Dois amores, duas cidades: Via modernorum I


No category / quarta-feira, março 9th, 2016

Dois amores, duas cidades: Via modernorum I

Gus­ta­vo Corção

A infil­tração nominal­ista na Civ­i­liza­ção Oci­den­tal Mod­er­na.

Antes de ini­cia­r­mos o exame dos diver­sos aspec­tos da Civ­i­liza­ção Oci­den­tal Mod­er­na, con­vém deter­mo-nos na con­sid­er­ação mais acu­ra­da e mais abstra­ia dos prin­ci­pais fatores desse impor­tante perío­do da história. Atrás dis­se­mos que o tri­un­fo do Nom­i­nal­is­mo pesou mais na história mod­er­na do que a invenção da impren­sa, a descober­ta da pólvo­ra e a Refor­ma. Receamos que o leitor se apresse a jul­gar esque­mática demais nos­sa tese, e depois se apegue a esse juí­zo. E não igno­ramos que a var­iedade dos acon­tec­i­men­tos, e até os con­trastes das sis­tem­ati­za­ções fisoló­fi­cas, pare­cem con­trari­ar a ideia de uma influên­cia per­ti­naz e de cer­to modo con­stante.

Na ver­dade, obser­vam-se muitas oscilações ness­es qua­tro sécu­los que nos propo­mos exam­i­nar. Sob o pon­to de vista das doutri­nas económi­cas prat­i­cadas, começa mer­can­tilista, e portan­to forte­mente inter­ven­cionista, para ter­mi­nar com o lais­sez-faire do lib­er­al­is­mo; sob o pon­to de vista da relação homem-mun­do começou vio­len­ta­mente natur­ista para ter­mi­nar vio­len­ta­mente arti­fi­cial­ista, oscilan­do da utopia do Eldo­ra­do para a utopia do Brave New World; sob o pon­to de vista da relação do homem con­si­go mes­mo, começou por um otimis­mo exul­tante e por um sen­ti­men­to de descober­ta, para após qua­tro sécu­los ter­mi­nar num pes­simis­mo acabrun­hante, e num sen­ti­men­to de extravio, desam­paro, esquec­i­men­to do próprio nome, que chamaríamos com­plexo de Par­si­fal, para aumen­tar a coleção das par­al­isias psíquicas já cat­a­lo­gadas.

Poderíamos pro­lon­gar a lista de oscilações, todas elas, en­tretanto, inscritas den­tro de cer­ta tonal­i­dade, ou pre­sas aos mes­mos eixos. Para enten­der bem esse prob­le­ma pre­cisamos lem­brar o que já dis­se­mos (Vol. I, II) sobre o val­or civ­i­liza­cional das ideias, e será bom reforçar­mos a con­fi­ança nes­sa direção do pen­sa­men­to.

Jacques mar­i­tain: “As dores e esper­anças de nos­so tem­po depen­dem, sem dúvi­da, das causas mate­ri­ais, dos fatores econômi­cos e téc­ni­cos que desem­pen­ham papel essen­cial no movi­men­to da história humana; mas ain­da mais pro­fundamente depen­dem das ideias, do dra­ma em que o espíri­to está enga­ja­do, das forças invisíveis que nascem e se desen­volvem em nos­sa inteligên­cia e em nos­so coração: porque a história não é um desen­ro­lar mecâni­co de acon­tec­i­men­tos no meio dos quais o homem estaria simples­mente situ­a­do como um estran­ho; ‘a história humana é humana na sua sub­stân­cia; é a história de nos­so próprio ser, dessa carne mis­eráv­el, sub­meti­da a todo o sen­ho­rio da natureza e de sua própria fraque­za, mas assim mes­mo habit­u­a­da e infor­ma­da por um espíri­to, que lhe con­fere o ter­rív­el priv­ilé­gio da liber­dade. Nada, pois, é mais im­portante do que tudo o que ocorre den­tro do uni­ver­so invisív­el, que é o espíri­to do homem. Ora, a luz desse uni­ver­so é o con­hec­i­men­to. De onde se con­clui que uma das condições exigi­das para a con­strução de um mun­do mais dig­no para o homem, ou para o adven­to de uma civ­i­liza­ção, é a vol­ta às fontes autên­ti­cas do conheci­mento: para saber­mos o que é o con­hec­i­men­to, qual é o val­or, quais são os seus graus, e como pode ele asse­gu­rar a unidade inte­ri­or do ser humano.” (Rai­son et Raisons, Egloff, Paris, 1947, págs. 11, 12.)

