A Demolição da Exegese Católica


Atualidades / quinta-feira, março 31st, 2016

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Francesco Spadafo­ra

Sep­a­ração da exegese do dog­ma

O pesquisador católi­co, exam­i­nan­do um dos numerosos sis­temas ou méto­dos pos­tos pelos racional­is­tas para tirar todo traço de sobre­nat­ur­al dos Evan­gel­hos, não dev­e­ria ter dúvi­das.

Ain­da mais que o caste­lo imag­i­na­do por Bult­mann e seus com­pan­heiros foi apre­sen­ta­do e refu­ta­do com igual pre­cisão por críti­cos e exege­tas com­pe­tentes, não somente católi­cos mas tam­bém protes­tantes [1]. Nen­hum com­pro­mis­so era e é pos­sív­el. Os jesuí­tas do Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­í­cio, por out­ro lado, agi­ram de modo sur­preen­dente, ao con­trário. Para ado­tar na exegese dos Evan­gel­hos o méto­do dito «históri­co-críti­co», na real­i­dade fal­sa críti­ca ou crit­i­cis­mo inc­on­cil­iáv­el com o dog­ma (inspi­ração div­ina, inerrân­cia abso­lu­ta, his­to­ri­ci­dade, sub­mis­são ao Mag­istério), os jesuí­tas então rene­garam a fé católi­ca e «sic et sim­pliciter» jog­a­ram fora as ver­dade de fé aci­ma citadas.

Eles entraram — e é o cúmu­lo — em luta fla­grante com o que era então a supre­ma Con­gre­gação do San­to Ofi­cio. Instau­raram no cen­tro do próprio catoli­cis­mo uma diar­quia opos­ta ao Mag­istério da Igre­ja, para os prob­le­mas bíbli­cos, o «mag­istério» dos jesuí­tas do Insti­tu­to Bíbli­co!

Esta diar­quia sig­nifi­ca­va prati­ca­mente a sep­a­ração da exegese do dog­ma e, logo, da teolo­gia dog­máti­ca. O padre Alon­so Schökel disse clara­mente em seu arti­go «man­i­festo». Mon­sen­hor Romeo o estig­ma­ti­zou clara­mente na sua respos­ta: «Com uma incrív­el desen­voltura, o padre Alon­so nos declara que a inspi­ração e a her­menêu­ti­ca, “a inerrân­cia, a relação entre a autori­dade da Escrit­u­ra e do Mag­istério” não lhe con­cernem, porque os erros sobre este assun­to “são mais teológi­cos do que exegéti­cos”, isto é, não se ref­er­em tan­to à inter­pre­tação de tex­tos con­cre­tos quan­to aos princí­pios teológi­cos.

E ele repete: “O modo con­cre­to da inspi­ração e da inerrân­cia são prob­le­mas dos quais deve se

ocu­par a teolo­gia dog­máti­ca”. Então (…), como se tra­ta de questões de teolo­gia, a exegese católi­ca nova, mod­er­nanão dev­e­ria ocu­par-se de inspi­ração e de inerrân­cia, mas somente de “inter­pre­tação de tex­tos con­cre­tos” Esta opinião de con­sid­er­ar como estran­ha (a inspi­ração, a inerrân­cia… ) aparece, a par­tir do tex­to con­sid­er­a­do em si, tão grave em um ecle­siás­ti­co que ensi­na a Sagra­da Escrit­u­ra em Roma, que prefe­r­i­mos supor que o padre Alon­so não soube se expres­sar» [3]. E mon­sen­hor Romeo acres­cen­ta em nota: «a encícli­ca Humani Gener­is inclui a exegese bíbli­ca entre “as partes da teolo­gia” (Civ. Catt., 101 — 1950 III — pág. 465 no. 25). o que sem­pre foi con­sid­er­a­do evi­dente tan­to entre os católi­cos como entre os cristãos dis­si­dentes de qual­quer denom­i­nação» [4]. 

