P. LE FLOCH: O CARDEAL BILLOT SOBRE O LIBERALISMO


Teologia / sexta-feira, março 11th, 2016

 Padre Hen­ri Le Floch
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

Resumo da dout­ri­na do cardeal Bil­lot sobre o erro do lib­er­al­is­mo e as suas diver­sas for­mas, segun­do a exposição do trata­do sobre a Igre­ja.

O lib­er­al­is­mo em matéria de fé e de religião é uma dout­ri­na que pre­tende eman­ci­par o homem, mais ou menos, de Deus, da sua lei, e da sua rev­e­lação, e de eman­ci­par tam­bém a sociedade civ­il de qual­quer dependên­cia reli­giosa, da Igre­ja, tuto­ra, intér­prete e mes­tra da lei rev­e­la­da por Deus.

A eman­ci­pação de Deus, fim ulti­mo do homem e da sociedade, é o quan­to antes de tudo persegue. E, para alcançar-lhe, fixa como primeiro princí­pio a liber­dade o bem fun­da­men­tal do homem, bem sacro e intangív­el, que não é abso­lu­ta­mente per­mi­ti­do vio­lar com qual­quer tipo de coação; por isso, está liber­dade sem lim­ites deve ser a pedra imóv­el sobre a qual se orga­ni­zarão todos os ele­men­tos das relações entre os home­ns, a nor­ma imutáv­el segun­do a qual serão jul­gadas todas as coisas do pon­to de vista do dire­ito; então, será equân­ime, jus­to e bom, o quan­to em uma sociedade, tiv­er como base o princí­pio da liber­dade indi­vid­ual invi­o­la­da; iníquo e per­ver­so todo o restante. Este é o pen­sa­men­to da rev­olução de 1789, rev­olução de que o mun­do inteiro ain­da col­he os fru­tos amar­gos. Este é o obje­to com­ple­to da Declar­ação dos dire­itos do homem, da primeira à últi­ma lin­ha. Este, para os ideól­o­gos, o pon­to de par­ti­da necessário para a reed­i­fi­cação com­ple­ta da sociedade no cam­po políti­co, no cam­po econômi­co, e sobre­tu­do no cam­po moral e reli­gioso.

O trata­do críti­ca, antes de qual­quer coisa, o princí­pio ger­al do lib­er­al­is­mo, con­sid­er­a­do em si mes­mo e nas suas múlti­plas apli­cações. Depois tra­ta do lib­er­al­is­mo reli­gioso e das suas diver­sas for­mas  (pp. 19–20).

Em um mag­ní­fi­co preâm­bu­lo, em que se ele­va a altura de San­to Agostin­ho no De Civ­i­tate Dei e de Bossuet no Dis­cours sur l’His­toire uni­verselle, e que se con­cen­tra na expli­cação e na apli­cação da pro­fe­cia de Daniel a Nabu­codonosor, Padre Bil­lot anún­cia que seguirá, tratan­do do lib­er­al­is­mo, os poderosos espíri­tos do Sécu­lo XIX que lutaram con­tra a per­ver­si­dade dos princí­pios da Rev­olução, J. de Maistre, de Bonald, Ket­tel­er, Veuil­lot, Le Play, o Cardeal Pie, Lib­er­a­tore, etc. E lhe cita no cur­so da sua exposição. E com eles cita Charles Mau­r­ras, de quem apre­ci­a­va a refu­tação do lib­er­al­is­mo em cam­po filosó­fi­co, políti­co e econômi­co.

Os lim­ites que esta­b­ele­ce­mos nos per­mitem, nes­ta sede, apre­sen­tar ape­nas o esquele­to do raciocínio deste estu­do, deixan­do a parte todo o esplen­dor do desen­volvi­men­to, que pode­ria ser entre­vis­to ape­nas com uma tradução com­ple­ta.

ARTIGO I
Enun­ci­ação e críti­ca do princí­pio fun­da­men­tal do lib­er­al­is­mo (pg 21–43)

O princí­pio fun­da­men­tal do lib­er­al­is­mo é a liber­dade de toda e qual­quer coação, não ape­nas daque­la exerci­ta­da com a vio­lên­cia, e que diz respeito ape­nas aos atos exter­nos, mas tam­bém da coação que provém do temor da lei e das penas, das dependên­cias e das neces­si­dades soci­ais, em uma palavra, dos lig­ames de qual­quer gênero que impe­dem ao homem agir segun­do a sua incli­nação nat­ur­al. Para os lib­erais, esta liber­dade indi­vid­ual é o bem por excelên­cia, o bem fun­da­men­tal, invi­o­láv­el, ao qual tudo deve ced­er, a exceção, talvez, do quan­to é requeri­do da ordem pura­mente mate­r­i­al da cidade; a liber­dade é o bem ao qual todo o resto é sub­or­di­na­do; é o fun­da­men­to necessário de toda con­strução social con­forme a equidade e ao bem.

