Sobre Escandalizar-se


Psicologia, Teologia / segunda-feira, fevereiro 29th, 2016

Cap. VIII das
Con­fer­ên­cias Espir­i­tu­ais

(Lon­dres, 1859)

Padre Fred­er­ick William FABER (1814–1863),
do Oratório

 

Causar escân­da­lo é fal­ta grave, mas rece­ber escân­da­lo é fal­ta mais grave ain­da. Impli­ca maior mal­dade em nós e faz maior dano aos out­ros.

Nada escan­dal­iza mais rápi­do do que a rapi­dez em se escan­dalizar. Vale a pena con­sid­er­ar­mos isso. Pois encon­tro numerosís­si­mas pes­soas mod­er­ada­mente boas que pen­sam que não tem prob­le­ma escan­dalizar-se. Con­sid­er­am isso uma espé­cie de pro­va de sua própria bon­dade e de del­i­cadeza de con­sciên­cia, quan­do na real­i­dade é somente pro­va de sua pre­sunção des­or­de­na­da ou então de estu­pid­ez extrema. É um infortúnio para elas quan­do é este últi­mo o seu caso, pois então ninguém tem cul­pa além da natureza inculpáv­el. Se, como dis­ser­am alguns, o homem estúpi­do não pode ser San­to, ao menos sua estu­pid­ez nun­ca poderá faz­er dele um pecador. Ade­mais, as pes­soas em questão pare­cem muitas vezes sen­tir e agir como se a sua profis­são de piedade envolvesse algu­ma espé­cie de des­ig­nação ofi­cial para escan­dalizar-se. É o negó­cio delas rece­ber escân­da­lo. É seu modo de teste­munhar a Deus. Demon­straria culpáv­el inér­cia na vida espir­i­tu­al se não se escan­dal­izassem. Pen­sam que sofrem muitís­si­mo enquan­to estão se escan­dal­izan­do, ao pas­so que, na ver­dade, gostam dis­so impres­sio­n­an­te­mente. É uma agi­tação praze­rosa, que diver­si­fi­ca deli­ciosa­mente a monot­o­nia da devoção. Elas, na real­i­dade, não caem por causa do peca­do de seu próx­i­mo, nem o peca­do dele por si só as detém no cam­in­ho da san­ti­dade, nem tam­pouco amam menos a Deus por causa daque­le peca­do: todas coisas que dev­e­ri­am estar impli­cadas no rece­ber escân­da­lo. Mas elas tropeçam de propósi­to e cuidam que seja diante de algu­ma fal­ta de seu próx­i­mo, para que pos­sam chamar a atenção para a difer­ença entre ele e elas próprias.

Há cer­ta­mente muitas causas legí­ti­mas para escan­dalizar-se, mas nen­hu­ma mais legí­ti­ma do que a facil­i­dade quase jac­tan­ciosa de se escan­dalizar que car­ac­ter­i­za tan­tas pes­soas suposta­mente reli­giosas. O fato é que pro­porção imen­sa de nós é fariseu. Para cada homem piedoso que tor­na a piedade atraente, há nove que a tor­nam repug­nante. Ou, noutras palavras, somente uma em cada dez pes­soas rep­utadas espir­i­tu­ais é real­mente espir­i­tu­al. Aque­le que, durante vida lon­ga, mais se escan­dal­i­zou, fez mais injúria à glória de Deus e foi, ele próprio, pedra de tropeço real e sub­stan­cial no cam­in­ho de muitos. Foi ele fonte ines­gotáv­el de odiosa desed­i­fi­cação para os pequenos de Cristo. Se um dess­es tais ler isto, escan­dalizar-se‑á de mim. Tudo aqui­lo de que ele não gos­ta, tudo aqui­lo que o desvia de sua maneira estre­i­ta de ver as coisas, é para ele um escân­da­lo. É o modo fari­saico de expres­sar difer­ença de opinião.

