CARDEAL SIRI: A ALTERAÇÃO DA HISTÓRIA


Atualidades, História / sábado, novembro 18th, 2017

Extraí­do do livro:
Get­se­mani
Reflexões sobre o Movi­men­to
Teológi­co Con­tem­porâ­neo
Cardeal Giuseppe Siri
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

A cul­tura uni­ver­sal do nos­so tem­po, em todas as suas man­i­fes­tações,  reper­cussões int­elec­tu­ais e práti­cas, é dom­i­na­da em pro­fun­di­dade e na super­fí­cie por uma ori­en­tação do pen­sa­men­to e da sen­si­bil­i­dade que se esforça para se exprim­ir com a palavra “história” e seus deriva­dos. Aqui­lo que cada vez se entende com a palavra “história” é uma noção ou uma real­i­dade ou ain­da uma qual­i­dade vari­abilís­si­ma que per­mite ori­en­tar o pen­sa­men­to e o dis­cur­so, sobre a base deste mes­mo mutáv­el vocábu­lo, em difer­entes direções, em modo que as coisas e os vocab­ulários não pos­sam mais ter, nem no ínti­mo do homem, nem no dis­cur­so, um sig­nifi­ca­do uni­ver­salmente com­preen­di­do e admi­ti­do.

Não obstante falar de História ou de filosofia da história, de razão históri­ca, de con­sciên­cia históri­ca, de sen­ti­do da história e de out­ras expressões com nuances derivadas da palavra “história”, pres­supõe pelo menos que se admi­ta um sig­nifi­ca­do qual­quer estáv­el da noção “história”, sig­nifi­ca­do que viria a con­sti­tuir um critério ger­al, a saber um pon­to de refer­ên­cia.

Já que para dar uma definição ou mes­mo para faz­er um sim­ples esclarec­i­men­to explica­ti­vo de um even­to ou de uma série de even­tos e de fatos, se incer­tos ou sutis que sejam, é pre­ciso ter um critério cen­tral, é pre­ciso referir-se a um pon­to qual­quer de refer­ên­cia da lin­guagem e por meio dele; pon­to de refer­ên­cia que não seja ape­nas supos­to ou vaga­mente suben­ten­di­do, mas que seja, — com todas as nuances que se queira — explíc­i­to e for­muláv­el. É uma fun­da­men­tal neces­si­dade do entendi­men­to, uma neces­si­dade de lóg­i­ca ele­men­tar e de coerên­cia requeri­da inti­ma­mente por cada homem, moral­mente se não int­elec­tual­mente livre, e então em boa fé.

Isto vale tan­to para a filosofia, como para a ciên­cia, a metafísi­ca, a teolo­gia; isto vale para qual­quer cam­po do pen­sar e do sen­tir.

Neste sem­pre mais exten­so fenô­meno de poli­valên­cia dos ter­mos e dos vocab­ulários, se desen­volveu uma especí­fi­ca tendên­cia que se pode­ria chamar o cume do “fre­n­e­si lin­guís­ti­co”: é um esforço para encon­trar uma nova com­preen­são dos tex­tos e dos fatos, e tam­bém para colo­car e resolver prob­le­mas acer­ca da vida, da história, da alma, da fé, da origem e do fim últi­mo, base­an­do-se sobre con­sid­er­ações muitas vezes muito sofisti­cas e rebus­cadas até ao absur­do, da lin­guagem, das lín­guas e dos vocab­ulários.

Como se verá quan­do tratar­mos da her­menêu­ti­ca, esta tendên­cia tomou de vez em quan­do a aparên­cia de uma nova gnose, de um eso­ter­is­mo int­elec­tu­al. Porém, ape­sar de o caráter do qual as vezes se revestem estes esforços e este méto­do, caráter de um sagaz e pio dese­jo de obje­tivi­dade, não se pode não ressen­tir um pro­fun­do mal estar como aque­le que se pro­va diante a man­i­fes­tação de uma grande des­or­dem, de um grande descon­cer­to e de uma con­fusão em pro­fun­di­dade. Nós, real­mente, vemos clara­mente que no esforço de col­her e de explicar a real­i­dade do mun­do, do homem e da história através de uma semân­ti­ca cada vez mais anal­isa­da e ator­men­ta­da, se ter­mi­na com perder de vista a ver­dadeira refer­ên­cia ao ver­dadeiro ver­bo inte­ri­or do homem.

Por­tan­to, é pre­ciso ter em con­ta o fato que se chama “fre­n­e­si lin­guís­ti­co” que, cedo ou tarde, con­duz a desagre­gação, em seio de qual­quer empre­sa int­elec­tu­al, espir­i­tu­al e moral.

