O VENERÁVEL BARTOLOMEU HOLZHAUSER (1613–1658) OU A RESTAURAÇÃO DA REALEZA SOCIAL DE N.S. JESUS CRISTO


Teologia / domingo, novembro 26th, 2017
Bar­tolomeu Hol­szhauser (esquer­da), Johann Philipp von Schön­born (cen­tro) e Rei Charles II da Inglater­ra (dire­i­ta). Pin­tu­ra con­tem­porânea.

Nicola Dino Cavadini
Tradução: Gederson Falcometa

O Ven­eráv­el Bartholomäus Holzhauser nasce de família pobre em Long­nau, nas prox­im­i­dades de Augus­ta, na Baviera, em 24 de agos­to de 1613. Abraça a car­reira ecle­siás­ti­ca durante o trági­co perío­do da guer­ra dos Trin­ta anos (1618–1648) decide fun­dar, para socor­rer as gravís­si­mas condições espir­i­tu­ais do seu país, uma con­gre­gação de cléri­gos sec­u­lares for­man­do vida comum, con­heci­dos como Bar­tolomi­tas. Inocên­cio XI lhe aprovou a regra em 1680. O fun­dador morre em odor de san­ti­dade páro­co de Bin­gen, na dio­cese de Mongú­cia, em 20 de maio de 1658, onde repousa na Igre­ja da San­ta Cruz.

Hozhauser todavia é ain­da mais notáv­el por uma “obra pub­li­ca­da pela primeira vez em Bam­ber­ga em 1784: Inter­pre­ta­tio in Apoc­a­lypsin, por alguns con­sid­er­a­da o mel­hor pro­du­to daque­la cor­rente exegéti­ca que vê no Apoc­alipse de S. João a nar­ração sim­bóli­ca da história da Igre­ja”. Holzhauser, sin­gu­lar­mente dota­do do dom da pro­fe­cia, deu mão ao comen­tário depois de 1649 enquan­to se encon­tra­va no Tirol, “em con­tin­ua oração por dias inteiros, pri­va­do de comi­da e bebi­da” e “sep­a­ra­do de todo con­sór­cio humano”.

O autor se insere então no inte­ri­or de uma lin­ha her­menêu­ti­ca assaz anti­ga, com o claro entendi­men­to de indicar aos con­tem­porâ­neos como a restau­ração católi­ca, fal­i­da depois da má con­clusão da guer­ra dos Trin­ta anos, foi adi­a­da no tem­po. Deus, que pre­cisa­mente falou a respeito dos acon­tec­i­men­tos de sua Esposa mís­ti­ca, a Igre­ja, no Apoc­alipse, deter­mi­nou real­mente uma época da história em que a Monar­quia de Cristo dom­i­nará sobre toda a ter­ra, sobre todos os seus inimi­gos inter­nos e exter­nos.

A paz de West­falia de 1648, de fato, jul­ga­da por Holzhauser “danosís­si­ma con­tra a Cri­stan­dade e a Igre­ja Católi­ca”, não só recon­fir­mou e legit­i­mou a divisão da Ale­man­ha entre regiões luter­anas e católi­cas, mas pio­ran­do a condição prece­dente, recon­hece além dis­so, ofi­cial­mente tam­bém o calvin­is­mo, que do con­fli­to foi a causa des­en­cadeado­ra. A here­sia em suma con­seguiu sair vito­riosa e se tin­ha esta­b­ele­ci­do firme­mente no coração do império, ape­sar dos esforços dos Imper­adores Hab­s­bur­gos, sobre­tu­do de Fer­di­nan­do II (1619–1637) muitas vezes elo­gia­do pelo autor, de recu­per­ar para a Igre­ja a inteira Ale­man­ha.

 

I
A “Interpretatio in Apocalypsin"

 

Os capí­tu­los 2 e 3 do Apoc­alipse trazem as sete car­tas escritas pelo Vidente às sete Igre­jas da Ásia. Comen­tan­do estas pas­sagens, Holzhauser enun­cia os princí­pios do seu méto­do exegéti­co. Uma vez que o número ‘sete’ indi­ca uni­ver­sal­i­dade, as sete Igre­jas rep­re­sen­tam as sete épocas da história da Igre­ja até o fim do mun­do. Além dis­so, retoman­do con­ceitos de ago­ra em diante notórios, o autor prossegue:

Estas sete épocas cor­re­sponde aos setes dias do Sen­hor, em que ele oper­ou, as sete idades do mun­do, e aos sete espíri­tos envi­a­dos pelo Sen­hor no dia de Pen­te­costes sobre todo homem. Como ver­dadeira­mente o Sen­hor Deus encer­ra em sete dias e sete idades o per­cur­so de todas as ger­ações e coisas nat­u­rais, assim levará a cumpri­men­to a regen­er­ação [sobre­nat­ur­al] em sete épocas da Igre­ja, em algu­mas das quais infundirá e fará florir diver­sos gêneros de graças para mostrar as riquezas da sua glória […]. Pelo que, ape­sar da Igre­ja de Cristo ser uma só, todavia, se dis­tingue em sete épocas em vir­tude das grandes empre­sas, que nos diver­sos tem­pos, até o fim do mun­do, lhe suced­erão por dis­posição div­ina. Além dis­so, toda época suces­si­va cos­tu­ma começar já antes do fim daque­la que a pre­cede, e enquan­to esta pouco a pouco vai decrescen­do, a out­ra a sub­sti­tui para depois enfim prevale­cer.”

 

 II
As sete épocas da Igreja 
segundo Bartolomeu Holzhauser

A primeira época é aque­la rep­re­sen­ta­da pela Igre­ja de Éfe­so (Ap 2, 1–7). É a época que vai do nasci­men­to de Cristo a primeira perseguição ger­al pro­movi­da pelo imper­ador Nero (66 d.C.). Este perío­do é definido pelo autor “sem­i­na­tivus”, porque Deus plan­tou a sua vin­ha, a Igre­ja, em Jesus Cristo. Como no 1º dia da Cri­ação Deus sep­a­rou a luz das trevas, desse modo nesse primeiro temo a Igre­ja a luz da fé começou a bril­har no mun­do envolvi­do nas trevas da idol­a­tria. A esta primeira época cor­re­sponde aque­la do mun­do que vai de Adão até a Noé, em que se teve a propa­gação do gênero humano “segun­do a carne”, como naque­la da Igre­ja se teve a ger­ação “segun­do o espíri­to”, ou seja, a regen­er­ação sobre­nat­ur­al. O dom próprio do Espíri­to San­to des­ta época é a Sabedo­ria. A causa que colo­cou fim a esta primeira idade ecle­siás­ti­ca foi a difusão das primeiras here­sias, maior­mente aque­la dos nico­laí­tas (Ap 2,6).