Os home­ns gostam mar­avil­hosa­mente de ser papas, e o mais enfadon­ho dos home­ns, se ao menos tiv­er, como cos­tu­ma ter, obsti­nação pro­por­ciona­da à sua enfadon­hice, pode na maio­r­ia das viz­in­hanças esculpir para si um pequeno papa­do; e se à sua enfadon­hice ele con­seguir acres­cen­tar pom­posi­dade, poderá reinar glo­riosa­mente, pequeno con­cílio ecumêni­co local em sessão inter­mi­tente durante todas as qua­tro estações do ano. Quem tem tem­po sufi­ciente, ou âni­mo sufi­ciente, ou esper­ança sufi­ciente, para ten­tar per­suadir a ess­es home­ns? Eles não nos são sufi­cien­te­mente inter­es­santes para serem dig­nos de os per­suadirmos. Deix­e­mo-los a sós com a sua glória e a sua feli­ci­dade. Ten­te­mos per­suadir a nós mes­mos. Nós mes­mos não nos escan­dal­izamos com demasi­a­da fre­quên­cia? Exam­inemos a questão e vejamos.

Ago­ra, eis aqui algo em que muitas vezes meditei. Cer­ta­mente ninguém é capaz de se lem­brar de tudo nas volu­mosas vidas dos San­tos, pois levaria uma vida inteira para lê-las todas. Mas não me lem­bro de ter lido de nen­hum San­to que ten­ha algu­ma vez se escan­dal­iza­do. Se isso é ain­da que aprox­i­mada­mente ver­dadeiro, a questão está deci­di­da de ime­di­a­to. Home­ns incha­dos, infla­dos de auto-importân­cia, que veem fal­tas nos out­ros com olhos de lince, criti­cam-nos com hábeis sar­cas­mos e se deleitam no pedan­tismo de um esta­do de espíri­to judi­cial, somente de modo humorís­ti­co podem aplicar a si mes­mos o nome de pequenos de Cristo. Todavia os livros nos con­tam que há dois tipos de escân­da­lo: o escân­da­lo dos pequenos de Cristo e o escân­da­lo dos fariseus. Segue-se, então, que ess­es home­ns devem ser fariseus. Mas eu digo que, se essa obser­vação sobre os San­tos for ain­da que aprox­i­mada­mente ver­dadeira, ela deve frear-nos, e faz­er-nos pen­sar muito, caso sejamos home­ns sérios, emb­o­ra não San­tos; e o que per­tence aos San­tos de modo algum se apli­ca a nós com segu­rança sob todos os aspec­tos. Supon­hamos que não seja estri­ta­mente ver­dadeira. Supon­hamos que seja somente coisa rara para os San­tos escan­dalizar-se. Podemos tirar dis­so con­clusão sufi­cien­te­mente ampla, para nos ser muito práti­ca. Pois podemos inferir que é questão sobre a qual pes­soas que alme­jam ser espir­i­tu­ais não têm como pre­caver-se o bas­tante. Toda a vez que nos escan­dal­izamos, cor­re­mos grande risco de pecar, e risco múlti­p­lo assim como grande. Cor­re­mos o risco de prej­u­dicar a glória de Deus, de des­on­rar ao nos­so San­to Sen­hor, de dar escân­da­lo sub­stan­cial a out­ros, de que­brar nós mes­mos o pre­ceito da cari­dade, de indis­crição alta­mente culpáv­el e, no mín­i­mo dos mín­i­mos, de entris­te­cer o Espíri­to San­to em nos­sas próprias almas. Há aqui o bas­tante para faz­er valer a pena inves­ti­gar.