Ora, qual terá sido a colo­cação con­stante, se algu­ma hou­ve durante toda a Civ­i­liza­ção Oci­den­tal Mod­er­na, rel­a­ti­va à na­tureza do con­hec­i­men­to, ao seu val­or, aos seus graus, e qual terá sido a con­se­quên­cia cul­tur­al dessa colo­cação na inte­gração da unidade inte­ri­or do ser humano?

Deve­mos dividir o prob­le­ma em dois. No primeiro estão as posições tomadas, as for­mu­lações pro­fes­sadas pelas esco­las, pêlos sis­temas clara e con­scien­te­mente filosó­fi­cos; no segun­do estão as influên­cias absorvi­das, res­pi­radas por todos (com exceção de peque­na mino­ria que se defende, se opõe, mas assim mes­mo ain­da polar­iza seus atos por essas influên­cias), trans­for­madas cm híi­hiíos men­tais tro­ca­dos em miú­dos, e usadas sem clara t iii­is­dên­cia da posição ou da fil­i­ação filosó­fi­ca. Quan­do dize­mos que o Nom­i­nal­is­mo pesou forte­mente na C.O.M. quer­e­mos iüat duas coisas: a primeira é que os sis­temas e elab­o­rações filosó­fi­cas desse perío­do tiver­am esse caráter; a segun­da e prin­cipal é que nas con­ver­sas de esquina, nas famílias, nos encon­tros dos namora­dos, na admin­is­tração públi­ca, etc, se encon­tram critérios com aque­le incon­fundív­el cun­ho.

Cuidemos do primeiro prob­le­ma. A impressão que logo col­he­mos na história do pen­sa­men­to filosó­fi­co é descon­cer­tante. Rea­pare­cem as oscilações entre extremos que pare­cem incon­ciliáveis, e sobre­tu­do orig­i­na­dos de fontes diver­sas. Descartes se opõe a Locke e a Augus­to Comte, Berke­ley se opõe a Fichte. Hegel se opõe a Kieerkegaard e a toda a cor­rente existencia­lista; mas por out­ro lado, ess­es mes­mos que se opõem segun­do um dado critério se com­põem segun­do out­ro, e pas­sam a con­trariar aque­les com que antes con­cor­davam.

Em cer­to pon­to do estu­do podemos ser acometi­dos de uma crise de desân­i­mo, ou de um ataque de hilar­i­dade: parece que tudo o que é pos­sív­el diz­er de tudo já foi dito, e pos­to em indu­mentária de dout­ri­na por algum filó­so­fo.

Leitu­ra mais pau­sa­da e refleti­da nos indi­cará, ness­es qua­tro ou cin­co sécu­los, um fio con­du­tor, algu­mas con­stantes. Uma dessas, que parece traduzir um sen­ti­men­to de cul­pa, é a im­portância que todos pare­cem dar ao prob­le­ma do con­hec­i­men­to. Home­ns apaixon­ada­mente enga­ja­dos na vida de ação não esca­pam à regra.

Lenine: “A grande e fun­da­men­tal questão de toda a filo­sofia, e espe­cial­mente da filosofia mod­er­na, é a da relação entre o pen­sa­men­to e o ser. Qual será o ele­men­to pri­mordial, o espíri­to ou a natureza?” (Marx, Engels, Mar-xisme, pág. 15.)

Out­ra con­stante que se obser­va, rel­a­ti­va ago­ra ao val­or do con­hec­i­men­to, é o destaque que adquire a Críti­ca que, em al­guns casos, pas­sa a ser toda a filosofia. Já se disse de Kant que sua obra é a mon­u­men­tal intro­dução de uma obra que não foi escri­ta.

A ter­ceira nota, ref­er­ente des­ta vez aos graus do saber, é a posição sub­serviente em que se colo­ca a filosofia (pen­samos por exem­p­lo num Augus­to Comte) diante da ciên­cia pos­i­ti­va. Se voltar­mos ain­da a estu­dar a história do pen­sa­men­to filosó­fi­co mod­er­no, com redo­bra­da atenção, e prin­ci­pal­mente com a bús­sola de uma filosofia que pos­sa jul­gar as out­ras, em seus acer­tos e desac­er­tos, perce­ber­e­mos mais niti­da­mente que, debaixo da var­iedade e das con­tradições, há uma unidade de índole.

