A mártir de Bruges, por Georges Bernanos


Literatura / terça-feira, fevereiro 23rd, 2016

A már­tir de Bruges
Extraí­do do livro:
Diário de um Páro­co de Aldeia
Georges Bernanos

          “- Eu per­gun­to o que os sen­hores têm nas veias, hoje, vocês Padres moços! No meu tem­po for­mavam-se home­ns da Igre­ja – não adi­anta franzir a tes­ta, sin­to von­tade de esbofeteá-lo. Sim, home­ns capazes de gov­ernar. Essa gente domi­na­va uma região inteira, sem out­ro gesto que o de lev­an­tar imper­a­ti­va­mente o ros­to. Oh! Já sei o que você vai diz­er: eles comi­am bem, bebi­am mel­hor e não desprezavam o bar­al­ho. De acor­do! Quan­do se faz con­ve­nien­te­mente um tra­bal­ho, ele anda depres­sa e bem, sobran­do tem­po para des­can­so, o que é bom para toda a gente. Ago­ra os sem­i­nários nos man­dam coroin­has, pobres coita­dos que imag­i­nam tra­bal­har mais que ninguém, porque não chegam ao fim de coisa algu­ma. Ess­es tipos choramingam, em vez de man­dar. Lêem mul­ti­dões de livros, mas nun­ca chegam a com­preen­der – a com­preen­der, está ouvin­do? – a parábo­la do Esposo e da Esposa. Que é uma esposa, tal como dese­jaria encon­trar um homem, se é bas­tante idio­ta para seguir o con­sel­ho de São Paulo? Não respon­da, porque iria diz­er tolices. Pois, muito bem, é uma criatu­ra forte e firme no tra­bal­ho, mas que se sub­mete ao rit­mo inex­oráv­el das coisas, saben­do que tudo deve ser recomeça­do, até o fim. Por mais que se esforce, a San­ta Igre­ja não con­seguirá trans­for­mar este pobre mun­do em um osten­sório do Cor­po de Deus [Neb*: Óti­ma críti­ca ao Cristo cós­mi­co de Teil­hard de Chardin…]! Tive em out­ros – tem­pos falo da min­ha anti­ga paróquia – uma empre­ga­da sur­preen­dente, uma boa irmã de Bruges, sec­u­lar­iza­da em 1908, um grande coração. Nos oito primeiros dias, lus­tra que lus­tra, a casa de Deus se pôs a reluzir como um locutório de con­ven­to; não a con­hecia mais, palavra de hon­ra! Está­va­mos no tem­po da col­hei­ta; quer diz­er que não apare­cia em min­ha casa nen­hum gato, e a satâni­ca vel­hin­ha exi­gia que eu tirasse os sap­atos, a mim que ten­ho hor­ror a chine­los! Pen­so que ela chegou a pagá-los de seu bol­so. Toda man­hã, bem enten­di­do, encon­tra­va uma nova cama­da de pó nos ban­cos, um ou dois cogume­los nov­in­hos no tapete de couro, e teias de aran­ha – ah, meu pequeno! – teias de aran­ha o sufi­ciente para faz­er um enx­o­val de noi­va.

        “Eu dizia a mim mes­mo: lus­tre min­ha fil­ha, você verá, domin­go. E o domin­go chegou. Oh! Um domin­go como os out­ros, nada de fes­tas com repiques de sino; a clien­tela ordinária, qual! Mis­éria! Enfim, à meia-noite, ela encer­a­va e esfre­ga­va ain­da, de vela na mão. E algu­mas sem­anas pas­sadas mais tarde, no dia de Todos os San­tos, uma mis­são de arrasar, pre­ga­da por dois Padres Reden­toris­tas, dois tipos enormes! A infe­liz pas­sa­va suas noites de gat­in­ha entre seu balde e seu escov­ão – mol­ha que mol­ha – de tal modo que o mus­go começa­va a subir pela col­u­na aci­ma, e ervas nasci­am nas jun­turas dos ladrilhos. Não havia jeito de faz­er a boa irmã racioci­nar. Se eu fos­se ouvi-la, ninguém trans­po­ria a min­ha por­ta, para que o próprio Deus não sujasse os seus pés na Igre­ja; imag­ine! Dizia-lhe: “A sen­ho­ra me arru­inará com a com­pra de remé­dios” – porque ela tossia, pobre vel­ha! Afi­nal, caiu de cama, com uma crise de reuma­tismo artic­u­lar, o coração fraque­jou, e pluf! Eis uma boa irma diante de São Pedro! Em cer­to sen­ti­do, é uma már­tir, não se pode sus­ten­tar o con­trário. Seu erro não foi com­bat­er a imundí­cie, é cer­to, mas ter queri­do acabar com ela, como se fos­se pos­sív­el. Uma paróquia é, forçosa­mente, suja. Uma cri­stan­dade é ain­da mais suja. Espere o grande dia do Juí­zo Final, você há de ver o que os anjos terão de reti­rar dos con­ven­tos mais san­tos, às pás, — que lixo! Pois então, meni­no, isso pro­va que a Igre­ja deve ser uma boa dona de casa, sól­i­da e razoáv­el. Min­ha boa irmã não era uma ver­dadeira dona de casa: uma ver­dadeira dona de casa sabe que sua casa não é relicário. Mas, isso tudo são idéias de poeta!”

        Esper­a­va que ele chegasse ai. Enquan­to enchia de novo seu cachim­bo, ten­tei, meio desajeitada­mente, con­vencê-lo de que o exem­p­lo não fora talvez bem escol­hi­do; que essa reli­giosa que mor­reu de tra­bal­har nada tin­ha de comum com os coroin­has, os pobres dia­bos “que choramingam em vez de dar ordens”.

