P. LUIGI TAPARELLI D’AZEGLIO: VERDADE OU CORTESIA?


Filosofia / terça-feira, fevereiro 9th, 2016
Padre Lui­gi Tapar­el­li D’Azeglio
La Civiltà Cat­toli­ca, 1854
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

«Pere­gri­no de um dia sobre o cam­in­ho da vida eu chegarei bem rápi­do, e comi­go chegará cada homem que vive, a um ter­mo onde nos espera, ofer­ta­do pela Providên­cia div­ina um diade­ma ou um cárcere eter­no. Agar­rar o diade­ma, evi­tar o cárcere, eis aqui­lo que impor­ta a mim e cada homem que comi­go vive sobre a ter­ra: e se para chegar lá, ou levar comi­go o meu próx­i­mo me seja mis­ter o mane­jar a espa­da ou tol­er­ar-lhe as fer­roadas, pouco me impor­ta, des­de que eu obten­ha o inten­to. Ora, a con­seguir isto, con­sideran­do que eu devo deixar plenís­si­ma liber­dade naque­las doutri­nas onde Deus se cala, assim devo aderir ple­na­mente quan­do Ele fala, procu­ran­do tam­bém de min­ha parte a adesão dos out­ros: que isto quer o Reden­tor, quan­do protestou não recon­hecer por seu quem não o lou­va, descon­fes­sar quem não o con­fes­sa na pre­sença dos home­ns, dev­er-se pre­gar sobre os tetos aqui­lo que ele diz aos ouvi­dos, espa­da e não paz trouxe ele sobre a ter­ra, sep­a­ração entre pai e fil­ho, entre mul­her e mari­do, entre irmão e irmão. Pre­ceitos de tal porte soam out­ra coisa diver­sa que a paz dos mod­er­a­dos: goste ou não goste, a ver­dade anun­ci­a­da pelo Reden­tor deve con­tin­uar a ser anun­ci­a­da pela Igre­ja; e a ver­dade ensi­na­da pela Igre­ja deve se pro­fes­sar sem rubor e sem temor pelo ver­dadeiro fiel: e se há quem não gos­ta de ouvi-la, ele se vá, e busque em out­ro lugar quem não acred­ite em um Deus que falou, ou acred­i­ta­mos ser­mos covardes o sufi­ciente para falsear o ver­dadeiro, e impiedosos para per­mi­tir sem oposição a perdição de quem corre  o risco da eter­na ruí­na».

Tal é o con­ceito católi­co entorno do débito de pro­fes­sar a fé: lugar no qual toda sociedade adquire nat­u­ral­mente a ener­gia da vida; aque­la ener­gia que a Solon parece tão necessária nos momen­tos mais som­brios da sociedade, que con­de­na a morte qual­quer um nos tumul­tos civis se não se abraçasse ter­mi­nan­te­mente a um par­tido. Via aque­le sábio leg­is­lador como toda sociedade vive de seus princí­pios pos­i­tivos; e como por con­se­quên­cia aque­la paz que se pre­tende abolin­do ou calando‑a em tudo, ou em parte, out­ra coisa não é que o des­maio ou a letar­gia da sociedade que chegará a morte se não des­per­tar.

Mas então em que con­si­s­tirá a paz de uma sociedade cristã? Na ple­na adesão de todos os cidadãos àqui­lo que indu­bitavel­mente por orácu­lo da Igre­ja se con­hece como palavra de Deus ou com essa palavra este­ja indu­bitavel­mente conexa [1]: e na mod­es­ta reser­va pela qual, sal­va a fé, cada sen­tença é livre e cada von­tade ama­da. Esta é a ver­dadeira paz, porque é real­mente tran­quil­i­dade na ordem, sendo a ordem uma con­formi­dade com o ver­dadeiro, e sendo somente esta con­formi­dade capaz de tran­quil­izar os home­ns. Note bem, gen­til leitor: fora do ver­dadeiro não pode exi­s­tir tran­quil­i­dade (falam­os de ver­dadeiro que se pos­sa con­hecer, ou seja, de ver­dadeiro pro­por­cional ao nos­so int­elec­to), e a razão é evi­dente, repug­nan­do o tran­quil­izar-se de uma fac­ul­dade que não é seu obje­to próprio e pro­por­ciona­do. Apre­sente ao olho um som tam­bém docís­si­mo de arpa, de flau­ta, dará ao olho o mín­i­mo praz­er, a mín­i­ma tran­quil­i­dade? Não, porque os sons não são obje­to próprio da visão, que todavia, bus­cará avi­da­mente um raio de cor que a con­sole.

