­mente sig­nifi­ca “dis­sim­u­lação”. Na ver­dade ele, lev­a­va o inter­locu­tor a exprim­ir-se livre­mente e total­mente sem hes­i­tação e even­tual­mente lhes obje­ta­va con­tra seus pre­juí­zos e erros, esconde a própria sabedo­ria, fin­ge não saber quase nada e depois o leva a descober­ta da ver­dade. No primeiro momen­to de irô­nia Sócrates lev­a­va aque­le com o qual deba­tia a recon­hecer a própria pre­sunção e então a própria ignorân­cia. Ele o con­stringia a definir exata­mente o tema sobre o qual se fala­va e depois estu­dan­do bem a definição dada lhe ilus­tra­va as defi­ciên­cias até faz­er con­fes­sar ao inter­locu­tor a própria ignorân­cia. Medi­ante este méto­do ques­tion­ador Sócrates livrou muitos da ignorân­cia e lhes lev­ou para abus­ca da ver­dade, mas fez tam­bém muitos inimi­gos, que fazen­do parte da classe diri­gente de Ate­nas o fiz­er­am ser con­de­na­do a morte. De fato, os medíocres não apre­cia­ram as refu­tações socráti­cas e con­sideran­do que “a sober­ba lhes impe­dia de admi­tir não con­hecer real­mente, acusavam Sócrates de con­fundir as idéias e de ser um semeador de dúvi­das” (G. Reale, Sto­ria del­la filosofia gre­ca e romana, cit., p. 208). Na real­i­dade, Sócrates destruía as fal­sas certezas dos sofis­tas, fonte para eles de gan­ho, e depois con­duzia a aquisição de certezas reais, fonte de liber­dade inte­ri­or. Sócrates ensi­na­va medi­ante um méto­do “maiêu­ti­co” porque aju­da­va as almas a “dar a luz” a ver­dade como uma “parteira”.

Sócrates não ensi­na ver­dades entre­gan­do-as de fora belas e prontas aos seus dis­cípu­los, mas medi­ante o debate, a refu­tação, a iro­nia e a maiêu­ti­ca leva as almas dos dis­cípu­los a descober­ta da ver­dade. O dis­cípu­lo é assim ocasião tam­bém para o mestre de apren­der a apro­fun­dar a sua ciên­cia. Para Sócrates o ver­dadeiro sapi­ente, ao con­trário do sofista, sabe não saber tudo de todas as coisas e assim é tam­bém um ver­dadeiro mestre que acende no dis­cípu­lo a chama da bus­ca da ver­dade e do mel­ho­ra­men­to moral.

Sócrates e a lóg­i­ca

Sócrates desco­briu o con­ceito ou a idéia int­elec­tu­al bem dis­tin­to do con­hec­i­men­to dos sen­ti­dos, além dis­so colo­cou o debate e o raciocínio na base de sua bus­ca filosó­fi­ca, mas se pode con­sid­er­ar com isto o fun­dador da lóg­i­ca européia?

Os his­to­ri­adores da filosofia o negam asserindo que o méto­do dialógi­co ou racio­ci­na­ti­vo socráti­co tem um fim éti­co e a lóg­i­ca, que tam­bém é inegavel­mente pre­sente no seu méto­do de bus­ca, é colo­ca­da em segun­do lugar. Na ver­dade, Sócrates não havia ain­da a sua dis­posição os con­ceitos de “uni­ver­sal”, “essên­cia”, “idéia”, “dedução”, que tomaram cor­po ape­nas com o Platão da maturi­dade e foram pos­tos em ple­na luz com Aristóte­les. Sócrates não desco­briu a natureza da idéia e da definição, mas abriu a por­ta a via que have­ria con­duzi­do a isto. É ver­dadeiro que bus­ca­va o que “coisa é” nos entes, mas não sig­nifi­ca que hou­vesse encon­tra­do a natureza ontológ­i­ca da essên­cia. Havia uma men­tal­i­dade rig­orosa e incli­na­da a lóg­i­ca, mas não elaborou a ciên­cia lóg­i­ca a nív­el teoréti­co, se bem que a viveu em cer­to modo na sua bus­ca pela ver­dade e no seu ensi­na­men­to, “na sua dialéti­ca se encon­tram os ger­mens que levaram a futuras descober­tas lóg­i­cas, mas não ain­da con­scien­te­mente for­mu­ladas” (G. Reale, Sto­ria del­la filosofia gre­ca e romana, cit., p. 239).

Os lim­ites da filosofia socráti­ca

Sócrates não tra­tou de maneira teóri­ca ou metafísi­ca o prob­le­ma da alma, não lhe deu a definição, não falou das suas fac­ul­dades, todavia falou daqui­lo que ela é em nós home­ns e de como nos tor­na sábios ou estul­tos. Será Platão a dar cat­e­go­rias metafísi­cas as descober­tas morais, éti­cas e de bom sen­so de Sócrates.

A sabedo­ria socráti­ca tem como obje­to o int­elec­to e a alma, essa nos aju­da a mel­ho­rar nós mes­mos ain­da que sua men­sagem era dirigi­da ape­nas aos ate­niens­es, nem mes­mo a todos os gre­gos e muito menos a toda humanidade.

Con­clusão: atu­al­i­dade de Sócrates

Sócrates, emb­o­ra nos lim­ites aci­ma indi­ca­dos, ensi­na tam­bém ao homem hodier­no que aqui­lo que con­ta mais é a alma humana e a solução éti­ca dos seus prob­le­mas. Então, a filosofia moral socráti­ca – que pode ser com­pen­di­a­da em duas fras­es: 1º) con­hecer a si mes­mo; 2º) ter cuida­do de si mes­mo – aju­da o homem con­tem­porâ­neo a exam­i­nar-se inte­ri­or­mente e a cuidar da própria alma e do seu agir.

Sócrates é por­tan­to, ain­da hoje o médi­co espir­i­tu­al da alma do homem. A alma, segun­do ele, é aqui­lo que no homem par­tic­i­pa mais inti­ma­mente do Divi­no e é essa que dom­i­na sobre o cor­po. Por isso Sócrates aju­da o homem de hoje no tra­bal­ho para que a alma pos­sa se tornar sábia, real­izan­do o eu espir­i­tu­al e inteligente. Sócrates intro­duz­iu na éti­ca o con­ceito (com­ple­ta­mente extravi­a­do pelo homem con­tem­porâ­neo) de sen­ho­rio de si, que é “o bem mais exce­lentes dos home­ns”.

Isso leva

  • 1º) a ser inde­pen­dentes dos impul­sos físi­cos, dan­do o pri­ma­do a alma;
  • 2º) a chegar a feli­ci­dade espir­i­tu­al;
  • 3º) a faz­er nos enten­der que quem se aban­dona as coisas sen­síveis se tor­na depen­dente delas e perde a sua liber­dade, autono­mia, tran­quil­i­dade e feli­ci­dade.

Por isso a infe­li­ci­dade não vem de fora, mas de den­tro do homem. Não são os out­ros a nos causar dano, mas nós mes­mos podemos nos faz­er os mais graves males.

Padre Curzio Nitoglia

26/10/2015

http://doncurzionitoglia.net/2015/10/28/socrate/

https://doncurzionitoglia.wordpress.com/2015/10/28/socrate/