A con­fir­mação do cardeal Ratzinger

Esta sep­a­ração da exegese e do dog­ma e, pois, da teolo­gia dog­máti­ca dom­i­na hoje, incon­tes­ta­da, na «nova» exegese. E o próprio cardeal Ratzinger, Prefeito da Con­gre­gação pela Fé, que o ates­ta em Ese­ge­si Cris­tiana oggi [5]. Depois de haver lem­bra­do, mes­mo de modo meio mis­te­rioso e pouco claro, o prin­ci­pio dog­máti­co fun­da­men­tal da exegese católi­ca: «Em matéria de fé e de cos­tumes … deve-se con­sid­er­ar como ver­dadeiro sen­ti­do da Sagra­da Escrit­u­ra, aque­le que nos deu e que nos dá nos­sa San­ta Madre Igre­ja, que deve jul­gar o sen­ti­do e a inter­pre­tação autên­ti­ca da Sagra­da Escrit­u­ra: não é per­mi­ti­do inter­pre­tar a Sagra­da Escrit­u­ra con­tra este sen­ti­do e con­tra o con­sen­so unân­ime dos Padres» [6], con­tin­ua: «Mas esse critério teológi­co do méto­do está incon­tes­tavel­mente em oposição com a ori­en­tação metodológ­i­ca do fun­da­men­to da exegese mod­er­na: é pre­cisa­mente, ao con­trario, isto que a exegese [mod­er­na] ten­ta elim­i­nar a todo cus­to. Esta con­cepção mod­er­na pode ser descri­ta do seguinte modo: ou bem a inter­pre­tação é críti­ca, ou então se remete à autori­dade [ao Mag­istério da Igre­ja], as duas coisas não podem ser simul­tane­a­mente pos­síveis. Faz­er uma leitu­ra “crit­i­ca” da Bíblia sig­nifi­ca esque­cer o recur­so a uma autori­dade na sua inter­pre­tação. É cer­to que a “tradição” … não deve ser total­mente excluí­da como meio de com­preen­são: mas ela con­ta somente na medi­da em que suas moti­vações resistem aos méto­dos “críti­cos” [senão é a Tradição que deve ced­er em face à “críti­ca fan­ta­sista”]. Em nen­hum caso a “tradição” pode ser o critério de inter­pre­tação. Toma­da no seu con­jun­to, a inter­pre­tação tradi­cional é con­sid­er­a­da como pré-cien­tí­fi­ca e ingênua; somente a inter­pre­tação históri­co-críti­ca parece capaz de desven­dar real­mente o tex­to». E con­tin­ua: «Toma­do este pon­to de par­ti­da, a tare­fa atribuí­da pelo Con­cílio à exegese — a saber, de ser ao mes­mo tem­po crit­i­ca e dog­máti­ca [mas, ver­e­mos, isto é somente a tese do Insti­tu­to Bíbli­co] parece em si con­tra­ditória, sendo ess­es dois req­ui­si­tos inc­on­cil­iáveis para o pen­sa­men­to teológi­co mod­er­no. Pes­soal­mente estou con­ven­ci­do de que uma leitu­ra aten­ta do tex­to inteiro da “Dei Ver­bum”, per­mi­tiria encon­trar os ele­men­tos essen­ci­ais para uma sín­tese entre o méto­do históri­co [For­mgeschichte e Redak­tiongeschichte] e a her­menêu­ti­ca teológ­i­ca».

Sua con­cordân­cia, entre­tan­to, não é ime­di­ata­mente evi­dente. Assim, a recepção pós-con­cil­iar da Con­sti­tu­ição (recepção que é obra dos jesuí­tas) prati­ca­mente deixou cair a parte teológ­i­ca da própria Con­sti­tu­ição como uma con­cessão ao pas­sa­do, com­preen­den­do o tex­to uni­ca­mente como uma aprovação ofi­cial e incondi­cional do méto­do históri­co críti­co.

O fato é que, deste modo, depois do Con­cilio, as difer­enças con­fes­sion­ais entre as exege­ses católi­cas e protes­tantes prati­ca­mente desa­pare­ce­r­am. Pode-se atribuir este fato a uma cer­ta recepção uni­lat­er­al do Con­cílio. Mas o aspec­to neg­a­ti­vo desse proces­so é que, mes­mo no meio católi­co, o hia­to entre a exegese e o dog­ma, de hoje em diante, é total.