Apre­sen­tai a esta uma luz ful­gu­rante, a luz dire­ta do sol, será obje­to próprio; mas a quan­ti­dade é tão despro­por­ciona­da que se o olho não se fechar, ele se perderá. Apre­sen­tai a ela final­mente cores pro­por­cionais na quan­ti­dade, mas não ade­qua­da a dis­posição do órgão, não cor­re­spon­dentes aque­las pro­porções que pro­duzem a magia da cor, o olho obser­vará sem lesão, mas não des­cansará com praz­er naque­la mis­tu­ra ingra­ta de tin­tas tur­vas e repug­nantes. Fei­ta a mes­ma razão entorno do int­elec­to: des­de que ou nada ele vê, ou con­tem­p­lan­do ver­dades supe­ri­ores a própria capaci­dade per­manece deslum­bra­da, ou con­tem­p­lan­do ver­dades pro­por­cionais encon­tra enx­er­ta­da con­tradição e erro, o int­elec­to per­manece irre­qui­eto e hes­i­tante: irre­qui­eto por con­se­quên­cia e hes­i­tante a von­tade, reben­ta­da e tur­bu­len­ta a oper­ação, agi­ta­da e tam­bém lân­gui­da a sociedade.

E na sociedade espe­cial­mente esta agi­tação da des­or­dem será inevitáv­el. Um indi­vid­uo iso­la­do bem pode aderir ao erro por qual­quer tem­po tran­quil­a­mente, des­de que uma das fal­sas con­se­quên­cias não se lhe apre­sente para tur­bar a sua qui­etude.  Mas na sociedade onde exis­tem aos mil­hares os int­elec­tos escru­ta­dores do fal­so, a mil­hares os inter­ess­es que pela fal­si­dade vac­il­am e ardem, cada erro recon­hecív­el pelos int­elec­tos encon­tra em pouco tem­po um per­spi­caz que o des­mas­care, um inter­es­sa­do que o com­bata.

Então, fora do ver­dadeiro pro­por­ciona­do a mente, a sociedade não pode ter ordem e nem tran­quil­i­dade: não ordem, porque o int­elec­to é orde­na­do ao ver­dadeiro; e porém, é des­or­dem um int­elec­to repou­sante no fal­so: não tran­quil­i­dade, porque fora do ver­dadeiro, razão, von­tade e inter­ess­es estão em per­pé­tuo con­traste.

O qual con­traste antes da encar­nação do Ver­bo não apare­ceu tão fer­voroso e estrepi­toso sobre a ter­ra, porque muitas ver­dades, que hoje são pub­li­ca­mente e evi­den­te­mente acessíveis, per­manece­r­am ocul­tas nos arcanos acroamáti­cos, não pode­ri­am comover a sociedade, que mes­mo porque impo­tente a acer­tar ple­na­mente aque­las ver­dades, repousa­va não irra­cional­mente na ignorân­cia, conce­den­do a liber­dade ao erro por impotên­cia de dis­tin­guir-lo da ver­dade.

Mas hoje que o católi­co diz: «estou cer­to que Deus falou, conosco aqui­lo que ensi­nou, pro­fes­sar-lo depende a min­ha sal­vação e a feli­ci­dade dos meus con­ci­dadãos»: o falar se tornou um dev­er, a apa­tia do silên­cio um deli­to.

