Viver a própria vocação, por São Carlos Borromeo


Espiritualidade / segunda-feira, janeiro 11th, 2016

Do Dis­cur­so dado por São Car­los Bor­romeo,
no ulti­mo Sín­o­do*
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Todos somos cer­ta­mente fra­cos, o admi­to, mas o Sen­hor Deus colo­ca a nos­sa dis­posição meios tais que, se o quis­er­mos, podemos faz­er muito. Sem ess­es, porém, não será pos­sív­el ter fé no empen­ho da própria vocação.

Façamos o caso de um sac­er­dote que decer­to recon­heça o dev­er de ser tem­per­ante, de ter dev­er dar exem­p­lo dos cos­tumes severos e san­tos, mas que depois recuse qual­quer mor­ti­fi­cação, jejum, orações, ame con­ver­sações e famil­iar­iza­ções pouco edi­f­i­cantes; como poderá ele estar a altura do seu ofí­cio?

Haverá até mes­mo quem se lamente que, quan­do entra no coro para salmodi­ar ou quan­do vai cel­e­brar a Mis­sa, a sua mente se povoa com mil dis­trações. Mas antes de aced­er ao coro ou de ini­ciar a Mis­sa, como se com­por­tou na sac­ris­tia, como se preparou, quais meios pre­dis­pôs e usou para con­ser­var o recol­hi­men­to?

Quer que te ensine como acres­cen­tar maior­mente a tua par­tic­i­pação inte­ri­or a cel­e­bração do coral, como tornar mais gra­ta a Deus o teu lou­vor e como pro­gredir na san­ti­dade? Escu­ta aqui­lo que te digo. Se já há qual­quer fag­ul­ha do amor divi­no ace­sa em ti, não a expulse, não a expon­ha ao ven­to. Ten­ha fecha­da a for­nal­ha do teu coração, para que não se res­frie e per­ca o calor. Fuja das dis­trações o quan­to pud­er. Per­maneça recol­hi­do com Deus, evite as con­ver­sas inúteis.

Tens o man­da­do de pre­gar e de ensi­nar? Estude e apliques nas coisas que são necessárias para cumprir bem este car­go.

Dá sem­pre bom exem­p­lo e busque ser o primeiro em cada coisa. Reza antes de tudo com a vida e a san­ti­dade, para que não suce­da que a tua con­du­ta não este­ja em con­tradição com a tua pre­gação e per­ca toda cred­i­bil­i­dade.

Exerci­tas o cuida­do das almas? Não des­cuides por isso o cuida­do de ti mes­mo, e não se dês aos out­ros até o pon­to que não per­maneça nada de ti a ti mes­mo. Deve cer­ta­mente ter pre­sente a recor­dação das almas de que és pas­tor, mas não te esqueças de ti mes­mo.

Com­preen­deis, irmãos, que nada é tão necessário a todas as pes­soas ecle­siás­ti­cas quan­do a med­i­tação que pre­cede, acom­pan­ha e segue todas as nos­sas ações: Cantarei, diz o pro­fe­ta, e med­itarei (cfr. Sal 100, 1). Se admin­is­tras os sacra­men­tos, ó irmão, medi­ta naqui­lo que fazes. Se cel­e­bras a Mis­sa, medi­ta aqui­lo que ofer­e­ces. Se recitas os salmos em coro, medi­ta a quem e de que coisa falam. Se guia as almas, medi­ta em qual sangue foram lavadas; e «e tudo se faça entre vós na cari­dade» (1 Cor 16, 14). Assim poder­e­mos facil­mente super­ar as difi­cul­dades que encon­trar­mos, e são inu­meráveis, a cada dia. De resto isto é o requeri­do da mis­são a ti con­fi­a­da. Se assim fiz­er­mos ter­e­mos a força para ger­ar Cristo em nós e nos out­ros.

 * Acta Eccle­si­ae Medi­ola­nen­sis, Milano 1599, 1177–1178