Laicatolicismo


Apologética, Atualidades, Política, Teologia / terça-feira, fevereiro 9th, 2016

Pub­li­ca­do orig­i­nal­mente
em ital­iano
com o títu­lo
Laicat­to­lices­i­mo
pela Unavox

Ged­er­son Fal­cometa

O Esta­do recebe então da Igre­ja a sua supre­ma nor­ma moral; e por con­se­quên­cia deve aceitar essa Igre­ja e recon­hecê-la, não como ele gos­ta de con­sid­erá-la, mas como Deus a con­sti­tu­iu, respei­tan­do nela por inteiro aque­le dire­ito e aque­la pre­rrog­a­ti­va, que o seu divi­no Fun­dador quis a ela atribuir”. Padre Mat­teo Lib­er­a­tore, S.J., Condição da Igre­ja opos­ta ao Esta­do).

Assim fala­va um ver­dadeiro católi­co do sécu­lo XIX!

Hoje esta­mos diante de católi­cos que acred­i­tam que é a Igre­ja quem deve rece­ber a supre­ma nor­ma moral do Esta­do.

É fácil recon­hecer estes tipos de católi­cos em altos prela­dos como os cardeais Kasper e Marx, Mons. Galan­ti­no e até mes­mo no Papa Fran­cis­co (Nda.: e em Padres, como o Padre Fábio de Mel­lo).

Estes católi­cos, que colo­caram o Esta­do no lugar de Deus, é necessário que ten­ham um nome, e como o Esta­do é laico e eles se colo­cam a dire­i­ta com a lai­ci­dade e a esquer­da com o laicis­mo, podemos chama-los de laicatóli­cos.

Todos nós con­hece­mos a dout­ri­na dos dois poderes, tem­po­ral e espir­i­tu­al. Pelo ensi­na­men­to tradi­cional sabe­mos todos que o poder tem­po­ral deve ser sub­or­di­na­do ao tem­po­ral. Uma sep­a­ração entre os dois poderes seria uma declar­ação de recíp­ro­ca inde­pendên­cia… um novo maniqueís­mo práti­co.

Ora, des­de quan­do isso acon­te­ceu pela primeira vez, com a refor­ma protes­tante, e depois de for­ma mais acen­tu­a­da, com a rev­olução france­sa, o católi­co se encon­trou na pre­sença de dois poderes que fazem leis opostas. Muitos deixaram a Igre­ja para seguir o Esta­do, out­ros ao invés dis­so, per­manece­r­am na Igre­ja seguin­do o Esta­do. São estes os católi­cos lib­erais, que des­de o seu surg­i­men­to bus­caram sub­or­di­nar a Igre­ja ao Esta­do e alcançaram o seu escopo com o Con­cílio Vat­i­cano II, exul­tan­do com a nota declar­ação de o “Vat­i­cano II foi o 1789 da Igre­ja”.

Para os laicatóli­cos de dire­i­ta e de esquer­da, a rev­olução france­sa foi uma espé­cie de rev­e­lação div­ina, ao pon­to do Cardeal Ratzinger diz­er:

O Vat­i­cano II tin­ha razão de augu­rar uma revisão das relações entre a Igre­ja e o mun­do. Exis­tem de fato val­ores que, emb­o­ra nasci­dos fora da Igre­ja, podem encon­trar o seu lugar – depu­ra­dos e cor­rigi­dos – na sua visão do mun­do. “ (Rap­por­to sul­la fede. Vitório Mes­sori em con­ver­sa com Joseph Ratzinger, Ed. Pao­line, 1985, pg 34).

O prob­le­ma dos anos sessen­ta era de adquirir os mel­hores val­ores expres­sos por dois sécu­los de cul­tura lib­er­al” (Entre­vista ao Cardeal Ratzinger aos cuida­dos de Vitório Mes­sori, em “Jesus”, novem­bro de 1984, pg 72).

