Intelecto e Vontade: Não separemos o que Deus uniu, por D. Curzio Nitoglia


Filosofia / quarta-feira, janeiro 6th, 2016

Não sep­a­re­mos aqui­lo que Deus uniu

 

 

PADRE CURZIO NITOGLIA
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

16 de abril de 2011
http://www.doncurzionitoglia.com/intelletto_volonta.htm

Natureza do int­elec­to e da von­tade

A von­tade espir­i­tu­al ou apetite racional é a fac­ul­dade que tende ao bem con­heci­do pelo int­elec­to (“nihil voli­tum nisi praecog­ni­tum, nada é queri­do se antes não é con­heci­do”). Essa é real­mente dis­tin­ta do aspec­to sen­sív­el ou sen­si­bil­i­dade (que se sub­di­vide em con­cu­pis­cív­el e irascív­el , S. Th., I, q. 80, a. 2)[1]. A von­tade é uma tendên­cia, um dese­jo ou um apetite racional, que segue o con­hec­i­men­to int­elec­tu­al e não aque­la sen­sív­el e é especi­fi­ca­da pelo obje­to con­heci­do pelo int­elec­to e apre­sen­ta­do-lhe como bom, mes­mo se em si não o é (bem aparente, mal real). Na ver­dade, o obje­to da von­tade é o bem mes­mo só aparente e não pode ser o mal enquan­to mal, porque isto seria con­trário a natureza da von­tade. Mas um obje­to, antes de ‘ser bom’, deve ‘ser’ ou ‘exi­s­tir’. Então, neste sen­ti­do a von­tade depende da inteligên­cia: o int­elec­to con­hece o ser ou a natureza inti­ma e ver­dadeira do seu obje­to, enquan­to a von­tade tende ao ser bom ou apre­sen­tan­do-lhe como tal. Ora, onto­logi­ca­mente o ser é ante­ri­or ao ser bom. Por isso em sen­ti­do abso­lu­to o int­elec­to pre­cede a von­tade.

A von­tade  e o int­elec­to a respeito de Deus

Todavia, quan­do o obje­to (por exem­p­lo Deus) é o mais nobre da alma humana onde reside a inteligên­cia e a von­tade, então – em relação a este obje­to – a von­tade é supe­ri­or a inteligên­cia. De fato, o ato int­elec­ti­vo de con­hecer “atrai” a si os obje­tos con­heci­dos porque a sua rep­re­sen­tação entra psi­co­logi­ca­mente ou logi­ca­mente (não fisi­ca­mente) no int­elec­to. Por isso Deus é con­heci­do segun­do as capaci­dades fini­tas e lim­i­tadas do int­elec­to humano, ou seja, é reduzi­do ao nív­el das nos­sas idéias ou con­ceitos int­elec­tu­ais. A razão humana pode con­hecer com certeza a existên­cia de Deus, medi­ante um sil­o­gis­mo que parte dos efeitos (criat­uras) para chegar a Causa primeira incau­sa­da (Cri­ador); pode chegar a con­hecer tam­bém qual­quer pro­priedade, nome ou atrib­u­to de Deus (Ser, Bem, Ver­dadeiro…), mas não toda a sua Natureza, que, sendo infini­ta, ultra­pas­sa ilim­i­tada­mente as capaci­dades cognosc­i­ti­vas do int­elec­to humano e é infini­ta­mente despro­por­ciona­da a fini­tude do con­ceito int­elec­tu­al. O homem não pode for­mar uma idéia ade­qua­da de Deus, senão col­he­ria a sua Essên­cia infini­ta e o seu int­elec­to dev­e­ria ser infini­to, como querem os ontol­o­gis­tas, mas isto é evi­den­te­mente fal­so. Somente no Paraí­so os Beat­os vêem Deus face a face na sua Essên­cia como é, mas graças ao Lumen glo­ri­ae, que é dado por Deus ao int­elec­to do Beato e o sobre ele­va sobre­nat­u­ral­mente a capaci­dade de col­her int­elec­tual­mente e intu­iti­va­mente a Natureza infini­ta de Deus (Visão beat­í­fi­ca). O ato da von­tade, que é uma tendên­cia para um obje­to apre­sen­tan­do-lhe como bom, sai, ao invés, fora dessa para se unir ao obje­to con­heci­do e ama­do como bom e pos­sui-lo ou fruir da sua bon­dade. Por isso já na ter­ra, quan­do a von­tade ama ou dese­ja Deus, é aper­feiçoa­da, cresce de grau, porque sai de si tende e adere a um obje­to infini­ta­mente mais nobre que si mes­ma.