Vejamos, primeiro que tudo, a quan­ti­dade de mal­dade que o hábito de se escan­dalizar impli­ca. Impli­ca orgul­ho silen­cioso, que é total­mente incon­sciente de quão orgul­hoso é. O orgul­ho é a negação da vida espir­i­tu­al. Orgul­ho espir­i­tu­al sig­nifi­ca que não temos vida espir­i­tu­al, mas, em lugar dela, a posse desse mau espíri­to. O orgul­ho já é difí­cil o bas­tante de admin­is­trar mes­mo quan­do dele esta­mos cientes, mas um orgul­ho que não tem con­sciên­cia de si próprio é coisa muito deses­per­a­da. Fre­quente­mente, parece como se a graça só o pudesse atin­gir através da que­da em peca­do grave, que des­per­tará sua con­sciên­cia e, no mes­mo instante, trans­for­má-lo‑á em ver­gonha. Ora, o hábito de escan­dalizar-se indi­ca aque­le pior tipo de orgul­ho, um orgul­ho que acred­i­ta ser a humil­dade. Qual­quer coisa próx­i­ma a um hábito de rece­ber escân­da­lo impli­ca tam­bém a existên­cia de uma fonte de fal­ta de cari­dade nas pro­fun­dezas do nos­so ínti­mo, que a graça e a mor­ti­fi­cação inte­ri­or ain­da não alcançaram ou não con­seguiram influ­en­ciar. Se prestar­mos atenção em nós mes­mos, desco­brire­mos que, con­tem­po­ranea­mente com o nos­so escan­dalizar-se, hou­ve uma ou out­ra mágoa em esta­do de agi­tação den­tro de nós. Quan­do esta­mos bem dis­pos­tos, não nos escan­dal­izamos. É um ato que não é pre­pon­der­an­te­mente acom­pan­hado de benevolên­cia. Uma tris­teza gen­uina­mente mansa pela pes­soa ofen­so­ra não é nem o primeiro pen­sa­men­to nem o pen­sa­men­to pre­dom­i­nante em nos­sa mente quan­do nos melin­dramos. É fru­to geral­mente de um humor malig­no. Às vezes, de fato, bro­ta da morosi­dade, oca­sion­a­da por ado­tar­mos uma gravi­dade que não fica bem em nós, porque vai con­tra a sim­pli­ci­dade. Pre­cipi­ta­mo-nos em rem­i­nis­cên­cias e desco­b­ri­mos que nos entreg­amos de cabeça à rabug­ice. Nem, tam­pouco, pode o ato de escan­dalizar-se ser muito fre­quente em nós, sem que implique tam­bém um hábito for­ma­do de jul­gar os out­ros. Numa pes­soa real­mente humilde ou nat­u­ral­mente empáti­ca, o instin­to de jul­gar os out­ros é cober­to, e como esma­ga­do, por out­ras e mel­hores qual­i­dades. Tem de se empen­har e de faz­er grande esforço antes de con­seguir chegar à super­fí­cie e se faz­er valer, ao pas­so que já está na super­fí­cie, óbvio, prepara­do, disponív­el e pre­dom­i­nante no homem que é dado a escan­dalizar-se. Será com fre­quên­cia per­mi­ti­do jul­gar ao nos­so próx­i­mo? Cer­ta­mente sabe­mos que deve ser a coisa mais rara pos­sív­el. Ora, não temos como nos escan­dalizar sem primeiro for­mar um juí­zo; segun­do, for­mar um juí­zo des­fa­voráv­el; ter­ceiro, entretê-lo delib­er­ada­mente como moti­vação propul­so­ra que nos incli­na a faz­er ou omi­tir algu­ma coisa; e quar­to, faz­er tudo isso pre­dom­i­nan­te­mente em temas de piedade, que, em nove entre dez casos, nos­sa óbvia ignorân­cia sub­trai de nos­sa juris­dição.