Assim, entre out­ras coisas, a Igre­ja fez seu o con­ceito de liber­dade reli­giosa própria do Esta­do mod­er­no:

O Con­cílio Vat­i­cano II, com o Decre­to sobre a liber­dade reli­giosa, recon­hecen­do e fazen­do seu um princí­pio essen­cial do Esta­do mod­er­no, recu­per­ou nova­mente o património mais pro­fun­do da Igre­ja.” (Ben­to XVI, Dis­cur­so de Natal a Cúria Romana, 22 de dezem­bro de 2005).

Ora, se os dois poderes tem a mes­ma origem em Deus e são inter­de­pen­dentes, basea­do em que coisa o Con­cílio prati­cou a mais ampla e benévola con­sid­er­ação dos “val­ores” lib­erais mun­danos?

Difí­cil enten­der como a Igre­ja pode recu­per­ar “o patrimônio mais pro­fun­do” acei­tan­do a liber­dade reli­giosa, que equiv­ale a aceitação de uma espé­cie de rev­e­lação do Esta­do mod­er­no. A Igre­ja é a guardiã do Depósi­to Fidei, mas essa declar­ação de Ben­to XVI, nos faz enten­der clara­mente, que a Igre­ja não guar­da­va este “patrimônio mais pro­fun­do” e sim o Esta­do laico mod­er­no.

Ver­dadeira­mente, com esta oper­ação, não foi a liber­dade reli­giosa nasci­da no mun­do que foi cor­rigi­da, mas a con­de­nação da mes­ma por parte da tradição católi­ca e do mag­istério uni­ver­sal da Igre­ja, que foi vira­da de cabeça para baixo (Nda.: E não era a rep­re­sen­tação do patrimônio mais pro­fun­do da Igre­ja).

Ain­da devo per­gun­tar:

Roma locu­ta causa fini­ta est ou Sta­to locu­tor causa fini­ta est?

E o que acon­tece com o princí­pio da tradição católi­ca que con­de­na­va a liber­dade reli­giosa?

Temos uma her­menêu­ti­ca da con­tinuidade entre a tradição católi­ca e o Esta­do mod­er­no que o catoli­cis­mo pré-con­cil­iar neg­li­gen­ciou?

É a Igre­ja ou o Esta­do o cor­po de Cristo?

Como vimos, o desafio dos anos sessen­ta era aque­le de adquirir “os mel­hores val­ores expres­sos em dois sécu­los de cul­tura lib­er­al”, hoje seria absur­do con­sid­er­ar que Papa Fran­cis­co pen­sa a mes­ma coisa a respeito da cul­tura laicista?

Não é este, de fato, o espíri­to do Con­cílio? O espíri­to das con­sti­tu­ições dos Esta­dos laicos, que fazem coabitar muitas her­menêu­ti­cas?

O homem, como católi­co e cidadão, vive sob o influxo da Igre­ja e do Esta­do, e então o católi­co defend­erá a dout­ri­na da Igre­ja no Esta­do, enquan­to o laicatóli­co defend­erá a dout­ri­na do Esta­do na Igre­ja.

O prob­le­ma é que hoje não vemos políti­cos católi­cos que tra­bal­ham pela defe­sa da dout­ri­na católi­ca no Esta­do*, ao menos não na mes­ma pro­porção em que vemos lei­gos, reli­giosos, padres, bis­pos, cardeais e tam­bém Papas operan­do em defe­sa da dout­ri­na do Esta­do na Igre­ja. Ao pon­to em que vemos, na Ale­man­ha, por exem­p­lo, como a Igre­ja se tornou, por assim diz­er, um “cor­po” do Esta­do e os católi­cos ain­da sub­mis­sos a autori­dade laicatóli­ca não sabem mais a difer­ença exis­tente entre Esta­do e Igre­ja.