Causal­i­dade recíp­ro­ca entre int­elec­to e von­tade

Int­elec­to e von­tade não se pode con­sid­er­ar como dois agentes sep­a­ra­dos, mas são duas fac­ul­dade de um só homem, fac­ul­dades dis­tin­tas mas não sep­a­radas, que ao invés de con­tra­porem-se devem colab­o­rar inti­ma­mente. Int­elec­to e von­tade são inti­ma­mente lig­adas na mes­ma ação: «o int­elec­to sabe que a von­tade quer e a von­tade quer o que o int­elec­to con­hece» (S. Th., I, q. 82, a. 4, ad 1). Ess­es são lig­adas na livre escol­ha de um fim, que já Aristóte­les chama­va “int­elecção apet­i­ti­va e apetite int­elec­ti­vo” (Éti­ca a Nicô­ma­co, IV, 2). Crono­logi­ca­mente o int­elec­to pre­cede. Na ver­dade, a von­tade é um apetite ou uma tendên­cia racional, o que segue a isto é o con­hec­i­men­to do int­elec­to. Nos escritos de San­to Tomás de Aquino se encon­tra uma cer­ta evolução ou pre­cisão do seu pen­sa­men­to. Até 1270 (Suma Teológ­i­ca e De Ver­i­tate) o Angéli­co atribui a von­tade a causal­i­dade efi­ciente e ao int­elec­to a causal­i­dade final. Ao invés, com a questão De Malo (q. 6, arti­go úni­co) de 1271 San­to Tomás especí­fi­ca [2]: a von­tade cabe a causal­i­dade efi­ciente e final­izante; ao int­elec­to cabe a causal­i­dade especi­f­i­cante e for­mal extrínse­ca ou exem­plar, com a qual o int­elec­to apre­sen­ta a von­tade, especificando‑a, um obje­to con­heci­do como bem, um exem­plar, um mod­e­lo ou exem­p­lo de quer­er, que é condição essen­cial a fim de que o bem exercite a sua atração (como mod­e­lo) sobre a von­tade a von­tade exercite a sua causal­i­dade final e ten­da a quer­er o fim ou bem pro­pos­to-lhe como mod­e­lo pelo int­elec­to. Ora, o bem é o fim, mas o bem é obje­to da von­tade e não do int­elec­to. Na ver­dade, todo bem con­heci­do fini­ta­mente pelo int­elec­tual­mente (fos­se tam­bém Deus) não exerci­ta uma atração deter­mi­nante sobre a von­tade, que per­manece indifer­ente e livre e é ela a escol­her um bem ou out­ro bem (real ou aparente) como seu fim. Caje­tanus escreve: “vol­un­tas ex se sola flec­tit judi­ci­um quo vult” (In Pri­mam partem, q. 82, a. 4). Então, o bem, mes­mo se antes foi apre­sen­ta­do pelo int­elec­to como exem­p­lo, exerci­ta uma causal­i­dade final só depois que foi escol­hi­do livre­mente pela von­tade. A pro­pos­ta ou a ilu­mi­nação (como aque­la de um farol), que tor­na pos­sív­el ou oca­siona a escol­ha do bem, vem do int­elec­to, porém, a escol­ha ou a recusa (o movi­men­to para frente ou para trás, como aque­le do motor) vem da von­tade, não cega­mente, mas racional­mente porque, a escol­ha é livre e vol­un­tária, mas val­i­da­da e delib­er­a­da pelo int­elec­to: tomo ou escol­ho com a von­tade aqui­lo que com o int­elec­to validei como bem para mim. Por isso é o int­elec­to – na ordem estáti­ca – que ilu­mi­na a von­tade como causa for­mal extrínse­ca ou exem­plar, que especí­fi­ca a von­tade, apre­sen­tan­do-lhe o seu obje­to: o ser con­heci­do como bom, mes­mo se em real­i­dade mal (S. Th., q. 9, a. 1), mas não é pre­ciso menosprezar que a von­tade – na ordem dinâmi­ca ou ati­va – move o int­elec­to como causa efi­ciente e final (S. Th., I, q. 82, a. 4; De Ver­i­tate, q. 22, a. 12), seja apli­can­do-lhe a este obje­to (matemáti­ca) ou a este out­ro (filosofia), seja fazen­do-lhe pon­der­ar o lado bom de um bem fini­to ou aque­le mal, porque o ente-bem fini­to é sem­pre um bon­um mix­tum malo. O int­elec­to ofer­ece a von­tade os princí­pio ou os con­hec­i­men­tos (o exem­p­lo ou o mod­e­lo) para poder ten­der para qual­quer coisa (“nada é queri­do se antes não é con­heci­do”), lhe apre­sen­ta o ser con­heci­do como bom, mas tal apre­sen­tação é ape­nas ‘con­di­tio sine qua non’ a fim de que o bem pos­sa atrair a von­tade. Por isso cada ato de von­tade pro­cede – crono­logi­ca­mente antes de tudo e mate­rial­mente – de um ato final do int­elec­to, que é a beat­i­tude, e neste sen­ti­do o ato de von­tade é supe­ri­or ao do int­elec­to (S. Th., I‑II, q. 4, a. 4, ad 2; Ivi, q. 99, a. 1, ad 3). Por isso a von­tade real­iza ulti­ma­mente o homem inteiro ofer­en­do-lhe o seu fim, que é o bem e a feli­ci­dade (causal­i­dade final); essa é princí­pio de todo agir (causal­i­dade efi­ciente) e neste sen­ti­do a von­tade move o int­elec­to (S. Th., I‑II, q. 9, a. 1, ad 3), mas a von­tade tende ao ato final do int­elec­to, que é a beat­i­tude (S. Th., I‑II, q. 4, a. 4, ad 2).