Tam­bém indi­ca carên­cia gen­er­al­iza­da de espíri­to inte­ri­or. A graça sobre­nat­ur­al de um espíri­to de inte­ri­or­i­dade, den­tre out­ros de seus efeitos, pro­duz os mes­mos resul­ta­dos do dom nat­ur­al da pro­fun­di­dade de caráter; e, a este, jun­ta a engen­hosa doçu­ra da cari­dade. Um homem irrefleti­do ou super­fi­cial tem maior prob­a­bil­i­dade de se escan­dalizar do que qual­quer out­ro. Não con­segue con­ce­ber nada além do que ele vê na super­fí­cie. Ele tem ape­nas pouco auto-con­hec­i­men­to e difi­cil­mente sus­pei­ta da var­iedade ou com­pli­cação de suas próprias moti­vações. Muito menos, então, tem ele prob­a­bil­i­dade de adi­v­in­har com dis­cern­i­men­to as causas ocul­tas, as des­cul­pas ocul­tas, as ten­tações ocul­tas, que podem estar, e fre­quente­mente estão, por trás das ações dos out­ros. Assim tam­bém é, em questões espir­i­tu­ais, com um homem que não ten­ha espíri­to de inte­ri­or­i­dade. Há não somente uma temeri­dade, mas tam­bém uma grosse­ria e vul­gar­i­dade em seus jul­ga­men­tos dos out­ros. Algu­mas vezes ele só enx­er­ga super­fi­cial­mente. Isso se ele for um homem estúpi­do. Se for homem sagaz, ele enx­er­ga mais fun­do do que a ver­dade. A vul­gar­i­dade dele é do tipo sutil. Ele conec­ta coisas que não tin­ham conexão real na con­du­ta do próx­i­mo. Sendo ele próprio baixo, sus­pei­ta de baix­eza nos out­ros. Se ele visse um San­to, ele o jul­gar­ia, ou ambi­cioso, teimoso, ou hipócri­ta. Ele enx­er­ga com­plôs e con­spir­ações até mes­mo na mais impul­si­va das naturezas. É abso­lu­ta­mente inca­paz de jul­gar do caráter. Con­segue ape­nas pro­je­tar suas próprias pos­si­bil­i­dades de peca­do nos out­ros e imag­i­nar que o caráter deles seja aqui­lo que ele sente que, fos­se-lhe a graça reti­ra­da, seria o seu próprio. Ele jul­ga como jul­ga o homem cuja razão está ligeira­mente instáv­el. É astu­to em vez de per­spi­caz. Para home­ns sagazes a cari­dade é quase impos­sív­el, se não tiverem espíri­to de inte­ri­or­i­dade.

Desco­brire­mos tam­bém que, quan­do caí­mos para o cam­in­ho do escan­dalizar-se, há algo de erra­do com nos­sas med­i­tações. Há ocasiões em que nos­sas med­i­tações são inefi­cazes. Com alguns home­ns isso é assim quase durante a vida toda. O fato é que o hábito da med­i­tação, por si mes­mo, não bas­ta para tornar-nos inte­ri­ores. Quan­do a vida espir­i­tu­al de um homem reduz-se à práti­ca da med­i­tação cotid­i­ana, vemos que ele logo perde o con­t­role de sua lín­gua, seu humor e suas mágoas. Sua med­i­tação matuti­na é inad­e­qua­da para preencher de doçu­ra o seu dia inteiro. É demasi­a­do fra­ca para deter a pre­sença de Deus na alma até à noite. Como as intenções gerais, tem ela pos­si­bil­i­dades teológ­i­cas que quase nun­ca são real­i­dades práti­cas. É como um arbus­to plan­ta­do na argi­la: se não cava­mos em vol­ta dele e deix­am­os entrar o ar e a umi­dade, ele não crescerá. Seu cresci­men­to é retar­da­do e impe­di­do. É um esta­do de coisas perigoso quan­do nos­sa med­i­tação não pas­sa de uma ilha, num dia, de resto, inun­da­do de mun­danidade e con­for­to. Pois deve­mos recor­dar que o con­for­to é dos piores tipos de mun­danidade e encon­tra asi­lo facil­mente em nos­sos próprios aposen­tos, a cer­ta dis­tân­cia do mun­do frívo­lo, barul­hen­to e dis­si­pa­do. Não esta­mos longe de algum sério infortúnio quan­do a mor­ti­fi­cação e o exame de con­sciên­cia deser­taram de nos­sa med­i­tação e deixaram-na à sua própria sorte. O hábito de rece­ber escân­da­lo rev­ela-nos muitas vezes que esta­mos nesse esta­do ou ten­den­do rap­i­da­mente a ele.

