O retorno de Dom Quixote


Literatura / quarta-feira, fevereiro 24th, 2016

O retorno de Dom Quixote:
uma aven­tu­ra picaresca
em bus­ca da
humanidade per­di­da.

Listener

Radio Spa­da
Luca Fuma­gal­li
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

 

A vida é a mais extra­ordinária das aven­turas,
mas só a desco­bre o aven­tureiro”
G. K. Chester­ton

Na ver­dade poucos escritores como Chester­ton tem a capaci­dade de emo­cionar. Cada livro, de fato, é uma espé­cie de doce son­ho, berço e afa­go para o leitor, para depois fazê-lo acor­dar impro­visada­mente. Não se entende nat­u­ral­mente o mero sen­ti­men­tal­is­mo, mas aque­la capaci­dade extra­ordinária, tão típi­ca do escritor inglês, de mover cada menor fibra da alma em direção da Ver­dade, daque­le Cristo mor­to para red­imir a mal­dade do homem, aque­le Deus encar­na­do a quem o próprio Chester­ton se ren­deu durante a sua vida.

Eis então que cada pági­na rever­bera aque­la certeza de que a Igre­ja Católi­ca trans­mite de ger­ação em ger­ação.  Cada palavra é uma fes­ta da sim­pli­ci­dade e da comoção, de tudo aqui­lo que tor­na o homem dig­no, daque­le ali­men­to de sen­so que vem muito antes dos dire­itos humanos, porque essên­cia dos dire­itos do Cri­ador. Desar­ma­do, o leitor se encon­tra diante de uma prosa provo­catória e “sur­re­al­ista” que desmon­ta cada certeza, mas que resti­tui aque­la ale­gria de viv­er sob o estandarte de Cristo, ao ensi­na­men­to da devoção e da san­ti­dade.

A recente repub­li­cação da obra chester­to­ni­ana aos cuida­dos da “Mor­gan­ti edi­zioni” per­mi­tiu final­mente, tam­bém, ao públi­co ital­iano de obter não só aos grandes clás­si­cos do escritor, mas tam­bém e sobre­tu­do aos livros con­sid­er­a­dos “menores”, de fato traduzi­dos e pub­li­ca­dos na Itália pela primeira vez (acom­pan­hados tam­bém de um óti­mo apara­to de notas explica­ti­vas). Definir “menores” estes romances é evi­den­te­mente ape­nas uma eti­que­ta de como­di­dade para dis­tin­guir-lhe dos pro­je­tos literários mais céle­bres como os con­tos do Padre Brown, A taber­na voado­ra, O homem que foi quin­ta-feira ou O Napoleão de Not­ting Hill e não um juí­zo qual­i­fica­ti­vo. Na ver­dade, um filo ver­mel­ho conec­ta todo o tra­bal­ho de Chester­ton que, despon­tan­do em um hor­i­zonte inte­gral­mente cristão, não pode senão ser total­mente inter­es­sante e apaixo­nante, porque só Jesus, com a sua pre­sença históri­ca, está em grau de sat­is­faz­er inte­gral­mente as neces­si­dades do homem.

O retorno de D. Quixote faz parte deste grupo nutri­do. Pub­li­ca­do pela primeira vez por capí­tu­los em um per­iódi­co, o livro per­maneceu incom­ple­to e foi com­ple­ta­do pos­tu­ma­mente por motivos edi­to­ri­ais, por mão ain­da igno­ta. Tudo isto não tem, porém, min­i­ma­mente arru­ina­do o esti­lo orig­i­nal do tex­to que con­ser­va os típi­cos para­dox­os e as acroba­cias do escritor britâni­co: o úni­co lim­ite per­manece talvez a con­clusão nar­ra­da no últi­mo capí­tu­lo que resul­ta muito pre­cip­i­ta­da e repenti­na a respeito do anda­men­to ger­al da obra.

A história, em sín­tese, con­ta o diver­tido e incredív­el even­to na vida do jovem Michael Herne, bib­liotecário de Sea­wood Abbey. Quan­do Olive Ash­ley decide ence­nar a comé­dia Blondel o Trovador, o tími­do bib­liotecário é envolvi­do na peça teatral para per­son­ificar um trovador. Pouco depois, porém, lhe é pedi­do para inter­pre­tar um papel diver­so, pelo qual, sobre a calça jus­ta verde de trovador, endos­sará as vestes bem mais empen­hati­vas do pro­tag­o­nista: Ricar­do Coração de Leão. Ini­cial­mente o inse­guro bib­liotecário se demon­stra refratário ao jogo das partes, mas per­manece depois víti­ma das sug­estões da comé­dia. Entende, então, ter encon­tra­do no papel recita­do o seu ver­dadeiro Eu e o sen­ti­do da vida. Assim, recusa tirar o cos­tume de cena, moven­do-se e pen­san­do como um homem medieval.

O grande escritor inglês trans­for­ma o bib­liotecário na reed­ição do Dom Quixote de cer­van­tesca memória, pre­sen­te­an­do a este novo pal­adi­no do ide­al­is­mo uma sim­pa­tia que o per­son­agem de Cer­vantes não teve. O seguirá na sua pere­gri­nação a per­son­ifi­cação do homem altruís­ta, Dou­glas Mur­rel, novo San­cho Pan­za e extra­ordinário per­son­agem literário.

Uma épi­ca do quo­tid­i­ano sin­cera e apaixon­a­da que faz fun­do não só a bus­ca do sen­ti­do para a vida da parte de um homem que redesco­bre no medie­vo Cris­tiano o cume da civ­i­liza­ção humana, mas tam­bém uma ocasião para dis­cu­tir difusa­mente do pro­gra­ma dis­trib­u­tivista, aque­la nor­ma econômi­ca basea­da sobre a redescober­ta do cor­po­ra­tivis­mo medieval elab­o­ra­da em colab­o­ração com Hillaire Bel­loc e Padre McBann sobre a inspi­ração de Leão XIII. E o para­doxo que supor­ta o inteiro acon­tec­i­men­to é pro­pri­a­mente colo­car em rad­i­cal dis­cussão o pre­ten­so pro­gres­so do mun­do mod­er­no e laico, joga­do ain­da em ato de acusação nos con­fron­tos seja do cap­i­tal­is­mo sel­vagem que do social­is­mo mas­si­f­i­cante. É, em sín­tese, um apaixo­nante proces­so ao homo eco­nom­i­cus, ao homem mod­er­nus (N.d.T.: e ao homo avarus) que, acred­i­tan­do ter obti­do tan­to, renun­ciou na real­i­dade a sua humanidade, a úni­ca coisa que real­mente con­ta.

Pron­to para a batal­ha, a mais extra­ordinária aven­tu­ra espera por você…

Luca Fuma­gal­li