A segun­da época (66–312 d.C.) rep­re­sen­ta­da pela Igre­ja de Esmir­na (Ap 2, 8–11) é aque­la dos Már­tires, e cor­re­sponde as dez perseguições gerais que se con­cluem com as con­ver­são de Con­stan­ti­no, o Grande em 312. Este perío­do da Igre­ja é definido pelo autor “irriga­tivus”, porque o sangue dos SS. Már­tires mist­i­ca­mente pul­ver­i­zou e irrigou a Igre­ja plan­ta­da por Jesus e pelos Após­to­los no primeiro esta­do. Esta época cor­re­sponde ao segun­do dia da Cri­ação, quan­do Deus fez o fir­ma­men­to no meio das águas: “Este fir­ma­men­to pre­figu­ra o fir­ma­men­to, isto é, a for­t­aleza dos már­tires, já que Deus lhes colo­cou no meio das águas de todas as tribu­lações.” Além dis­so, com seu hero­ico sac­ri­fí­cio foi esta­b­ele­ci­do o céu estre­la­do, isto é a Igre­ja. Na segun­da idade do mun­do, que vai de Noé a Abraão, a humanidade começou a ofer­e­cer a Deus os sac­ri­fí­cios, assim nes­ta cor­re­spon­dente da Igre­ja os már­tires se ofer­e­cem em sac­ri­fí­cio para teste­munhar a fé católi­ca. A essa idade se adéqua o dom da For­t­aleza.

A Igre­ja de Pérg­amo (Ap. 2, 12–17) é figu­ra do 3º esta­do da Igre­ja, aque­le que de Con­stan­ti­no, o grande e S. Sil­vestre I chega a Car­los Mag­no e Papa S. Leão III (313–800 d. C.). Esta época é aque­la “illu­mi­na­ti­va” dos grandes Padres e Doutores da Igre­ja, que inves­ti­garam e defini­ram os prin­ci­pais dog­mas cristológi­cos e trinitários. O dom do Espíri­to San­to é aque­le do Int­elec­to. No ter­ceiro dia da Cri­ação as águas se reti­raram das ter­ras, assim, graças a Con­stan­ti­no, as águas das perseguições ces­saram de inun­dar a Igre­ja. Começaram além do mais a ger­mi­nar sobre a ter­ra as árvores (os san­tos Doutores), a erva verde (os bati­za­dos) e a dar fru­to as plan­tas (isto é, a Igre­ja começou a pos­suir bens com tran­quil­i­dade para desen­volver a sua mis­são evan­ge­lizado­ra). Em suma, a Esposa de Cristo se embeleza mais pela sapiên­cia de seus Doutores, tam­bém pela aliança esta­b­ele­ci­da com a potes­tade tem­po­ral do Império Romano. A ter­ceira época do mun­do, a qual cor­re­sponde, é aque­la que vai de Abraão a Moisés. Como então os sodomi­tas, depois os egip­cianos e todos os inimi­gos do povo eleito foram der­ro­ta­dos, assim ago­ra a Igre­ja depois do tem­po dos már­tires é con­duzi­da a ter­ra da paz. E como Moisés dá a lei, assim a Cri­stan­dade se deu uma leg­is­lação sacra (Cânones e grandes Con­cílios ecumêni­cos) e civ­il (o Cor­pus de Jus­tini­ano).

A quar­ta condição da Igre­ja a par­tir de Car­los Mag­no e Leão III sumo Pon­tí­fice durou até Car­los V e Leão X[800‑1517], durante a qual flo­resce­r­am muitos san­tís­si­mos Reis, Imper­adores e   Ecle­siás­ti­cos por dout­ri­na e san­ti­dade clarís­si­mas, e não  surge algu­ma here­sia por mais de 200 anos” [800‑1050]. Pelo que essa época é jus­ta­mente chama­da pací­fi­ca e  ilu­mi­na­ti­va.” No quar­to dia o Cri­ador fez o sol, a lua e os astros, assim nes­ta idade pois  no fir­ma­men­to da Igre­ja “pru­den­tís­si­mos e san­tís­si­mos Reis, Imper­adores, Príncipes e home­ns ecle­siás­ti­cos exímios pela vida e  san­ti­dade”. O dom da Piedade é aque­le próprio de tal perío­do, que cor­re­sponde  além do mais a idade do mun­do que de Moisés chega a paz do reino de Salomão com a per­feição no orde­na­men­to do cul­to divi­no.  “Der­ro­ta­dos de fato os tira­nos pagãos,  esma­gadas as trevas dos heréti­cos, se repousou a Igre­ja na per­fei­ta cog­nição da ver­dade da fé católi­ca for­tis­si­ma­mente con­sol­i­da­da e defen­di­da pelo poder dos Príncipes e dos Reis.” É notáv­el a per­cepção que demon­stra o autor nes­tas pági­nas da uni­ci­dade e par­tic­u­lar­i­dade da civ­i­liza­ção cristã medieval como mod­e­lo jamais igual­a­do do Reino social de Cristo.

Depois de ter descrito em segui­da, com sin­gu­lar pro­fun­di­dade psi­cológ­i­ca o lento declínio real­iza­do naque­la civ­i­liza­ção, vemos intro­duzi­da a quin­ta época da Igre­ja. Comen­tan­do os primeiros seis ver­sícu­los do capí­tu­lo III do Apoc­alipse, ded­i­ca­dos a Igre­ja de Sardes, assim se exprime o Ven­eráv­el Holzhauser:“A quin­ta época da Igre­ja começou sob Car­los V Imper­ador e Leão X Sumo Pon­tí­fice entorno do ano 1520. Durará até o Pon­tí­fice San­to e aque­le famoso e poderoso Monar­ca que dev­erá vir no nos­so tem­po e será chama­do “aju­da de Deus”, já que restau­rará cada coisa. Esta época de aflição, des­o­lação, humil­hação e pobreza da Igre­ja, que é jus­ta­mente chama­da “purga­ti­va”, durante a qual Cristo Sen­hor provou e ain­da provará o seu grão por meio de guer­ras assus­ta­do­ras, revoltas, fomes, pestes e out­ros males hor­ríveis. E ain­da: “Este quin­to perío­do da Igre­ja é um perío­do de aflição, perío­do de assas­sínio, de defecção, e pleno de todas as calami­dades, e per­manece­r­am poucos sobre a ter­ra poupa­dos da espa­da, da fome e da peste; reino com­bat­erá reino con­tra reino; enquan­to out­ros, divi­di­dos em si mes­mos, irão se arru­inar; os prin­ci­pa­dos e as monar­quias serão destruí­das e quase todos empo­bre­cerão, e a des­o­lação sobre a ter­ra será máx­i­ma; coisas já cumpri­das em parte e que ain­da devem se cumprir.