Então a diar­quia, ates­ta­da pelo Prefeito pela Fé com uma incrív­el desen­voltura, fica e prevalece sem ser abor­reci­da, e a «exegese cristã» (não se diz mais «católi­ca») hoje, em rup­tura e oposição com todo o pas­sa­do, rene­ga o sobre­nat­ur­al, o dog­ma católi­co da inspi­ração e da inerrân­cia abso­lu­ta, o Mag­istério con­stante e infalív­el da Igre­ja. Enquan­to o cardeal Ratzinger, Prefeito pela Fé, estu­da a quad­ratu­ra do cír­cu­lo, isto é, como faz­er coex­i­s­tir o erro e a here­sia (For­mengeschichte e Redak­tiongeschichte) com as ver­dades rev­e­ladas e as nor­mas irn­pre­scritíveis do Mag­istério perene, fun­da­men­to e guar­da de toda a exegese católi­ca, e per­gun­ta por isso de tem­pos em tem­pos. Ele não vê ou antes — é pre­ciso diz­er — ele não quer ver os efeitos desas­trosos pro­duzi­dos até ago­ra na Igre­ja pelos «novos exege­tas» que copi­am os protes­tantes racional­is­tas alemães. Aliás, o cardeal Ratzinger se con­tradiz man­i­fes­ta­mente.

Falan­do do sis­tema de Bult­mann, ele recon­hece que são infun­da­dos todos «os ele­men­tos prin­ci­pais do méto­do e suas pre­mis­sas» [7]. Mas como pode ele então falar de «inegáveis aquisições do méto­do históri­co» [8] e, no recente doc­u­men­to da Comis­são Bíbli­ca Pon­tif­í­cia, [9] escreve: «Seria jus­to [sic! ] que o méto­do históri­co-críti­co fos­se aceito no tra­bal­ho teológi­co»?

Rejeição super­fi­cial dos dados históri­cos ofer­e­ci­dos pela tradição mais anti­ga

Com ina­cred­itáv­el ligeireza a «nova» exegese, lança­da no domínio católi­co pelos jesuí­tas do Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­í­cio imolou sobre o altar da For­mengeschichte e da Redak­tiongeschichte

os dados históri­cos, pos­i­tivos, que resi­s­ti­ram a tan­tos ataques e que somente eles, cor­rob­o­ra­dos pela críti­ca inter­na, per­mi­ti­ram e per­mitem à exegese católi­ca afir­mar e defend­er a his­to­ri­ci­dade dos fatos evangéli­cos, incluin­do os sobre­nat­u­rais.

O val­or históri­co dos Evan­gel­hos, de fato, além de ser para os católi­cos uma ver­dade de fé garan­ti­da pelo Mag­istério infalív­el da Igre­ja, «é evi­den­te­mente cer­to para o críti­co» [10], para o pesquisador dig­no desse nome. Os autores dos Evan­gel­hos são con­heci­dos: dois após­to­los, teste­munhas ocu­lares da vida de Jesus Nos­so Sen­hor (Mateus e João) e dois dis­cípu­los (Mar­cos e Lucas) que nar­raram respec­ti­va­mente a pre­gação de São Pedro e a de São Paulo.

Isto é ates­ta­do por uma tradição muito anti­ga e inin­ter­rup­ta. que remon­ta ao próprio primeiro sécu­lo e que é con­fir­ma­da pela filolo­gia (por exem­p­lo, São Paulo, nas car­tas aos Tes­sa­lonis­sens­es, escritas por vol­ta do ano 51, cita o tre­cho grego do Evan­gel­ho de São Mateus que, então, o pre­cede) e pela arque­olo­gia (por exem­p­lo, o papiro Rylands para o Evan­gel­ho de São João e, recen­te­mente. o frag­men­to de papiro da séti­ma gru­ta de Qum­ran, para o Evan­gel­ho de São Mar­cos). Então, se o exege­ta é livre de dis­cu­tir, fal­tan­do argu­men­tos deci­sivos a favor ou con­tra a his­to­ri­ci­dade (se ela é inteira ou par­cial, ou se se tra­ta somente de uma com posição didáti­ca) de diver­sos livros do Anti­go Tes­ta­men­to, não é assim para o Novo, tais as fontes, e tão numerosas, que ates­tam a aut­en­ti­ci­dade e a his­to­ri­ci­dade. Era isto, jus­ta­mente, que Mons. Romeo fazia obser­var na sua respos­ta ao jesuí­ta Schökel [11], que pun­ha no mes­mo plano «aque­le que afir­ma a his­to­ri­ci­dade inte­gral do livro de Judite» e «aque­le que nega toda his­to­ri­ci­dade do Capit­u­lo XVI de São Mateus»: «Que analo­gia há, inclu­sive sobre o sim­ples pon­to de vista “críti­co”, entre o caráter históri­co de um livro remon­tan­do a um perío­do muito obscuro e a his­to­ri­ci­dade de alguns ver­sícu­los de um capí­tu­lo do Evan­gel­ho sobre os quais se baseia o dog­ma católi­co do Pri­ma­do?»