O maniqueís­mo está nes­ta revisão das relações entre a Igre­ja e o mun­do, de que fala­va o Cardeal Ratzinger, bem como no prob­le­ma da her­menêu­ti­ca do Con­cílio, ambas inter­de­pen­dentes e nasci­das no próprio Con­cílio; em pé de igual­dade com o novo maniqueís­mo do “diál­o­go”, como dizia o Padre Mat­teo Lib­er­a­tore:

Cer­ta­mente se um é o cri­ador da Igre­ja e out­ro o cri­ador do Esta­do, o homem recebe de um Princí­pio o orde­na­men­to da vida civ­il e de out­ro a vida reli­giosa; nada de mais nat­ur­al que os dois fins sejam dís­pares entre si, e con­se­quente­mente dís­pares os dois poderes que a ess­es dirigem. Somente – como tam­bém neste caso, seria o mes­mo sujeito sub­meti­do a uma e a out­ra direção – para evi­tar o con­traste dos dois impul­sos opos­tos, que tor­nasse impos­sív­el o movi­men­to, pode­ria intro­duzir-se um acor­do livre­mente feito entre os dois motores, por meio de mutuas con­cessões; quase do mes­mo modo que no Maniqueís­mo alguns opinaram ter suce­di­do uma espé­cie de trata­do entre o Princí­pio bom e o Princí­pio mau, para que os efeitos de um não destruíssem inteira­mente os efeitos do out­ro. Por out­ro lado, se um é o Princí­pio de todo o cri­a­do, como ensi­na a razão e a fé, Unus est altissimus Cre­ator omnipotens [4], a posição lib­eralesca, como que mod­er­a­da, não pode sub­si­s­tir. Se um é Deus, um é o orde­na­men­to do uni­ver­so, um o fim supre­mo da cri­ação. Este fim não pode ser out­ro que o mais sub­lime, em relação ao orde­nador, o mais bené­fi­co, em relação ao orde­na­do; o que não pode ser out­ro senão a glo­ri­fi­cação de Deus e a beat­i­tude eter­na da criatu­ra racional. Este é exata­mente o fim que guia a Igre­ja. A Igre­ja então não somente é sociedade per­fei­ta (não poden­do não ser per­fei­ta aque­la sociedade que guia ao per­feitís­si­mo dos bens), mas ain­da é entre todas supre­ma, porque o seu fim é supre­mo. A dito fim con­vém que sejam sub­or­di­na­dos todos os out­ros fins infe­ri­ores. Se é ver­dade que os bens secundários, em relação ao sumo, pos­suem razão de meios, e que os meios são sub­or­di­na­dos ao fim, dis­to se segue com irre­pugnáv­el evidên­cia que todas out­ras sociedades, quais­quer que sejam, devem se sub­me­ter a Igre­ja e dela rece­ber nor­ma e direção. Como, por­tan­to, querem mag­nificar o Esta­do, por quan­to se lhe exagere a excelên­cia, ele não pode se esqui­var da sub­or­di­nação a Igre­ja; emb­o­ra não se queira trans­for­mar esse Esta­do em Igre­ja e ele­var a Pon­tí­fice o gov­er­nante políti­co. Pois, para faz­er isto, pre­cis­ar-se-ia aceitar a here­sia angli­cana ou o cis­ma rus­so, e mostrar que no Evan­gel­ho não existe Pedro, mas Tibério, a quem foi dirigi­da aque­las palavras de Cristo: Apas­cen­ta as min­has ovel­has; con­sti­tuo-te o fun­da­men­to da min­ha Igre­ja”. (Padre Mat­teo Lib­er­a­tore, S.J., Condição da Igre­ja opos­ta ao Esta­do).

O acor­do entre o princí­pio bom e o mau é o “diál­o­go”, de out­ro modo um seria a destru­ição do out­ro, como muitas vezes se vê no hodier­no diál­o­go que não quer faz­er pros­elit­ismo ou no amor entre a her­menêu­ti­ca da refor­ma na con­tinuidade e aque­la da rup­tura. O viv­er para o mod­ernista é a pro­va da ver­dade: então, viva e deixe viv­er é, maniqueis­ti­ca­mente, tudo!