A Igre­ja católi­ca, depois do lento out­ono do medie­vo nos sécu­los XVI e XV vê explodir a here­sia luter­ana, que em pouco tem­po e mul­ti­pli­can­do-se em out­ras inu­meráveis seitas, sub­trai grande parte da Europa a ver­dadeira fé, ao Papa­do e ao Império. Para esta quin­ta idade se adap­ta o dom do Con­sel­ho (Con­cílio de Tren­to). A quin­ta época do mun­do, se Salomão a que­da de Jerusalém, com a destru­ição do Tem­p­lo e o cativeiro babilôni­co, lhe é a pre­fig­u­ração. Como, depois da morte de Salomão, parte do povo hebreu defec­cio­nou da monar­quia davídi­ca e da ver­dadeira fé, cain­do na idol­a­tria, assim ago­ra parte dos povos europeus abraçaram a here­sia, enquan­to do exte­ri­or, novo Assur, o Tur­co bate as por­tas. O Império Romano ago­ra está divi­di­do e des­or­ga­ni­za­do por dis­sensões, e existe o grande peri­go, que caia com­ple­ta­mente em ruí­na. No 5º dia Deus pôs sobre a ter­ra répteis e aves, sím­bo­lo, segun­do o autor, daque­la fal­sa liber­dade de con­sciên­cia e religião que é o grande mal do tem­po.

III
O potente Monarca e a
 Restauração (6a época)

A sex­ta época da Igre­ja tem seu começo no potente famoso Monar­ca e no san­to Pon­tí­fice e durará até o nasci­men­to do Anti­cristo. Esta será aque­la da con­so­lação, na qual Deus con­so­lará a sua San­ta Igre­ja das aflições e grandís­si­mas tribu­lações, que dev­e­ria sofr­er no quin­to tem­po. De fato, todos os povos retornarão a unidade e orto­dox­ia católi­ca, e flo­rescerá ao máx­i­mo o grau cler­i­cal e o sac­erdó­cio, e todos os home­ns bus­carão o Reino de Deus e a sua justiça. Deus ver­dadeira­mente dará a eles os seus bons pas­tores, onde então os home­ns viver­am em paz, cada um sob a sua videira e no seu cam­po, já que exi­s­tirá a paz sobre a ter­ra, que o Sen­hor Deus dará então aos home­ns com ele rec­on­cil­i­a­dos sob as asas do potente Monar­ca e dos seus suces­sores.

Esta condição da Igre­ja (a Igre­ja de Filadél­fia do Apoc­alipse, III, 7–13) cor­re­sponde a época do mun­do que vai da restau­ração do Tem­p­lo até o nasci­men­to do Reden­tor sob o Império de César Augus­to. Para além dos para­lelis­mo que o comen­ta­dor inspi­ra­do, fiel ao seu sis­tema, esta­b­elece com a tipolo­gia deduzi­da da Sacra Escrit­u­ra, aqui­lo que ver­dadeira­mente atrai a sua atenção é a figu­ra deste poderoso Monar­ca (o mag­nus Duxdas pro­fe­cias medievais) que será instru­men­to priv­i­le­gia­do empre­ga­do por Deus para resta­b­ele­cer a Igre­ja e a civ­i­liza­ção cristã sobre seus divi­nos fun­da­men­tos: “Assim, Deus no sex­to tem­po con­so­lará a Igre­ja católi­ca com a  maior das con­so­lações, uma vez que, emb­o­ra na quin­ta idade exi­s­ti­ram em todos os lugares as maiores calami­dades, enquan­to tudo está dev­as­ta­do pela guer­ra, os Católi­cos são oprim­i­dos pelos heréti­cos e pelos maus Cristãos, a Igre­ja e os seus min­istros são sub­ju­ga­dos, são sub­ver­tidos os Prin­ci­pa­dos, os Monar­cas são mor­tos e os súdi­tos se rebe­lam, e todos con­spir­am erigin­do Repúbli­cas; todavia, haverá uma mar­avil­hosa mudança oper­a­da pela mão de Deus onipo­tente, que ninguém pode humana­mente imag­i­nar. De fato, aque­le potente Monar­ca, envi­a­do por Deus, que dev­erá vir, destru­irá as Repúbli­cas pelo fun­da­men­to, sub­me­terá cada coisa a si e zelará pela ver­dadeira Igre­ja de Cristo; todas as here­sias serão expe­di­das para o infer­no, o império dos Tur­cos será abati­do e ele reinará no Ori­ente e Oci­dente; todos os povos virão ado­rar o Sen­hor Deus na ver­dadeira fé Católi­ca e con­forme os dog­mas; flo­rescerão muitís­si­mos home­ns jus­tos e doutos sobre a ter­ra, e os home­ns amarão o juí­zo e a justiça; a paz estará sobre toda a ter­ra, já que a div­ina potes­tade vai amar­rar Satanás por muitos anos, etc  até que não ven­ha, aque­le que deve vir, o fil­ho da perdição [o Anti­cristo] quan­do de novo Satanás será  solto,etc.” Nes­ta época feliz da Igre­ja “exi­s­tirá amor, con­cór­dia e uma grandís­si­ma paz, e o potente Monar­ca vis­i­tará quase todo o mun­do como a sua her­ança e o lib­er­ará com a aju­da do seu Sen­hor Deus de todos os inimi­gos, de toda ruí­na e de todo mal.

Comen­tan­do depois o ver­sícu­lo 8 do mes­mo capí­tu­lo do Apoc­alipse, o Ven­eráv­el Holzhauser especi­fi­ca maior­mente as car­ac­terís­ti­cas des­ta feliz época da Igre­ja. A dout­ri­na católi­ca res­p­lan­de­cerá em maneira excel­sa, máx­i­ma na com­preen­são dos tex­tos sagra­dos. Para este fim “será cel­e­bra­do o maior Con­cílio ger­al de todo o mun­do, em que por sin­gu­lar graça de Deus, em vir­tude do poder do Monar­ca, sob a autori­dade do Sumo Pon­tí­fice, e em união com os piís­si­mos Príncipes, toda here­sia e ateís­mo será pro­scri­ta e ban­i­da da ter­ra e o sen­ti­do legí­ti­mo da Sagra­da Escrit­u­ra virá declar­a­do con­tra todas as seitas heréti­cas e pro­pos­to a crer, ao qual se aderirá, ten­do Deus aber­to as por­tas da sua graça.” Além dis­so, um grande número de povos entrará no redil da San­ta Igre­ja, cumprindo-se então aqui­lo que escreve S. João no Cap. 10 do seu Evan­gel­ho: Exi­s­tirá um só pas­tor e um só reban­ho. Grandiosís­si­mo será con­se­quente­mente o número daque­les que se sal­varão e gozarão da bea­ta eternidade no Paraí­so, difer­ente­mente daqui­lo que adveio na quin­ta época quan­do a grege de Cristo era “exígua, vil, despreza­da e humil­ha­da” e durante a qual a maior parte dos home­ns se danavam.