O val­or históri­co dos Evan­gel­hos é, inclu­sive «sob o sim­ples ângu­lo visu­al críti­co», um val­or históri­co de primeira ordem, ou antes de toda primeira ordem, dado que nen­hum livro de história pro­fana pode se van­glo­ri­ar de ser seu igual. E, por out­ro lado, vemos como é trata­do «hoje» (advér­bio da moda, mas que dev­e­ria dar o alarme) a his­to­ri­ci­dade dos Evan­gel­hos na tese de um estu­dante da Gre­go­ri­ana.

Um caso entre muitos out­ros

Tra­ta-se de Francesco Lam­bi­asi, L’ aut­en­tic­itá stor­i­ca dei Van­geli - A aut­en­ti­ci­dade históri­ca dos Evan­gel­hos [12], com uma apre­sen­tação do padre René Latourelle S.J., decano da Fac­ul­dade de Teolo­gia na Uni­ver­si­dade Pon­tif­i­cal Gre­go­ri­ana, que escreve: «Tra­ta-se de esta­b­ele­cer critérios de his­to­ri­ci­dade pro­pri­a­mente dita, critérios váli­dos e criti­ca­mente aprova­dos, que per­mi­tam desco­brir e iso­lar as matérias evangéli­cas que remon­tam ao próprio Jesus» (pág. 5), ou ain­da remon­tar, ao modo mod­ernista, ao «Jesus da história», demolin­do o «Jesus da fé» de nos­sos Evan­gel­hos que, segun­do a For­mgeschichte, seria uma cri­ação da comu­nidade prim­i­ti­va. E Lam­bi­asi, aluno do jesuí­ta Latourelle, acres­cen­ta: «Os estu­dos mais recentes [história das for­mas da redação] depois de Bult­mann (1920)… depois de Kase­mann (1954) até nós (1978), expuser­am o prob­le­ma da his­to­ri­ci­dade dos Evan­gel­hos de uma for­ma difer­ente. Até mais ou menos 1950, era resolvi­do habit­ual­mente sobre a base da crit­i­ca exter­na … ago­ra somente sobre a críti­ca inter­na». É evi­dente que para Lam­bi­asi, como para toda a jovem ger­ação, a For­mgeschichte e a Red­k­tiongeschichte não somente não con­tradizem (ou antes, pouco impor­ta que con­tr­a­digam) os dog­mas fun­da­men­tais da exegese católi­ca, mas se iden­ti­fi­cam com a exegese cien­tí­fi­ca ou mes­mo com a exegese tout court, e este dis­cípu­lo de Latourelle nem mes­mo supõe que os critérios exter­nos (teste­munhos das fontes históri­c­as), por sua obje­tivi­dade, têm a pre­em­inên­cia e são deci­sivos em relação aos critérios inter­nos (esti­lo, con­teú­do, pureza de lin­guagem, detal­h­es históri­cos e geográ­fi­cos, etc … ) cuja apre­ci­ação depende quase sem­pre da capaci­dade sub­je­ti­va da avali­ação [13].