A liber­dade

Na pro­dução do ato livre existe um influxo recípro­co entre int­elec­to e von­tade. Ambos são fac­ul­dade de um úni­co homem e seria fal­so hipostasiar int­elec­to e von­tade como dois sujeitos agentes por si sub­sis­tentes, de que o um propõem e o out­ro dis­põem sep­a­rada­mente. Ao invés o sujeito que racional­mente propõe e livre­mente dis­põe é o homem. A von­tade escol­he o fim ou bem e por meio do seu int­elec­to e da sua von­tade move o int­elec­to como causa efi­ciente a con­hecer um obje­to mais que o out­ro e enfim impul­siona o int­elec­to a emi­tir o últi­mo juí­zo prati­co. A escol­ha delib­er­a­da e con­sciente (volição ou eleição) con­sti­tuí o ato livre com que um homem acei­ta (ou recusa) um deter­mi­na­do bem fini­to em con­cre­to para ele como fim bom e últi­mo, em que encon­tra a feli­ci­dade. A fase deci­si­va da pro­dução do ato livre é uma escol­ha que é dev­i­da ao homem, o qual se serve jun­ta­mente com o int­elec­to e a von­tade: «a escol­ha é ou uma int­elecção apet­i­ti­va ou, mel­hor, um apetite int­elec­tu­al, e o princí­pio que opera tal escol­ha é o homem» (Aristóte­les, Éti­ca a Nicô­ma­co, VI, 2). A escol­ha é um ato de juí­zo queri­do ou de von­tade racional. O juí­zo ou val­i­dação é ato do int­elec­to. Para chegar a escol­ha livre, que é ato da von­tade, é pre­ciso chegar do ‘juí­zo espec­u­la­ti­vo’, que me apre­sen­ta um obje­to (“riqueza”) como felicidade/bem/ fim de maneira abso­lu­ta­mente abstra­ta, uni­ver­sal, vál­i­da para todos ou teóri­ca, ao ‘espec­u­la­ti­vo-prati­co-próx­i­mo’, onde a von­tade impul­siona o int­elec­to a ‘delib­er­ar’ (decidir, inter­rog­ar-se ou esta­b­ele­cer) qual meio tomar (“tra­bal­har ou roubar”) con­sideran­do (val­i­dan­do ou jul­gan­do) se o obje­to (“riqueza”) seja ver­dadeira­mente fim bom para mim e a min­ha feli­ci­dade, conc­re­ta­mente, aqui e ago­ra. O int­elec­to delib­era enquan­to a von­tade ain­da se freia ou se inibe a explosão a um ato de adesão defin­i­ti­va que quer ulti­ma­mente um meio (“não roubar, mas tra­bal­har”), como ato a col­her o fim/bem/felicidade. Além dis­so, é a von­tade que impul­siona efi­cien­te­mente o int­elec­to a con­cen­trar a sua atenção sobre um aspec­to ou um out­ro do bem em con­sid­er­ação (“riqueza”) e a delib­er­ar ou decidir de maneira mais apro­fun­da­da qual meio tomar (“não roubar”) para lhe con­seguir. Então, se chega ao ‘juí­zo-prati­co-prati­co’ ou últi­mo práti­co, que é a escol­ha conc­re­ta livre e con­sciente (ou recusa) do meio (“não roubar”) ato a faz­er me col­her o fim/bem/felicidade (“riqueza”). Tal bem, que é con­heci­do pelo int­elec­to fini­ta­mente e é assim apre­sen­ta­do a von­tade, vem escol­hi­do pela von­tade como conc­re­ta­mente, aqui e ago­ra, um bem total ou fim últi­mo, onde encon­trar a beat­i­tude. Esta escol­ha é um juí­zo prati­co do int­elec­to, que me faz diz­er “per me hic et nunc a riqueza é o bem abso­lu­to, o meu fim ulti­mo onde encon­tro a feli­ci­dade e para alcançar-lhe devo “não roubar”, mas tra­bal­har. Ora, neste ‘juí­zo prati­co-prati­co’ inter­vém crono­logi­ca­mente jun­tos int­elec­to e von­tade, mas o int­elec­to influi sobre a con­tade como causa exem­plar ou for­mal extrínse­ca (“não roubar” é o exem­p­lo, o mod­e­lo a seguir e quer­er para ser feliz ou rico); todavia o juí­zo int­elec­ti­vo tona prati­co-prati­co ou ulti­mo porque a von­tade livre­mente impul­siona o int­elec­to a dar o assen­ti­men­to a esse e depois a von­tade o acei­ta como bem total ou fim ulti­mo. Na ver­dade, tratan­do de um bem fini­to, que é sem­pre unido a um cer­to lado desagradáv­el (bon­um mix­tum malo) a