Para finalizar, a con­fusão entre Esta­do e Igre­ja é tão grande que com Fran­cis­co não sabe­mos se ele quer faz­er Pedro ou Tibério.

Um Pas­tor deve ter cuida­do com a sua grei e na Igre­ja aqui­lo que define a grei do Pas­tor é a fé. Se o Pas­tor faz a opção pref­er­en­cial por uma deter­mi­na­da classe, inde­pen­den­te­mente da fé, como Fran­ci­co fez a opção pref­er­en­cial pelos pobres inde­pen­den­te­mente da fé que pro­fes­sam, eis que se com­por­ta como um chefe de Esta­do laico que se pre­ocu­pa com econo­mia, econo­mia, soci­olo­gia, ao invés que como o chefe da fé católi­ca, dev­e­ria dessa se ocu­par.

*Lem­bran­do o que diz Padre Curzio Nitoglia: “O ide­al ou a meta apos­tóli­ca a qual todos (lei­gos e cléri­gos) são chama­dos é a instau­ração do reino sobre a ter­ra, mes­mo se imper­feita­mente, para obtê-lo per­feita­mente no Paraí­so. Então, primeiro deve­mos nos con­vert­er ver­dadeira­mente e viv­er habit­ual­mente na Graça de Deus e depois poder­e­mos levar Cristo na família, no ambi­ente de tra­bal­ho e na Sociedade civ­il. Esta é a ordem a seguir para “instau­rare omnia in Chris­to” (S. Pio X): “nemo dat quod non habet” e se não se é cristão inte­ri­or­mente e ver­dadeira­mente não se pode restau­rar a Cristandade.Por isso a teo­ria da “poli­tique d’abord” de Charles Mau­r­ras sig­nifi­caria ini­ciar a con­stru­ir o poder do Gov­er­no e se fazem leis cristãs, mas o Gov­er­nante não o é e nem mes­mo os cidadãos, a “Restau­ração” não é ver­dadeira e inte­ri­or, mas é ape­nas de facha­da, exte­ri­or e super­fi­cial e então, durará como um fogo de pal­ha. A Polis é um con­jun­to de famílias e de home­ns: primeiro vem o indi­ví­duo que unido a out­ros for­ma uma família, a qual jun­to a out­ras famílias for­ma um vilare­jo e mais vilare­jos for­mam um Esta­do. A Civ­i­tas ou Polis será cristã e orde­na­da na medi­da em que aque­les que lhe fazem parte são restau­ra­dos pela Graça, orde­na­dos e cristãos, não sub­ver­sivos e rev­olu­cionários. Só depois o Esta­do terá o dev­er de man­ter a ordem e pro­te­ger a vida vir­tu­osa. Mas não se pode começar com o fim, seria uma  con­tra­dic­tio in ter­min­is ou um “con­tra sen­so”: “o princí­pio = o princí­pio, o fim = o fim, o princí­pio ≠ o fim”. Aristóte­les (Polit­i­ca) e San­to Tomás (De regimine prin­cipum) ensi­nam que  “a polit­i­ca é a vir­tude de prudên­cia apli­ca­da a Sociedade”, enquan­to a ‘prudên­cia indi­vid­ual’ se chama “monás­ti­ca” e aque­la ‘famil­iar’ se chama “econo­mia”. Leão XIII ensi­na que os primeiros e ver­dadeiros cristãos “fiz­er­am em pouquís­si­mo tem­po pen­e­trar o Cris­tian­is­mo não só nas suas famílias, mas no exérci­to, no sena­do e por fim no palá­cio do Imperador”³. Não se começou do Palá­cio Impe­r­i­al, mas por cada cristão”. O peca­do orig­i­nal e as três con­cu­pis­cên­cias, por D. Curzio Nitoglia