Então, o autor da obra ace­na para aque­les home­ns de excep­cional san­ti­dade de que Deus se servirá para intro­duzir o mun­do naque­le perío­do de tri­un­fo da fé: “ Ao aprox­i­mar o fim dos tem­pos do quin­to perío­do ain­da per­du­rante, sur­girão [aque­les ser­vos de Deus] em mod­i­ca vir­tude [desprovi­dos de car­gos ou autori­dade na Igre­ja, e sem riquezas] e, quan­do os home­ns negarem a fé pelas riquezas, e os min­istros da Igre­ja aban­donarem o celi­ba­to por causa dos praz­eres car­nais e da beleza atra­ti­va das mul­heres, e o dia­bo estiv­er quase solto em toda parte, e uma grandís­si­ma tribu­lação recrude­scer sobre a ter­ra, aque­les  unidos for­tis­si­ma­mente neste tem­po con­ser­varam o seu prin­ci­pa­do e se cus­to­di­aram imac­u­la­dos por este sécu­lo, por isso serão vis para os home­ns e despreza­dos e con­sid­er­a­dos em ludib­rio. Mas a benig­nidade do nos­so sal­vador Jesus Cristo olhará a sua paciên­cia, indús­tria, con­stân­cia e per­se­ver­ança e lhes rec­om­pen­sará nes­ta sex­ta época sus­ten­tan­do os seus esforços na con­ver­são dos pecadores e dos heréti­cos.”

O Últi­mo e séti­mo esta­do da Igre­ja é aque­le do nasci­men­to do Anti­cristo, através de seu domínio sobre o mun­do e a apos­ta­sia ger­al, chega até ao extremo Juí­zo e o fim dos tem­pos. A cari­dade começan­do a esfri­ar-se pouco a pouco sobre o fim da época prece­dente, por causa dos peca­dos da humanidade, vão se preparar as condições para que o Anti­cristo pos­sa oper­ar. No séti­mo dia do mun­do Deus des­can­sou, assim nes­ta séti­ma época da Igre­ja, Jesus Cristo levará a cumpri­men­to a sua obra espir­i­tu­al e se repousará na eternidade do paraí­so com os seus eleitos. A séti­ma idade do mun­do coin­cide com a séti­ma época da Igre­ja, uma vez que, seja o mun­do ou a Igre­ja mil­i­tante sobre a ter­ra, segun­do os decre­tos infalíveis de Deus, devem chegar ao seu fim. O dom do Espíri­to San­to próprio da Igre­ja na séti­ma época é aque­le da Ciên­cia.

 

IV
Ainda sobre o potente Monarca

O autor nos capí­tu­los suces­sivos, inter­pre­tan­do a visão onde aparece o livro com os sete selos (Apoc­alipse, 5–6‑7–8) enriquece ulte­ri­or­mente o esque­ma expos­to prece­den­te­mente. Segun­do o Ven­eráv­el Holzhauser, as visões rev­e­ladas pela aber­tu­ra dos primeiros selos se ref­er­em a even­tos de destaque na Igre­ja dos primeiros sécu­los, respec­ti­va­mente: aque­la do 1º selo a difusão da Igre­ja apos­tóli­ca entre os judeus e os gen­tios, o 2º a primeira perseguição de Nero, o 3º a destru­ição de Jerusalém oper­a­da por Tito, o 4º a ter­rív­el perseguição de Domi­ciano, no 5º estaria ao invés rep­re­sen­tadas as perseguições suces­si­vas, e na 6º visão fina de Dio­cle­ciano, pouco antes da con­ver­são de Con­stan­ti­no, com que se encer­ra a idade dos már­tires.

Com o que­brar-se do lacre do 7º selo, se mostra a S. João uma visão muito mais com­plexa, de que são pro­tag­o­nistas sete anjos que doam a trom­be­ta, o últi­mo dos quais é pre­ce­di­do por um anjo “forte” que desce do céu (Apoc­alipse 10,1).

       Na inter­pre­tação de Holzhauser os primeiros sete anjos rep­re­sen­tam os prin­ci­pais here­siar­cas que se insur­gi­ram con­tra a San­ta Igre­ja, e pre­cisa­mente Ário o 1º, o 2º Macedônio, o 3º Pelá­gio, o 4º Nestório, o 5º O Imper­ador Valente (o maior de todos os defen­sores da here­sia ari­ana) e no 6º, enfim, Mar­t­in­ho Lutero, a quem é ded­i­ca­do um lon­go e cir­cun­stan­ci­a­do comen­tário dos ver­sícu­los 13–20 do cap. 9 do tex­to sacro.

Antes de con­cluir a exegese des­ta visão, ded­i­ca­da a figu­ra, ao reino e a der­ro­ta do Anti­cristo, com o séti­mo anjo que soa a trom­be­ta anun­cian­do o Juí­zo final, o pio escritor retor­na a falar do tema a ele caro, a Restau­ração da Igre­ja na sex­ta época com o grande Monar­ca, no comen­tário ao capí­tu­lo X do Apoc­alipse focal­iza­do sobre o forte Anjo que desce do céu.

O espíri­to angéli­co, segun­do o comen­ta­dor, além de rep­re­sen­tar em figu­ra o poderoso restau­rador que deve vir, é tam­bém um “um ver­dadeiro anjo e de natureza prestantis­si­ma, ou seja, o anjo da guar­da e o pro­te­tor do Império Romano”. Este anjo rev­ela então ao Vidente de Pat­mos novos par­tic­u­lares sobre o grande instru­men­to que Deus escol­heu para reparar os estra­gos da sociedade após­ta­ta e cor­rup­to­ra: ele “será – em primeiro lugar – com­ple­ta­mente con­trários aos suprac­i­ta­dos hereges [os protes­tantes] e ao seu here­siar­ca [Lutero];obser­vará a sã dout­ri­na, e zelará sobre­tu­do somente pela orto­doxa fé Católi­ca, depois de ter humil­ha­do e abati­do os heréti­cos por mar e ter­ra; terá tam­bém san­tos e retos cos­tumes, e maior­mente se servirá no restau­rar a fé e a dis­ci­plina ecle­siás­ti­ca, que o ímpio here­siar­ca [Lutero] com os seus infames satélites dis­solveu.

