P. MATTEO LIBERATORE, S.J: CONDIÇÃO DA IGREJA OPOSTA AO ESTADO


Teologia / domingo, abril 10th, 2016

IV

Absur­di­dade do con­ceito, no sen­ti­do dos católi­cos lib­erais.

O vício rad­i­cal dos católi­cos lib­erais é a inco­erên­cia. Isto aparece em si mes­mo aqui pelo dito fim; des­de que o lib­er­al­is­mo, enten­di­do tam­bém em sen­ti­do mod­er­a­do, se man­i­fes­ta het­ero­doxo, é cer­ta­mente solene con­tradição o quer­er aderir-lhe, e ao mes­mo tem­po faz­er profis­são de fé orto­doxa. Os católi­cos lib­erais rejeitam o maniqueís­mo na espec­u­lação, mas o aprovam na práti­ca; o removem da causa, mas o induzem no efeito. Será bom clarear a coisa um pouco mais exten­sa­mente.

Aparece pela primeira vez a inco­erên­cia deles no quer­er pre­scindir dos princí­pios, que eles, quase dire­mos, por sofri­men­to chamam abstratos. Mas estes princí­pios são ver­dadeiros, sim ou não? Não podem negar que sejam ver­dadeiros sem renun­ciar a serem católi­cos, já que eles reduzem as ver­dades de fé, as quais são que a ordem nat­ur­al deve estar sujei­ta a ordem sobre­nat­ur­al, a natureza a graça, a vida pre­sente à vida futu­ra. E como estas ver­dades não são tais só para o homem indi­vid­uo, mas para o homem em qual­quer esta­do em que se encon­tre; cada um vê as con­se­quên­cias que resul­ta para aqui­lo que diz respeito a ordem social. Os lib­erais católi­cos (pelo menos a maio­r­ia), conce­den­do tal resul­ta­do con­sid­er­a­do por si só, ape­nas recusam a apli­cação. Mas bom Deus! E não são essas ver­dades práti­cas que são orde­nadas a diri­gir o oper­ar? E uma ver­dade orde­na­da a diri­gir o oper­ar, pode, sem inco­erên­cia, admi­tir-se, e não quer­er que incline-se de fato a diri­gi-lo?

As cir­cun­stân­cias, repli­cam, o proíbe. Isto é out­ro dis­cur­so. Se tal con­sid­er­ação é esta que vos move, man­ten­ham-se den­tro dos lim­ites da mes­ma. Dis­tin­guir, como foi dito com feliz for­mu­la, a tese da hipótese. Diz­er de modo favoráv­el que a col­i­gação do Esta­do com a Igre­ja, e então a har­mo­nia entre os dois poderes, é de per si necessária e impos­ta ao orde­na­men­to divi­no, mas por des­graça o mun­do atu­al não quer saber dis­so. Lou­vai então a primeira, e deplo­rai a cegueira e a malí­cia da segun­da. Mas vós não fazeis assim. Vós mes­mos acon­sel­hais a Igre­ja que por si mes­ma rompa toda lig­ação com o Esta­do; que não pre­ten­da sobre ele nen­hu­ma ingerên­cia; que se retire no puro cír­cu­lo da ordem espir­i­tu­al; sus­ten­tan­do pela razão que isto resul­ta mais útil a Igre­ja.

Em que nós percebe­mos nova con­tradição. Como pode resul­tar mais útil o faz­er o opos­to daqui­lo que impor­ta ao orde­na­men­to divi­no? Ou é pre­ciso negar que o acor­do do Esta­do com a Igre­ja seja con­sen­ti­do por Deus (caso em que seri­amos o chefe da negação dos princí­pios); ou é pre­ciso sus­ten­tar que somente a atu­ação de tal orde­na­men­to resul­ta mais útil tan­to para o Esta­do quan­to tam­bém para a Igre­ja; e o não poder obter em dadas con­jun­turas é um mal que pre­cisa lamen­tar-se, mas nun­ca lou­var e muito menos acon­sel­har.

