P. ALBERTO SECCI: POBRES DA TRADIÇÃO, NÃO BURGUESES


Editoriais / terça-feira, fevereiro 2nd, 2016

Edi­to­r­i­al de Rad­i­cati nel­la fede´
Padre Alber­to Sec­ci
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Sabeis bem quan­tas vezes, sobre este bole­tim, aler­ta­mos con­tra os peri­gos do mod­ernismo. Quan­tas vezes reag­i­mos con­tra a desajeita­da mod­ern­iza­ção da Igre­ja, que está ago­ra se cumprindo na mais agu­da crise que a Igre­ja jamais con­heceu na sua história.

Reag­i­mos, sen­ti­mos o dev­er; dis­se­mos “não”; dis­se­mos não aceitar este falsea­men­to da vida cristã que se ampli­fi­ca sob os nos­sos olhos.

É bom, porém, recor­dar que não fize­mos só isto, e que não fize­mos antes de tudo isto: nos pre­ocu­pamos em primeiro lugar em asse­gu­rar entre nós uma vida cristã estáv­el.
Sim, porque “ser con­tra” não equiv­ale a faz­er o cris­tian­is­mo. É uma ilusão mor­tal aque­la de pen­sar que ser con­tra qual­quer coisa equiv­al­ha auto­mati­ca­mente a con­stru­ir-lhe a alter­na­ti­va.

Seria para nós um gravís­si­mo engano aque­le de pen­sar que bas­ta rea­gir ao mod­ernismo teológi­co, ao pas­toral­is­mo enganoso do pós-con­cílio, a mania de se colo­car ao pas­so com as últi­mas modas do mun­do a vida cristã, para ver sur­gir um Catoli­cis­mo são, segun­do a Tradição.

O Pére Emmanuel André, ao qual sem­pre nos refe­r­i­mos no nos­so bole­tim e que con­sti­tui cer­ta­mente um dos mais fúl­gi­dos exem­p­los sac­er­do­tais na Igre­ja dos tem­pos mod­er­nos, disse aos seus mon­ges, diante do alas­tra­men­to do Nat­u­ral­is­mo: “Sejais home­ns de Deus, sejais home­ns de reação”.

Muito ver­dadeiro! Para ser de Deus, é pre­ciso rea­gir con­tra o alas­tra­men­to do mal. É pre­ciso diz­er “não” ao erro que está em ti, e ao veneno que cir­cu­la no mun­do.

Mas não bas­ta diz­er não, é pre­ciso ser de Deus: “Sejais home­ns de Deus…”. A reação, aque­la sã, nasce só do “ser de Deus”. É pre­ciso pre­ocu­par-se então de faz­er o cris­tian­is­mo; o inter­esse deve ser con­cen­tra­do sobre viv­er uma vida aut­en­ti­ca­mente cristã, sobre tra­bal­har para que muitos ten­ham os meios e a pos­si­bil­i­dade de “ser de Deus”.

Exis­tem alguns, em cer­to mun­do tradi­cional­ista ou con­ser­vador, que estão per­ma­nen­te­mente em reação, em perene acusação, arriscan­do exau­rir os próprios esforços no desco­brir o mal ao redor deles.

E quan­do reagem con­tra os cristãos amod­er­na­dos, pare­cem esper­ar o  catoli­cis­mo ver­dadeiro dos próprios “mod­ernistas”, pre­ten­dem deles uma con­ver­são que talvez esper­arão em vão.

Não! É pre­ciso faz­er o cris­tian­is­mo, isto espera Deus de nós; por isto nos dá a sua graça.

Um grande benediti­no, o Cardeal Schus­ter, diante da grave crise de qual­quer mosteiro, acon­sel­ha­va não perder tem­po no ten­tar a sua refor­ma, mas de fun­dar-lhe ao lado um out­ro, onde reinasse a observân­cia da Regra de S. Ben­to e um espíri­to aut­en­ti­ca­mente monás­ti­co: no momen­to mais forte da crise, estes novos mosteiros obser­vantes seri­am a alma do renasci­men­to cristão e monás­ti­co.