PARÁGRAFO I.
Críti­ca deste princí­pio em si mes­mo

Este princí­pio fun­da­men­tal do lib­er­al­is­mo é absur­do, con­tra a natureza e quiméri­co (pg 22–30).
1. Absur­do (Incip­it ab absur­do), enquan­to pre­tende que o bem prin­ci­pal do homem este­ja na ausên­cia de qual­quer lig­ame capaz de entravar ou lim­i­tar a sua liber­dade. O bem do homem, de fato, deve ser con­sid­er­a­do ou como um fim ou como um meio para alcançar este fim. Ora, a liber­dade não pode ser um fim em si e o sumo fim, porque não é out­ro que um poder ou potên­cia oper­a­ti­va, porque todo poder ou potên­cia é em vista da oper­ação, e porque toda oper­ação, nes­ta vida, con­siste com­ple­ta­mente na per­se­cução de um bem real ou aparente. Então, a liber­dade não pode ser para o homem o seu bem con­sid­er­a­do como um fim. De out­ra parte, essa não é nem sequer um bem con­sid­er­a­do como um meio para alcançar a um bom fim, se não com a condição de ser con­ti­da por cer­tos freios, e esta é a ruí­na pura e sim­ples do princí­pio do lib­er­al­is­mo… ao menos em admi­tir ou que a liber­dade, na vida pre­sente, é infalív­el, ou que pre­cisa sem­pre deixa-la faz­er, qual­quer que sejam os seus defeitos. 
2. Con­tra a natureza (in ea pro­gred­i­tur quae evi­den­tiori nat­u­rae inten­tioni con­traria sunt), enquan­to pre­tende que tudo deva ced­er o pas­so ao bem da liber­dade indi­vid­ual, que as neces­si­dades soci­ais mul­ti­plicaram os obstácu­los a esta liber­dade, e que o regime ide­al para o homem é aque­le em que reine a lei do abso­lu­to e per­feito indi­vid­u­al­is­mo; porque este indi­vid­u­al­is­mo é abso­lu­ta­mente con­trário a natureza humana. De fato, se existe uma coisa evi­dente e man­i­fes­ta, é que a condição social é a lei da vida humana, como o provam a neces­si­dade da sua própria existên­cia cor­po­ral. «Aos out­ros ani­mais, a natureza preparou ali­men­to, ves­ti­men­to de pelo, meios de defe­sa, como os dentes, os chifres, as unhas, ou ao menos a rapi­dez na fuga.  O homem, invés dis­so, se encon­trou cri­a­do sem que da natureza lhe ten­ha sido forneci­do nada de sim­i­lar; mas, em tro­ca, foi provi­do de razão que o colo­ca em condição de preparar todas estas coisas com as suas mãos; e já que um homem soz­in­ho não é capaz de preparar tudo, e se fos­se soz­in­ho não saberia asse­gu­rar nem sequer a si mes­mo os bens que lhe per­mitem man­ter-se em vida, lhe segue que, por natureza, o homem deve viv­er em sociedade. Além dis­so, em todos os out­ros ani­mais é imi­ta uma nat­ur­al capaci­dade em dis­cernir quan­to é a eles útil ou noci­vo. Assim, o cordeiro sente instin­ti­va­mente no lobo um inimi­go. Por uma capaci­dade análo­ga cer­tos ani­mais sabem dis­tin­guir nat­u­ral­mente as plan­tas cura­ti­vas e tam­bém o quan­to é necessário a eles para viv­er.
«O homem, invés dis­so, con­hece aqui­lo de que pre­cisa para viv­er, mas ape­nas em ger­al. Assim, com a sua razão pode alcançar, através dos princí­pios uni­ver­sais, o con­hec­i­men­to das coisas par­tic­u­lares necessárias a sua vida. Mas não é pos­sív­el a um homem, soz­in­ho, atin­gir com a sua própria razão todas as coisas des­ta ordem. E então, necessário que os home­ns vivam jun­tos, para aju­darem uns aos out­ros, para dedi­carem-se a pesquisas diver­sas em relação com a diver­si­dade dos seus tal­en­tos: um, por exem­p­lo, a med­i­c­i­na, um out­ro a isto e um out­ro aqui­lo.  S . Tom­ma­so, De regimine prin­cipum, libro I, cap. I).
    O insen­sati sophis­tae, escreve Padre Bil­lot, uis vos ita demen­tavit, ut ad nat­u­ram con­tin­uo appel­lantes, con­tra nat­u­ram talia et tam enormia pec­cetis?», «Ó sofis­tas insanos, quem vos fez sair da razão, que, emb­o­ra chaman­do-lhes con­tin­u­a­mente a natureza, pecais tan­to e assim grande­mente con­tra a natureza?».
3. Quiméri­co
1º Porque não com­bi­na em nen­hum modo com a real­i­dade:
Supõe, na origem da sociedade um pacto social. Onde o viu?
Supõe o livre ingres­so de qual­quer um na sociedade. E ain­da mais rig­oroso.
Supõe que todos os home­ns são feitos exata­mente sobre o mes­mo mod­e­lo — abso­lu­ta­mente iguais -, o homem abstra­to repro­duzi­do mil­hões de vezes sem notas indi­vid­u­antes. Onde está? «Apli­cais o con­tra­to social, se  vos parece bom, mas apli­cai-lo somente aos home­ns para os quais ele foi fab­ri­ca­do. São home­ns abstratos que não per­tencem a nen­hum tem­po e a nen­hum país, emb­o­ra enti­dades flo­resci­das da batu­ta metafísi­ca» (Taine, La Révo­lu­tion, tomo I, libro II, cap. II).
2º porque tende a destru­ir dire­ta­mente aqui­lo que quer pro­te­ger: a liber­dade indi­vid­ual. 
Se a coisa é evi­dente no caso das mino­rias, tiranizadas pelo número, não é menos cer­ta para a maio­r­ia, que se deix­am con­duzir, não pelo «juí­zo autônomo de qual­quer um dos seus mem­bros, mas pelos agi­ta­dores, pelos vio­len­tos, das oli­gar­quias nasci­das do indi­vid­u­al­is­mo, que  as sub­jugam e que se lhe servem como de um instru­men­to de domínio com o fim de seus inter­ess­es pri­va­dos e da sua ambição» (pg. 29–30).