Será forte na guer­ra e abaterá a qual­quer coisa como um leão e, grandís­si­mo pelas vitórias con­seguidas, reforçara a sua autori­dade, e assim viverá muitís­si­mos anos, e humil­hará os heréti­cos, as repúbli­cas e sub­me­terá todos os povos ao seu poder e àquele da Igre­ja Lati­na; abaterá além dis­so, o Império dos Tur­cos (lançara no infer­no a sei­ta maometana) até restar-lhe um pequeno reino, que per­manecerá, mas sem poder, até a vin­da do fil­ho da perdição [o Anti­cristo].

O restau­rador “nascerá do seio da Igre­ja Católi­ca, será envi­a­do por Deus, e foi pre­des­ti­na­do pela div­ina providên­cia espe­cial­mente para con­so­lar e exal­tar a Igre­ja Lati­na então aflitís­si­ma e grande­mente desmo­ti­va­da…” Este Monar­ca será assaz humilde e des­de a ado­lescên­cia cam­in­hará na sim­pli­ci­dade de coração […] Por isso [pela sua humil­dade] ninguém poderá lhe causar dano ou resi­s­tir-lhe…”. “De fato, estir­pa­dos os heréti­cos, as super­stições dos pagãos e dos Tur­cos, exi­s­tirá um só Pas­tor e um só reban­ho, e todos os príncipes se con­fed­er­aram com ele com o estre­itís­si­mo vín­cu­lo da fé católi­ca e da amizade, já que tornará cada um o seu e nen­hum deles oprim­irá injus­ta­mente…” “Assim, o poder deste Monar­ca será total; o seu reino, de fato, será o sus­ten­to fir­mís­si­mo da casa, isto é, da Igre­ja Católi­ca, e da sua dinas­tia real, uma vez que esta­b­ele­cerá o seu reino para os seus descen­dentes (até a apos­ta­sia ger­al quan­do se rev­e­lará o fil­ho da perdição [o Anti­cristo] e o seu poder res­p­lan­de­cerá pelo zelo da religião e da cari­dade para com Deus e o próx­i­mo, e como o fogo sub­mete cada coisa, assim ele fará.”

Segun­do o Ven­eráv­el, o Monar­ca se servirá, novo Con­stan­ti­no, sob a autori­dade do Sumo Pon­tí­fice, no favore­cer e pro­te­ger um Con­cílio ecumêni­co, que resta­b­ele­cerá na sua pureza a dout­ri­na católi­ca. Com os seus édi­tos man­dará, além do mais, que todos os povos se sub­metam as delib­er­ações da san­ta assise. Todavia, exi­s­tirão aque­les que não irão quer­er obe­de­cer as suas ordens e bus­carão golpeá-lo, já que “o seu reino e a propa­gação da ver­dadeira fé não se fir­maram sem barul­ho e con­fusão […] delib­er­aram de resi­s­tir-lhe e abatê-lo, mas uma vez que este Monar­ca será pro­te­gi­do por Deus, como se disse, tudo isto não lhe causará nen­hum dano.”

 “Exi­s­tirá uma grande agi­tação […] ver­dadeira­mente esta obra de Deus [a restau­ração da civ­i­liza­ção católi­ca]não pro­ced­erá sem grandes difi­cul­dades, resistên­cias e sem o sangue dos már­tires, já que sem­pre o mun­do, a carne e o dia­bo resi­s­ti­ram e resi­s­ti­ram as obras de Deus […] e esta con­fusão será movi­da ini­cial­mente pelas potes­tades tem­po­rais, que resi­s­ti­ram com as armas ao Monar­ca e perseguirão aque­les que andam a con­vert­er os povos a fé católi­ca, a qual dito Monar­ca ordenará de pre­gar e abraçar em todos os lugares.”

O resta­b­elec­i­men­to da dout­ri­na e da dis­ci­plina na Igre­ja tam­bém não será fácil: se terá “grande difi­cul­dade entre a classe ecle­siás­ti­ca, quan­do viram com­ple­ta­mente ban­idos os praz­eres venére­os, a idol­a­tria do ouro e da pra­ta, e a vida ociosa.”

 

V
5a época e Revolução

O Ven. Holzhauser col­heu per­feita­mente, descreven­do o quin­to esta­do da história ecle­siás­ti­ca, car­ac­ter­i­za­do pelo nasci­men­to e pela difusão da here­sia luter­ana e dos erros por essa pro­mana­dos, a uni­ci­dade e sub­stan­cial unidade daque­le proces­so históri­co-mundi­al de descris­tian­iza­ção, que, ten­do começa­do exata­mente no Sécu­lo XVI, foi jus­ta­mente definido a Rev­olução.

No inte­ri­or desse proces­so históri­co podem cer­ta­mente indi­vid­uar-se eta­pas que lhe con­tradis­tinguem ana­liti­ca­mente e crono­logi­ca­mente o desen­volvi­men­to (o protes­tantismo, a rev­olução france­sa, o comu­nis­mo, a crise neo-mod­ernista da Igre­ja con­cil­iar). Todavia, a rev­olução deve ser con­sid­er­a­da, e é esta uma das suas notas mais impor­tantes, como um blo­co úni­co.

Ensi­na, por exem­p­lo, Leão XIII, “Aque­le deploráv­el e funesto espíri­to de novi­dade que surgiu no sécu­lo XVI, lev­ou primeira­mente a sub­ver­são da religião, pas­sou depois nat­u­ral­mente des­ta ao cam­po filosó­fi­co, e então para todas as ordens da comu­nidade civ­il.” E ain­da, na Diu­tur­num de 29 de jun­ho de 1881: “Foi da Refor­ma que nasce­r­am, no sécu­lo pas­sa­do, a fal­sa filosofia e aqui­lo a que se dá o nome de dire­ito mod­er­no, bem como a sobera­nia do povo e que des­en­cadeou a licen­ciosi­dade, sem a qual muitos já não sabem dis­tin­guir a ver­dadeira liber­dade”.