Assim tam­bém para nós: é pre­ciso fun­dar uma vida ver­dadeira­mente cristã onde viva­mos, entorno a Mis­sa Tradi­cional, fonte de inau­di­tas graças. É pre­ciso faz­er o cris­tian­is­mo sem perder nem menos um min­u­to, lá onde sac­er­dotes de reta intenção tor­nam a asse­gu­rar a Tradição, nos sacra­men­tos e na dout­ri­na. Os padres, ao menos aque­les que enten­der­am, tem o dev­er de garan­tir a Tradição, e os fiéis de recon­hece-la e de moverem-se!

Nos res­ta recor­dar porém um fato não secundário: para faz­er o cris­tian­is­mo é pre­ciso “dar a vida”

Dar a vida: é esta a obe­diên­cia ver­dadeira que Deus espera de nós.

Dar a vida, isto é tudo, porque se Deus não pode pedir-nos tudo, quer diz­er que para nós não é.

Este dar tudo, é vivi­do em uma con­sciên­cia límp­i­da, uni­da a uma con­cre­tude extrema, oper­a­ti­va.

O fun­dar o cris­tian­is­mo começa da graça, isto é, do altar do Sen­hor: é da Mis­sa Católi­ca, do sac­ri­fí­cio de Cristo, que tudo tem vida, dout­ri­na, oração, obras, cari­dade, cul­tura…

Para asse­gu­rar o cul­to e a vida católi­ca, segun­do a tradição, é pre­ciso dar a vida: somos dis­pos­tos a isto, ou nos bas­ta ser con­tra?

Se, impro­visada­mente, fos­se dada ple­na liber­dade a exper­iên­cia da Tradição, se na Igre­ja nos fos­se dada esta liber­dade total, sur­giria estes lugares de graça entorno ao altar graças a nós? Ou, este mila­gre da liber­dade para a Tradição nos encon­traria impreg­na­dos em asse­gu­rar­mos as nos­sas liber­dades, os nos­sos humores alter­na­dos? Um tal mila­gre não nos col­he­ria talvez pre­ocu­pa­dos em garan­tir­mos ain­da o nos­so “tem­po livre”, como faz o resto do mun­do?

Só porque todo Domin­go, sub­lin­hamos todo, se tem a Mis­sa can­ta­da, é pre­ciso que muitos deem a vida! O padre que a cel­e­bra, o organ­ista que acom­pan­ha o can­to, a esco­la que sus­ten­ta o lou­vor do povo, os fiéis que estavel­mente se ref­er­em àquela igre­ja.

Vejam, a nova litur­gia, mis­er­av­el­mente reduzi­da, de fato garan­tiu, favore­cen­do lhes, as “liber­dades” e o desem­pen­ho dos fiéis. Parece ter nasci­do para entreter e não para faz­er o cris­tian­is­mo.

Para faz­er o cris­tian­is­mo é pre­ciso não ser lib­er­al, mas home­ns empen­hados com Deus, entre­gan­do tudo a Deus: só os pobres, aque­les ver­dadeiros, o enten­dem, não os “bur­gue­ses” da tradição.

Pobres são aque­les que não esper­am a sal­vação de si, do próprio juí­zo e ação. Pobres são aque­les que se entregam a Deus, dis­pos­tos a dar tudo para que a Igre­ja con­tin­ue a exi­s­tir.

Bur­gue­ses são, ao invés, aque­les empen­hados em sal­var os próprios espaços de liber­dade. São lib­erais na alma; querem amar Deus, mas não entregam tudo: eles se ilu­dem e a Igre­ja desa­parece.

Que esta Quares­ma nos ensine a ver­dadeira obe­diên­cia ao Sen­hor.