Do Amor


Psicologia / terça-feira, dezembro 22nd, 2015

CAPÍTULO SÉTIMO
DO AMOR
EXTRAÍDO DO LIVRO:
A MEDICINA DAS PAIXÕES
JEAN BAPTISTE DESCURET
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

 

O amor é uma paixão só:
des­ta ela reúne todas as out­ras.
A sen­ho­ra de Suza.

 

Definições e sinôn­i­mos

 

O amor, no seu mais exten­so con­ceito, é aque­le irre­sistív­el encan­to que atraí todos os seres, é aque­la afinidade sec­re­ta que lhes une, é a celeste cen­tel­ha que lhe per­pet­ua: neste sen­ti­do tudo é amor na cri­ação¹.

Con­sid­er­a­do sob o aspec­to moral, o amor é uma tendên­cia da alma para o ver­dadeiro, o belo e o bom.

Na relação reli­giosa, Deus é amor, e amor é toda a sua lei. No amor de Deus então, sumo bem e cri­ador de todas as coisas: no amor dos home­ns, a mais nobre entre as suas cri­ações, é resum­i­da na teo­ria cristã do amor.

Do amor de Deus, que é o amor em toda a sua plen­i­tude, deri­va a lei har­môni­ca do amor dos home­ns, que abraça de uma vez família, pátria e humanidade, grandís­si­ma família que tem Deus por pai e por pátria o mun­do.

Aqui me lim­i­to a recor­dar estes diver­sos sen­ti­men­tos, como tam­bém o egoís­mo e o amor próprio, este o mais vivaz, aque­le o mais exclu­si­vo dos nos­sos afe­tos; e pas­so a me ocu­par uni­ca­mente do amor con­sid­er­a­do entre os dois sex­os.

«Muito difí­cil, asse­gu­ra La Rochefou­cauld, é definir o amor: estando a sua opinião seria na alma uma paixão a reinar, no espíri­to uma sim­pa­tia, no cor­po um quer­er escon­di­do e del­i­ca­do de pos­suir depois de muitos mis­térios o obje­to que se ama». La Rochefou­cauld con­funde aqui a galante­ria com amor: o ver­dadeiro amor não son­ha ape­nas reinar; sua feli­ci­dade é a feli­ci­dade do obje­to ama­do, e muitas vezes tam­bém vai beato da própria sub­mis­são.

Ber­nis ques­tiona:

«Con­heceis o fogo que toma cada for­ma dada-lhe pelo sopro, e que irrompe ou se enfraque­ce segun­do a impressão do ar mais viva ou mais mod­er­a­da? Se sep­a­ra, se reúne, se abaixa, se lev­an­ta; mas o sopro potente que o guia, que o agi­ta só para ani­ma-lo, jamais para extin­gui-lo: aque­le sopro é o amor, este fogo são as nos­sas almas».

A definição de Ber­nis é muito ani­ma­da, mas temo não seja muito lon­ga, e mais ain­da muito procu­ra­da.

Me absterei de repor­tar aque­la de Cham­fort que me parece ser, sim, pre­cisa e orig­i­nal, mas muito cíni­ca.

Para os fisi­ol­o­gis­tas, o amor é uma tendên­cia impe­riosa que atrai os sex­os um para o out­ro, a qual escopo prov­i­den­cial é a repro­dução da espé­cie. Nas bestas o amor poderá ser uma neces­si­dade físi­ca e nada além, um ímpeto pas­sageiro; mas no homem, e prin­ci­pal­mente no homem civ­i­liza­do, não deve con­sid­er­ar-se sep­a­ra­do da neces­si­dade moral, de um sen­ti­men­to que lhe acres­cen­ta a atração e a duração; este sen­ti­men­to é amizade, que eu vol­un­tari­a­mente definirei a metade do amor, mas a metade mais pura, mais bela e duráv­el.

Esta paixão, que o Buf­fon e out­ros escritores fiz­er­am muito mate­r­i­al, con­sideran­do lhe como a mais sim­ples de todas, para mim ao invés, estu­da­da no homem, uma das mais com­pli­cadas. Quan­tos diver­sos ele­men­tos se vêem nela! Em primeiro lugar o amor físi­co ou a neces­si­dade dos sen­ti­dos, instin­to propa­gador exci­ta­do pela beleza e pela graça ain­da mais que aque­la sedu­to­ra; depois a neces­si­dade de afe­to, fun­da­da espe­cial­mente sobre a esti­ma da qual­i­dade moral, das vir­tudes; em segui­da o amor próprio, que se insere em toda parte; muitas vezes tam­bém a curiosi­dade e a paque­ra; um pouco de temor, e por con­se­quên­cia uma pon­ta­da de ciúme; por últi­mo, a imag­i­nação, esta maga que com um pris­ma enganador mul­ti­pli­ca as qual­i­dades sedu­toras do obje­to ama­do, e que muitas vezes ela mostra até onde um mente mais sã não veria nada além de defeitos.

