O PRÍNCIPE CRISTÃO CONTRA O PRÍNCIPE DE MAQUIÁVEL


Filosofia, História, Política, Teologia / quinta-feira, agosto 30th, 2012

O PRÍNCIPE CRISTÃO CONTRA O PRÍNCIPE DE MAQUIÁVEL

DON CURZIO NITOGLIA

[tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

20 abril 2010

http://www.doncurzionitoglia.com/Principe_Cristiano_Vs_Principe_Machiavelli.htm

Intro­dução

Maquiáv­el, depois de Dante e mais que Dante, nega a ordem políti­ca indi­ca­da por S. Tomás no De regimine prin­cipum. O Aquinate quis reunir a Sociedade a Deus, Maquiáv­el que­ria uma políti­ca autôno­ma da moral e de Deus. O príncipe de Maquiáv­el é o opos­to perdiametrum do príncipe de S. Tomás, e pro­duzirá a sep­a­ração entre políti­ca e éti­ca, entre Esta­do e Igre­ja. Se para S. Tomás a sociedade deve ser orde­na­da a Deus por aque­les que gov­er­nam para Maquiáv­el o que con­ta não é o fim últi­mo, mas o inter­esse egoís­ta do príncipe. Segun­do Maquiáv­el, segui­do por Niet­zche e os neo-pagãos, o cris­tian­is­mo fez os romanos covardes e vis, fazen­do o Império entrar em colap­so; será tare­fa de Rib­adeneyra, Belarmi­no e Vieira, refutá-los e demon­strar que os cristãos, naqui­lo que diz respeito a sua vida pri­va­da, pre­cisam ser humildes e man­sos; mas quan­do é pre­ciso defend­er a fé e a pátria tor­nam-se cora­josís­si­mos, e a história do I sécu­lo d.C. até o sécu­lo XX ampla­mente o demon­stra. Maquiáv­el – como já vimos – é cíni­co, ímpio, acristão, pagão; para ele a religião pode ser boa somente se serve os inter­ess­es do príncipe “volpe e leão”; os três jesuí­tas que citei mostram que a políti­ca, como éti­ca social, é toda con­trária daque­la maquiavéli­ca, que então é a mod­er­na e a atu­al, com todos os maus exem­p­los que temos debaixo dos olhos, a nív­el políti­co e tam­bém ecle­sial.

 

 

(1a parte)

A) RIBADENEYRA

Segun­do Rib­adeneyra os políti­cos maquiavéli­cos tem um úni­co dese­jo: destru­ir o reino social de Cristo e faz­er reinar o princípe egoís­ta, despóti­co e tira­no. O trata­do do jesuí­ta espan­hol é divi­di­do em duas partes: a primeira indi­ca a relação que o príncipe deve ter com a religião; a segun­da tra­ta da arte políti­ca de con­duzir a sociedade. “Em defin­i­ti­vo nos encon­tramos diante de um trata­do de ciên­cia políti­ca católi­ca, orga­ni­za­do em torno da fé pre­sente na Con­tra-refor­ma e fei­ta apaixo­nante pela car­ga polêmi­ca do jesuit­ismo his­pâni­co ([1]). Os autores escolás­ti­cos afir­mam que nen­hum homem é bom políti­co por dire­ito nat­ur­al, mas só porque tem deter­mi­na­da qual­i­dade ou vir­tude. S. Tomás ensi­na: “Só a ciên­cia e a vir­tude e out­ras pre­rrog­a­ti­vas do gênero tor­nam uma pes­soa idônea a exerci­tar a autori­dade” (S. T., II-II, q. 102, a. 1, ad 2um). O politi­co, além da ciên­cia deve pos­suir a vir­tude, con­trari­a­mente a quan­to ensi­na­va Maquiáv­el, na ver­dade é impos­sív­el que um homem, sem prudên­cia, justiça, for­t­aleza e tem­per­ança, pos­sa pro­mover o bem comum da Sociedade. É quan­to nos expli­cará os três jesuí­tas, cita­dos neste capí­tu­lo.

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● Pedro De Rib­adeneyra, O príncipe cristão

1º livro

o val­or da religião e a ven­er­ação a Deus

que deve ter o príncipe cristão para gov­ernar bem’

Rib­adeneyra, no primeiro capí­tu­lo do primeiro livro, se defende ata­can­do: “a difer­ença que existe entre os políti­cos mod­er­nos e nós é que os primeiros querem que o príncipe ten­ha por boa, a religião dos próprios súdi­tos, qual­quer que essa seja, ver­dadeira ou fal­sa, enquan­to nós quer­e­mos que ess­es saibam que a religião católi­ca é a úni­ca ver­dadeira, e só ela se pode defend­er. Eles querem que os príncipes se sir­vam da religião como pre­tex­to, para enga­nar e dis­trair o povo, (…) nós quer­e­mos, ao invés, que os príncipes sir­vam ver­dadeira­mente a ver­dadeira religião” ([2]). No segun­do capí­tu­lo afir­ma que os maus príncipes se servem da religião para enga­nar mel­hor. No quin­to ensi­na que se os romanos anti­gos der­am mui­ta importân­cia a sua fal­sa religião pagã, com maior razão nós cristãos deve­mos ser mais zelantes pela nos­sa Religião para a con­ver­são do Esta­do cristão. No séti­mo nos expli­ca aqui­lo que a religião cristã ensi­na sobre o dev­er dos príncipes para con­ser­var o seu Esta­do: temer Deus, obser­var os seus man­da­men­tos, não ensober­be­cerem pelo coman­do. No déci­mo afir­ma que a Providên­cia é mais solíci­ta para o rei bom. “Coisa não fará Deus ao rei que o serve, de for­ma que os seus súdi­tos, O rev­er­en­ciem, extir­pem os vícios e propaguem as vir­tudes, em seus reinos?” ([3]). No déci­mo primeiro capí­tu­lo nos indi­ca qual é a ver­dadeira feli­ci­dade do rei. Essa con­siste no prêmio final: o Céu e a sal­vação da alma. No déci­mo quar­to demon­stra que os príncipes que seguem a razão de Esta­do arruí­nam os seus reinos.

De fato, San­to Tomás ensi­na que a sabedo­ria e a potên­cia são irmãs da ver­dadeira religião; que o chefe o qual guar­da mais a razão de Esta­do que a lei de Deus perderá segu­ra­mente o seu Esta­do. No déci­mo séti­mo capí­tu­lo adverte o príncipe cristão a pro­te­ger a religião pro­fes­sa­da pelos próprios súdi­tos. “A primeira pre­ocu­pação dos príncipes cristãos deve ser aque­la da religião. Enquan­to a fal­sa razão de Esta­do dos políti­cos (…) é ímpia, dia­bóli­ca (…) destru­ido­ra do próprio Esta­do (…). A razão de Esta­do ensi­na que os príncipes não devem ocu­par-se da religião de seus súdi­tos, mas deixa que cada um siga a religião que quer (…) como fazi­am os pagão que tol­er­avam as seitas filosó­fi­cas e aprovavam todas as religiões” ([4]). Enquan­to, segun­do Rib­adeneyra, o príncipe cristão nos seus Esta­dos, não deve tol­er­ar os heréti­cos ou sec­tários, porque se em um mes­mo Esta­do se encon­tram os católi­cos e os heréti­cos, nele nascerá um grande tur­ba­men­to e talvez uma sedição. A tare­fa do prin­ci­pal do rei é aque­la de pro­te­ger a religião católi­ca e não per­mi­tir a liber­dade de religião. No déci­mo nono capí­tu­lo expli­ca que os reis devem favore­cer a religião e não serem juízes de coisas reli­giosas. “Ess­es são os cus­todes da lei de Deus, não os intér­pretes. São min­istros da Igre­ja e não juízes; são arma­dos para cas­ti­gar o heréti­co (…) mas não são os leg­is­ladores e os intér­pretes da von­tade div­ina nas coisas ecle­siás­ti­cas (…), Se encon­tra qual­quer grave difi­cul­dade deve recor­rer ao sac­er­dote” ([5]). No vigési­mo expli­ca que os hereges devem ser punidos e que a liber­dade de con­sciên­cia é perigosa. “A ver­dade é que os infiéis (…) não devem ser con­stri­tos a abraçar a fé, porque ela é uma coisa livre e é um dom de Deus. (…) Mas os hereges e aque­les que são bati­za­dos (…) podem e devem ser obri­ga­dos a respeitá-la medi­ante penas, e cas­ti­ga­dos sev­era­mente, se não o fazem (…). Daqui os San­tos deduzem que se devem matar como lobos, para que não mor­ram as ovel­has…” ([16]). No vigési­mo séti­mo assi­nala que as here­sias são a causa das rev­oluções e da ruí­na dos Esta­dos. “Como a lei de Deus nos ensi­na a obe­de­cer aos nos­sos reis, nas coisas que não são con­trárias a essa, assim aque­les que obe­de­cem a Deus, nec­es­sari­a­mente obe­de­cerão ao príncipe (…). Enquan­to o homem quan­do se desta­ca por causa da here­sia, perde o san­to jugo e a sub­mis­são que deve a Deus e é sim­i­lar a um cav­a­lo sem freio, e neg­ligên­cia tam­bém a obe­diên­cia ao seu rei (…). Aque­le que trai o próprio Deus trai tam­bém o seu príncipe (…). Então da desleal­dade e da des­obe­diên­cia, nascem as rebe­liões con­tra os príncipes, as revoltas e as divisões dos reinos, o incên­dio e a dev­as­tação dos Esta­dos” ([7]). No trigési­mo expli­ca como os príncipes que incor­rem em qual­quer peca­do grave sejam punidos pela Igre­ja. “A mes­ma religião ensi­na aos grandes príncipes que se por vezes, como home­ns, caem em qual­quer grave deli­to, sejam pron­tos a recon­hecê-lo, se humil­hem e se sujeit­em aos cânones ecle­siás­ti­cos, a cen­sura e a cor­reção da Igre­ja” ([8]).