Lam­bi­asi expli­ca em segui­da a sig­nifi­cação do tit­u­lo «aut­en­ti­ci­dade históri­ca dos Evan­gel­hos». Ele pre­tende excluir dos Evan­gel­hos a história pro­pri­a­mente dita, e admite somente o keryg­ma ou ain­da a pre­gação: a Geschichte, repetindo assim a famosa dis­tinção de Bult­mann, pai da For­mgeschichte. É pre­ciso saber, de fato, que para impres­sion­ar e con­fundir os pobres leitores, os inven­tores dessas neb­u­losas teo­rias e seus dis­cípu­los for­jam grandes palavras, aparente­mente difí­ceis para ini­ciantes, vari­ações de ter­mos usuais, aos quais eles atribuem  uma sig­nifi­cação difer­ente, pura cri­ação de seu cére­bro fan­ta­sioso. Assim o Kerig­ma, mis­te­rioso e em moda, é sim­ples­mente a «pre­gação» na Igre­ja prim­i­ti­va, pre­gação da qual o duo Bult­mann-Dibelius quis faz­er a pré-história das matérias evangéli­cas.

Assim mes­mo, Bult­mann, para negar aos Evan­gel­hos todo val­or históri­co, inven­tou com todas as peças a dis­tinção entre história, que seria a história pro­pri­a­mente dita e geschichte, que seria uma nar­ração de fatos não verídi­cos, mas que entre­tan­to podem ser úteis para a espir­i­tu­al­i­dade ou a fé (no sen­ti­do protes­tante). E Lam­bi­asi, aluno da Gre­go­ri­ana, vem nos repe­tir sob a direção do jesuí­ta Latourelle que nos­sos Evan­gel­hos não são «história», isto é, história pro­pri­a­mente dita, mas sim «geschichte», ou ain­da invenções, fru­tos da «fé» (?) da comu­nidade prim­i­ti­va cheia de imag­i­nação! Bra­vo para Lam­bi­asi, e bra­vo para seu pro­fes­sor da Com­pan­hia (que não é mais) de Jesus! E não se tra­ta de um caso iso­la­do, tra­ta-se de uma moda que se espal­ha. Bas­ta citar alguns nomes: Pierre Brelot e X. León Dufour, na França; R. Latourelle S.J. na Gre­go­ri­ana; lgnace de la Pot­terie S.J. do Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­í­cio; com a nova ger­ação: Rinal­do Fab­ris. Giuseppe Ghidel­li. Gian­fran­co Ravasi, etc … na Itália.

Lam­bi­asi foi encar­rega­do, na Gre­go­ri­ana, do sem­i­nário de exegese sobre his­to­ri­ci­dade (Geschichte) dos Evan­gel­hos. As matérias pro­postas aos alunos com­preen­di­am os escritos de Bult­mann, dos adep­tos da «história da redação»: H. Conzel­mann, J. Jere­mias, E. Käse­mann e de autores católi­cos que os seguem como A. Deschamps (que foi até secretário da Comis­são Bíbli­ca Pon­tif­í­cia). H. Schür­mann, etc. Aos alunos que per­gun­taram qual é a posição do Mag­istério no que con­cerne à aut­en­ti­ci­dade e his­to­ri­ci­dade dos Evan­gel­hos, Lam­bi­asi respon­deu que a questão sai do seu tema e que é «exegéti­ca». É a diar­quia de que falam­os aci­ma, em ação.

Uma con­fusão provo­ca­da

A con­fusão provo­ca­da é a que iden­ti­fi­ca For­mgeschichte ou Redak­tiongeschichte com o estu­do do gênero literário even­tual­mente uti­liza­do pelo escritor sagra­do.

Mons. Romeo o rev­ela na sua respos­ta ao jesuí­ta Schökel sobre as «novi­dades» que Pio XII teria intro­duzi­do em Divi­no Afflante Spir­i­tu, «Ele (Schökel) quer talvez indicar como novi­dade o con­vite para o exege­ta pesquis­ar os gêneros literários? (…). Mas todos os bons man­u­ais bíbli­cos falam dis­to há decênios». Em segui­da, para os Evan­gel­hos, bem antes que nascesse a For­mgeschichte, exege­tas e críti­cos católi­cos e não católi­cos, de val­or indis­cutív­el, con­sagraram-se ao estu­do de seu «gênero literário», e o fiz­er­am com argu­men­tos de crit­i­ca exter­na e inter­na.

