O Napoleão de Noting Hill: o jogo “engane o profeta”


Literatura / sábado, março 5th, 2016

O Napoleão de Noting Hill

Chesterton

Livro I

Capítulo I

Observações introdutórias sobre a Arte da Profecia

A raça humana, a que muitos de meus leitores per­tencem, diverte-se com jogos infan­tis des­de o iní­cio dos tem­pos, e provavel­mente vai fazê-lo até o fim, o que é um incô­mo­do para as pou­cas pes­soas cresci­das. E um dos jogos predile­tos é chama­do deMan­ten­ha o aman­hã mis­te­rioso, e que tam­bém é chama­do (pelos cam­pone­ses em Shrop­shire, não ten­ho dúvi­da) Engane o Pro­fe­ta. Os jogadores ouvem com mui­ta atenção e respeito a tudo o que os home­ns inteligentes têm a diz­er sobre o que deve acon­te­cer na próx­i­ma ger­ação. Os jogadores então esper­am até que todos os home­ns inteligentes este­jam mor­tos, e os enter­ram com respeito. Então, fazem algu­ma out­ra coisa. Isto é tudo. Para uma raça de gos­tos sim­ples, no entan­to, é muito diver­tido.

A humanidade, como uma cri­ança, é teimosa e ado­ra seg­red­in­hos. E des­de o iní­cio do mun­do nun­ca fez o que os sábios dizem ser inevitáv­el. Eles ape­dre­jaram os fal­sos pro­fe­tas, diz-se, mas eles pode­ri­am ter ape­dre­ja­do os ver­dadeiros pro­fe­tas com um praz­er maior e mais jus­to. Indi­vid­ual­mente, os home­ns podem apre­sen­tar uma aparên­cia mais ou menos racional, com­er, dormir, ou plane­jar algo. Mas a humanidade como um todo é mutáv­el, mís­ti­ca, incon­stante, deli­ciosa. Os home­ns são home­ns, mas o Homem é uma mul­her.

Mas, no iní­cio do sécu­lo XX, o jogo Engane o Pro­fe­ta se tornou bem mais difí­cil do que nun­ca. A razão era que havia tan­tos pro­fe­tas e tan­tas pro­fe­cias que era difí­cil evi­tar todas as suas ocor­rên­cias. Quan­do o homem fazia algo frenéti­co, livre e total­mente seu, um pen­sa­men­to hor­rív­el o feria depois: que seu ato pode­ria ter sido pre­vis­to. Sem­pre que um duque escala­va um poste, quan­do um Super­in­ten­dente fica­va bêba­do, ele não pode­ria ser real­mente feliz, ele não pode­ria ter certeza de que não esta­va cumprindo algu­mas pro­fe­cias. No iní­cio do sécu­lo XX não se podia ver o chão em que pisavam os home­ns inteligentes. Eles eram tão comuns que um homem estúpi­do era abso­lu­ta­mente excep­cional, e quan­do o encon­travam, mul­ti­dões na rua o seguiam, guar­davam e davam-lhe algum alto pos­to no Esta­do. E todos os home­ns inteligentes se ded­i­cavam a infor­mar o que iria acon­te­cer na próx­i­ma era, visões muito claras, mor­dazes e sev­eras, e todas muito difer­entes entre si. E pare­cia que o bom e vel­ho jogo de enga­nar seus antepas­sa­dos não pode­ria real­mente ser gan­ho neste momen­to, porque os antepas­sa­dos neg­li­gen­ci­avam a carne, o sono e a práti­ca da políti­ca, para que pudessem med­i­tar dia e noite sobre o que seus descen­dentes estari­am propen­sos a faz­er.

Mas a for­ma como os pro­fe­tas do sécu­lo XX pas­saram a tra­bal­har foi a seguinte: eles pegavam uma coisa ou out­ra que cer­ta­mente esta­va acon­te­cen­do no seu tem­po, e então diziam que esta iria ocor­rer cada vez mais até que algo extra­ordinário acon­te­ceria. E muitas vezes acres­cen­tavam que em algum lugar estran­ho esse algo extra­ordinário já havia acon­te­ci­do, e que isso con­sti­tuía um sinal dos tem­pos.