PARÁGRAFO II
Críti­ca do princí­pio nas suas apli­cações as coisas humanas.

É pre­ciso notar que ele não é aplicáv­el inte­gral­mente (o mal inte­gral não existe), mas que, na medi­da em que é apli­ca­do, com­por­ta duas con­se­quên­cias:

1º A desagre­gação e a dis­solução de qual­quer organ­is­mo social, a supressão de qual­quer sociedade menor, nat­ur­al ou conat­ur­al, dis­tin­ta do Esta­do ou que não rece­ba desse a sua lei, oper­ante no cam­po domés­ti­co, naque­le econômi­co e naque­le políti­co.
Isto se pro­va:
a) A pri­ori, o indi­vid­u­al­is­mo lib­er­al per­mite a existên­cia de uma só sociedade: aque­la que é deriva­da do con­tra­to social.
b) A pos­te­ri­ori, com a guer­ra fei­ta em primeiro lugar a família (é a «delen­da Cartha­go» dos rev­olu­cionários), da qual se destru­iu pro­gres­si­va­mente o fun­da­men­to, isto é o matrimônio (com a insti­tu­ição do con­tra­to civ­il, depois do divór­cio, em espera da união livre), e ao memo tem­po a autori­dade (com a supressão da liber­dade tes­ta­men­tária, da liber­dade de ensi­na­men­tos e através das leis de sucessão); com a guer­ra fei­ta, em segun­do lugar, e com um suces­so com­ple­to no primeiro golpe, as cor­po­rações, com o pre­tex­to de pro­te­ger a liber­dade indi­vid­ual. Esta «liber­dade do tra­bal­hador gera a pra­ga da sociedade mod­er­na, o pro­le­tari­a­do, isto é a existên­cia de uma classe numerosa pri­va­da de qual­quer pro­priedade e que vive em um cer­to sen­ti­do em um esta­do de indigên­cia hered­itária» (Le Play, Réforme sociale, tomo I).