Pio XII, indi­can­do a essên­cia satâni­ca do proces­so rev­olu­cionário, acres­cen­ta: “Nestes últi­mos sécu­los [o inimi­go da Igre­ja, o demônio] ten­tou oper­ar a desagre­gação int­elec­tu­al, moral, social, da unidade do organ­is­mo mis­te­rioso de Cristo. Quis a natureza sem a graça; a razão sem a fé; a liber­dade sem a autori­dade; às vezes a autori­dade sem a liber­dade. É um ‘inimi­go’ que se tornou sem­pre mais con­cre­to, com uma cru­el­dade que nos deixa ain­da atôni­tos: Cristo sim, Igre­ja não [fase protes­tante]. Depois: Deus sim, Cristo não[racional­is­mo do sécu­lo XVIII]. Final­mente o ímpio gri­to. Deus está mor­to; e, até: Deus jamais exis­tiu[comu­nis­mo ateu e agnos­ti­cis­mo atu­al].”

Se o protes­tantismo, de fato, pode ser definido a eta­pa reli­giosa da rev­olução, os mes­mos fal­sos princí­pios que lhe der­am a luz (igual­i­taris­mo e lib­er­al­is­mo) se re-encon­tram tam­bém na sua fase “políti­ca” (rev­olução de 1789) com a sua apli­cação na esfera tem­po­ral da civ­i­liza­ção cristã.

O comu­nis­mo, por sua vez, III eta­pa da Rev­olução, não fez que difundir aque­les erros na esfera social, erros que depois, pen­e­tra­dos no próprio seio da Igre­ja católi­ca, sobre­tu­do a par­tir do Con­cílio Vat­i­cano II, lhe lançaram no ter­rív­el cli­ma atu­al.

A rev­olução, então, “satâni­ca na sua essên­cia”, tem dis­tin­gui­do e car­ac­ter­i­za­do, para além dos momen­tos de êxtase ou de estratég­i­ca reti­ra­da, uma época da história do Oci­dente cristão, a 5a idade de Holzhauser.

Esta época, se não se con­cluiu ain­da de um pon­to de vista mera­mente cronológi­co, aparece ao con­trário final­iza­da ao menos sob o aspec­to lógi­co-analíti­co. Depois da eta­pa da atu­al gravís­si­ma crise reli­giosa neo-mod­ernista, pare­ce­ria per­fi­lar-se ago­ra só a satanista, com a abom­i­nação da des­o­lação, isto é, com o reino do Anti­cristo que quer­erá faz­er-se pas­sar pelo ver­dadeiro Mes­sias e pre­tenderá ser ado­ra­do como Deus. Mas estes even­tos, segun­do Holzhauser e muitos out­ros, como se viu ante­ri­or­mente e se verá em segui­da, são pre­vis­tos ape­nas para a últi­ma e sete idade da Igre­ja, aque­la con­clu­si­va, que dev­erá ser pre­ce­di­da por um grande reflo­resci­men­to da ver­dadeira religião.

 

VI
O Império Romano e o Islã

O 6º e con­clu­si­vo livro da Inter­pre­ta­tio – infe­liz­mente per­maneceu inacaba­do – é ded­i­ca­da a exegese dos capí­tu­los XII, XIII, XIV e XV do Apoc­alipse, comen­tan­do os quais o autor tem o modo de desen­volver maior­mente o seu sis­tema, em par­tic­u­lar naqui­lo que diz respeito ao acon­tec­i­men­to prov­i­den­cial do Império Romano, ou seja, do poder tem­po­ral a serviço da Igre­ja.

O demônio, como se sabe, é simia Dei, o maca­co de Deus, imi­ta, isto é, para o mal e com o fim mal­va­do as obras de Deus. Ao ver­dadeiro Cristo, Homem-Deus e nos­so Reden­tor Jesus, con­trapõem o Anti­cristo, a ver­dadeira Igre­ja de Cristo, Católi­ca Apos­tóli­ca Romana, a fal­sa Igre­ja das here­sias e aque­la con­cil­iar neo mod­ernista atu­al. Assim, tam­bém ao seu reino social, o Império Romano, o dia­bo usa uma mesquin­ha con­fratação. Segun­do Holzhauser, esta cópia feia do reino social de Cristo, é o Islã.

O Islã tem uma mis­são prov­i­den­cial, se bem que neg­a­ti­va, a realizar, que atrav­es­sa toda a história da Igre­ja, como encar­nação do reino anti­so­cial do demônio. O Islã é de fato, o “inimi­go implacáv­el e hered­itário” do cris­tian­is­mo, “e bem que a sua força em con­so­lação da Igre­ja, ás vezes, deva ser aniquila­da, todavia per­manecerá algum reino seu, a fim de que não ven­ha o fil­ho da perdição, que o ressus­ci­tará e sarará a sua feri­da [feri­da pelo grande Monar­ca da 6a época] e ele entrará e sub­me­tera a muitís­si­mos reinos e por últi­mo reinará e com ele Lúcifer levará a cumpri­men­to o seu furor.”

A história das relações entre a Igre­ja de Cristo, o seu reino social (o Império Romano) e o islamis­mo é vista pelo comen­ta­dor como uma con­tin­ua e implacáv­el guer­ra, que não terá fim se não com a con­clusão da história: uma guer­ra “a mais cru­el, a mais ter­rív­el e longuís­si­ma, com que o Príncipe das trevas Lúcifer, se fos­se pos­sív­el, destru­iria a Igre­ja.”

As vicis­si­tudes des­ta guer­ra são sim­boli­ca­mente rev­e­ladas, segun­do o Ven­eráv­el, na céle­bre visão da Mul­her envol­ta no sol e na lua sob os seus pés do capí­tu­lo XII do Apoc­alipse: “Apare­ceu em segui­da um grande sinal no céu: uma Mul­her revesti­da do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estre­las.Esta­va grávi­da e gri­ta­va de dores, sentin­do as angús­tias de dar à luz. Depois apare­ceu out­ro sinal no céu: um grande Dragão ver­mel­ho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Var­ria com sua cau­da uma terça parte das estre­las do céu, e as atirou à ter­ra. Esse Dragão deteve-se diante da Mul­her que esta­va para dar à luz, a fim de que, quan­do ela desse à luz, lhe devo­rasse o fil­ho. Ela deu à luz um Fil­ho, um meni­no, aque­le que deve reger todas as nações pagãs com cetro de fer­ro. Mas seu Fil­ho foi arrebata­do para jun­to de Deus e do seu trono. A Mul­her fugiu então para o deser­to, onde Deus lhe tin­ha prepara­do um retiro para aí ser sus­ten­ta­da por mil duzen­tos e sessen­ta dias.” (Ap. 12, 1–6)

Segun­do o pio intér­prete na mul­her ameaça­da pelo dragão se deve recon­hecer primeira­mente a Igre­ja mil­i­tante e, secun­dari­a­mente, a Monar­quia uni­ver­sal do Império Romano, que estará sem­pre em luta con­tra o dragão ver­mel­ho, isto é, o demônio e seus acól­i­tos. Naqui­lo que diz respeito ao fil­ho macho que a Mul­her dá a luz, acres­cen­ta:

Este enig­ma da mul­her, em tra­bal­ho de par­to, se ref­ere não a um só, mas a mais tem­pos, durante os quais Deus sus­ci­tará sem­pre home­ns, isto é, Imper­adores, Reis e Príncipes, que defend­er­am a Igre­ja e o Império Romano, a fim de que esta besta cru­en­ta não lhe devore de todo.