Tam­bém enve­ne­na muitas out­ras coisas boas e pro­fana coisas san­tas, quase tor­nan­do-as pos­i­ti­va­mente sacríle­gas. Infunde algo de chi­caneiro em nos­sa própria oração de inter­cessão. Trans­for­ma nos­sas leituras espir­i­tu­ais em silen­ciosa pre­gação aos out­ros. Encan­ta as fle­chas do pre­gador para longe de nós e, com habil­i­dade sat­is­fei­ta, mira-as nos out­ros que temos per­ante o olhar de nos­sa mente. É joguete do que quer que haja de mesquin­ho e detestáv­el em nos­sas dis­posições nat­u­rais; e tor­na a nos­sa própria espir­i­tu­al­i­dade a‑espiritual, ao torná-la sem cari­dade. Toda essa mal­dade com­pli­ca­da, ele impli­ca já exi­s­tir em nós; e a fomen­ta e inten­si­fi­ca toda para o futuro, ao mes­mo tem­po que a impli­ca no pre­sente. É, por­tan­to, patente que nos faria bem escan­dalizarmo-nos com o nos­so escan­dalizar-se, ao ver­mos que rev­e­lação degradante é ele, para nós, de nos­sa própria mis­éria e mesquin­hez. Esta­mos visan­do a uma vida devota. Mal acabamos de nos livrar dos pân­tanos do peca­do mor­tal. Con­hece­mos algu­ma coisa dos cam­in­hos da graça. Temos o mod­e­lo dos San­tos. Esta­mos mais ou menos famil­iar­iza­dos com o ensi­na­men­to dos autores espir­i­tu­ais. Não esta­mos obri­ga­dos, seja por causa da nos­sa ignorân­cia ou por causa da nos­sa fraque­za, a olhar para a con­du­ta dos out­ros como regra da nos­sa. Daí que, em nos­so caso, escan­dalizar-se é nem mais nem menos que jul­gar, e deve­mos tratar a ten­tação a isso como trataríamos qual­quer out­ra ten­tação con­tra a cari­dade; a saber: deve­mos con­tê-la, puni-la, detestá-la, tomar res­olução con­tra ela e dela nos acusar­mos na con­fis­são. Deve­mos nos pre­caver tam­bém con­tra os seus artifí­cios. Pois ela tem muitas tra­paças, e estas são com fre­quên­cia bem-suce­di­das. Mestres, pais e dire­tores con­hecem bem um estrat­a­ge­ma dos que estão sob o seu cuida­do e con­t­role, e que criti­cam, ao menos com insin­u­ações, o seu gov­er­no ou direção: esse truque con­siste em se acusarem a si mes­mos de se terem escan­dal­iza­do com a con­du­ta de seus supe­ri­ores e dire­tores. É engen­hoso, mas rap­i­da­mente se esgo­ta. Os dire­tores apren­dem cedo a sufo­car a sua própria curiosi­dade e não per­mi­tir que seus críti­cos auto-ilu­di­dos lhes digam o que os escan­dal­i­zou, já que não podem nem sequer prestar ouvi­dos a isso sem com­pro­m­e­ter a sua dig­nidade e abrir mão da sua influên­cia. Numa palavra, desco­brire­mos como con­clusão mais segu­ra e ver­dadeira a tirar, a de que deve­mos con­sid­er­ar a ten­tação de escan­dalizar-se como abso­lu­ta­mente maligna, sem aten­u­antes, ten­tação esta a que nen­hu­ma trégua deve ser dada e a cujas elo­quentes súpli­cas por del­i­cadeza de con­sciên­cia nen­hu­ma audiên­cia deve ser con­ce­di­da além daque­la do despre­zo tran­qui­lo.