J. marechal, S. J.: “Diminuiríamos toda a filosofia mod­er­na se pre­tendêsse­mos tirá-la inteira, por dedução lóg­i­ca, do nom­i­nal­is­mo de Occam; nem pre­tendemos mes­mo que a epis­te­molo­gia do perío­do pré-kan­tiano — só a epis­te­molo­gia! — ten­ha tido essa fil­i­ação exclu­si­va. Muitos out­ros fatores entraram em jogo: restau­ração, mais ou menos exa­ta, das filosofias anti­gas; ino­vações pes­soais de ousa­dos pen­sadores; e aci­ma de tudo, talvez, a influên­cia da meto­dologia das ciên­cias indu­ti­vas e da matemáti­ca, em cons­tante pro­gres­so. Con­tu­do, por mais que se val­orizem essas influên­cias diver­sas, é pre­ciso recon­hecer que a filosofia mod­er­na, desen­vol­ven­do-se em um ter­reno pro­fun­da­mente tra­bal­ha­do pelo nom­i­nal­is­mo, adquir­iu assim uma cor epis­te­mológ­i­ca bas­tante acen­tu­a­da e bas­tante uni­forme para rev­e­lar, na colcha de retal­ho das Esco­las, uma unidade genéti­ca pro­fun­da.” (Lê Point de Départ de Ia Méta­phy-sique, Cahi­er I, Felix Alcan, 1927, pág. 196.)

Preferiríamos for­mu­lar a con­clusão em ter­mos um pouco difer­entes. Dizen­do “unidade genéti­ca” o autor sug­ere um pro­cesso de fil­i­ação, e se colo­ca deci­di­da­mente na per­spec­ti­va da causal­i­dade efi­ciente: as cor­rentes dos “nom­i­nais” do sécu­lo XIV estari­am a suprir dire­ta­mente os cro­mos­so­mos filosó­fi­cos do carte­sian­is­mo, do hegelian­is­mo, e das mais cor­rentes do pen­samento mod­er­no. Prefe­r­i­mos uma ati­tude mais isen­ta, a da causal­i­dade for­mal: aque­las cor­rentes apre­sen­tam simil­i­tudes, “iden­ti­dade de tendên­cias” que se expli­carão em parte por aque­la fil­i­ação, mas tam­bém em parte, e talvez na maior, pela coinci­dência neg­a­ti­va.

Explique­mo-nos mel­hor. Parece-nos um pouco desme­di­do, e até pueril, respon­s­abi­lizar Guil­herme Occam, diríamos mel­hor, hom­e­nagear esse medíocre filó­so­fo, com a respon­s­abil­i­dade de um desvio epis­te­mológi­co de cin­co sécu­los! Lem­bran­do o que dis­se­mos atrás dos home­ns rep­re­sen­ta­tivos, clas­si­fi­caríamos Durand de Saint Pourçain, Pierre Auri­ol e Guil­herme Occam, sem nen­hu­ma hes­i­tação, entre os pas­sivos e neg­a­tivos. É mais ampla e anôn­i­ma a causa da decadên­cia da escolás­ti­ca e da tor­rente nom­i­nal­ista que inun­dou o mun­do oci­den­tal pelas bre­chas da Renascença e da Refor­ma.

(í. fraille: “Oxford e Paris (no sécu­lo XIV) con­tin­u­am sendo as prin­ci­pais uni­ver­si­dades. Cresce o número de profes­sores e de alunos. Em 1406, só na Fac­ul­dade das Artes de Paris con­tavam-se mil pro­fes­sores e dez mil dis­cípu­los. Mas a decom­posição inter­na se acen­tua, o rig­or dos regu­lamentos se aten­ua, dimin­uem a inten­si­dade dos estu­dos e a seriedade das provas para a con­cessão dos graus acadêmi­cos, que até por din­heiro se obt­in­ham. Ao mes­mo tem­po, a mul­ti­pli­cação das uni­ver­si­dades em out­ros país­es con­tribuía para pri­var Paris de sua cat­e­go­ria cos­mopoli­ta. Muitos mestres aban­don­avam suas aulas para diri­gir-se a out­ros cen­tros que ofer­e­ci­am maiores van­ta­gens (…) Prevalece sobre todas as cor­rentes a chama­da via mod­er­no­rum, que invade quase todas as uni­ver­si­dades, e à qual aderem não poucos mem­bros de Ordens reli­giosas que aban­don­am suas próprias esco­las.” (His­to­ria de Ia Filo­sofia, II, B. A. C. 1960, pág. 1076.)