O dragão ver­mel­ho, de fato, a besta seden­ta de sangue, que ameaça a Mul­her-Igre­ja, é na sua históri­ca man­i­fes­tação o Império Maometano, ou tur­co, qual besta fortís­si­ma não ces­sa por dia­bóli­co instin­to de perseguir os cristãos, com “o úni­co fim de exter­mi­nar a Cri­stan­dade e o Império Romano”.

O Império Romano, depois da con­ver­são de Con­stan­ti­no e o fim das perseguições, foi defin­i­ti­va­mente adquiri­do pela Igre­ja, e é o seu reino social. Claro que isso, div­ina­mente insti­tuí­do e, segun­do a promes­sa do seu Divi­no fun­dador, pela sua natureza inde­fec­tív­el, não tem neces­si­dade abso­lu­ta, no desen­volvi­men­to de sua mis­são sobre­nat­ur­al, da colab­o­ração com o poder tem­po­ral, como demon­stra a história do cris­tian­is­mo dos primeiros sécu­los, e como provam tam­bém nestes últi­mos tem­pos, que viram o pro­gres­si­vo aba­ti­men­to do Reino social de Cristo, com o desa­parec­i­men­to do Sacro Império (1806) legí­ti­mo herdeiro e con­tin­uar daque­le Romano, das prin­ci­pais monar­quias e Esta­dos católi­cos, até a que­da do Império Hab­s­bur­go em 1918, em que o últi­mo Sober­a­no, o Imper­ador e Rei Car­los (1883–1922) foi ain­da o últi­mo a ser con­sagra­do e ungi­do pela Igre­ja more antiquo, como Rei Apos­tóli­co da Hun­gria (1916).

Se o Império Romano é o reino social de Cristo, tam­bém o dia­bo quis cri­ar para si  o seu anti-reino. A primeira man­i­fes­tação deste fal­so domínio de Satanás o Autor recon­hece no Império per­sa de  Cos­roes, que, depois do nasci­men­to e difusão da Igre­ja, foi o primeiro pagão a con­quis­tar a Síria, Jerusalém e os Lugares San­tos,  onde tam­bém tomou  a madeira da San­ta Cruz. A Mul­her-Igre­ja, porém, dá a luz um homem, isto é o Imper­ador Erá­clio, que em 628 der­ro­ta em uma mem­o­ráv­el batal­ha os per­sas, recu­per­ou a ver­dadeira Cruz e recon­quis­tou momen­tanea­mente Jerusalém. Erá­clio, todavia, caiu depois na here­sia monotelita, foi aban­don­a­do por Deus, e o seu reino ter­mi­nou mis­er­av­el­mente. O ver­dadeiro anti-reino do demônio nasce dali a pouco e foi aque­le fun­da­do por Maomé, que per­manecerá até o reino do Anti­cristo, como já se ace­nou.

A con­se­quên­cia mais grave que se acom­pan­hou a difusão do Islã, foi a que­da da “terça parte das estre­las do céu” isto é, da Igre­ja ori­en­tal, em punição do seu espíri­to cis­máti­co, que foi aban­don­a­da nas mãos dos muçul­manos e que perde tam­bém a coroa impe­r­i­al, com a toma­da de Con­stan­tino­pla por parte dos tur­cos em 1453. Por isso a Mul­her-Igre­ja se cer­cou de uma nova sede e “fugiu para o deser­to”, ao que Holzhauser comen­ta: “Uma vez que Deus viu que a condição dos Cristãos e do próprio Império do Ori­ente, pelos peca­dos e malí­cias dos home­ns, não teria podi­do sub­si­s­tir diante da besta que esta­va para sur­gir [o Islã], e que a própria fé católi­ca cor­ria o risco de se obscure­cer pouco a pouco por causa da sua sober­ba e arrogân­cia con­tra a Sé Romana por muitos tene­brosos erros, here­sias e cis­mas, trans­feri sua Igre­ja, e pouco depois tam­bém o Império Romano para a Ale­man­ha, que jazia ain­da em grande parte sepul­ta no erro do pagan­is­mo e ado­ra­va os ído­los.

A Ale­man­ha e em ger­al a Europa Oci­den­tal é pre­cisa­mente o “deser­to” onde a Mul­her-Igre­ja bus­ca e encon­tra refú­gio. Depois da con­ver­são daque­les povos, pelo zelo e o martírio de muitos san­tos, aque­las pla­gas mere­ce­r­am se tornar a nova sede do Império Romano. E então o fil­ho homem a que deu a luz a mul­her é sobre­tu­do Car­los Mag­no, que “a Igre­ja deu a luz no ano 800, erguendo‑o ao Império Romano, primeiro imper­ador de estirpe alemã, que de modo mar­avil­hoso aju­dou, exal­tou, enrique­ceu, defend­eu, e dila­tou a Igre­ja Lati­na e Oci­den­tal.” Desse modo, Holzhauser recon­hecei da Trasla­tio Imperi do Ori­ente ao Oci­dente, e da estirpe gre­ga àquela alemã, nestes céle­bres ver­sícu­los do Apoc­alipse. Além dis­so, segun­do o mes­mo autor, esta traslação é irrevogáv­el, uma vez que em Car­los Mag­no, recon­heci­do ain­da na magna Águia do ver­sícu­lo 14 do mes­mo capí­tu­lo, o Império Romano “foi trans­feri­do aos Alemães, como serão todos os Imper­adores, até ao últi­mo, que dev­erão reinar.”

 “Assim a Igre­ja de Cristo fug­in­do do Ori­ente da face da ser­pente, pôs o seu nin­ho no Oci­dente, e ger­ou para Deus mil mil­hares para a vida eter­na, segun­do o bene­plác­i­to do Pai por meio do seu Fil­ho Jesus esta­b­ele­ci­do na eternidade […] Desse modo, a Igre­ja de Cristo terá no Oci­dente a liber­dade de pro­fes­sar sem­pre a fé católi­ca ‘com as asas da grande águia’ isto é, graças a potes­tade e a pro­teção do Império Romano, com quem sem­pre voará, e pos­suirá o seu nin­ho, para con­duzir o cumpri­men­to da sua ger­ação segun­do o bene­plác­i­to de Deus; todos os imper­adores até ao últi­mo ver­dadeira­mente serão católi­cos.”