Mateus, Mar­cos e João escrever­am como se lem­bravam (Mar­cos repetindo a nar­ração­pre­gação

de Pedro). É o mais anti­go ates­ta­do dos Padres. São Justi­no chama de modo repet­i­ti­vo os Evan­gel­hos: «Mem­o­ra­bil­ia apos­tolo­rum», «apom­nemoneu­ma­ta tòn apos­tòlon»

[15], isto é, «Memórias dos Após­to­los». Memórias, por­tan­to, de fatos históri­cos, que são real­mente acon­tec­i­men­tos, sem nen­hu­ma pre­ocu­pação de caráter literário, acres­cen­ta leal­mente J. Weiss [16]. É neste sen­ti­do que deve ser estu­da­do o «gênero literário» dos Evan­gel­hos, como fez o padre Léonce de Grand­mai­son (Jésus Christ, I. págs. 38–56) e Marie Joseph Lagrange (Mc. p. CXXVIII e segs.: Mt. p. CXXIV e segs.).

«Nasci­dos em cir­cun­stân­cias de poderosa orig­i­nal­i­dade, os Evan­gel­hos con­stituem uma var­iedade nova na lit­er­atu­ra ger­al. Nen­hu­ma das for­mas da lit­er­atu­ra clás­si­ca nem da lit­er­atu­ra pop­u­lar gre­ga serviu de mod­e­lo» escreveu o não católi­co A. Puech com a com­petên­cia que todos lhe recon­hecem [17]. O que tem então a ver o estu­do dos «gêneros literários» dos Evan­gel­hos com a For­mgeschichte, que lhes nega des­de o ini­cio a his­to­ri­ci­dade?

Quan­to à pre­ten­são da Redak­tiongeschichte de con­ferir diplo­mas de «teól­o­gos» aos evan­ge­lis­tas (a cor­reção lev­a­da à For­mgeschichte por este últi­mo sis­tema racional­ista, per­manece jus­ta­mente na reavali­ação do papel dos evan­ge­lis­tas — sim­ples reda­tores para a For­mgeschichte! — exal­tan­do sua per­son­al­i­dade até fazê-los «teól­o­gos» no sen­ti­do infe­ri­or que o ter­mo pode ter­na boca de um «críti­co» racional­ista), uma vez que ess­es dois sis­temas racional­is­tas per­manecem firmes na sua negação da his­to­ri­ci­dade dos fatos nar­ra­dos, ou então, defor­ma­dos segun­do a visão «teológ­i­ca» de cada um, esta pre­ten­são se choca com a sim­pli­ci­dade do tex­to como uma onda espumante con­tra um alto roche­do. A começar pelo Evan­gel­ho de São Mar­cos. Escrevi em La Tradizione con­tro il con­cilio: “A tradição ecle­siás­ti­ca con­fir­ma as relações estre­itas do apos­to­la­do de Mar­cos com Pedro. Papias (in Eus., H. R. III. 39: P.G. 20.300) o chama ermeneutès Pétru. Mar­cos não viu o Sen­hor, nem ouviu seus dis­cur­sos (Papias, Eusébio, Jerôn­i­mo).

Os dados da tradição muito anti­ga (Papias, c.130), con­fir­ma­dos pelo exame inter­no, dão Mar­cos como autor do 2° Evan­gel­ho, eco fiel da cate­quese de Pedro, eu diria quase “estenó­grafo” do príncipe dos Após­to­los, para a comu­nidade cristã de Roma (cf. Lagrange, págs. XVI; Uric­chio Stano págs. 1–42). “Como foi o colab­o­rador de Pedro na pre­gação do Evan­gel­ho, ele foi assim seu intér­prete e seu por­ta voz autor­iza­do na redação deste Evan­gel­ho, e por este meio trans­mi­tiu a cate­quese do príncipe dos Após­to­los tal qual ele pre­ga­va aos primeiros cristãos espe­cial­mente da Igre­ja de Roma”. (Vac­cari)

Os críti­cos unân­imes recon­hecem em Mar­cos o nar­rador pop­u­lar por excelên­cia. O 2° Evan­gel­ho é — poderíamos diz­er — como um ria­cho de água límp­i­da que jor­ra da fonte, depois corre livre e rápi­do sem tar­dar, como ansioso para atin­gir seu fim.