delib­er­ação do int­elec­to (esta­b­elece qual meio escol­her: “roubar/não roubar”) de si só não se pode con­cluir a um juí­zo defin­i­ti­vo ou ulti­mo. Existe inde­ter­mi­nação da parte do obje­to bom que é fini­to, mas existe auto-deter­mi­nação por parte do obje­to bom que é fini­to, mas existe auto-deter­mi­nação da von­tade. De fato “livre arbítrio” sig­nifi­ca que a von­tade é árbi­tra ou escol­he tomar um meio (“não roubar”) mais que um out­ro (“roubar”), sem ser deter­mi­na­da pelo juí­zo espec­u­la­ti­vo ou int­elec­tu­al. O ato livre é pri­mari­a­mente, for­mal­mente e sub­stan­cial­mente um ato da von­tade, ou seja, emi­ti­do pela von­tade, que é ilu­mi­na­da secun­dari­a­mente, mate­rial­mente e aci­den­tal­mente pelo int­elec­to como causa exem­plar. Então, é a von­tade que impul­siona como causa efi­ciente e final a inteligên­cia a se deter sobre um dado aspec­to do meio em questão e a jul­ga-lo como hic et nunc para mim, “não roubar”, pon­do fim a ‘delib­er­ação’ int­elec­tu­al e chegan­do a ‘escol­ha livre’ da von­tade. Como fal­ta a evidên­cia int­elec­tu­al diante de um bem fini­to, então é a von­tade que livre­mente move o int­elec­to a um ‘assen­ti­men­to’ judica­ti­vo e ‘escol­he’ livre­mente. Esta escol­ha, cumpri­da sob o influxo mútuo do int­elec­to e da von­tade, é for­mal­mente ato da von­tade, seja porque a escol­ha não é ato int­elec­tu­al mas voli­ti­vo, seja porque a causal­i­dade efi­ciente da von­tade sobre o assen­ti­men­to int­elec­ti­vo é mais impor­tante do que a exem­plar ilu­mi­nante do int­elec­to sobre a von­tade. Uma vez colo­ca­do este ‘juí­zo prati­co-prati­co’ sobre um dado meio, porque é apetite racional, senão seria apetite irra­cional e de out­ra parte renun­cia­ria  a sua feli­ci­dade, ao fim ulti­mo e ao bem total, ou seja, quer­er ‘o mal enquan­to mal’, mas isto repugna a natureza da von­tade que é orde­na­da ao bem. A liber­dade deri­va, então, da fal­ta de pro­porção entre a von­tade racional que é especi­fi­ca­da por um Bem uni­ver­sal e um bem fini­to e par­tic­u­lar, que é bom sob um aspec­to e não bom sob um out­ro aspec­to e abso­lu­ta­mente despro­por­ciona­do a amplidão da von­tade especi­fi­ca­da pelo Bem uni­ver­sal (De Ver­i­tate, q. 22, a. 5). Amar Deus, que em si é infini­to mas é con­heci­do por mim fini­ta­mente, é algo que tem um lado neg­a­ti­vo (bem em si, mis­to a mal para mim). Real­mente para amar a Deus devo rene­gar o meu amor próprio e então é um bem real que a mim e ao meu egoís­mo parece um “mal” aparente (S. Th. I, q. 83,Ivi, I‑II, q. 10, aa. 1–4). Ora, se é o int­elec­to a apre­sen­tar a von­tade um obje­to como indifer­ente, ou seja, fini­to e então bom sob um aspec­to e não bom sob um out­ro aspec­to, é, ao invés, a von­tade que fixa o int­elec­to a con­sid­er­ar o aspec­to bom em si ou desagradáv­el para mim do obje­to con­heci­do e a faz­er me jul­gar prati­co-prati­ca­mente e por escol­her livre­mente um ou out­ro (S. Th., I‑II, q. 57, a. 5, ad 3um; Ivi, q. 58, a. 5): “Video melio­ra proboque, sed dete­ri­o­ra sequor“vejo as coisas boas e lhe apro­vo espec­u­la­ti­va­mente, mas prati­ca­mente faço aque­las más”«Existe aqui um influxo recípro­co entre int­elec­to e von­tade, como uma espé­cie de matrimônio entre as duas fac­ul­dade» (R. Gar­rigou-Lagrange, La sin­te­si tomisti­ca, Bres­cia, Querini­ana, 1953, p. 203; Id., Dieu, son exis­tence et sa nature, Pari­gi, Beauch­esne, 1928, pp. 590–657). Ora, o mal moral con­siste pro­pri­a­mente na deformi­dade entre juí­zo espec­u­la­ti­vo e livre eleição da von­tade. Pelo que o mal moral ou peca­do não é ignorân­cia (Sócrates), mas a má vontade[3].