Na ver­dade, diz­er que em todas as uni­ver­si­dades dos fins do sécu­lo XIV se ensi­na­va o nom­i­nal­is­mo, é o mes­mo que diz­er que se desensi­na­va a filosofia. Mais adi­ante, quan­do focalizar­mos alguns prob­le­mas mais niti­da­mente filosó­fi­cos, ver­e­mos que o nom­i­nal­is­mo, e todas as cor­rentes derivadas, se car­ac­ter­i­zam por uma rup­tura onde hou­vera uma sín­tese labo­riosa e genial­mente con­struí­da pelos grandes escolás­ti­cos; ou se rev­ela como uma impotên­cia em con­traste com o vig­or daque­les; ou se denun­cia por uma ati­tude sim­pli­fi­cado­ra em con­traste com a cora­josa e gen­erosa de San­to Tomás. Invo­can­do uma regra boa — “non sunt mul­ti­pli­can­da entia sine neces­si­tate” — os seguido­res da via mod­er­no­rum não mul­ti­plicaram tam­bém as necessá­rias exigên­cias do estu­do filosó­fi­co. Bru­talizaram e vul­garizaram.

Cre­mos que sertà mel­hor diz­er que o nom­i­nal­is­mo, nos sé­culos XV e XVI, não era uma cor­rente filosó­fi­ca, era antes uma ati­tude de espíri­to, ou talvez isso que hoje chamam de ide­olo­gia. Para enten­der o fenô­meno no seu surg­i­men­to históri­co, e no ressurg­i­men­to ao lon­go da sub­se­quente história da filosofia, pre­cisamos com­preen­der que não bas­ta con­sid­er­ar a ati­tude dos nom­i­nal­is­tas em face do prob­le­ma dos uni­ver­sais, ou de qual­quer out­ra tese; tam­bém não bas­ta men­cionar o espíri­to críti­co, o ergo­tismo, o gos­to do mal­abaris­mo ver­bal, e out­ros peca­dos que o ar do sécu­lo XV ali­men­ta­va. Ape­sar das rivali­dades e dos torneios retóri­cos em que o doc­tor invin­ci­bilis, dis­cípu­lo do doc­tor sub­tilis,gosta­va de bril­har, não havia pro­priamente um sis­tema, ou uma esco­la. Mas essa coisa vaga que chamamos “esta­do de espíri­to” ou “ide­olo­gia” pro­duz­iu as mais amplas reper­cussões na políti­ca, na filosofia, na teolo­gia e na mís­ti­ca. A teolo­gia pas­sa a dis­pen­sar os serviços da filosofia. Não pre­cisa talvez da razão. Não poden­do estar pre­so a ne­nhuma obri­gação, Deus não pode­ria ficar ata­do nem às fórmu­las dog­máti­cas, nem aos pre­ceitos morais. Se quisesse, pode­ria Ele declarar que as tábuas de Moisés estavam super­adas, e con­se­qüen­te­mente pode­ria apon­tar como mer­itórios os atos que os anti­gos jul­gavam per­ver­sos e egoís­tas. E se quisesse — sim, por incrív­el que pareça, para eletrizar seus alunos de Oxford, e prin­ci­pal­mente para escan­dalizar os “inte­gris­tas” que ain­da es­tudavam San­to Tomás, o doc­tor invin­ci­bilis inven­tou esta va­riante para a Encar­nação: se Deus quisesse pode­ria ter encar­nado seu Ver­bo num bur­ro!

