O CULTO DA DIFAMAÇÃO, POR GUSTAVO CORÇÃO


No category / quinta-feira, março 10th, 2016

 

DOIS AMORES, DUAS CIDADES

GUSTAVO CORÇÃO

Uma cul­tura que exal­ta a glória, e a fama, como os mais altos val­ores, nec­es­sari­a­mente pro­duzirá o val­or da difamação, da sáti­ra e da iro­nia. Se há muitos que se pavoneiam, muitos haverá que se riam. Se abun­dam os que bus­cam lou­vores, abun­darão tam­bém os vitupérios e as maledicên­cias; e onde a fama é procu­ra­da, a difamação é ven­di­da. Surgem na Renascença os profis­sion­ais da lison­ja ou da difamação con­forme a encomen­da e o preço. Pietro Aretino pode bem ser o patrono da impren­sa mar­rom, ou dos chan­tag­is­tas de todos os tem­pos.

BURCKHARDT: “Aretino apre­sen­ta o primeiro caso em que a pub­li­ci­dade é uti­liza­da de maneira abu­si­va e em grandes pro­porções para servir fins tão indig­nos. Não menos infames, por sua intenção, e pelo tom em que estão reduzi­dos, são os escritos polêmi­cos que cem anos antes havi­am tro­ca­do entre si Pog­gio e seus adver­sários, mas a difer­ença reside no fato de não serem ess­es escritos des­ti­na­dos a impren­sa, e sim, ape­nas, uma pub­li­ci­dade clan­des­ti­na ou semi­clan­des­ti­na. Aretino, ao con­trário, faz negó­cios com a pub­li­ci­dade mais com­ple­ta e abso­lu­ta. De cer­to modo pode ser con­sid­er­a­do um dos pre­cur­sores do jor­nal­is­mo mod­er­no”. La Cul­tura del Renasci­men­to em Itália, Ed. Escelicer, Madri, 1941, pg 106)

Mais adi­ante o mes­mo autor acres­cen­ta que toda Itália se con­vert­era numa esco­la de maledicên­cia como jamais se vira igual, ou mes­mo se verá na França de Voltaire.