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2º livro

o aspec­to polití­co da con­dução do reino:

as ver­dadeiras vir­tudes que são próprias do rei”

No primeiro capí­tu­lo do segun­do livro, Padre Rib­adeneyra afir­ma que para falar das vir­tudes necessárias para bem gov­ernar, pre­cisa primeiro explicar a difer­ença entre o con­ceito cristão e aque­le pagão de vir­tude. Entre o cristão e o pagão existe uma diver­sa con­cepção da moral indi­vid­ual e social. Os pagãos podem chegar a con­ce­ber o fim últi­mo só graças a razão nat­ur­al, então aque­la que ess­es acred­i­tam vir­tudes os con­duzem só a um fim nat­ur­al (bem estar tem­po­ral). Ao invés o cris­tian­is­mo, ilu­mi­na­do pela fé e pela Rev­e­lação, con­hece tam­bém o fim sobre­nat­ur­al do homem, a Visão Beat­í­fi­ca, para a qual nos con­duz a ver­dadeira e per­fei­ta vir­tude. A filosofia tomista ou cristã pro­cede só medi­ante a razão nat­ur­al, mas não pre­scinde das respostas, que a essa vem da Rev­e­lação, que a guia só extrin­se­ca­mente e neg­a­ti­va­mente, mas real­mente; por­tan­to a políti­ca de Aristóte­les é imper­fei­ta a respeito daque­la de San­to Tomás o qual, além da luz da razão humana, pode­ria recor­rer, extrin­se­ca­mente, a luz da teolo­gia e da Rev­e­lação div­ina ([9]). Por exem­p­lo, como quan­do é necessário resolver um prob­le­ma matemáti­co e o man­u­al nos dá só a solução; o estu­dante pro­ced­erá base­an­do-se só sobre matemáti­ca na solução do prob­le­ma, sem porém desprezar a aju­da extrínse­ca ou a solução do prob­le­ma ofer­ta­da-lhe pelo livro, e se ao fim de sua bus­ca a sua solução não cor­re­sponde àquela do livro, dev­erá pacien­te­mente recomeçar e ver onde errou para cor­ri­gir-se e resolver jus­ta­mente o prob­le­ma. Então o cristão não pode con­sid­er­ar ver­dadeira e per­fei­ta a vir­tude do pagão que é pri­va­da de todo refer­i­men­to a ordem sobre­nat­ur­al; por­tan­to sem a religião cristã não é pos­sív­el a per­fei­ta vir­tude; isto não excluí que cer­tos cristãos vivam pior que cer­tos pagãos. As vir­tudes nat­u­rais pagãs não são más em si, con­tra o erro de Bajo, mas são imper­feitas, porque fal­ta a elas refer­ên­cia a ordem sobre­nat­ur­al; elas podem ser aper­feiçoadas só pelo cris­tian­is­mo, que tem a ver­dadeira noção de Deus sub ratione Dei­tatis e do fim últi­mo que é sobre­nat­ur­al na sua essên­cia e dos meios ou vir­tudes que neces­si­tam para alcança-lo, os quais devem ser eles tam­bém sobre­nat­u­rais, que é pro­por­ciona­da ao fim últi­mo sobre­nat­ur­al. Padre Royo Marin, escreve que:

 

a) As vir­tudes nat­u­rais adquiri­das do pagão

podem sub­si­s­tir sem a graça san­tif­i­cante. Se adquiri­da medi­ante a repetição de atos, sobre a direção da razão nat­ur­al. O seu obje­to ou fim é acessív­el a razão nat­ur­al. As vir­tudes adquiri­das para serem mais estáveis, devem ser conexas entre elas e bem endereçadas para o fim últi­mo nat­ur­al.

 

b) As vir­tudes infusas sobre­nat­u­rais dos cristãos

não sub­sis­tem sem a graça san­tif­i­cante. São infusas por Deus. O seu obje­to é sobre­nat­ur­al e pro­por­ciona­do ao fim sobre­nat­ur­al, são sub­or­di­nadas as vir­tudes teolo­gais e ao fim últi­mo sobre­nat­ur­al. A graça habit­u­al é acom­pan­ha­da do ‘corte­jo de vir­tudes e de Dons do Espíri­to San­to’. Ora os meios devem ser pro­por­cionais ao fim. E as vir­tudes teolo­gais nos orde­nam ao fim últi­mo sobre­nat­ur­al ([10]). Ocorre tam­bém dis­tin­guir o pagan­is­mo-religião (idol­átri­co e politeís­ti­co), de uma cer­ta sã (ain­da que imper­fei­ta) filosofia gre­co-romana, que com Platão-Aristóte­les (na Gré­cia), Cícero-Sêneca (em Roma) cul­ti­varam aqui­lo que são as lin­has fun­da­men­tais da ver­dade sobre o ser, a con­sciên­cia e a éti­ca nat­ur­al.

 

Ver­dadeira natureza do pagan­is­mo-religião

Padre de Rib­adaneyra S.J., retoma, asserindo que “os pagãos não pos­suíam um ver­dadeiro sen­ti­do de vir­tude, porque a sub­me­ti­am a idol­a­tria, (…) que obscu­ra o int­elec­to, extravia a von­tade e per­verte todas as capaci­dades do homem. As suas ações miravam a fins par­tic­u­lares e mun­danos, como as hon­ras, a glória, a fama ter­re­na e é miran­do isto que  – como disse S. Agostin­ho – os romanos vence­r­am as paixões des­or­de­nadas do homem (…) e tam­bém São Gregório Nazianzeno afir­ma que os pagãos “emb­o­ra perseguin­do coisas boas, não agi­ram com pureza de intenção, porque mais do que qual­quer coisa movia-lhes o dese­jo da glória, ao invés do amor pelo próprio bem” ([11]). O homem pagão cego e obceca­do – escreve Bossuet – não quis ado­rar Deus mas os ído­los que ele próprio havia cri­a­do. « A idol­a­tria nascia do apego pro­fun­do e des­or­de­na­do que temos por nós mes­mos. Nós home­ns inven­ta­mos os deuses que eram sim­i­lares a nós, sujeitos as nos­sas mes­mas paixões, fraque­zas e vícios, de modo que ado­ran­do estes deuses, os pagãos ado­ravam a si mes­mos » ([12]).