Ago­ra que con­sid­er­amos a mal­dade exis­tente que a pron­tidão em escan­dalizar-se impli­ca em nós, podemos con­sid­er­ar o modo como ela nos estor­va na con­quista da per­feição. Estor­va-nos na aquisição do auto-con­hec­i­men­to. A vig­ilân­cia sobre nós mes­mos não é nada menos que uma ver­dadeira mor­ti­fi­cação. Avi­da­mente agar­ramos a menor des­cul­pa para dire­cionar nos­sa atenção para longe de nós próprios, e a con­du­ta alheia é o obje­to mais pronta­mente disponív­el ao qual nos volta­mos. Ninguém é tão cego para suas próprias fal­tas como o homem que tem o hábito de detec­tar as fal­tas alheias. Isso tam­bém nos faz sab­o­tar-nos a nós mes­mos. Acabamos inter­cep­tan­do a luz do sol que recairia em nos­sa própria alma. Um homem que é sujeito a escan­dalizar-se nun­ca é homem ale­gre e jovial. Nun­ca tem uma luz clara ao seu redor. Ele não é feito para a feli­ci­dade, e já hou­ve algum homem melancóli­co tor­na­do San­to? Um homem abati­do é matéria-pri­ma que só pode ser trans­for­ma­da num cristão muito ordinário. Ade­mais, se tiver­mos um mín­i­mo de seriedade em nós, o nos­so escan­dalizar-se deve, por fim, tornar-se para nós fonte de escrúpu­los. Se não é exata­mente a mes­ma coisa que a chi­canice, quem traçará a lin­ha divisória entre os dois? Sabe­mos muito bem que não é em nos­sos mel­hores momen­tos que nos escan­dal­izamos, e deve ocor­rer-nos grada­ti­va­mente que é, tan­tas vezes, con­tem­porâ­neo com um esta­do espir­i­tu­al enfer­miço, que a coin­cidên­cia é prati­ca­mente impos­sív­el de ser aci­den­tal. Ao mes­mo tem­po, o ato é tão intrin­se­ca­mente mesquin­ho em si mes­mo, que tende a destru­ir todos os impul­sos gen­erosos em nós mes­mos. Ninguém pode ser gen­eroso com Deus que não ten­ha amor largo e abrangente por seu próx­i­mo.

Ade­mais, destrói nos­sa influên­cia nos demais. Irri­ta­mos quan­do devíamos ani­mar. Ser sus­peito de fal­ta de sim­pa­tia é ficar inca­pac­i­ta­do como após­to­lo. Quem é críti­co será nec­es­sari­a­mente não per­sua­si­vo. Até na lit­er­atu­ra, que depar­ta­men­to seu é menos per­sua­si­vo, e por­tan­to menos influ­ente, que o da críti­ca? Os home­ns entretêm-se com ela, mas não for­mam os seus juí­zos com base nela. Há pou­ca coisa no uni­ver­so literário mais impres­sio­n­ante do que o peso ínfi­mo da críti­ca com­para­do à sua quan­ti­dade e habil­i­dade. Gosta­mos de encon­trar defeitos; nun­ca, porém, somos atraí­dos por out­ros que encon­tram defeitos. É o últi­mo refú­gio de nos­sa boa dis­posição o gostar­mos de ter o monopólio da cen­sura. Além do mais, esse hábito nos enre­da numa cen­te­na de difi­cul­dades auto-sus­ci­tadas acer­ca da cor­reção fra­ter­na, essa rocha das almas estre­itas; pois a pre­sunção de um homem é, em ger­al, pro­por­cional à estre­it­eza dele. Os home­ns des­per­tam às vezes, e desco­brem que se puser­am quase incon­scien­te­mente numa posição fal­sa. É este um negó­cio ter­rív­el na espir­i­tu­al­i­dade. É mais difí­cil de nos endi­re­itar­mos, do que recu­per­ar o nos­so equi­líbrio depois de um peca­do. No entan­to, a supos­ta obri­gação da cor­reção fra­ter­na está sem­pre nos seduzin­do a posições fal­sas. Ela tam­bém atrai a nos­sa atenção para longe de Deus, e fixa-os, com um tipo de seriedade doen­tia, nas pusi­la­n­im­i­dades e mis­érias ter­re­nas. É ruim o bas­tante desviar os olhos de Deus ao olhar demais para nós mes­mos, mas tirar os olhos de Deus para olhar os nos­sos próx­i­mos é mal maior ain­da. Transtor­na por inteiro o mun­do inte­ri­or do pen­sa­men­to, do qual o exer­cí­cio da cari­dade tan­to depende. Impede-nos de alcançar o gov­er­no da lín­gua. Impede que ten­hamos suces­so em boas obras nas quais a coop­er­ação livre e zelosa com out­ros é necessária. É o dis­farce que a inve­ja está eter­na­mente a tomar e chamar pelo nome de cautela. No fim, pen­samos que todas essas coisas sejam vir­tudes, quan­do são, na real­i­dade, vícios da mais desagradáv­el descrição.

