O pecado original e as três concupiscências, por D. Curzio Nitoglia


Política, Teologia / segunda-feira, janeiro 11th, 2016

Extraí­do do livro
Sub­ver­são e Restau­ração
Don Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Fru­to do ‘peca­do orig­i­nal’ são as ‘três Con­cu­pis­cên­cias’: orgul­ho, avareza e luxúria (I Jo, II,16). Destas três tendên­cias más derivam e con­tin­u­am a derivar todos os males dos home­ns, seja a nív­el indi­vid­ual ou a nív­el social.

Como por natureza o homem é ani­mal racional e livre (feito para con­hecer o ver­dadeiro e amar o bem) e sociáv­el (feito para viv­er em Sociedade Políti­ca), nem mes­mo Deus pode­ria con­ced­er ao Esta­do e ao indi­ví­duo, que são suas criat­uras nat­u­rais, o poder de con­tradiz­er a sua razão de ser ou final­i­dade (con­hecer o ver­dadeiro, amar o bem, viv­er em Sociedade políti­co-cul­tur­al e reli­giosa-sobre­nat­ur­al) e dar a eles o dire­ito de serem indifer­entes ou neu­tros em matéria de reta razão indi­vid­ual, social e religiosa.A liber­dade filosó­fi­ca ou reli­giosa é con­tra a natureza, a tol­erân­cia filosó­fi­ca ou reli­giosa é sem­pre um mal que se pode per­mi­tir de fato para evi­tar um mal maior, nun­ca por princí­pio. Isto o ensi­na a sã razão, a ver­dadeira teolo­gia, a Tradição apos­tóli­ca e o Mag­istério da Igre­ja¹. A ignorân­cia invencív­el des­cul­pa o indi­ví­duo do peca­do for­mal, mas não lhe dá o dire­ito de faz­er pub­li­ca­mente o mal e propa­gar em foro exter­no e pub­li­ca­mente o erro, porque obje­ti­va­mente ele se encon­tra no erro e no mal, os quais não tem nen­hum dire­ito a existên­cia, a pro­pa­gan­da e a ação públi­ca².

Uma das final­i­dades da Igre­ja, além da con­ver­são das almas, é a dilatação do Reino de Deus sobre a ter­ra. Este reino é “prin­ci­pal­mente espir­i­tu­al, mas secun­dari­a­mente tam­bém de ordem polit­i­ca ou tem­po­ral” (Pio XI, Encícli­ca Quas pri­mas, 11 de dezem­bro de 1925). Então, a liber­dade reli­giosa é con­tra a final­i­dade da Igre­ja como Cristo a quis: não é ape­nas con­tra a natureza, mas tam­bém con­tra a Rev­e­lação. A apos­ta­sia das Nações de Deus, que foi prop­ug­na­da pelos laicis­tas e pelos anti­cristãos, hoje infe­liz­mente tam­bém inva­diu as mentes dos home­ns da Igre­ja (v. Con­cílio Vat­i­cano II, Dig­ni­tatis humanae per­son­ae, 7 de dezem­bro de 1965). O ide­al ou a meta apos­tóli­ca a qual todos (lei­gos e cléri­gos) são chama­dos é a instau­ração do reino sobre a ter­ra, mes­mo se imper­feita­mente, para obtê-lo per­feita­mente no Paraí­so. Então, primeiro deve­mos nos con­vert­er ver­dadeira­mente e viv­er habit­ual­mente na Graça de Deus e depois poder­e­mos levar Cristo na família, no ambi­ente de tra­bal­ho e na Sociedade civ­il. Esta é a ordem a seguir para “instau­rare omnia in Chris­to” (S. Pio X): “nemo dat quod non habet” e se não se é cristão inte­ri­or­mente e ver­dadeira­mente não se pode restau­rar a Cristandade.Por isso a teo­ria da “poli­tique d’abord” de Charles Mau­r­ras sig­nifi­caria ini­ciar a con­stru­ir o poder do Gov­er­no e se fazem leis cristãs, mas o Gov­er­nante não o é e nem mes­mo os cidadãos, a “Restau­ração” não é ver­dadeira e inte­ri­or, mas é ape­nas de facha­da, exte­ri­or e super­fi­cial e então, durará como um fogo de pal­ha. A Polis é um con­jun­to de famílias e de home­ns: primeiro vem o indi­ví­duo que unido a out­ros for­ma uma família, a qual jun­to a out­ras famílias for­ma um vilare­jo e mais vilare­jos for­mam um Esta­do. A Civ­i­tas ou Polis será cristã e orde­na­da na medi­da em que aque­les que lhe fazem parte são restau­ra­dos pela Graça, orde­na­dos e cristãos, não sub­ver­sivos e rev­olu­cionários. Só depois o Esta­do terá o dev­er de man­ter a ordem e pro­te­ger a vida vir­tu­osa. Mas não se pode começar com o fim, seria uma  con­tra­dic­tio in ter­min­is ou um “con­tra sen­so”: “o princí­pio = o princí­pio, o fim = o fim, o princí­pio ≠ o fim”. Aristóte­les (Polit­i­ca) e San­to Tomás (De regimine prin­cipum) ensi­nam que  “a polit­i­ca é a vir­tude de prudên­cia apli­ca­da a Sociedade”, enquan­to a ‘prudên­cia indi­vid­ual’ se chama “monás­ti­ca” e aque­la ‘famil­iar’ se chama “econo­mia”. Leão XIII ensi­na que os primeiros e ver­dadeiros cristãos “fiz­er­am em pouquís­si­mo tem­po pen­e­trar o Cris­tian­is­mo não só nas suas famílias, mas no exérci­to, no sena­do e por fim no palá­cio do Imper­ador”³. Não se começou do Palá­cio Impe­r­i­al, mas por cada cristão.