2º A con­sti­tu­ição de um Esta­do despóti­co, abso­lu­to, irre­spon­sáv­el, que extingue todas as liber­dades reais e absorve todos os dire­itos, sem que exista algum lim­ite a sua onipotên­cia e ao seu arbítrio. 
 «Como os órgãos do cor­po físi­co não são as molécu­las e os áto­mos, mas as artic­u­lações e os mem­bros, do mes­mo modo os órgãos do cor­po social não são os indi­ví­du­os, ma a família, a cor­po­ração e a cidade. Se lhe supo­mos des­or­ga­ni­zadas no seu próprio organ­is­mo, lhe deri­va nat­u­ral­mente que todas as liber­dades reais desa­pare­cem. A razão dis­to é evi­dente: sobre estas mon­adas dis­so­ci­adas do indi­vid­u­al­is­mo, per­manece ape­nas este enorme colos­so con­sti­tuí­do pelo Esta­do onívoro, que, ten­do desaba­do debaixo dele cada orga­ni­za­ção e cada autono­mia, absorve em si toda força, toda potên­cia, todo dire­ito, toda autori­dade e se tor­na o úni­co admin­istrador, procu­rador, insti­tu­idor, pre­cep­tor, edu­cador e tutor em espera de se tornar o úni­co pro­pri­etário e pos­ses­sor. E que coisa lhe resul­ta, de graça, se não uma mon­stru­osa escravidão?» (pp. 35–36). 

PARÁGRAFO III
A respeito da religião, o princí­pio do lib­er­al­is­mo essen­cial­mente anti-reli­gioso (pg. 38–43).

Esse se ergue dire­ta­mente con­tra Deus. Persegue com­ple­ta­mente a destru­ição do cul­to de Deus, da religião de Deus, da lei de Deus, e tam­bém da noção de Deus, com o pre­tex­to de sal­va­guardar a liber­dade em cam­po politi­co e econômi­co.
1. Pro­va a pos­te­ri­ori: a história da Rev­olução France­sa, a qual car­ac­terís­ti­ca é aque­la de ser «satâni­ca na sua essên­cia» (de Maistre, Du Pape, Dis­cor­so pre­lim­inare). O lib­er­al­is­mo é o grande princí­pio da Rev­olução France­sa.
2. Pro­va a pri­ori: Deus e Nos­so Sen­hor Jesus Cristo con­stituem o grande obstácu­lo e a liber­dade rev­olu­cionária e ao despo­tismo do Esta­do, seu corolário. A tal pon­to que a destru­ição de Deus, do seu cul­to, da sua religião, da sua lei, do seu nome e do seu con­ceito, não é ape­nas um arti­go do pro­gra­ma, mas o próprio pro­gra­ma e o fim ao qual todo resto é orde­na­do como meio. «O pre­tex­to é a liber­dade, o códice é o con­tra­to social, o meio é a dem­a­gogia; mas a razão ulti­ma é a con­sti­tu­ição de um Esta­do ateu e enorme, arbi­tro supre­mo de todos os dire­itos, dita­dor onipresente do jus­to e do injus­to, do líc­i­to e do veta­do, graças ao qual são aboli­dos para sem­pre o nome e o cul­to infame a Deus. É a isto a que tudo é dirigi­do, a que todo o resto é orde­na­do como meio: e a destru­ição da família, e a destru­ição da cor­po­ração, e a destru­ição da liber­dade tan­to munic­i­pal quan­to provin­cial, de modo que, enfim, per­maneça em pé ape­nas a potên­cia do Esta­do ímpio, fora do qual ninguém poderá, sobre toda a ter­ra, mover uma mão ou um pé» (pp. 41–42). «Nós quer­e­mos orga­ni­zar uma humanidade que pos­sa pre­scindir de Deus» (Jules Fer­ry). «A par­tir da Rev­olução esta­mos em revol­ta con­tra a autori­dade div­ina e humana, com a qual, com um só golpe, reg­u­lam­os um ter­rív­el pro­je­to em 21 de de janeiro de 1793» (Clemenceau).

ARTIGO II
As diver­sas for­mas do lib­er­al­is­mo em matéria reli­giosa (pg. 44–63)

Seguin­do o Padre Lib­er­a­tore (cfr. La Chiesa e lo Sta­to), se podem recon­duzir a três: o lib­er­al­is­mo abso­lu­to, o lib­er­al­is­mo mod­er­a­do e o lib­er­al­is­mo que se pode­ria chamar o lib­er­al­is­mo dos católi­cos lib­erais. As três for­mas tem em comum o quer­er eman­ci­par a ordem civ­il da ordem reli­giosa, isto é o Esta­do da Igre­ja. Mas a primeira for­ma quer o domínio do Esta­do sobre a Igre­ja; a segun­da, a ple­na inde­pendên­cia do Esta­do a respeito da Igre­ja, e da Igre­ja a respeito do Esta­do; quan­to a ter­ceira, tam­bém ela bus­ca esta inde­pendên­cia, não como uma ver­dade de dire­ito, mas como, em práti­ca, a mel­hor condição de existên­cia e de vida.