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Tornemos ago­ra ao livro de Rib­adeneyra; no segun­do capí­tu­lo, o jesuí­ta espan­hol, demon­stra que as vir­tudes do príncipe cristão devem ser ver­dadeiras e não afe­tadas ou sim­u­ladas, como aque­las dos fariseus e do príncipe neo-pagão de Maquiáv­el; o qual ensi­na uma “dout­ri­na fal­sa, ímpia e indigna não só de um cristão, mas de todo homem reto e pru­dente. Ele afir­ma (…) que para mel­hor enga­nar e con­ser­var os seus esta­dos, o príncipe deve fin­gir-se temente a Deus, emb­o­ra não o sendo, (…) e assumir ver por out­ra a mas­cara da vir­tude que lhe pare­cer mais opor­tu­na, para con­seguir o próprio lucro, dis­sim­u­lar os seus vícios e ser esti­ma­do, isto que em real­i­dade não é religião (…) As palavras de Maquiav­el saíram do infer­no, para destru­ir a religião e ras­gar do peito do príncipe cristão com um só golpe todas as vir­tudes. (…) Maquiáv­el afir­ma que muitas vezes o príncipe será obri­ga­do a agir con­tra a fé, a cari­dade, a humanidade e a religião para con­ser­var o seu Esta­do, (…) mas o Esta­do sem vir­tude não pode ser man­ti­do de modo nen­hum  (…). A sim­u­lação não pode durar muito tem­po, e quan­do é des­mas­cara­da o príncipe é tan­to mais odi­a­do quan­to mais se com­preende que quer enga­nar. Porém a con­ser­vação dos Esta­dos não depende (…) dos home­ns (…). Aqui­lo que sobre­tu­do con­ta é a von­tade do Sen­hor, o qual lhes dá os Esta­dos e lhes con­ser­va ou lhes trans­fere a seu gos­to. E o príncipe pode gan­har o favor de Deus (…) ape­nas respei­tan­do a san­ta lei (…). Não é fim da religião con­ser­var o Esta­do, mas sim é o Esta­do que deve servir a essa” ([13]). No ter­ceiro capí­tu­lo o jesuí­ta espan­hol ensi­na que o príncipe hipócri­ta é odi­a­do por Deus. De fato segun­do Maquiáv­el o seu príncipe deve dar a Deus as fol­has e ao demônio os fru­tos. Como se o Sen­hor do Uni­ver­so, fos­se um ído­lo de pedra que não sabe, nem vê e não rec­om­pen­sa o mal e o bem. No quin­to tra­ta da justiça do príncipe cristão, deixan­do de lado Maquiáv­el e com­pan­hia. Justiça é dar a qual­quer um, o seu e sobre ela se fun­da o reino, sem essa ele se perde. No sex­to escreve sobre a dis­tribuição das hon­ras; na ver­dade o príncipe cristão deve fun­dar-se sobre a justiça para dar a qual­quer um aqui­lo que é seu por dire­ito. “As hon­ras e as riquezas que pos­suem per­tencem mais a sociedade que a sua pes­soa, então não pode dis­por-lhes a seu gos­to, mas deve repar­tir-lo com base nos méri­tos e aos serviços feitos a sua pes­soa ou a comu­nidade. (…) Para bem admin­is­trar os recur­sos da sociedade, o príncipe não deve ter em con­ta patrimônios e lin­hagens, mas as vir­tudes e as obras de qual­quer um. Favore­cer um rico só porque é tal, sig­nifi­ca dar-lhe ocasião a mais para enrique­cer-se e esban­jar sua riqueza (…). Por out­ro lado, hon­rar um homem só porque os seus antepas­sa­dos foram val­orosos fun­dadores da nobreza da sua família (…) sig­nifi­ca des­on­rar a vir­tude e causar afronta aos próprios antepas­sa­dos (…). Os pobres e aque­les que não são de sangue nobre, tem a esper­ança de pro­gredir, se ani­mam com o estim­u­lo da hon­ra e do prêmio, cumprindo ações mar­avil­hosas ao serviço do bem comum. Por sua vez os nobres, ven­do que  nada vale terem sido tais só por nasci­men­to, para não perder a hered­i­tariedade dos antepas­sa­dos, se esforçarão para con­ser­var viva a esplên­di­da tradição de sua família  (…) como o nobre merece ser hon­ra­do mais que o não nobre, quan­do con­fir­ma com as suas próprias ações o prestí­gios dos antepas­sa­dos, assim eles não mere­ce­ri­am nen­hu­ma hon­ra nem favor quan­do se abas­tar­dam e renegam os val­ores de seus antepas­sa­dos” ([14]). Por­tan­to o príncipe cristão deve antepor, o pobre vir­tu­oso ao nobre dis­so­lu­to, o homem de baixa lin­hagem mas capaz, a fal­sa nobreza, pois na ver­dade, ape­nas a vir­tude é a ver­dadeira nobreza. No capí­tu­lo nono nos expli­ca que a vir­tude da justiça faz a difer­ença entre o rei e o tira­no. “No repar­tir encar­gos e hon­ras, o príncipe deve ser guia­do por um critério de justiça. Ele não é sen­hor abso­lu­to dos bens de seus súdi­tos. (…). Se con­sid­er­amos (…) as fal­sas doutri­nas dos políti­cos  desco­brire­mos que (…) miram a insti­tuir uma abom­ináv­el tira­nia em lugar de um gov­er­no jus­to e legí­ti­mo (…). O ver­dadeiro rei é sujeito a lei div­ina e nat­ur­al, enquan­to o tira­no segue exclu­si­va­mente a lei da sua von­tade. O rei pro­fes­sa a sal­va­guar­da da piedade (…), enquan­to o tira­no não tem em algu­ma con­ta, a fé e a justiça. Um é aten­to ao bem públi­co e a defe­sa do povo, enquan­to o out­ro mira exclu­si­va­mente o próprio lucro; um enriquece os súdi­tos por quan­to lhe é pos­sív­el, o out­ro aumen­ta o seu patrimônio pes­soal com a ruí­na deles. Um vin­ga a ofen­sa con­tra Deus e a sociedade, per­doa aque­la con­tra a sua pes­soa, o out­ro vin­ga cru­el­mente está últi­ma e per­doa as out­ras” ([15]). No capí­tu­lo déci­mo escreve que o bom príncipe é  equo no impor as taxas. “O príncipe jus­to é chama­do tam­bém pas­tor, porque deve reger e gov­ernar, como o bom pas­tor, a sua grei, defendendo‑a dos lobos e dos doentes, bus­can­do realizar o seu bem. Sobre­tu­do em uma coisa o príncipe assemel­ha-se ao pas­tor: como o pas­tor tosa a grei sem esfolá-la, assim se com­por­ta o bom príncipe na imposição dos trib­u­tos” ([16]). Então a primeira pre­ocu­pação do príncipe em matéria fis­cal, é de não escu­tar os adu­ladores que, por inter­esse, bus­cam todos os dias novos arbítrios para san­grar o reino.  