Notas:

[1]       Cfr. S. Gregório Nazianzeno (+ 390), Hom. XVII; S. João Crisós­to­mo (+ 407), Hom. XV super IIam Cor.; S. Ambró­sio (+ 397), Ser­mo con­ta Aux­en­tium; S. Agostin­ho (+ 430), De civ­i­tate Dei (V, IX, t. XLI, col. 151 ss.); S. Gelá­sio I (+ 496), Epist. ad Imper­at. Anas­ta­si­um I; S. Leão Mag­no (+ 461), Epist. CLVI, 3; S. Gregório Mag­no (+ 604), Reges­ta, n. 1819; S. Isidoro De Sevil­ha (+ 636), Sent., III, 51; S. Nico­lau I, Epis­tul. Pro­po­suer­a­mus quidam (865); S. Gregório VII (+ 1085), Dic­ta­tus Papae (1075), I epís­to­la a Her­mano Bis­po de Metz (25 de agos­to de 1076), II epís­to­la a Her­mano (15 de março de 1081); Urbano II (+ 1099), Epist. ad Alphon­sum VI regem; S. Bernar­do De Clar­aval (+ 1173), Epís­to­la a papa Eugênio III sobre as duas espadas; Inocên­cio III (+ 1216), Sicut uni­ver­si­tatis con­di­tor (1198), Ven­er­a­bilem fratrem (1202), Novit ille (1204); Inocên­cio IV (+ 1254), Aeger cui levia (1245); S. Tomás De Aquino (+ 12074), In IVum Sent., dist. XXXVII, ad 4; Quaest. quodlib, XII, a. 19; S. Th., IIII, q. 40, a. 6, ad 3; Quodlib. XII, q. XII, a. 19, ad 2; Bonifá­cio VIII (+ 1303), Bol­la Unam sanc­tam (1302); Caje­tanus (+ 1534), De com­para­ta auc­tori­tate Papae et Con­cilii, tratt. II, pars II, cap. XIII; S. Ro­berto Bel­larmi­no (+ 1621), De con­tro­ver­si­is; F. Suarez (+ 1617), Defen­sio Fidei catholicae;.Gregório XVI, Mirari vos (1832); Pio IX, Quan­ta cura e Syl­labus (1864); Leão XIII, Immor­tale Dei (1885), Lib­er­tas (1888); S. Pio X, Vehe­menter (1906); Pio XI, Ubi arcano (1921), Quas pri­mas (1925), Pio XII, Dis­cur­so aos Juris­tas Católi­cos, 6 de dezem­bro de 1953.

[2]       Pio XII, Dis­cur­so a V Con­venção Nacional da União dos Jus­ris­tas Católi­cos, 6 de dezem­bro de 1953.

[3]       Enci­cli­ca Immor­tale Dei, 1° de novem­bro de 1885.