PARÁGRAFO I.
Lib­er­al­is­mo abso­lu­to

A primeira for­ma do lib­er­al­is­mo, o lib­er­al­is­mo abso­lu­to, leva ao mate­ri­al­is­mo e ao ateís­mo (pg. 44–48).
Con­cebe o Esta­do como a potên­cia mais ele­va­da a qual é dada a humanidade de poder crescer em seu pro­gres­so social. Não só o Esta­do não tem nada aci­ma de si, mas não tem nada que a ele se iguale ou que a ele não seja sub­meti­do. É a potên­cia supre­ma e uni­ver­sal, a qual nada pode resi­s­tir, a qual tudo deve obe­de­cer. 
Esta é a teo­ria que rege, mais ou menos, as con­sti­tu­ições mod­er­nas da Europa, nasci­das da Declar­ação dos dire­itos do homem. Não só a Igre­ja perdeu toda proem­inên­cia a respeito do Esta­do, ela não tem nem sequer mais o seu caráter de sociedade per­fei­ta e inde­pen­dente. 
Ora, esta é a negação implíci­ta da espir­i­tu­al­i­dade e da imor­tal­i­dade da alma; em últi­ma análise, é mate­ri­al­is­mo. O Esta­do, de fato, pode ser con­ce­bido como potên­cia supre­ma somente com a condição de recon­duzir todo o des­ti­no do homem a sua vida orgâni­ca e mate­r­i­al.
Além dis­so, existe a negação de Deus; de fato, se Deus existe, é pre­ciso recon­hecer abso­lu­ta­mente que é o patrão supre­mo e o leg­is­lador uni­ver­sal; é pre­ciso recon­hecer que a regra supre­ma da ação, seja na vida pri­va­da que naque­la públi­ca, são os princí­pios imutáveis da moral impres­sas por Deus na alma humana, e não o Esta­do, nem a opinião públi­ca; é pre­ciso recon­hecer, enfim, que os poderes mais ele­va­dos tem só um dire­ito sub­or­di­na­do de coman­dar, assim que gov­er­nam os povos segun­do a von­tade de Deus, a qual são primeira­mente sub­mis­sos.