E tam­bém, o con­fes­samos can­di­da­mente, muitos são hoje em dia mes­mo entre os católi­cos, que não só não com­preen­dem tal dev­er, mas não temem tal deli­to; dilac­er­a­do pelo mau hábito dos mod­er­a­dos, se esforçam para mit­i­gar per­pet­u­a­mente com vocábu­los aque­les hor­rores, que cada deli­to não inspi­raria menor com seu nome, do que com o seu aspec­to mon­stru­oso. Eles sen­tem nojo em chamar de sacrílego o demanio* francês, já que deve­mos diz­er igual­mente sacrílego aque­le Min­istro Piemon­tês, que usurpou o Sem­i­nário; sacrílego aque­le canôni­co, que o vende; sacrílego aque­le mag­istra­do, que lhe vetou a reivindicação.Ora, tal lin­guagem parece a vocês con­forme a corte­sia? Quem tira de alguém algo seu é um ladrão: mas a corte­sia mod­er­a­da não per­mite usar tal vocábu­lo para a pes­soa com que se fala. Então, ninguém ousará diz­er ser ladrão um Min­istro que vende os bens da Igre­ja, ladrão um rico que lhes com­pra. Blas­fêmia é aqui­lo que ofende em Deus a hon­ra, a ver­dade: tal que qual­quer um que pro­nun­cia tais proposições será blas­fe­mador. Mas se a pes­soa se assen­ta sobre o ban­cos dos hon­ra­dos, e ridic­u­lar­iza o Sacra­men­to dos nos­sos altares, diz­er que este dep­uta­do é um blas­fe­mador se rep­utará palavra de um mal cri­a­do, se não for rep­uta­da como ofen­sa a sociedade, do qual o dep­uta­do é rep­re­sen­tante (mel­hor se diria injuri­ador).

Ou nos per­mi­ta­mos de inter­rog­ar: uma corte­sia, que inter­diz a fran­ca ver­dade em matéria assim rel­e­vante, é ela corte­sia de um católi­co? Ao invés dis­so, é ela corte­sia de um homem razoáv­el?

Não acred­ite, leitor, que quer­e­mos ser severos em vetar cada matéria de mor­bidez de vocábu­los: o nos­so inten­to é ape­nas exam­i­nar a ver­dade da questão com fran­queza. Ora, a ver­dade nos apre­sen­ta todo fato humano em mil relações diver­sas, que induzem diver­si­dades grandís­si­mas  de obri­gações. O erro mes­mo em primeiro lugar pode se pro­nun­ciar ou por quem igno­ra a mesquin­hez do int­elec­to, ou por quem é pér­fi­do por obsti­nação da von­tade; a ignorân­cia pode encon­trar-se ou em quem jamais con­heceu o ver­dadeiro, ou em quem conhecendo‑o apos­ta­tou: o tê-lo con­heci­do pode ser um ato de pura ilu­mi­nação con­heci­do ape­nas por Deus, ou um ato man­i­fes­ta­do com públi­ca e diu­tur­na profis­são de fé: o rene­gar esta fé pode se faz­er em uma sociedade de incré­du­los que lhe aplau­dem e pro­movem, ou em uma sociedade de crentes que lhe alve­jam com peri­go do próprio per­ver­ti­men­to: o viv­er em tal sociedade pode ser dev­er invi­o­láv­el ou arbi­traria eleição; o racioci­nar em meio a tal sociedade pode se faz­er ora para acaute­lar os crentes, ora para gan­har os errantes. Todas estas e tan­tas out­ras condições de sim­i­lares antin­o­minias podem admin­is­trar razão de soluções diver­sas, que faríamos um lon­go rumor se uma a uma devêsse­mos exam­i­nar. Então, deix­am­os a descrição os seus dire­itos, e aos inde­cisos o acon­sel­harem-se com sapi­entes e ver­dadeira­mente católi­cos; entre­tan­to, receben­do de nós uni­ca­mente o exame do prin­ci­pio uni­ver­sal que dos mod­er­a­dos se dese­jaria acred­i­tar: «o mit­i­gar as fór­mu­las, quan­do tra­ta-se de cen­surar um deli­to, é ele dev­er uni­ver­sal de corte­sia social?»

A corte­sia tende razoavel­mente a poupar os out­ros toda pena, des­de que tal indul­gên­cia não seja noci­va a out­ros: que poupar tais penas com dano moral de um homem ou de uma sociedade seria a corte­sia de um cirurgião recu­san­do ao enfer­mos o serviço do seu bis­turi ou de um edu­cador aban­do­nan­do o seu aluno a todos os capri­chos de uma dis­so­lu­ta natureza, isso é evi­dente. Então, a con­sid­er­ar se é corte­sia aque­la bran­dura no exprim­ir o deli­to, deve­mos con­sid­er­ar se causa dano moral ao indi­vid­uo ou a sociedade.