        — Desen­gane-se, disse-me ele seca­mente. A ilusão é a mes­ma. Só que os pobres dia­bos não tem a per­se­ver­ança de min­ha boa irmã, eis tudo. A primeira ten­ta­ti­va, sob o pre­tex­to de que a exper­iên­cia do min­istério não con­fir­ma suas ideiaz­in­has, desistem de tudo. Só servem para com­er doces! E uma cri­stan­dade, como um homem, não se pode ali­men­tar de con­feitos. Nos­so Sen­hor não escreve que somos o mel da ter­ra, meni­no, mas o sal**. Ora, nos­so pobre mun­do se parece com o vel­ho pai de Jó, na sua esterqueira, cheio de cha­gas e de úlceras. Sal, na cha­ga viva, queima. Mas impede tam­bém de apo­drecer. Com a idéia de exter­mi­nar o dia­bo, out­ra mania de vocês é a de serem ama­dos por causa de vocês mes­mos, enten­da-se. Um ver­dadeiro Padre nun­ca é ama­do; guarde isso. E quer que lhe diga? A Igre­ja pouco se lhe dá que vocês sejam ama­dos, meni­no. Sejam primeiro respeita­dos, obe­de­ci­dos. A Igre­ja pre­cisa de ordem. Trate de ordenar as coisas durante o dia. Pon­ha as coisas em ordem, pen­san­do que a des­or­dem prevale­cerá no dia seguinte, porque, ai de nós, é jus­ta­mente na ordem as coisas que a noite des­bara­ta seu tra­bal­ho da véspera – a noite per­tence ao dia­bo”.

*Neb: Nota do edi­tor do blog.

** Como nota Bernanos, Nos­so Sen­hor não disse que somos o mel, e acres­cen­to nem o fel, mas o sal da ter­ra. O sal, pode-se diz­er, é a cari­dade, sobre a qual diz São Pio X na sua primeira encícli­ca “E supre­mi apos­to­la­tus”, onde fez do “Instau­rare omnia in Chris­to” o pro­gra­ma de seu pon­tif­i­ca­do:

A Cari­dade Cristã.

  1. Mas, para que esse zelo em ensi­nar pro­duza os fru­tos que dele se esper­am e sir­va para for­mar Cristo em todos, nada mais efi­caz do que a cari­dade; grave­mos isto forte­mente na nos­sa memória, ó Ven­eráveis Irmãos, pois o Sen­hor não está na comoção (III Rs 19,11). Debalde esper­aríamos atrair as almas a Deus por um zelo impreg­na­do de aze­dume; expro­brar dura­mente os erros, e repreen­der os vícios com aspereza, muitís­si­mas vezes causa mais dano do que proveito. Ver­dade é que o Após­to­lo, exor­tan­do Timó­teo, lhe dizia: Acusa, supli­ca, repreende, mas acres­cen­ta­va: com toda paciên­cia (II Tim 4,2). Nada mais con­forme aos exem­p­los que Jesus Cristo nos deixou. É Ele quem nos dirige este con­vite: Vin­de a mim vós todos que sofreis e que gemeis sob o far­do, e eu vos aliviarei (Mt 11,28). E, no seu pen­sa­men­to, ess­es enfer­mos e ess­es oprim­i­dos out­ros não eram senão os escravos do erro e do peca­do. De feito, que man­sid­ão nesse divi­no Mestre! Que ter­nu­ra, que com­paixão para com todos os infe­lizes! O seu divi­no Coração é‑nos admiràvel­mente pin­ta­do por Isaías nestes ter­mos: Pousarei sobre ele o meu espíri­to; ele não con­tes­tará nem ele­vará a voz: jamais acabará de que­brar o caniço meio par­tido, nem extin­guirá a mecha que ain­da fumega (Is 42,1ss). Essa cari­dade paciente e benigna (I Cor 13,4) dev­erá ir ao encon­tro daque­les mes­mos que são nos­sos adver­sários e nos­sos perseguidores. Eles nos maldizem, assim o procla­ma­va São Paulo, e nós ben­dize­mos; perseguem-nos, e nós supor­ta­mos; blas­fe­mam-nos, e nós oramos (I Cor. 4,12,ss). Talvez que, afi­nal de con­tas, eles se mostrem piores do que são real­mente. O con­tac­to com os out­ros, os pre­con­ceitos, a influên­cia das doutri­nas e dos exem­p­los, enfim o respeito humano, con­sel­heiro funesto, inscrever­am-nos no par­tido da impiedade; mas, no fun­do, a von­tade deles não é tão deprava­da como eles se com­prazem em faz­er crer. Porque então não haveríamos de esper­ar que a chama da cari­dade dis­sipe enfim as trevas da alma deles, e faça reinar nelas, com a luz, a paz de Deus? Mais de uma vez o fru­to do nos­so tra­bal­ho talvez se faça esper­ar; mas a cari­dade não se cansa, per­sua­di­da de que Deus mede a suas rec­om­pen­sas não pelos resul­ta­dos, mas pela boa von­tade.

Há em nos­so meio mui­ta gente que con­funde cari­dade com comoção. Pen­sam que cari­dade é exata­mente “expro­bar dura­mente os erros, e repreen­der muitas vezes não só os vícios, mas tam­bém as próprias pes­soas asper­era­mente, mas isso, como nota São Pio X, causa mais dano que proveito: nós não somos nem o mel e nem o fel da ter­ra, mas o sal! Não podemos faz­er do com­bate ao erro uma neuróti­ca mania de limpeza como fez a “már­tir de Bruges”.