No con­jun­to das con­sid­er­ações acer­ca da história, nos tem­pos ditos mod­er­nos, às vezes se olhou para o homem da antigu­idade, como total­mente desprovi­do de inter­esse int­elec­tu­al ou espir­i­tu­al pelo cur­so dos acon­tec­i­men­tos da ter­ra, pela sucessão dos even­tos e da sociedade. E isto, às vezes, por motivos filosó­fi­cos, soci­ológi­cos ten­den­ciosos, e não em uma pura bus­ca da ver­dade. Para enten­der aqui­lo que de real­mente novo existe no vas­to movi­men­to acer­ca da história e para evi­tar tam­bém qual­quer con­fusão às vezes provo­ca­da pelo “fre­n­e­si lin­guís­ti­co”, é utilís­si­mo referir-se antes de tudo aos sig­nifi­ca­dos tidos des­de o começo da palavra “história”.

A palavra “história” (***) é antiquís­si­ma. A sua origem se perde na mis­te­riosa fonte sacra de onde surgiu a palavra humana e as lín­guas. Na remo­ta antigu­idade, se encon­tra uti­liza­da com muitas nuances. No começo sig­nifi­ca­va pesquisa — inves­ti­gação — infor­mação; e tam­bém o resul­ta­do da infor­mação; a saber a segun­da dos casos, sig­nifi­ca­va um saber ou um con­hec­i­men­to: Heró­do­to [1], Platão [2], Aristóte­les [3], Demóstenes [4]. Em igual tem­po era uti­liza­da no sen­ti­do de relação oral ou escri­ta daqui­lo que se con­hecia, daqui­lo que se sabia, daqui­lo que se tin­ha recu­per­a­do; a saber, no sen­ti­do do con­to: Heró­do­to [5], Aristóte­les [6], Plutar­co [7][8].

De todos estas refer­ên­cias emerge clara­mente que o ter­mo “história” era cer­ta­mente uti­liza­do com difer­entes nuances, resu­min­do-se todas, porém, nas palavras de Aristóte­les: “As inves­ti­gações de quan­tos escrevem sobre ações humanas” (Retóri­ca I, 4, 1360a), como tam­bém os próprios fatos referi­dos no seu con­cate­na­men­to.

Do exame da total­i­dade des­ta infor­mação anti­ga sobre a trans­mis­são escri­ta dos fatos e dos acon­tec­i­men­tos ocor­ri­dos, como tam­bém a vas­ta lit­er­atu­ra em que se fala da sorte dos povos, das inter­venções dos deuses, dos des­ti­nos e das reper­cussões no futuro con­traí­das pelos atos do pas­sa­do, se tem facil­mente em con­ta algu­mas ver­dades úteis para com­preen­der seja a antigu­idade como os tem­pos mod­er­nos pelo que diz respeito a con­sciên­cia, a história e as noções do sen­ti­do de história e da con­sciên­cia de história; noções que pen­e­traram e influ­en­cia­ram notavel­mente o pen­sa­men­to teológi­co e o pen­sa­men­to e o quer­er na cri­stan­dade. Entre estas ver­dades, que o exame da infor­mação anti­ga colo­ca de qual­quer modo em evidên­cia, devem ser con­sid­er­adas as seguintes:

A) Se por um lado, em qual­quer época, o exame e a maneira de exam­i­nar o pas­sa­do ou o pre­sente são sem­pre depen­dentes e depen­dem seja da veraci­dade como da riqueza das fontes de infor­mação, por out­ro lado é tam­bém incon­testáv­el que este exame e este con­to depen­dem daque­la que se pode chamar a pes­soal óti­ca ger­al do rela­tor em refer­ên­cia a cada coisa.

Antes que qual­quer um afronte o vas­to prob­le­ma do con­hec­i­men­to obje­ti­vo e da noção real, não se pode admi­tir a existên­cia de um pris­ma, par­tic­u­lar a cada pes­soa, através do qual vem fil­tra­da cada exper­iên­cia; esta óti­ca ger­al escol­he, con­cate­na, col­o­ra e age como o olho, que vê todas as coisas sem­pre com as suas próprias pos­si­bil­i­dades nat­u­rais; sem­pre com as próprias, sal­vo uma fun­da­men­tal difer­en­ci­ação na intim­i­dade da con­sciên­cia e do int­elec­to do homem, sal­vo uma mutação ger­al do ser. Quan­do se falará aqui do prob­le­ma do con­hec­i­men­to obje­ti­vo do real, se poderá ver o porque o homem deva per­manecer mar­avil­ha­do diante des­ta har­mo­nia do cri­a­do: har­mo­nia entre o pris­ma ontológi­co sem­pre pes­soal dos seres e o con­hec­i­men­to ver­dadeira­mente obje­ti­vo do real.