A segun­da é que deve mostrar que as taxas são dev­i­dos a neces­si­dade do Esta­do e não ao seu capri­cho, de modo que os cidadãos o aju­dem e não des­den­hem diante do espetácu­lo de um rei que não sendo rico des­perdiça o din­heiro públi­co em despe­sas inúteis  Além dis­so, é jus­to que um rei seja rico para poder faz­er o bem a quem lhe tem neces­si­dade, para resi­s­tir aos inimi­gos; porém estás riquezas não vão acu­mu­ladas em detri­men­to da riqueza do reino, mas com cautela porque se reúnem grandes riquezas mais com o gas­tar pouco, que com o rece­ber muito. No déci­mo nono capí­tu­lo fala da escol­ha dos juízes e das suas tare­fas. Não serve a nada um príncipe ami­go da justiça se não escol­he com cuida­do os min­istros mais mais dig­nos e não velando sobre suas ações. No déci­mo oita­vo escreve sobre a clemên­cia que deve ter o príncipe cristão. “Toda coisa que diz respeito a justiça devem ser acom­pan­hadas da mis­er­icór­dia, porque se a mis­er­icór­dia sem justiça é fraque­za, uma justiça sem mis­er­icór­dia se con­verte em cru­el­dade. (…) Ao con­trário os princí­pios muito severos e rig­orosos se tor­nam antipáti­cos e, puxan­do muito a cor­da, a rompem (cap. 19º)” ([17]). No capí­tu­lo vigési­mo quar­to tra­ta da neces­si­dade de ter bons con­sel­heiros. “Todo príncipe tem neces­si­dade de um bom con­sel­ho, a causa da fraque­za e da mis­éria do homem, que tem neces­si­dade de muitos apoios e aju­das para não cair. Em con­tingên­cias par­tic­u­lar­mente graves todo homem deve recor­rer a um con­sel­ho e não fiar-se ape­nas ao seu pare­cer pela fraque­za do int­elec­to e a força das paixões que cegam e aniquil­am tam­bém as mais fortes das von­tades. A ver­dadeira prudên­cia… ensi­na… tam­bém a saber se ben­e­fi­ciar do con­sel­ho dos out­ros… Quem não se atém a está regra aca­ba pecan­do por pre­sunção (…) S. João Crisós­to­mo afir­ma: ‘é próprio ape­nas a Deus o não recor­rer aos con­sel­hos dos out­ros, como ao invés devem faz­er todos os home­ns’ (…) Um príncipe muito sábio, mas inimi­go da aju­da dos out­ros, é pior que um príncipe pouco cul­to, mas dis­pos­to a faz­er-se guiar pela prudên­cia de quem com­pen­sa suas defi­ciên­cias” ([18]). No vigési­mo quin­to anal­isa o papel dos con­sel­heiros. “Para que um homem se fie de um out­ro e creia nas suas palavras, três são as coisas necessárias, segun­do Aristóte­les: a prudên­cia, a amizade ou benevolên­cia e a vir­tude. A prudên­cia é necessária para enten­der bem e não enga­nar-se sobre aqui­lo que é dito; a amizade porque mais facil­mente somos propen­sos a dar ouvi­dos àque­les que nos fazem bem, e a vir­tude (…), porque nen­hum jul­ga men­tiroso aque­les que esti­ma como vir­tu­oso. Sobre­tu­do a está últi­ma, o príncipe deve dar atenção no escol­her os con­sel­heiros… A vir­tude, na ver­dade merece esti­ma por si mes­ma e nada tem val­or sem ela. O príncipe creia que, onde tem ver­dadeira e sól­i­da vir­tude,  não pode exi­s­tir espaço para o engano. (…) São Gregório Nazianzeno disse que um con­sel­heiro deve ser dota­do de grande exper­iên­cia, mui­ta cari­dade e liber­dade de palavra. (…) O prin­ci­pal dote do con­sel­heiro em uma repúbli­ca é o con­hec­i­men­to apro­fun­da­do da própria repúbli­ca (…). É necessário, então, con­hecer tudo isto que é rel­a­ti­vo ao Esta­do, a paz, a guer­ra, a lei e a econo­mia. Ser pru­dente em um cam­po não com­por­ta nec­es­sari­a­mente que se seja pru­dente em todas as ocasiões (…). Con­vém então que os príncipe se sir­vam dos home­ns em grau de enfrentar as mais dís­pares questões ou, em fal­ta, de vários con­sel­heiros, qual­quer um espe­cial­iza­do em um par­tic­u­lar gênero de prob­le­mas… O segun­do dote necessário é a amizade (…), com o qual se entende o dese­jo de aju­dar por quan­to é pos­sív­el e de faz­er o bem com a própria aju­da, sem mirar o lucro pes­soal ([19]). O ter­ceiro dote necessário, é trata­do no capí­tu­lo 26º, essa con­siste no saber exprim­ir livre­mente o próprio pare­cer (…) não serve a nada que o con­sel­heiro seja pru­dente, escrupu­loso e hábil na res­olução dos prob­le­mas, se  em segui­da não tem cor­agem de expô-la (…). Uma coisa é ser pru­dente e vir­tu­oso, out­ra é ser um bom con­sel­heiro, porque sem está liber­dade a prudên­cia e a vir­tude não dão nen­hum fru­to. (…) As vezes para não ofend­er o príncipe, out­ras vezes para agradá-lo, sucede que o con­sel­heiro silen­cia (…) ou (…) que diga o con­trário daqui­lo que pen­sa. Os con­sel­heiros são fra­cos (…) as vezes por um mal com­por­ta­men­to do príncipe, que as vezes pede con­sel­ho por pura for­mal­i­dade, ten­do já deci­di­do as suas ações, e mostra-se mal em supor­tar a quem o con­tradiz. Tal com­por­ta­men­to é noci­vo e impul­siona os con­sel­heiros a diz­er só aqui­lo que ao príncipe da praz­er (…). O bom príncipe não deve se ofend­er se qual­quer um não é de acor­do com as suas ideias, mas ao con­trario deve enco­ra­jar com paciên­cia e benig­nidade” ([20]). No capí­tu­lo vigési­mo nono o jesuí­ta espan­hol ensi­na ao príncipe como defend­er-se dos adu­ladores. “A prudên­cia é necessária tam­bém (…) para dis­tin­guir o ver­dadeiro do fal­so ami­go, para recon­hecer o adu­lador do con­sel­heiro fiel (…). O homem, ali­men­ta nas vísceras um amor próprio que o cega, o ilude, o faz crer  mere­cer muito, de poder ser antepos­to aos out­ros… e o inci­ta a ter esti­ma de si e despre­zo pelos out­ros. (…) Em gênero é um sen­ti­men­to mais forte nos reis e nos príncipes, porque a cor­rupção da natureza humana aumen­ta com o luxo e o coman­do (…). Ora se a chama que reina nos príncipes (…) é ali­men­ta­da pela adu­lação, que coisa nos pode esper­ar se não que con­suma o próprio príncipe, trans­for­man­do em cin­za todo o seu Esta­do? Com palavras mais escor­re­ga­dios que o óleo e con­sel­hos como fle­chas agu­das a per­furarem os corações dos príncipes (…). O mais perigoso entre os ani­mais fer­ozes é o tira­no e entre os ani­mais domés­ti­cos o adu­lador.