Para que foi dada a lin­guagem aos homem? Para que sir­va de veícu­lo aos pen­sa­men­tos. Onde cada homem fala, diz implici­ta­mente a quem o ouve: «eu alme­jo que o teu pen­sa­men­to seja mod­i­fi­ca­do com a nor­ma das min­has palavras: e por con­se­quên­cia se eu mit­i­go a expressão de um deli­to, eu dese­jo que tu não lhe con­ce­ba como um hor­ror ven­ci­do».  Leitor, o que lhe parece? É esta fór­mu­la digna de um homem racional?

Mas adverte que na sociedade tudo é solidário; sendo aque­la fór­mu­la a mes­ma que com isso você/eu nos vale­mos, você a trans­mite a um terço, e o terço ao quar­to, ao déci­mo, ao cen­tési­mo, ao milési­mo; e assim, pouco a pouco cor­re­spon­den­do a toda nova repetição um pen­sa­men­to novo, se for­mará sobre o tipo daque­la fór­mu­la a opinião ger­al da sociedade; aque­la opinião que no diz­er dos mod­er­a­dos é a rain­ha do mun­do, que muito emb­o­ra se não seja rain­ha por dire­ito, lhe é por fato tirana. Então, quan­do se vai gri­tan­do ser descorte­sia o chamar blas­fe­mador a quem blas­fe­ma, ladrão a quem rou­ba, sacrílego a quem vio­la o sacro,  nada além final­mente se diz senão, ser débito de corte­sia o se faz­er que se per­ca na opinião públi­ca (ao menos em algu­mas con­jun­turas) o hor­ror da blas­fêmia, do roubo e do sac­rilé­gio: o que vocês podem ver quan­to é per­ni­cioso para a sociedade.

- Mas, meu caro, se a sociedade admi­tisse  vos­sa dout­ri­na, seria mais pos­sív­el o con­viv­er com cer­tas pes­soas?

E parece a vocês que a fim de con­viv­er com cer­tas pes­soas, o homem deve renun­ciar a ver­dade, aut­en­ticar o erro, causar tan­to dano aos mais caros, como se segue da alter­ação dos con­ceitos morais em sen­tenças de altís­si­mo rele­vo, preparan­do aber­rações e quedas mis­eráveis? Enquan­to nós con­fes­samos, que, feitas sem­pre as exceções pouco antes ace­nadas, não vemos a grande neces­si­dade de con­viv­er com cer­tas pes­soas, vale diz­er, com quem pro­fes­sa não crer como cristão, e talvez tam­bém de nem sequer viva como homem. E que o não ver tal neces­si­dade não seja erro ou exagero de mente igno­rante ou superla­ti­va, lhe dá fé o zelo com qual em cada tem­po a Igre­ja quer sep­a­rar os seus fil­hos dos hereges e dos descrentes. Daque­le após­to­lo da cari­dade São João até aque­le mod­e­lo de suavi­dade San­to Afon­so Maria de Ligório, sem­pre a Igre­ja con­tin­u­ou a dizer:«pela piedade de vos­sas almas, meus fil­hos, com estes het­ero­dox­os nen­hu­ma famil­iari­dade, não comunhão de mesa, não coabitação em casa, não uma saudação pela rua; nec ave ei dixeri­tis».  Então, vejais que a obe­diên­cia reca­ta, longe de com­bat­er a nos­sa dout­ri­na, pelo con­trário uma jus­ti­fi­cação daqui­lo que a Igre­ja oper­ou em cada tem­po, e que pelos mod­er­a­dos alta­mente se con­de­na e se com­bate. O mit­i­gar o hor­ror da impiedade na lin­guagem é, dizia a objeção, necessário para con­viv­er com os descrentes. Pre­cisa­mente por isso respon­dia a Igre­ja, não pos­so eu per­mi­tir, que os meus fil­hos per­cam, e con­tribuam a faz­er perder o hor­ror do deli­to, porque não podeis con­viv­er com os descrentes sem ado­tar-lhe a lin­guagem, inter­di­to-lhe com ess­es toda con­vivên­cia.