G. fraille: “San­to Tomás tin­ha real­iza­do a incor­po­ração da filosofia ao cris­tian­is­mo, e cri­a­do com isto a teolo­gia como ciên­cia no sen­ti­do rig­oroso do ter­mo. A razão e a fé, a filosofia e a teolo­gia, são coisas dis­tin­tas, mas podem se inte­grar har­môni­ca­mente em um tra­bal­ho comum, con­tribuindo para a expli­cação e pen­e­tração dos dog­mas da Fé. Esco­to, emb­o­ra formulando‑a de out­ro modo, ain­da man­terá a solução afir­ma­ti­va. Mas Guil­herme Occam ado­tará ante esse prob­le­ma uma ati­tude deci­di­da­mente ne­gativa. A teolo­gia não é ciên­cia, e não há pos­si­bil­i­dade nen­hu­ma de con­cil­i­ação entre os dois cam­pos, o da razão e o da Fé. Nes­ta ati­tude estão impli­ca­dos todas as teses do nom­i­nal­is­mo: sua teo­ria do con­hec­i­men­to, sua dout­ri­na dos con­ceitos uni­ver­sais, sua ideia de ciên­cia. E assim se com­preen­dem os múlti­p­los desvios, aparente­mente contra­ditórios, que resul­tam do maior ou menor uso de seus princí­pios. Assim ver­e­mos como, debaixo da mes­ma ampla denom­i­nação, cabem as ativi­dades mais dis­crepantes: crit­i­cis­mo, fideís­mo, empiris­mo, racional­is­mo, ceti­cis­mo, indifer­en­tismo reli­gioso e mist­i­cis­mo.” (Op. cit. 1078–79.)

Com as car­ac­terís­ti­cas neg­a­ti­vas aci­ma apon­tadas, poderíamos diz­er que o nom­i­nal­is­mo é uma espé­cie de avi­t­a­minose ou de carên­cia, ou que é o modo invar­iáv­el de a filosofia adoe­cer, desen­ga­nar-se e mor­rer. Sem neces­si­dade nen­hu­ma de fil­i­ação históri­ca, de conexão genéti­ca, em qual­quer lugar iso­la­do do mun­do, ou em qual­quer plan­e­ta, onde não sur­gisse um San­to Tomás, seus grandes dis­cípu­los, comen­ta­dores e con­tin­u­adores, sem neces­si­dade nen­hu­ma tam­bém de algum doc­tor invin­ci­bilis, a tendên­cia ger­al da medioc­ridade filoso­fante pro­duziria coisa pare­ci­da com o que chamamos nom­i­nal­is­mo. Se na con­jun­tu­ra imag­i­na­da acres­cen­tásse­mos a situ­ação de decadên­cia em rela­ção a um está­gio ante­ri­or, e a cor­rupção ger­al da cul­tura e das ativi­dades int­elec­tu­ais, e por cima dis­to tudo uma erupção de mod­ernismo, então o sur­to da medioc­ridade filoso­fante teria a vir­ulên­cia que obser­va­mos na alvo­ra­da da nova civ­i­liza­ção.

Cre­mos que o caso con­cre­to da situ­ação filosó­fi­ca nos sécu­los XV e XVI, e o que acon­te­ceu depois, se expli­ca por causas endó­ge­nas em inter­ação com agentes exógenos. A tendên­cia nat­ur­al do desmoron­a­men­to cul­tur­al, ou da entropia cres­cente no domínio da filosofia, foi acel­er­a­da pêlos agentes pro­gressistas da época que ale­gre­mente depredaram uma cul­tura fi­losófica que era um dos mais pre­ciosos tesouros da humanidade. Ê ver­dade que, como obras feitas, não se perder­am as jóias desse tesouro. E até podemos diz­er que ain­da hoje, numa ci­vilização nom­i­nal­ista até à medu­la dos ossos, é comum encon­­trar-se na casa de um ami­go alguns vol­umes da Suma Teológ­i­ca. Na coleção dos Great Booksorga­ni­za­da por Mor­timer Adler lá está a obra de San­to Tomás, e em vão procu­raremos qual­quer obra de Guil­herme Occam.

A obra de San­to Tomás, e a cor­rente aris­totéli­co-tomista é a úni­ca que atrav­es­sa os sécu­los e sem­pre tem estu­diosos. Mas a influên­cia civ­i­liza­cional deslo­cou-se, a atmos­fera con­t­a­minou-se com a radioa­t­ivi­dade da explosão atómi­ca dos sécu­los XIV e XV. E esse é o pon­to que nos inter­es­sa espe­cial­mente neste tra­balho. Para enten­der­mos mel­hor as suas dimen­sões e o seu alcance, deve­mos estu­dar um pouco mais de per­to o prob­le­ma filosó­fi­co pro­pri­a­mente dito. São inevi­tavel­mente árd­uas as pá­ginas em que tentare­mos resumir os pon­tos prin­ci­pais, pelo que, ped­i­mos ao leitor um reforço de paciên­cia e de atenção.