(…) O adu­lador que cor­rompe a ver­dade, é pior que o fal­sário. (…)Infe­liz­mente no fim os adu­ladores prevale­cem sujei­tan­do o âni­mo de quem escu­ta, porque as suas palavras são con­forme o amor próprio, isto é aque­le adu­lador inte­ri­or que nós todos pos­suí­mos e que fal­sa­mente nos pre­ga nós mes­mos” ([21]). No trigési­mo ter­ceiro demon­stra como dis­cernir o ver­dadeiro ami­go do fal­so. “Nada é mais difí­cil e mais útil que con­hecer a si mes­mo, então os adu­ladores obscure­cem a luz que Deus infundiu nas nos­sas almas, sem a qual não podemos nem ver nem con­hecer. No que diz respeito aos ver­dadeiros e fal­sos ami­gos, é muito difí­cil dis­tin­guir-lhe, porque emb­o­ra seguin­do a final­i­dade opos­ta, se servem de meios muito sim­i­lares. A ver­dadeira difer­ença sub­stan­cial con­siste no fato que o ver­dadeiro ami­go ama com amor sin­cero, sem fins pes­soais, enquan­to o adu­lador ama primeira­mente o próprio inter­esse em vista de van­ta­gens pes­soais. (…) O ver­dadeiro ami­go, no jul­gar um afaz­er, primeira­mente olha o bem ou o mal que podem derivar ao príncipe ou a sociedade; o adu­lador subita­mente con­sid­era que gan­ho ou dano a coisa pode causar-lhe. (…) O ver­dadeiro ami­go bus­ca con­tentar por quan­to pos­sív­el, sem voltar atrás quan­do é o momen­to de diz­er a ver­dade, coisa que faz com a mod­és­tia e liber­dade, porque pref­ere causar um efe­ti­vo bene­fí­cio a seu sen­hor, mais que agradá-lo quan­do não é o casoO adu­lador… se pre­ocu­pa em diz­er aqui­lo que dá praz­er, afa­s­tan­do tudo aqui­lo que pode­ria entris­te­cer o príncipe, para mel­hor enganá-lo e con­vencê-lo. (…) Para saber se um ami­go é ver­dadeiro ou fal­so, o príncipe deve preferir mostrar aqui­lo que pouco antes o des­gosta­va e vice-ver­sa: subita­mente o adu­lador o dará razão dizen­do que antes se mar­avil­ha­va do seu pare­cer… Ao con­trário o ver­dadeiro ami­go, que con­hece a difer­ença entre bem e mal, não se com­por­tará de tal modo (…). Além dis­so, o príncipe deve seguir a própria con­sciên­cia e se está o cen­sura enquan­to o adu­lador o lou­va, enten­da que se tra­ta de uma clara men­ti­ra, e não de ver­dadeira leal­dade” ([22]). No trigési­mo quar­to nos fala da for­t­aleza do príncipe cristão e daque­la do príncipe de Maquiáv­el. A for­t­aleza rep­re­sen­ta o sig­i­lo e a custó­dia de todas as out­ras vir­tudes, então vem crono­logi­ca­mente por últi­mo, mas não por importân­cia hierárquica. Segun­do Maquiáv­el os anti­gos pagãos eram mais fortes que os cristãos e isto por cul­pa da edu­cação moral do cris­tian­is­mo. Na ver­dade o cris­tian­is­mo nos ensi­na a não esti­mar as hon­ras do mun­do; enquan­to o pagan­is­mo lhes faz esti­mar tan­to como se fos­se o fim últi­mo do homem, e isto tor­na­va as suas ações mais fer­ozes. (…) Para demon­strar mel­hor está idio­ta impiedade e a ímpia absur­di­dade deste mis­eráv­el mestre dos políti­cos mod­er­nos ocorre ter pre­sente que (…) segun­do a sã filosofia, a vir­tude da for­t­aleza não é uma espé­cie de força cor­po­ral assus­ta­do­ra (…). Nem sequer con­siste em um âni­mo des­den­hoso e temerário, que sem con­sid­er­ar se uma coisa é (…) perigosa ou fácil, arrisca­da e impru­dente, se deixa arras­tar por um impeto furioso e de lou­ca temeri­dade (…). Em real­i­dade nós esta­mos falan­do da for­t­aleza como vir­tude moral, arma do homem forte para resi­s­tir o temor vão, mod­er­ar os ímpetos  empreen­der coisas difi­cul­tosas que com­por­tam peri­gos mor­tais, sofr­er assaltos com vig­or e penas com con­stân­cia (…) tudo isto para a glória do Sen­hor (…). Está é a for­t­aleza que chamamos vir­tude; enquan­to aque­la de Maquiáv­el (…), podemos defi­ni la ape­nas como orgul­ho bár­baro. (…) Assim se a for­t­aleza é uma vir­tude, quem será mais forte, o homem vicioso ou o vir­tu­oso, o mal ou o bom? E se é um dom de Deus, a quem o Sen­hor o comu­ni­cará, aos ami­gos ou aos inimi­gos (…). A quem ado­ra­va as pedras ou o lenho ou aos cristãos que ado­ram o Cri­ador do Uni­ver­so (…).  Então, por força das coisas, o cristão é mais forte que os gen­tios” ([23]). Além dis­so, Rib­adaneyra demon­stra que a suave edu­cação do sécu­lo XVI não é aque­la cristã, mas aque­la human­ista do renasci­men­to ou neo-pagã; de fato o Evan­gel­ho pre­ga dureza, pobreza, tem­per­ança, tra­bal­ho e todas vir­tudes que ger­am a for­t­aleza, e impõe a edu­cação dos fil­hos com sev­eri­dade. No quadragési­mo e últi­mo capí­tu­lo nos ensi­na que o príncipe cristão deve hon­rar a arte mil­i­tar. De fato “os bons sol­da­dos são os defen­sores da sociedade e do reino, pro­tegem os tra­bal­hadores, os jovens, as mul­heres e os príncipes. (…) Além dis­so é necessário que seja tida em grande con­ta a dis­ci­plina mil­i­tar, de modo que os sol­da­dos sejam ver­dadeira­mente anco­ra­dos a for­t­aleza cristã e não sejam ban­di­dos de estra­da, sejam min­istros de Deus e não de Satanás, defen­sores e não destru­idores da pátria (…). Sem está dis­ci­plina os sol­da­dos se tor­nam uma ruí­na ([24]).