Enten­demos muito bem que para eles a lin­guagem da Igre­ja é sabida­mente difí­cil e intol­eráv­el, e pre­cisa­mente por isto se esforçam para desa­cred­i­ta-la. Mas esta é uma nova razão para não admi­tir a sua per­gun­ta. Lhe enten­deste, meu leitor, o seu jus­to val­or? Para facil­i­tar a inteligên­cia eis o seu inten­to expli­ca­do em lín­gua vul­gar. «Por cari­dade, dizem eles, deix­ai essa lin­guagem! Se por toda a sociedade se começar a usar um vocab­ulário fran­co, será a nós pos­sív­el o con­tin­uar no nos­so vício, ouvin­do nos diz­er a cada momen­to que somos blas­fe­madores, ladrões, sacríle­gos, etc? Estes títu­los são cen­sura­dos pela opinião comum de tal for­ma que nós dev­er­e­mos ou deixar de blas­fe­mar, roubar e come­ter sac­rilé­gio, ou tomar vol­un­tari­a­mente o ban­do de uma sociedade que nos mit­i­gasse de tal infâmia. Bem! Então, sejais benévo­los conosco, sejais memória da cari­dade que o Evan­gel­ho lhes man­da, e não nos con­strin­jais a levar para out­ro lugar as nos­sas blas­fêmias e impiedades, por ser­mos nomea­d­os com tal nome infamante».

Tam­bém refli­ta­mos o quan­to nos agra­da, e vejamos, leitor, entre católi­cos aque­la pre­ten­são da assim dita corte­sia a isto se reduzir, a obter a ple­na liber­dade para toda iniq­uidade irre­li­giosa,  toda licen­ciosi­dade políti­ca e toda devas­sidão anti-social. Uma tal pre­ten­são entre het­ero­dox­os é logi­ca­mente incon­testáv­el, descen­do do fio da lóg­i­ca dos seus princí­pios. E porém, vejam vocês (para dar um exem­p­lo de devas­sidão anti-social) os Mór­mons na Améri­ca colo­caram o con­gres­so em maus lençóis, movi­dos por princí­pios protes­tantes, e assim, instaram ao ad hominem. «Olá! Dizia o dep­uta­do de Utah: não haveis vós por princí­pio ser livre qual­quer um para seguir a Bíblia? Ora, nós na Bíblia encon­tramos o divór­cio e a poligamia, e toda for­ma de liber­dade ani­malesca, fos­se mes­mo a própria polian­dria. Qual dire­ito haveis vós, então, de lhes vetar? Não esta­mos a diz­er, que vós não lеdes o mes­mo: а nos­sa con­sciên­cia depende do Evan­gel­ho expli­ca­do com a nos­sa razão, e não com a vos­sa».

Veja, leitor: o imoral em face do protes­tante pode cam­in­har com a cabeça ergui­da; e se o segun­do ousasse tratar-lo como imoral, o primeiro pode­ria defi­ni-lo como irra­cional, absur­do e inimi­go do Evan­gel­ho: e ambos os dois com igual razão. Por­tan­to, para evi­tar col­isões ásperas e irra­cionais, se recorre a corte­sia que mit­i­ga, e o adultério se trans­for­ma em divór­cio, a poligamia em pre­ceito divi­no, e toda lib­erti­nagem em pre­ceito de natureza.

Mas entre os católi­cos pelos quais o vocab­ulário é escrito pela pena infalív­el da Igre­ja, e o mal vem chama­do de mal, a fim de tor­na-lo abom­ináv­el, o bem chama­do bem a fim de que qual­quer um dele se enam­ore; uma corte­sia, que fraude a Igre­ja no seu entendi­men­to, e con­ce­da o jura­men­to de cidada­nia a toda impiedade e licen­ciosi­dade; uma tal corte­sia, dig­amos, não pode por princí­pio ger­al intro­duzir por quem com­preende o ter­rív­el poder da lin­guagem social e da opinião públi­ca.