Mas quan­ta pressão e quan­tos agravos não sofreu a Igre­ja pelos Príncipes pro­te­tores! Lem­bram-se as lutas com o Imper­ador de Bizân­cio, com Césares da Ale­man­ha, com os Reis da França, da Espan­ha, etc. Muito bem; é isto o lugar comum, a qual assid­u­a­mente se recorre. Mas isso, o que pro­va? Pro­va ape­nas que o homem com a sua per­ver­si­dade e mali­cia se esforça para cor­romper a obra de Deus: mas, não é porque o homem se aten­ta a cor­rompê-la, con­vém descon­hecê-la ou aban­doná-la. Em primeiro lugar o argu­men­to obje­ta­do peca por incom­ple­ta enu­mer­ação; já que olha só para o lado mal e fecha os olhos para o lado bom; ref­ere só aos males, que se mis­tu­ravam ao bem, e omite os muitos bens, que tam­bém se man­tinham e super­abun­davam ao mal. Se a pro­teção dos Príncipes degen­er­a­va por vezes em opressão, o mais fre­quente­mente obt­in­ha guarnição e aju­da da Igre­ja. Em segun­do lugar o argu­men­to peca por defeito de com­para­ção, na medi­da em que infor­mará as imposições, que aque­les Príncipes fiz­er­am sofr­er a Igre­ja, com aque­les que fazem ago­ra sofr­er os lib­erais, não sabe­mos para qual lado pen­derá a bal­ança. Deixan­do de lado a Itália – onde o sis­tema lib­er­al não é mod­er­a­do, mas abso­lu­to – não existe talvez qual­quer out­ro país, onde o lib­er­al­is­mo, implan­ta­do por uma maio­r­ia católi­ca, pare­cia ser apara­do de todos aque­les tem­pera­men­tos e de todas aque­las caute­las, que dev­e­ria asse­gu­rar os ale­ga­dos bene­fí­cios; e ape­sar de tudo a Igre­ja está rela­tan­do graves feri­das, que não sabe­mos, onde irão parar em um tem­po mais ou menos dis­tante. Enfim o argu­men­to peca por fal­sa infer­ên­cia. Des­de a intro­dução do abu­so do homem a um sis­tema de per si necessário e pre­scrito por Deus, segue ape­nas que com cada pro­je­to deve-se tra­bal­har para peneirar o pre­cioso do vil, e não para rejeitá-los ambos, voltan­do-se ao out­ro sis­tema por si réu e con­trário ao entendi­men­to divi­no.

Isto, dizem enfim, mes­mo que fos­se dese­jáv­el, não é mais pos­sív­el: o sécu­lo o repugna; e obsti­nar-se a defendê-lo não teria out­ro efeito, que o de irri­tar de for­ma mais grave as almas rivais, e, prin­ci­pal­mente ini­mizar a Igre­ja. Mais pru­dente será faz­er, como estão acos­tu­ma­dos a diz­er, da neces­si­dade uma vir­tude; e acei­tan­do um esta­do de coisas, que não está em nos­so poder remover, pro­jetá-lo para impedir que não se pre­cip­ite a ruí­na total. Aqui os adver­sários de Aquiles. Entre­tan­to isto dizen­do, os católi­cos lib­erais incor­rem, a nos­so ver, na máx­i­ma inco­erên­cia, porque saem total­mente fora do esta­do da questão. Aqui não se tra­ta de, entre a con­tumá­cia do mun­do, dev­er-se usar de paciên­cia e procu­rar extrair a mel­hor com­bi­nação pos­sív­el; mas tra­ta-se de con­venção de aprovar tal condição social, e pro­move-la assim com nos­sos esforços. Tam­bém, nos três primeiros sécu­los de perseguição, a Igre­ja foi força­da a aco­modar-se como podia; mas, por isso, era para se exal­tar aque­le esta­do de coisas e con­tribuir para per­petuá-lo? Sabe­mos bem que o mun­do é enfer­mo e corre furiosa­mente para a própria ruí­na. Mas por isto jus­ta­mente con­vém curá-lo e com per­suasão e obras induzi-lo ao bom sen­so. Sub­me­ter nes­ta ocasião o quer­er e o sen­tir às lou­cas intenções, é enga­nar-se. Que se diria de um médi­co que, para não irri­tar o doente, deix­as­se pio­rar suas feri­das? Não o con­denar­ias como um sem piedade e cru­el? E se o referi­do médi­co sus­ten­tasse tam­bém que tal padrão, emb­o­ra mor­tal, segun­do as regras da arte, é não obstante salu­tar na práti­ca, dada a von­tade do paciente; não o rep­utari­am dig­no de ser tran­ca­do em um man­icômio?

[CONTINUA]

NOTAS:

1] Non pro mun­do rogo. Ioan. XVII, 9.
[2] Ioan. III, 18.
[3] Audite ergo, reges, et intel­lig­ite; discite, iudices fini­um ter­rae. Prae­bete aures, vos, qui con­tinetis mul­ti­tudines et placetis vobis in tur­bis nation­um. Quo­ni­am data est a Domi­no potes­tas vobis, et vir­tus ab Altissi­mo; qui inter­ro­gabit opera ves­tra, et cog­i­ta­tiones scrutabitur. Quo­ni­am cum essetis min­istri reg­ni illius, non recte iudi­cas­tis, nec cus­todis­tis leg­em iusti­ti­ae, neque secun­dum vol­un­tatem Dei ambu­lastis. Hor­rende et cito apparebit vobis, quo­ni­am iudi­ci­um duris­si­mum his, qui prae­sunt, fiet. Exiguo enim con­ced­i­tur mis­eri­cor­dia; potentes aut­ent poten­ter tor­men­ta patien­tur. Sap. c. VI.
[4] Eccl. I. 8.
[5] De Regimine Prin­cipum, XIV.
[6] Ivi, luo­go cita­to.
[7] Dante, Pur­ga­to­rio, VI.