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(2a parte)

B) S. ROBERTO BELARMINO S. J.

Tam­bém o Doutor das Con­tro­vér­sias sen­tiu a neces­si­dade de repelir os erros de Maquiáv­el, o fez no seu livro De offi­cio prin­cip­is chris­tianide 1682. Neste ensi­na, no livro primeiro capí­tu­lo primeiro, que o príncipe é min­istro de Deus, mas deve fazê-lo com sin­ceri­dade de coração, e deve sen­tir-se antes de tudo o lugar-tenente de Deus. “Por­tan­to os reis da ter­ra não são patrões abso­lu­tos de seu prin­ci­pa­do, mas gov­er­nadores a tem­po do reino con­ce­di­do a ele pelo Rei supre­mo, com a obri­gação de prestar-lhe con­ta no tremen­do juí­zo” ([25]). O san­to Doutor da Igre­ja con­tin­ua: “Pelo Sen­hor lhes foi dado o domínio (…), o qual exam­i­nará as vos­sas obras e per­scru­tará os pen­sa­men­tos. Porque, min­istros do seu reino, não gov­ernaram reta­mente (…). Ter­rív­el e veloz Ele saltará sobre vós; porque rig­orosís­si­mo juí­zo será daque­les que estão no topo (…). Existe mui­ta difer­ença entre os peca­dos dos príncipes e aque­les dos cidadãos pri­va­dos, no que toca os primeiros os inter­ess­es de muitos e os segun­dos os inter­ess­es de poucos” ([26]). Naqui­lo que diz respeito ao agir do príncipe cristão, Belarmi­no escreve: “Não deve impor leis da sua cabeça, mas deve gov­ernar os povos com leis dadas pelo Sen­hor seu Rei, porque não gov­er­na povos ver­dadeira­mente e abso­lu­ta­mente seus, mas povos de Deus (…) por­tan­to deve estar aten­to a não impor coisas con­trárias a lei div­ina (…) mas tam­bém com o exem­p­lo e com as obras, deve faz­er de tudo para não vio­lar, ele próprio, as leis div­inas (…). Deus de fato se ira, quan­do vê trans­gre­di­das as suas leis pro­pri­a­mente por aque­les que quis como min­istros do seu reino, para ter jun­to ao povo com o sen­ti­do de dev­er e observân­cia das leis div­inas” [(27)]. No capí­tu­lo segun­do escreve: “O príncipe sábio (…) deve tratar de modo diver­so os súdi­tos impios e per­ver­sos, que são (…) fil­hos do dia­bo, e os súdi­tos reli­giosos e san­tos que tem dire­ito ao reino eter­no” ([28]). No capí­tu­lo quar­to fala do dev­er do príncipe para com o Papa: “O Sumo Pon­tí­fice na Igre­ja é pai, pas­tor, doutor, sen­tinela e Sumo Sac­er­dote. (…) Ora sem­pre o Pon­tí­fice foi antepos­to ao príncipe (…) porque o Pon­tí­fice pre­side as coisas div­inas e o príncipe as coisas humanas (…) no mun­do são muitos príncipes, mas um só Pon­tí­fice (…). S. Bernar­do assim fala: ‘como toda alma foi sub­mis­sa a potes­tade supe­ri­or e quem resiste a potes­tade resiste a Deus (…) [ocorre] mostrar respeito a Suma e Apos­tóli­ca Sede” ([29]). No quin­to capí­tu­lo, o Belarmi­no tra­ta do dev­er do príncipe para com o Bis­po. “Bea­ta aque­la cidade a qual é toca­da ter um Bis­po e um príncipe san­to, os quais do amor e do acor­do out­ro não busquem que gov­ernar bem o povo (…). O Bis­po é pai, pas­tor, doutor, seja do príncipe que do povo. E (…) é o príncipe o dev­er de ser sujeito ao Bis­po (…) não é com­paráv­el a autori­dade dos príncipes àquela epis­co­pal (…) São João Crisós­to­mo (…) afir­ma que o sac­erdó­cio é tan­to mais sub­lime para o reino quan­to pode ser a difer­ença entre o espíri­to e a carne” ([30]).  No capí­tu­lo sex­to anal­isa o dev­er do príncipe para com o seu con­fes­sor. “O sac­er­dote con­fes­sor do príncipe (…) é juiz e tem a potes­tade no foro inter­no de lig­ar e desli­gar. É sinal evi­dente que durante a con­fis­são o sac­er­dote sente com a cabeça cober­ta, enquan­to o pen­i­tente, qual­quer um que esse seja, tam­bém se rei e imper­ador, ajoel­he-se, com a cabeça descober­ta (…). Ora a sal­vação do príncipe depende em modo par­tic­u­lar do con­fes­sor (…). Guiar as con­sciên­cias dos príncipes é uma tare­fa enorme e requer um homem não ape­nas expert, mais tam­bém muito pru­dente e con­stante e (…) que não ten­ha algum dese­jo pes­soal, não ten­ha ambição algu­ma, busque e queira ape­nas a sal­vação eter­na de seu príncipe e de seus povos. (…) Se o con­fes­sor não tem a cor­agem de recusar a absolvição a um homem assim impor­tante, escute aqui­lo que diz o Espíri­to San­to: “Não busque tornar-se juiz, se não tem a força para erradicar as injustiças, porque tu não tem que temer em face dos poderosos” (Sir. VII, 6) (…). Não é inte­gra a con­fis­são de um príncipe que con­fes­sa os peca­dos cometi­dos como cidadão pri­va­do (…) e não man­i­fes­ta, ao invés, os peca­dos cometi­dos enquan­to príncipe. Não fal­tam príncipes que, naqui­lo que diz respeito a própria pes­soa, são muito pios e jus­tos, mas não con­hecem os peca­dos dos seus colab­o­radores (…). E entre­tan­to os pobres são oprim­i­dos, os proces­sos alter­ados e os pequenos escan­dal­iza­dos. A ignorân­cia des­cul­pa o príncipe ape­nas se é invencív­el. Por­tan­to ele deve refle­tir seri­amente sobre a qual­i­dade dos min­istros e  inda­gar sobre seu com­por­ta­men­to e sobre seu modo de gov­ernar. O con­fes­sor, então, não deve con­tentar-se com a con­fis­são que o príncipe faz como homem pri­va­do, espe­cial­mente se sabe da opinião públi­ca, ou de out­ro modo, que os seus min­istros não se com­por­tam bem na admin­is­tração do Esta­do” ([31]). Belarmi­no acon­sel­ha ao con­fes­sor “se nota que com qual­quer príncipe perde o seu tem­po, porque estes não querem seguir os seus jus­tos amon­i­men­tos ele mes­mo peça humilde­mente para ser exon­er­a­do e, se não lhe é con­ce­di­do, tome soz­in­ho a decisão. De fato, é menos grave supor­tar a ira do príncipe ter­reno que aque­la de Deus” ([32)]. No livro primeiro capí­tu­lo déci­mo o san­to Doutor ensi­na que a justiça vinga­ti­va, rel­a­ti­va­mente ao cas­ti­go daque­les que agem mal, é necessária ao Esta­do, de modo que pela pena de um só muitos desis­tam de causar injurias e assim da justiça sur­ja a paz e a tran­quil­i­dade. Moisés era o mais man­so dos home­ns e, todavia pelo zelo da hon­ra de Deus, coman­dou que viessem a ser mor­tos mil­hares e mil­hares de pes­soas que havi­am ado­ra­do o bez­er­ro de ouro. Assim, quan­do vem cas­ti­ga­dos os mal­va­dos, os bons que eram oprim­i­dos de cativos, vem lib­er­ta­dos de um grave peri­go, pela mis­er­icór­dia do príncipe. Por­tan­to a sev­eri­dade do príncipe, no aplicar a justiça, é de lou­var-se, seja porque os out­ros, intim­i­da­dos, fujam dos peca­dos, seja porque os bons vivam sem temor uma vida qui­eta e tran­quila. No capí­tu­lo déci­mo primeiro do livro, São Rober­to mostra que “a for­t­aleza é necessária ao príncipe para gov­ernar os povos, essa se man­i­fes­ta sobre­tu­do na guer­ra e, tam­bém se per­tence a todos os sol­da­dos, todavia se ade­qua par­tic­u­lar­mente ao príncipe, que é chefe e guia (…) e que for­ti­fi­ca o âni­mo dos sol­da­dos com a sua for­t­aleza (…) mas exis­tem guer­ras mais graves e mais atrozes: aque­las do demônio con­tra as almas (…). Neste com­bate espir­i­tu­al os príncipes cristãos devem aju­dar a Igre­ja (…) como escreve San­to Agostin­ho na Car­ta a Vicente Donatista, onde demon­stra que é jus­to que os pagãos e os hereges sejam punidos pelos príncipes ter­renos. Tam­bém São Gregório, na Car­ta ao Prefeito da África Pan­taleão, escreve para esma­gar os hereges donatis­tas e, na sua Car­ta ao Imper­ador Mau­rí­cio e a Brunilde (…), para perseguir como idóla­tras, os hereges. E tam­bém em paz o príncipe dev­erá tra­bal­har muito e fre­quente­mente per­manecer acor­da­do durante a noite, pen­san­do e repen­san­do os remé­dios que pre­cis­ará preparar para os seus súdi­tos ([33]). No déci­mo quin­to capí­tu­lo demon­stra que a clemên­cia é necessária ao príncipe para gov­ernar os povos. “Se a alma (…) começa a tratar o seu cor­po muito sev­era­mente, com jejuns e vigílias este, rebe­lando-se, recusa de faz­er o próprio dev­er. Assim se o príncipe, sobre o exem­p­lo, da alma ou do espíri­to, gov­er­na os povos como seus mem­bros com clemên­cia e doçu­ra e impõe um jugo suportáv­el, (…) exper­i­men­ta­rá por sua vez, que os povos o amem, são obe­di­entes e fidelís­si­mos sem exci­tação  Se, ao con­trário, exper­i­men­tam o seu príncipe não como um pai clemente, mas como um patrão severo, estes não dev­erão mar­avil­har-se se será odi­a­do e aban­don­a­do pelos súdi­tos quan­do terá maior neces­si­dade de aju­da” ([34]). No déci­mo séti­mo capí­tu­lo colo­ca em guar­da o príncipe a não deixar-se dom­i­nar pela mul­her, de fato “temos exem­p­los nas Sagradas Escrit­uras dos quais podemos con­hecer o quan­to seja a inca­paci­dade da mul­her de con­ter-se e a quais hor­ren­dos pre­cipí­cios as mul­heres tem empurra­do os seus mari­dos (…) Eva a mul­her de Adão (…) Dalila a mul­her de San­são (…)” ([35]). No vigési­mo capí­tu­lo nos fala dos deveres para com os  cortesões. “Ess­es com facil­i­dade adu­lam o seu patrão. (…) Está adu­lação, a maneira de doce veneno, facil­mente pen­e­tra no âni­mo, se não encon­tra um coração ver­dadeira­mente humilde e sub­mis­so com­ple­ta­mente a Deus. Quan­do o veneno da adu­lação preenche o âni­mo do príncipe é incredív­el a diz­er-se quan­tos e quan­to graves danos causa. Quem escul­ta os adu­ladores, incha para a sober­ba, pen­sa em coisas grandes e mar­avil­hosas que dev­erão lhe acon­te­cer e acred­i­tam que a ele tudo seja fácil. Por­tan­to não segue os con­sel­hos sapi­entes” ([36]). Enfim no vigési­mo segun­do capí­tu­lo, São Rober­to avisa o príncipe a pen­sar em Deus seu fim últi­mo que o criou para ser con­heci­do, ama­do e servi­do, e medi­ante isto sal­var a alma, por­tan­to os príncipes devem pen­sar seri­amente a sal­vação eter­na.

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(3a parte)

C) ANTÔNIO VIEIRA S.J.