Opinião que dize­mos a pouco ser a tirana do mun­do, considerando‑a sob o pre­domínio daque­la sei­ta, que pos­suí todas as artes para lhe afe­tar e dom­i­nar. Mas se os crentes, os católi­cos sin­ceros fos­sem menos tími­dos, e falassem sem­pre fran­ca­mente a anti­ga lin­guagem da sua fé, o poder da opinião públi­ca sucumbiria sob a onipo­tente lin­guagem da Fé e do Ver­bo que vence, e que já venceu o mun­do [2]. Cer­ta­mente qual­quer lei dos primeiros dias da Igre­ja a história de seus even­tos, encon­tra out­ra lin­guagem, não ape­nas a dos Pon­tí­fices e dos Prela­dos, mas tam­bém dos príncipes, dos min­istros e dos juriscon­sul­tos católi­cos, que o demaine* sacrílego, ou out­ras vozes sim­i­lares de vitupério, que hoje embrul­ham os ouvi­dos com a afe­ta­da del­i­cadeza de um Doutor mod­er­a­do.  Neste sen­ti­do, mem­o­ráveis foram os princí­pios que o Con­cílio de Lion disse con­tra a impiedade de Fred­eri­co II, onde se pode ver com que robus­ta fran­queza se atribuiu a cada vício o seu nome próprio! E o efeito dese­ja­do sabem qual era? Era de colo­car aque­le mes­mo desaver­gonhado e temerário após­ta­ta na neces­si­dade de se jus­ti­ficar do pior: e porque a jus­ti­fi­cação aborti­va com a pre­sença inex­oráv­el dos fatos, o ulti­mo resul­ta­do da fran­queza na lin­guagem era o hor­ror inspi­ra­do em toda a sociedade cristã con­tra os deli­tos do perseguidor, e a impotên­cia a qual este se reduzia em prosseguir mais além nos seus cel­er­a­dos entendi­men­tos.

Não duvi­damos que estas nos­sas reflexões nos imputarão um dilúvio de maldições e de con­tumélias; «aqui está! Gri­tarão os mod­er­a­dos: a La Civiltà Cat­toli­ca quer ressus­ci­tar o medie­vo em toda a sua mais nojen­ta descorte­sia!» E grite tam­bém o seu cor­reio, que o seu gri­to não can­ce­lará a natureza das coisas, nem as con­se­quên­cias que dess­es bro­tam: e o ver­dadeiro crente dev­erá tam­bém sem­pre diz­er para si mesmo:«se eu não ouso chamar o deli­to pelo seu nome, o tornarei menos vitu­pe­rioso e odioso: se a min­ha lin­guagem o intro­duz na sociedade, fir­marei nes­sa pelo deli­to o sal­vo-con­du­to: e todos aque­les que da min­ha cal­ma tomaram cor­agem para prosseguir a propa­gar o deli­to, se tornaram meus deve­dores de sua per­ver­si­dade sobre a ter­ra, e da sua perdição eter­na».

R.P. Lui­gi Tapar­el­li D’Azeglio, S.J.
La Civiltà Cat­toli­ca anno V, serie II, vol. VII, Roma 1854 pag. 465–474.

* Demanio, com­plexo de bens per­ten­centes ao Esta­do e out­ras enti­dades pub­li­cas ter­ri­to­ri­ais, enquan­to des­ti­na­do ao uso dire­to ou indi­re­to dos cidadãos; é tam­bém chama­do de públi­co, em con­tra­posição ao pri­va­do, fis­cal e pat­ri­mo­ni­al, locução com qual se indi­ca o con­jun­to de todos os out­ros bens, móveis ou imóveis, per­ten­centes ao Esta­dos, cidades, provín­cias e as regiões, que con­stituem o assim chama­do patrimônio do Esta­do e respec­ti­va­mente dos out­ros entes públi­cos (por exe., os ter­renos, os edifí­cios, as flo­restas, as empre­sas públi­cas, etc).

NOTAS:

[1] A liber­dade católi­ca não excluí jamais a reverên­cia a Igre­ja; e esta reverên­cia como exige indu­bita­da adesão àqui­lo que vem declar­a­do de fé, assim incli­na a aprovar, tam­bém fora do rig­oroso dog­ma, aqui­lo que a Igre­ja apro­va, a vitu­per­ar aqui­lo que ela vitu­pera, e muito mais a realizar tudo que ela man­da.

[2] Haec est vic­to­ria, quae vincit mundum, fides nos­tra. — Con­fidite: Ego vici mundum. [I Joann. V, 4.: «Esta é aa vit­to­ria que vence o mun­do: a nos­sa fé.»  Joann. XVI, 33.: «Ten­hais bom âni­mo: Eu ven­ci o mun­do.»]

 PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO:

Lui­gi Tapar­el­li d’Azeglio S.J.. “Ver­dade ou corte­sia?”, La Civiltà Cat­toli­ca anno V, serie II, vol. VII, Roma 1854 pag. 465–474., trad. br. por Sim Sim Não Não [Ged­er­son Fal­cometa], abril 2015,http://simsimnaonao.altervista.org/site/component/content/article/27-edicao-on-line-ano-i-abril-2015/25-verdade-ou-cortesia