PARÁGRAFO II.
Lib­er­al­is­mo mod­er­a­do

O lib­er­al­is­mo mod­er­a­do quer a eman­ci­pação da ordem civ­il em respeito a ordem reli­giosa, do Esta­do a respeito da Igre­ja, assim que o domínio do Esta­do e aque­la da Igre­ja são con­sid­er­a­dos com­ple­ta­mente sep­a­ra­dos e sep­a­ráveis, e a Igre­ja e o Esta­do são con­sid­er­a­dos nos seus respec­tivos domínios como ple­na­mente inde­pen­dentes.
Um tal sis­tema, já abun­dan­te­mente inco­er­ente, é:
a) prati­ca­mente irre­al­izáv­el;
b) teori­ca­mente absur­do. Se reduz, se não a um ateís­mo for­mal, ao menos a um maniqueís­mo cer­to, a um dual­is­mo absur­do, seja con­sideran­do o próprio homem que con­sideran­do o princí­pio e o fim do homem. 
1) Con­sideran­do o princí­pio e o fim do homem: de fato, se existe para o homem um só princí­pio e um só fim, este princí­pio e este fim: ou o Esta­do (e recaí­mos no lib­er­al­is­mo abso­lu­to), ou Deus (e aqui esta­mos no catoli­cis­mo).
2) Con­sideran­do o homem: de fato, esta sep­a­ração abso­lu­ta do civ­il e do reli­gioso supõe nele duas almas, dois espíri­tos e duas con­sciên­cias. Se existe só uma alma, um espíri­to e uma con­sciên­cia, existe nec­es­sari­a­mente sub­or­di­nação do civ­il ao reli­gioso ou do reli­gioso ao civ­il.
Livre Igre­ja no livre Esta­do, é a fór­mu­la do lib­er­al­is­mo mod­er­a­do. «Mais nen­hu­ma aliança entre a Igre­ja e o Esta­do: a Igre­ja não ten­ha mais nada em comum com os gov­er­nos, os gov­er­nos não ten­ham mais nada em comum com a religião, não se mis­ture mais nos respec­tivos negó­cios. A pes­soa pro­fesse a seu modo o cul­to que escol­he segun­do o seu gos­to; como mem­bro do Esta­do não tem um cul­to próprio. O Esta­do recon­hece todos os cul­tos, asse­gu­ra a todos uma igual pro­teção, garante a eles uma igual liber­dade; isto é regime de tol­erân­cia; e é con­ve­niente que o proclamem­os bom, exce­lente, salu­tar, que o con­serve­mos a todos os cus­tos, que o ofer­eçamos con­stan­te­mente». Isto é o que Louis Veuil­lot chamou a Ilusão lib­er­al.
Mas quer­er que o fim da cidade e o fim da religião sejam diver­gentes, quer­er que os poderes encar­rega­dos de gov­ernar a per­se­cução de um e de out­ro fim sejam sep­a­ra­dos, sig­nifi­ca, implici­ta­mente, negar a unidade do princí­pio primeiro do mun­do e afir­mar que existe um cri­ador das coisas espir­i­tu­ais e um cri­ador das coisas tem­po­rais; que existe um deus que dirige o homem para a vida civ­il, e um deus que o dirige a vida reli­giosa; em uma palavra, que é necessário admi­tir, com os maniqueus, dois princí­pios, opos­tos um ao out­ro.
Da out­ra parte, o lib­er­al­is­mo mod­er­a­do, sep­a­ran­do a ordem civ­il da ordem reli­giosa, sep­a­ra o cidadãos do cristão, o filó­so­fo do crente, o homem públi­co do homem pri­va­do, o politi­co do fiel, e lhe sep­a­ra, não como dois belig­er­antes de que um quer a morte do out­ro, mas como dois viz­in­hos, do qual qual­quer um segue a própria via, do qual qual­quer um, ao mes­mo tem­po e reg­u­lar­mente, cumpre o seu dev­er, como se fos­se movi­do todos os dois por coisas diver­gentes e con­trárias de motores sep­a­ra­dos. Quem não vê que tal con­cepção é pos­sív­el ape­nas com a condição de supor em um só e mes­mo homem duas almas, um dúplice espíri­to, duas con­sciên­cias real­mente dis­tin­tas ira deles, o uma ateia, o out­ra reli­giosa, o uma crente, o out­ra incré­du­la, o uma aten­ta as coisas tem­po­rais sem relação algu­ma com as coisas espir­i­tu­ais; o out­ro aten­ta as coisas espir­i­tu­ais e como exis­tente fora deste mun­do, no mun­do da lua; o uma que serve César e a out­ra que serve Deus?
Enfim, de qual­quer modo que se con­ce­ba esta inde­pendên­cia recíp­ro­ca dos dois poderes, ou esta função da livre Igre­ja no livre Esta­do, se cai em um novo maniqueís­mo que, absur­do do pon­to de vista teóri­co, é na práti­ca impos­sív­el. Como imag­i­nar que dois motores podem ser nor­mal­mente apli­ca­dos a um só e mes­mo móv­el, sem que exista entre eles qual­quer sub­or­di­nação? Só a sub­or­di­nação per­mite evi­tar o movi­men­to con­trário e de man­ter a necessária unidade de direção. Os lib­erais mod­er­a­dos se lhe são bem fei­ta a con­ta, e se virão con­stri­tos a admi­tir ou a sub­or­di­nação do Esta­do a Igre­ja, ou a sub­or­di­nação da Igre­ja ao Esta­do; ora, não pud­er­am aceitar a sub­or­di­nação do Esta­do a Igre­ja, porque teria sig­nifi­ca­do renun­ciar ao princí­pio essen­cial e primeiro do lib­er­al­is­mo; con­stri­tos pela neces­si­dade, e não poden­do man­terem-se neste equi­líbrio de inde­pendên­cia recíp­ro­ca, tem então, como o lib­er­al­is­mo abso­lu­to, pos­to a Igre­ja sob a dependên­cia e o poder do Esta­do, todas as vezes que, a juí­zo deste mes­mo Esta­do, um fim politi­co ou um inter­esse tem­po­ral parece exigi-lo.«A sociedade reli­giosa, dizia Por­tal­is (Dis­cours et travaux inédits), tin­ha que recon­hecer na sociedade civ­il, mais anti­ga, mais poderosa, e da qual viria a faz­er parte, a autori­dade necessária para asse­gu­rar a união, e o sober­a­no per­maneceu patrão de faz­er prevale­cer o inter­esse do Esta­do em todos os pon­tos dis­ci­pli­nares em que se encon­tra mis­tu­ra­do».