B) Sem­pre exis­tiu a pre­ocu­pação de ser bem infor­ma­do para referir fatos a ver­dade. O nadar con­tra a cor­rente filológ­i­ca até as mais remo­tas antigu­idades mostra que o sen­so de respon­s­abil­i­dade a respeito da ver­dade em descr­ev­er e em trans­mi­tir não foi infe­ri­or àquele dos tem­pos mod­er­nos. As ingenuidades, as inevitáveis lacu­nas em boa fé, as descrições e as expli­cações ten­den­ciosas, pri­vadas de um ver­dadeiro sen­so de respon­s­abil­i­dade, com relação a ver­dade, não foram na antigu­idade nem mais numerosas, nem mais graves do que aque­las que se podem con­statar nos home­ns, do iní­cio da “história” até aos nos­sos dias; é o mín­i­mo que se pode diz­er.

C) No expor o desen­volvi­men­to dos fatos ou das idéias, sem­pre hou­ve, por razões intrínse­cas a natureza humana, con­sid­er­ações, implíc­i­tas ou explíc­i­tas, que podem ser chamadas escat­ológ­i­cas.

É necessário que nos recordemos sem­pre destas três ver­dades para evi­tar errôneas refer­ên­cias ao pas­sa­do quan­do se fala da descober­ta de uma nova dimen­são do homem. A úni­ca coisa nova fun­da­men­tal que sobreveio nos dados e nas deter­mi­nações do con­hec­i­men­to, é a rev­e­lação.

Notas:

[1] HERÓDOTO, 2, 118.

[2] PLATÃO, Fedon 96 a.

[3] ARISTÓTELES, Sobre partes dos ani­mais 3,14.

[4] DEMÓSTENES, 275, 27.

[5] HERÓDOTO, 1, 1.

[6] ARISTÓTELES, Retóri­ca 1, 4, 13.

[7] PLUTARCO, Péri­cles 13.

[8]Existe o ver­bo “istoreo,***” que sig­nifi­ca bus­car saber: HERÓDOTO, 1, 61; SOFOCLES, As Traquí­nias v. 418. Bus­car qual­quer um exam­i­nar ou inter­rog­ar sobre qual­quer um:HERÓDOTO, 2, 113; EURÍPIDES, Ione v. 1547; PLUTARCO, Teseo 30; POLÍBIO, 3, 48, 12. Por exten­são, sig­nifi­ca tam­bém saber — con­hecer — nar­rar ver­bal­mente ou por escrito aqui­lo que se sabe: ARISTÓTELES, Sobre plan­tas 1, 3, 13; TEOFRASTO, História das plan­tas 4, 13, 1; PLUTARCO, Moralia 30 d; LUCIANOSobre o modo de escr­ev­er a história 7. 

- Existe a palavra “istor, ***” da qual, segun­do o pare­cer dos espe­cial­is­tas da lín­gua gre­ga, se for­maram o ver­bo “istoreo” e a palavra “história,***”. Sig­nifi­ca­va aque­le que sabe — aque­le que é com­pe­tente — aque­le que con­hece algu­ma coisa ou qual­quer um.

- Todas essas palavras “istor, istoreo, isto­ria” se reconec­tam ao ver­bo “ido — ida, ***”, que sig­nifi­ca ver com os próprios olhos: HOMERO, Ilía­da I, 587; EURÍPIDES, Orestes v. 1020; PLATÃO, Repúbli­ca 620 a. Obser­var — exam­i­nar: HOMERO, Ilía­da 2, 274 — 3, 364. Rep­re­sen­tar-se com o pen­sa­men­to — rep­re­sen­tar-se na mente: HOMERO, Ilía­da 21, 61; PLATÃO, Repúbli­ca 510 e. Apare­cer — pare­cer — tornar-se semel­hante: HOMERO, Ilía­da 2, 791 — 20, 80; HERÓDOTO, 6, 69 — 7, 56. Ser instruí­do em torno a: HOMERO, Ilía­da 17, 219; PLATÃO, Apolo­gia de Sócrates 21 d.

 Fonte: Livro Get­sê­mani — Reflexões sobre o Movi­men­to Teológi­co Con­tem­porâ­neo — A alter­ação da história, pg 47