 

VII
O Santo Pontífice e o 
estado sacerdotal na 6a época

No fim do seu comen­tário ao Apoc­alipse, ded­i­ca­do em sua maior parte a descrição do últi­mo tem­po da Igre­ja, isto é, àquele do Anti­cristo, o Ven­eráv­el, todavia, acred­i­tou entr­ev­er em alguns out­ros  ver­sícu­los não equívo­cas alusões a restau­ração da sex­ta época, por aqui­lo que em par­tic­u­lar diz respeito a condição do clero.

Os ver­sícu­los 6 e 7 do capí­tu­lo 14 do Apoc­alipse falam de um anjo que voa no meio do céu um anjo eter­no “de evan­ge­lizar a quan­tos tem sede sobre a ter­ra e a toda nação, tri­bo, lín­gua e povo.” O espíri­to celeste gri­ta a grande voz: “Temeis a Deus e dai-lhe glória, porque é vin­da a hora do seu juí­zo e ado­rais aque­le que fez o céu e a ter­ra…”

A pre­gação deste anjo – escreve Holzhauser – deve se referir a dois tem­pos: o primeiro será quan­do as pes­soas, os povos as lín­guas e os Reis retornarem a fé católi­ca […] e na exe­cução dis­so a classe apos­tóli­ca dos sac­er­dotes aju­dará grande­mente a Igre­ja, como tam­bém na con­ver­são ao Sen­hor Deus dos pecadores por meio de uma ver­dadeira pen­itên­cia, e isto acon­te­cerá antes que a besta (o império tur­co [o Islã] rece­berá a feri­da, e cairá pela primeira vez a Babilô­nia, ou seja, o reino dos gen­tios.” O segun­do momen­to se ref­ere a ulti­ma pre­gação depois da que­da do Anti­cristo

O anjo então avis­ta­do por S. João no meio do céu com o Evan­gel­ho eter­no “é a classe sac­er­do­tal (ou mel­hor, o próprio S. Miguel em sua pes­soa) que nos últi­mos tem­pos segun­do o bene­plác­i­to de Jesus Cristo seu fun­dador flo­rescerá, e cri­ará as penas, e penas se acres­cen­taram a penas, e se for­maram as asas e sur­girá e pro­gredirá e se erguerá e voará no meio do céu”, ou seja, no meio da Igre­ja mil­i­tante, “que adornará e ale­grará com a sua san­ta e apos­tóli­ca pre­sença.”

A futu­ra extir­pação da here­sia: assim se inti­t­u­la o pará­grafo que con­tém o comen­tário aos ver­sícu­los 14–20 do XIV capí­tu­lo. Este tra­ta de uma visão, que tem por pro­tag­o­nista um “fil­ho do homem” coroa­do e sen­ta­do sobre uma “cân­di­da nuvem” com uma foice na mão. Um anjo, que desce do tem­p­lo, o apos­tro­fa a grande voz, gri­tan­do-lhe para usar a foice, porque o tem­po da col­hei­ta é ago­ra chega­do, “e a ter­ra foi ceifa­da.”

Nes­ta imagem da col­hei­ta o comen­ta­dor recon­hece “a futu­ra extir­pação e destru­ição dos heréti­cos e dos povos tur­cos, que acon­te­cerá sob aque­le grande Monar­ca que deve vir e o San­to Pon­tí­fice, já que, ain­da uma vez mais, Deus con­so­lará a sua Igre­ja, antes que chegue o tem­po das trevas, pleno de escuridão, que será a extrema tribu­lação do Anti­cristo.

Aque­le que sen­ta, de fato, sobre a cân­di­da nuvem, “é o forte Monar­ca, já que o seu reino, indi­ca­do pelo ver­bo ‘sen­tar’, será san­to, e esta­b­ele­ci­do pela pro­teção do Deus Altís­si­mo.” Ele é definido fil­ho do “homem”, “pela sim­i­lar­i­dade das grandes e árd­uas vir­tudes, com que imi­tará o seu sal­vador Jesus Cristo; será de fato, humilde, man­so, ver­az, amante da justiça, forte na guer­ra, sapi­ente, e zelador da glória div­ina; se cumpri­ram nele em um cer­to modo as palavras de Isaías que dizem respeito ao Mes­sias no cap. XI: Repousará sobre ele o espíri­to da sapiên­cia, do int­elec­to, espíri­to de con­sel­ho, e for­t­aleza, espíri­to de ciên­cia e piedade, e o Espíri­to do temor do Sen­hor o preencherá.” Ele aparece coroa­do “uma vez que, será um grande Rei, rico e poderoso, e será o Sen­hor dos Sen­hores, vencerá os Reis das gentes, e será reple­to da cari­dade de Deus.

A foice que tem na mão, ao invés, “é o seu grande e fortís­si­mo exérci­to, com que transpas­sará os reinos das gentes, e as repúbli­cas, e as cidades for­ti­fi­cadas […] e nen­hu­ma batal­ha será sem morte de inimi­gos ou sem vitória.” O Con­du­tor tem em pun­ho a foice, isto é, o seu poderoso exérci­to, e o diri­girá, como ocor­reu com Alexan­dre Mag­no, onde quis­er, e será per­feita­mente obe­de­ci­do, os seus sol­da­dos grande­mente o ama­ram, e oper­aram grandes, estu­pen­das e mar­avil­hosas empre­sas.

Quem inci­ta o Monar­ca a guer­ra é o anjo que desce do tem­p­lo. “É o famoso grande Pon­tí­fice, que Deus sus­ci­tará naque­les dias, e que por inspi­ração div­ina exor­tará e induzirá o Monar­ca a cumprir aque­la guer­ra sacra. A sua voz estri­dente é aque­la “de quem exor­ta com veemên­cia a guer­ra, ou seja, a erradicar o joio dos heréti­cos e dos tur­cos. […] Ple­na é a medi­da dos peca­dos e das abom­i­nações – gri­tará – pelo que vem, e é ago­ra o tem­po de dilac­er­ar e erradicar-lhes da ter­ra. E isto o Pon­tí­fice con­hecerá pela div­ina rev­e­lação, pelo que exi­tará os corações dos Príncipes e lhes con­fir­mará a inter­vir na guer­ra, Deus exci­tará os corações dos sol­da­dos, que se unirão por um mes­mo espíri­to ao forte Monar­ca.”