PARÁGRAFO III.
Lib­er­al­is­mo dos «católi­cos lib­erais»

Con­siste na eman­ci­pação da ordem civ­il em respeito a ordem reli­giosa, do Esta­do a respeito da Igre­ja, con­sid­er­a­da não como uma ver­dade de dire­ito, mas como ofer­ta, na práti­ca, de um exce­lente «modus viven­di».
O lib­er­al­is­mo dos católi­cos lib­erais escapa de qual­quer clas­si­fi­cação, e tem só uma nota dis­tin­ti­va e car­ac­ter­i­zante, aque­la de uma per­fei­ta e abso­lu­ta inco­erên­cia (pg. 55–63).
a) Esta inco­erên­cia é evi­dente no próprio ter­mo «católi­co lib­er­al», do momen­to que lib­er­al impli­ca «eman­ci­pação», católi­co impli­ca «sub­mis­são».
b) E não menos evi­dente na oposição que os seus par­tidários põem entre princí­pios e práti­ca (os princí­pios, que pre­ten­dem aceitar, são somente regras práti­cas de ação, que recusam pre­cisa­mente admi­tir). O mes­mo acon­tece na oposição entre con­veniên­cia de dire­ito e util­i­dade de fato, por exem­p­lo da colab­o­ração da Igre­ja e do Esta­do, do qual admitem de dire­ito a con­veniên­cia e do qual negam de fato a util­i­dade.
Com a inco­erên­cia, se pode dar como nota do catoli­cis­mo lib­er­al a mania das con­fusões, por exem­p­lo entre tol­erân­cia e aprovação.
A pro­va des­ta afir­mação se pode tirar antes de tudo do próprio nome católi­co lib­er­al. O católi­co, de fato, pro­fes­sa que o homem foi cri­a­do para este fim:  lou­var o Sen­hor, hon­rá-lo, servi-lo segun­do a von­tade div­ina, e assim sal­var a própria alma; que tudo neste mun­do não tem out­ra razão de ser que aque­la de aju­da-lo a realizar este fim;que con­se­quente­mente é pre­ciso colo­car  de lado a pros­peri­dade na vida pre­sente, se si pode obter, ape­nas com a per­da da própria alma; é pre­ciso faz­er da vida pre­sente uma preparação para a vida futu­ra; é pre­ciso sub­or­di­nar os bens tem­po­rais aos bens eter­nos; é pre­ciso, então, que o poder que pre­side as coisas tem­po­rais seja sub­mis­so ao poder supe­ri­or encar­rega­do por Deus, com a promes­sa de uma assistên­cia per­pé­tua, de procu­rar o fim eter­no. Ora, o lib­er­al é lig­a­do aos imor­tais princí­pios de 1789, e o princí­pio rev­olu­cionário por excelên­cia, disse Louis Veuil­lot (cfr. Illu­sion libérale, par. 33), «é isto que a edu­cação rev­olu­cionária dos con­ser­vadores de 1848 chama a sec­u­lar­iza­ção da sociedade; é isto que a fran­queza rev­olu­cionária do Siè­cle, dos Sol­idaires e do sen­hor Quinet, chama bru­tal­mente a expul­são do princí­pio teocráti­co; é a rup­tura com a Igre­ja, com Jesus Cristo, com Deus, com todo recon­hec­i­men­to, com toda ingerên­cia, e com todo desa­parec­i­men­to da ideia de Deus na sociedade humana».
Esta afir­mação é con­fir­ma­da tam­bém pelo exame das razões ado­tadas pelos católi­cos lib­erais.
Eles dis­tinguem entre os princí­pios abstratos e a sua apli­cação: recon­hecem, cer­ta­mente, a união e a sub­or­di­nação necessária entre os poderes; mas, dizem, out­ro é o obje­to da espec­u­lação, out­ro quan­to se real­iza em con­cre­to, assim, difer­ente das condições da teo­ria. Deste modo, pen­sam ter sat­is­feito a ver­dade, relegando‑a ao mun­do das abstrações. Mas estes princí­pios, ditos abstratos, con­sideran­do ou não a moram, con­stituem a nor­ma dos atos humanos e a regra da boa oper­ação, ou seja, da oper­ação que, em uma sociedade é dirigi­da segun­do as exigên­cias do fim?