Que plano se propõe Mar­cos escreven­do seu Evan­gel­ho, tão espon­tâ­neo, tão difer­ente dos out­ros? Nen­hum, se se quer falar de um ver­dadeiro plano, que lhe seja próprio, pes­soal.

Mar­cos quis colo­car por escrito a Boa Nova e a encon­trou como se estereoti­pa­da na nar­ração de Pedro: escreveu o que tin­ha ouvi­do de Pedro (é o sen­ti­do de ermeneutes que lhe e dado por Papias). Por con­seguinte, se um plano pre­sid­iu a com­posição do Evan­gel­ho, não foi de Mar­cos, mas de Pedro: ele dava seus ensi­na­men­tos con­forme sua util­i­dade, para os ouvintes, não como alguém que faz a história pro­pri­a­mente dita da lòghia (isto é, das palavras e atos) do Sen­hor. Mar­cos se lim­i­tou a fixar por escrito a nar­ração de Pedro; ele não elaborou seus mate­ri­ais, adap­tan­do-os a um esque­ma pes­soal, não pre­tendia expor uma teolo­gia «sua» (cf. A. Fer­nan­dez, L ‘Intro­duc­tion à la Vie de Jesus, Roma, 1962).

Com­preen­demos assim Papias: Mar­cos não escreveu com ordem, isto é, não dis­pôs os mate­ri­ais numa ordem lóg­i­ca, como fez Mateus, não se pre­ocupou com a ordem cronológ­i­ca como fez Lucas (1. 1–4). Mar­cos é sim­ples e ime­di­a­to. com a rudeza da arte pop­u­lar (J. Wel­hausen), com sua sin­gu­lar fres­cu­ra, sua orig­i­nal­i­dade vivaz (Huby). Ele tem o dom de ani­mar seus per­son­agens, de os faz­er pas­sar diante de nós em quadros vivos. Mar­cos con­ta ao modo de pes­soas sim­ples, de gente do povo quan­do tem o dom de ver as coisas: col­he os detal­h­es pitorescos. Parece seguir as alternân­cias como se elas se desen­ro­lassem sob seus olhos, no lugar de dis­por suas nar­rações como homem que dom­i­na suas lem­branças. Mar­cos nos trans­mi­tiu as lem­branças de uma teste­munha ocu­lar, a nar­ração de Pedro, como as recol­heu dos lábios do Após­to­lo.

Como acon­tece sem­pre aos pescadores, habit­u­a­dos a perce­ber os menores sinais da pre­sença de peixe, Pedro sabia «ver» … ele esta­va apto a obser­var os detal­h­es plás­ti­cos de uma cena: «toda a cidade se com­prim­ia diante da por­ta» (1,33). «Entre­tan­to. ele esta­va na popa, dor­min­do sobre a almo­fa­da» (4, 38 etc.). Con­tan­do a história de Cristo, ele a vivia de novo …

Sob a influên­cia des­ta real­i­dade vivi­da, Pedro repro­duzia sem esforço o desen­ro­lar históri­co do min­istério de Jesus. com seus pon­tos salientes (…). Com­preende-se bem a sedução que pro­duz Mc. sobre os críti­cos e os exege­tas mod­er­nos (…).

Para Lucas, bas­ta ler o que ele próprio escreveu no seu pról­o­go [18].