O homem é inteligente e livre, não é só int­elec­to não é só von­tade

Tomisti­ca­mente não é pre­ciso jamais esque­cer que é todo o homem alma e cor­po, com o int­elec­to, a von­tade, a sen­si­bil­i­dade e as paixões (“nihil in intel­lec­tu quod prius non fuer­it in sen­su”; “nada entre no int­elec­to se primeiro não pas­sa através dos sen­ti­dos”), que con­hece e quer e age, pelo que é pre­ciso edu­car a sen­si­bil­i­dade e as paixões a obe­de­cer a von­tade, e esta ao int­elec­to e vice-ver­sa. Padre Regi­nal­do Gar­rigou Lagrange escreve:«se nego o val­or da reta inteligên­cia, com­pro­me­to a bon­dade da ação livre e vol­un­tária. A von­tade deve ser edu­ca­da, ilu­mi­na­da e reti­fi­ca­da pela sã e reta inteligên­cia e pelo juí­zo espec­u­la­ti­vo ver­dadeiro sobre o Fim últi­mo. Não se pode amar Deus, Sumo Bem e Ver­dadeiro, sem o reto con­hec­i­men­to da real­i­dade. Todavia, o int­elec­to práti­co, que escol­he os meios depende da boa von­tade. Cada um jul­ga prati­ca­mente segun­do a própria tendên­cia: se a incli­nação do próprio apetite sen­sív­el ou racional é má (o ambi­cioso), o juí­zo prati­co não é reto (para mim aqui e ago­ra é um bem roubar). A ver­dade do juí­zo do int­elec­to práti­co depende da boa von­tade» (La sin­te­si tomisti­ca, Bres­cia, Querini­ana, 1953, p. 203).