E, se são nor­mas práti­cas, não é o máx­i­mo da inco­erên­cia admi­tir-lhe sem quer­er que ven­ham ser apli­cadas? Do fato que a ordem conc­re­ta das coisas se difer­en­cia das condições ideais da teo­ria, lhe segue que as coisas conc­re­tas não terão jamais a per­feição do ide­al, mas não lhe segue nada mais. Com o modo de argu­men­tar dos católi­cos lib­erais, se provaria igual­mente bem que os pre­ceitos rel­a­tivos as vir­tudes devem per­manecer sobre o ter­reno pura­mente espec­u­la­ti­vo, porque a condição humana não lhe pode realizar per­feita­mente. Tam­bém se pode­ria demon­strar que as ciên­cias matemáti­cas não podem e não devem abso­lu­ta­mente serem apli­cadas as artes, com o pre­tex­to que o triân­gu­lo ide­al, exa­to, geométri­co, não existe em con­cre­to ou porque a pro­va exper­i­men­tal con­tradiz sem­pre o rig­or do cál­cu­lo.
Os lib­erais dis­tinguem entre o dire­ito e o fato, entre aqui­lo que deve ser de dire­ito, e aqui­lo que é, de fato, útil a Igre­ja. A ouvi-los o regime da união sem­pre foi, de fato, danoso a Igre­ja. A Igre­ja jamais teve tan­tos males quan­do no tem­po dos bis­pos com o foro exter­no, dos príncipes pro­te­tores, como ates­tam as lutas inin­ter­rup­tas com os imper­adores de Bizân­cio, com os Césares ger­mâni­cos, com os reis da França, da Inglater­ra e da Espan­ha: «A Igre­ja perece pelos apoios ilegí­ti­mos que se quis dar. É chega­do o momen­to, para ela, de mudar os princí­pios: os seus fil­hos lhe devem faz­er sen­tir a neces­si­dade. É pre­ciso que renun­cie a todo poder coerci­ti­vo sobre as con­sciên­cias. Mais nen­hu­ma aliança entre a Igre­ja e o Esta­do» (Louis Veuil­lot, Illu­sion libérale, par. 14). O remé­dio seria, então, ape­nas a liberdade.Mas, em primeiro lugar, se príncipes a pri­ori enun­ci­am uma ordem insti­tuí­da e esta­b­ele­ci­da por Deus, é impos­sív­el que seja útil para a Igre­ja neg­li­gen­ciá-la. Em segun­do lugar, os incon­ve­nientes que são assi­nal­a­dos provam ape­nas que o homem, pela sua per­ver­si­dade, muitas vezes cor­rompe as insti­tu­ições div­inas, mas não que estas devem, por tal razão, ser rejeitadas e colo­cadas a parte. Em ter­ceiro lugar, o argu­men­to históri­co peca por omis­são: se limi­ta a elen­car os males do regime da união, sem diz­er tam­bém os bens enormes que a Igre­ja obteve da pro­teção dos príncipes. Em quar­to lugar, não diz nada dos males tão graves quan­to numerosos que derivam nor­mal­mente do esta­do de sep­a­ração, como lhe pode teste­munhar a exper­iên­cia atu­al. Em quin­to lugar, nada mostra mel­hor a inco­erên­cia da argu­men­tação dos católi­cos lib­erais, da sua con­clusão últi­ma, que propõe o recur­so a liber­dade: a liber­dade, pronta para o mal, pre­dis­pos­ta a irre­ligião, é a causa de todos os males, e essa vem apre­sen­ta­da como remé­dio.
Os lib­erais retomam: indu­bitavel­mente a união e a sub­or­di­nação dos poderes são aus­picáveis em si, mas são ago­ra impos­síveis, porque são repug­nantes para o espíri­to mod­er­no, e é inútil con­tradizê-lo; a prudên­cia, então, man­da aceitar o novo esta­do de coisas, seja para impedir um mal maior, seja para obter os mel­hores efeitos pos­síveis. Mas neste pon­to se clareia uma inco­erên­cia ain­da maior que as prece­dentes, porque tende a deslo­car o prob­le­ma. O prob­le­ma entre os lib­erais e nós, de fato, não está no saber se, dada a malí­cia do sécu­lo, é pre­ciso supor­tar com paciên­cia o quan­to de nós depende, e tra­bal­har, ao mes­mo tem­po, para evi­tar males maiores e para faz­er todo o bem que ain­da é pos­sív­el faz­er; mas o prob­le­ma é pro­pri­a­mente se con­vém aprovar esta condição social que por­ta o lib­er­al­is­mo, decantar os princí­pios que são o fun­da­men­to deste esta­do de coisas, pro­movê-lo com a palavra, a dout­ri­na e as obras, assim como fazem os católi­cos ditos lib­erais.
 
PADRE HENRI LE FLOCH, C. S..Sp.

PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO:

Padre Hen­ri Le Floch “O Cardeal Bil­lot sobre o lib­er­al­is­mo”, Cris­tian­ità. n. 24, Abril de 1977, trad. br. por Sim Sim Não Não, jun­ho 2015,http://simsimnaonao.altervista.org/site/component/content/article/28-edicao-on-line-ano-i-n-02-junho-2015/26-o-cardeal-billot-sobre-o-liberalismo