Assim, por exem­p­lo, havia o Sr. HG Wells e out­ros, que pen­savam que a ciên­cia iria tomar con­ta do futuro, e assim como o automóv­el é mais rápi­do que o coche, então algu­ma coisa lin­da seria mais ráp­i­da do que o automóv­el e assim por diante para sem­pre. E surgiu, a par­tir de suas cin­zas, o Dr. Quilp, que disse que um homem podia ser envi­a­do tão rápi­do ao redor do mun­do em sua máquina que pode­ria man­ter uma lon­ga con­ver­sa com alguém de uma aldeia do vel­ho mun­do dizen­do uma palavra de uma frase a cada vez que desse uma vol­ta. E foi dito que a exper­iên­cia havia sido ten­ta­da com um vel­ho major apopléti­co, que foi envi­a­do em vol­ta ao mun­do tão rápi­do que pare­cia (para os habi­tantes de out­ra estrela) uma faixa con­tínua de bigodes bran­cos, pele ver­mel­ha e teci­do tweed, como um anel de Sat­urno.

Em segui­da, hou­ve a esco­la opos­ta. Entre eles, o Sr. Edward Car­pen­ter, que acha­va que em breve dev­eríamos retornar à Natureza, e viv­er de for­ma sim­ples e lenta, como os ani­mais fazem. E Edward Car­pen­ter foi segui­do por James Pick­ie (do Poco­hon­tas Col­lege), que disse que os home­ns mel­ho­ravam imen­sa­mente pela rumi­nação, comen­do seu ali­men­to de for­ma lenta e con­tin­u­a­mente, à maneira das vacas. E ele disse que tin­ha, com os resul­ta­dos mais enco­ra­jadores, colo­ca­do alguns citadi­nos de qua­tro num cam­po cheio de costele­tas de vitela. Em segui­da, Tol­stoi e os Human­itários dis­ser­am que o mun­do esta­va crescen­do mais mis­eri­cor­dioso, e, por­tan­to, ninguém jamais teria o dese­jo de matar. E o Sr. Mick não só se tornou um veg­e­tar­i­ano, mas pos­te­ri­or­mente declar­ou o veg­e­tar­i­an­is­mo con­de­na­do (“o der­ra­ma­men­to”, como ele chamou fina­mente, “do sangue verde dos ani­mais silen­ciosos”), e pre­viu que os home­ns de uma era mel­hor vive­ri­am ape­nas de sal. E então veio o pan­fle­to do Ore­gon (onde a pro­pos­ta foi ten­ta­da), o pan­fle­to chama­do “Por que o Sal deve sofr­er?”, e hou­ve mais prob­le­mas.

Citadinos de quatro num campo cheio de costeletas de vitela.

Citadi­nos de qua­tro num cam­po cheio de costele­tas de vitela.

E por out­ro lado, algu­mas pes­soas pre­vi­am que as lin­has de par­entesco se tornar­i­am mais estre­itas e rig­orosas. Entre elas, o Sr. Cecil Rhodes, que pen­sa­va que a úni­ca coisa do futuro seria o Império Britâni­co, e que have­ria um abis­mo entre aque­les que eram do Império e aque­les que não eram, entre o chinês em Hong Kong e o chinês de fora, entre o espan­hol no Roche­do de Gibral­tar e do espan­hol fora dele, semel­hante ao abis­mo entre o homem e os ani­mais infe­ri­ores. E da mes­ma for­ma seu impetu­oso ami­go, Dr. Zop­pi (“o Paulo do anglo-sax­on­is­mo”), foi ain­da mais longe, e declar­ou que, como resul­ta­do desse pon­to de vista, o cani­bal­is­mo dev­e­ria sig­nificar com­er um mem­bro da Império, e não com­er um mem­bro dos povos sub­meti­dos, que dev­e­ri­am, segun­do ele, ser mor­tos sem dor desnecessária. Seu hor­ror à ideia de com­er um homem da Guiana Ingle­sa mostrou as pes­soas como elas não havi­am com­preen­di­do seu esto­icis­mo, que o con­sid­er­avam desprovi­do de sen­ti­men­to. Ele ficou, no entan­to, em uma posição difí­cil, pois foi dito que ele tin­ha ten­ta­do o exper­i­men­to, e, viven­do em Lon­dres, tin­ha sub­sis­ti­do inteira­mente de moí­dos de ital­ianos. O seu fim foi ter­rív­el, pois quan­do ele tin­ha recém começa­do, Sir Paul Swiller leu seu grande arti­go na Roy­al Soci­ety, provan­do que os sel­vagens não ape­nas fazi­am muito bem em com­er seus inimi­gos, mas tin­ham dire­ito por razões morais e de higiene, pois era ver­dade que as qual­i­dades do inimi­go comi­do, pas­savam para o come­dor. A noção de que a natureza de um órgão de um homem ital­iano esta­va irrevo­gavel­mente crescen­do e flo­rescen­do den­tro dele era mais do que o vel­ho e gen­til pro­fes­sor pode­ria supor­tar.