A importân­cia de uma boa von­tade

San­to Tomás ensi­na: «Pen­so […] porque quero pen­sar» (De malo, q. 6, a. 1; Sum­ma con­tra Gent., lib. I, cap. 72). Se me fal­ta a boa von­tade não colo­co a fru­ti­ficar a inteligên­cia ou a colo­co mal a fru­ti­ficar para faz­er o mal. «Medi­ante a von­tade nos favore­ce­mos de tudo isto que se encon­tra em nós. Pelo que é chama­da boa não a pes­soa inteligente, mas a que tem boa von­tade» (S. Th., I, q. 5, a. 4, ad 3). Real­mente a nos­sa alma man­tém a graça infusa de Deus em vir­tude da boa von­tade (S. Th., I, q. 83, a. 2,sed con­tra). A liber­dade ver­dadeira con­siste na escol­ha livre de quer­er amar Deus e quan­to «mais amamos a Deus, mais somos livres» (In III Sent., dist. 29, a. 8, quaestiunc. 3, n. 106, sed con­tra). Pelo que «a ver­dadeira liber­dade é a liber­dade do peca­do; enquan­to a ver­dadeira escravidão é a escravidão do peca­do» (S. Th., II-II, q. 183, a. 4). Se a inteligên­cia tor­na o homem douto, a von­tade o faz vir­tu­oso.