Antônio Vieira, nasce em Lis­boa em 6 de fevereiro de 1609 e em 1623, com qua­torze anos, entrou nos jesuí­tas; depois de ser envi­a­do ao Brasil, desen­volve numerosas mis­sões diplomáti­cas na França, Holan­da, Inglater­ra e em Roma; em 1652 retornou ao Brasil, pas­sou ain­da em Roma em 1669 e em 1681 re-atrav­es­sou o oceano e retornou ao Brasil, onde morre em 18 de jul­ho de 1697. Ape­sar do seu zelo, teve – segun­do a Encí­clo­pe­dia Católi­ca – prob­le­mas com a inquisição, por causa de uma exces­si­va credul­i­dade em uma cer­ta rev­e­lação pri­va­da, sin­gu­lar e extrav­a­gante. Em real­i­dade segun­do Yosef Hay­im Yerusha­la­mi (Da corte ao gue­to. A vida e as obras, as pere­gri­nações dos mar­ra­nos Car­doso na Europa do sécu­lo XVI, Garzan­ti, Milão, 1991, cap. VII, pag.. 273–276: Saba­tian­is­mo e sebas­tian­is­mo?): Padre Vieira era um adep­to do sebas­tian­is­mo, uma for­ma de mes­sian­is­mo judaico o qual sus­ten­ta­va que o rei de Por­tu­gal Sebastião (+1578), retornar­ia a Por­tu­gal para sal­var os por­tugue­ses, então sub­meti­do a Espan­ha. Os par­tidários do mito eram os mar­ra­nos por­tugue­ses, sus­ten­ta­dos pelo Padre Antônio Vieira S.J., o qual foi apri­sion­a­do pela Inquisição por três anos (1665–1667); ele havia sus­ten­ta­do em 1665 que o rei Sebastião voltaria como Mes­sias ([37]). Repor­to os “qua­tro ser­mões” que pos­suí­mos em ital­iano, e no pre­sente capí­tu­lo me baseio ape­nas sobre ess­es e colo­co em guar­da o leitor para as out­ras obras, espe­cial­mente aque­las de caráter mes­siâni­co. A sua pro­dução oratória foi vastís­si­ma, em por­tuguês exis­tem quinze vol­umes de Obras oratórias pós­tu­mas, edi­tadas por Lel­lo & Irmão, Por­to, 1951. Nas qua­tro pre­gações aos home­ns de gov­er­no, tidas a Lis­boa, mostra qual deve ser a con­cepção cristã da políti­ca, diame­tral­mente con­trária àquela neo-pagã de Maquiáv­el. Segun­do ele a ação e a dout­ri­na políti­ca não podem pre­scindir de Deus, que as move e final­iza. Deus criou o homem ani­mal social, é Causa efi­ciente remo­ta da Sociedade civ­il e é o fim últi­mo do homem indi­vid­ual e vivente em sociedade. Este é o prob­le­ma politi­co  se esse é bem definido e bem resolvi­do, se terá a paz e a ordem e a vida vir­tu­osa que são a estra­da do Paraí­so. Mas se o prob­le­ma é mal colo­ca­do ou mal resolvi­do, se terá o caos ou o ter­ror, o vicio e a des­or­dem que são a estra­da para o infer­no. A par­tir destes dois pon­tos cap­i­tais, o jesuí­ta por­tuguês, traça o quadro da con­cepção católi­ca da políti­ca: essa é muito fran­ca, ple­na de bom sen­so, dire­ta, acessív­el a todos. Tam­bém se a sub­stân­cia é assaz símile ao que vimos em Rib­adeneyra e Belarmi­no, o modo de exposição, os exem­p­los, a estra­da segui­da é muito orig­i­nal e tocante, sim­ples e sin­cera como o bom sen­so de um vel­ho mon­ta­naro (atenção “nem tudo que reluz é ouro” diz o provér­bio); e por­tan­to que expor­ei breve­mente.

 

1°) O bom con­sel­ho:

A primeira con­sid­er­ação que Vieira faz, na pre­gação tida a corte real de Por­tu­gal em 1662, é que a boa políti­ca depende do bom con­sel­ho, e para ter um que seja ver­dadeira­mente tal ocorre escol­her bem os con­sel­heiros. A matéria sobre a qual deve se acon­sel­har, deve ser ati­nente a profis­são do con­sel­heiro: sobre a fé e a moral o con­sel­heiro será o Padre, sobre a guer­ra acon­sel­hará o sol­da­do, sobre a nave­g­ação o mar­in­heiro. Se o mun­do vai mal sig­nifi­ca que os príncipes são mal acon­sel­ha­dos por pes­soas que falam de coisas sobre as quais não são com­pe­tentes e sobre­tu­do por “castel­hanosintri­g­antes que podem adu­lador e con­quis­tar a sim­pa­tia do príncipe, para ele faz­er, então, aqui­lo que eles querem.

 

2°) For­mu­lar bem as pro­postas:

Não existe nada de mais letal que uma pro­pos­ta mal for­mu­la­da. Atenção aos con­sel­heiros ou aos con­sel­heiros ou aos príncipes que dizem: ver­e­mos, fare­mos. Ess­es fazem parte da primeira classse de home­ns dos quais fala os Exer­cí­cios de San­to Iná­cio nº 153, são eles que adi­am o prob­le­ma sem­pre ao dia seguinte: “cras, cras”. São chama­dos cor­vos, são sem­pre morosos, espe­cial­is­tas na arte de adi­ar, para não enfrentar a real­i­dade. Mas a políti­ca do avestruz, como se sabe, não paga. Escon­der a peque­na cabeça na areia, deixan­do expos­to o resto do cor­po, notavel­mente mais volu­moso. Isto é perigoso, e a avestruz, emb­o­ra iludin­do-se de estar segu­ra, se tor­na uma fácil pre­sa para o seu inimi­go. Ao invés o bom príncipe e o bom con­sel­heiro dizem: façamos, ago­ra tudo o que deve ser feito. Não deix­e­mos para aman­hã, aqui­lo que pode ser feito hoje. Odeio aqui­lo que devo faz­er, mas como devo fazê-lo é mel­hor que o faça ago­ra. Como a San­tís­si­ma Trindade, que ven­do os home­ns andan­do ao infer­no disse: façamos a Redenção do gênero humano (Exer­cí­cios espir­i­tu­ais de S. Iná­cio, nº 101). E a fez no instante, sem rein­viá-la dia após dia para as “cal­en­das gre­gas”. “Os home­ns do fare­mos não são home­ns, e tan­to menos home­ns que pos­sam faz­er o rei ou acon­sel­há-lo (…). Não existe coisa no mun­do da qual um rei deva maior­mente fugir, que do homem do fare­mos” ([38])

 

3°) Eficá­cia e pron­tidão da exe­cução:

O con­sel­ho do siné­drio con­de­nou e fez matar Jesus em doze horas, da meia-noite da Quin­ta-feira San­ta às 12 horas da Sex­ta-feira San­ta, quan­do Jesus foi cru­ci­fi­ca­do e expirou depois às 15 horas. E a história con­tin­ua, por ora, (…) na Palesti­na e no resto do mun­do oci­den­tal… “Até quan­do não se dá exe­cução aos decre­tos (…) não se é dado iní­cio a nada (…) O con­sel­ho de exe­cução é aque­le que faz as coisas” ([39]).

 

4°) Nem car­ta nem tin­ta:

Car­ta e tin­ta são dois ele­men­tos pouco úteis em um con­sel­ho” ([40]). Ess­es servem, na maior parte dos casos, ao retar­do da atu­ação do con­sel­ho. O autor não con­de­na abso­lu­ta­mente o uso da car­ta e da pena, mas o exces­si­vo uso dess­es, que é aque­le que hoje chamamos buro­c­ra­cia, que tan­to tem­po e din­heiro faz perder o Esta­do e o cidadão.

 

Polit­i­ca e lei de Deus

A ver­dadeira políti­ca deve basear-se sobre o temor de Deus, sobre o respeito de Deus!(…) A ver­dadeira arte de gov­ernar é a de seguir a sua lei!(…) Qual­quer políti­ca que exclui a lei de Deus é ignorân­cia, engano, erro, mal gov­er­no e ruí­na” ([42])

   

DON CURZIO NITOGLIA

20 de abril de 2010

Link a ques­ta pag­i­na:http://www.doncurzionitoglia.com/Principe_Cristiano_Vs_Principe_Machiavelli.htm


NOTE

[1]) P. DE Rib­adeneyra S.J., Il principe cris­tiano, Can­ta­gal­li, Siena, 1978, I vol., intro­duzione a cura di P. Cauc­ci, pag. 23.

[2]) Ibi­dem, pag. 45.