A maior dos moral­is­tas pare­cem ser con­cordes no con­fundir a galante­ria com o amor, e então a tal con­fusão deve-se atribuir a dis­crepân­cia que reina naqui­lo que escrever­am sobre a paixão da qual tra­to. E, no entan­to, quan­ta difer­ença! Menos viva, menos séria, mas mais ilu­mi­na­da e mais sen­su­al que o amor, a galante­ria bus­ca mais a beleza físi­ca que a beleza moral. O amor nos abre sem reser­va ape­nas ao obje­to ama­do; a galante­ria, ao invés, tem, por assim diz­er, o coração móv­el; nes­sa existe um pouco de brin­cadeira de mau gos­to e muito egoís­mo. É bem raro que a um ver­dadeiro amor se ten­ha pos­te­ri­or­mente um segun­do e menos ain­da um ter­ceiro: o sen­ti­men­to não pode sofr­er tan­ta prodi­gal­i­dade. Em muitos indi­ví­du­os as galante­rias são inu­meráveis; muitas vezes não pas­sam de um pas­satem­po, um hábito que degen­era em uma ver­gonhosa e abje­ta lib­erti­nagem.

O amor, impro­pri­ada­mente chama­do de platôni­co², vale diz­er, pri­va­do de qual­quer dese­jo eróti­co, não deve, por bem com­preen­der as definições, con­ser­var o nome de amor; é amizade, ou algu­mas vezes o êxtase des­ta. Tal sen­ti­men­to pode exi­s­tir entre duas pes­soas de sexo diver­so; mas para que seja duráv­el exige grande cal­ma dos sen­ti­dos e grande pureza de coração. Sem esta dupla condição seria perigosís­si­mo ter uma ami­ga que reunisse as graças da juven­tude e os atra­tivos da beleza. Cer­to, no ado­les­cente e no adul­to não cor­rup­to o primeiro amor é em seu princí­pio inteira­mente ide­al, e tal pode exi­s­tir por algum tem­po sem que idéias sen­suais lhe alterem a pureza; mas na nos­sa pobre natureza, servin­do o físi­co de instru­men­to a moral, o sen­ti­men­to pouco a pouco se mate­ri­al­iza e logo com a alma os sen­ti­dos se infla­mam e con­fun­dem.

A paque­ra, a propósi­to mal con­fun­di­da com a galante­ria, é vocábu­lo de origem france­sa, com o qual se ace­na as astú­cias do amor ou da vaidade, que bus­cam faz­er nascer dese­jos medi­ante uma provo­cação indi­re­ta, e tam­bém com uma fuga sim­u­la­da; na mul­her é a per­pet­ua fadi­ga da arte de agradar out­ros, se lhe encon­tra qual­quer vestí­gio até nas bestas fem­i­ni­nas.

«Nos seus amores, diz Rousseau, vejo capri­chos, escol­has, recusas con­cer­tadas, que assemel­hem muito a máx­i­ma que tem as mul­heres de irri­tar a paixão por meio de obstácu­los. Dois pom­bin­hos no beato tem­po dos seus primeiros amores, me ofer­e­cem um quadro bem diver­so da tola bru­tal­i­dade atribuí­da a eles pelas nos­sas pre­ten­sões sapi­entes. A bran­ca pom­ba segue pas­so a pas­so o seu caro, e se retrai não ape­nas se vol­ta a ele. Se ele per­manece imóv­el, o exci­ta com ligeiras bicadas; se si dis­tan­cia, o segue; se si ensa­ia, um pequeno vôo de seis pas­sos o atrai de novo: a inocên­cia da natureza usa ora o exci­ta­men­to ora a fra­ca resistên­cia com tal arte que ape­nas se encon­tra na mais destra paque­ra. Não, a brin­cal­hona Galatea não fazia mel­hor, e Vírgilio pode­ria extrair de um pom­bal uma das suas mais gen­tis ima­gens».

Notas:

 

1 –  Ndt.: Isso lem­bra “L’amor che muove il sole e l’altri stelle”, que dizia Dante na Div­ina Comé­dia, e por aqui ger­ou um comen­tário inter­es­sante em uma dis­pu­ta do nos­so Gus­ta­vo Corção].

 

2 — Platão, jamais enten­deu que o amor dev­e­ria ser total­mente ide­al, pura­mente metafísi­co; ele quer que o homem hon­esto pre­fi­ra as qual­i­dades da alma, fonte ineuxari­da de praz­eres, aos pre­gos do cor­po, muito mesquin­hos, monótonos e pas­sageiros.

«Digo homem vicioso, ele acres­cen­ta. Aque­le amante vul­gar que ama o cor­po mais que a alma; o seu amor terá breve duração, já que ama coisa que não dura. Não ape­nas as flo­res da beleza por ele ama­da são vici­adas, o vê em bus­ca de out­ro lugar, memória dos seus belos dis­cur­sos e de suas belas promes­sas. Assim, não acon­tece a quem ama uma bela alma; lhe per­manece fiel toda a vida, porque ama coisa que jamais muda».

 

Con­tin­ua…