Não sep­a­re­mos aqui­lo que Deus uniu

Eis a importân­cia de não sep­a­rar aqui­lo que Deus uniu em matrimônio: Int­elec­to e von­tade, mas de faz­er-lhes coop­er­ar unida­mente e sub­or­di­nada­mente como causa for­mal extrínse­ca que ilu­mi­na (int­elec­to) e efi­ciente e final que move (von­tade) o homem a con­hecer o ver­dadeiro e a agir bem. O homem é com­pos­to de alma (em que se encon­tram o int­elec­to e a von­tade) e cor­po (em que há o con­hec­i­men­to sen­sív­el: sen­ti­dos exter­nos, inter­nos e o apetite sen­sív­el: irascív­el e con­cu­pis­cív­el). Só a inteligên­cia sem a boa von­tade leva ao mal, só a von­tade sem o con­hec­i­men­to é cega e desvia, deban­da, se que­bra. Além dis­so, as paixões sen­síveis devem ser edu­cadas a respon­der pos­i­ti­va­mente a boa von­tade para serem apli­cadas ao con­hec­i­men­to do ver­dadeiro. De out­ra for­ma, tomam a dianteira e arras­tam o int­elec­to e a von­tade para obje­tos fal­sos e maus. É pre­ciso cul­ti­var o cor­po com os seus sen­ti­dos exter­nos (visão, audição, tato, olfa­to e pal­adar) e inter­nos (memória e fan­ta­sia…), o apetite sen­sív­el (irascív­el e con­cu­pis­cív­el), as paixões (ira, ódio, amor, temor…); depois o int­elec­to a con­hecer o ver­dadeiro e recusar o fal­so e enfim a von­tade a amar o bem e odi­ar o mal. “Faze o bem e evi­ta o mal, isto é todo o homem”. Não sejamos ape­nas ‘razão pura’, nem ‘von­tade abso­lu­ta’, nem mes­mo só instin­tos, sen­ti­dos, paixões, mas um mis­to destas coisas que devem tra­bal­har em con­jun­to, sub­or­di­nada­mente a nos faz­er col­her o nos­so ver­dadeiro Fim ulti­mo con­heci­do e ama­do. A “Imi­tação de Cristo” nos ensi­na que no dia do Juí­zo não nos será per­gun­ta­do sobre aqui­lo que lemos, dize­mos ou escreve­mos, mas  sobre aqui­lo que quer­e­mos e fize­mos. O ide­al é a reta ciên­cia acom­pan­ha­da pela boa von­tade (doc­tus cum pietate, pius cum doc­t­ri­na), con­hecer para amar e quer­er con­hecer para poder amar sem­pre mel­hor. Sem esque­cer que temos um cor­po com os seus sen­ti­dos e as paixões, que vão edu­cadas e ele­vadas pelo con­hec­i­men­to amoroso do Fim últi­mo e não reprim­i­das, senão explo­dem e se revoltam. “Quem quer faz­er o anjo, ter­mi­na por se tornar uma besta”. O homem é uma unidade sub­stan­cial de alma e cor­po, sen­si­bil­i­dade, intelecto/vontade e tudo deve ser uti­liza­do em har­mô­nia e hier­ar­quia para o escopo final. O homem com­ple­to dev­e­ria ten­der, e lenta­mente e sobre­tu­do com a aju­da de Deus, a adquirir uma inteligên­cia pro­fun­da, clara, reflex­i­va, pen­e­trante ágil, viva e ráp­i­da, não super­fi­cial, não fria, ári­da ou egoís­ta, mas acom­pan­ha­da por um caloroso e inten­so amor de Deus e do próx­i­mo. Uma von­tade forte, firme, con­stante, ati­va e tenaz, não tími­da, mas impávi­da e acom­pan­ha­da da bon­dade de coração, evi­tan­do a pieguice e a metic­u­losi­dade restri­ta, a dureza, a obsti­nação e a insen­si­bil­i­dade. Enfim a sen­si­bil­i­dade, con­tro­la­da pelo int­elec­to e von­tade, dev­e­ria enrique­cer o apetite irascív­el com a benig­nidade, a serenidade, a com­paixão, a afa­bil­i­dade e a expan­sivi­dade, sem dureza de coração e o apetite con­cu­pis­cív­el com o sen­ho­rio de si e a fleu­ma, a con­stân­cia, a metod­i­ci­dade, a per­se­ver­ança e a prudên­cia, esquivan­do do ange­lis­mo como tam­bém da escravidão ou a dependên­cia das paixões ou dos instin­tos des­or­de­na­dos [4]. Pelo que int­elec­to, von­tade e sen­si­bil­i­dade devem con­cor­rer jun­tos e sub­or­di­nada­mente ao aper­feiçoa­men­to do homem.

Padre Curzio Nitoglia

16 de abril de 2011

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Notas:

[1] A von­tade racional e espir­i­tu­al ilu­mi­na­da pela inteligên­cia é especi­fi­ca­da pelo bem uni­ver­sal, que só a inteligên­cia pode con­hecer. Ao invés o apetite sen­sív­el, chama­do tam­bém sen­si­bil­i­dade, é ilu­mi­na­do dire­ta­mente pelo con­hec­i­men­to sen­sív­el (sen­ti­dos exter­nos e inter­nos: visão, tato, audição…/imaginação e memória…) e é especi­fi­ca­do pelo bem sen­sív­el, útil ou deleitáv­el. Esta é a dis­tân­cia imen­sa entre von­tade e sen­si­bil­i­dade, que hoje impel­i­da a piedosa negação, não só pelos psicól­o­gos freudi­anos, mas tam­bém pelos “teól­o­gos” mod­ernistas, que se baseiam sobre o sen­ti­men­to ou exper­iên­cia reli­giosa, depois de ter volta­do as costas a razão ilu­mi­na­da pela Fé e a von­tade for­ti­fi­ca­da pela Cari­dade.

[2] Cfr. O. Lot­tin, Psy­cholo­gie et morale aux XII et XIII siè­cles,Gem­bloux, 1942, I, pp. 225–389; Id., Morale fon­da­men­tale,Tour­nai, 1954, pp. 96–100.

[3] Cfr. C. Fab­ro, Rif­les­sioni sul­la lib­ertà, Rim­i­ni, 1983.

[4] Cfr. A. Tan­querey, Com­pen­dio di teolo­gia asceti­ca e mist­i­ca,Roma, Desclée, VIII ed., 1954, A. Royo Marin, Teolo­gia del­la per­fezione cris­tiana, Roma, Pao­line, 1960.