Não pen­so que eu ten­ha exager­a­do o mal dessa rapi­dez em rece­ber escân­da­lo. Con­fes­so que é fal­ta que me vexa mais do que muitas out­ras, e por muitas razões. Suas víti­mas são home­ns bons, home­ns muito promis­sores, e cujas almas foram pal­co de oper­ações da graça não descon­sid­eráveis. Apodera-se deles, em sua maio­r­ia, no exa­to momen­to em que dons mais altos pare­cem estar se abrindo para eles. Sua pecu­liari­dade con­siste nis­to, que é incom­patív­el com as graças mais altas da vida espir­i­tu­al, con­spur­ca aqui­lo que já esta­va ago­ra quase limpo e tor­na vul­gar aqui­lo que esta­va a pon­to de con­sol­i­dar seu títu­lo à nobreza. Quan­do con­sid­er­amos como são muitos os chama­dos à per­feição e poucos os per­feitos, não podemos quase diz­er que faze­mos bem em nos zan­gar com aque­le mal, que tão certeira e efi­caz­mente estra­ga o tra­bal­ho da graça?

Em que con­siste a per­feição? Numa cari­dade infan­til, de vis­tas cur­tas, cari­dade que acred­i­ta em todas as coisas; numa grande con­vicção sobre­nat­ur­al de que todo o mun­do é mel­hor do que nós; em esti­mar muito reduzi­da a quan­ti­dade de mal no mun­do; em olhar demasi­a­do exclu­si­va­mente para o que é bom; na engen­hosi­dade de inter­pre­tações benévolas; numa desatenção, quase inin­teligív­el, para as fal­tas dos out­ros; numa gra­ciosa per­ver­si­dade de incredul­i­dade sobre escân­da­los, que por vezes, nos San­tos, chega per­to de con­sti­tuir um escân­da­lo por si só. Essa é a per­feição; esse é o tem­pera­men­to e o gênio dos San­tos e dos home­ns que os imi­tam. É uma vida de dese­jo, esque­ci­da das coisas ter­re­nas. É uma fé radi­ante e enér­gi­ca de que a lentidão e frieza do homem não inter­ferirão no suces­so da glória de Deus. Ao mes­mo tem­po, porém, lutan­do instin­ti­va­mente, pela prece e reparação, con­tra os males nos quais não se per­mite a si próprio crer con­scien­te­mente. Nen­hu­ma som­bra de morosi­dade cai jamais sobre a mente bril­hante de um San­to. Não é pos­sív­el que ven­ha a fazê-lo. Final­mente, a per­feição tem o dom de pen­e­trar no uni­ver­sal Espíri­to de Deus, ado­ra­do de tan­tos jeitos difer­entes, e está con­tente. Ora, tudo isso não é, sim­ples­mente, o exa­to opos­to do tem­pera­men­to e do espíri­to de um homem que está sujeito a escan­dalizar-se? A difer­ença é tão man­i­fes­ta, que é desnecessário comen­tá-la. Feliz de quem, em seu leito de morte, pode diz­er: “Ninguém jamais me escan­dal­i­zou na min­ha vida!” Ele ou não viu as fal­tas do próx­i­mo ou, quan­do as viu, a visão delas para alcançá-lo tin­ha de atrav­es­sar tan­ta luz solar dele próprio, que as fal­tas alheias não o atin­gi­ram tan­to como fal­tas a cul­par, mas antes como razões para um mais pro­fun­do e ter­no amor.

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PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO:

Padre FABER, Sobre Escan­dalizar-se, trad. br. por F. Coel­ho, São Paulo, fev. 2010, blogue Acies Ordi­na­ta, http://wp.me/pw2MJ-fY

de: “On Tak­ing Scan­dal“, cap. VIII das Spir­i­tu­al Con­fer­ences, Lon­dres, 1859, pp. 305–315.

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