Con­clusão

A For­mgeschichte e a Redak­tion­s­geschichte estão em oposição com a fé, com a lóg­i­ca e os dados da ver­dadeira crit­i­ca. Sua adoção no domínio católi­co, pelo Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­í­cio, teve como úni­co fru­to a demolição da exegese católi­ca, até faz­er pôr em dis­cussão os tex­tos que tocam o dog­ma e dos quais já existe uma inter­pre­tação do Mag­istério solene. Assim para Mt. 16, 13–19 (a promes­sa do Pri­ma­do!) o jesuí­ta Zer­wick [19] e hoje Romano Pen­na da Uni­ver­si­dade de Latrão; assim para Rm 5, 12 e segs, o jesuí­ta Lyon­net [20], sobre os pas­sos do qual L. Algisi, na Bíblia em três vol­umes edi­ta­da por Mari­et­ti, elim­i­na toda alusão ao peca­do orig­i­nal e ao Con­cílio de Tren­to, que em dois cânones, dá a inter­pre­tação autên­ti­ca de Rm 5, 12: «porque todos pecaram». Sem falar da dis­tinção mod­ernista entre o «Cristo históri­co» e o «Cristo da fé», dis­tinção cor­rente de hoje em diante, não obstante a con­de­nação de Pas­cen­di e do decre­to Lam­en­ta­bili.

É um fato muito grave que os pro­fes­sores de Sagra­da Escrit­u­ra das Uni­ver­si­dades e dos Sem­i­nários não dêem importân­cia aos princí­pios dog­máti­cos da exegese católi­ca e desprezem o Mag­istério, per­sua­di­dos, ao con­trário, de que é o Mag­istério, mes­mo solene, que dev­e­ria esper­ar deles (os «novos» exege­tas) o ver­dadeiro sen­ti­do das Sagradas Escrit­uras! Toda a fé católi­ca se tor­na per­tur­ba­da e desen­raiza­da.

Espera-se. talvez em nen­hum domínio tan­to quan­to no bíbli­co, com a con­fi­ança cal­ma na div­ina assistên­cia prometi­da à Igre­ja, a palavra solene da Igre­ja infalív­el, que virá sem fal­ta — é de fé — depois de tan­tas dolorosas per­das.

Francesco Spadafo­ra

Notas:

[1] Ver pág. 3 e segs., mes­mo número.

[2] Ver Cour­ri­er de Rome, novem­bro de 1994

[3] A. Romeo «L’en­ci­cli­ca “Divi­no Afflante Spir­i­tu” et les opin­iones novae» in Divini­tas 4 (1960)

[4] Idem.

[5] «L’e­sege­sa cris­tiana oggi» (A exegese cristã hoje), em colab­o­ração com o jesuí­ta Ignace de

la Pot­terie, do Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­i­cal, ed. Piemme 1991. págs. 98 e segs.

[6] Con­cilio Vat­i­cano I. sessão III — 24 de abril de 1870.

[7] Ver «L´esegí cris­tiana oggi», cita­da págs. 103–114.

[8] Idem.

[9] «Inter­pre­tazione del­la Bib­lia nel­la Chiesa». Livraria Edi­to­ra Vat­i­cana: ver Cour­ri­er de Rome,

abril 1994, págs. 4 e segs.

[10] Fran­cis­co De Viz­manos S. J. — lgna­cio Riu­dor S. J. «Teolo­gia Fun­da­men­tal para seglares»,

Madrid. BAC 29. pág. 297.

[11] Ver Cour­ri­er de Rome, novem­bro de 1994.

[12] Ed. Deho­ni­ane. Bolon­ha 1978

[13] Ver Leão XIII «Prov­i­den­tis­simus Deus» E. B. 119

 [14] Ver Brunero Gher­ar­di­ni. La sec­on­da rifor­ma uomi­ni e scuele del protes­tantismo mod­er­no,

vol. 11. Mor­cel­liana, Bres­cia. 1960. pág 366.

[15] Apol. 66–67; 2 Apol. 11–11: Dial. C. Tryph 100–107 três vezes.

[16] J. Weiss «Das Urchris­ten­tum» (O Cris­tian­is­mo na origem). Göt­tin­gen, 1917, pág. 538.

nota 1.

[17] A. Puech «His­toire de la Lit­téra­ture grecque chré­ti­enne», I, Paris 1928, pág. 60.

[18] F. Spadafo­ra «La Tradizione con­tro ii con­cilio», págs. 89–92.

[19] Riv­ista Bib­li­ca 8. 1960. págs. 80–82.

[20] Stanis­las Lyon­net «Le péché orig­inel et l´exégèse de Rom 5, 12–14» em «Recherch­es de

Sci­ence Religieuse» 44, 1956, págs. 63–84.