RADIO SPADA: O AMOR EM GIOVANNINO GUARESCHI


Literatura / terça-feira, março 15th, 2016

 

Quando o homem X encontra a mulher Y eis que se esposam»: 
o amor em Giovannino Guareschi

Guareschi

Radio Spa­da
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

«Se uma mul­her te ama, tu falas e ao invés can­tas.
As palavras são a músi­ca do coração»
(Obser­vações de um alguém, “La bohème)

Tem­pos feios para o amor, muitas vezes reduzi­do a bor­bo­le­tas que voam no estô­ma­go (a psi­colo­gia mod­er­na sug­ere que exis­tam colô­nias de lagar­tas prontas a abrirem-se em nos­so estô­ma­go não, logo que nos apaixon­ar­mos) ou a bru­tal posse do out­ro. Se se quer com­preen­der que coisa seja real­mente o amor é bom ter em mãos um dos tan­tos “con­tos de vida famil­iar” de Gio­van­ni­no Guareschi.
O ele­men­to fun­da­men­tal no namoro é – como escreve Guareschi – o des­ti­no: «quem tem a parte mais impor­tante é o des­ti­no: Deus lhe faz e depois lhe acom­pan­ha. Um homem X nasceu para esposar uma mul­her Y. E vice-ver­sa. Quan­do o homem X encon­tra a mul­her Y eles se esposam», ou: «toda mul­her esposa o seu mari­do e todo homem esposa a sua mul­her». Expli­ca­do assim, o namoro parece uma espé­cie de equação e, em parte, o é. Um homem é cri­a­do para enam­orar-se de uma só mul­her, que dev­erá amar com todas as suas forças todos os dias da sua vida e pela qual dev­erá estar dis­pos­to a sac­ri­ficar tam­bém a própria vida. O amor de dois namora­dos é esculpi­do na eternidade do céu, como escreve – com maior del­i­cadeza – T.S. Eliot: «te amei des­de o começo do mun­do, porque antes que eu e ti nascêsse­mos, o amor que nos uniu já exis­tia».


Nos con­tos de Guareschi, o enam­ora­men­to é lig­a­do a um dup­lo fio, a fidel­i­dade e o pudor. Na ter­ceira e últi­ma história que intro­duz «o mun­do de “Mun­do pequeno”», se con­ta o episó­dio de um jovem rapaz que – depois de voltar do serviço mil­i­tar – desco­bre que a moça por quem esta­va enam­ora­do mor­reu queima­da em um incên­dio. Ape­sar do rapaz ser um leit­mov de Mar­co Antônio e ven­ha muitas vezes con­vi­da­do pelos ami­gos a faz­er far­ra, ele afir­ma: «Rapazes? Não, nada rapazes. Se se tra­ta de faz­er um pouco de bar­ra­co na tav­er­na, uma can­ta­ta, sem­pre pron­to. Nada demais, porém: eu ten­ho já a min­ha namora­da que me espera todas as noites próx­i­ma a ter­ceira bola do telé­grafo longe da estra­da da grande fábri­ca». O fan­tas­ma da moça, depois do rogo que queimou a casa e o espin­heiro que lhe havia feito se enam­orar, con­tin­ua a esper­ar o seu namora­do ali, sob a bola do telé­grafo. Eis como, em três lin­has, Guareschi afres­ca a imagem do amor fiel, ou daque­le amor que vence a qual­quer coisa e que «vai além dos con­fins da Morte, da Sin­taxe, da Gramáti­ca e da Ortografia».

