P. MATTEO LIBERATORE, S.J: CONDIÇÃO DA IGREJA OPOSTA AO ESTADO


Teologia / domingo, abril 10th, 2016

II

Absur­di­dade do con­ceito, no sen­ti­do do lib­er­al­is­mo abso­lu­to.

Como qual­quer um vê por si mes­mo, o lib­er­al­is­mo abso­lu­to não recon­hece a divin­dade da Igre­ja; caso con­trário não pode­ria descon­hecer nela aque­les dire­itos que o divi­no Fun­dador da mes­ma teve o praz­er de atribuir. Ele nega a ordem sobre­nat­ur­al, nega Cristo; fechan­do-se na can­cela do puro racional­is­mo. Do que segue que eles [os defen­sores do lib­er­al­is­mo abso­lu­to] se declar­am répro­bos por si mes­mos em vir­tude da sua mes­ma descrença; e per­tence àquele mun­do, já reprova­do pelo Reden­tor, e excluí­dos da sua oração ao divi­no Pai [1]. Ele então, sem mais dis­cussão, é não somente anti­católi­co, mas anti­cristão; nen­hum fiel pode pro­fessá-lo ou con­sen­ti-lo. A questão a respeito está encer­ra­da: Qui non cred­it, iam iudi­ca­tus est [2].

Não obstante, para que se enten­da a sua tor­peza ain­da somente na ordem da pura razão, façamos obser­var que ele nega tam­bém a espir­i­tu­al­i­dade e a imor­tal­i­dade da alma humana. E aval­iza o ver­dadeiro; como pode­ria ele con­ce­ber de out­ro modo o Esta­do como asso­ci­ação supre­ma, sem restringir o des­ti­no do homem só ao redor da vida orgâni­ca e mate­r­i­al? A sociedade é especi­fi­ca­da pelo fim; e a que é supre­ma, con­sid­era o fim supre­mo. Por isso, assu­min­do-se que o des­ti­no do homem não se cumpre aqui, mas além-túmu­lo, um des­ti­no imor­tal o espera. É claro – estando ain­da só a luz da razão – que a asso­ci­ação supre­ma não pode ser se não a asso­ci­ação reli­giosa, ou seja, aque­la que vê o homem e pro­move o seu supre­mo e imperecív­el bem. Para esta­b­ele­cer o con­trário, con­vém pen­sar o homem como surgi­do da pura matéria e na matéria des­ti­na­do a resolver-se. Então somente poderá o Esta­do jul­gar que o fim pelo qual vela, a pros­peri­dade tem­po­ral, seja o máx­i­mo bem do homem; e nada sai dos ter­mos deste cír­cu­lo. Aqui não somente os racional­is­tas, mas tam­bém os mate­ri­al­is­tas aplau­dem o sis­tema do lib­er­al­is­mo abso­lu­to.

Só que, neste sis­tema, o erro rad­i­cal no qual se encon­tra o fluxo de todos os out­ros é pro­pri­a­mente a negação de Deus. Por isso os ateus e os pan­teís­tas são seus máx­i­mos pro­mo­tores. Exclu­so Deus ou (o que vem de vol­ta para si mes­mo) não o dis­tin­guin­do do mun­do, se entende muito bem que o mais alto poder do uni­ver­so não é out­ro senão o homem, e pro­pri­a­mente o homem alarga­do no esta­do social, ou mel­hor dizen­do, o homem aper­feiçoa­do em mul­ti­dão e orde­na­do a comu­nidade civ­il. Sim, o homem no juí­zo do ateís­mo é a últi­ma per­feição, ao qual se ele­va a matéria incri­a­da. Ele será por con­se­quên­cia inteira­mente sen­hor de si mes­mo e ditará a si e aos seus depen­dentes as nor­mas do pre­sente, que ele gostará de apelar para bem ou mal, para o jus­to ou o injus­to. Ao con­trário, recon­heci­do Deus, Este, como cri­ador, será Sen­hor abso­lu­to e leg­is­lador do uni­ver­so. O homem, por­tan­to, a sociedade e o poder não podem ser pen­sa­dos de modo difer­ente da for­ma fei­ta por Deus, os quais, por con­se­qüên­cia, Dele recebem como fim a nor­ma do reto oper­ar. Não, por­tan­to, o Esta­do, a opinião públi­ca, os placet de pro­gres­so, mas os imutáveis princí­pios da moral­i­dade e da justiça, dita­dos por Deus e esculpi­dos na alma da sua criatu­ra, são a regra supre­ma da ação humana den­tro da esfera pri­va­da e da esfera públi­ca. O Esta­do deve ser con­sid­er­a­do uma sobera­nia sub­or­di­na­da; a exercer o ofí­cio de min­istro de uma sobera­nia supe­ri­or; de ter de reger os povos, segun­do a von­tade do Sen­hor, a quem ele mes­mo é sujeito.

«Ouve, ó Rei, e entende; apren­dam, ó juízes da ter­ra. Prestai doce escu­ta, ó vós que freiam as mul­ti­dões, e se sat­is­farão de haver sujeita­do as nações. Na medi­da em que o poder lhe foi dado pelo Sen­hor, e a força pelo Altís­si­mo, o qual inter­rog­a­rá as vos­sas obras e exam­i­nará as vos­sas intenções. Sendo vós min­istros do seu reino, não ten­do jul­ga­do com retidão, e não ten­do obser­va­do as leis da justiça, nem pro­ce­di­do segun­do a von­tade de Deus. Com hor­ror e em breve notarão que o juí­zo sev­erís­si­mo será feito dos que são sober­a­nos. “Na medi­da em que com o fra­co será usa­da mis­er­icór­dia, os poderosos sofr­erão fortís­si­mas tor­men­tas [3].» Aqui temos a ideia de poder que nos propõe as div­inas escrit­uras. Estas que reinam supre­ma e são fonte primeira do dire­ito! Estas div­inas palavras nos mostram que o gov­er­nante não é mais que um ofi­cial, apli­cador de uma lei que ele recebe, e da qual se desviar, não a obe­diên­cia dos súdi­tos, mas, ao con­trário, a ele se dará tremen­da punição do seu Sen­hor. E como Deus, livre orde­nador, não é obri­ga­do a man­i­fes­tar a sua von­tade só pela via nat­ur­al das luzes da razão, mas pode man­i­festá-la – e lhe man­i­festou de fato – tam­bém pela via sobre­nat­ur­al da rev­e­lação pos­i­ti­va, o Esta­do é obri­ga­do a con­for­mar-se tam­bém com ela no reg­i­men­to dos povos e buscá-la somente aí, onde Deus a colo­cou. Ora Deus a colo­cou na sua Igre­ja. O Esta­do então da Igre­ja recebe a sua supre­ma nor­ma moral; e por con­se­quên­cia deve aceitar essa Igre­ja e recon­hecê-la, não como ele gos­ta de con­sid­erá-la, mas como Deus a con­sti­tu­iu, respei­tan­do nela por inteiro aque­le dire­ito e aque­la pre­rrog­a­ti­va, que o seu divi­no Fun­dador quis a ela atribuir. Tudo isto é evi­den­tís­si­mo e segun­do o rig­or de estre­itís­si­ma lóg­i­ca para aque­les que recon­hecem Deus; o que o lib­er­al­is­mo abso­lu­to não pode nega-lo, sem fun­dar-se na negação de Deus. Mas isto somente con­sti­tu­iu a sua ple­na con­de­nação, aos olhos não só dos católi­cos, mas de quan­tos não ten­ham ain­da per­di­do de todo o bem do int­elec­to.