[3]) Ibi­dem, pag. 84.

[4]) Ibi­dem, pag. 123.

[5]) Ibi­dem, pag. 134.

[6]) Ibi­dem, pag. 174.

[7]) Ibi­dem, pag. 182.

[8]) Ibi­dem, pag. 196.

[9]) Cfr. nota n° 170.

Cfr. S. T., II-II, qq. 123–140 (su la Fortez­za e la Mag­na­nim­ità).

[10]) S.T., I‑II, q.63, a.3./  I‑II, qq. 64–67./  I‑II, q.110, a.4, ad1. / I‑II, q.68, a.2. Cfr.A. Royo Marìn O.P., Teolo­gia da per­feição cristã, ed Pao­line, 1965, 6ª ed., Roma, pagg. 119–123. Cfr. J. Dumont, A Igre­ja matou o Império Romano e a cul­tura anti­ga?, Effedi­effe, Milano, 2001. A. J. Fustigière, Her­metismo e mist­i­ca pagã, O Melan­go­lo, Gen­o­va, 1991. P. F. Beat­rice (a cura di) , A intol­erân­cia cristã para com os pagãos, EDB, Bologna, 1993.

[11]) P. De Rib­adeneyra S.J., op. cit., II vol., pag. 10.

[12]) J. Bossuet, Dis­cours sur l’histoire uni­verselle, Gar­nier- Flam­mar­i­on, Paris, 1966, pag. 293.

Roma “reli­gio-pagana”

O mun­do inteiro, se divide em duas grandes religiões: aque­la da San­tís­si­ma Trindade e aque­la de Satanás (que dão lugar a várias seitas e cisões, recon­duziveis todas ao seu mestre), destas religiões seguem duas políti­cas: a Cristoc­ra­cia e a Satanoc­ra­cia. A Satanoc­ra­cia teve como cap­i­tal: Jerusalém dei­ci­da, destruí­da em 70 d.C. pelos Romanos, e Roma religião pagã dos Césares, a qual sub­sti­tu­iu Jerusalém dei­ci­da, até que não se con­ver­ta a Cristo (IV sécu­lo d.C.). A Cristoc­ra­cia tem como cap­i­tal a Roma dos Papas. Nes­ta pági­na falam­os da Roma religião pagã até 313 d. C., e neo-pagã a par­tir do Human­is­mo e da Renascença, até a vio­lação da Por­ta Pia e a Itália do ressurg­i­men­to e post-ressurg­i­men­to. A Roma anti­ga e pagã era car­ac­ter­i­za­da pelo pan­teís­mo e pela idol­a­tria politeís­ta. Roma quan­to a religião, sucede a Babilô­nia, tor­na a patroa do mun­do, a metró­pole da idol­a­tria e a for­t­aleza de Satanás (Cfr. San­to Agostin­ho, De Civ­i­tate Dei, lib. XVIII, cap. II e ss.). No pagan­is­mo Satanás era ver­dadeira­mente o ‘deus’ do mun­do (Omnes dii gen­tium, demo­nia recita o salmo). O pagan­is­mo depois de ter sido a religião dos assíros-babilone­ses, dos egíp­cios, dos gre­gos e dos romanos, encon­trou em Roma o Vigário de Cristo que der­ro­ta, der­ra­man­do o próprio sangue sobre os montes do Vat­i­cano, Satanás e o pagan­is­mo Romano. Antes a Providên­cia se serviu da grandeza mate­r­i­al de Roma, praeter inten­tionem funda­toris, para difundir o Evan­gel­ho em todo mun­do. Mas por trezen­tos anos Satanás e Roma perseguiram Cristo e os cristãos, com ódio infer­nal. E depois foi caça­do por Roma, gov­er­na­da pelo Vigário de Cristo, Satanás sem­pre procurou de nela reen­trar. Infe­liz­mente com o Human­is­mo e o Renasci­men­to o espíri­to cabal­ista e pagão retoma a mar­cha, ain­da se não total­mente, a Roma e dalí ao mun­do inteiro, espal­han­do os seus erros e as suas revoltas em toda parte (Cesaris­mo, Protes­tantismo, Rev­olução amer­i­cana, ingle­sa e france­sa, Comu­nis­mo, Mundi­al­is­mo) até 1870, quan­do uma sei­ta infer­nal a judaico-maçonar­ia, caça o Vigário de Cristo em Roma, para ado­rar César. Mas a luta con­tin­ua, Pedro retor­na a Roma, até que depois da morte de Pio XII, o nat­u­ral­is­mo neo-pagã retoma espaço, ten­to ocu­pa­do, infe­liz­mente, o próprio Vat­i­cano, onde se expande a man­cha do óleo e prepara o reino do Anti­cristo.(Cfr. J. J. Gaume, Traité du Saint-Esprit, tomo I, Paris, Gaume-Duprey, 1864, pagg. 463–502). 

 

[13]) P. De Rib­adeneira, op. cit., pagg. 15–16.

[14]) Ibi­dem, pagg. 33–35.

[15]) Ibi­dem, pagg. 45–46.

[16]) Ibi­dem, pag. 49.

[17]) Ibi­dem, pag. 85.

[18]) Ibi­dem, pagg. 99–103.

[19]) Ibi­dem, pagg. 99–107.

[20]) Ibi­dem, pagg. 108–111.

[21]) Ibi­dem, pagg. 115–118.

[22]) Ibi­dem, pagg. 119–122.

[23]) Ibi­dem, pagg. 136–140.

[24]) Ibi­dem, pagg. 170–171.

[25]) R. Bel­larmi­no, Scrit­ti Spir­i­tu­ali, il dovere del principe cris­tiano, Mor­cel­liana, Bres­cia, 1997, pag. 37.

[26]) Ibi­dem, pag. 43.

[27]) Ibi­dem, pag. 45.

[28]) Ibi­dem, pag. 53.

[29]) Ibi­dem, pagg. 77 e 79.

[30]) Ibi­dem, pag. 79 e 81.

[31]) Ibi­dem, pagg. 89 e 91.

[32]) Ibi­dem, pag. 93.

[33]) Ibi­dem, pagg. 127 e 129 e 131.

[34]) Ibi­dem, pag. 159.

[35]) Ibi­dem, pagg. 175 e 177.

[36]) Ibi­dem, pag. 203.

[37]) Cfr. tam­bém C. Roth, História dos mar­ra­nos.A odis­séia dos ‘hebreus invisíveisi’ da inquisição aos nos­sos dias, Ser­ra e Riva, Milão, 1991, pagg. 272–277). A. Sicroff, Les con­tro­ver­s­es des statuts de puereté de sang en Espagne du XV au XVII siè­cle, Paris, 1960. H. J. Zim­mels, Die Mar­ra­nen in der Rab­binis­chen Lit­er­atur, Berlin, 1932. S. Assaf, Os mar­ra­nos espan­hóis e por­tugue­ses em respostas (em hebraico), «Me’ assef», vol. V, pagg. 19–61. D’Azevedo, História de Anto­nio Vieira, Lis­boa, 1908–1931, 2 voll. Gli escritos mes­siâni­cos de A. Vieira se encon­tram na suas Obras escol­hi­das, vol. VI, que con­tém a impor­tante Esper­anças de Por­tu­gal, quin­to impe­rio do mun­do, pagg. 1–66. Cfr. anche M. Gonçalves Viana [ao cuida­do de], Car­tas do Padre Anto­nio Vieira, Opor­to, s.d., pagg. 135–164).Vieira foi tam­bém um un mile­nar­ista empreg­na­do pro­fun­da­mente do pen­sa­men­to teológi­co de Joaquim de Fiore. Cfr. m. reeves – w. goulo, Joachim of Fiore and the myth of the Eter­nal Evan­gel in the nine­teenth cen­tu­ry, Claren­don Press, Oxford, 1987, p. 22.

[38]) A. Vieira S.J., Quat­tro prediche agli uomi­ni di gov­er­no, Cen­tro Stu­di Sociali, Milano, 1960, pag. 26.

[39]) Ibi­dem, pagg. 30–31.

[40]) Ibi­dem, pag. 35.

[41]) Ibi­dem, pagg. 40–41.

[42]) Ibi­dem, pagg. 43–45.