O pudor é a segun­da car­ac­terís­ti­ca do amor guareschi­ano. Porque não sabe­mos diz­er mel­hor, deix­am­os a palavra a um grande ami­go de Guareschi, Gio­van­ni Mosca: «se fala de sua mul­her, se enver­gonha de diz­er ou de escr­ev­er essa afe­tu­osa palavra. Recorre a fras­es irôni­cas, e por muitas vezes lon­gas: “a doce sen­ho­ra que me fez pai”, “a doce sen­ho­ra que, uma vez, com a des­cul­pa de me faz­er admi­rar cer­tos afres­cos do Sécu­lo XV, me induz­iu a entrar, solteiro, em uma Igre­ja para sair dali a pouco casa­do para a vida”, “a gen­til sócia da min­ha melancóli­ca empre­sa”, “a gen­til criatu­ra que não me quer mais sig­nori­no*”. E o fil­ho não é chama­do jamais pelo nome. Se fala dele sem­pre como o “pequeno malan­drin­ho”. Poucos tem como Guareschi o pudor dos próprios sen­ti­men­tos. Porém, sen­ti­men­tos que pode escon­der lhes o quan­to quis­er, mes­mo em cem braças sub­ter­râneas, mas veem sem­pre a tona. E a irô­nia de Guareschi é afe­to, e a rus­ti­ci­dade é freio ao afe­to, que de out­ro modo trans­bor­daria com grande ver­gonha de Guareschi».

O noiva­do, para Guareschi, leva inevi­tavel­mente ao matrimônio que, ao con­trário daqui­lo que se ver­bor­ra­gia hoje em dia, «não é uma burlação. É uma coisa que se faz em dez min­u­tos, mas dura toda a vida. É um ato grave, solene, mes­mo se vem cel­e­bra­do de modo mais modesto e sim­ples. Exis­tem reg­u­la­men­tos: ten­hais paciên­cia. O matrimônio não é um zabaione (Ndt.: Doce ital­iano.) no qual se pegam os ovos, se batem jun­tos e em dez min­u­tos tudo está pron­to».

É no matrimônio que se real­iza o amor: «eis: duas criat­uras do bom Deus, um jovem homem e uma jovem mul­her, um belo dia se tomam pelo braço: “Cam­in­hemos jun­tos”, deci­dem. Começam a cam­in­har rápi­do, com grande pres­sa: a estra­da a per­cor­rer é lon­ga, difí­cil e ple­na de promes­sas. É pre­ciso faz­er a escol­ha, não existe tem­po a perder se se quer chegar aos montes descon­heci­dos que se entreveem, lá em baixo, sobre a lin­ha do hor­i­zonte. Em um belo momen­to, as duas criat­uras do bom Deus param: quem chama escon­di­do atrás do arbus­to que surge em meio aque­le pra­do verde, pleno de flo­res amare­las e azuis? Se aban­dona a estra­da mes­tra, se corre em meio a erva: atrás do arbus­to tem uma cois­in­ha, peque­na peque­na, com duas per­nas cur­tas cur­tas. Uma peque­na rosácea gaio­la de protestos. As duas criat­uras do bom Deus param. Se retomará depois, a viagem sobre a estra­da mes­tra, em direção as mon­tan­has do hor­i­zonte! Quan­do tam­bém aque­le minús­cu­lo homem pud­er cam­in­har. Então, per­cor­rerão a estra­da jun­tos. Assim, se pára no pra­do verde ao lado da estra­da mes­tra e, pouco a pouco, se esquece que existe uma estra­da que con­duz a descon­heci­das col­i­nas e o pra­do, com suas flo­res amare­las e azuis, se tor­na o pon­to de chega­da. Quan­do o pequeno malan­drin­ho urlante se tornar um jovem, já grande, se recor­dará da estra­da deix­a­da na metade e dos montes dis­tantes: mas ago­ra será muito tarde para voltar a cam­in­har. As per­nas não aguen­tari­am mais. Cam­in­hará ele, pela estra­da, e chegara ele as col­i­nas dis­tantes. Ao con­trário tam­bém ele parará e encon­trara um pequeno malan­drin­ho que o chamará, escon­di­do em um arbus­to. Esta é a vida de qual­quer homem: em um belo momen­to, qual­quer homem se encon­tra sen­ta­do ao lada da com­pan­heira de cam­in­ho, em um pra­do verde, a olhar um pequeno malan­drin­ho que dorme com um pez­in­ho na boca».

O que, como diria Guareschi, é belo e instru­ti­vo.

Tex­to de anôn­i­mo recol­hi­do aos cuida­dos di Pier­gior­gio Seveso

* Sig­nori­no: Rapaz par­tic­u­lar­mente refi­na­do, del­i­ca­do e exi­gente do séc. XVIII.