Havia tam­bém o Sr. Ben­jamin Kidd, que disse que a mar­ca cres­cente de nos­sa raça seria o cuida­do e con­hec­i­men­to do futuro. Sua ideia foi desen­volvi­da com mais força por William Bork­er, que escreveu aque­la pas­sagem que todo estu­dante sabe de cor, sobre os home­ns em eras futuras choran­do pelos túmu­los de seus descen­dentes, e os tur­is­tas que estão sobre a cena da históri­ca batal­ha que dev­e­ria realizar-se alguns sécu­los depois.

E o Sr. Stead, tam­bém proem­i­nente, que acha­va que a Inglater­ra no sécu­lo XX se uniria a Améri­ca; e seu jovem tenente, Gra­ham Podge, que incluiria os esta­dos de França, Ale­man­ha e Rús­sia na União Amer­i­cana, o Esta­do da Rús­sia sendo abre­vi­a­do para Ra.

Havia tam­bém o Sr. Sid­ney Webb, quem disse que que o futuro veria um aumen­to con­tin­uo da ordem e limpeza na vida das pes­soas, e seu pobre ami­go Fipps, que enlouque­ceu e cor­reu o país com um macha­do, cor­tan­do os gal­hos das árvores, sem­pre que não tivesse o mes­mo número em ambos os lados.

Todos estes home­ns inteligentes estavam pro­fe­ti­zan­do com toda a sorte de engen­hos o que iria acon­te­cer em breve, e todos eles fiz­er­am isso da mes­ma maneira, toman­do algo de “forte tendên­cia”, como se diz, e esticando‑o tan­to quan­to a sua imag­i­nação aceita­va. Isso, segun­do eles, era o ver­dadeiro e sim­ples cam­in­ho de ante­ci­par o futuro. “Assim”, disse o Dr. Pel­lkins, em uma bela pas­sagem, “quan­do vemos um por­co em uma nin­ha­da maior do que os out­ros por­cos, sabe­mos que por uma lei inal­teráv­el do Ine­scrutáv­el, este por­co vai algum dia ser maior do que um ele­fante, da mes­ma for­ma como sabe­mos, quan­do vemos ervas dan­in­has e dentes de leão crescen­do mais grossos em um jardim, que estes devem, ape­sar de todos os nos­sos esforços, crescer mais altos do que as cham­inés e enco­brir a casa, do mes­mo modo que sabe­mos rev­er­ente­mente recon­hecer que, quan­do qual­quer poder na políti­ca humana atinge con­sid­eráv­el destaque por algum perío­do de tem­po, este vai con­tin­uar até atin­gir o céu.”

Cer­ta­mente parece que os pro­fe­tas havi­am colo­ca­do as pes­soas (envolvi­das no vel­ho jogo de Engane o Pro­fe­ta) em uma difi­cul­dade sem prece­dentes. Pare­cia muito difí­cil faz­er qual­quer coisa sem cumprir algu­mas de suas pro­fe­cias. Mas havia, no entan­to, nos olhos dos tra­bal­hadores nas ruas, dos cam­pone­ses nos cam­pos, dos mar­in­heiros e das cri­anças, e espe­cial­mente as mul­heres, um olhar estran­ho que man­teve os home­ns sábios em um per­feito esta­do de dúvi­da. Eles não podi­am imag­i­nar a ale­gria imóv­el em seus olhos. Eles ain­da tin­ham algo na man­ga, pois eles ain­da estavam jogan­do o jogo de Enga­nar o Pro­fe­ta. Então nos sábios cresceu uma dúvi­da sel­vagem, que os agi­ta­va de cá para lá e pas­saram a gri­tar: “O que pode ser? O que pode ser? O que será de Lon­dres daqui a um sécu­lo? Há algo que não se ten­ha pen­sa­do? Casas de cabeça para baixo… mais higiêni­cas, talvez? Home­ns andan­do em mãos-pés flexíveis, talvez? … Veícu­los lunares motor­iza­dos … sem cabeça.…” E assim, eles se agi­tavam e se per­gun­tavam até que mor­reram e foram respeitosa­mente enter­ra­dos. Então o povo foi e fez o que que­ria. Não vou mais escon­der a dolorosa ver­dade. As pes­soas tin­ham engana­do os pro­fe­tas do sécu­lo XX. Quan­do a corti­na sobe nes­ta história, oiten­ta anos após a data pre­sente, Lon­dres é quase exata­mente como é ago­ra.